quarta-feira, 12 de junho de 2019

Pior 11, melhor jogo.

Sou partidário da ideia de que os melhores devem jogar sempre! É com os melhores que estaremos sempre mais próximos da vitória, porque embora qualidade não seja sempre sinónimo de resultados, é através dela que eles chegam mais vezes. E quando os melhores não formam a melhor solução, das duas uma: Ou estamos claramente equivocados na catalogação dos melhores ou, por outro lado, quem comanda o colectivo não sabe muito bem o que fazer com os verdadeiramente melhores.

E é partindo daqui que me proponho a perceber o porquê de a Seleção Nacional ter apresentado melhor qualidade de jogo na final da Liga das Nações do que no primeiro jogo da fase final da mesma prova.

Detendo-me nas duas alterações "não forçadas" promovidas por Fernando Santos no 11 inicial, decorridas entre o primeiro e segundo jogo e à luz dos dias de hoje, parece-me pacifico dizer que Rúben Neves e João Félix são claramente melhores jogadores que Danilo e Gonçalo Guedes, respectivamente. Excluindo aspectos físicos, seja qual for o prisma de analise, Rúben e Félix estão uns bons patamares acima dos seus substitutos, não havendo quase comparação entre eles. Seja a nível técnico, seja ao nível da decisão, compreensão e velocidade de percepção do que os envolve, os dois primeiros são isso mesmo: primeiríssimos em tudo, face aos outros. Todavia, a substituição de uns por outros, resultou numa clara melhoria de jogo da equipa na partida frente à Holanda, face ao que havia acontecido frente à Suiça. 

Aqui chegados, sobra a pergunta: Como jogamos melhor com "piores" interpretes? Em tese, existe aqui um contrassenso enorme, porém e se analisarmos em contexto, esta relação faz todo o sentido, já que, num contexto em que cada individualidade dá o que sabe, ter Danilo e Gonçalo entre escolhas como William e Bernardo, cria mais variabilidade de soluções por si só, do que lhes juntar Rúben e Félix. 

O que há de comum entre Bernardo, William, Rúben e Félix? Quase tudo. São todos jogadores que, por "instinto", procuram sempre dar soluções em apoio, soluções interiores e raramente o contrário disto, ou seja, soluções de roptura e largura. Isto é, todos juntos e sem funções claramente atribuídas, sem referências claras de "como", "quando" e "para onde", tendem a fazer várias vezes o mesmo, deixando assim o colectivo cair na previsibilidade, por via da monotonia na resolução dos problemas que surgem. E o primeiro jogo não foi nada menos que isto: Previsível e monótono. A seleção helvética, nunca teve grandes duvidas do que iria o colectivo Português fazer em cada momento, sendo-lhes assim muito fácil espremer os espaços entre sectores e, com isso, retirar área de manobra às nossas unidades mais criativas, como o são precisamente Rúben, William, Bernardo e Félix. E Portugal nunca soube sair disto, porque nunca teve quem desse assiduamente soluções de ruptura que obrigassem a última linha Suiça a reagir e, com isso, alargar distâncias entre sectores e entre jogadores.

No primeiro jogo, mais do que manietado pelo adversário, Portugal esteve inoperante por si só, por não ter definido quem faz o quê e quando. Foram incontáveis os momentos em que o colectivo se encontrava claramente perdido e sem  saber muito bem o que fazer. Não foi o adversário que defendeu superiormente, nós é que nunca soubemos atacar convenientemente, apesar da obscenidade de qualidade individual presente a nosso favor. 

Por oposição, a partida frente à Holanda, trouxe-nos um Portugal muito mais fluído e capaz de chegar a zonas de finalização com perigo, exactamente por existir um maior leque de possibilidades de ameaça, o que obrigou a Seleção laranja a reagir a diferentes estímulos, provocando assim maiores dúvidas e, por essa via, mais espaços. 

Se observarmos Gonçalo Guedes, percebemos que, apesar das notórias debilidades técnicas, se trata de um jogador que procura acelerar... Sempre (e daqui nascem os seus colossais erros de decisão). Não analisa o contexto, não tenta perceber o que tem e o que lhe dão e depois decidir em função disso, não. Acelera e ponto. Isto em tese é péssimo, porém, e repisando a ideia de que cada um dá o que instintivamente sabe, ter este tipo de jogador enquadrado num colectivo em que as melhores unidades jogam instintivamente em apoio, percebemos que mesmo mal escolhidos os momentos para acelerar (seja com ou sem bola), isto cria uma solução disruptiva com as demais e torna o leque de ameaça colectiva maior.

Como é óbvio, mesmo que gostemos de um jogo apoiado, há que entender que os movimentos de ruptura são essenciais até para que esse tipo de jogo tenha sucesso, porque é sempre mais difícil defender 2 tipos de ameaça que apenas um. E um potencia claramente o outro. Se reagem ao apoio, vamos na profundidade, se reagem a esta, vamos no apoio. Ter só um deles é sempre pobre e levará, inevitavelmente, ao insucesso. O mesmo se passa em zonas interiores do bloco adversário, isto é, ter soluções de passe verticais, em apoio e largura, para que o adversário tenha de optar qual delas defender. E nisto tudo é essencial ter os melhores, para que saibam o que escolher em cada momento e o que fazer com o que o adversário dá. 

Pode-se sempre argumentar que como Gonçalo (ou Rafa, dentro do mesmo estilo) é rápido, será sempre melhor a atacar a profundidade que outro qualquer, porém, "basta" que os momentos para sair em profundidade estejam identificados e trabalhados, qualquer jogador será capaz de o fazer e, pelo menos, criar essa dúvida no adversário. Uma das mentes mais brilhantes que fala sobre o jogo em Portugal, Blessing Lumueno, tem uma frase lapidar sobre isto: "Sozinhos vamos mais rápido, juntos vamos mais longe". 

Podemos também dizer que este tipo de trabalho é muito mais difícil de levar a cabo numa Selecção, onde o tempo de treino é muito diminuto, do que num clube, o que é verdade. Porém, achar compreensível que um seleccionador não tenha uma ideia clara e trabalhada ao fim de quase 5 anos de trabalho, também me parece demasiado benevolente. 


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