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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A gestão de LFV 5


Continuemos então a olhar para os Proveitos Operacionais do Benfica, nomeadamente para os proveitos associados à publicidade e patrocínios (Commercial). Estes proveitos incluem os patrocínios das camisolas actualmente a cargo da PT e da Sagres, o patrocínio técnico a cargo da Adidas, as receitas de Naming das bancadas do Estádio da Luz - PT, Sagres e Coca-cola,  dos pavilhões EDP e Bonança e do Centro de Estágios - CGD, bem como as receitas que provêm da venda do merchandising.


Convém desde já referir que estes dados diferem ligeiramente dos dados da Deloitte pois em alguns casos tive acesso às contas dos clubes e os dados são diferentes dos apresentados pela consultora, seja por via da taxa de câmbio, seja por diferenças de valor.

Como podemos constatar, ao contrário dos valores das receitas de Matchday em que o Benfica estava relativamente próximo muitos clubes, o mesmo já não acontece no que às receitas de natureza Commercial.   Isso acontece essencialmente porque o mercado português é demasiado pequeno quando comparado com os outros mercados europeus e porque não há efectivamente a percepção dos 14 milhões de adeptos espalhados pelo mundo. Na verdade, sem que a Liga Portuguesa seja atractiva nos mercados internacionais, nunca o Benfica conseguirá angariar patrocinadores que verdadeiramente valorizem a marca Benfica quando comparada com clubes que têm menos tradição, mas que estando inseridos em Ligas de maior visibilidade alcançam valores incomparavelmente superiores ao Benfica.


Se verificarmos que o Benfica na época de 2011/12 recebeu 12,3 milhões de euros entre patrocínios de camisolas e técnicos, apenas se pode comparar com Arsenal e Dortmund que rondam os 16 a 17 milhões de euros anuais. Convém referir que os clubes têm renovado os seus acordos recentemente e aumentado significativamente os valores, nomeadamente o Manchester United assinou um contrato com a GM que lhe garantirá um patrocínio nas camisolas a partir de 2014/15 com um valor mínimo de 60 milhões de euros/ano.

No entanto a realidade não é determinística e o bom trabalho pode ajudar a inverter esta situação. Esta época estão a findar os contratos de patrocínio, seja o patrocínio das camisolas, seja o patrocínio técnico, pelo que a renovação de contratos com os patrocinadores são boas oportunidades para criar valor, seja através dos patrocinadores existentes caso aumentem significativamente os valores em causa, seja através de novos patrocinadores, nacionais ou estrangeiros. À semelhança do Manchester United, deveria o Benfica procurar patrocinadores regionais, nos mais diversos sectores de actividade, que se queiram associar ao Benfica, em especial nos mercados onde o Benfica tem maior peso junto dos adeptos: Angola, Moçambique, Cabo Verde, Alemanha, França, Suiça, Luxemburgo, Estados Unidos e mesmo no Brasil.

Adicionalmente, a realização da final da Champions em 2013-14 no Estádio da Luz, proporciona a hipótese de negociar esta época os direitos de Naming do estádio para  a próxima época na qual o estádio terá uma exposição fantástica. Claro que aqui voltamos à questão das assistências e à política de preços de bilhetes. No post anterior mostrei a comparação dos espectadores nas diferentes Ligas, faltavam os dados da Bundesliga que são ainda mais impressionantes que os da Premier League. Mas deixemos os dados agregados das ligas e olhemos para as assistências dos principais clubes dessas ligas.


Como podem verificar utilizei para esta comparação os principais clubes das ligas inglesa, alemã e espanhola. Enquanto Manchester United e Bayern Munique têm nas ligas nacionais uma ocupação do estádio a rondar os 100%, já o Real Madrid fica-se pelos 93%. Quanto ao Benfica o valor rondou os 60%. Se é certo que 5% depende exclusivamente dos adeptos adversários, já a ocupação dos outros 95% dependem exclusivamente do trabalho realizado pelo Benfica para atrair os seus adeptos e é esse trabalho que tem falhado.

A maximização das receitas de naming do estádio, seja do próprio estádio, seja das bancadas, ou mesmo dos pavilhões, cuja maior presença de sócios em jogos conduzirá inevitavelmente a maiores assistências nas modalidades "amadoras" em dias de jogo de futebol, o que poderá também ter um impacto positivo na renegociação dos contratos associados aos pavilhões, bem como originar a geração de maiores receitas de merchandising em dias de jogo.


O merchandising é algo que tem vindo a crescer constantemente, com excepção da época 2007-08 onde o valor diminuiu face à época anterior, mas cujo peso no total dos proveitos operacionais é ainda dispiciendo, representando apenas 3,5% na época de 2011-12.

Deveria pois, o Benfica, em conjunto com o patrocinador técnico, ou potenciais patrocinadores que queiram ocupar o lugar, conduzir um estudo para perceber até que ponto os valores cobrados nos equipamentos desmotivam os sócios e adeptos a adquirir esses equipamentos, em especial as camisolas oficiais.

Senão vejamos, uma camisola oficial de manga curta do Benfica, sem personalização, custa entre 73,80 e 82,00 euros consoante sejamos ou não sócios. Uma camisola do Manchester United custa £50,00, ou seja 58,00 euros.  Como a camisola é da Nike, pode ser que o problema seja o fabricante. Olhemos então para o Bayern que à semelhança do Benfica é equipado pela Adidas. Ora uma camisola do Bayern, na Alemanha claro está, custa 59,95 euros. Em ambos os casos, este é o preço para não-sócios que se comparam com os excessivos 82,00 euros que um adepto não-sócio do Benfica tem que despender para adquirir a camisola oficial. Em Espanha, o valor da camisola do Real Madrid também rondava os 82,00 no início da época, mas com o descalabro competitivo baixou 25%. Em Itália, o Milan também baixou os preços mas não tanto quanto o Real Madrid.

Continuando em Inglaterra, vemos que a camisola do Manchester City da Umbro custava £35,00 no início da época (41,00 euros) e agora está a £30,00, a camisola Nike do Arsenal £45,00 (52,00 euros), a camisola do Liverpool equipado pela Warrior que no início da época cobrava £45,00 baixou para as £25,00 (29,00 euros) em função de mais uma "espectacular campanha" na Liga Inglesa e finalmente a camisola do Tottenham da Under Armour custa também £45,00.

Trata-se pois, à semelhança dos preços dos bilhetes, de uma questão de mudança de paradigma - se o Benfica é um clube popular, deverá reduzir o valor dos bens e serviços que vende, sejam lugares no estádio ou camisolas oficiais, por forma a exponenciar as receitas através do alargamento da base. Se as vendas actuais de camisolas oficiais do Benfica não são suficientes para a Adidas baixar os preços para o nível do Bayern Munique, ou do Hamburgo, então se calhar convém que sejam efectuados estudos de mercado para mostrar à Adidas a existência de potenciais mercados onde que poderão incrementar significativamente as vendas de camisolas oficiais, desde que sejam comercializadas a preços mais competitivos.

Aliás, não tendo o Benfica um astro como um Ronaldo ou um Messi, dificilmente poderá competir fora de Portugal, em especial nos mercados dos luso-descendentes, com preços significativamente superiores aos praticados pelos clubes da liga mais popular do mundo. O valor de 60,00 euros para não-sócio, semelhante ao preço da camisola do Bayern Munique, parece-me que deveria ser o valor apontado para ser realizado esse estudo de mercado. Além de que ao baixar o preço estaríamos ainda a desincentivar a aquisição de produtos não-oficiais.


Outra componente dos proveitos operacionais são as chamas receitas de Broadcasting, ou seja de transmissões televisivas, que incluem os direitos recebidos da transmissão da liga nacional, bem como as receitas das competições europeias, nomeadamente os prémios de participação e desempenho desportivo. E, perdoem-me o plebeísmo, é aqui que a porca torce o rabo.


Como se pode verificar, em 2011/12, os grandes clubes espanhóis e italianos lideraram a tabela relativamente aos clubes que mais recebem com os direitos das ligas nacionais, isto apesar de ser a liga inglesa a que distribui mais dinheiro.


As diferenças nos valores que os clubes recebem têm essencialmente a ver com os modelos de distribuição, mais equitativos nos casos da Liga Inglesa e Alemã, mais diferenciadores nas Ligas Espanhola e Italiana. Há vários modelos, que normalmente incluem componentes fixas, componentes de desempenho, no próprio ano ou mesmo num conjunto de anos anteriores, componentes de atractividade, seja através do número de jogos televisionados, seja através do número de adeptos reconhecidos pelas Ligas/Federações, etc.



Como é visível, os clubes portugueses não têm qualquer hipótese de competir em termos de proveitos de transmissões televisivas das ligas nacionais com os clubes das principais ligas europeias. Mesmo a distribuição dos valores da Liga dos Campeões é condicionado pelo tamanho dos mercados pelo que a componente do Market-pool acaba por desvalorizar significativamente o desempenho desportivo, apesar de serem estes valores, nomeadamente os inerentes à participação na Liga dos Campeões que podem contribuir para o atenuar de diferenças entre clubes de países mais pequenos e clubes de países maiores.

A solução para a atenuação das diferenças em termos de receitas de transmissões televisivas passa essencialmente por existir um trabalho sério na internacionalização dos direitos da liga portuguesa. O problema é que esse trabalho nunca poderá ser realizado de forma individual, via Benfica TV, mas à semelhança de todas as outras ligas, através da venda colectiva dos direitos de transmissão da liga portuguesa.

Mas foquemos a análise nas receitas de Broadcasting do Benfica, distribuídas consoante a sua origem. 


O motivo para os dados começarem na época 2005-06 é devido ao facto de não ter valores desagregados para as épocas anteriores. Como podem verificar, os anos têm passado, mas o valor que o Benfica tem recebido da Olivedesportos mantém-se igual, como se actualmente os direitos valessem o mesmo que valiam em 2005-06.


A grande variação nas receitas com origem nos prémios da UEFA afecta necessariamente a gestão, pois é muito diferente contar com 10, 15 ou mesmo 20 milhões de euros com origem na participação na Liga dos Campeões, versus uma receita residual de 3 ou 4 milhões caso o Benfica não atinja a fase de grupos.


Se repararem na época de 2008-09, em que a participação europeia do Benfica foi miserável, pois além de não ter disputado a Champions, ainda por cima foi eliminado na fase de grupos, os proveitos operacionais tiveram uma queda. Em 2009-10, novamente sem disputar a fase de grupos da Champions, os proveitos operacionais cresceram, em especial, com origem nas receitas adicionais que advieram da fusão da Benfica SAD com a Benfica Estádio. Nas épocas seguintes, a participação na fase de grupos da Champions elevaram significativamente os proveitos, em especial na última época com o atingir dos quartos-de-final.

Efectivamente, os prémios da UEFA representaram 25% do total dos proveitos operacionais na época de 2011-12, o que constitui um grande risco em termos de gestão, caso o Benfica não atinja a fase de grupos. Na verdade, se nos lembrarmos que os custos do pessoal representaram 55% das receitas na época de 2011-12, sem os prémios da UEFA esse valor subiria para 70%. Este é um exercício meramente académico, pois parte dos custos com pessoal corresponderam a prémios de desempenho que nos levaram aos quartos-de-final, mas convém ter a noção que sem o apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões, hoje em dia os proveitos operacionais do Benfica cairiam para os 70 a 75 milhões de euros, em vez dos valores atingidos nas duas últimas épocas.

Se esse cenário neste momento parece extremamente improvável, o não apuramento do Benfica para a fase de grupos da Liga dos Campeões, a péssima prestação dos clubes portugueses na corrente época pode a breve prazo voltar a implicar a redução de 3 para 2 lugares de Portugal na Liga dos Campeões, sendo que o segundo voltará novamente a disputar a 3.ª pré-eliminatória e um posterior play-off para poder ter acesso à fase de grupos. Ao longo dos 9 anos de mandatos de Luís Filipe Vieira, o Benfica apenas foi campeão por 2 vezes, pelo que com a eventual redução do número de equipas portuguesas na Champions, das duas uma, ou o Benfica se torna mais competente, ou os riscos orçamentais disparam significativamente.

Em conclusão, considero que existem grandes oportunidades para se incrementarem significativamente os proveitos operacionais, nomeadamente através da (re)negociação de patrocínios, do naming do estádio, dos contratos de direitos televisivos. No entanto, convém não cometer os erros que o Arsenal cometeu, nomeadamente através de negócios de longa duração com valores fixos, situação já conhecida do Benfica no caso dos direitos de transmissão televisiva, e convém fazer os orçamentos com alguma precaução quanto aos riscos desportivos inerentes a uma eventual perda de lugares por parte de Portugal na Liga dos Campeões, dada a enorme diferença de prémios entre essa competição e a Liga Europa.

Fontes:  Futebol Money League Report - Deloitte, Swiss Rambler, Tifoso Bilanciato, LFP, LPFP, R&C de SLB SAD, FCP SAD, SCP SAD, SCB SAD, Manchester United PLC, Liverpool, Atlético Madrid, Valência, Sites de SLB, Manchester United, Bayern München, Real Madrid, AC Milan, Manchester City, Arsenal, Liverpool e Tottenham Hotspurs.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Gestão de LFV 4


Depois de termos analisado o lado dos custos (despesas), olhemos agora para os proveitos (receitas) da SLB SAD.
Convém desde logo explicar que existem vários tipos de proveitos:
- os operacionais - ligados à actividade regular da sociedade, nomeadamente receitas de bilheteira, direitos televisivos, prémios de desempenho desportivo, receitas de patrocínios e publicidade, etc.
- os proveitos com alienação de jogadores - que normalmente não são considerados como operacionais, pois não dependem da actividade normal, mas que no modelo de gestão do Benfica assumem um carácter verdadeiramente regular e não extraordinário
- os proveitos financeiros - que derivam das aplicações financeiras e/ou empréstimos a outras entidades do Grupo Benfica que não consolidem contas (por exemplo o Sport Lisboa e Benfica) com a SAD, mas cujo valor normalmente é deduzido aos custos financeiros (não esquecer que quando apresentámos os valores dos encargos financeiros líquidos, estes já incluíam os proveitos financeiros, pelo que a sua análise está implícita na análise dos encargos financeiros).



A nossa análise incidirá pois sobre os Proveitos Operacionais e as Alienações com Jogadores. Conforme atrás foi referido, os Proveitos operacionais dizem respeito à actividade do dia-a-dia do clube.



Na análise aos clubes/Sads de futebol normalmente os Proveitos Operacionais  são classificados em 4 categorias distintas: Bilhética (Matchday), Publicidade (Commercial), Transmissões Televisivas (Broadcasting) e Outros Proveitos. Normalmente os proveitos indicados pela Deloitte só incluem as primeiras 3 categorias. Os dados em relação ao SLB estão normalmente  sobre-estimados:




De facto, ao analisarmos os Relatórios & Contas das 4 SADs actualmente mais representativas no panorama nacional chegamos a valores diferentes:



No que respeita à SLB SAD, a bilhética (Matchday) incluí todas as receitas com origem na exploração do Estádio da Luz - bilhetes vendidos, títulos Red Pass, títulos Fundadores, Corporate, etc. (excepto as receitas de origem comercial) e as receitas referentes a 75% da quotização do Sport Lisboa e Benfica.


Infelizmente não encontrei valores para comparar a situação entre o anterior Estádio da Luz e o actual. No entanto é visível o salto de 12 milhões de euros na época 2002-03, a época da inauguração do novo estádio, para um valor a rondar os 19 milhões de euros - média 2003-09. Com a fusão da Benfica Estádio, e a incorporação das receitas que lhe estavam adstritas, a SAD passou de receitas na ordem dos 19 para os 34 milhões de euros - média 2009-12.

Quando falamos em receitas originadas no Estádio convém perceber até que ponto o Benfica consegue potenciar o seu estádio, isto é, estará o Benfica a utilizar a capacidade instalada ? Olhemos então para as assistências dos jogos da Liga Portuguesa para os principais clubes:



Na verdade, as assistências têm estado correlacionadas com o desempenho da equipa de futebol, isto é, enquanto em 2009-10, o ano do título, os jogos no Estádio da Luz tiveram uma assistência média de 50.033 espectadores, o que corresponde a 77%, no ano seguinte e apesar da galvanização que um campeonato assegura, com o prematuro afastamento da equipa do primeiro lugar, a assistência média desceu para os 38.146 espectadores, ou seja 59%.

Já na época transacta, com a equipa a lutar pelo título até perto do final a média de espectadores ficou-se pelos 42.464 espectadores, isto é 65% da capacidade total. No entanto este ano, já com aos números da 17.ª jornada incluída,  apesar do Benfica estar a disputar o título par-a-par com o Porto e faltando apenas receber o Sporting, no que aos jogos grandes diz respeito, a média caiu para os 38.077 espectadores, o que quer dizer que com 59% de capacidade utilizada, estamos no patamar da época em que prematuramente fomos afastados do título.

É óbvio que a crise está a afectar as assistências, mas não nos podemos esquecer da opção da SAD em relação ao preço dos títulos Red Pass no início da época de fazer repercutir nos sócios o aumento do IVA. Também convém referir as promessas do candidato Vieira em campanha de baixar os preços dos bilhetes e das quotas. Se em relação à primeiro promessa foi criado o bilhete família que permite a um sócio levar um adulto e duas crianças consigo só pagando 25 euros, em relação à segunda, o email com os valores das quotas para o primeiro trimestre mostra que pelos vistos era só uma promessa para encher pneus.

As quebras nas assistências estão directamente relacionadas com a quebra da venda de títulos Red Pass e apenas o bom desempenho da equipa poderá levar a que a quebra de assistências no final da época não seja tão acentuada. Contudo, o mesmo já não se poderá dizer quanto às receitas de bilheteira. Se é verdade que a Liga Europa tem mais jogos que a Liga dos Campeões, caso se atinja a mesma fase, a verdade é que as medidas de recurso, Bilhete Família e oferta generalizada de bilhetes às Casas do Benfica por forma a atrair sócios e adeptos aos jogos, implicará uma redução apreciável nos proveitos originados com a bilheteira.



No entanto, além do Benfica ter uma política de preços bastante elevada, com a consequência de ter o estádio permanentemente abaixo da sua capacidade, a verdade é que o futebol português tem dificuldades em atrair gente aos estádios.



Como podemos verificar no gráfico, na época 2011-12, apesar de não ser a Premier League que tem uma capacidade total média maior, 37.586 espectadores contra 38.501 da Liga BBVA, é a que tem mais espectadores 34.646 contra 28.216 da Liga BBVA. Quando comparamos a capacidade utilizada dos estádios, verificamos que na Premier League o valor é de 92% contra 73% da Liga BBVA e uns míseros 47% da Liga Zon Sagres.

Como explicar então as diminutas assistências nos jogos da Liga Zon Sagres ?

Há problemas estruturais:

- o accionista da empresa detentora da maioria dos direitos de transmissão é também accionista do operador televisivo que explora os direitos em Portugal, pelo que a fixação dos horários de jogos está mais condicionada pelos interesses do operador televisivo (compatibilização de horários com transmissões de outras ligas), do que pelos interesses da empresa detentora, visto que esta não prossegue uma política séria e consistente para a internacionalização dos direitos televisivos da Liga Portuguesa o que poderia exponenciar os rendimentos daí resultantes;

- consequentemente os horários de jogos são desfasados do interesse dos potenciais espectadores, por exemplo como se podem querer convencer as famílias a ir ao futebol com jogos ao Domingo ou à Segunda-feira às 20h15, quando no dia seguinte as pessoas têm que ir trabalhar e os miúdos têm que ir para a escola ?;

- existe um grande desequilíbrio competitivo entre as melhores equipas - Benfica e Porto - e o resto dos competidores, derivado do enfraquecimento generalizado das equipas, o que resulta normalmente em jogos de resultado previsível ou de fraca qualidade;


E problemas conjunturais:

- as dificuldades económicas atravessadas por equipas que tradicionalmente têm boas assistências que origina equipas com menor capacidade competitiva - Sporting e Guimarães, enquanto o fenómeno do Guimarães é continuado, as assistências médias caíram de 19.578 espectadores em 2007-08 para os 12.078 em 2011-12, o do Sporting é derivado do péssimo desempenho desportivo na presente época.

- a crise económica tem reduzido significativamente o rendimento disponível das famílias, pelo que os gastos com o entertenimento, não sendo essenciais, são dos primeiros a serem cortados.


No caso do Benfica, há uma questão de política, em que a SAD sempre preferiu a maximização de receitas de bilheteira à maximização das assistências. Se no curto prazo, a primeira opção parece ser a mais correcta, a verdade é que em termos de longo prazo não o é.


E não o é porque condiciona de sobremaneira  o valor comercial do Estádio da Luz. As receitas com o naming que se obtém das bancadas e que se poderão vir a obter com o naming do Estádio estão dependentes das assistências, pois é diferente negociar direitos de naming dum estádio onde a assistência média não chega aos 30.000 espectadores, 29.632 é o valor indicado no R&C da época de 2011-12 ou seja 46% da sua capacidade, do que negociar dum estádio onde a assistência média ronda os 60.000 espectadores. As assistências rondam os 42.500 espectadores para a Liga mas quando se juntam os jogos das taças o número médio de espectadores desce significativamente.

À semelhança da questão do IVA nos Red Pass, a opção da Benfica SAD, no que ao preço dos bilhetes diz respeito, tem sido sempre pelas receitas elevadas no curto prazo em vez de criar um público fiel que garanta receitas muito elevadas no longo prazo. A visão imediatista normalmente tem consequências negativas no futuro.

A verdade é que não é só em termos de receitas de publicidade que um estádio menos composto origina. Quando falamos de internacionalização do clube, falamos numa primeira instância da venda dos direitos de transmissão televisiva dos jogos das competições oficiais portuguesas para países estrangeiros.

Valores em Milhões de Euros

Estando a actuar na Liga BBVA os maiores astros do futebol, a verdade é que a Premier League é de longe a liga mais apetecível e consequentemente a que gera maiores rendimentos. E é assim, não só pelos valores gerados domesticamente, ao nível da Serie A, mas também pelos valores gerados externamente, valores que não têm comparação com qualquer das outras principais ligas europeias. Em minha opinião isso acontece por 3 ordens de razões:

- a Liga inglesa é um campeonato muito competitivo em que os resultados são incertos, podendo os últimos facilmente roubar pontos aos primeiros;

- os principais clubes trabalham comercialmente as suas marcas nos mercados emergentes o que implica que as equipas de futebol disputem jogos de pré e pós-época no Extremo Oriente, no Médio Oriente e nos Estados Unidos;
 
- os estádios estão permanentemente cheios, o que mostra que o produto é um bom produto, pois se há espectáculos que nem nos espectadores do próprio país geram grande interesse, e daí as menores assistências, como poderão despertar interesse em quem não tem ligações afectivas com os clubes desses países ?


A Liga Portuguesa nem sequer entra nas contas, pois nem chega a distribuir 100 milhões de euros. Em 2011-12 os principais contratos eram: Porto 12 milhões (estimado), Sporting 11 milhões, Benfica 7,5 milhões, Braga 3 milhões (estimado), ou seja, os 4 principais clubes recebiam cerca de 33,5 milhões de euros. Em 2009-10, quando o total distribuído era de 53 milhões de euros, estes 4 clubes recebiam cerca de 26 a 27 milhões de euros, pelo que se pode estimar que em 2011-12, o valor distribuídos pelos clubes deve ter rondado os 60 a 70 milhões de euros, valor que se deve comparar com os mais de 600 milhões de euros que qualquer uma das 5 principais ligas europeias distribuiu entre os seus clubes.

Em conclusão, com a construção do Estádio, o Benfica passou a ter um pilar para o seu crescimento, pois é capaz de gerar receitas neste estádio como não seria no outro - apesar de não ter valores, considero que a componente de Corporate elevou as receitas para outro patamar. Porém, a lógica de exploração do Estádio, quiçá baseada nos estudos associados ao Project Finance e ou na necessidade de atingir determinados valores de receita, fez com que o Benfica não tenha sido capaz de explorar ao máximo este activo pois não foi capaz de atrair e fidelizar os sócios e adeptos por forma a ter o estádio permanentemente lotado.

Medidas como o bilhete família ou o Red Pass Premium (medida sugerida em blogues antes de ser implementada pela SAD), são medidas muito positivas que apareceram num ano em que as dificuldades económicas vão fazer sentir-se significativamente. Sabendo que a quebra de receitas seria algo de natural e inevitável, aquilo que se esperaria de uma gestão estratégica era que privilegiasse a manutenção do vínculo com os espectadores assíduos ao contrário da decisão tomada relativamente ao preço dos Red Pass.

À semelhança do Red Pass, penso que o Benfica deveria considerar a venda de Carnets para não-sócios, bem como acordar com os clubes da Liga a venda dos bilhetes aos sócios destes clubes ao preço dos sócios do Benfica se estes fizessem o mesmo nos seus estádios, um pouco à semelhança do que acontece na Taça da Liga. Esta segunda medida visaria essencialmente reforçar o apoio à equipa fora do nosso estádio e  tentar maximizar a presença de público adversário na caixa de segurança. Claro que em jogos contra o Porto e o Sporting tal medida não seria necessária visto que a caixa de segurança está quase sempre cheia.

Este ano cumprem-se 10 anos de Estádio da Luz. Os primeiros títulos fundadores estarão para renovação. Gostaria que a SAD mostrasse por esses sócios que têm capacidade e vontade de investir no Benfica, a consideração que não tem mostrado para com os detentores de Red Pass com as constantes borlas que promove cada vez que a época não cumpre com as expectativas. E não, não tenho um título fundador porque não tinha na altura capacidade aquisitiva.

Nos posts seguintes abordaremos as outras fontes de proveitos operacionais.

Fontes: Futebol Money League Report - Deloitte, Competição fora das 4 linhas - UCP e Deloitte, Swiss Rambler, LPFP, LFP, R&C de SLB SAD, FCP SAD, SCP SAD, SCB SAD e Manchester United PLC. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Gestão de LFV 3


Há a tentação de muitos "gestores" de analisarem os clubes de futebol / SADs e mesmo empresas em geral olhando apenas para o EBITDA. A verdade é que o EBITDA - Earnings before interest, taxes, depreciation and amortization ("Ganhos" antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), é um indicador popularizado para avaliar o cash-flow libertado pela actividade operacional de um clube, mas na verdade pouca informação revela sobre a actividade desse mesmo clube.



Ao olhar para estes valores poderíamos pensar que a Benfica SAD libertava muitos fundos e como tal não teria grandes problemas com a sua gestão de tesouraria. Então qual a justificação para o crescente endividamento baseado na necessidade de investimento em jogadores, conforme vem indicado nos relatórios da Benfica SAD ?


Conforme verificámos anteriormente, de 2008-09 para 2011-12, o passivo oneroso do Benfica (seja a SAD ou o Grupo) aumentou significativamente apesar do EBITDA indicar que existe consistentemente uma libertação de fundos gerada pela actividade em especial  nas duas últimas épocas. Qual a razão então deste aparente contra-senso ?

O Resultado Operacional excluindo operações com jogadores, corresponde à diferença entre as receitas operacionais, aquelas que estão directamente ligadas com a actividade da SAD (bilheteira, quotização, transmissões televisivas, prémios desportivos (UEFA), publicidade, patrocínios e merchandising, etc.) e as despesas operacionais (custos com pessoal, fornecimento de serviços externos tipo segurança, viagens, seguros, despesas de publicidade e marketing, combustíveis, etc. amortização de equipamentos, etc.), ou seja, é aquilo que a empresa gera com a sua actividade normal.


Para passarmos do Resultado Operacional excluindo operações com jogadores, ou seja, o valor que é gerado pela actividade normal, ao EBITDA, vamos somar as mais-valias das vendas dos passes dos jogadores e diminuir as amortizações com o equipamento e as provisões para dívidas incobráveis, ao ROeop.
EBITDA = ROeop + Mais-valias de vendas de jogadores - Amortizações - Provisões.

Na verdade, juntam-se as receitas com as alienações dos passes dos jogadores, enquanto que os valores gastos com aquisições de jogadores não são considerados, por isso até mesmo quanto à libertação de fundos da actividade operacional o indicador pode enviesar significativamente a apreciação, ou seja, apenas contabiliza as vendas em cima da actividade do dia-a-dia e omite as saídas de dinheiro necessárias para se adquirirem jogadores.

Mas não omite só as saídas de dinheiro com aquisições, esquece ainda os encargos financeiros, que são muito importantes na estrutura de custos dos clubes/SADs e são um dos exfluxos mais relevantes em termos de tesouraria com que um clube/SAD se depara, tanto mais que muitos dos empréstimos são "permanentes", tantas as vezes que o revolving das operações são feitas.

Para percebermos o peso crescente da estrutura de financiamento, olhemos primeiro para o crescimento dos custos financeiros líquidos, ou seja a diferença entre custos financeiros e proveitos financeiros.


Como é fácil de compreender, o valor dos custos de financiamento da Benfica SAD tem vindo a subir constantemente ao longo dos anos.

Mas mais importante que olhar apenas para os valores dos custos financeiros é perceber como tem variado o peso face às receitas. Neste caso, convém explicar que os dados utilizados dizem respeito aos valores da Benfica SAD consolidados, tanto em termos de receitas como de custos financeiros sendo que as receitas incluem as transferências de jogadores.


Novamente convém referir que enquanto as barras representam os valores absolutos (milhões de euros), a linha deve ser lida no eixo dos valores relativos (%) visto tratar-se da relação entre as duas ordens de grandeza. Para quem pensa que se os valores seriam significativamente diferentes se fossem utilizados os valores individuais da SAD estão enganados, pois em termos percentuais as linhas praticamente se sobrepõem sendo que apenas em 2009-10 há uma diferença de um ponto percentual.

Isto quer dizer que apesar das receitas crescerem, a verdade é que a taxa de crescimento dos encargos financeiros foi mais elevada, o que leva a que hoje em dia o peso dos custos de financiamento nas receitas tenha aumentado sensivelmente.

Convém referir que a opção pela inclusão das transferências de jogadores, tem na sua base o facto de as transferências assumirem cada vez mais um carácter permanente e não um carácter extraordinário e com o facto de o endividamento estar associado ao grande investimento efectuado no plantel pela Benfica SAD nos últimos anos.


A análise ao passivo oneroso do Benfica, mostra que o passivo está cada vez mais concentrado a menos de um ano, passivo corrente, ou seja, existe uma exigibilidade maior em relação a este passivo o que pode constituir um risco para a tesouraria, mas mais que isso, retirará ao Benfica capacidade de decisão. A contratação de jogadores, mesmo sendo cada vez mais diferidos os prazos de pagamento pelas transferências, estará limitada não pelos novos compromissos a assumir, mas antes pelos compromissos já assumidos que exigem que a aplicação da tesouraria seja desviada para amortização de dívidas.

Mas pagar as dívidas e diminuir o passivo oneroso não é bom ? É bom e desejável, mas o problema estará na limitação dos graus de decisão. Imaginemos que faltará um jogador para completar o plantel, seja ele para titular, seja para jogador de rotação, tipo um central, ou um lateral direito ou esquerdo, ou mesmo um médio de características mais defensivas ou de transição. Estas são as posições que normalmente são referidas pelos adeptos.

Imaginemos até que o Jorge Jesus informa a Administração da SAD que necessita desse jogador para conquistar o título. O facto de os recursos estarem todos direccionados para a amortização do passivo oneroso implicará que a Administração da SAD por muito que queira ou reconheça essa mesma necessidade, não a poderá satisfazer. É claro que isto são cenários hipotéticos, mas o que não é hipotético é a limitação com que a SAD se vê devido à necessidade de reembolsar 90 milhões de euros em empréstimos obrigacionistas durante a época 2012-13, nomeadamente 50 em Dezembro de 2012 (já aconteceu) e mais 40 em Abril de 2013.

Em resumo, poderemos dizer que as receitas da actividade operacional e as vendas não têm chegado para as despesas operacionais mais os encargos financeiros e os investimentos na equipa, pelo que tem sido necessário recorrer ao financiamento bancário (passivo oneroso) para manter o funcionamento. Mais ainda, as opções de investimento na equipa de futebol durante as épocas de 2008-09 a 2011-12 originaram que em 2012-13 a Benfica SAD esteja condicionada para levar a cabo um desinvestimento no plantel de futebol e para a amortização do passivo oneroso.

Nos próximos posts abordarei a temática das receitas, as opções estratégicas e as grandes decisões que têm que ser tomadas até ao final desta época.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A gestão de LFV 2 - Revisão


No seguimento do post anterior propomo-nos investigar as causas dos prejuízos nos últimos 4 anos, visto ser assumido pela Direcção que o modelo de gestão passa pela valorização de activos, modelo no qual o treinador Jorge Jesus é peça fundamental.

Será que o Benfica tem lucros tão grandes com a valorização de jogadores? Assumindo que este é o modelo que assegura o equilíbrio às contas deveremos pressupor que  o saldo das compras e vendas de passes de jogadores é permanentemente positivo.



O saldo das transferências líquidas é igual à diferença entre os montantes obtidos pelas vendas dos jogadores (valores brutos, por exemplo 3,5 milhões por Éder Luís, 1 milhão por Felipe Bastos ou 1,2 milhões por Daniel Wass) e as aquisições de passes de jogadores (por exemplo 2,7 milhões por 30% do passe de Maxi Pereira) ou os encargos com as renovações de atletas (na época 2011-12 a Benfica SAD renovou Luisão, Gaitán, Jara, Luis MArtins, Urretaviscaya, Maxi Pereira, Pablo Aimar, Ruben Amorim, Javi Garcia e Javier Saviola).

Saldo líquido de transferências = alienações de passes - aquisições de passes - encargos com renovações de contratos

Os números foram essencialmente retirados dos Relatórios & Contas da Benfica SAD, porém visto que os dados mais antigos não estão discriminados nesses documentos, foi necessário consultar fontes alternativas para podermos obter a valorização de aquisições e alienações como os sites do zerozero ou do transfermarkt. Convém realçar que estamos a falar dos valores de transferência e não das mais-valias obtidas com essas mesmas transferências.

Conforme se observa no gráfico acima, excepção feita à época de 2006-07, deveremos falar mais de épocas de investimento na equipa do que de épocas de vendas de jogadores. Nas últimas épocas temos realizado grandes vendas, como é possível então que sejam épocas de investimento ? Observemos então as últimas 5 épocas em detalhe:




Efectivamente, apesar de vendas que nas últimas 3 épocas somaram mais de 125 milhões de euros, a verdade é que as aquisições do Benfica nestas últimas 3 épocas custaram uns inacreditáveis 136 milhões de euros. Aliás se formos somar as últimas 5 épocas, os valores sobem para 153,2 milhões de euros de alienações, o que corresponde a uma média 30,6 milhões de euros, e 212,3 milhões de euros o que quer dizer uma média anual de mais de 42 milhões de euros.

Em conclusão, por muito que o Benfica consiga valorizar e alienar passes de jogadores a verdade é que investiu nos últimos 5 anos quase mais 60 milhões de euros do que obteve através das alienações. Claro que rapidamente irão perguntar pelo Witsel e pelo Javi. É verdade que nesta temporada, 2012-13, o valor das alienações é muito superior, 63,6 milhões de euros, ao valor das aquisições 18,1 milhões de euros, compensando cerca de 75% do investimento das últimas 5 épocas. Porém, quando se analisa apenas dados trimestrais podemos ficar com ideias erradas, pelo que apenas deveremos olhar para os valores das épocas completas, isso mesmo é referido no recente relatório do primeiro trimestre da Benfica SAD.

Quais as consequências então desta política de investimentos ?

Em primeiro lugar, o aumento significativo das amortizações. 





O que são as amortizações ? Quando se adquire o passe de um jogador este assina um contrato com a SAD de x anos. Imaginemos o caso do Bruno César, cujo passe custou 6 milhões de euros e assinou por 6 anos até 30 de Junho de 2017. Ao valor de 6 milhões, dever-se-ia adicionar o prémio de assinatura, mas como não me foi possível saber o valor do prémio de assinatura (luvas), vamos utilizar como referência apenas os 6 milhões e dividir este valor pelos 6 anos de contrato, ou seja, o passe do Bruno César vai ser amortizado ao valor de 1 milhão de euros por ano. Ou seja, o Benfica em vez de na aquisição contabilizar um custo de 6 milhões, vai dividir esse custo ao longo do contrato, à semelhança do que fazem as empresas quando adquirem um qualquer equipamento. Se o contrato fosse apenas de 1 ano, então esse valor teria que ser contabilizado numa única época.


De referir que antes de 2007-08 as amortizações de jogadores não estavam isoladas das outras amortizações (amortizações de equipamento), pelo que optei por calcular o valor para 2006-07, através do desconto mencionado para o valor da amortização do CFC, considerando o remanescente como residual. Independentemente disso, verificamos que na época de 2011-12, o valor das amortizações com passes de jogadores é praticamente o dobro do valor da época de 2007-08.

Aliás, se olharmos em termos internacionais, os valores de amortizações do Benfica não eram muito diferentes dos valores do Bayern Munique na época de 2010/11.




Efectivamente, a diferença que separa o Borussia de Dortmund do Benfica é maior do que a diferença que separa o Benfica do Bayern Munique ou mesmo as diferenças que separam os valores do Benfica dos valores de AC Milan e Manchester United.

A opção pela inclusão pelo Borussia de é para provar que um clube que é competitivo, o Borussia é campeão alemão em título (2010-11 e 2011-12) e tem como modelo a detecção de jovens jogadores talentosos para desenvolvimento e posterior alienação com mais-valias. Em 2012, o Borussia vendeu o passe do japonês Shinji Kagawa por 16 milhões de euros que tinha sido adquirido por 350.000 euros ao Cerezo Osaka em 2010 e o passe do paraguaio Lucas Barrios por 8,5 milhões de euros ao Guangzhou Evergrande que havia adquirido em 2009 por metade do valor ao Colo Colo.

É certo que o Benfica consegue realizar vendas maiores mas se compararmos o investimento líquido em transferências (vendas-compras) nas últimas 5 épocas, a verdade é que enquanto o Benfica investiu 59 milhões de euros e conquistou um campeonato, o Borussia investiu 16 e conquistou 2.


A segunda consequência da política de investimentos é o crescimento dos custos com pessoal.




Para que seja mais fácil ler a informação do gráfico, o valor dos custos com pessoal está a vermelho na base das barras, ou seja em 2007-08 os custos com pessoal foram de 27 milhões de euros, enquanto que em 2011-12 tinham subido para 48 milhões de euros. Concomitantemente o número de jogadores sob contrato no final da época de 2007-08 era 36, enquanto que a 30 de Junho de 2012 esse número tinha subido para 81.

Enquanto que os custos com pessoal cresceram 77% em 5 épocas, o número de jogadores aumentou 125%, ou seja grosso modo podemos afirmar que o custo médio por atleta baixou cerca de 20%.

Mesmo tendo em consideração que há uma equipa principal, uma equipa B que deverá servir de suporte às necessidades da equipa principal e adicionalmente alguns juniores que não estando incluídos na equipa B também têm contrato profissional, não me parece que 81 atletas seja um número adequado às necessidades / possibilidades do Benfica.


Um aspecto que é importante de analisar, quando nos debruçamos sobre os custos com pessoal, é a relação entre custos com o pessoal e receitas. Inclusivamente, as regras do Fair-play Financeiro da UEFA, que deverão ser adoptadas na época de 2013-14, indicam que o rácio entre os custos com pessoal e as receitas geradas com o futebol não deve ultrapassar os 70%.


A linha descontínua do rácio entre os custos com pessoal e as receitas (turnover), deve ler-se no segundo eixo (%), pois trata-se de um valor relativo e não absoluto.

Ao contrário das outras principais equipas portuguesas, por muitos malabarismos que se façam para transformar custos com o pessoal em serviços externos, o Benfica normalmente cumpre este requisito. Porém, convém realçar, que uma eventual ausência da Liga dos Campeões poderá alterar esse facto dado o peso dessas receitas no total das receitas do Benfica, como se comprova pelo pico (86%) que aconteceu na época de 2008-09.

Como o post já vai longo, em jeito de resumo, podemos dizer que a gestão do Benfica, em particular nos últimos anos, tem sido marcada por investimentos significativos na aquisição de jogadores, tanto em valor como em quantidade. Esses investimentos além de ultrapassarem o valor das vendas, e atenção que salientámos que não se tratam dos valores das mais-valias geradas mas apenas dos valores das transferências, originaram um crescimento significativo das amortizações anuais.

Outra consequência foi um aumento significativo dos custos com pessoal, mas esse valor tem sido contra-balançado pelo crescimento das receitas. No entanto, como as receitas dependem do desempenho desportivo na liga interna com a consequente qualificação para a Liga dos Campeões, esse factor é um factor de risco para o cumprimento de um dos requisitos do Financial Fair-play da UEFA que entrará em vigor na época 2013/14.


PS - Não há engano, este post foi republicado visto que chegámos à conclusão que a não explicação sobre os conceitos de amortizações e transferências líquidas poderia ter tornado o texto demasiado técnico, pelo que optou-se pela republicação com a inclusão da explicação do que são as amortizações e o saldo líquido das transferências.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A gestão de LFV


Este é o primeiro de uma série de posts em que se abordarão factos relativos à gestão do Benfica nos últimos anos. Os números apresentados serão essencialmente baseados nos Relatórios e Contas da SLB SAD, que estão disponíveis na internet para quem os quiser consultar.

O Balanço de uma sociedade é constituída por activos e passivos, sendo a diferença os capitais próprios da sociedade.
Os activos são os recursos que a sociedade controla, resultado da actividade passada e com os quais se espera que possam trazer benefícios económicos à sociedade.
Ao invés, os passivos são as obrigações com que a sociedade se comprometeu no passado e que terão que ser liquidadas.
Os capitais próprios de uma sociedade são o remanescente dos activos depois de deduzir todos os passivos, ou seja reflectem portanto a riqueza dessa mesma sociedade, quer a inicial* (capital social) quer a adquirida (reservas/resultados transitados). 
*-o capital social pode ser diferente da riqueza inicial se existirem operações de aumento ou de diminuição do capital social.


Estes valores referem-se unicamente à SLB SAD e não incluem os valores consolidados das outras empresas do Grupo Benfica. A opção de utilizar os valores individuais para o gráfico tem a ver com a coerência dos dados, visto não fazer sentido comparar realidades diferentes.

Os valores demonstram claramente uma subida de activos e passivos, mas em que os últimos têm crescido mais que os activos, o que originou a situação de capitais próprios negativos no final da época 2008-09 e novamente em 2011-12.

Perante esta situação, optou-se em 2009 pela reestruturação do grupo, com a integração da Benfica Estádio na Benfica SAD, o que implicou um aumento significativo do capital social (de 75 para 115 milhões de euros), dos activos e dos passivos da Benfica SAD, como se comprova no gráfico, voltando os captais próprios a serem positivos (apesar de ter sido mais um exercício com resultados líquidos negativos como adiante verificaremos).

Em termos de diferenças entre os valores consolidados e individuais da Benfica SAD, abaixo apresentamos a comparação da evolução dos activos, dos passivos e dos capitais próprios.



Conforme se pode verificar pela comparação no gráfico anterior, após a reestruturação do Grupo Benfica, os activos da Benfica SAD subiram de 167 milhões de euros em 2009 para 334 milhões de euros em 2010. Com a inclusão das outras empresas no perímetro de consolidação, devemos também olhar para o valor consolidado dos activos da Benfica SAD quando analisamos a realidade do Benfica.



À semelhança dos activos, também os passivos da Benfica SAD tiveram um aumento significativo de 179 milhões de euros em 2009 para 326 milhões de euros em 2010.


Aqui optou-se pela apresentação dos valores com 3 casas decimais para que se tivesse uma noção mais aproximada das variações. Conforme foi referido, após a reestruturação do Grupo Benfica, os capitais próprios saíram da situação negativa de quase 12 milhões de euros para uma situação positiva de quase 8 milhões de euros. No entanto e com o continuar da acumulação de resultados líquidos negativos, em 2012 os capitais próprios da SAD voltaram à situação negativa de 2009.

Quer isto dizer que a SAD voltou à situação de falência técnica? Sim e não. Sim porque em termos do Código das Sociedades Comerciais (artigo 35.º), quando os capitais próprios de uma sociedade são negativos esta está em falência técnica. No entanto, existe uma reserva de valor que não está reflectida nos activos da SAD.

Em termos de balanço, o plantel da Benfica SAD a 30-06-2012 estava avaliado em 92 milhões de euros, embora este valor não reflicta o valor total dado que algumas parcelas de passes estão alienadas ao Benfica Stars Fund (BSF). O BSF indica que o valor dos jogadores em carteira a essa data era de 16,8 milhões de euros, ou seja, em termos contabilísticos, o valor líquido do plantel do Benfica rondaria os 109 milhões de euros. Consultando sites internacionais sobre transferências de jogadores e avaliações de passes, facilmente obteríamos uma valorização do plantel superior a 200 milhões de euros a 30 de Junho de 2012, pelo que a situação de falência técnica na verdade era meramente teórica.

No entanto e fazendo o paralelismo com o Sporting, quando uma SAD necessita de vender os seus activos para realizar dinheiro, os valores que obterá pelos passes de jogadores serão sempre abaixo dos valores de mercado, à semelhança de quem passa por dificuldades financeiras e precisa de vender parte do seu património com urgência para arranjar dinheiro também nunca conseguirá obter o justo valor pelo património vendido, dada a necessidade de liquidez.

Os valores das massas patrimoniais são valores acumulados; isto é, resultam dos resultados de todos os anos anteriores. Fazendo o paralelismo com o país, é o mesmo que estarmos a falar da dívida pública. Para chegar a estes valores devemos então perceber como têm sido os resultados anuais, resultados estes que em termos do país corresponderiam aos valores do défice.

Durante um exercício há receitas e despesas que são classificados em proveitos e custos. Se os proveitos superarem os custos temos um resultado líquido positivo, ou seja a sociedade terá tido lucro; caso contrário, teremos um resultado líquido negativo, isto é, a sociedade durante um ano terá perdido parte da sua riqueza.




Conforme referido anteriormente as fontes dos dados são os Relatórios & Contas Anuais da SLB SAD. Os valores do quadro estão em milhares de euros; os do gráfico, como legendado, em milhões.

Os números dos três mandatos de LFV são inequívocos, nas primeiras três épocas, 2003-06, somou um prejuízo de 15 milhões de euros que foram compensados na época de 2006-07, em que o lucro atingiu os 15 milhões de euros. A seguir seguiu-se uma época relativamente equilibrada, 2007-08, onde apresentou um lucro residual  e desde aí soma quatro épocas de prejuízos constantes, tendo ultrapassando os 73 milhões de euros de prejuízo acumulado nessas 4 épocas.

Estes 73 milhões de euros renderam 1 Campeonato e 4 Taças da Liga, enquanto os 15 milhões de euros de prejuízo entre 2003 e 2006 tinham rendido 1 Campeonato, 1 Taça de Portugal e 1 Supertaça mas na altura não existia a Taça da Liga.


Quais as causas para este acumular de prejuízos?

Um fenómeno que tem concorrido para este agravar de resultados são os custos financeiros originados por um passivo oneroso crescente, ou seja, o valor do conjunto de empréstimos bancários e obrigacionistas que a SLB SAD e restantes empresas do Grupo Benfica contraíram tem aumentado apesar do que foi afirmado em campanha pelo Administrador Financeiro.



Os números aqui apresentados reflectem unicamente os valores individuais da Benfica SAD e não os valores agregados do Grupo Benfica.

Na verdade, antes de Luis Filipe Vieira assumir a presidência do Benfica, o endividamento bancário, lato senso, rondava  os 25 milhões de euros em 2003 e cresceu até aos 95 milhões de euros em 2007. Em Janeiro de 2008, com uma reestruturação do Project Finance do estádio, a Benfica SAD liquidou 48 milhões de euros à banca.

Se olharmos aos números, o impacto da reestruturação do Grupo Benfica que ocorreu durante a época 2009-10 foi menor do que a decisão de endividamento para obter resultados desportivos que foi tomada na época anterior:

"Por último, há que referir que este aumento do endividamento está relacionado com a necessidade da Sociedade em investir com o intuito de obter resultados num futuro próximo, sendo de destacar que as instituições bancárias continuam a acreditar e a apoiar a estratégia da Benfica SAD através da criação de condições que têm permitido à Sociedade financiar a sua actividade." - in RELATÓRIO & CONTAS 2008/2009 - Benfica SAD

Esta foi uma política seguida pela Benfica SAD não só na época 2008/09, mas também nas recentes épocas; caso contrário, o passivo "bancário" não teria crescido mais 62 milhões de euros entre 2010 e 2012.



Relativamente ao Centro de Estágio e apesar do empréstimo do mesmo estar incluído nas contas individuais da Benfica SAD, a verdade é que a dívida passou de 15,368 em 2009 para 11,307 milhões de euros em 2012. Já quanto à Benfica Estádio - onde se concentram os financiamentos -, o valor dos empréstimos desceu dos 78,937 milhões de euros em 2010 para os 69,031 milhões de euros em 2012.

Existe pois um endividamento que é explicado pelos investimentos anteriores em infra-estruturas físicas, Estádio e Centro de Estágio, mas não são estes que explicam o crescimento do endividamento bancário nos últimos anos, ao contrário da ideia que tem sido vendida, pois os seus valores estão a diminuir ao contrário do endividamento da SAD.

Quais as razões para este crescimento do endividamento? Há várias e pretendemos explorar nos próximos posts. No entanto, o essencial a realçar é que apesar de tudo o que tem sido dito e escrito, a gestão de Luís Filipe Vieira, em especial nos últimos 4 anos, somou prejuízos e aumentou o endividamento bancário sem que o mesmo tenha sido originado pelos investimentos nas infra-estruturas desportivas.