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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A gestão de LFV 2 - Revisão


No seguimento do post anterior propomo-nos investigar as causas dos prejuízos nos últimos 4 anos, visto ser assumido pela Direcção que o modelo de gestão passa pela valorização de activos, modelo no qual o treinador Jorge Jesus é peça fundamental.

Será que o Benfica tem lucros tão grandes com a valorização de jogadores? Assumindo que este é o modelo que assegura o equilíbrio às contas deveremos pressupor que  o saldo das compras e vendas de passes de jogadores é permanentemente positivo.



O saldo das transferências líquidas é igual à diferença entre os montantes obtidos pelas vendas dos jogadores (valores brutos, por exemplo 3,5 milhões por Éder Luís, 1 milhão por Felipe Bastos ou 1,2 milhões por Daniel Wass) e as aquisições de passes de jogadores (por exemplo 2,7 milhões por 30% do passe de Maxi Pereira) ou os encargos com as renovações de atletas (na época 2011-12 a Benfica SAD renovou Luisão, Gaitán, Jara, Luis MArtins, Urretaviscaya, Maxi Pereira, Pablo Aimar, Ruben Amorim, Javi Garcia e Javier Saviola).

Saldo líquido de transferências = alienações de passes - aquisições de passes - encargos com renovações de contratos

Os números foram essencialmente retirados dos Relatórios & Contas da Benfica SAD, porém visto que os dados mais antigos não estão discriminados nesses documentos, foi necessário consultar fontes alternativas para podermos obter a valorização de aquisições e alienações como os sites do zerozero ou do transfermarkt. Convém realçar que estamos a falar dos valores de transferência e não das mais-valias obtidas com essas mesmas transferências.

Conforme se observa no gráfico acima, excepção feita à época de 2006-07, deveremos falar mais de épocas de investimento na equipa do que de épocas de vendas de jogadores. Nas últimas épocas temos realizado grandes vendas, como é possível então que sejam épocas de investimento ? Observemos então as últimas 5 épocas em detalhe:




Efectivamente, apesar de vendas que nas últimas 3 épocas somaram mais de 125 milhões de euros, a verdade é que as aquisições do Benfica nestas últimas 3 épocas custaram uns inacreditáveis 136 milhões de euros. Aliás se formos somar as últimas 5 épocas, os valores sobem para 153,2 milhões de euros de alienações, o que corresponde a uma média 30,6 milhões de euros, e 212,3 milhões de euros o que quer dizer uma média anual de mais de 42 milhões de euros.

Em conclusão, por muito que o Benfica consiga valorizar e alienar passes de jogadores a verdade é que investiu nos últimos 5 anos quase mais 60 milhões de euros do que obteve através das alienações. Claro que rapidamente irão perguntar pelo Witsel e pelo Javi. É verdade que nesta temporada, 2012-13, o valor das alienações é muito superior, 63,6 milhões de euros, ao valor das aquisições 18,1 milhões de euros, compensando cerca de 75% do investimento das últimas 5 épocas. Porém, quando se analisa apenas dados trimestrais podemos ficar com ideias erradas, pelo que apenas deveremos olhar para os valores das épocas completas, isso mesmo é referido no recente relatório do primeiro trimestre da Benfica SAD.

Quais as consequências então desta política de investimentos ?

Em primeiro lugar, o aumento significativo das amortizações. 





O que são as amortizações ? Quando se adquire o passe de um jogador este assina um contrato com a SAD de x anos. Imaginemos o caso do Bruno César, cujo passe custou 6 milhões de euros e assinou por 6 anos até 30 de Junho de 2017. Ao valor de 6 milhões, dever-se-ia adicionar o prémio de assinatura, mas como não me foi possível saber o valor do prémio de assinatura (luvas), vamos utilizar como referência apenas os 6 milhões e dividir este valor pelos 6 anos de contrato, ou seja, o passe do Bruno César vai ser amortizado ao valor de 1 milhão de euros por ano. Ou seja, o Benfica em vez de na aquisição contabilizar um custo de 6 milhões, vai dividir esse custo ao longo do contrato, à semelhança do que fazem as empresas quando adquirem um qualquer equipamento. Se o contrato fosse apenas de 1 ano, então esse valor teria que ser contabilizado numa única época.


De referir que antes de 2007-08 as amortizações de jogadores não estavam isoladas das outras amortizações (amortizações de equipamento), pelo que optei por calcular o valor para 2006-07, através do desconto mencionado para o valor da amortização do CFC, considerando o remanescente como residual. Independentemente disso, verificamos que na época de 2011-12, o valor das amortizações com passes de jogadores é praticamente o dobro do valor da época de 2007-08.

Aliás, se olharmos em termos internacionais, os valores de amortizações do Benfica não eram muito diferentes dos valores do Bayern Munique na época de 2010/11.




Efectivamente, a diferença que separa o Borussia de Dortmund do Benfica é maior do que a diferença que separa o Benfica do Bayern Munique ou mesmo as diferenças que separam os valores do Benfica dos valores de AC Milan e Manchester United.

A opção pela inclusão pelo Borussia de é para provar que um clube que é competitivo, o Borussia é campeão alemão em título (2010-11 e 2011-12) e tem como modelo a detecção de jovens jogadores talentosos para desenvolvimento e posterior alienação com mais-valias. Em 2012, o Borussia vendeu o passe do japonês Shinji Kagawa por 16 milhões de euros que tinha sido adquirido por 350.000 euros ao Cerezo Osaka em 2010 e o passe do paraguaio Lucas Barrios por 8,5 milhões de euros ao Guangzhou Evergrande que havia adquirido em 2009 por metade do valor ao Colo Colo.

É certo que o Benfica consegue realizar vendas maiores mas se compararmos o investimento líquido em transferências (vendas-compras) nas últimas 5 épocas, a verdade é que enquanto o Benfica investiu 59 milhões de euros e conquistou um campeonato, o Borussia investiu 16 e conquistou 2.


A segunda consequência da política de investimentos é o crescimento dos custos com pessoal.




Para que seja mais fácil ler a informação do gráfico, o valor dos custos com pessoal está a vermelho na base das barras, ou seja em 2007-08 os custos com pessoal foram de 27 milhões de euros, enquanto que em 2011-12 tinham subido para 48 milhões de euros. Concomitantemente o número de jogadores sob contrato no final da época de 2007-08 era 36, enquanto que a 30 de Junho de 2012 esse número tinha subido para 81.

Enquanto que os custos com pessoal cresceram 77% em 5 épocas, o número de jogadores aumentou 125%, ou seja grosso modo podemos afirmar que o custo médio por atleta baixou cerca de 20%.

Mesmo tendo em consideração que há uma equipa principal, uma equipa B que deverá servir de suporte às necessidades da equipa principal e adicionalmente alguns juniores que não estando incluídos na equipa B também têm contrato profissional, não me parece que 81 atletas seja um número adequado às necessidades / possibilidades do Benfica.


Um aspecto que é importante de analisar, quando nos debruçamos sobre os custos com pessoal, é a relação entre custos com o pessoal e receitas. Inclusivamente, as regras do Fair-play Financeiro da UEFA, que deverão ser adoptadas na época de 2013-14, indicam que o rácio entre os custos com pessoal e as receitas geradas com o futebol não deve ultrapassar os 70%.


A linha descontínua do rácio entre os custos com pessoal e as receitas (turnover), deve ler-se no segundo eixo (%), pois trata-se de um valor relativo e não absoluto.

Ao contrário das outras principais equipas portuguesas, por muitos malabarismos que se façam para transformar custos com o pessoal em serviços externos, o Benfica normalmente cumpre este requisito. Porém, convém realçar, que uma eventual ausência da Liga dos Campeões poderá alterar esse facto dado o peso dessas receitas no total das receitas do Benfica, como se comprova pelo pico (86%) que aconteceu na época de 2008-09.

Como o post já vai longo, em jeito de resumo, podemos dizer que a gestão do Benfica, em particular nos últimos anos, tem sido marcada por investimentos significativos na aquisição de jogadores, tanto em valor como em quantidade. Esses investimentos além de ultrapassarem o valor das vendas, e atenção que salientámos que não se tratam dos valores das mais-valias geradas mas apenas dos valores das transferências, originaram um crescimento significativo das amortizações anuais.

Outra consequência foi um aumento significativo dos custos com pessoal, mas esse valor tem sido contra-balançado pelo crescimento das receitas. No entanto, como as receitas dependem do desempenho desportivo na liga interna com a consequente qualificação para a Liga dos Campeões, esse factor é um factor de risco para o cumprimento de um dos requisitos do Financial Fair-play da UEFA que entrará em vigor na época 2013/14.


PS - Não há engano, este post foi republicado visto que chegámos à conclusão que a não explicação sobre os conceitos de amortizações e transferências líquidas poderia ter tornado o texto demasiado técnico, pelo que optou-se pela republicação com a inclusão da explicação do que são as amortizações e o saldo líquido das transferências.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A gestão de LFV


Este é o primeiro de uma série de posts em que se abordarão factos relativos à gestão do Benfica nos últimos anos. Os números apresentados serão essencialmente baseados nos Relatórios e Contas da SLB SAD, que estão disponíveis na internet para quem os quiser consultar.

O Balanço de uma sociedade é constituída por activos e passivos, sendo a diferença os capitais próprios da sociedade.
Os activos são os recursos que a sociedade controla, resultado da actividade passada e com os quais se espera que possam trazer benefícios económicos à sociedade.
Ao invés, os passivos são as obrigações com que a sociedade se comprometeu no passado e que terão que ser liquidadas.
Os capitais próprios de uma sociedade são o remanescente dos activos depois de deduzir todos os passivos, ou seja reflectem portanto a riqueza dessa mesma sociedade, quer a inicial* (capital social) quer a adquirida (reservas/resultados transitados). 
*-o capital social pode ser diferente da riqueza inicial se existirem operações de aumento ou de diminuição do capital social.


Estes valores referem-se unicamente à SLB SAD e não incluem os valores consolidados das outras empresas do Grupo Benfica. A opção de utilizar os valores individuais para o gráfico tem a ver com a coerência dos dados, visto não fazer sentido comparar realidades diferentes.

Os valores demonstram claramente uma subida de activos e passivos, mas em que os últimos têm crescido mais que os activos, o que originou a situação de capitais próprios negativos no final da época 2008-09 e novamente em 2011-12.

Perante esta situação, optou-se em 2009 pela reestruturação do grupo, com a integração da Benfica Estádio na Benfica SAD, o que implicou um aumento significativo do capital social (de 75 para 115 milhões de euros), dos activos e dos passivos da Benfica SAD, como se comprova no gráfico, voltando os captais próprios a serem positivos (apesar de ter sido mais um exercício com resultados líquidos negativos como adiante verificaremos).

Em termos de diferenças entre os valores consolidados e individuais da Benfica SAD, abaixo apresentamos a comparação da evolução dos activos, dos passivos e dos capitais próprios.



Conforme se pode verificar pela comparação no gráfico anterior, após a reestruturação do Grupo Benfica, os activos da Benfica SAD subiram de 167 milhões de euros em 2009 para 334 milhões de euros em 2010. Com a inclusão das outras empresas no perímetro de consolidação, devemos também olhar para o valor consolidado dos activos da Benfica SAD quando analisamos a realidade do Benfica.



À semelhança dos activos, também os passivos da Benfica SAD tiveram um aumento significativo de 179 milhões de euros em 2009 para 326 milhões de euros em 2010.


Aqui optou-se pela apresentação dos valores com 3 casas decimais para que se tivesse uma noção mais aproximada das variações. Conforme foi referido, após a reestruturação do Grupo Benfica, os capitais próprios saíram da situação negativa de quase 12 milhões de euros para uma situação positiva de quase 8 milhões de euros. No entanto e com o continuar da acumulação de resultados líquidos negativos, em 2012 os capitais próprios da SAD voltaram à situação negativa de 2009.

Quer isto dizer que a SAD voltou à situação de falência técnica? Sim e não. Sim porque em termos do Código das Sociedades Comerciais (artigo 35.º), quando os capitais próprios de uma sociedade são negativos esta está em falência técnica. No entanto, existe uma reserva de valor que não está reflectida nos activos da SAD.

Em termos de balanço, o plantel da Benfica SAD a 30-06-2012 estava avaliado em 92 milhões de euros, embora este valor não reflicta o valor total dado que algumas parcelas de passes estão alienadas ao Benfica Stars Fund (BSF). O BSF indica que o valor dos jogadores em carteira a essa data era de 16,8 milhões de euros, ou seja, em termos contabilísticos, o valor líquido do plantel do Benfica rondaria os 109 milhões de euros. Consultando sites internacionais sobre transferências de jogadores e avaliações de passes, facilmente obteríamos uma valorização do plantel superior a 200 milhões de euros a 30 de Junho de 2012, pelo que a situação de falência técnica na verdade era meramente teórica.

No entanto e fazendo o paralelismo com o Sporting, quando uma SAD necessita de vender os seus activos para realizar dinheiro, os valores que obterá pelos passes de jogadores serão sempre abaixo dos valores de mercado, à semelhança de quem passa por dificuldades financeiras e precisa de vender parte do seu património com urgência para arranjar dinheiro também nunca conseguirá obter o justo valor pelo património vendido, dada a necessidade de liquidez.

Os valores das massas patrimoniais são valores acumulados; isto é, resultam dos resultados de todos os anos anteriores. Fazendo o paralelismo com o país, é o mesmo que estarmos a falar da dívida pública. Para chegar a estes valores devemos então perceber como têm sido os resultados anuais, resultados estes que em termos do país corresponderiam aos valores do défice.

Durante um exercício há receitas e despesas que são classificados em proveitos e custos. Se os proveitos superarem os custos temos um resultado líquido positivo, ou seja a sociedade terá tido lucro; caso contrário, teremos um resultado líquido negativo, isto é, a sociedade durante um ano terá perdido parte da sua riqueza.




Conforme referido anteriormente as fontes dos dados são os Relatórios & Contas Anuais da SLB SAD. Os valores do quadro estão em milhares de euros; os do gráfico, como legendado, em milhões.

Os números dos três mandatos de LFV são inequívocos, nas primeiras três épocas, 2003-06, somou um prejuízo de 15 milhões de euros que foram compensados na época de 2006-07, em que o lucro atingiu os 15 milhões de euros. A seguir seguiu-se uma época relativamente equilibrada, 2007-08, onde apresentou um lucro residual  e desde aí soma quatro épocas de prejuízos constantes, tendo ultrapassando os 73 milhões de euros de prejuízo acumulado nessas 4 épocas.

Estes 73 milhões de euros renderam 1 Campeonato e 4 Taças da Liga, enquanto os 15 milhões de euros de prejuízo entre 2003 e 2006 tinham rendido 1 Campeonato, 1 Taça de Portugal e 1 Supertaça mas na altura não existia a Taça da Liga.


Quais as causas para este acumular de prejuízos?

Um fenómeno que tem concorrido para este agravar de resultados são os custos financeiros originados por um passivo oneroso crescente, ou seja, o valor do conjunto de empréstimos bancários e obrigacionistas que a SLB SAD e restantes empresas do Grupo Benfica contraíram tem aumentado apesar do que foi afirmado em campanha pelo Administrador Financeiro.



Os números aqui apresentados reflectem unicamente os valores individuais da Benfica SAD e não os valores agregados do Grupo Benfica.

Na verdade, antes de Luis Filipe Vieira assumir a presidência do Benfica, o endividamento bancário, lato senso, rondava  os 25 milhões de euros em 2003 e cresceu até aos 95 milhões de euros em 2007. Em Janeiro de 2008, com uma reestruturação do Project Finance do estádio, a Benfica SAD liquidou 48 milhões de euros à banca.

Se olharmos aos números, o impacto da reestruturação do Grupo Benfica que ocorreu durante a época 2009-10 foi menor do que a decisão de endividamento para obter resultados desportivos que foi tomada na época anterior:

"Por último, há que referir que este aumento do endividamento está relacionado com a necessidade da Sociedade em investir com o intuito de obter resultados num futuro próximo, sendo de destacar que as instituições bancárias continuam a acreditar e a apoiar a estratégia da Benfica SAD através da criação de condições que têm permitido à Sociedade financiar a sua actividade." - in RELATÓRIO & CONTAS 2008/2009 - Benfica SAD

Esta foi uma política seguida pela Benfica SAD não só na época 2008/09, mas também nas recentes épocas; caso contrário, o passivo "bancário" não teria crescido mais 62 milhões de euros entre 2010 e 2012.



Relativamente ao Centro de Estágio e apesar do empréstimo do mesmo estar incluído nas contas individuais da Benfica SAD, a verdade é que a dívida passou de 15,368 em 2009 para 11,307 milhões de euros em 2012. Já quanto à Benfica Estádio - onde se concentram os financiamentos -, o valor dos empréstimos desceu dos 78,937 milhões de euros em 2010 para os 69,031 milhões de euros em 2012.

Existe pois um endividamento que é explicado pelos investimentos anteriores em infra-estruturas físicas, Estádio e Centro de Estágio, mas não são estes que explicam o crescimento do endividamento bancário nos últimos anos, ao contrário da ideia que tem sido vendida, pois os seus valores estão a diminuir ao contrário do endividamento da SAD.

Quais as razões para este crescimento do endividamento? Há várias e pretendemos explorar nos próximos posts. No entanto, o essencial a realçar é que apesar de tudo o que tem sido dito e escrito, a gestão de Luís Filipe Vieira, em especial nos últimos 4 anos, somou prejuízos e aumentou o endividamento bancário sem que o mesmo tenha sido originado pelos investimentos nas infra-estruturas desportivas.