Devia ter uns 7 anos quando me apercebi pela primeira vez de que os
homens de preto que entravam no relvado não eram homens, mas animais.
Seres repugnantes que serviam, quais touros em arenas, para o grande
momento da tarde no Estádio: o assobio uníssono de 120.000 gargantas.
Neste particular, destaco a excelente capacidade de alguns colegas de
bancada para o som estridente, conseguido através de uma estrutura
perfeita de dedos na goela, procurando, tacteando, entre o céu da boca e
a língua o ângulo perfeito para o grito ensurdecedor que inundava o
animal de apito de vergonha e os meus tímpanos de zumbidos até ao
intervalo.
Com o Sol sobre a minha cabeça, espantava-me aquela
demonstração de ferocidade e dramatismo, em oposição à festa e
pornografia de cachecóis, bandeiras, luzes e rolos de papel higiénico
sempre que onze deuses entravam de manto vermelho sagrado vestido. Era
como se assistisse, primeiro, à entrada do touro e, depois, ao despontar
pela arena de 11 toureiros, sedentos de tornear, humilhar e,
finalmente, deixar cair no chão, de rastos, o animal que vinha de preto
para o Estádio.
Com o apito ao pescoço, o touro fazia a sua presença
tilintar por todo o relvado, como se fosse uma vaca pelos campos abertos
da Andaluzia. E eu, olhando o meu pai gritar obscenidades que me
proibia em casa, imitava-lhe as palavras, naquilo que me parecia ser a
única forma de tratar um animal como aquele (afinal, se o touro vinha à
Luz, era com toda a certeza para nos fazer mal e nos dar uma cornada nas
partes baixas do benfiquismo heróico!).
Com o tempo, fui desenvolvendo no aficionado que sou a herética ideia de que o touro, apesar de mauzão, era bem capaz de não ser o máximo culpado pela má preparação e técnica dos toureiros encarnados e, assim, afastando-me inequivocamente da grande maralha que me rodeava, cheguei a chatear-me com um outro aficionado quando, tendo o touro assinalado uma perfeita e justa marca na areia com as patas (contra a vontade dos nossos toureiros!), o benfiquista desatou aos gritinhos histéricos, querendo a morte do animal, sem julgamento nem direito a advogado, acusando a mãe do miura de todas as patifarias, putarias e pornografias jamais vistas nas lezírias do sul da Ibéria.
Não era justo!, gritei, deixem o animal
em paz!, pedi, e, vendo que o animal que podia ficar morto na arena era
eu, decidi-me por defender o touro em silêncio, não fosse o meu
benfiquismo jorrar-se-me directamente do pescoço e acabar ali a minha
performance de aficionado.