Às vezes, quando já estamos a ganhar por 12-0 ou
se pressente no ar aquele golo do Porto em fora-de-jogo que está quase a acontecer,
ponho-me a olhar para o estádio e para as pessoas à minha volta. Todos tão
diferentes do que eu via em criança.
O estádio tem uns arcos por cima, uns tubos por
onde são transportados cimento e substâncias ilegais que depois vão de avião
até ao Vicente Calderón, em Madrid, numa proximidade de afectos e parcerias
empresariais. O tecto tem umas placas de alumínio que parecem ter sido roubadas
ao longo dos anos a cada zona de construção que Mário Dias e Vieira viram
aquando das suas idas às Casas do Benfica e que geralmente servem de ponte
às poças de água que se acumulam nas zonas exteriores à construção das casas. Há
umas varandas onde não podemos parar para beber o nosso gin em garrafa de água
porque estão lá uns senhores de colete amarelo a dizerem-nos que ali é só “zona
de passagem”. E uns bares onde se amontoa gente para pedir sagres zero e sandes
mistas a troco do ordenado mínimo.
Se nos levantamos em apoio ao Benfica - naqueles momentos
em que o Porto marca golos em fora-de-jogo ou levamos mais um impossível
contra-ataque devido à famosa táctica do nosso catedrático e o povo deprime de
cabeça para o chão -, logo alguém se insurge: “está a sentar!”; se cantamos quando
a equipa está a perder, recebemos aqueles olhares de sentença por parte de quem
foi ali, como vai ao cinema ou fazer compras à mercearia, para não ter chatices
nem se preocupar muito com o que está a fazer; se nos metemos aos gritos
histéricos nas escadas, virados para trás, a puxar pelo público, logo aquele
olhar condescentente: “coitado, é maluquinho”.
Olho o estádio e as pessoas e juro, quase prometo,
que aquela gente não é a mesma que eu vi quando era puto - têm os cachecóis e
camisolas do Benfica, às vezes até gritam “Benfiiiiiiiica!” quando são mandados
pelo speaker de serviço (Meo! Agora Coca-Cola! Meo! Sagres! Novamente
Coca-Cola! Agora Gold Strike e Pudim Flan! Presunto de Lamego! Meo! Tmn! Meo!
Sagres! Dois quilos de orelha de porco!), mas parece que lhes saiu Benfica do
sangue, todos compostinhos a ver o jogo, amorfos, quase mortos, autistas,
deprimidos. Só se levantam para chamar nomes ao árbitro e mesmo isso de uma
pobreza vernacular, um “é falta!”, outro “isto é uma vergonha” – o que foi
feito dos bêbados do Benfica e dos insultos rigorosos e assertivos que antes
tínhamos ecoando pelo estádio?
Quando o Porto marca mais um golo em fora-de-jogo
ou num penálti inventado ou numa falta que não existiu ou num golo qualquer mal
amanhado que o corrupto do árbitro inventou, dou comigo a olhar para este
estádio e a lembrar-me do outro, onde todo o tempo era uma festa e uma loucura
demencial apaixonante: as claques lançavam ininterruptamente canções e fumos e
labaredas; os adeptos não se calavam; os jogadores ainda queriam mais do que
nós ganhar os jogos; os treinadores tinham medo de cometer disparates e os
presidentes gostavam mesmo mesmo do Benfica.
Aqueles lugares no velho estádio que foram poiso
de tanta gente que já morreu e às vezes apetece ligar para o quarto anel a
pedir que regressem só por 90 minutos e larguem as conversas em cima de nuvens
que têm quando nos observam de coração nas mãos e nada fazem, entregues às
bebidas espirituais e espirituosas (no quarto anel, vende-se álcool), deixando-nos
perdidos à procura do Benfica.