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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Perdemos com uma vitória por 1-0



Talvez seja preciso recuar a um Benfica-Barcelona de 2006 para encontrar um dia em que o adversário chegou à Luz e fez de nós o que quis. Mas nem assim (ainda respirámos nesse jogo). O que se passou ontem foi um atropelo do princípio ao fim. Foi olhar para um jogo em que de um lado há um óptimo treinador e do outro há um mau treinador. Sem medos: há um mau treinador. Os jogadores do Benfica não estavam minimamente preparados para o atropelo que levaram; não sabiam o que iam encontrar, ninguém lhes disse que terrenos deveriam pisar, o que fazer em campo, que fórmulas para contrariar o adversário.

Como benfiquista - sócio, adepto, doente -, sinto vergonha do que se passou no Estádio da Luz. Ver o meu glorioso clube enterrado na sua área durante 90 minutos não é aquilo que eu espero, não é esse o desígnio que eu defendo para uma ideia colectiva que tem de ser briosa. Não fomos briosos, não ostentámos Mística nenhuma - a malta dos anos 60, 70 e 80 só não vai dizer isto porque foi comprada a troco de pneus para os carros e talvez uns ambientadores para snifar cheiros.

O Benfica, o maravilhoso Sport Lisboa e Benfica, é outra coisa. É um clube que, sem dinheiro, sem reconhecimento, sob a mão trágica de uma ditadura, chegou à Europa e tornou-se Bicampeão Europeu. Em 7 anos, foi a 5 finais europeias. O Glorioso Sport Lisboa e Benfica é o clube que tem 11 finais europeias, 3 delas ganhas. O Benfica, o mais Glorioso, é o clube que mais Campeonatos Nacionais tem, mais Taças de Portugal tem, mais Taças da Liga tem. O Benfica foi durante décadas o clube que contrariou o Estado Novo - o único com eleições democráticas, o único clube do povo, o clube ao qual foi proibido o seu Hino (Avante, Avante p'lo Benfica), o que viu ser-lhe negada a cor  (passou de vermelho a encarnado). O maravilhoso Sport Lisboa e Benfica é maior do que Portugal.

O meu Pai não me ensinou a ser de um clube submisso. Portanto, para mim ontem perdermos com uma vitória por 1-0.



domingo, 29 de maio de 2016

Não me peças nem mais um penálti



As pessoas que nós amamos quando têm tristezas profundas passam, sem querer, essas tristezas para nós. Porque as amamos. Porque estamos atentos à forma como chegam até nós, ao seu olhar vago, dúbio, triste. Quando o meu Pai chegou de Estugarda com os olhos ainda a chorar de um penálti falhado, os meus olhos também choraram porque naquele momento nada havia para além daquele pontapé sem destino. O adepto de um clube tem tristezas impossíveis de explicar a um ser humano normal.

Foi uma vida toda com aquele cabrão daquele penálti agarrado à garganta (ainda lá está, passem os anos todos que passem). Conversas que evitámos assim que esse maldito jogo queria aparecer sobre as mesas de um almoço regado a futebol. O pé do Veloso (que não tem culpa nenhuma), a mão do Van Breukelen  (que tem as culpas todas do mundo e mais algumas), a tristeza colectiva dos gloriosos. Era só marcar golo e talvez tivéssemos sido felizes e voltado a sentir o que outros iguais a nós sentiram em 61 e em 62. Devia ter sido para a direita, se calhar podia ter ido mais para cima, com mais força, de outro jeito. Já todos marcámos aquele penálti de forma perfeita num sonho. Sem a pressão do relvado, sem a força maligna do nervosismo. Desviámos a puta da bola para dentro da baliza e gritámos golo vezes sem conta. No sofá, no carro, no café, no jardim, na vida. É tão fácil marcar um penálti quando não temos de marcar nenhum penálti.

Em Turim, depois de um jogo em que o Benfica mereceu tanto ganhar a Liga Europa, depois de eu meter o meu cachecol no chão das bancadas, ao pescoço, em ângulos que faziam paralelas com as estrelas, o árbitro apitou para o fim e então sabíamos ali naquele estádio que tínhamos de ir a penalties. No nosso interior, um pensamento trágico. Uma sombra cruel a abater-se sobre o futuro. Mas a esperança, sempre a esperança a querer retirar de dentro de nós o bicho malvado da descrença. Olhei o céu de Turim, os meus gloriosos benfiquistas, despedi-me do meu Careca que decidiu ir para fora do Estádio, beijei o meu cachecol às riscas brancas e vermelhas feitas à mão pela minha namorada e pensei no meu Pai em Estugarda em 1988. Jurei-lhe que íamos ganhar apesar de saber que não íamos ganhar.

Estava eu em 2014 em Turim ao lado do meu Pai em 1988 em Estugarda. Os dois à espera dos penalties. À espera do nosso lindo Benfica, à espera de uma vitória que deixasse os gloriosos de 61 e 62 finalmente em paz, sem precisarem de cuidar uma vida inteira de nós. Mas a puta da bola estava com febres. O ar estava irrespirável. Um poema trágico levantava-se sobre o relvado. Já sabíamos que íamos perder aquela final de tão habituados que estávamos a perder finais. Como se fosse proibida a felicidade.

O Benfica já perdeu eliminatórias europeias por moeda ao ar. Já as perdeu por penalties, por frangos, por azares, por lesões, por hesitações, por exaustão. O futebol é um jogo que tem no meio a vida, e por isso continua a ser o mais deslumbrante de todos os jogos. Mas não é justo que em 2016 se continue a promover a decisão de um troféu por uns pontapés com a bola parada. Havendo mérito no sangue-frio de quem a remata, o futebol deve promover o sangue-quente. Se o jogo de uma final acaba empatado, deve o futebol dar aos clubes a bondade de outro jogo. É isso que o nosso coração de adeptos pede em silêncio aos deuses.

domingo, 15 de maio de 2016

A decência gloriosa



Aquilo que eu amo no meu Pai é a decência. O que eu espero do Benfica é a integridade. Quando a decência de um homem íntegro nos dá o TRICAMPEONATO, isso é mística. Isso é à Benfica.

sábado, 19 de março de 2016

AQUELE ABRAÇO DO GOLO (PARA O MEU PAI)



Quando o Simão recebe a bola no meio, a ajeita com um afago e remata para a baliza de Reina, a sala ficou por uns momentos parada, comigo, o meu Pai e a Joplin - a cadela - todos no ar à espera do golo.

Se pudéssemos voltar a esse momento e o congelássemos em pause, notaríamos os nossos joelhos flectidos, as bocas num princípio de entoação e os braços a crescerem para o tecto. A cadela em salto do sofá para o chão, apanhada a meio da viagem, em voo, as patinhas da frente esticadas, o pêlo todo para trás e as orelhas distorcidas. Na televisão, ver-se-ia a bola na zona do penálti, pelo ar e Reina num gesto horizontal de desespero.

Atente-se nos copos de cerveja em diagonal, gotas de líquido paradas na atmosfera, pratos de amendoins oblíquos e ervilhas de salada russa pulando acima da linha da mesa, tapando metade do ecrã entre o poste esquerdo e a cabeça de um defesa do Liverpool. O fumo dos cigarros verticalíssimo e também em ondas, congelado no tempo como uma pintura abstracta - com detalhe, ainda é possível ver figuras imaginárias que o fumo faz. Os cabelos do meu Pai soltos e para trás e a minha mão num gesto de movimento que faz desfocá-la.

Como se estivéssemos empurrando a bola para o golo, há dois pés - um do meu Pai, outro meu - que a chutam no ar por debaixo da camilha e a cadela salta para o cabeceamento oportuno. Vêem-se ainda, se bem observado, os nossos braços em trânsito um para o outro, como se o golo fosse apenas a desculpa para um abraço.

Não há forma possível de voltar a esse lugar. Ainda o mundo nos não permite a congelação em arca frigorífica dos lugares mágicos, junto aos hamburgueres e bifes de peru. Talvez um dia alguém muito mais novo que nós - porque nascido num mundo mais velho que este - invente a propriedade essencial com que se constroem as máquinas de refrigeração dos segundos antes do golo. Por ora, e sem tecnologias adequadas, coloquemos o dedo no play e vejamos o que acontece.

Explode a bola nas redes! Caem amendois, pedaços de chouriço, o pão voa na direcção da lareira, todas as cervejas inundam a mesa e, como cascata, vão descendo numa visão surreal de quotidiano mal explicado. O golo é cantado com mil gargantas dentro de duas, eu e o meu Pai abraçamo-nos, a cadela assusta-se e foge para debaixo do móvel. Na televisão, os jogadores do Benfica vão de cinzento em direcção a uma câmara. Até Beto e seu cabelo amarelo faz parte da trupe.

Nada disto vimos, envoltos num abraço milenar povoado de sonhos e alegria. Quando mais tarde virarmos os olhos para o ecrã, já o Liverpool ganhou um fora na direita ofensiva. Mas nada disso conta para esta história. Nada importa que não seja já sabido - Miccoli faria mais tarde, bem mais tarde, uma bicicleta que o faria correr que nem um louco para os olhos do próprio Pai, no meio do apocalipse benfiquista de Anfield Road.

Hoje não haverá Pai nem haverá Joplin. Estão os dois parados no meu tempo e na minha memória, como entidades que sobrevivem ao passar dos minutos e horas e dias. Congelei-os dentro do coração, sem máquinas avançadas nem ciências transcendentais.

Para hoje peço que muitos joelhos flectidos e muitos abraços no abismo do abraço aconteçam. Com amigos, entre amigos, em família. Um estádio todo suspenso no ar e as bolas em trânsito mortal para o golo.


domingo, 6 de dezembro de 2015

Respeitar e defender o Benfica

Invariavelmente, dou comigo a pensar se o meu Pai daria alguma hipótese de apoio à personagem que desgoverna o nosso querido clube. Invariavelmente, a resposta é sempre a mesma: "estás doente, puto?". Isso conforta-me a alma e dá-me força para continuar a lutar pela libertação física, moral e gloriosa do mais maravilhoso clube do mundo, o Sport Lisboa e Benfica.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Quando um de nós morre, é menos um golo do Benfica



O que há de mais chato na morte dos que amamos, para além do chato que é a morte dos que amamos, é o nunca mais podermos ver bola com eles. E nunca mais podermos beber uns copos com eles. E nunca mais podermos ver o nosso clube com eles. Nunca mais podermos fazer isto tudo com eles: ver o nosso clube, ver bola e beber copos com eles. E conversar. Ver bola e conversar com eles. Rir com eles de nós e rir deles connosco.

Hoje o Benfica vai jogar em Leverkusen e eu não posso chamar o meu Pai para irmos beber uns copos juntos e vermos o jogo por aí. Não podemos arrancar e ir ver o jogo a um tasco no Redondo ou no Alandroal. Lembrarmos o golo do Isaías que vimos ao vivo, juntos, entre abraços, naqueles últimos minutos de um jogo frio na Luz que antecipou o fogo eterno do Ulrich Haberland. Ele lembrar-se da minha infância e do meu imberbe benfiquismo; eu lembrar-me da sua chama de Pai, da sua chama de benfiquista.

Já não podemos ir ver o vídeo que se gastou pelas milhares de vezes que o vimos juntos, o vídeo dos 4-4 que sempre chegavam aconchegados num abraço entre o meu Pai, eu, o Rui Costa ainda com a camisola suada e o Toni em delírio. 4 golos para 4 pessoas, 4 abraços, 4 vidas. Em 20 anos, 20 mortes? Quantas mais no silêncio que percorre o carril do tempo e vem chegando agora de mansinho? Essa distância é a qual sobre esse 94 que parece ter sido numa outra vida vivida; diferente desta, num mundo distante deste, noutro futebol, qual futebol? Qual vida? Que morte? E o que morreu?

Já não vou ver o jogo com o meu Pai. Nesta noite ou numa noite qualquer. E é chato porque é bom ver a bola e beber copos com os nossos melhores amigos. Quando um morre, nessas noites, nesses jogos, nesses golos do Benfica já não rimos tanto nem com tanta vontade. Abraçamos menos e pior. Festejamos doridos. Quando um morre, é menos um golo do Benfica. Uma bola disparada por cima da trave em direcção ao tudo que é o nada.

domingo, 29 de junho de 2014

Brasil 2014 - O dia América do Sul

1) Ao contrário do que era expectável, nos penalties venceu o Brasil. Geralmente nestes momentos a equipa que não é favorita e que consegue chegar até à última das barreiras do jogo, parte para a mesma com uma bagagem mental muito superior à outra. Em Turim, ainda antes de os jogadores partirem para as grandes penalidades do lado dos adeptos do Sevilha, senti muito isso. Não queria deixar que a ideia me consumisse por inteiro, depois de 120 minutos em pé, ali na fila 3, a cheirar o relvado e a apoiar o Benfica.

Lembrava-me do meu Pai e do mesmo que passara em Estugarda e queria muito vingar-lhe o momento do grande capitão Veloso. Deus, se existisse, devia ter deixado o Benfica ganhar o jogo de Turim e ontem o Chile ter ganhado a sua epopeia. Este Brasil é deprimente. Só não cairá contra a Colômbia por muita sorte.



2) A Colômbia só cairá contra o Brasil por muito azar. Uma excelente equipa na qual brilha muito alto um jogador encontrado pelo Benfica e desviado... pelo Benfica. Melhor: por um portista que trabalha dentro do Benfica. Enfim, belo futebol colombiano a lembrar Valderrama y sus muchachos. Naquele Mundial de 90 via os jogos agarrados a uma bola da competição que o meu Pai tinha trazido de Viena, trocada com um italiano por um cachecol do Benfica (com a bola vinha também o cachecol rossoneri «Curva Sud San Siro»). 24 anos depois, não dá para acreditar que já passaram 24 anos.

A minha aposta antes do Mundial era a França. Continuo na mesma, mas atenção a estes meninos (James é de outro mundo).

sábado, 3 de maio de 2014

O meu Valdo Cândido de Oliveira Filho

 Camisola vermelha comprada numa feira, um "1" e um "0" feitos à mão e cosidos pelo meu Pai nas costas, uns calções brancos, curtos, e umas chuteiras simples. Faltou-me a Afro para ser o Valdo. De resto, estava tudo lá: a indumentária e eu, em imaginação. Quando corria, fazia aquele compasso de espera, fintava uma pinha, deixava-a cair, voltava a rodopiar, levantava a cabeça. Um pinheiro pedia-me a bola, isolado. Fingia que passava, metia para dentro, corria, olhos no chão, olhos na bola, olhos em frente. Peito feito sobre o ar vespertino, a bola chegando-me aos joelhos. Pai, posso ser o Valdo? 

 O carro estava estacionado numa clareira, entre o pinhal. Portas abertas, todas, bagageira para cima, com bolos, pão, vinho, rissóis e panos feitos numa máquina Singer que a minha avó rodava nas mãos e nos pés feita malabarista no escuro em frente a uma parede com fotografias de gente muito velha a preto e branco. Jazem aqui flores e nomes e cães iguais aos que há agora mas a cinzento e há tanto tempo mortos. Quantos cães tem uma vida? 

 Há uma voz que ressoa por entre os ramos. Anunciam golos de tarde desportiva, emissões de Portimão a Coimbra, vão para Braga, voltam a Lisboa, dirigem-se a Leiria, ficam em Chaves. Rudez Thiomir marca golo. E os cestos de verga abanam no gooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo de Rudez, golo do Chaves, lance que se iniciou na intermediária, a bola rodou sobre um adversário, avançou pelo miolo, chegou à linha, foi cruzada, um impasse, o mundo todo parado observando o croata, a indecisão, quase remate, remate, bola nas redes. Alguém vem e pergunta: foi golo do Benfica? 

 A minha camisola tem um "1" milimetricamente na diagonal - não se vê a um metro de distância, mas está lá, não foi trabalho de fábrica, houve mão de amador, aquele que ama. Na frente, há pescoço porque há decote em v, o vermelho é um vermelho mais escuro e não se vende no Media Markt, porque o Media Markt não existe e porque há coisas que o Media Markt não pode vender. Mas há um Valdo a correr nos pinheiros. E vários golos porque o golo tanto pode entrar entre árvores como entre pedras - o jogador decide, no calor do momento. A distância entre o Valdo e o carro depende dos gritos que ecoam. Claro que os pés não sabem por que razão avançam para os pastéis de bacalhau quando há grito de golo mas o coração não tem dúvidas: vai à espera do Benfica. É agora? Foi golo do Benfica? 

 E aquele som contínuo, não no "g" que demora pouco, mas no "o" - quantos ós e desesperantes - e toda a gente parada, eu, o meu Pai, as rodas do carro, as folhas, o gesto das febras na grelha, o céu e as nuvens que deixam de construir imagens - tudo parado. É golo, mas de quem? Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo. E antes do "l" e muito antes do "o" que o continua olhos não no rádio mas uns nos outros, eu olho o meu Pai que me olha a mim que o olho a ele. O "1" cosido nas costas a olhar o "0" cosido nas costas, pedaços de terra saltam e ficam no ar à espera. Diz Benfica, diz Benfica, diz Benfica, o coração aos pulos, diz Benfica, diz Benfica, diz Benfica, as pernas flectidas, joelhos em silêncio, quase dor muita dor, braços à espera, mãos curvas, ouves o som do público? 

 É indefinível, gritam todos e muitos, não sabemos quem nem por quem nem onde. Há som e ruído, imaginamos bandeiras sob o sol, cachecóis no vento, abraços, gente aos gritos, garrafões tombados. Mas é Benfica ou não? E o "oooooooooooooooooooooooooooooooooooo" continua, o homem tem fôlego, não se cala, mantém a surpresa na garganta, a bola junto a uma das rodas do carro, esquecida e adormecida, esperando o movimento. Não há movimento, só um grito que não acaba, e o golo, o golo é de quem? Há uns sons metálicos de assobio enquanto o rádio canta. Ondas de silvos no meio dos óculos da avó que retira pratos e garfos e facas de plástico do interior de um saco. 

O carvão todo junto, negro, colante, uma imagem de um sol sobre a estrada de terra e uma menina que corre, indiferente ao golo, pelos cogumelos e musgo. De quem é o golo? O vestido às rosinhas não sabe, prefere dançar oblíquo sem rota nem bandeira. O golo, que é de alguém, não chama aquela corrida atrás de uma borboleta que faz desenhos no ar e depois desaparece. ... doooooooooooooooooooooooo Beeeeenfiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiica e os meus olhos abraçam os ombros do meu Pai e depois continuam para o espaço atrás dele com os olhos dele para o espaço atrás de mim e os olhos em chama, ombros em chama, a bola é pontapeada contra uma pedra grande que faz ricochete, sobe no ar que o Valdo recebe, com aquele pé de veludo, tenso o tempo suficiente para haver contacto e logo mole, macio, para ela ficar ali aninhada. Os Domingos sabiam tanto a Benfica.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Pai, este título é para ti.

Parado, olhos na multidão em loucura, gente empoleirada nas estátuas da estátua do Marquês, cânticos, alegria, álcool, sonhos, fumo e luz, veio-me a ideia absurda, mas de todas as formas justa:

"E se arranjássemos um autocarro monstruoso, onde coubesse toda esta gente, e o fizéssemos ir desde o Estádio da Luz até ao Marquês, onde estariam jogadores, técnicos e dirigentes com cervejas na mão a aplaudirem os heróis?"

A Benfica TV entrevistar-me-ia, chamar-me-ia, enquanto eu gritava para os jogadores lá em baixo, recebia cachecóis do Enzo Perez e do Gaitán e diria uma coisa qualquer como isto: "quero agradecer aos jogadores e aos técnicos e aos dirigentes e a toda esta gente da estrutura do Benfica que comemora nas ruas de Lisboa a conquista deste título. O apoio deles foi fundamental. Sem eles, nada disto seria possível."

O Benfica somos nós. Todos. Até os que estiveram, não estando. Até os que, não estando, são os responsáveis pela presença dos que estiveram. Os que deixaram no Estádio o perfume do seu benfiquismo, nos filhos a semente do benfiquismo, no clube a memória das alegrias e tristezas, de tardes e noites a sentirem o Benfica, a propagarem o Benfica.

O Benfica somos nós. Todos. E este título, Pai, é para ti.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Abençoado 4º Anel

A Sala de Convívio do 4º Anel é um lugar bonito. Não tem fronteiras porque não há paredes nem portas; é uma sala muito grande que vai daqui até ao infinito, de sedas nas janelas que não existem e nuvens nas mesas. Vemos os seus passeantes chegar de mansinho, parece que voam ou planam. Se houvesse fotografias e o mar dos céus não as tivesse inundado, veríamos o golo do Torres em voo rasante, o toque delicado e submerso do Julinho, o imperial cabeceamento do Águas, a fórmula mágica do Espírito Santo, a fuga desconcertante do Vítor Baptista. 

Todos agora aqui nesta mesa feita de cogumelos e almofadas. Sentamo-nos os seis. O meu Pai chegou e somos sete. Veio agora o Miklós e ficámos 8. Pomos as cartas na mesa, alguém as baralha - o Águas adora ser o croupier, acha que nós não sabemos os seus truques de bicampeão europeu. Cosme Damião traz-nos as bebidas, diz que não bebe, está cheio de sono e só apareceu para ser escrito nesta crónica. Todos nos levantamos, brindamos à sua memória, as cartas à espera no verde-nuvem da mesa-nuvem da sala-nuvem. Carregamo-lo às costas até à cama-nuvem e abandonamo-lo num sonho de moscatel.

De regresso à mesa, todos já olhando as cartas e o fumo dos cigarros escorrendo pelos átomos, um deles, o Torres, pergunta-me:

- E o Benfica, Ricardo? E o Benfica?

- Está muito calor aqui. Liguem a ventoinha. Julinho, avança.

O Julinho avança sobre a ventoinha, deixa um vento agradável na mesa e começamos a jogar. O Miklós dá demasiados sinais de não ter um bom jogo e antes que alguém o perceba decide mudar de foco, perguntando-me:

- Somos campeões, não somos?

Peço à menina que nos traga mais uns uísques. Alguém há-de pagar. A sala sem música, só o ruído bom das vozes e dos risos irónicos dos jogadores. Alguns fumam charutos, outros esperam pelas bebidas. Há ali qualquer coisa muito para além, muito indecifrável, pode ser que sejam as nuvens. O Vítor Baptista tem uma cabeleira loira na cabeça, dois olhos de estrondosos acidentes, as mãos aos desatinos, chupando-lhes as unhas. Diz:

- Agora, enquanto jogamos, o Benfica está a dar 5 ao Sporting. Não é, Ricardo?

- Falta a esta mesa amendoins, tremoços e um chouriço assado. Espírito Santo, faz qualquer coisa, pá. Vai buscar a assadeira.

O jogo decorre sem problemas de maior. O Julinho continua a ganhar e a deixar adversários pelo relvado. Neste momento só eu, o Julinho e o meu Pai ainda jogamos nesta varanda milenar e astronómica de estarmos todos sobre o universo, esplanada em cima da existência, barraca-foguete pelo caos das estrelas. O meu Pai:

- O Benfica anda a ser bem cuidado?

Perdi o jogo. Falhei na sequência das cartas. Despedi-me deles e voltei ao mundo dos abaixo do 4º anel. Eles lá não sabem. Eles lá são felizes. 


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Voo de vida

O que nunca foi dito, o que ficou por dizer, o que pensámos e calámos. Tivemos ideias, sonhos, tivemos pensamentos, raivas, mágoas, alegrias. Admirámos sem voz, sofremos mudos, deixámos para depois. Há um benfiquismo que vive sob a primeira camada do que é óbvio. Ir ao estádio, discutir o treinador, beber uns copos antes do jogo, queixarmo-nos do árbitro, da vida, daquele adepto que não pára de insultar os nossos jogadores. Há um benfiquismo que caminha dentro de nós que não é nada disto, é mais profundo e intenso, é mais Benfica. 

Ontem soube da morte de uma menina de 30 anos. Uma menina que vi crescer enquanto eu crescia, vivendo na mesma cidade que eu, estudando no mesmo liceu que eu. Falámos pouco, quase nada. Umas palavras no meio do mundo, circunstâncias de encontros a meio-caminho, pouco mais do que isso. Morreu atirada do ar, de um pára-quedas que se enrolou e se fez gravidade. Os sonhos daquela menina todos descendo à velocidade de um corpo sem chão. Quantas vidas tiveste, menina? 

Li no jornal: «pára-quedista experiente, mais de 70 voos» e fiquei a pensar se 70 voos não tinham sido os voos que nunca teremos na vida. 70 vezes em que aquela menina se atirou, cheia de coragem e magia, do alto do alto do ar. 70 voos de vezes em que apostou na vida sobre o acaso ou acidente. 70 saltos sobre a morte, 70 céus, 70 luas, 70 mundos. O que fica por dizer no pensamento de quem voa. 

Lembrei-me do meu Pai. Voando sobre o Estádio da Luz, voando sobre mim, dia a dia, vida a vida, salto a salto. Sento-me sempre quando o jogo já está quase a começar, para que a águia faça o seu voo sobre todos os outros benfiquistas e eu veja a outra águia, só eu vendo a outra águia, rodopiando por cima de mim e dizendo: «vamos ganhar». A bola começa a rolar, há um uivo profundo das bancadas para o relvado e se alguém me olhasse ver-me-ia mirando e sorrindo para o céu, batendo palmas no coração à minha águia que me acompanha. Quantos sonhos, Pai, deixei por dizer? Quantos deixaste por ensinar?

Não dizemos nem ensinamos. Vivemos cheios de certezas e medos e dúvidas e ameaças; coisas que esquecemos de partilhar por pudor ou vergonha ou hesitações ou esquecimento. Vivem no céu glorioso dos sonhos aqueles que, por acidente ou angústia, tristeza ou vontade, decidiram voar sobre nós próprios, olhando-nos de cima, voando-nos de cima, pairando-nos. Ouvimos o seu granítico grito, mudo de sons e ruidoso de afectos. Saltam 70 vezes sobre nós. Noites em que o grito mudo se solta por entre os cabelos do sonho e nos chicoteia acordando-nos. Somos a vida ou o que fica por entre os interstícios do sono?

Acolhe essa menina, Pai. Dá-lhe chá e pergunta-lhe pela vida. No próximo jogo do Benfica, leva-a às tuas cavalitas para ela voltar a voar. Eu prometo chegar quando a bola já estiver em movimento e olhar-vos quando ninguém estiver a ver, orgulhoso dos céus e voos que vocês têm e nós não. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O meu Campeão

O amor que os dois temos pelo Benfica nunca teve tempo, espaço ou forma. São milhares de veias entregues ao mesmo labor de instinto, transportando por dentro do corpo um sentimento que se não vê porque não tem precisão de ser visto. Acontece assim, sem explicação. Venham teóricos demonstrar, por a mais B de Benfica, que um clubismo nasce de experiências e alucinações, de cores vistas em infância ou de cheiros e sons e abraços de golo, que ainda assim pecam por defeito. Ser do Benfica é, acima de tudo, uma grande alegria e um imenso orgulho. Não é necessário mais do que saber isso: orgulho e alegria. 

Raramente discordei do meu Pai sobre os assuntos do Benfica. Estávamos de tal forma sintonizados que acontecia não termos de falar para dizermos tudo um ao outro. Vivemos juntos as maiores loucuras de felicidade; sofremos juntos as maiores loucuras de depressão. Em todas elas, abraçámo-nos. Um golo marcado ou um golo sofrido - o mesmo abraço. Um lance falhado à boca da baliza ou um remate impossível caído nas redes adversárias - o mesmo abraço. Vimos Presidentes decentes, vimos Presidentes indecentes - o mesmo abraço. Tivemos esperança em treinadores, não tivemos confiança em treinadores - o mesmo abraço. Chorámos de tanto rir, rimos de tanto chorar - o mesmo abraço. Era um abraço do Benfica, aquele abraço de nos agarrarmos um ao outro e ali estarem todos os jogadores, os Presidentes, os treinadores de mais de 100 anos de História, todos condensados em quatro braços que se encontravam e se uniam sem tempo nem espaço nem forma. Depois soltávamo-nos um do outro e, antes de olharmos a existência, olhávamo-nos um ao outro e havia Benfica ali. Havia sempre Benfica ali. Com choro e riso, mãos na cara um do outro, vitórias e derrotas ali vividas e sofridas e sentidas. Orgulho e alegria.

O meu Pai passou a época 2009/2010 entre a cama de casa e as várias camas dos vários Hospitais em que dormiu sob tectos de betão, olhando janelas com estrelas ao fundo. Em todas, foi acompanhado por mim, pela cadela Joplin, por livros e pelo Benfica. Acontecia estarmos todos juntos e era uma lição de benfiquismo e de tudo o resto que pode e não pode acabar em ismo que me fascinava a forma como ele olhava a vida e a morte tão serenamente, como se morrer ou poder morrer ou estar quase a morrer fosse só um deslizar de um lado para o outro, sem exaltações nem histerismos, uma mão que passa com ternura pelos cabelos. 

Ria-se muito, o meu Pai, nas várias camas de onde já não podia sair por dor e medo. O último livro que leu foi o «Tubarão 2000», do enorme e genial benfiquista António Victorino d´Almeida. Lembrava-se de passagens, lia-mas, mostrava-me excertos e depois ria-se extraordinariamente, como se calasse o medo com o som do riso. Não era, no entanto, por medo que ele alarvemente ria. Era por prazer. Um prazer impossível de sentir sem sentir o medo e o prazer de querer ter prazer e medo com impossíveis. O meu Pai tinha impossíveis, mas atirava-os para dentro de uma gaveta e sugava todos os medos, impossíveis e prazeres ao mesmo tempo. Sem tempo. Sem medo. Com prazeres. Com prazer.

A época 2009/2010 estava a correr bem. Entrava no elevador que ia dar ao corredor que ia dar a enfermeiras que iam dar ao quarto do meu Pai sempre com o «A BOLA» nas mãos e todas as histórias que tinha a contar de mais um jogo fabuloso e uma goleada e o regresso do Benfica. Tudo isto eu metia naquela cama e dentro dos pratos com comida vegetal, atirava Benfica para as gotas de soro, enchia de Benfica os comprimidos. O meu Pai levava com Benfica nas veias (como se fosse preciso) e depois pelo nariz e nas feridas. Sarava-o com Benfica e ele sorria-me, com um sorriso que só quem olha um homem com os seus impossíveis pode compreender. Para quê levar-lhe Benfica, se todo ele era e sempre foi total e incondicionalmente Benfica? 

Chorámos juntos. Chorámos muito juntos. Rimos juntos, rimos tudo juntos. Em Abril decidiu que estava na altura de ir beber copos com o Águas, com o Cosme e com o Feher para o Quarto Anel. Já sabia que íamos ser campeões. 


quinta-feira, 30 de maio de 2013

O meu Valdo Cândido de Oliveira Filho

 Camisola vermelha comprada numa feira, um "1" e um "0" feitos à mão e cosidos pelo meu Pai nas costas, uns calções brancos, curtos, e umas chuteiras simples. Faltou-me a Afro para ser o Valdo. De resto, estava tudo lá: a indumentária e eu, em imaginação. Quando corria, fazia aquele compasso de espera, fintava uma pinha, deixava-a cair, voltava a rodopiar, levantava a cabeça. Um pinheiro pedia-me a bola, isolado. Fingia que passava, metia para dentro, corria, olhos no chão, olhos na bola, olhos em frente. Peito feito sobre o ar vespertino, a bola chegando-me aos joelhos. Pai, posso ser o Valdo? 

 O carro estava estacionado numa clareira, entre o pinhal. Portas abertas, todas, bagageira para cima, com bolos, pão, vinho, rissóis e panos feitos numa máquina Singer que a minha avó rodava nas mãos e nos pés feita malabarista no escuro em frente a uma parede com fotografias de gente muito velha a preto e branco. Jazem aqui flores e nomes e cães iguais aos que há agora mas a cinzento e há tanto tempo mortos. Quantos cães tem uma vida? 

 Há uma voz que ressoa por entre os ramos. Anunciam golos de tarde desportiva, emissões de Portimão a Coimbra, vão para Braga, voltam a Lisboa, dirigem-se a Leiria, ficam em Chaves. Rudez Thiomir marca golo. E os cestos de verga abanam no gooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo de Rudez, golo do Chaves, lance que se iniciou na intermediária, a bola rodou sobre um adversário, avançou pelo miolo, chegou à linha, foi cruzada, um impasse, o mundo todo parado observando o croata, a indecisão, quase remate, remate, bola nas redes. Alguém vem e pergunta: foi golo do Benfica? 

 A minha camisola tem um "1" milimetricamente na diagonal - não se vê a um metro de distância, mas está lá, não foi trabalho de fábrica, houve mão de amador, aquele que ama. Na frente, há pescoço porque há decote em v, o vermelho é um vermelho mais escuro e não se vende no Media Markt, porque o Media Markt não existe e porque há coisas que o Media Markt não pode vender. Mas há um Valdo a correr nos pinheiros. E vários golos porque o golo tanto pode entrar entre árvores como entre pedras - o jogador decide, no calor do momento. A distância entre o Valdo e o carro depende dos gritos que ecoam. Claro que os pés não sabem por que razão avançam para os pastéis de bacalhau quando há grito de golo mas o coração não tem dúvidas: vai à espera do Benfica. É agora? Foi golo do Benfica? 

 E aquele som contínuo, não no "g" que demora pouco, mas no "o" - quantos ós e desesperantes - e toda a gente parada, eu, o meu Pai, as rodas do carro, as folhas, o gesto das febras na grelha, o céu e as nuvens que deixam de construir imagens - tudo parado. É golo, mas de quem? Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo. E antes do "l" e muito antes do "o" que o continua olhos não no rádio mas uns nos outros, eu olho o meu Pai que me olha a mim que o olho a ele. O "1" cosido nas costas a olhar o "0" cosido nas costas, pedaços de terra saltam e ficam no ar à espera. Diz Benfica, diz Benfica, diz Benfica, o coração aos pulos, diz Benfica, diz Benfica, diz Benfica, as pernas flectidas, joelhos em silêncio, quase dor muita dor, braços à espera, mãos curvas, ouves o som do público? 

 É indefinível, gritam todos e muitos, não sabemos quem nem por quem nem onde. Há som e ruído, imaginamos bandeiras sob o sol, cachecóis no vento, abraços, gente aos gritos, garrafões tombados. Mas é Benfica ou não? E o "oooooooooooooooooooooooooooooooooooo" continua, o homem tem fôlego, não se cala, mantém a surpresa na garganta, a bola junto a uma das rodas do carro, esquecida e adormecida, esperando o movimento. Não há movimento, só um grito que não acaba, e o golo, o golo é de quem? Há uns sons metálicos de assobio enquanto o rádio canta. Ondas de silvos no meio dos óculos da avó que retira pratos e garfos e facas de plástico do interior de um saco. 

O carvão todo junto, negro, colante, uma imagem de um sol sobre a estrada de terra e uma menina que corre, indiferente ao golo, pelos cogumelos e musgo. De quem é o golo? O vestido às rosinhas não sabe, prefere dançar oblíquo sem rota nem bandeira. O golo, que é de alguém, não chama aquela corrida atrás de uma borboleta que faz desenhos no ar e depois desaparece. ... doooooooooooooooooooooooo Beeeeenfiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiica e os meus olhos abraçam os ombros do meu Pai e depois continuam para o espaço atrás dele com os olhos dele para o espaço atrás de mim e os olhos em chama, ombros em chama, a bola é pontapeada contra uma pedra grande que faz ricochete, sobe no ar que o Valdo recebe, com aquele pé de veludo, tenso o tempo suficiente para haver contacto e logo mole, macio, para ela ficar ali aninhada. Os Domingos sabiam tanto a Benfica.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Por ti, companheiro.

«Cada vez que as bancadas da Luz se agitam e gritam golo, gosto de pensar que, algures, o meu Pai continua a levantar os braços, a sorrir e a abraçar quem ao lado dele estiver a assistir ao jogo.», António Lobo Antunes


Eu vi o meu Pai chegar a casa duas vezes com os olhos em chamas. Queria trazer-me, das duas vezes, as orelhonas da Taça dos Clubes Campeões Europeus nas mãos. Levantá-las-íamos nas mãos, poríamos a cadela dentro delas e gritaríamos a plenos pulmões e fígados, gargantas e corações: "BENFICA, BENFICA, BENFICA, BENFICA, BENFICA!". 

Da primeira, prometi-lhe em silêncio, na noite do dia em que chegou, deitado sobre os meus 6 anos e benfiquismo em maturação, que vingaria aquele penálti fatídico do Veloso. Da segunda, dois anos depois, já não me ofusquei no mistério e disse-lho, sem rodeios: "hei-de ganhar uma Taça por ti, Pai" e ele a rir-se, olhos de ternura para o mundo, tão cheio, tão completo de amor.

23 anos depois, corri meio-mundo para pagar a promessa. 23 anos depois, estou aqui, Pai, com este bilhete na mão para te dever o que prometi. O resto deixo com o Benfica. Mal ou bem, já ninguém nos tira este momento.


sábado, 13 de abril de 2013

Os rapazes do brinco

Houve duas tragédias naquele ano de 1988: a morte da nossa cadela 

o meu Pai agarrado ao focinho dela, em frente à lareira, o Eric Clapton cantava e chorava o filho num choro impossível de descrever. As chamas iluminavam as lágrimas do meu Pai e as orelhas peludas da minha Cocker já de olhos fechados para o mundo (a ver por dentro  a morte).

e o meu Pai a chegar a casa, com o galhardete de um PSV-Benfica, agarrado ao cansaço de horas de autocarro e tristeza. A cadela ainda era viva, esperou para morrer depois para não o deixar sozinho a ver o lume. 

Das duas vezes, o fogo foi a forma de não olharmos uns nos outros a pequena morte. Aquela que mata mais do que a grande morte, porque é feita de espinhos que se vão colando, sem aviso, à pele e só magoam no fim, quando já desistimos e choramos juntos. 

Foram mortes que, agora à distancia cerebral, percebo como fundamentais na minha vida. Antecipavam a tragédia, como um livro que começa a ensanguentar-se na narrativa até ao esguicho vermelho e final. Ainda não tínhamos morrido e no entanto todos mortos: uma vez pelo Benfica, outra pela cadela. Ainda pensávamos que éramos eternos.

Três anos, dois meses e cinco dias depois (já Verão de 91, portanto), acordei uma vez aos solavancos pela cama, suado, em gritos de desespero. Era a morte do meu Pai e a minha e a do Benfica e a da cadela, todos juntos e mortos num final apoteótico no qual o que restava era uma sombra que pairava por cima das casas. Uma onda escura que levava os telhados de um lado para o outro e os consumia por dentro, as nuvens fechando-se numa concha de frio e chuva e os sorrisos das pessoas debaixo de toldos, sombrinhas, agasalhos, escuras evocações ao divino. 

De todas as vezes em que quis aniquilar a tristeza atirei-me à contemplação do fogo. Quantas vidas viveram dentro de uns toros húmidos, de pinhas, de acendalhas? O meu Pai ainda hoje está sentado no banquinho a remexer a arquitectura que levanta fumo pela chaminé, há-de dizer - se o fumo entrar para dentro - que a lareira está a fumar mal, e nós, também sentados em bancos pequenos, a sentir o calor do fogo e as notas de uma música que não acaba, talvez de vez em quando nos lembremos daquela cadela com as orelhas peludas e olhos fechados, do quente que era estarmos todos juntos, do galhardete que ficava orgulhoso no meu quarto a dizer PSV-Benfica, da tragédia do Veloso, dos ensinamentos do Silvino, daquele equipamento todo vermelho, do quase-Diamantino e daquela memória que ficou da felicidade de ter sido lançado no espaço nos dois golos do Rui Águas no Estádio da Luz.

Ontem, Pai, vi-te no Estádio da Luz. Hoje só quero ir vingar as duas mágoas tão tristes com que chegaste a casa. Hei-de ver o Benfica ganhar uma final europeia por ti. E depois posso morrer e ficar para sempre, num limbo de vitórias do Benfica, no quarto anel onde tu circulas a beber copos com o Vítor Baptista.



quarta-feira, 27 de março de 2013

A mor(te)

Sonho muito com o meu Pai. Aparece-me nos lugares mais insólitos: em cima de um prédio de onde saímos a voar, cheios de asas e cachecóis do Benfica ou então presos num medo de estepes por onde nos agarramos primeiro um ao outro e depois a uma árvore que aparece a dar guarida num final de tempo. Amo isto tudo ou vou aos solavancos pelo mundo?

Sonho com a minha mulher. Imagino-a num descampado de uma Itália que só nós conhecemos, sem fim. Um caminho de terra por onde passámos e rimos junto a uma fonte perto de uns burros que viviam ali sem mais nada, só amor e coisas que agora não posso dizer porque são indizíveis. Os animais ali a pedirem uns beijos e nós numa qualquer vertigem que deu coisas ainda indecifráveis entre nós e um amor que talvez vivesse numa latência de tempo, antes de sabermos de nós. 

Sonho com o Benfica. Junto o meu Pai e a Susana aos destinos. Onde andam estes seres e importam? Levo-os aos dois neste rio que continua a correr sem obstáculo e pode ser que os ame aos três da mesma forma. Hoje, agora, amo. Só podemos ser campeões.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Mensageiro Cósmico Damiânico

Na primeira vez que ouvi Jean-Luc Ponty a noite lá em casa tinha uns olhos tristes: o Benfica tinha perdido em Setúbal por 5-2, muitos golos do Yekini e a lareira queimava o Toni vivo em lume semi-brando. Ardiam-se sons longínquos de repetições de acordes de órgãos e remates à nossa baliza e havia, junto ao cão, umas cinzas de desespero que o meu Pai e eu chorávamos no tapete de Arraiolos.Tenho saudades de chorar o Benfica com o meu Pai nos tapetes da casa.

Faltava Kulkov, dizia o Toni envergonhado. Isto nós não ouvimos porque a televisão estava muda e o fogo alastrava pela sala com um cheiro a carvalhos ou então a Benfica, não me recordo. Havia um tom celestial e fúnebre, o meu Pai mexia compulsivamente nos toros e vociferava coisas indecifráveis, não propriamente asneiras mas esgares e insultos vorazes contra as labaredas. As pancadas que levantavam fogo pareciam gritar Cabrão do Yekini, Cabrão, o meu Pai avançava sobre a lareira com evidente regozijo, massacrando a zona lateral do lume de encontro ao sector central, de onde saía uma imensa nuvem de fumo e fogo. Yekini, Yekini, Yekini, as fagulhas crepitavam gritando o nome do nigeriano. Yekini, Yekini, Yekini. Cabrão do Yekini.

O fogo absorve todas as nossas misérias e solta-as numa grandiosa festa quente dos sentidos. Impossível reter por muito mais tempo o Yekini fechado junto às brasas; é deixá-lo ir pela chaminé, esfumar-se nas nuvens, quebrar a estratosfera, eclipsar-se no espaço. O momento é sempre o quase. Já foi, o Yekini morreu, resta-nos a dor que o Yekini deixou. 3 golos contra o coração, a vida ali tão vida, a morte tão morte. Abraço-me ao cheiro do meu Pai e dou-lhe o meu sangue de criança a ver se o Toni recebe este choro: mete o Kulkov, caralho. 

"Hoje aprendemos uma lição, há coisas que temos de mudar", parece dizer o Toni em mute. Leio os lábios do mister enquanto o "Cosmic Messenger" traz das colunas para a sala uma espécie de rendida absolvição. O meu Pai continua a olhar o fogo, conto-lhe o que li nos olhos do mister, ele beija-me, já chega de Yekinis. No dia seguinte, promete-me que o Benfica será campeão e que hei-de levar relva do Estádio da Luz para contar num futuro qualquer num blogue.

A relva está aqui. Fui campeão. O meu Pai também. Nós todos. E daqui a dois meses estarei no Ulrich Haberland para agradecer ao Toni ter dito, mudo, que o Kulkov tinha de entrar na equipa. E ao meu Pai aquele abraço de um choro que tivemos os dois no golo do Isaías já depois dos descontos.