Na Federação Portuguesa de Futebol, liderada por uma nova equipa de excelsos defensores da verdade desportiva - equipa essa que mereceu da parte do Benfica um "apoio inequívoco" -, promove-se a manutenção de um certo romantismo do passado.
Ainda há lugar ao lirismo e à preservação das tradições seculares - as conversas de bastidores, as tricas, as zangas, os telefonemas obscuros, as ligações suspeitas, as idas à Madalena receber notáveis conselhos matrimoniais do pintinho das bufas, os pagamentos a árbitros, as dádivas solidárias e generosas de belíssimas viagens ao Brasil, as acções sob o jugo do homem do robe (de quem também somos muito amigos) fazem parte de uma herança rica e fundamental na historiografia do futebol português. Importa, por isso, mantê-los e, se possível, aumentar a teia de influências numa perspectiva universal - caramba, somos todos gente de bem, amemos o próximo como a nós mesmos.
Digamos assim: Fernando Gomes pulou da cadeira da Liga no Porto, de onde saiu abdicando do cargo para que fora eleito por gente que em nele acreditou (como nós acreditámos e voltámos a acreditar agora), para a cadeira da Federação em Lisboa mas a essência, o âmago da ideologia, mantém-se: por um futebol limpo de quaisquer impurezas.
Isto diz-nos o próprio Gomes - que nunca foi ouvido em escutas e muito menos foi sabido que era responsável pelos pagamentos e outras oferendas a dignos representantes da Lei deste país, para além de essa execrável ignomínia lançada por gente de parcos recursos ao nível da sensibilidade e formação moral que dava conta de ser Gomes apenas e só um fantoche nas mãos do senhor do robe (de quem somos, ressalve-se, muito amigos) - e dizem-nos outros agentes da luta pela verdade desportiva, incluindo o nosso Presidente que, com o seu "inequívoco apoio", garante aos benfiquistas que - tenhamos todos calma e muita paciência - há obra a ser feita, agora é esperar para ver.
E, de facto, não podia ter sido mais clarificador da obra que se encontra em marcha esta última nomeação para o jogo de Guimarães. Foi quase de lágrimas nos olhos que assisti ao nome do árbitro do encontro de Segunda-Feira, de tal forma ele me emociona só de pensar nas exibições de grande monta que este juiz efectua, ano a ano, jogo a jogo, sempre de uma imparcialidade e uma ausência de anti-benfiquismo - fossem todos como ele e este futebol já teria uma cara mais limpa, acreditem no que vos digo.
Temos de ser justos: não concordámos com o apoio do nosso líder, duvidámos das intenções deste ex-administrador da Sad do Porto, criticámo-lo, explicámos as nossas discordâncias e expusemos novos pontos de vista mas, chegados aqui, a este momento em que nos apercebemos de que as tradições ainda são o que eram e que está chegado o instante que já é uma das atracções do ano futebolístico - o chamado «Xistrema ataca em força em jogo de crucial importância, não vão estes gajos ganhar mesmo isto» - não só nos curvamos perante a defesa intransigente do Benfica por parte do nosso grande Presidente como até estamos dispostos a aceitar as novas ordens vindas das crónicas do jornal do clube e até de gente que há uns tempos dizia raios e coriscos de uns e outros e que hoje parece ler na Olivedesportos e seu tiranito a bíblia do que deve ser palavra, ordem e lei.
Carlos Xistra é, acima de tudo, um entertainer, um bom rapazola, um espertalhaço. Traz emoção ao campeonato, adora o equilíbrio de forças, aquela contenda rasgadinha até mesmo ao finalzinho da última jornada - é, no fundo, um romântico daqueles que já quase não existem. Mas isto se for o Benfica a ir na frente. Se for outro clube - e não vamos agora estar aqui a nomear clubes e a criar teorias da conspiração, afinal sabemos perfeitamente que o futebol lusitano está limpo de toda essa miséria que o atormentou no passado -, Xistra gosta é de resolver logo as coisas para que, enfim, compreendamos, as equipas portuguesas se deixem de fitas e cansaços desnecessários e possam ir às finais e meias-finais europeias.
Quem não se lembra desse acto profundamente altruísta de Xistra no ano passado, em que, toldado pela nobre ideia de resolver as contas do campeonato e assim poder devolver à Liga Europa Benfica, Porto e Braga em excelentes condições de a disputarem até ao fim - o que acabou por ser feito, com notável mérito -, Carlos fez uma das suas mais brilhantes actuações, atingindo a euforia e o generalizado regozijo quando decide expulsar Javi Garcia por este ter sido empurrado por Alan. Bravo, Carlitos, bravo! A multidão empolgou-se, finalmente um árbitro com princípios e valores acima de quaisquer suspeitas. O futebol português orgulhosamente agradeceu.
E ainda hoje há quem peça encarecidamente a Fernando Gomes que, mais dia menos dia, Xistra volte a arbitrar o Benfica, especialmente agora, dizem, que o campeonato parece estar muito monótono. É altura de agitar as águas, dizem vozes obscuras em telefonemas parecidos com outros que também existem, toda a gente pôde ouvi-los, toda a gente pôde saber que os ouviu e que eles são de facto reais mas que os juizes têm de fingir que não sabem nem nunca ouviram falar em tais coisas. Um pouco como o marido que, em vez de ir ao quarto, prefere levantar o som da televisão para que o gajo que está na cama a comer-lhe a mulher não se chateie e ainda o venha sovar a ele - isto tudo num ambiente de verdade desportiva, esclareça-se de vez para que não haja enganos.
E então Gomes, nosso querido amigo, antigo pagador de oferendas e dádivas mil, hoje vassalo do outro nosso grande amigo que, diz o jornal do Benfica, é uma personagem que não oferece qualquer espaço para dúvidas - um empresário de valia, que apenas quer investir e garantir lucro e nada, mas nada mesmo, juro-vos, para além disso -, tratou do assunto, levantando-se muito enérgico da cadeira, depois de ter fugido da outra: "ponha-se Xistra no jogo do Benfica!", "Este é jogo para Xistra!", "Xistra, amigo, apita com alma!", e várias outras frases que, em catadupa, foi fazendo, registando até a notável inspiração num caderninho que mantinha sempre no bolso do casaco, para estes momentos em que a vida o iluminava e o amparava no seu leito de transcendência.