Longe vão os tempos em que as coisas se faziam às claras, sem quaisquer medos de alguma suspeita - era simples: toda a gente sabia que havia corrupção mas, uns, por beneficiarem com isso, aceitavam-na e outros, por nada poderem fazer, tentavam ultrapassá-la em campo, ingorando-a. Nesses idos anos, havia equipas inteiras do Porto a correr atrás de árbitros, defesas de Baía 5 metros fora da área, jornalistas violentamente agredidos em directo, enfim, toda uma panóplia de acontecimentos escabrosos que mancharam de forma indelével a imagem do campeonato português e, especificamente, de um clube que ficará para a História como um dos mais corruptos clubes que alguma vez existiu.
Actualmente, porém, com mais olhos a verem a vergonhosa falta de escrúpulos de corruptores e corrompidos, a estratégia é outra. Menos evidente embora igualmente eficaz. Passa pelos... critérios. Hoje em dia, Helton já não poderia defender, quase no meio-campo, bolas que vão para a baliza nem poderíamos ver Hulk, James e seus compinchas correr um campo inteiro atrás de um árbitro e decididamente não poderíamos observar jogadores do Porto a dar peitadas num dos juízes de partida sem ser imediatamente expulso (ah, espera... o ano passado vimos).
Agora o que conta e faz toda a diferença entre ganhar ou perder campeonatos - entre pontuais descaradas decisões, que ainda vão existindo, de quando em quando - são os critérios. E o que são os critérios?, perguntam vocês, visivelmente curiosos e intrigados. Eu explico-vos: os critérios no futebol português resumem-se a um conceito simples: em caso de dúvida, decidir contra o Benfica; em caso de dúvida, decidir a favor do Porto.
No espaço de uma semana assistimos à aplicação dos critérios que regem o futebol lusitano: abdico de falar no caso do golo de Walter porque esse nem sequer entra no exemplo dos "em caso de dúvida"; o golo mal legitimado de Walter existiu porque, com todas as palavrinhas, o fiscal de linha de Cosme Machado quis que o Porto marcasse um golo naquela altura. Apenas e só isto e nada mais. Os caso de dúvida são, para compreendermos bem os critérios que os árbitros aplicam em Portugal - e posteriormente os que comentam as arbitragens, que também seguem o princípio: se é caso de dúvida contra o Benfica, "compreende-se a decisão do fiscal, pois o lance é difícil de ajuízar", mesmo que a regra devesse ser a de favorecer o ataque; se é caso de dúvida a favor do Porto, "compreende-se a decisão do fiscal, pois, na dúvida, deve ser dado benefício ao ataque"; mesmo que o jogador esteja em fora-de-jogo - o golo de Hulk da semana passada e o golo de Cardozo desta. Eles apenas têm uma diferença: o de Hulk é irregular, o de Cardozo é legal. Mas um, o irregular, foi validado; o outro, o legal, foi anulado.
Outro "em caso de dúvida" é a chamada intensidade com que um jogador empurra outro dentro da área. No caso do Sporting, a semana passada, assistimos a um leve toque de um adversário sobre Van Nhónhó - resultado: penálti; esta semana, o mesmo movimento de um olhanense sobre Gaitán - resultado: não há nada. Não me entendam mal: acho que o lance de esta noite não foi penálti. O problema é que, por esse critério, o marcado a semana passada por suposta falta sobre Van Rover também não.
Já o escrevi antes: num campeonato que promete ser disputado até ao fim, os golos poderão vir a ter uma importância fundamental. A APAF sabe disso e tem garantido até ao momento alguma vantagem na diferença entre sofridos e marcados a favor do Porto. Pelo sim, pelo não. A nós competir-nos-á ganharmos os nossos jogos. Contra golos mal anulados e critérios a favor dos outros. Ontem juntámos mais uns troféus ao pecúlio que vamos amealhando na época: um golo nosso mal anulado e uma bola que saiu de campo a dar golo adversário. Teremos, como há dois anos, de ganhar a adversários mas também a árbitros. Terá de ser à Benfica, o único grande clube português que nunca beneficiou de conluios com o regime fascista.
Isto independentemente de Jesus continuar a sua saga de teimoso patológico (que um dia vai dar merda, como ontem podia ter dado) e de a equipa não ter jogado um caralho.
Assistências | |
Gaitán | 6 |
Aimar | 4 |
Saviola | 3 |
Cardozo | 2 |
Witsel | 2 |
M. Pereira | 2 |
Bruno César | 1 |
Luisão | 1 |
Nolito | 1 |
R. Amorim | 1 |
Golos | |
Cardozo | 9 |
Nolito | 8 |
Bruno César | 6 |
Saviola | 3 |
Rodrigo | 3 |
Witsel | 2 |
Gaitán | 2 |
Luisão | 2 |
Aimar | 1 |