Ninguém me convence de que o melhor sítio para pensar não é a casa-de-banho. É lá que, entre nevoeiros, cheiros fétidos, manchas de humidade, roupa suja e cemitérios de champôs, a magia acontece. Pode ser sentado - em prantos ou em desvarios - ou em pé, olhando os ladrilhos – mas o sonho, a ideia, o pensamento, esses alimentam-se do espaço contíguo e desfazem tectos e soalhos, ultrapassam os telhados e só acabam lá longe, onde o céu acaba, o mar recomeça e o silêncio sepulcra novos mundos.
Quantas vezes não dei por mim, entre vociferantes ondas gástricas, a ser irradiado pela luz cerebral? Ou de olhos fechados, chuva caindo aos bochechos pelo corpo, pensando e dirimindo geniais tratados de coisa alguma? Que o sonho ou a ideia não se concretizem para lá das paredes do espaço contíguo não será culpa de quem os idealizou mas da passagem irreflectida para o hall da casa, onde, como todos sabemos, ninguém pode reflectir decentemente, visto que as zonas de passagem fazem transbordar os pensamentos pelas frestas da porta, prédio acima, até à cozinha da velha rabugenta que logo atrai o mau karma, despedaça no chão as palavras e as varre lentamente para um canto onde as apanha, em cacos, e as mete no lixo.
A culpa máxima de tudo isto – está bem de ver – não é desse sagrado lugar de peregrinação, recolhimento e meditação que é o lavabo, mas o facto de existirem outras partes da casa. Não houvesse nada mais e o mundo seria um reluzente jardim de espelhos de onde saíam, em jorros, constantes e alucinantes sonhos, ideias, utopias que nenhum homem poderia não alcançar.
Seria assim: uma porta e uma casa-de-banho. A pessoa entrava – já descalça para não pisar os poemas -, sentava-se, libertava o que tinha a libertar e, nos entretantos, resolvia a fome em África e o conflito israelo-palestiniano. Depois levantava-se, limpava meticulosamente as arestas do texto, deitava as palavras que não interessavam, puxava o autoclismo e a água filtrava-se por dentro das paredes até surgir, qual imaculada fonte de frescura, nas casas dos outros e assim sucessivamente e assim sucessivamente e assim sucessivamente.
Não havia nada mais para além disto: cagar e pensar. E às vezes, mais raramente, pensar e cagar! Tudo o resto, sem relevo. Tudo o resto, couves. Das quais, umas, se faziam cérebros e, de outras, alimento para o intestino. Num mundo destes, haveria alguma vez lugar para Fátimas Felgueiras ou Isaltinos Morais?
De modo que, num destes procedimentos quotidianos – imaginemos que o seriam -, dei por mim a reflectir sobre um post para este blogue. Foi um dia em que havia esgotado todas as Magalis e os Cascões, não me apetecia Chicos Bentos e nunca tive pachorra para o Cebolinha, que me lembrei de fazer um texto sobre o melhor 11 do Benfica que eu vi jogar. Bem sei: o Visão de Mercado é que tem essas ideias. Mas, caramba, eu não pretendo clicks na puta da publicidade nem tenho quase 3 milhões de leitores. Acho que me posso dar ao luxo de, dignamente, cagar as minhas ideias. Ou não?
E ele é muito simples, não requer explicações nem meias medidas. É tão evidente que nem precisei de ganir sentado. Talvez nem tenha chegado a mijar decentemente e já os 11 do Benfica vinham-se-me ao espírito de forma inatacável. E reza assim:










