Acabei de ver o programa Debate, na Benfica TV. Mais uma vez sobre a blogosfera, com quatro convidados - o JG, do Redpass; o Fialho, do Vedeta da Bola; o João Tomaz, do Benfiquistas desde pequeninos e um tal de Paulo Silva, do Avante p´lo Benfica. Como no anterior, em que Pedro Ferreira sustentou todo o programa (pelo menos do ponto de vista do interesse de opinião), desta vez coube a JG a função de levar o programa para fora do âmbito da banalidade. E muito bem.
É sempre bom quando assistimos a gente interessada em debater os assuntos do clube, sem amarras nem pretensões a mais do que simplesmente dar a sua opinião sobre temas que muitas vezes são relegados para segundo plano, perdidos que andamos todos em culpar os insucessos do clube com os árbitros apoiados pelo homem que inequivocamente é apoiado pelo nosso Presidente. Espera, há aqui algo que não bate certo. Então nós criticamos quem domina o futebol português, mas apoiamos quem apoia inequivocamente uma das cabeças mais importantes do sistema? O benfiquismo tem razões transcendentes. Deixemo-lo assim, por agora.
Ao tal Paulo Silva, ouvi pouco, quase não falou. Mas chegou-me a ideia principal que trouxe à mesa de conversações: está na blogosfera para dizer bem; mal, diz entre amigos. É uma ideia curiosa, esta, e muito difundida por aí. É como se a blogosfera fosse a nossa mulher e nós uns beatos religiosos. Em casa, à missionário e baixinho para não acordar as crianças; fora, vai-se às putas e comem-se rapazinhos de 5 anos. Louve-se a capacidade que estes benfiquistas têm de se dividrem em vários: o benfiquista de casa, o benfiquista da blogosfera, o benfiquista da rua, o benfiquista do trabalho, o benfiquista do metro, o benfiquista do parque, o benfiquista da montanha e o benfiquista do mar. Venha Enid Blyton fazer uma saga que isto tem tudo para vender aos magotes.
Depois João Tomaz e a sua tranquilidade desarmante. É um bom conversador e - por já o ter conhecido pessoalmente posso afirmá-lo - um bom benfiquista. Mas há uma excessiva diplomacia ali que não colhe, para mim, grandes votos - um estar bem com tudo e todos, quando há assuntos que exigem outro tipo de abordagem, não necessariamente agressiva, mas assertiva e frontal. Vejo Tomaz na Direcção do Benfica daqui a uns aninhos. E, tendo em conta quem lá está hoje, não virá mal ao mundo.
Sobre Fialho, o que dizer? Estava ali como capanga da conversa. Sempre que a coisa entornava para uma crítica, lá aparecia o defensor-mor do castelo, com a sua falinha mansa, o seu aparte, o seu "olhe que", o seu "por outro lado...", aquele jeito de quem consegue escrever ao mesmo tempo que Oliveira é um dos rostos claros do sistema e depois vir dizer que afinal é apenas um homem de negócios com quem o Benfica deverá negociar e ao qual devemos uma série de coisas. O Fialho já está para lá de afialhar-se. O Fialho é o Fialho. Uma série de banalidades, defesa do regime e um afastar de responsabilidades e ambições. Para ele, diz-nos no programa, fundamental é escrever de livre vontade, sem pretensões. E os camarotes, pá?
Por fim, JG. Não fosse ele e não teria ficado tanto tempo a assistir ao programa. Tocou em pontos fundamentais, de frente, sem curvas, disse o que pensava e foi coerente com o que tem vindo a escrever há muito tempo. Abordou a questão da incompetência na comunicação e no marketing e sobretudo refutou a ideia de que no Benfica se dá uma verdadeira importância ao que se passa de qualidade na blogosfera. Não dá e JG defendeu, bem, que, por exemplo, no Sporting se fazem esforços muito mais organizados para uma reunião de ideias e pessoas que possam, através dos blogues, criar um movimento gerador de projectos estruturados para o clube. Transcrevo aqui parte de um texto do PLF, do blogue sportinguista "Bancada Nova", para que se compreenda o que de bem se faz no Sporting e que não se faz no Benfica - e que é, afinal, tão simples, se houver vontade, atenção e verdadeira intenção de ouvir os adeptos e absorver as suas melhores ideias:
«Há
cerca de um ano fui convidado – entre muitos outros participantes nas redes sociais
– para uma reunião na sala do Conselho Directivo, pelo Pedro Cunha Ferreira, no
âmbito daquilo que era referido como a “iniciativa digital” do Sporting (...) Essa
reunião contou com a presença do presidente do clube – Godinho Lopes – que se predispôs
a esclarecer as dúvidas que as pessoas na reunião tinham, e ainda – no seu
final e para fazer uma visita de cortesia ao Museu e ao relvado – do seu Vice-Presidente, Paulo
Pereira Cristóvão. Portanto, o Sporting fez-se representar ao mais alto nível e
por três(!) dirigentes (alguém imagina o Benfica ou o FCPorto a fazer isto?).
Ficou acordado entre todos que aquele seria um grupo de trabalho, que estaria
aberto a mais iniciativas digitais, e que àquela reunião inicial se seguiriam
outras reuniões.»
Estão a ver o Benfica a fazer isto? Imaginam Vieira, João Gabriel e, vá, Gomes da Silva sentadinhos à mesa com bloggers a responderem a dúvidas e a procurarem um debate com os adeptos? Eu também não. Mas é este o caminho e o futuro só poderá passar por largar o autismo que se vive no Benfica em relação aos seus adeptos (que não são clientes, são ADEPTOS) e começar uma aproximação e uma química de respeito e gratidão. Enquanto viverem como reizinhos em castelos, vão continuar mais longe do sucesso. Mas esta é uma discussão que teremos nos próximos tempos, lá mais para Agosto, quando o clima e não só aquecerem até temperaturas quase impossíveis.
Agradeço ao JG o que disse de nós. E não, não temos problema nenhum contigo. Temos divergências que na maior parte das vezes são saudáveis e servem para encontrar soluções. Do que te ouvi hoje, parece-me que convergimos mais do que o contrário. E, quando assim é, todo o debate sai mais valorizado. Da minha parte, como sócio do clube, agradeço a tua participação no programa. Se é para ir à televisão do Benfica, ao menos que seja assim: construir e acrescentar.