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quarta-feira, 7 de março de 2012

Considerandos sobre a noite europeia

Há uma ideia - inventada não sei onde, não sei como, não sei por quem nem por que razão - de que uma equipa que precisa de marcar golos deve meter mais avançados. Jesus deve pensar o mesmo, pelo menos tem sido esse o seu histórico. No jogo de ontem, mais do mesmo erro: entra num jogo fundamental com um meio campo central com apenas duas unidades: Javi e Witsel, soltando um meio-Rodrigo (o homem não está em condições, nem físicas nem psicológicas) na frente em apoio a Cardozo.  

O que deu isto? Deu o filme habitual: incapacidade da equipa para construir de forma inteligente e, defensivamente, várias bolas verticais entre o meio-campo e a nossa defesa que não deram golo não pela nossa extraordinária organização mas pela rápida intervenção dos centrais e por alguma inépcia dos jogadores russos. 

A escolha de Jesus para o jogo de ontem foi a confirmação (se houvesse necessidade de tal coisa) de que cada vez mais se mostra incompetente para o cargo que ocupa - não por falta de talento, obviamente, mas porque tende para o abismo e para a impossibilidade de aprendizagem e evolução. Jesus não sabe aprender, não se questiona, não reflecte sobre as próprias ideias e sobre as ideias dos outros. Quer levar a sua até ao fim, mesmo que a realidade lhe vá demonstrando que tem de corrigir tiques nefastos para o próprio e para o clube que representa. E é pena, porque é dos treinadores mais talentosos do mundo. Quisesse Jesus saber aprender e tínhamos treinador para uma década. 

Não querendo, e nem sequer pondo agora em causa decisões de final de época, cada vez parece mais certo de que não será com Jesus que conquistaremos a hegemonia nacional. É risco a mais, cabeça a menos. Umas vezes, resulta e é uma festa; outras, são tiros na cabeça. Uma roleta russa que não pode servir de mote a um clube como o Benfica.

Por outro lado, e passados 3 anos, Jesus finalmente entendeu que a estratégia das substituições é algo que deve ser utilizado não para potenciar mais ataques em catadupa e jogo de malucos mas para, de facto, equilibrar a equipa e potenciá-la de acordo com o momento específico em que cada uma é executada. Sinceramente não me lembro de jogo nos últimos 3 anos em que as mudanças efectuadas tenham sido tão acertadas e - e isto é que é estranho - tão óbvias. Pelo menos para quem vê futebol sem óculos de cabedal. 

Retirar Rodrigo era um grito que se pedia já desde o final da primeira parte em que o coitado do rapaz, mal fisicamente e ainda a medo na disputa de lances, andava perdido, fazendo maus passes, tentando rasgos inconsequentes e deixando a equipa sem poder de rasgar a defesa do Zenit. Colocar Nolito pelo ex-Madrid, encostando Gaitán às costas de Cardozo, a dose certa para uma equipa que se queria apta a explorar o espaço deixado pelos russos. Parabéns, Jorge, demorou só 3 anos.

Faltava, no entanto, preencher o meio-campo, até porque Witsel (que jogo monstruoso), apesar de poder parecer um tentacular polvo com 50.000 pernas e de ter a capacidade para guardar a bola mesmo que ela fosse uma dose de heroína numa rua esconsa do Bronx, parecendo que não, também é humano e convinha soltá-lo para uma zona em que não só capitaneasse a pressão como fosse ele o primeiro na fila para decidir. Entrou Matic, saiu Gaitán. Bravo, Jesus! 

Eu, por esta altura, ganhei esperança. E passou-me pela cabeça: com o Porto, não houve disto porquê? Mas, mais uma vez, as minhas ideias sobre as opções do Jesus deixo-as no fundinho do meu coração. Acreditem que vocês não querem saber as minhas mais magoadas suspeitas. Azar, coincidência, arbitragens, ocultos poderes 1 em 9 pontos em 3 jornadas na fase crucial do campeonato de um gajo que tinha perdido 6 em 18 jogos? Eu também já fui de acreditar no Pai Natal.

Mas, como dizia, fiquei esperançado. Embora ao meu lado, muito se tivessem chateado por ter saído Gaitán e ter entrado Matic. Afinal, na ideia destes adeptos, "lá está o gajo a defender!", frase brilhante, especialmente porque todos acreditamos que estes mesmos rapazolas terão dito da substituição de Rodrigo por Aimar no jogo anterior: "lá está o gajo a atacar!". Isto cada um é para o que nasce. E o comum adepto do Benfica não nasce muito para apoiar. Se lhe falarem em chamar nomes ao Burro Alves ou assobiar os adeptos do Zenit, ah isso, meus amigos, levantam-se da cadeirinha e é vê-los indignados. Agora... apoiar a equipa, cantar o jogo todo, gritar bem alto "Benfiiiiiiiiiiiica" é só quando o rei faz anos e nós aqui só somos monárquicos quando a bola bate na rede. 

A minha esperança, no entanto, manteve-se sorridente. A equipa acalmou, obrigou a equipa russa à única táctica que conhecia e que táctica: Burro Alves vai até ao meio-campo e faz passes de 30 metros para o lateral-esquerdo. Maxi agradecia, metia em Javi que metia em Matic que metia em Witsel e era um carrossel até à baliza adversária. A equipa em 4231 (Matic não é trinco, Matic não é trinco, é preciso dizer mais quantas vezes?) controlava, geria a posse e - espantem-se os incrédulos! - chegava mais vezes à possibilidade de golo do que quando tinha 2 avançados. 

Deixem-me só voltar atrás nesta trama: Gaitán, como também vimos dizendo aqui há dois anos, é um excelente - EXCELENTE - homem de apoio ao avançado. Vão rever o jogo, vejam o que pode fazer este menino se solto das amarras das alas e mais perto das zonas de decisão. Depois conversamos. Jogo quase perfeito, mesmo quando cinicamente se pensava que Gaitán jogava nas laterais. 

Por esta altura, andava a pastar pelo campo um rapaz goleador mas que para o jogo que pretendíamos valia zero. Primeiro, porque se lhe enfiassem um morteiro na boca, ele explodia e depois porque servia de desculpa aos alivios supostamente responsáveis dos nossos jogadores: quando não tinham imaginação para mais, os colegas atiravam a bola em profundidade para o Cardozo naquela do "eu fiz o passe, o gajo é que é lento", o que, além de revelar mau feitio, explicava ao Jesus aquilo que ele demorou a entender mas que lá conseguiu ver passados uns minutos: estava a pedir avançado novinho em folha. Veio Oliveira. Podia ter vindo Saviola. Um dava uma coisa, outro dava outra. No fim, foi a escolha certa, dirão os especialistas, o rapaz marcou um golo. Por mim, tinha feito a escolha errada. 

É golo. A Luz explode de alegria e alívio. Mais uma noite épica do glorioso. E, para acabar em beleza, o melhor jogo - de longe - de Emerson ao serviço do Benfica. Há noites assim.