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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Gestão de LFV 4


Depois de termos analisado o lado dos custos (despesas), olhemos agora para os proveitos (receitas) da SLB SAD.
Convém desde logo explicar que existem vários tipos de proveitos:
- os operacionais - ligados à actividade regular da sociedade, nomeadamente receitas de bilheteira, direitos televisivos, prémios de desempenho desportivo, receitas de patrocínios e publicidade, etc.
- os proveitos com alienação de jogadores - que normalmente não são considerados como operacionais, pois não dependem da actividade normal, mas que no modelo de gestão do Benfica assumem um carácter verdadeiramente regular e não extraordinário
- os proveitos financeiros - que derivam das aplicações financeiras e/ou empréstimos a outras entidades do Grupo Benfica que não consolidem contas (por exemplo o Sport Lisboa e Benfica) com a SAD, mas cujo valor normalmente é deduzido aos custos financeiros (não esquecer que quando apresentámos os valores dos encargos financeiros líquidos, estes já incluíam os proveitos financeiros, pelo que a sua análise está implícita na análise dos encargos financeiros).



A nossa análise incidirá pois sobre os Proveitos Operacionais e as Alienações com Jogadores. Conforme atrás foi referido, os Proveitos operacionais dizem respeito à actividade do dia-a-dia do clube.



Na análise aos clubes/Sads de futebol normalmente os Proveitos Operacionais  são classificados em 4 categorias distintas: Bilhética (Matchday), Publicidade (Commercial), Transmissões Televisivas (Broadcasting) e Outros Proveitos. Normalmente os proveitos indicados pela Deloitte só incluem as primeiras 3 categorias. Os dados em relação ao SLB estão normalmente  sobre-estimados:




De facto, ao analisarmos os Relatórios & Contas das 4 SADs actualmente mais representativas no panorama nacional chegamos a valores diferentes:



No que respeita à SLB SAD, a bilhética (Matchday) incluí todas as receitas com origem na exploração do Estádio da Luz - bilhetes vendidos, títulos Red Pass, títulos Fundadores, Corporate, etc. (excepto as receitas de origem comercial) e as receitas referentes a 75% da quotização do Sport Lisboa e Benfica.


Infelizmente não encontrei valores para comparar a situação entre o anterior Estádio da Luz e o actual. No entanto é visível o salto de 12 milhões de euros na época 2002-03, a época da inauguração do novo estádio, para um valor a rondar os 19 milhões de euros - média 2003-09. Com a fusão da Benfica Estádio, e a incorporação das receitas que lhe estavam adstritas, a SAD passou de receitas na ordem dos 19 para os 34 milhões de euros - média 2009-12.

Quando falamos em receitas originadas no Estádio convém perceber até que ponto o Benfica consegue potenciar o seu estádio, isto é, estará o Benfica a utilizar a capacidade instalada ? Olhemos então para as assistências dos jogos da Liga Portuguesa para os principais clubes:



Na verdade, as assistências têm estado correlacionadas com o desempenho da equipa de futebol, isto é, enquanto em 2009-10, o ano do título, os jogos no Estádio da Luz tiveram uma assistência média de 50.033 espectadores, o que corresponde a 77%, no ano seguinte e apesar da galvanização que um campeonato assegura, com o prematuro afastamento da equipa do primeiro lugar, a assistência média desceu para os 38.146 espectadores, ou seja 59%.

Já na época transacta, com a equipa a lutar pelo título até perto do final a média de espectadores ficou-se pelos 42.464 espectadores, isto é 65% da capacidade total. No entanto este ano, já com aos números da 17.ª jornada incluída,  apesar do Benfica estar a disputar o título par-a-par com o Porto e faltando apenas receber o Sporting, no que aos jogos grandes diz respeito, a média caiu para os 38.077 espectadores, o que quer dizer que com 59% de capacidade utilizada, estamos no patamar da época em que prematuramente fomos afastados do título.

É óbvio que a crise está a afectar as assistências, mas não nos podemos esquecer da opção da SAD em relação ao preço dos títulos Red Pass no início da época de fazer repercutir nos sócios o aumento do IVA. Também convém referir as promessas do candidato Vieira em campanha de baixar os preços dos bilhetes e das quotas. Se em relação à primeiro promessa foi criado o bilhete família que permite a um sócio levar um adulto e duas crianças consigo só pagando 25 euros, em relação à segunda, o email com os valores das quotas para o primeiro trimestre mostra que pelos vistos era só uma promessa para encher pneus.

As quebras nas assistências estão directamente relacionadas com a quebra da venda de títulos Red Pass e apenas o bom desempenho da equipa poderá levar a que a quebra de assistências no final da época não seja tão acentuada. Contudo, o mesmo já não se poderá dizer quanto às receitas de bilheteira. Se é verdade que a Liga Europa tem mais jogos que a Liga dos Campeões, caso se atinja a mesma fase, a verdade é que as medidas de recurso, Bilhete Família e oferta generalizada de bilhetes às Casas do Benfica por forma a atrair sócios e adeptos aos jogos, implicará uma redução apreciável nos proveitos originados com a bilheteira.



No entanto, além do Benfica ter uma política de preços bastante elevada, com a consequência de ter o estádio permanentemente abaixo da sua capacidade, a verdade é que o futebol português tem dificuldades em atrair gente aos estádios.



Como podemos verificar no gráfico, na época 2011-12, apesar de não ser a Premier League que tem uma capacidade total média maior, 37.586 espectadores contra 38.501 da Liga BBVA, é a que tem mais espectadores 34.646 contra 28.216 da Liga BBVA. Quando comparamos a capacidade utilizada dos estádios, verificamos que na Premier League o valor é de 92% contra 73% da Liga BBVA e uns míseros 47% da Liga Zon Sagres.

Como explicar então as diminutas assistências nos jogos da Liga Zon Sagres ?

Há problemas estruturais:

- o accionista da empresa detentora da maioria dos direitos de transmissão é também accionista do operador televisivo que explora os direitos em Portugal, pelo que a fixação dos horários de jogos está mais condicionada pelos interesses do operador televisivo (compatibilização de horários com transmissões de outras ligas), do que pelos interesses da empresa detentora, visto que esta não prossegue uma política séria e consistente para a internacionalização dos direitos televisivos da Liga Portuguesa o que poderia exponenciar os rendimentos daí resultantes;

- consequentemente os horários de jogos são desfasados do interesse dos potenciais espectadores, por exemplo como se podem querer convencer as famílias a ir ao futebol com jogos ao Domingo ou à Segunda-feira às 20h15, quando no dia seguinte as pessoas têm que ir trabalhar e os miúdos têm que ir para a escola ?;

- existe um grande desequilíbrio competitivo entre as melhores equipas - Benfica e Porto - e o resto dos competidores, derivado do enfraquecimento generalizado das equipas, o que resulta normalmente em jogos de resultado previsível ou de fraca qualidade;


E problemas conjunturais:

- as dificuldades económicas atravessadas por equipas que tradicionalmente têm boas assistências que origina equipas com menor capacidade competitiva - Sporting e Guimarães, enquanto o fenómeno do Guimarães é continuado, as assistências médias caíram de 19.578 espectadores em 2007-08 para os 12.078 em 2011-12, o do Sporting é derivado do péssimo desempenho desportivo na presente época.

- a crise económica tem reduzido significativamente o rendimento disponível das famílias, pelo que os gastos com o entertenimento, não sendo essenciais, são dos primeiros a serem cortados.


No caso do Benfica, há uma questão de política, em que a SAD sempre preferiu a maximização de receitas de bilheteira à maximização das assistências. Se no curto prazo, a primeira opção parece ser a mais correcta, a verdade é que em termos de longo prazo não o é.


E não o é porque condiciona de sobremaneira  o valor comercial do Estádio da Luz. As receitas com o naming que se obtém das bancadas e que se poderão vir a obter com o naming do Estádio estão dependentes das assistências, pois é diferente negociar direitos de naming dum estádio onde a assistência média não chega aos 30.000 espectadores, 29.632 é o valor indicado no R&C da época de 2011-12 ou seja 46% da sua capacidade, do que negociar dum estádio onde a assistência média ronda os 60.000 espectadores. As assistências rondam os 42.500 espectadores para a Liga mas quando se juntam os jogos das taças o número médio de espectadores desce significativamente.

À semelhança da questão do IVA nos Red Pass, a opção da Benfica SAD, no que ao preço dos bilhetes diz respeito, tem sido sempre pelas receitas elevadas no curto prazo em vez de criar um público fiel que garanta receitas muito elevadas no longo prazo. A visão imediatista normalmente tem consequências negativas no futuro.

A verdade é que não é só em termos de receitas de publicidade que um estádio menos composto origina. Quando falamos de internacionalização do clube, falamos numa primeira instância da venda dos direitos de transmissão televisiva dos jogos das competições oficiais portuguesas para países estrangeiros.

Valores em Milhões de Euros

Estando a actuar na Liga BBVA os maiores astros do futebol, a verdade é que a Premier League é de longe a liga mais apetecível e consequentemente a que gera maiores rendimentos. E é assim, não só pelos valores gerados domesticamente, ao nível da Serie A, mas também pelos valores gerados externamente, valores que não têm comparação com qualquer das outras principais ligas europeias. Em minha opinião isso acontece por 3 ordens de razões:

- a Liga inglesa é um campeonato muito competitivo em que os resultados são incertos, podendo os últimos facilmente roubar pontos aos primeiros;

- os principais clubes trabalham comercialmente as suas marcas nos mercados emergentes o que implica que as equipas de futebol disputem jogos de pré e pós-época no Extremo Oriente, no Médio Oriente e nos Estados Unidos;
 
- os estádios estão permanentemente cheios, o que mostra que o produto é um bom produto, pois se há espectáculos que nem nos espectadores do próprio país geram grande interesse, e daí as menores assistências, como poderão despertar interesse em quem não tem ligações afectivas com os clubes desses países ?


A Liga Portuguesa nem sequer entra nas contas, pois nem chega a distribuir 100 milhões de euros. Em 2011-12 os principais contratos eram: Porto 12 milhões (estimado), Sporting 11 milhões, Benfica 7,5 milhões, Braga 3 milhões (estimado), ou seja, os 4 principais clubes recebiam cerca de 33,5 milhões de euros. Em 2009-10, quando o total distribuído era de 53 milhões de euros, estes 4 clubes recebiam cerca de 26 a 27 milhões de euros, pelo que se pode estimar que em 2011-12, o valor distribuídos pelos clubes deve ter rondado os 60 a 70 milhões de euros, valor que se deve comparar com os mais de 600 milhões de euros que qualquer uma das 5 principais ligas europeias distribuiu entre os seus clubes.

Em conclusão, com a construção do Estádio, o Benfica passou a ter um pilar para o seu crescimento, pois é capaz de gerar receitas neste estádio como não seria no outro - apesar de não ter valores, considero que a componente de Corporate elevou as receitas para outro patamar. Porém, a lógica de exploração do Estádio, quiçá baseada nos estudos associados ao Project Finance e ou na necessidade de atingir determinados valores de receita, fez com que o Benfica não tenha sido capaz de explorar ao máximo este activo pois não foi capaz de atrair e fidelizar os sócios e adeptos por forma a ter o estádio permanentemente lotado.

Medidas como o bilhete família ou o Red Pass Premium (medida sugerida em blogues antes de ser implementada pela SAD), são medidas muito positivas que apareceram num ano em que as dificuldades económicas vão fazer sentir-se significativamente. Sabendo que a quebra de receitas seria algo de natural e inevitável, aquilo que se esperaria de uma gestão estratégica era que privilegiasse a manutenção do vínculo com os espectadores assíduos ao contrário da decisão tomada relativamente ao preço dos Red Pass.

À semelhança do Red Pass, penso que o Benfica deveria considerar a venda de Carnets para não-sócios, bem como acordar com os clubes da Liga a venda dos bilhetes aos sócios destes clubes ao preço dos sócios do Benfica se estes fizessem o mesmo nos seus estádios, um pouco à semelhança do que acontece na Taça da Liga. Esta segunda medida visaria essencialmente reforçar o apoio à equipa fora do nosso estádio e  tentar maximizar a presença de público adversário na caixa de segurança. Claro que em jogos contra o Porto e o Sporting tal medida não seria necessária visto que a caixa de segurança está quase sempre cheia.

Este ano cumprem-se 10 anos de Estádio da Luz. Os primeiros títulos fundadores estarão para renovação. Gostaria que a SAD mostrasse por esses sócios que têm capacidade e vontade de investir no Benfica, a consideração que não tem mostrado para com os detentores de Red Pass com as constantes borlas que promove cada vez que a época não cumpre com as expectativas. E não, não tenho um título fundador porque não tinha na altura capacidade aquisitiva.

Nos posts seguintes abordaremos as outras fontes de proveitos operacionais.

Fontes: Futebol Money League Report - Deloitte, Competição fora das 4 linhas - UCP e Deloitte, Swiss Rambler, LPFP, LFP, R&C de SLB SAD, FCP SAD, SCP SAD, SCB SAD e Manchester United PLC.