Nada melhor depois de uma tortura como a do Dragão do que poder ir, dois dias depois, embora deste mundo. Ou pelo menos deste país, desta cidade, dos jornais e das televisões, das vozes na rádio, das notícias, das conversas. Ir embora e se possível nunca mais voltar. Deixar o legado benfiquista para os amigos: "peguem, é tudo o que tenho" e partir. Partir e talvez nunca mais voltar.
É possível que volte, no entanto. A coisa está marcada aí para Sábado ou Domingo, o mais tardar. Virei, como irei, de carro. Para lá, amanhã às 20h, a 500 e tal de velocidade a ver se ainda consigo chegar a Amesterdão na Terça à noite; para cá, na Quinta-feira devagarinho, devagarinho, curtindo bem as papoilas, as vacas, os cheiros, os tachos de comida e os vinhos. É possível - muito possível - que aconteça Brugges na vinda. E depois Caen e a passagem do lombo pelas praias que viram o desembarque aliado na Normandia. É possível que o centro e o Sul de França. Depois o País Baixo, quem sabe Salamanca depois?, e acabe então no mesmo sítio de onde parti: junto ao Pai, pintado na parede.
No meio disto tudo, há uma final europeia para ver. Tenho feito um esforço giganto-megalómano por não ter esperança. Coisa nenhuma, zero, nicles batatóides, niente, nada. Finjo-me constantemente de descrente, lembro-me da tortura de Sábado à noite. Não quero, não posso, não sei sofrer outra vez assim quatro dias depois. Mas há de dentro do peito, num rio que passa por entre as conchas do coração, uma nova fonte a jorrar. Já a sinto outra vez a trazer águas, a irrigar os campos todos à volta, a corrente a ganhar forma e força, o caudal mais poderoso - sim, já estou feito ao bife outra vez: tenho esperança. E é com ela atrelada ao carro que vou ganhar forças para sair de junto do Pai Cosme logo à noite. Impossível ser do Benfica e não ter esperança.