Sendo jornalista e amante do futebol, poderá estar atento, de uma forma geral, à blogosfera desportiva. Acompanha blogues de futebol ou é um universo que desconhece? Se sim, quais?
Não acompanho nenhum em concreto, por regra, mas estou atento a uns quantos, sobretudo de futebol, política e música. Nos de futebol, afasto-me sempre que percebo que o tom geral é de crítica oca ou clubismo doentio. É para o que já não tenho paciência. Nem idade.
A blogosfera é um espaço que permite um certo tipo de liberdade de que nem sempre o jornalista desportivo goza quando escreve em jornais nacionais. Há muitos jornalistas “camuflados” na blogosfera?
Admito que sim mas confesso que não sei, de facto. Às vezes deve saber bem poder dizer tudo o que se pensa.
Numa entrevista ao semanário “Sol” disse que os seus dois temas preferidos são a política e o futebol. São duas áreas com muitos pontos de contacto? Quem sai a ganhar com a mistura dos dois?
Ganha sempre o futebol, que é paixão genuína, que nasce connosco antes de darmos por isso. A política deve ser desapaixonada, racional. A clubite faz sentido (até a um certo limite), a partidarite (clubite na política) não faz sentido nenhum.
Vê alguma possibilidade real de a curto prazo se alterar o balanço de poder entre os media desportivos e os clubes de futebol? Doutra maneira, será possível que continuemos a viver esta realidade em que os jogadores vivem numa bolha e pior, os presidentes tampouco são questionados?
Não me parece fácil. Os dirigentes só falam nos momentos das vitórias ou então procuram cada vez mais os órgãos de comunicação dos próprios clubes. E todos os grande têm hoje jornais, revistas, canais de tv. O jornalismo tem de reagir a essa “informação amansada” e precisa de definir como, e depressa.
Uma ideia muito defendida por alguns jornalistas é a de que em jornalismo não deve haver emoção – que o profissional deve apenas relatar factos, ser “isento”, “imparcial”, frio. Isto faz algum sentido?
Faz, na análise e no comentário. Na narração, num relato (de rádio em particular, mas também de televisão), em directo, a emoção tem de fazer parte. Mas é possível ser emotivo e isento, equidistante, ao mesmo tempo. Disso não tenho dúvida, até porque conheço vários jornalistas que são.
Falemos do Benfica, que é essa a paixão deste blogue. A diferença na qualidade de jogo do primeiro ano de Jesus para os três seguintes passou muito pela ausência de Ramires – que defensivamente e na reacção à perda de bola era muito forte – ou há uma mudança clara de Jesus na forma como compôs a equipa, depois de ser campeão nacional?
Tem muito a ver com a capacidade dos alas e dos avançados nos momentos defensivos (de organização mas sobretudo transição). Os melhores conjuntos de Jesus foram o primeiro (com a capacidade de recuperação de Ramires e até de Di María) e o último (com a participação no processo defensivo de Lima e Rodrigo). Por definição, o modelo de Jesus (que ele constrói sobre o sistema 4x4x2 ou 4x1x3x2) é desequilibrado mas sempre ambicioso.
Qual foi o melhor ano, em termos de qualidade e competência no trabalho, de Jesus desde que está no Benfica?
O primeiro, quando fez depressa uma grande equipa. Tinha grandes jogadores mas apresentou trabalho e mudou o rumo do clube. No último ano aproximou-se, com a equipa mais equilibrada de quantas fez na Luz, mas frente a uma concorrência (Porto e Sporting) que não tinha metade dos argumentos do Benfica.
Jorge Jesus é o treinador certo no clube certo?
Neste momento é, que só pode ser positivo haver alguma continuidade no meio de tanta mudança. É um treinador competente, sem dúvida, teimoso até ao limite também, e que não muda nem nunca vai mudar no essencial. Já pôde sair por baixo (há um ano) e em alta (há uns meses) mas que optou por ficar, talvez sem prever o que aconteceria na pré-época. Esta época é um risco enorme, sobretudo para Jesus.
Concorda com a ideia de que Jorge Jesus é simultaneamente um treinador de enorme competência, a nível técnico e táctico, e alguém cuja teimosia é capaz de pôr em risco todo o seu excelente trabalho?
Concordo. Tem competências top, sobretudo no plano técnico-táctico, mas muda mais vezes por necessidade (Oblak por Artur, Rodrigo por Cardozo, p.e.) que por convicção. Costumo dizer que após tantos anos num clube grande mantém intactas as qualidades, que são muitas, mas também os defeitos.
Acredita que Jorge Jesus tem um conhecimento mais aprofundado do aspecto táctico do futebol do que, por exemplo, Mourinho, perdendo em termos de comunicação e valências motivacionais?
Não. Mourinho sabe tudo de táctica e treino, que é o essencial no futebol. Jesus é um apaixonado do jogo e do treino, um grande conhecedor, mas tinha de evoluir para chegar mais alto, concretamente ao nível da liderança e das relações humanas.
Ao dizer que "só trabalho não chega, é preciso qualidade" o treinador do Benfica dá a entender que não passou por ele a contratação dos que chegaram nesta época. Não considera peculiar que não seja o treinador a escolher os jogadores que melhor se adaptem ao modelo de jogo que implementou no Campeão nacional e vencedor de ambas as taças?
Tenho curiosidade em sabe quem foram afinal – entre tantos – os jogadores que Jesus quis, que pediu ou avalizou, e os que não quis e lhe impuseram (se é que impuseram). Interrogo-me se um treinador campeão, que recusou propostas importantes, não faz valer minimamente a sua vontade, quem fará? E claro que Jesus está longe de ser o maior responsável pela estranha pré-época do Benfica.
Como compreender a contratação de um jogador como Luís Felipe (e, no passado, de jogadores como Emerson ou Cortez) por parte de um clube como o Benfica?
Uma coisa é falhar na escolha de um jogador, que todos falham. Outra é escolher um jogador errado para uma posição na qual havia quatro opções melhores (Maxi, Sílvio a prazo, André Almeida e Cancelo). Isso não se entende.
É sabido que Eliseu é um “amor antigo” de Jorge Jesus (há algumas épocas chegou mesmo a afirmar em público que ou era Eliseu o eleito para a lateral esquerda ou não valia a pena contratar ninguém). Considera o lateral português a alternativa certa para assumir com qualidade inegável o lugar no 11?
Não duvido que vai ser titular, e que Jesus vai dar-lhe todas as oportunidades. Quanto ao que vai provar só o futuro o dirá, que já não é jovem e nem sempre foi defesa esquerdo. Mas neste caso acredito que Jesus, pelo que conhece do jogador, não se enganará. Nem faz sentido que se engane.
Imagine que era o treinador do Benfica - que sistema táctico base utilizaria (4-4-2, 4-3-3, outro) e sobre que modelo de jogo assentaria (linha recuada alta, pressão horizontal, vertical, posse de bola, transição rápida)?
Boa pergunta. Não há sistemas melhores que outros, há jogadores que mexem com o sistema, pelos posicionamentos que os favorecem ou não. Gosto de ver dois avançados numa grande equipa mas isso não pode ser um dogma, depende da matéria disponível. O meu modelo preferido é de posse com profundidade, largura e objectividade, com iniciativa, num bloco compacto que é eficaz na reacção à perda de bola. Mas isso é o que querem quase todos. Decisivo é saber o que se consegue fazer em cada momento, o que serve melhor o interesse da nossa equipa, ser capaz de definir ritmos, de esconder fragilidades e exponenciar o melhor que se tem.
Tendo em conta que o treinador do Benfica já disse que quer um guarda redes, um médio defensivo e um avançado, que jogadores pensa poderem ser bons reforços para o Benfica, capazes de entrar directo no onze inicial?
Há vários mas dependeria sempre da capacidade financeira. Parece-me um erro não se pensar num central de nível top, com Luisão a envelhecer e sem mais nenhum indiscutível (Jardel nunca será de eleição). O avançado tem de ser compatível com Lima ou Derlei e terá sempre o problema de manter Gaitan amarrado a uma faixa, o que me parece ser um erro persistente, ainda que Jesus dê finalmente sinais de que lhe vai permitir maior liberdade esta época.
Uma alteração táctica para um esquema com um meio campo mais preenchido poderia ser uma boa solução de contornar as saídas de jogadores importantes (especialmente no caso de Enzo sair) e rentabilizar os recursos disponíveis?
Sim, penso que poderia ser ensaiada essa alternativa. Duvido, no entanto, que Jesus o faça, que o jogar do Benfica é muito definido por posicionamentos que resultam do sistema, da estrutura definida e sempre mantida.
O que acha de um 433 com um médio defensivo (Amorim, Almeida, Fejsa ou um jogador a contratar) no vértice recuado e Enzo (se ficar) e Gaitán à sua frente?
Podia ser uma espécie também de 1x4x2x3x1, mas dependerá de haver Enzo e Gaitán. Fejsa é o mais dotado para a função de médio defensivo, que Amorim é hoje mais um médio organizador (ou de transição) e André Almeida será apenas uma alternativa (um suplente de qualidade, em linguagem directa).
Gaitán, desde que chegou ao Benfica, jogou a extremo e, no ano passado, apesar de partir da linha, experimentou zonas mais interiores. No entanto, nunca jogou como jogava no Boca, a segundo avançado, livre, tanto jogando no espaço em desmarcação como vindo buscar jogo atrás, criando desequilíbrios. Não terá Gaitán a ganhar se jogar como apoio a Lima (ou outro avançado) e não, como muitas vezes é pedido, a 10 (que nem sequer é posição no sistema de Jesus)?
A questão radica sempre no sistema em vigor, que Gaitán altera, uma vez que seria sempre mais um 10 lançador e de último passe que um segundo avançado na linha do que foram Saviola ou Rodrigo. Não duvido que Gaitan renderia mais (também em assistências e golos) mas só se Jesus quiser mexer nas dinâmicas. E se com Rodrigo, com mobilidade e pé esquerdo (penso em trocas posicionais), Gaitán permaneceu sobre a faixa, creio que acabará por se manter por lá.