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quarta-feira, 29 de julho de 2020

Benfiquistas com Voz – Bernardo Deu o Mote


Vamos aqui todos ser directos e honestos com tudo isto.

É ou não é verdade que nos últimos 15 anos criou-se uma mentalidade acrítica no Sport Lisboa e Benfica? Parece-me um facto incontestável.

Sim há pequenos focos críticos. Há alguns espaços que promovem o pensamento critico. Mas na generalidade criou-se no Benfica a mentalidade do “apoia”.

Uma grande maioria, incluindo os dirigentes e os meios de comunicação do clube (à cabeça a BTV), fomenta uma ideia de guerra, de nós contra os outros. E assim cria-se uma realidade onde os benfiquistas devem elogiar o que é seu e denegrir o que é dos rivais. O sentido critico dos benfiquistas passa a ser exclusivo dos clubes adversários.

Perdeu-se até a noção do que significa apoiar. Apoiar o clube é ignorar e/ou defender o que de errado é feito por quem nos dirige? Ou é também apontar esses erros e exigir melhorias e mudança?

Estamos a falar de um clube do qual os adeptos sempre, mas sempre mesmo, se gabaram de ser democrático ainda quando o país vivia uma ditadura. Um clube onde os adeptos sempre gabaram a pluralidade de ideias. Um clube onde os adeptos sempre apontaram o dedo aos métodos do Pinto da Costa, incluindo os seus métodos pouco democráticos de gestão.

Mas nos últimos 15 anos tudo mudou. Parece que passámos a viver mais os programas televisivos do que o próprio clube. Importante não era o representante benfiquista analisar com qualidade a actualidade do seu clube. Não. Importante era que batesse muito no adversário, fosse com verdades ou com mentiras descaradas. Quantas vezes não nos foi dito “não deviam discutir essas coisas publicamente, é dar armas aos rivais”? Quantas vezes?

No final da época não é altura de se discutir o clube. Porquê? Porque se ganhou então devemos reconhecer o mérito. Ou então porque se perdeu e não é o momento de bater mas sim de apoiar.
O arranque da época não é o momento de debater o clube. Porquê? Porque não podemos desestabilizar. Temos de apoiar para começarmos bem.
A meio da época não é o momento de debater o clube. Porquê? Pelos mesmos motivos do ponto anterior. É momento de apoiar e deixar as criticas para o final da época. Mas como já se sabe... também o final da época não é o momento para debater o clube.

Sim, esta foi a mentalidade que Luís Filipe Vieira instaurou no benfiquismo.

Os adeptos não devem ser ouvidos. Os adeptos não devem ter massa critica. Os adeptos simplesmente servem para encher o estádio e dar receitas de merchadising. O papel dos adeptos é ser fonte de receita e fonte de motivação para os atletas.

Aqueles adeptos que se atreverem a pensar o clube, a se preocuparem e a discutirem o seu clube, esses adeptos não são verdadeiros adeptos.

- Anti-benfiquistas
- Dragartos
- Vale e Azevedistas
- Velhos do Restelo
- Abutres
- Garotões
- Tachistas

Etc, etc e etc.

São demasiados os episódios em que vemos quem está no clube atacar os adeptos. Os ataques na BTV, os ataques do Pedro Guerra, os ataques no Jornal O Benfica, os ataques do José Nuno Martins, os insultos do presidente do clube, as tentativas de agressão do presidente do clube, a(s) agressão(ões) do presidente do clube e os ataques de outros membros da direcção.

Sob o lema “O Benfica é dos sócios” foram feitas alterações estatutárias que retiraram voz e poder aos sócios. Alguém se lembra de Manuel Damásio? Alguém se lembra de como ele saiu da presidência do Sport Lisboa e Benfica?

Sob o lema “O Benfica é dos sócios” foi criado um canal de propaganda onde sócios críticos são rebaixados e até insultados.

Sob o lema “O Benfica é dos sócios” o vice-presidente Nuno Gaioso sentiu-se confortável o suficiente para dizer o seguinte aos sócios em plena Assembleia-Geral do clube:

- Os vossos votos não nos interessam porque vocês não percebem nada do assunto.
- O maior activo do Benfica é o presidente Luís Filipe Vieira.

Sob o lema “O Benfica é dos sócios” a actual direcção do Benfica conseguiu colocar os benfiquistas a ter de pagar mais 1/3 que os rivais para assistirem aos jogos da sua equipa.

Sob o lema “O Benfica é dos sócios” esta direcção dirigida por Luís Filipe Vieira tentou utilizar o dinheiro do clube para garantir as suas reformas e encher os bolsos dos seus amigos e companheiros de negócios, numa OPA totalmente escandalosa – desde os motivos apresentados, aos beneficiários e ao método de financiamento.

Esta direcção comporta-se há mais de 15 anos como se o Benfica fosse deles, deles dirigentes. E não dos sócios. E os sócios permitem isso. Permitem isso porque permitem não ter voz. Permitem isso porque agem como agentes de censura desta direcção. Permitem isso porque permitem que não se discuta o clube.

Vamos ter eleições em Outubro. Ainda não começou a campanha eleitoral. E o que já vemos por esta internet fora? Propagação de mentiras, de fake news, sobre os vários candidatos. A máquina de propaganda de Vieira – Hugo Gil e companhias – já anda a montar o seu pequeno espectáculo.

Nos últimos 5 dias são as mais variadas informações com que me deparo sobre os candidatos. E quando questiono as pessoas que vejo partilhar essas informações sobre as mesmas elas nunca têm a fonte da sua informação, nunca têm o sustento. Leram por aí. Afirmam que num canal a figura X disse Y. Afirmam com convicção. Mas quando questionadas se viram tal afirmação... não viram.

E foi nisto que Vieira transformou a democracia do Benfica. Qualquer opositor irá ser enxovalhado na praça pública e quase sempre com mentiras. Irá ser insultado. Irá ser conotado ao Porto ou ao Vale e Azevedo. Serão sempre aventureiros que nunca fizeram nada pelo Benfica e agora querem vir retirar dividendos do trabalho da actual direcção.

Muitos adeptos com este discurso nem sequer se apercebem que andam tão perdidos nessa narrativa que acabam por apelar ao fim das eleições no clube, ao fim da Democracia do Benfica.

Se ninguém se deveria poder candidatar. Se ninguém poderia sequer poder criticar. Então isto é o quê?

E como sempre temos a BTV a tomar a opção de não realizar debates, de não participar no processo eleitoral.

Como é que os benfiquistas aceitam isto? Como é que se aceita que a televisão de um clube paga pelos adeptos do clube, simplesmente ignore o acto eleitoral? As eleições de um clube não são um momento crucial da sua existência? Então como pode o canal do clube se fechar às mesmas?

Chega a altura das eleições e a BTV fecha a discussão do clube. Corta um espaço de divulgação do clube. O canal do clube promove a não pluralidade de ideias, o pensamento anti-democrático, a não discussão do clube, o não viver o clube. O canal do clube fecha as portas e as janelas aos seus adeptos. Afasta os benfiquistas das decisões da vida do clube. Mais uma vez, tira voz aos benfiquistas.

Já sabemos que Vieira não debate. À imagem de Pinto da Costa. Estratégia que aprendeu com o seu mentor. Vieira só dá entrevistas, entrevistas controladas. Entrevistas bajuladoras. Entrevistas onde possa exercer o seu monólogo sem contradição. Porque Vieira não aceita o sentido critico no Benfica, não aceita ser contrariado. Vieira não aceita debater o Benfica e o seu trabalho. Mais uma vez, corta a voz, corta a discussão, corta o pensamento e a análise critica aos benfiquistas. Vieira esconde-se para não se expor. Vieira esconde-se para não colocar o seu poder em cheque.

E os benfiquistas vão continuar a aceitar isto?





domingo, 26 de julho de 2020

Candidatura de João Noronha Lopes

Foi a última candidatura a ser apresentada para as próximas eleições. E parece ser a candidatura que mais está a mexer com o apoio dos benfiquistas. 

João Noronha Lopes apresenta-se a eleições com mais vantagens que qualquer outro dos opositores à actual Direcção. 

Ainda é cedo para fazer uma apreciação mais definitiva mas por agora ressalvo as características desta candidatura que a favorecem no contexto actual: 

- Vice-presidente da Direcção de Manuel Vilarinho 

- Vários apoios mediáticos 

- Sem ligações ao actual dirigismo 

- Abordagem benfiquista e apelo ao benfiquismo 

- Experiência profissional 

- Inteligência do discurso 

- Controlo emocional 

- Insistência na vertente desportiva do clube 

- Destaque à necessidade de Credibilidade e Transparência 

- Ambição europeia 

- Abordagem à questão estatutária 

- (Re)Conhecimento de várias preocupações existentes no seio do benfiquismo 


A Candidatura de Noronha Lopes tem como primeiro grande mérito o vir afastar o fantasma Vale e Azevedo da narrativa da actual Direcção. O fantasma Vale e Azevedo, as pedras da calçada, o papel da impressora, o papel higiénico, etc, etc e etc. 

Noronha Lopes foi vice-presidente de Manuel Vilarinho. Foi Manuel Vilarinho que derrotou o Vale e Azevedo, foi a Direcção de Vilarinho que pegou no clube super-endividado, sem posse sequer sobre as pedras da calçada. Portanto Noronha Lopes é um nome mais presente e relevante nesse primeiro momento pós-Vale e Azevedo que o próprio Luís Filipe Vieira. 

Outro dos principais méritos desta candidatura é o de conseguir cativar o apoio de várias figuras públicas reconhecidamente benfiquistas. Apesar de tudo o que o que LFV fez ao longo destes anos para criar uma unanimidade pública à sua volta, a verdade é que Noronha Lopes tem conseguido apoios importantes, apoios de benfiquistas que têm voz nos meios de comunicação, que têm fãs e seguidores, apoio de personalidades que têm a sua opinião respeitada e admirada por milhares e milhares de benfiquistas. Vasco Mendonça com o Azar do Kralj e o programa Dia Seguinte, o Ricardo Araújo Pereira com os seus artigos na Visão, o programa Isto é Gozar com Quem Trabalha e o Governo Sombra e o Pedro Adão e Silva que é cronista do Expresso e comentador na SportTv. Além destes surge também por exemplo Pedro Ribeiro com a sua voz nas manhãs da Rádio Comercial e até muito recentemente no programa Mais Futebol. Entre outros que já se juntaram ou ainda se juntarão a esta candidatura. 

O mito dos paraquedistas também cai por terra com esta candidatura. Noronha Lopes tem um currículo rico, uma experiência profissional vasta e com reconhecidos méritos. As suas competências de gestão e liderança estão à vista. Não será certamente visto como um abutre ou um aventureiro. 

Por fim, na sua primeira aparição e no seu manifesto mostra um discurso cuidado, estudado e inteligente. Não ataca a Direcção de LFV à descarada, o que lhe causaria vários atritos entre muitos benfiquistas. Não. O que ele faz é tocar em muitos dos pontos negativos da actual Direcção. Fala neles e reconhecendo a sua existência, joga-os na praça pública onde os próprios benfiquistas os irão considerar e criticar. Oposição inteligente.  

Puxa pela emoção na hora de falar do sentimento benfiquista, dos feitos do passado e das ambições para o futuro, mas puxa pela racionalidade, pela ponderação, no momento de falar sobre os pecados de Luís Filipe Vieira. Com esta inteligência emocional, se a conseguir manter até ao dia das eleições, será também no debate a principal e mais séria oposição a Vieira.  

Há vários outros tópicos do seu discurso que merecem ressalva: 

- A sua posição sobre Jorge Jesus foi dos pontos mais altos. Noronha Lopes traz o seu benfiquismo à cadeira da presidência e aceita Jorge Jesus exigindo-lhe explicações. Vamos ser sinceros, com todo o lixo mediático no pós-saída do JJ do Benfica, uma palavrinha do treinador aos sócios sobre aquele momento seria muito bem vinda e possivelmente acabaria com grande parte do atrito que para já vai encontrar entre os adeptos do Sport Lisboa e Benfica.  

- Destaca a vertente desportiva como o principal foco do clube. Isto é algo que tem sido ignorado pela actual Direcção e que muito tem incomodado os benfiquistas. E na verdade é um ataque ao Benfica Negócio, ao Benfica Empresarial. O Benfica que Vieira tem criado e que tanto por aqui tem sido criticado. O foco do Benfica deverá ser conquistas desportivas e não dar lucros. O Benfica não deverá distribuir dividendos financeiros mas sim investi-los na sua actividade. O Benfica existe para competir e ganhar e não para criar fontes de receitas e alimentar todos e os mais variados negócios. 

- A abordagem ao Benfica Europeu é também mais um mix de ataque à actual Direcção e de partilha da preocupação de todos os benfiquistas. 

Algo muito positivo é não apontar a títulos europeus, até porque hoje em dia não é isso que está em causa. O Benfica Europeu não é o Benfica campeão europeu. O Benfica Europeu é o Benfica presente e com relevância na Europa do futebol. Vieira aponta à conquista da Champions mas nem consegue criar condições para um Benfica de Top-8 nesta competição.  

- Transparência e Credibilidade são dois chavões que qualquer candidato, qualquer presidente, de qualquer clube, partido político ou associação de estudantes, fala. Aqui a questão é o timing. A sua importância é intemporal mas neste momento torna-se crucial. O contexto é tudo e o contexto judicial que a Direcção de Vieira está envolvida e tem envolvido o clube é um verdadeiro escândalo à história e valores do nosso clube.  

- A questão estatutária é outro ponto muito interessante. Pode parecer uma questão menor para quem vê de fora mas para quem vive o dia a dia do clube por dentro sabe a sua relevância. As alterações estatutárias que Vieira protagonizou de forma a se eternizar no cargo são um atropelo à democracia do clube. A revisão estatutária é urgente. E Noronha Lopes, nome por quase todos desconhecido, aparece claramente conhecedor das inquietações mais profundas do benfiquismo. Portanto uma candidatura que se relaciona com as preocupações mais privadas dos benfiquistas. 

Destaco também a inteligência desta candidatura com a insistência no Agora. Isto é um claro apelo a todos os benfiquistas que se sentem obrigados a votar em Vieira por gratidão. É uma forma de criar um fim de ciclo a essa gratidão, a esse reconhecimento generalizado do trabalho da Direcção de Luís Filipe Vieira. É um dizer "Ok eles fizeram a parte deles mas agora é altura de dar um passo em frente, de começar um novo capítulo". 

Até à data tínhamos uma candidatura de alguém parte da estrutura de Luís Filipe Vieira que recentemente decidiu abrir guerra ao seu "antigo" ídolo. Tínhamos uma candidatura de Facebook, de piadas, de ideias copiadas e focada nos amigos e bajuladores da caixa de comentários, um candidato ao sabor do vento das redes sociais. E tínhamos uma candidatura por agora ainda sem qualquer relevo, de adeptos que ainda não se chegaram realmente à frente (aguardam o término da época). 

Se até ao momento via a actual Direcção a ter o seu primeiro incómodo em todo o seu reinado perante a agressividade da candidatura de Rui Gomes da Silva, com a candidatura de Noronha Lopes já acredito na possibilidade de termos umas eleições bem mais competitivas e capazes de colocar em risco o conforto da cadeira do actual presidente. 

A candidatura de Noronha Lopes faz um apelo ao romantismo das antigas glórias do Benfica, do Benfica do Ontem, um Benfica do antes de Vale e Azevedo e Luís Filipe Vieira, com projecção para o Agora. O recomeçar, o retomar Agora a paixão do benfiquismo de Ontem. 

                            Imagem relacionada

Contudo, ainda é cedo. Muito cedo. Por isso digo-vos que hoje sei em quem não vou votar. Hoje tenho o voto branco como garantido. Hoje ainda aguardo por mais desenvolvimentos para poder dar cor ao meu voto. Mas hoje estou mais feliz, mais realizado, com as novas possibilidades que vão surgindo.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Ética, Honestidade, Respeito, Solidariedade, Desportivismo – Valores Fundadores sem “mas”

Não quero me prolongar ao longo da semana a falar sobre o assunto. Mas hoje, só hoje, terei de voltar a ele.
Um jogador de futebol abandonou o relvado no decorrer de um jogo. Um episódio triste que trouxe consigo muitos outros que não consigo que me sejam indiferentes.

O Futebol em Portugal já há muito tempo que não é paixão. Aqueles valores de desportivismo, solidariedade e até de rivalidade são cada vez mais raros neste desporto cada vez mais movido a ódios.
Perante um ódio racial, algo impensável numa sociedade como a nossa e mais especificamente no contexto desportivo, o que vemos são vozes de outros ódios levantarem-se. São ódios combatidos e alimentados por mais ódios e ódios e mais ódios.
E enquanto cidadão, enquanto amante do Jogo e enquanto benfiquista, não posso não dizer nada enquanto vejo outros falharem constantemente com o seu dever de cidadãos.

Quem temos a relativizar o caso são, na sua minoria, adeptos do Vitória Sport Clube – os prevaricadores – e, na sua maioria, adeptos do Sport Lisboa Benfica – porque a vítima foi um jogador equipado com a camisola do Futebol Clube do Porto. E ao contrário seria igual. 
Mas atenção, isto não é demonstração do que são os adeptos benfiquistas. Não. Isto é demonstração do que são os adeptos do nosso futebol. Vivem de guerras.

Como é possível que tanta mas tanta gente se tenha apressado a transformar este incidente num Benfica-Porto? Como?

Um atleta abandou um jogo, uma competição, enquanto este decorria devido a insultos racistas. Já aconteceu lá fora e cá dentro a crítica foi unanime. Agora acontece cá dentro e é o que vemos.
Relativiza-se o caso, desvaloriza-se a situação, porque outros jogadores – das suas cores clubísticas – foram também em tempos alvos de insultos racistas. Desvaloriza-se porque adeptos rivais insultam os das nossas cores clubísticas. “No pasa nada” porque adeptos de azul e branco já foram multados por racismo.
E isto é só mesquinho. O que esta gente não entende é que não está em causa o Porto, não está em causa o resultado desportivo, não está em causa os adeptos e dirigentes portistas. Está em causa sim um atleta que sentiu necessidade de abandonar o terreno do jogo.

O Vitória Sport Clube não é um clube racista. Os seus dirigentes não se cansam de o dizer. O facto de um conjunto de idiotas terem tido um comportamento racista isso não personaliza o próprio clube. O que vincula o clube são as suas acções e o Vitória Sport Clube como um clube não racista, como clube interessado no combate ao racismo, só terá um caminho: Ajudar as autoridades a identificar os prevaricadores e agir disciplinarmente contra os mesmos. Quando os adeptos falham aos valores do clube cabe também ao clube agir em conformidade.

Agora quatro pontos que me sinto obrigado a responder depois de tudo o que vi escrito:

1. Prévios comportamentos de ódio e violência: Infelizmente o futebol vive disso. Os constantes insultos aos árbitros. Os constantes insultos aos jogadores. Os constantes insultos aos adeptos adversários. Uma cultura que está enraizada no adepto de futebol. É a cultura do “Filho da Puta” quando um guarda-redes bate um pontapé de baliza. É tudo condenável mas ninguém quer saber. Como ainda mais condenável são os actos de violência que todas as semanas acontecem ao redor dos jogos. Tudo isto deve ser condenado no momento e nunca mais esquecido. Agora, nada disto deve servir como desculpa nem como arma de arremesso para casos futuros. A bola de neve da ignorância não pode rolar infinitamente num “o que vem deles é condenável e o que é nosso é desculpável”.
Por mais chocante que seja a imagem do adepto do Benfica a sangrar no autocarro, alguém me consegue explicar porque tem essa imagem de andar a ser atirada contra este caso Marega? Uma pessoa foi violentamente agredida. Outra pessoa foi alvo de insultos racistas. Uma coisa justifica a outra? Uma coisa suaviza a outra? Um idiota de um adepto portista atirou uma pedra contra um adepto benfiquista. Um atleta do Porto foi insultado, com base na cor da sua pele, por adeptos do Vitória de Guimarães. Onde está a relação dos dois casos? Uns idiotas da claque do Porto fizeram um cântico deplorável sobre o avião da Chapecoense. Que tem o atleta Marega a ver com isso? Que tem a cor da sua pela a ver com isso?
Não há ódios bons e ódios maus. Não há espaço para irresponsabilidades. E todos aqueles que desvalorizam este caso, tal como todos aqueles que vão sempre desvalorizando tudo o que é feito pelos da sua cor clubística, são uns irresponsáveis incapazes de assumir os seus deveres cívicos. 
Repito. Isto não é sobre o FCP. Não é sobre o Pinto da Costa. Nem sobre o Jota Marques. Não é sobre os Superdragões e não é sobre o Sérgio Conceição. Isto nada tem a ver com as pessoas que vivem e gravitam naquele clube. Isto nada tem a ver com aqueles que sistematicamente atacam o Benfica. Nada. Vocês estão a fazê-lo ser, mas não é. Isto é sobre um jogador que teve de abandonar o relvado no decorrer de um jogo. Nada tem a ver com o vosso inimigo nem com as vossa guerras.

2. Política e hipocrisia: Sim há muita hipocrisia no Futebol e na política. De todos os clubes e políticos que se manifestaram quantos não o fizeram só para ficar bem na fotografia? Quantos irão realmente fazer algo sério para mudar o estado lastimável em que está o futebol português? Poucos ou nenhum. Sim é verdade. Mas hipocrisia também é alguém auto-intitular-se contra o racismo e contra a violência mas depois fazer as suas condenações variar consoante a cor clubística.

3. Reacção do Sport Lisboa e Benfica: Este foi um dos temas que também surgiu em debate. Como aconteceu com um atleta do Porto, então o Sport Lisboa e Benfica nem tinha de se pronunciar. Na verdade, foi o longo silêncio do clube que levou a esta teoria. Quem achou que o clube não tinha de se pronunciar fê-lo porque o clube simplesmente ainda não tinha reagido. É a regra simples da clubite - tudo o que é feito no nosso clube é de apoiar. Cada posição invertida e contraditória é de concordar.
Claro que o Sport Lisboa e Benfica ia e tinha de reagir. Há o lado político e há a imagem do clube. Um acontecimento de racismo no campeonato português, com todos os canais e jornais a falar do assunto, com os media internacionais e os políticos portugueses a abordar a situação, como poderia o maior e mais representativo clube de Portugal não dizer nada? Ainda para mais até os silêncios comunicam e a mensagem que esse passaria era de uma enorme falta de cultura desportiva e social.

Portanto sim o clube tinha de reagir e reagiu. E sim o clube tinha de condenar os acontecimentos no Afonso Henriques e... não o fez.
Faltou decência a quem lidera o Sport Lisboa e Benfica para fugir ao estúpido Benfica-Porto já criado por vários dos seus adeptos e até por produtos da sua comunicação - Hugo Gil e Boaventura por exemplo. Um vídeo genérico, reciclado e nem uma palavra sobre os acontecimentos em questão. Nem uma palavra de solidariedade para com o atleta. 
E foi nisto que estes dirigentes transformaram o Sport Lisboa e Benfica. Estes dirigentes que trouxeram para o clube hábitos e culturas de outros tempos e de outros clubes e que fortemente as têm enraizado dentro do benfiquismo.

“O Sport Lisboa e Benfica repudia veementemente os actos de racismo verificados hoje no jogo do Vitória SC – FC Porto. O clube solidariza-se com o atleta Moussa Marega e disponibiliza-se para de uma vez por todas se tomarem medidas que permitam criar um futebol saudável para todos, independe da sua cor clubística e principalmente da sua cor de pele.” 
Tão tão simples.

4. Ser benfiquista: Claro que depois também surgiram as normais acusações de falta de benfiquismo. É o “ou estás contra eles ou estás contra nós”. Para estas pessoas ser benfiquista é odiar tudo o que tenha a ver com o Porto ou com o Sporting. Ser benfiquista é querer que a equipa ganhe seja por que meios for. Ser benfiquista é defender os criminosos de vermelho e branco e atacar qualquer um, criminoso ou não, de azul ou verde.
A todos vocês que fazem do benfiquismo algo tão perverso só vos posso dizer que isso não é benfiquismo, isso é pura idiotice.
Não entro em medições de benfiquismo. A própria definição de “ser benfiquista” é muito ampla. Para mim tem bases que não podem nunca ser abaladas. Para mim benfiquismo é algo que está alicerçado em duas vertentes: Vitória e Valores. Assim vejo o benfiquismo como um querer que o clube vença sempre mas sempre e somente sendo fiel aos seus valores fundadores.
Ontem li gente defender que o Benfica tem é de ganhar jogos e não se preocupar com questões sociais. Li gente dizer que o Benfica tem de ganhar seja como for e porque meios for. 
Era eu bem mais novo quando via Pinto da Costa criar uma máfia de poder para beneficiar o FCP garantindo-lhes vitórias com muito jogo sujo. Para meu espanto, perante tão evidente conspurcação da competição, via os adeptos portistas assobiarem para o lado. Só lhes interessava ganhar. E para meu orgulho via os adeptos benfiquistas recusarem algum dia ganhar daquela forma. “Somos diferentes” dizíamos todos. Poucos anos depois percebi o quanto eram frágeis essas convicções. E hoje em dia é vermos a quantidade de benfiquistas que defendem que importante é ganhar, não importa como.
Ignorar os valores que criaram e fizeram crescer este clube para mim nunca será benfiquismo. Lutar constantemente contra quem coloca os valores do clube em causa, sejam rivais ou dirigentes do próprio clube, é para mim, e sempre será, a obrigação de qualquer benfiquista.

Portugal não é um país racista. Contudo isso não significa que não exista racismo em Portugal. Existe. É histórico e arrasta-se por gerações.

Hoje em dia podemos até debater sobre o que é racismo e se só existe num sentido. Muito do que a sociedade vê como sendo racismo não o é. São exageros, são hipocrisias, são posturas de u, politicamente correcto. O que não invalida a sua existência e o seu histórico. Nós das novas gerações não vivemos os piores momentos deste flagelo. Nós deste país à beira mar plantado não temos total noção das repercussões do racismo. Nós caucasianos deste Portugal percebemos a sociedade actual mas não entendemos a dor que muitos de outra cor e de outra nacionalidade trazem consigo. Não entendemos e muitos de nós nem tentamos respeitar.

Existe racismo nos dois sentidos? Existe. Contudo são de gravidades diferentes. E isso não há como negar. Não é possível apagar o histórico, a dor e a selvajaria que tanto marcou a humanidade. Não ver isso é querer ser cego em proveito próprio.

É verdade que tal como muitos têm repetido, o que se sucedeu ao Marega não é um caso único. Não é um caso único em Portugal. Não é um caso único num estádio de futebol. Mas apesar de muitos agirem como se isso desvalorizasse o sucedido, a verdade é que só lhe dá ainda mais importância. É por não ser único que urge ainda mais agir. É por não ser único que não podemos continuar todos a assobiar para o lado. O vosso argumento, mesmo que se recusem a o admitir, é somente baseado em clubite. Esqueçam isso. Sejam melhores.

A arte do insulto é uma constante no mundo do futebol. Todos os jogadores e adeptos estão sujeitos e habituados ao insulto. Infelizmente é verdade. Chama-se filho da puta a um jogador e corrupto a um árbitro como se diz olá a um conhecido. É inadmissível mas é verdade. Contudo esta verdade em nada se contextualiza no mundo do preconceito pela cor da pele. Não misturem coisas que não podem ser misturadas. Há insultos gerais, insultos para todos. E depois há os insultos que só visam aqueles de raça negra. E se um caso é pura falta de educação o outro é já descriminação. Determinadas ofensas e determinados ruídos só se fazem na direcção dos jogadores negros. E é neles que vivem essas memórias que despoletam dores do passado, vergonhas de uma história não há muito tempo escrita. E isso tem de ser totalmente irradiado.

Moussa Marega resolveu abandonar o terreno de jogo. Isto é o que torna esta situação diferente. É um mote. Um mote que deve ser seguido. Este exemplo deverá ser seguido por todos os jogadores que sofrerem insultos racistas durante um jogo de futebol. E quando todos começarem a seguir o exemplo de Moussa Marega, quando colegas e adversários tomarem a mesma atitude, aí finalmente teremos políticos e dirigentes, aí finalmente teremos todos vocês odiadores, a mudar drasticamente a sua passividade e a melhorar o desporto e a sociedade nacional.

Há valores que ou temos ou não temos. Não existe meio termo. Existe fingir que temos. Isso existe. Não podemos ser pessoas dignas às vezes. Não podemos ser honrados mas só quando dá jeito. Não podemos ser éticos mas só quando saímos beneficiados. 
Aqueles valores que todos aparecem a defender são valores que se vivem e não que se repetem em frases ocas. Ser absolutamente contra o racismo é ser absolutamente contra o racismo. Não é dizer que se é e depois colocar um “mas” à frente. Não há “mas”. É no “mas” que vocês se perdem.

Existe racismo em Portugal. Existe racismo no desporto. Existe preconceito à cor da pele. E neste futebol podre, de dirigismo podre e de adeptos que nada gostam do jogo, existe um enorme racismo clubístico. 

Agora deixo a palavra para os nossos políticos, para os nossos dirigentes e para os nossos ministros. 

Façam acontecer.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Os Nossos Ferem-nos e os Outros Aproveitam-se


O que se está a passar no nosso Benfica é vergonhoso. Aliás, há anos que o é.

Esta pessoas que andam no futebol acham que nada lhes toca. Que o Futebol é um mundo à parte.

E até parece ser. Porque o cidadão João não é a mesma pessoa que o adepto João. A cidadã Maria não é a mesma pessoa que a adepta Maria.

No Futebol onde deveriam imperar os mais altos valores de desportivismo, respeito, solidariedade e camaradagem, neste mundo olhado e seguido por milhões e que devia ser um exemplo de comportamento para todas as crianças, é onde todos largam toda a educação e valores segundo os quais cresceram.

O que importa são as cores. As cores definem quem é o bom e quem é o mau. Não são os seus comportamentos. Não é a pessoa em si.
Se é da nossa cor é dos nossos. Se é dos nossos é dos bons. Se não é dos nossos é dos maus.


O futebol português é uma guerra de clubites onde os cidadãos se estragam, os clubes se arruínam, as pessoas se magoam e os dirigentes aparecem para recolher os espólios.

O sentimento de impunidade que existe nos clubes é alimentado pela existência de milhares de adeptos que vivem mais a guerra de clubes do que o desporto em si.

Os adeptos largam dos seus valores, da sua cidadania, dos valores que fundaram o clube, para darem a cara por um dirigente sobre quem nada sabem, para se sacrificarem por alguém que os usa como escudo em proveito próprio e que não se coíbe de lhes mentir, manipular e enganar.

O que se passa dentro do Benfica é vergonhoso, foi permitido e motivado pelos seus adeptos e assim o continuará a ser.

Porque ao adepto benfiquista importa mais o Porto e o Sporting do que o próprio Benfica. Tal como acontece em todos os outros clubes.


Somos gente que não percebe que quem faz mal ao nosso clube é quem lá anda dentro. Os nossos dirigentes ferem-nos e os nossos rivais desfrutam dessas feridas.

Vamos continuar todos a ser intoxicados pela comunicação oficial e oficiosa da Direcção do nosso clube? Vamos continuar a assobiar para o lado? A permitir que lesem o clube que amamos? A permitir que nos enganem?

O futebol irá melhorar quando os adeptos deixarem de estar de costas para o seu clube. Passamos tanto tempo a apontar o dedo e a olhar para os outros que não nos apercebemos que entretanto virámos as costas ao nosso amor.

Os benfiquistas têm de resolver o problema que têm em casa. Todos estes processos e suspeições têm de ser analisados, visados e valorizados pelos benfiquistas. Estamos a falar da nossa casa.

Os sportinguistas têm de lidar e enfrentar o que o antigo presidente deles lhes fez e o que o processo Cashball indicia.

Os portistas já há muito deveriam ter reconhecido o que se passou na altura do Apito Dourado e retirado consequências disso.

Mas todos, todos sem excepção, só se preocupam com a casa dos outros, bem manipulados pela comunicação criminosa dos seus dirigentes.

Hoje a Comunicação de um clube serve apenas um propósito: Alimentar os seus adeptos com mentiras para que estes travem as guerras dos dirigentes e ocultem o que de grave vai na sua casa.

Em todos os clubes os adeptos invocam ser Diferentes. Constantes frases do género “Se acontecesse no meu clube agiríamos de forma totalmente diferente”. Mas depois todos agem de forma igual. Todos.

O Ministério Público avançou com uma acusação gravíssima contra o nosso clube - o E-Toupeira.
Qual a reacção de muitos e muitos adeptos benfiquistas?

Uns falaram sobre o sorteio da Liga sem realmente estarem interessados em saber a verdade sobre o assunto.

Outros desataram a reproduzir algo que um candidato à presidência do Sporting disse. Reproduzir e deturpar.

Outros irão falar do penalty mal assinalado por falta do Yebda sobre o Lisandro.

Incomoda demasiado. Dói demasiado. Envergonha demasiado lidarmos com os nossos problemas. E tudo continuará esta merda. E o Benfica continuará sem ser defendido. E todos continuarão a ser iguais.

E não, não é verdade que tomos somos inocentes até prova em contrário.

Somos de um clube num país onde mais de metade da população veste a nossa camisola.
Temos uma Direcção que ao longo destes anos tem promovido as boas e próximas relações com várias pessoas e cargos de poder.
Temos um presidente que é o maior apoiante do presidente da Federação, tal como andou a segurar o guarda-chuva ao Oliveira.


E o que dizemos? Contra tudo e contra todos.

Os rivais estão contra nós.
Os restantes adversários estão contra nós.
A Liga está contra nós.
A Federação está contra nós.
A PJ está contra nós.
O Ministério Público está contra nós.
O Governo está contra nós.
Os Tribunais estão contra nós.
A Constituição está contra nós.
A Uefa está contra nós.
A FIFA está contra nós.
A UNICEF está contra nós.
Os Direitos Humanos estão contra nós.
O Vaticano está contra nós.

Está tudo contra nós.


“Contra tudo e todos” – Diz o adepto benfiquista e também o sportinguista e também o portista. Dizem todos.
Não somos diferentes. Pelo menos não o demonstramos.

Preocupemo-nos em cuidar da nossa casa, em curar as nossas ferias e em respeitar o nosso clube. Quando o fizermos os nossos rivais não terão sangue nosso para chafurdar.

Aí sim seremos superiores. Seremos melhores. Seremos novamente Gloriosos.

Esta acusação do MP envergonha qualquer ponta de benfiquismo.

No Benfica que eu sonhava enquanto criança não havia lugar a situações destas e muitos menos a tamanho desinteresse dos seus adeptos.


Eu enquanto aluno que fui, trabalhador que sou, cidadão deste país e do mundo, adepto e sócio deste clube que amo e pai que pretendo vir a ser, não posso nunca ser cúmplice deste tipo de trampa só porque é cometida por gente que se esconde por detrás das cores que eu envergo.

Não há cimento, não há vitórias e não há chavões que se sobreponham ao Sport Lisboa e Benfica.

E por aqui me fico.



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Ser do Benfica sem viver em Lisboa



As rulotes à volta do Estádio da Luz são autênticos consultórios benfiquisto-sentimentais. Antes do jogo, depois do jogo, às vezes durante o jogo, benfiquistas de todas as regiões do país e de todos os lugares do mundo discutem gloriosamente o que é o Benfica. Poupam-se fortunas que seriam gastas em psicólogos, psiquiatras, bruxos, prestidigitadores, economistas, médicos, enfermeiros. Os adeptos do Benfica resolvem os seus assuntos todos em pé, sem sofás, em frente a bancas de cerveja, carne e televisões manhosas a passar jogos da Liga Inglesa.

Enquanto se antecipa, se resume ou se esquece o jogo com uma imperial na mão, uma bifana na outra e um cachecol glorioso ao pescoço, já se combinaram e resolveram negócios extraordinários e problemas amorosos; já foram feitas juras de eterna amizade, já pais e filhos se reencontraram, já um Ministro de um Governo de Esquerda abraçou um deputado de Direita, já o mundo, tal qual o conhecemos, pareceu menos feio. Só ainda não ficou devidamente esclarecido o que é ser do Benfica sem viver em Lisboa.

Eu agora vivo em Arroios. Posso estar na Luz em 20 minutos se apanhar o metro, em 30 se for de autocarro. Numa hora a pé. Em 10 minutos de Táxi. Um luxo que conto ao miúdo que eu fui a viver em Abrantes nos anos 80 que vinha com o Pai de manhã, que fazia 3 horas de viagem pela Nacional para cá, outras 3 para lá, que chegava a casa depois dos jogos europeus às 4 da manhã. E o que dizer de quem vivia e vive em Chaves, na Madeira, em Caminha, em Luanda, em Toronto, em Famalicão, em Genebra? Em Portimão, em Maputo, no Rio, em Beja, no Porto, no Luxemburgo, em Guimarães, em Coimbra, Mértola? Em Viseu, em Vila Viçosa, em São Paulo, na Figueira da Foz, em Paris, em Sines, em Castelo Branco, em Lamego, na Terceira? Como explicar às pessoas que vivem em Lisboa a aventura épica de tirar um dia e uma noite para ver o Benfica, para sofrer pelo Benfica? 90 minutos que condensam um sentir e um sacrifício e uma bênção e um amor que nos afastam tantas vezes da família, que nos obrigam a trocar horários com colegas, que nos massacram o sono, que, no fim de tudo, nos completam porque foi feito com o Benfica, para o Benfica, pelo Benfica?

Ser do Benfica sem viver em Lisboa é ser do Benfica a amar a estrada que o Benfica é. 1904 quilómetros de Sangue, Loucura e Mística.

sábado, 30 de setembro de 2017

Assembleia-Geral Ordinária 2017 – Culto de Benfica

Muitos sabemos, todos devíamos saber, que ontem se realizou mais uma Assembleia Geral do nosso clube.

Aconteceu num contexto agridoce:

Por um lado o Benfica é Tetracampeão, teve um lucro histórico no exercício em análise e reduziu o seu passivo.

Por outro lado, o Benfica está em 3º a cinco pontos da liderança, perdeu os dois jogos da Champions (tendo o último sido naquela fatídica noite de Basileia), não investiu no plantel e, apesar das vendas milionárias, o passivo reduziu pouco mais do que os 10% prometidos.

A AG só podia ter sido bem quente e é no calor do Benfica que estas têm sempre de ocorrer.

Irei dividir a minha intervenção em 3 pontos.

Benfiquismo na plateia:

Já tinha ouvido falar mas nunca tinha vivido nada como ontem.

Gostava que estivesse dado o mote para que todas tivessem a afluência de Benfica como esta teve.
Fila tremenda, pavilhão a abarrotar e finalmente uma participação dos sócios digna do nosso clube.


Não sou ingénuo. Sei que a grande maioria apareceu movida pela revolta da derrota em Basileia. Tivesse o jogo sido na próxima semana e provavelmente nem metade lá estaríamos.


Só posso esperar que quem regressou, quem se estreou e quem ouviu falar, tenha ganho o gosto e marque presença no pós-pentacampeonato.


A participação dos sócios foi maravilhosa. O Benfiquismo mostrou-se vivo, bem vivo. A chama continua a arder. E quem nos lidera percebeu que este sentimento não é abafado com o Tetra.

Vitórias alimentam a necessidade de mais vitórias. Não a saciam. Viciam.

Num momento de maior tensão houve uma dezena de adeptos que passaram o limite que nunca pode ser ultrapassado. Outros houve que apesar da revolta souberam acalmar os ânimos. Está tudo na comunicação social e prefiro não me alongar aqui sobre o assunto.

A usual soberba do não-Benfiquismo:

Como já é marca característica nas AGs do clube, como já é uma tradição imutável, de frente para os sócios estavam aqueles que não conseguem controlar a sonolência.
Nem a força do Benfiquismo os fez despertar. O Benfica Clube dá-lhes sono. Ponto.

O presidente do Sport Lisboa e Benfica gosta sempre de utilizar o vernáculo nas suas intervenções. É uma maneira inteligente de se fazer ouvir. Pode parecer contraditório mas os palavrões têm a magia de tornar cada mensagem mais verdadeira.


Pois bem, seguindo o exemplo do presidente cá vai:


Aqueles dirigentes estão-se a foder para os sócios. Não mandam a AG para o caralho porque os estatutos os obrigam a realizá-la. Para eles foi só mais uma merda de uma Sexta-Feira.

É vergonhosa a forma como a mesa do Conselho Fiscal vai dormitando enquanto os sócios intervêm.

É vergonhoso como o presidente da Direcção passa toda a Assembleia a menosprezar as preocupações e paixões dos sócios. Fá-lo deitado na cadeira como se estivesse a ver um episódio de Malucos do Riso – refestelado a rir de algo que não tem piada nenhuma.

Por fim, a postura no vice-presidente da Mesa da AG que ontem dirigiu a mesma.

Este senhor já nos habitou a maus momentos mas ontem bateu no fundo. É o principal responsável pelo momento mais triste da noite.
Com gente séria ali sentada daquele lado, este senhor ou já se teria demitido ou já tinha sido mandado embora.


A intervenção do presidente:

Vieira falou. Esta foi uma daquelas em que ele falou. Há quem diga que com a casa cheia era obrigado, até por uma questão de segurança, a o fazer. Há quem o diga. E provavelmente é verdade.


Esteve bem. O homem é inteligente. Falou de quase tudo e evitou aquilo para o qual não tinha resposta. Interveio não como politico mas sim como um homem do povo (o que também é politica). Fez-se ouvir. Fez-se ver.

No meio de mentiras, demagogias e meias verdades, também soube dizer algumas verdades. Ali ganhou votos. Ali reconquistou alguns apoios.

Não vale a pena estar aqui a indicar contradições, falácias ou exigir mais respostas.

Sobre o que disse destaco a forma veemente como negou, finalmente, qualquer ilegalidade no conteúdo dos famosos mails. Destaco a promessa que fez sobre uma redução drástica do passivo nos próximos 3 meses. Destaco o anúncio que fez sobre a continuidade do Nuno Gomes no Benfica. Destaco a reafirmação que o Jorge Mendes tem 10% de todos os negócios com jogadores. Destaco a critica que deixou ao Luisão e restantes jogadores pela sua atitude no final do jogo no Bessa. Destaco o anúncio de reforços para Janeiro caso não comecemos a jogar mais. Destaco o betão. E destaco o conforto com que ele se sente e senta na cadeira presidencial.


Uma última nota sobre os resultados da votação para aprovação do Relatório e Contas. Imediatamente foi noticiado no site do clube que este foi aprovado por larga maioria.

61% é uma estreita maioria, principalmente no contexto dos resultados financeiros e desportivos da época passada.
Seria interessante terem anunciado não só a percentagem de votos como também a percentagem de sócios. No número de sócios, talvez a larga maioria fosse no sentido oposto.

Concluindo,

Trago desta AG um sentimento de orgulho no Benfiquismo e vergonha no dirigismo. Orgulho dos que são do Benfica e vergonha dos que estão no Benfica.


O apelo que tanto é feito à união é falacioso. União não é todos dizermos que sim, não é todos termos a mesma opinião, todos dizermos o mesmo e todos estarmos de acordo. União é estarmos todos lá, mesmo em discordância.

Por isso farei eu também um apelo à união. Não me atrevo, como os nosso dirigentes e os seus empregados fazem, a pedir união no apoio à equipa. Essa está lá sempre. Esse existe independente de apelos e independe de quem nos dirige.
O meu apelo vai para a união contínua nas AGs do clube. Continuemos a rebentar de Benfiquismo aquele pavilhão.


Temos de fazer destas AGs momentos históricos do clube. Temos de as manter vivas. Temos de tirar consequências da sua realização.


Apareçam, intervenham, exijam respostas, critiquem, elogiem, discutam, gritem, cantem, felicitem. Pensem e discutam o clube. Votem para o relatório e contas mas tragam também novos pontos de discussão e votação.


Olhem os estatutos e façamos Benfica.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Discutamos o Benfica dos Relvados

Ederson
Lindelof
Grimaldo
Fejsa
Pizzi
Mitroglou

Esta é a base de uma grande equipa.

Com o regresso do Jonas e a afirmação do Rafa isto fica ainda mais bonito.

Adoro o Horta mas não como o 8 num meio-campo a 2. Vejo-o como um talento que para crescer em rotação na direita com o Pizzi.

O Semedo é mais talentoso e tem mais rasgo. O Almeida traz mais estabilidade e solidez à nossa equipa. Para a titularidade aposto no segundo.

A 8 tenho enormes expectativas no Danilo. Pode ser aquilo que precisamos. Quero vê-lo a titular na Luz contra o Paços.

A maior dúvida está no parceiro do Lindelof.

O Luisão já atingiu o pico e cada ano que passa vai-se afastando mais desse momento de forma. É, contudo, o nosso maior líder em campo, o nosso central mais experiente, com maior maturidade e melhor percepção da organização defensiva da equipa. Em entrega ao jogo não fica atrás do Jardel.

O Jardel é o que menos combina com o Lindelof. É um exemplo de raça, querer e entrega. Melhorou muito e deixou de ser aquele central medíocre de há poucos anos. É bom para o contexto nacional mas um perigo com a bola nos pés.

O Lisandro já foi a minha primeira aposta para jogar com o Lindelof mas não tem crescido com a velocidade que eu esperava. Com a bola é uma delicia. Sem a bola frequentemente se precipita na abordagem aos lances e num central de topo isso não pode acontecer.

Entre Luisão e Lisandro acho que iria pelo capitão e obrigava o Lisandro a lutar por recuperar a titularidade.

Júlio César, Samaris, Cervi e Guedes também merecem destaque.

Trazem benfiquismo, talento e qualidade às nossas opções.

O Samaris está a ser injustiçado esta época.
Do Cervi espero muito. Qualidade técnica e rapidez fenomenal. Não é um génio mas é um talento.
O Guedes mexe com um jogo. Nunca vai ser craque, não tem genialidade mas tem muita qualidade. Mais solto e mais confiante está a ser e vai continuar a ser muito importante.

O Carrilo está a pagar pela opção que fez há um ano no Sporting. Está ele e estamos nós. Qualidade sem rentabilidade.

O Salvio vinha a decair antes de se lesionar. Já 100% recuperado desse calvário está longe de ser aquilo que já foi.

O Zivkovic tem ainda tudo para mostrar. Duvido que esta época chegue realmente a apresentar-se.

O Celis é uma piada de muito mau gosto.

O José Gomes entusiasma-me. Espero que não seja automaticamente encostado à B devido ao retorno do Jiménez.

Gosto muito do manager Rui Vitória mas o treinador ainda não me convenceu. Falta-lhe sal. O nosso futebol tem muito pouco conteúdo, é muito politicamente correcto, exactamente como as suas conferências de imprensa e entrevistas. Falta sumo.

A equipa é o reflexo do treinador.

Está tudo muito bem trabalhado menos os processos de jogo, principalmente os processos defensivos que são onde há maior influência de um treinador.

Temos de defender menos e melhor.

Gosto do Rui Vitória, estamos melhor com ele do que estávamos antes, respiramos melhor, somos mais Benfica, mas tecnicamente ainda não me convenceu. Ainda há muito Guimarães neste Benfica.

Este ano temos um plantel de sonho. Umas pequenas afinações e seria uma construção perfeita desta equipa.

Que seja um plantel de sonho para uma época de sonho.