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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Gestão de LFV 3


Há a tentação de muitos "gestores" de analisarem os clubes de futebol / SADs e mesmo empresas em geral olhando apenas para o EBITDA. A verdade é que o EBITDA - Earnings before interest, taxes, depreciation and amortization ("Ganhos" antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), é um indicador popularizado para avaliar o cash-flow libertado pela actividade operacional de um clube, mas na verdade pouca informação revela sobre a actividade desse mesmo clube.



Ao olhar para estes valores poderíamos pensar que a Benfica SAD libertava muitos fundos e como tal não teria grandes problemas com a sua gestão de tesouraria. Então qual a justificação para o crescente endividamento baseado na necessidade de investimento em jogadores, conforme vem indicado nos relatórios da Benfica SAD ?


Conforme verificámos anteriormente, de 2008-09 para 2011-12, o passivo oneroso do Benfica (seja a SAD ou o Grupo) aumentou significativamente apesar do EBITDA indicar que existe consistentemente uma libertação de fundos gerada pela actividade em especial  nas duas últimas épocas. Qual a razão então deste aparente contra-senso ?

O Resultado Operacional excluindo operações com jogadores, corresponde à diferença entre as receitas operacionais, aquelas que estão directamente ligadas com a actividade da SAD (bilheteira, quotização, transmissões televisivas, prémios desportivos (UEFA), publicidade, patrocínios e merchandising, etc.) e as despesas operacionais (custos com pessoal, fornecimento de serviços externos tipo segurança, viagens, seguros, despesas de publicidade e marketing, combustíveis, etc. amortização de equipamentos, etc.), ou seja, é aquilo que a empresa gera com a sua actividade normal.


Para passarmos do Resultado Operacional excluindo operações com jogadores, ou seja, o valor que é gerado pela actividade normal, ao EBITDA, vamos somar as mais-valias das vendas dos passes dos jogadores e diminuir as amortizações com o equipamento e as provisões para dívidas incobráveis, ao ROeop.
EBITDA = ROeop + Mais-valias de vendas de jogadores - Amortizações - Provisões.

Na verdade, juntam-se as receitas com as alienações dos passes dos jogadores, enquanto que os valores gastos com aquisições de jogadores não são considerados, por isso até mesmo quanto à libertação de fundos da actividade operacional o indicador pode enviesar significativamente a apreciação, ou seja, apenas contabiliza as vendas em cima da actividade do dia-a-dia e omite as saídas de dinheiro necessárias para se adquirirem jogadores.

Mas não omite só as saídas de dinheiro com aquisições, esquece ainda os encargos financeiros, que são muito importantes na estrutura de custos dos clubes/SADs e são um dos exfluxos mais relevantes em termos de tesouraria com que um clube/SAD se depara, tanto mais que muitos dos empréstimos são "permanentes", tantas as vezes que o revolving das operações são feitas.

Para percebermos o peso crescente da estrutura de financiamento, olhemos primeiro para o crescimento dos custos financeiros líquidos, ou seja a diferença entre custos financeiros e proveitos financeiros.


Como é fácil de compreender, o valor dos custos de financiamento da Benfica SAD tem vindo a subir constantemente ao longo dos anos.

Mas mais importante que olhar apenas para os valores dos custos financeiros é perceber como tem variado o peso face às receitas. Neste caso, convém explicar que os dados utilizados dizem respeito aos valores da Benfica SAD consolidados, tanto em termos de receitas como de custos financeiros sendo que as receitas incluem as transferências de jogadores.


Novamente convém referir que enquanto as barras representam os valores absolutos (milhões de euros), a linha deve ser lida no eixo dos valores relativos (%) visto tratar-se da relação entre as duas ordens de grandeza. Para quem pensa que se os valores seriam significativamente diferentes se fossem utilizados os valores individuais da SAD estão enganados, pois em termos percentuais as linhas praticamente se sobrepõem sendo que apenas em 2009-10 há uma diferença de um ponto percentual.

Isto quer dizer que apesar das receitas crescerem, a verdade é que a taxa de crescimento dos encargos financeiros foi mais elevada, o que leva a que hoje em dia o peso dos custos de financiamento nas receitas tenha aumentado sensivelmente.

Convém referir que a opção pela inclusão das transferências de jogadores, tem na sua base o facto de as transferências assumirem cada vez mais um carácter permanente e não um carácter extraordinário e com o facto de o endividamento estar associado ao grande investimento efectuado no plantel pela Benfica SAD nos últimos anos.


A análise ao passivo oneroso do Benfica, mostra que o passivo está cada vez mais concentrado a menos de um ano, passivo corrente, ou seja, existe uma exigibilidade maior em relação a este passivo o que pode constituir um risco para a tesouraria, mas mais que isso, retirará ao Benfica capacidade de decisão. A contratação de jogadores, mesmo sendo cada vez mais diferidos os prazos de pagamento pelas transferências, estará limitada não pelos novos compromissos a assumir, mas antes pelos compromissos já assumidos que exigem que a aplicação da tesouraria seja desviada para amortização de dívidas.

Mas pagar as dívidas e diminuir o passivo oneroso não é bom ? É bom e desejável, mas o problema estará na limitação dos graus de decisão. Imaginemos que faltará um jogador para completar o plantel, seja ele para titular, seja para jogador de rotação, tipo um central, ou um lateral direito ou esquerdo, ou mesmo um médio de características mais defensivas ou de transição. Estas são as posições que normalmente são referidas pelos adeptos.

Imaginemos até que o Jorge Jesus informa a Administração da SAD que necessita desse jogador para conquistar o título. O facto de os recursos estarem todos direccionados para a amortização do passivo oneroso implicará que a Administração da SAD por muito que queira ou reconheça essa mesma necessidade, não a poderá satisfazer. É claro que isto são cenários hipotéticos, mas o que não é hipotético é a limitação com que a SAD se vê devido à necessidade de reembolsar 90 milhões de euros em empréstimos obrigacionistas durante a época 2012-13, nomeadamente 50 em Dezembro de 2012 (já aconteceu) e mais 40 em Abril de 2013.

Em resumo, poderemos dizer que as receitas da actividade operacional e as vendas não têm chegado para as despesas operacionais mais os encargos financeiros e os investimentos na equipa, pelo que tem sido necessário recorrer ao financiamento bancário (passivo oneroso) para manter o funcionamento. Mais ainda, as opções de investimento na equipa de futebol durante as épocas de 2008-09 a 2011-12 originaram que em 2012-13 a Benfica SAD esteja condicionada para levar a cabo um desinvestimento no plantel de futebol e para a amortização do passivo oneroso.

Nos próximos posts abordarei a temática das receitas, as opções estratégicas e as grandes decisões que têm que ser tomadas até ao final desta época.