Este sim, este foi o derby mais limpinho dos últimos
anos. Vitória justa, escassa, arbitragem de bom nível e duas equipas leais.
Assim dá gosto ver futebol.
A nossa vitória foi tão clara, justa e escassa que facilmente
se condensam os 90 minutos num só pensamento: Leonardo Jardim mudou e perdeu,
Jorge Jesus manteve e venceu. Simples assim.
Como havia dito no dia de ontem, os técnicos optaram
por manter as escolhas para início de jogo. Não obstante, se é verdade que o
Benfica apresentou o 11 e estratégia mais lógicas, o mesmo não podemos dizer do
Sporting. Leonardo Jardim alterou as figuras do seu “11 tipo” (por obrigação,
mas também por opção), mas mais importante que isso, alterou também o seu
habitual figurino táctico. Apareceu no jogo da forma que eu menos esperava, ou
seja, organizado num 4x4x2 clássico e semelhante ao do Benfica, com André
Martins descaído para a ala direita, com Heldon pela esquerda e com uma dupla
atacante constituída por Montero e Slimani. Não esperava que Jardim actuasse de
início num 4x4x2 clássico por duas razões: 1 – Ao faze-lo perderia a vantagem
numérica a meio-campo que o seu sistema habitual lhe permitia e 2 – Porque sempre
que opta por este sistema (normalmente na fase final de cada partida em que se
encontra com resultado desfavorável), o timoneiro verde e branco fá-lo sempre
recorrendo a dois alas puros, coisa que não apresentou no 11 inicial de hoje.
A juntar a alguma “confusão táctica” lançada por
Jardim, a equipa entrou em jogo demasiado ansiosa e a acusar o momento de se
encontrar em casa do grande rival a discutir a liderança. Por tudo isto,
Leonardo Jardim só venceu uma das apostas iniciais: Heldon. Com efeito, o
ex-Marítimo fez a cabeça em água a Maxi. O Cabo-Verdiano foi, de longe, o
elemento mais esclarecido e que mais dificuldades criou ao Benfica durante todo
o jogo, expondo a já conhecida fragilidade defensiva do lateral Uruguaio, mas
também alguma e preocupante debilidade física do nosso guerreiro.
Do nosso lado, a equipa entrou com uma personalidade e
determinação tremendas, assumindo o jogo e expondo toda a ansiedade da juventude
leonina no jogo. Enzo e Fejsa foram tremendos na luta pelo meio-campo e
claramente superiores a Adrien e Dier (até por aqui estranhei a opção táctica
de Leonardo Jardim). A velocidade imprimida por Markovic, Rodrigo e Gaitan fez
o resto. Gaitan e Enzo foram os maestros do belíssimo tango que hoje dançamos,
ainda que sem par.
Fomos uma equipa coesa, com linhas juntas e que
impediu a circulação de bola do adversário que, com défice de qualidade no
miolo, foi incapaz de construir de forma satisfatória, obrigando o Sporting a
optar pelo jogo directo onde Garay, Luisão e Fejsa foram donos e senhores do
espaço aéreo.
Esta capacidade de juntar linhas é facilitada pela
dupla Lima-Rodrigo que são extremamente eficazes na ajuda ao sector intermédio
da equipa na função de condicionar a saída de bola adversária. Esta dupla
permite uma maior coesão colectiva que qualquer outra dupla que tenha na sua
composição Cardozo.
Lima pode andar afastado dos golos, mas tem sido
tremendo no trabalho colectivo e o principal responsável pelo ressurgimento do
melhor Rodrigo, pois apresenta uma amplitude de movimentos muito superior ao
Paraguaio, o que facilita a abertura de espaços para as entradas desde trás do
avançado Espanhol.
Com isto não menorizo a capacidade goleadora e características
individuais de Tacuara. Antes considero ser esta a dupla mais adequada para
este tipo de jogos.
Gostaria ainda realçar, mais uma vez, a fantástica
evolução do nosso menino d’oiro dos Balcãs. Que era rápido, bom tecnicamente,
genial na desmarcação e empolgante na condução, já todos sabíamos e facilmente
o verificamos. Mas este Markovic está incomparavelmente melhor que o Markovic
do golo genial em Alvalade na primeira volta. Tal como já tinha demonstrado
frente ao FCP no mês passado, o jovem prodígio já revela uma maturidade táctica
muito assinalável. Markovic já não é só aquele talento selvagem que chegou ao
Benfica em Junho. Hoje é um jogador que compreende o colectivo e que se faz
compreender ao colectivo. Markovic já não é um jogador de momentos, é hoje um
jogador de e para todo o jogo. Parabéns a ele pela evolução e a Jorge Jesus
pelo trabalho.
Fica ainda, e novamente, um amargo de boca e
incredulidade por mais uma tentativa de substituição depois dos 90 minutos e
com o mesmo protagonista de sempre: André Gomes. Foi ainda algo incompreensível
ver Jorge Jesus fazer entrar Ruben Amorim por troca com Rodrigo procurando dar consistência
ao meio-campo e com isso controlar melhor o jogo, coisa que concordo, para
minutos depois fazer sair Enzo para entrar Cardozo, voltando assim à procura da
vertigem numa altura que se pedia cérebro.
P.S. No dia de ontem, o Sporting anunciou, através de
comunicado, que iria comparecer ao jogo de hoje na Luz. Apetece perguntar: Com
que fundamento alteraram a decisão? E falta de comparência não é punida com
derrota por 3-0?