terça-feira, 10 de setembro de 2019

Com os jogadores do City...


A chegada de Pep Guardiola ao comando técnico da equipa principal do Barcelona, trouxe consigo um impacto que, quanto a mim, ainda está por calcular em toda a sua total extensão. Pela primeira vez em longos anos, uma equipa exclusivamente baseada no talento conseguiu disputar e vencer as maiores provas do mundo do futebol, contrariando de uma só vez, uma infinidade de leis não escritas que de tanto ditas e repetidas se haviam tornado verdades absolutas no futebol mundial.

Tais conceitos versavam sobre a impossibilidade de se vencer encantando adeptos e rivais; dizia-se ainda que o futebol “moderno” era intolerante e incompatível com equipas baseadas essencialmente no ataque; jogar no corredor central? Jamais compensaria o risco; jogar no corredor central e com baixotes? “Líricos” diziam eles; e tantos outros dogmas que foram destruídos por um só homem e uma só ideologia.

O sucesso desse Barcelona dos “baixotes” foi de tal ordem que ninguém ousou dizer que não gostava do estilo. Sim, porque só as vitórias convencem a larga maioria de adeptos e protagonistas do jogo, nunca a ideologia que subjaz a cada estilo. Ganha? É bom. Perde? É fraco, mesmo que no dia seguinte o que é fraco passe a bom, porque ganhou, ou o inverso porque perdeu. Mas para além das vitórias, há algo mais nesse jogo que faz com que ninguém ouse dizer que não gosta: a inteligência. De facto, se há predicado absolutamente necessário para se jogar e compreender e jogar o estilo de Pep Guardiola são mesmo as faculdades cognitivas aliadas às faculdades técnicas. E quem é capaz de admitir facilmente que não gosta ou não compreende a inteligência de outro? Antes, procuram desqualifica-lo, mas enquanto isso não sucede por via dos resultados (o que mais?), não há como desqualificar o que é altamente qualificado.

E é por medo e vergonha que as vozes dissonantes do técnico Catalão se vão mitigando e, no limite, se vão procurando colar à sua ideologia, embora não cheguem sequer perto. E é nessa sequência, nesse processo mental que surgem sempre os comentários que procuram desmerecer o extraordinário pensamento e metodologia e Pep Guardiola, traduzidos na frase: “Com os jogadores do Barcelona/Bayern/City também eu jogava assim”. A infinidade de gente que já disse isto, desde adeptos a treinadores, passando por comentadores, deixa-me na dúvida se o dizem por mera dor de cotovelo ou, por outro lado, se por acharem mesmo que a ideologia nasce dos jogadores, bastando para tal junta-los e esperar que tudo aconteça por geração espontânea.

Pois bem, nem o jogo de Pep nasce dos jogadores, nem quem acha e afirma a frase transcrita acima escolheria os jogadores que Guardiola escolhe. E este último facto é mesmo mais extraordinário de todos. É que se me parece relativamente normal que nem todos consigam replicar aquele estilo de jogo - caso fosse fácil, de facto, não faria de Guardiola um treinador tão extraordinário - já me parece completamente surreal que afirmem ser dos jogadores que nasce todo o mérito, mas na hora de escolher os seus, escolhem tudo menos os que mais próximo estariam daquele perfil.

“Esses jogadores são caros” – diriam uns quantos. Mas não são todos? Quantos autênticos cepos são transacionados a preço de craque? Mas ignoremos este argumento e aceitemo-lo como verdadeiro e analisemos aqueles que não têm no preço dos jogadores qualquer restrição na hora da escolha: os selecionadores, mais concretamente, Fernando Santos.

É um facto que Fernando Santos não tem no preço dos jogadores um inibidor na hora de escolher, sendo então de supor que nada se colocaria entre ele e as escolhas de jogadores de perfil “Barcelona/Bayern/City”, seja para as sucessivas convocatórias, seja nas escolhas para o 11. Pois bem, mesmo sem esta inibição, o engenheiro faz gala em achar que, por exemplo, hoje em dia existem 11 Portugueses melhores que João Félix. “Não é bem assim, apenas acha que Félix não pode jogar com Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva em simultâneo”, dirão. E o resultado não é o mesmo? O que Fernando Santos acha mesmo, é que a Seleção é tanto melhor quanto mais talento estiver fora dela, porque é simplesmente inadmissível que em 11 jogadores, ignore um dos 3 melhores da atualidade. Fernando Santos não sabe nem saberá nunca como conjugar os melhores, preferindo sempre uma ideia de jogo profundamente medíocre e miserabilista, tenha ele quem tiver ao dispor.

E o nome aqui nem é assim tão importante, porque o Fernando Santos desta triste história, poderia ser um José Mota, um Tiago Fernandes, um Lito Vidigal, um Jorge Simão ou qualquer um dos 99% de treinadores categorizados cá do sitio, porque todos eles iriam afirmar sem qualquer problema que “com os jogadores do Baça/Bayern/City também eu”, mas no momento de os ter ao dispor… só por obrigação estatutária é que os escolheriam.

E este é Portugal: Ter qualidade individual para um futebol de qualidade, mas que vive agarrado e amordaçado por um conjunto de treinadores que se caricaturam todos num individuo que venceu um Europeu com o mérito de um tipo que sobrevive a um tsunami agarrado a um pedaço de madeira.

Por isso, sempre que se ouvir a frase “com os jogadores do City também eu”, que não se tenha medo de dizer: é MENTIRA! É mentira, porque o nome dos jogadores não influi no pensamento de cada um; é mentira, porque quem o diz não faz ideia do que é qualidade; e é mentira, porque sempre que a tiverem ao dispor, vão varre-la rapidamente para baixo de um qualquer tapete!

Não tenho grandes dúvidas de que hoje em dia, Fernando Santos é um dos que mais torce para que João Félix não faça assim tanto ao serviço do Atlético, porque se o “puto” explodir em Espanha, o engenheiro não terá como varre-lo para o banco de suplentes, porque não saberá nunca como, realmente, tirar partido dos verdadeiramente melhores.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Contexto e Factores - João Félix


Independente de tudo o que podemos discutir à volta da venda do João Félix para o Atlético de Madrid, este é um dos principais negócios do Futebol Moderno e os valores envolvldos só confirmam o excelente futebol que o jogador apresentou (com Bruno Lage) e o potencial tremendo que lhe é reconhecido.

120M por um jogador do campeonato português.

Olhando para este negócio de forma critica tenho de considerar 5 factores:

- A decisão do jogador
- A decisão do clube
- O valor do negócio
- A estrutura do negócio
- A comunicação do presidente aos sócios.


Quanto à decisão do jogador é compreensível mas imatura. O João Félix não é um fogacho momentâneo, é um verdadeiro talento que com mais jogo só poderá evoluir e valorizar. Com mais um ano de Benfica, com mais um ano Bruno de Lage a orientá-lo, com mais futebol jogado, iria sem qualquer dúvida continuar na Selecção Nacional, iria jogar na Liga dos Campeões, iria ser ídolo das bancadas e iria atrair ainda mais o interesse de clubes de campeonatos superiores. No próximo Verão voltariam a surgir as propostas de salários milionários. Um jogador de 19 anos não tem de ter tanta pressa em sair, muito menos quando já actua como titular num clube como o Sport Lisboa e Benfica. Optando por sair o Atlético de Madrid nunca seria a melhor escolha para o seu futebol e desenvolvimento, contudo era a única opção que tinha. A sua decisão pecou no timing e na escolha do destino, tudo forçado por uma pressa muito motivada por outros interesses que o rodearam.

A decisão do clube em vender tão precocemente um dos seus maiores produtos é também bastante questionável. O Sport Lisboa Benfica vive neste momento o ponto alto da sua Formação mas parece continuar a recusar tirar total proveito desportivo dessa. Se há um projecto Europeu dentro do clube então é incompreensível que não haja uma politica de aproveitar ao máximo a consolidação do talento produzido. Esta pressa em vender só se explicaria por dificuldades financeiras que a Direcção não se cansa de negar – invocando até uma saúde nesta área de meter inveja a qualquer outro.

120M por João Félix é uma enormidade. Vamos ser sinceros. Sem toda a politiquice que há à volta das comunicações do clube e do seu presidente, qualquer proposta acima dos 40M seria uma proposta fantástica. Hoje, por aquilo que já demonstrou, o jogador não vale mais de 40M. Um negócio a rondar os 60M – diversificado em objectivos – já seria mais que justo por tudo aquilo que o jogador fez nos últimos 6 meses.

A estrutura do negócio é que traz algumas questões menos positivas. Repito, 60M dependentes de objectivos seria já uma excelente proposta. O que questiono nestes 120M é o que este valor realmente implica e a quem beneficia. Fica a impressão que tudo foi montado de forma a que muita gente pudesse beneficiar desta transferência. Quem vai receber o quê? Quando? Como? E com que contrapartidas futuras? Os benfiquistas não devem nunca aceitar comer gelados com a testa.

Porque só o Atlético de Madrid se chegou à frente? Porque logo o Atlético de Madrid? Porquê tanta intermediação do Mendes? Porquê tantos custos de intermediação? Que instituição financeira é essa que irá fazer o serviço de factoring? É novamente um fundo/instituição do Jorge Mendes como já aconteceu em outros negócios? Que compromissos para o futuro ficaram acordados entre Benfica e Atlético de Madrid? Voltaremos a adquirir fictícias cláusulas de preferência? A venda do jogador beneficia mais o clube, o jogador ou os vários agentes e dirigentes que tocaram neste negócio?


Agora o factor que mais me motivou a escrever sobre o assunto: A comunicação da Direcção com os sócios.

Podendo discordar do timing do negócio a verdade é que os valores envolvidos são fenomenais. Podendo desconfiar dos interesses este negócio alimenta, a verdade é que os valores envolvidos são estratosféricos.


Mas e tudo o que Domingos Soares de Oliveira e Luís Filipe Vieira têm dito aos sócios? Esta politiquice no nosso clube é que me mexe com os nervos. A necessidade que esta gente tem de mentir aos sócios, de os tratar como ovelhas não-pensantes, de tornar a voz do clube algo tão insignificante, lixa-me a cabeça. Qual a necessidade de tanta e tanta demagogia?

Sim, não é novidade. Pelo contrário. Esta direcção já nos habituou de tal forma à mentira e demagogia, que a maioria de nós já nem sequer se importa. É uma pena.


Qual a necessidade de tanta garantia aos sócios que o jogador só saía pela cláusula quando todos sabíamos tal não ser verdade? Depois claro, a mentira na comunicação aos sócios obriga a negócios mais complexos onde se recusam propostas mais “limpas”e mais interessantes para o jogador em prol de outra que nos traga, seja porque caminhos for, o tal valor da cláusula.

Os benfiquista não devem acreditar no seu presidente. Ponto. Mas devemos aceitar isso de animo leve? Deve ser algo assim tão banal os adeptos de um clube conviverem tão bem com o facto de não poderem acreditar nas palavras de quem o dirige?

“Pode chegar uma proposta de 100M que o João Félix não sai”
“O jogador só sai se for batida a cláusula de rescisão.”
“O Benfica não quer vender o João Félix e conta com ele para a próxima época”


Tão simples quanto isto. Se a direcção não quisesse vender o jogador este não seria vendido. Porque pura e simplesmente a cláusula de rescisão não foi batida nem nunca o seria.

Bater a cláusula de rescisão significaria o jogador depositar na conta do clube os 120M e fim de conversa. Não haveria planos de pagamento, não haveria negociações nem haveria qualquer taxa de intermediação. Unicamente haveria (talvez) o pagamento dos direitos de formação. Os 10% do Mendes, os custos de intermediação e o envolvimento de uma qualquer operação financeira da parte do Sport Lisboa e Benfica nunca existiriam.


A cláusula de rescisão não foi batida e o negócio só se dá por haver vontade por parte de ambos os clubes em que tal acontecesse. O Sport Lisboa e Benfica quis vender e fez por isso.

Hoje em dia o actual presidente do Sport Lisboa e Benfica já só engana aqueles que querem ser enganados, e infelizmente ainda são muitos. Luís Filipe Vieira só irá continuar a sobreviver às suas mentiras enquanto as emoções dos adeptos – paixão encarnada e ódios não encarnados – os forem cegando.



quarta-feira, 12 de junho de 2019

Pior 11, melhor jogo.

Sou partidário da ideia de que os melhores devem jogar sempre! É com os melhores que estaremos sempre mais próximos da vitória, porque embora qualidade não seja sempre sinónimo de resultados, é através dela que eles chegam mais vezes. E quando os melhores não formam a melhor solução, das duas uma: Ou estamos claramente equivocados na catalogação dos melhores ou, por outro lado, quem comanda o colectivo não sabe muito bem o que fazer com os verdadeiramente melhores.

E é partindo daqui que me proponho a perceber o porquê de a Seleção Nacional ter apresentado melhor qualidade de jogo na final da Liga das Nações do que no primeiro jogo da fase final da mesma prova.

Detendo-me nas duas alterações "não forçadas" promovidas por Fernando Santos no 11 inicial, decorridas entre o primeiro e segundo jogo e à luz dos dias de hoje, parece-me pacifico dizer que Rúben Neves e João Félix são claramente melhores jogadores que Danilo e Gonçalo Guedes, respectivamente. Excluindo aspectos físicos, seja qual for o prisma de analise, Rúben e Félix estão uns bons patamares acima dos seus substitutos, não havendo quase comparação entre eles. Seja a nível técnico, seja ao nível da decisão, compreensão e velocidade de percepção do que os envolve, os dois primeiros são isso mesmo: primeiríssimos em tudo, face aos outros. Todavia, a substituição de uns por outros, resultou numa clara melhoria de jogo da equipa na partida frente à Holanda, face ao que havia acontecido frente à Suiça. 

Aqui chegados, sobra a pergunta: Como jogamos melhor com "piores" interpretes? Em tese, existe aqui um contrassenso enorme, porém e se analisarmos em contexto, esta relação faz todo o sentido, já que, num contexto em que cada individualidade dá o que sabe, ter Danilo e Gonçalo entre escolhas como William e Bernardo, cria mais variabilidade de soluções por si só, do que lhes juntar Rúben e Félix. 

O que há de comum entre Bernardo, William, Rúben e Félix? Quase tudo. São todos jogadores que, por "instinto", procuram sempre dar soluções em apoio, soluções interiores e raramente o contrário disto, ou seja, soluções de roptura e largura. Isto é, todos juntos e sem funções claramente atribuídas, sem referências claras de "como", "quando" e "para onde", tendem a fazer várias vezes o mesmo, deixando assim o colectivo cair na previsibilidade, por via da monotonia na resolução dos problemas que surgem. E o primeiro jogo não foi nada menos que isto: Previsível e monótono. A seleção helvética, nunca teve grandes duvidas do que iria o colectivo Português fazer em cada momento, sendo-lhes assim muito fácil espremer os espaços entre sectores e, com isso, retirar área de manobra às nossas unidades mais criativas, como o são precisamente Rúben, William, Bernardo e Félix. E Portugal nunca soube sair disto, porque nunca teve quem desse assiduamente soluções de ruptura que obrigassem a última linha Suiça a reagir e, com isso, alargar distâncias entre sectores e entre jogadores.

No primeiro jogo, mais do que manietado pelo adversário, Portugal esteve inoperante por si só, por não ter definido quem faz o quê e quando. Foram incontáveis os momentos em que o colectivo se encontrava claramente perdido e sem  saber muito bem o que fazer. Não foi o adversário que defendeu superiormente, nós é que nunca soubemos atacar convenientemente, apesar da obscenidade de qualidade individual presente a nosso favor. 

Por oposição, a partida frente à Holanda, trouxe-nos um Portugal muito mais fluído e capaz de chegar a zonas de finalização com perigo, exactamente por existir um maior leque de possibilidades de ameaça, o que obrigou a Seleção laranja a reagir a diferentes estímulos, provocando assim maiores dúvidas e, por essa via, mais espaços. 

Se observarmos Gonçalo Guedes, percebemos que, apesar das notórias debilidades técnicas, se trata de um jogador que procura acelerar... Sempre (e daqui nascem os seus colossais erros de decisão). Não analisa o contexto, não tenta perceber o que tem e o que lhe dão e depois decidir em função disso, não. Acelera e ponto. Isto em tese é péssimo, porém, e repisando a ideia de que cada um dá o que instintivamente sabe, ter este tipo de jogador enquadrado num colectivo em que as melhores unidades jogam instintivamente em apoio, percebemos que mesmo mal escolhidos os momentos para acelerar (seja com ou sem bola), isto cria uma solução disruptiva com as demais e torna o leque de ameaça colectiva maior.

Como é óbvio, mesmo que gostemos de um jogo apoiado, há que entender que os movimentos de ruptura são essenciais até para que esse tipo de jogo tenha sucesso, porque é sempre mais difícil defender 2 tipos de ameaça que apenas um. E um potencia claramente o outro. Se reagem ao apoio, vamos na profundidade, se reagem a esta, vamos no apoio. Ter só um deles é sempre pobre e levará, inevitavelmente, ao insucesso. O mesmo se passa em zonas interiores do bloco adversário, isto é, ter soluções de passe verticais, em apoio e largura, para que o adversário tenha de optar qual delas defender. E nisto tudo é essencial ter os melhores, para que saibam o que escolher em cada momento e o que fazer com o que o adversário dá. 

Pode-se sempre argumentar que como Gonçalo (ou Rafa, dentro do mesmo estilo) é rápido, será sempre melhor a atacar a profundidade que outro qualquer, porém, "basta" que os momentos para sair em profundidade estejam identificados e trabalhados, qualquer jogador será capaz de o fazer e, pelo menos, criar essa dúvida no adversário. Uma das mentes mais brilhantes que fala sobre o jogo em Portugal, Blessing Lumueno, tem uma frase lapidar sobre isto: "Sozinhos vamos mais rápido, juntos vamos mais longe". 

Podemos também dizer que este tipo de trabalho é muito mais difícil de levar a cabo numa Selecção, onde o tempo de treino é muito diminuto, do que num clube, o que é verdade. Porém, achar compreensível que um seleccionador não tenha uma ideia clara e trabalhada ao fim de quase 5 anos de trabalho, também me parece demasiado benevolente. 


quarta-feira, 29 de maio de 2019

E Zivkovic?


Zivkovic foi um dos jogadores mais subaproveitados durante o reinado de Rui Vitória no Benfica ainda que, em abono da verdade, tenha sido com o técnico Ribatejano que o jovem Sérvio melhor revelou o que pode dar, quando teve alguma continuidade enquanto escolha para o onze.

O ex-técnico Benfiquista nunca demonstrou saber entender o que de melhor Zivkovic tem para aportar ao jogo da sua equipa, tendo sido recorrentes as saídas do jogo ou das escolhas nos momentos em que mais se pedia a sua presença. Alturas em que a anarquia e correria tonta tomavam conta do colectivo, Zivkovic aparecia a ensinar a todos o melhor caminho a seguir, porém, foi nesses mesmos momentos em que Rui Vitória abdicou dele vezes sem fim, ora substituindo-o, ora deixando-o de fora das escolhas para o jogo ou a conserva-lo ao seu lado no banco de suplentes.

Sobre o jovem talento dos Balcãs, Rui Vitória chegou mesmo a afirmar faltar-lhe “rasgo”, signifique isso o que significar. Em boa verdade, a única coisa que faltava/falta a Zivkovic é… jogo! Apenas e só jogo! Jogar mais, mais e mais, porque tudo o resto o jovem Sérvio tem de sobra e a mais que a esmagadora maioria.

Com a chegada de Bruno Lage ao comando da equipa principal, ainda sem saber o que ele queria para o jogo, alimentei a esperança de ver, finalmente, Zivkovic jogar integrado numa ideia de jogo colectivo e com continuidade.

Porém, os jogos foram passando e os minutos de Zivkovic não foram aparecendo e o próprio jogador foi desaparecendo gradualmente das opções, dando a ideia de ter sido ultrapassado por tudo e todos dentro do plantel.

Percebendo que o sistema de jogo escolhido não é o que melhor pode explorar Zivkovic (sendo óptimo para Félix, por exemplo) e entendendo que Bruno Lage vê em Pizzi um jogador para o corredor direito e que pretende um homem no corredor esquerdo que seja capaz de provocar a profundidade constantemente, não sobram lugares no onze para o Sérvio, é uma verdade.

Ainda assim, e tendo em conta que Bruno Lage optou sempre por alguma rotatividade nas provas paralelas ao campeonato nacional, é-me difícil compreender que o Sérvio nunca tenha entrado verdadeiramente nas contas do técnico. Porque se é verdade que Zivkovic não é o homem certo para uma ideia de alguém que explore a profundidade com ropturas em movimento de forma consistente, também não deixa de ser verdade que me parece a melhor opção para, pelo menos, o segundo plano do homem que procura mais o jogo interior em apoio, sendo muitas vezes o 3º médio, isto é, se entendo que a rotatividade na posição de Rafa não passe por Zivkovic, não entendo que a mesma rotatividade de Pizzi não passe por ele.

Se há coisa que o Sérvio faz como ninguém, é mesmo o jogo associativo, criativo e com elevado recorte técnico associando-o a uma enorme qualidade de decisão. Ou seja, todos os critérios para se ter sucesso em terrenos interiores, onde o espaço escasseia e cada bola assume uma importância fulcral, estão reunidos em Zivkovic para que ele tenha impacto positivo no jogo colectivo e com isso aproxime a equipa do sucesso.

A juntar a isto, sobra ainda a ideia veiculada por Bruno Lage na entrevista dada no final da época a vários jornalistas, referindo que opta por dar liberdade de decisão aos jogadores, ficando para ele a definição de posicionamentos. Ora, dando liberdade de decisão, quanto a mim, faz ainda mais sentido que se opte por quem é capaz de tomar as melhores decisões e nisso não há como não destacar Zivkovic nos melhores do nosso campeonato.

Esta, quanto a mim, foi a única grande questão que ficou por responder na mesma entrevista. Numa segunda metade da época carregada de jogos, porque não foi Zivkovic utilizado com alguma continuidade? O que lhe falta? Em que lugar Bruno Lage o enquadraria e porquê?

Não sei por onde passará o futuro do Sérvio, mas seja por onde for, que tenha jogo, porque o Jogo precisa de Zivkovic.

domingo, 26 de maio de 2019

2018-19 - O Milagre do 37

Não foi tudo péssimo até Janeiro - foi quase tudo - nem foi tudo perfeito em 2019 - mas foi miraculoso.

Não há dúvidas que a mudança de treinador é o momento da época. Não é o simples trocar por um treinador melhor pois só isso não faria diferença nem seria recomendável. Foi o retirar de alguém inapropriado para o cargo abrindo assim espaço para que um treinador de grande competência o agarrasse.

Portanto o momento da época foi sem dúvidas a chicotada psicológica, a saída de Rui Vitória e a afirmação de Bruno Lage.

E a figura da época?

Temos entre os jogadores vários potenciais "vencedores". Do divino Jonas ao puto João Maravilha Félix. Da revelação Ferro ao desequilibrador Rafa. Do capitão Samaris ao bota de prata Seferovic. Do cerebral Pizzi ao criativo Grimaldo.

Mas a figura da época terá de ser Bruno Lage. Mudou tudo. Mudou os sentimentos nas bancadas, mudou a mente dos jogadores, mudou a qualidade dos treinos, mudou o modo de estar em campo e de tratar a bola, mudou a táctica, mudou as opções. Mudou toda a gestão do plantel e a filosofia de jogo. Mudou o discurso. Com Lage o Benfica renasceu da apatia em que se encontrava. O Benfica jogadores, o Benfica adeptos, o Benfica sensações.

Foi tudo perfeito com Bruno Lage? Não. Houve jogos - Sporting e Frankfurt por exemplo - onde estivemos abaixo de medíocres. O final de época foi menos afirmativo, em vários jogos a equipa penou até a bola começar a entrar. Há muito trabalho pela frente mas agora também há toda uma pré-temporada para aproveitar.

Já o destaque negativo desta época só poderá ser de um homem: Luís Filipe Vieira.

O actual presidente do Sport Lisboa e Benfica depois de ter desistido do Penta optou por também abdicar da Reconquista. Manteve o treinador que já tinha provado não ser minimamente adequado ao cargo, reforçou o plantel com jogadores de menor qualidade e sem ter em conta as lacunas da equipa técnica, continuou a alimentar certos pardais tachistas que por aí vão voando e cagando o símbolo do Sport Lisboa e Benfica e nem sequer soube reconhecer os seus erros.

Foi forçado pelos resultados e pelos adeptos a despedir o Rui Vitória, contra tudo e contra todos resolveu voltar atrás nessa decisão afirmando que este ficaria até pelo menos o final da época e depois ao primeiro mau resultado lá o voltou a despedir.

E enquanto os benfiquistas desesperavam com o decorrer da época e com a escolha de um novo treinador, o presidente do clube foi jogar cartas para o programa da Cristina Ferreira. E aí, perante as câmaras e olhares de todos nós, deixou claro que Lage era só um interino, que o seu grande desejo era José Mourinho e que todos iriamos ter saudades de Rui Vitória.

Com negas vindas das arábias, da ucrânia, do principado e até de Setúbal, e perante os bons resultados que Lage estava a conseguir, mais uma vez teve de se contorcer todo e o interino passou a treinador principal.

E Bruno Lage resultou. E o Benfica é campeão. O que resta a este presidente? Arranjar todos os esquemas possíveis para limpar a cara e puxar a si os méritos de uma reconquista que ele próprio sabotou. Politiquices com as emoções dos adeptos.

Já tem peões a divulgar a mirabolante história que Lage era a sua primeira escolha e que o adiamento do despedimento de Rui Vitória se deveu ao facto de Bruno Lage estar naquele momento incapaz de treinar uma equipa da primeira liga. E incapaz porquê? Porque estava de muletas.

Mas ainda pior foi o que se viu na noite da festa do título. Mais uma vez foi contratado o Nuno Luz para promover a figura deste presidente no momento dos festejos, da consagração benfiquista. Desta vez a necessidade de enganar os benfiquistas foi bem mais urgente que em anos transactos.

E assim o presidente do Benfica "viveu" o festejo do milagre de Lage: Com uma câmara na cara a registar cada representação teatral que preparou e com dois jornalistas atrás de si a ajudarem na promoção da sua imagem.

Sim são precisos uns grandes tomates para realizar aquele triste episódio no balneário da equipa. Uns grandes tomates de plasticina. "Oh Nuno estás a filmar? Olha eu aqui a brilhar com o duplicar dos prêmios e os jogadores todos a cantar por mim".

Milagroso Treinador Bruno Lage. Maravilhosos Craques do Relvado. Vergonhoso presidente.


quarta-feira, 13 de março de 2019

Tremida Luz Vacilou na Torre

"@Daniel, ainda n ouvi o que achaste do jogo de ontem. Partilha com a malta"

Em resposta optei por vir aqui em vésperas de jogo decisivo da Liga Europa deixar a minha ideia sobre o jogo na Luz com o Belenenses - até como uma espécie de antevisão ao jogo na Luz com o Zagreb. 

A análise a este jogo pode-se dividir praticamente em 3 partes: Equivocos do Lage, Acertos do Silas e Vacilos Individuais.

Começando pelo Benfica. Foi uma exibição satisfatória e suficiente para vencer este jogo.
Contudo satisfatório é insuficiente na Luz. E por isso um Benfica tremido.

Positivamente destaco a exibição do Ferro - um central de corte limpo, concentrado e com pés - destaco o golo do Jonas e destaco a capacidade de marcação e recuperação de bolas do Florentino.
De resto vimos vários jogadores muitos furos abaixo, algo também potencializado por menores acertos colectivos.

Há que analisar a dupla de ataque e a dupla de meio-campo. Jonas e Félix não são incompatíveis contudo são menos compatíveis do que jogando qualquer um deles com o Seferovic. Os movimentos não são os mesmos mas as zonas de acção são muito parecidas. Ambos têm tendência a recuar para vir buscar jogo e ambos procuram a mesma zona de finalização. É uma dupla que precisa de muito mais trabalho - treino a treino.

A dupla de meio-campo foi um equivoco do Lage. Na Luz contra o Belenenses a dupla Gabriel com Samaris/Florentino funcionaria mas a dupla Samaris e Florentino não. Num jogo em que estamos 90% do tempo a atacar fica-nos a faltar criatividade e visão de jogo no centro do terreno, o que nos obriga a recorrer constantemente a lateralizações e cruzamentos - o André Almeida passou o jogo a bombear bolas para a área. Não havendo Gabriel foi um equivoco do Lage ter optado por colocar Florentino ao lado do Samaris. 

Também nas substituições o treinador do Benfica não foi feliz. Tanto no timing como nas escolhas. Por exemplo, depois do 2-0 seria importante descansar o Jonas e colocar um médio ofensivo que jogasse de frente para a defesa adversária colocando-a constantemente em sobressalto.

Contudo, apesar das más exibições e dos equívocos técnicos, as opções do treinador foram suficientes para no decorrer da segunda parte estarmos a vencer por 2-0. Não foi por aqui que empatámos o jogo.

O Belenenses foi uma verdadeira equipa no Estádio da Luz. Talvez desde o jogo do Moreirense não visse um adversário do Benfica jogar tão bem no nosso estádio.
O Silas percebeu que o Benfica do Lage não se intimida com pressão alta e optou por fechar todos os espaços defensivos, retirando possibilidades aos criativos de combinarem em tabelas. Linhas recuadas e defensivamente muito compactos - uma autêntica torre. Apesar dos cuidados defensivos foi uma equipa que não procurou só defender. Sem chutão para a frente tentaram várias vezes construir rapidamente jogadas de ataque. Uma equipa que gosta e sabe sair a jogar, que troca bem a bola e que tem criatividade suficiente para dinamizar um jogo. No meio campo o Eduardo encheu aquilo, com e sem bola. O Kikas fez um jogão. E o Licá parece finalmente renascido.

Mas lá está. Sinal tremido do Benfica e sinal positivo do Belenenses mas mesmo assim o suficiente para conseguirmos os 3 pontos. Estes só nos fogem devido a dois vacilos. Uma parvoíce do Odysseas e mais uma paragem do Rúben Dias. Dois erros que nos custaram dois pontos.

A Luz do Benfica tremeu contra a Torre do Belém mas só foi mesmo abafada pelos vacilos de dois já algo usuais nestas andanças.

Este jogo tem pelo menos de servir como aprendizagem para o jogo com o Zagreb e como lição para a abordagem à próxima época.



quarta-feira, 6 de março de 2019

O Real e os resultadistas

O mundo futebolístico foi ontem abalado por um terramoto de proporções épicas com a eliminação do todo-o-poderoso Real Madrid aos pés de um jovem, imberbe e profundamente talentoso Ajax. As ondas de choque de tal resultado têm-se multiplicado e prometem não parar nas próximas horas, sendo mesmo imprevisível o seu alcance final.

As reacções ao sucedido têm sido mais que muitas e abarcam uma infinidade de gostos, claro está. Porém, há um traço comum à esmagadora maioria delas: a surpresa, a maravilhosa descoberta de um mundo novo, como se este Real anárquico, aleatório e anémico fosse uma verdadeira novidade. Lamento, não é. Este Real é, aliás, bastante requentado, sendo que a única novidade reside exactamente nos tantos que só agora o descobriram, mesmo que nos últimos 4 anos tenhamos assistido às mesmas coisas que ontem vimos.

E quem desconfia desta bipolaridade de reacções perante factos idênticos, bastar-lhe-á recuar umas semanas no tempo e confrontar o que foi dito sobre o Ajax x Real Madrid, mesmo que nesse jogo a sova holandesa tenha sido, para mim, maior. Diferença? Nesse dia quase nada entrou e ontem quase tudo deu golo, só! Ou seja, entre a primeira mão e a segunda, apenas o resultado foi diferente, tudo o resto foi igual. Os “putos” holandeses deram um arraial de “pancada” nos múltiplos campeões europeus, mas como não ganharam… nada a dizer. Porém, já nessa altura Solari era um profundo incompetente, já este Real andava ao sabor do vento e do que cada jogador soubesse dar, tal qual o era no tempo de Zidane, ainda que o francês, ao menos, colocasse mesmo os melhores em campo, em vez de ostracizar jogadores como Isco, Asensio ou Marcelo.

Os anos passam e continuamos a esperar que os resultados nos indiquem o que dizer, em vez de o dizer independentemente dos mesmos. Agora, será pacifico dizer-se que o Real é um barco à deriva e sem que o seu treinador faça o que é suposto um treinador fazer: dar ideias e identidade que transcendam as individualidades. Dizer isto nos tempos de Zidane, nos tempos em que a mesma aleatoriedade e os mesmos impulsos individuais davam títulos europeus era crime.

Por isso, sim, esta queda no precipício era uma tragédia pronta a acontecer a qualquer instante, desde há 4 anos, e sim, esta eliminação chega com 4 anos de atraso. E porque gosto de falar para lá do resultado, também sim, este Ajax imberbe, talentoso e destemido, também não prima pela organização e, tal como o Real, viverá e morrerá pelo caos de uma desorganização que se sustenta no talento individual e no perfil aproximado dos seus melhores (e tão bons que são!) jogadores. 

Queda no Voou pelo Abismo em Lageball

Vamos ser realistas. Esta época foi preparada para na próxima entrarmos directamente na Liga Europa. Sem conquistas, sem as dezenas de milhões da Champions, sem valorização de jogadores e com decréscimo do prestígio do clube. O objectivo passava por fazer valer o lema “Si enim non facile”.

A época começou sem que se corrigissem os erros da anterior, evidenciando-se ainda mais as lacunas dos anos anteriores.

Não nos enganemos. No primeiro fim-de-semana de 2019 estávamos arrumados. Já eliminados da Liga dos Campeões era muito difícil acreditar que fossemos capazes de eliminar o Galatasaray nos 16-avos da Liga Europa, que fossemos a Guimarães conseguir a qualificação para a meia-final da Taça de Portugal e muito menos que conseguíssemos voltar à luta pelo título.

Passados dois meses fomos ao Dragão virar um resultado e garantir os 3 pontos que nos colocam na liderança do campeonato. Isso estando já em vantagem na meia-final da Taça e a disputar os 8-avos da Liga Europa.

Um Benfica em cacos, onde as vozes se dividiam entre a necessidade de mandar embora o treinador e o receio de uma chicotada psicológica em Janeiro. Uma equipa sem treinador, cheia de dúvidas e com um presidente na casa da Cristina a jogar às cartas enquanto saudoso do anterior treinador apontava os seus esforços a José Mourinho.

E neste caos há por lá um treinador interino a fazer um trabalho provisório enquanto não se arranjava alguém melhor.

Neste caos surge um homem simples, um homem do futebol que respira futebol e que adora futebol. Chega, abstrai-se de todo o circo mediático criado pelo seu próprio presidente, ignora o fraco papel que lhe foi dado, e somente se preocupa em colocar os jogadores a treinar e a jogar futebol. 

Fá-lo sem o patrão da defesa – Jardel, sem o patrão do meio-campo – Fejsa e sem o melhor avançado e jogador da equipa – Jonas. Sem reforços de Inverno. Com metade dos reforços de Verão afastados. 
E rapidamente chegou ao coração dos Benfiquistas. Tudo porque fala sobre aquilo que treina e joga – Futebol.

Bruno Lage consolidou uma nova dupla no eixo-defensivo com Rúben e Ferro; Bruno Lage criou um novo duo do meio-campo revitalizando o Gabriel e limpando o pó ao Samaris; Bruno Lage recuperou a melhor posição do médio mais criador da equipa – Pizzi – retirando-lhe obrigações defensivas e colocando-o mais próximo tanto dos criativos da equipa como das zonas de definição; Bruno Lage percebeu o Rafa; Bruno Lage deu-nos uma nova dinâmica ofensiva retirando todo o potencial que por aqui já era reconhecido ao Seferovic e dando-nos finalmente o verdadeiro João Félix; Bruno Lage apresentou-nos o substituto natural do Fejsa – Florentino; Bruno Lage até nos mostrou que afinal até há uma alternativa ao André Almeida – Corchia.

É um novo Benfica. Um novo 11, uma nova táctica mas acima de tudo um novo futebol. Um treinador que adora o treino e percebe os jogos como um reflexo do que é treinado. Mais que um Benfica com uma ideia muito positiva de jogo, temos um Benfica com processos, com dinâmica, com um guião de jogo. Uma equipa que faz sentido. Temos uma identidade cada vez mais vincada.

Em Janeiro tínhamos a sensação que podíamos perder (ou empatar) qualquer jogo, fosse na Luz ou não, fosse contra equipas de que escalão fossem.

Hoje vivemos um sentimento oposto. Hoje sentimos que podemos vencer qualquer jogo em qualquer terreno. É uma crença muito emocional mas sustentada naquilo que vemos a equipa produzir. Os jogadores transmitem uma confiança tremenda. Não daquelas confianças frágeis induzidas por life coachings mas sim daquelas inquebráveis construídas pela percepção da qualidade do trabalho e do talento que têm.

O que temos pela frente?

Jogo em Alvalade para controlar e garantir mais uma final no Jamor contra o Porto.

Dois jogos com o Dinamo Zagreb para a Europa. Com Lage até já estamos a sonhar com mais uma final nesta competição.

E 10 jogos para o campeonato. 10 jogos. 10 vitórias. E eu acredito.

Belenenses (C)
Moreirense (F)
Tondela (C)
Feirense (F)
Setúbal (C)
Marítimo (C)
Braga (F)
Portimonense (C)
Rio Ave (F)
Santa Clara (C)

Uma época no lixo que pode muito bem se transformar numa época de dobradinha com brinde europeu.

Este é um dos grande méritos de Bruno Lage. Nós benfiquistas podemos novamente sonhar, viver entusiasmados. E nem sequer precisamos de ter preocupações em termos os pés nos chão. O nosso Treinador permite-nos essa extravagância pois ele próprio se encarrega de manter a equipa bem acordada enquanto nós adeptos vamos sonhando. 

Estivemos juntos ao abismo e muitos consideraram que despedir o treinador seria dar o passo em frente. E foi. 

Um passe vertical em frente a rasgar o abismo em Lageball.



segunda-feira, 4 de março de 2019

LAGENIAL



Os grandes treinadores são moldados em forja de múltiplas competências, como é sabido, mas só alguns possuem o verdadeiro toque de Midas. 
No clássico deste fim de semana assistimos a uma demonstração cabal da importância do treino e da comunicação no trabalho e nas ideias do novo treinador do Sport Lisboa e Benfica. Embora tenha sido este o ponto de partida para tudo o que as equipas de Lage fazem em campo, há momentos sem bola que nos ficam na retina. É de um desses momentos que faço a crónica agora.


Já li vários comentários por essas páginas fora, em várias plataformas diferentes, onde se vangloria o facto de Rafa e Lazarus Samaris terem vindo apressar as comemorações do primeiro golo porque queriam dar rapidamente a volta ao jogo. Mas isso não foi o que eu vi, e creio que tão pouco terá sido aquilo que aconteceu, objetivamente.


Bruno Lage é um eterno estudioso e profundo conhecedor do Jogo, em todas as suas vertentes. É claro que a idiossincrasia portista é sua conhecida: a violência, as agressões, a intimidação ou os célebres pisões, apregoados por Jorge Andrade, foram vistos e analisados pela cognição do nosso treinador ao longo de toda a sua vida. Lage sabe bem o que é o ambiente no Dragão, e sabe melhor ainda que não se deve espicaçar um ninho de vespas. Durante a semana, seguramente, foi passada uma informação importante a todos os jogadores do plantel: não provocar ninguém e ter sempre cuidado com os possíveis festejos; sobretudo, desvalorizar todas as provocações vindas do lado de lá, quer venham de jogadores, do banco ou dos adeptos azuis mais broncos. Todas estas pessoas são coniventes com uma história de enganos, e Lage sabe-o bem; uma história de domínio pelo ilegal, pelo ilícito, pelo compadrio e pelas trocas de favores. Uma história nojenta onde até estiveram metidas a política, a polícia e o sistema judicial locais, reforçando a ideia de que o FCP é o clube regional do compadrio; é o clube das reuniões em casas de putas, famosa parte da moeda de troca para as nomeações e os resultados do fim de semana seguinte. E é este o panorama que todos encontramos quando nos deslocamos ao Dragão; não se trata apenas dos onze arruaceiros em campo ou da equipa dos descolhoárbitros. Em cada dois espectadores, pelo menos um será vértice de violência, estupidez e intolerância, pronto a explodir a qualquer momento, formando rápida e instantaneamente uma rede de estupidez com o calhau mais próximo por cada coisa que menos lhes agrade. 

Esta é a estupidez que Lage sabe que pode atrapalhar o bem jogar. Pode atrapalhar a concentração dos jogadores, e sobretudo dos mais novos, que são muitos! (obrigado Lage). Felix celebrou daquela forma porque aquela é a sua celebração, como vimos, por exemplo, no jogo anterior, depois daquele maravilhoso golo a dois tempos e a dois pés. Não é nenhuma mensagem de provocação; não é nenhuma resposta a nada que a morcandade tenha dito durante a semana. É a celebração de um miúdo de 19 anos, tão somente. Mas Rafa tinha a lição bem estudada, tal como Lazarus Samaris. Vamos, puto, levanta-te porque aqui não estás bem. Vê-se bem, pela reação do Menino Feliz, que este conhecia as instruções, mas que se “esqueceu” por um momento. É normal. Depois chegou Samaris e tratou ainda de afastar o resto da malta daquela zona azulada. É mesmo assim que tem que ser, os mais velhos e mais experientes a tomarem conta dos mais novos.


Não tenhamos dúvidas que tudo isto foi parte da estratégia de Lage para o jogo no Dragão: entender muito bem o adversário em toda a sua idiossincrasia. A forma como abraça aquele calhau baixinho e careca, na altura das agressões dos jogadores do FCP, é maravilhosa; imagino-o a dizer então, então, isto é assim, já sabes, é futebol, não há muito a dizer. Concentremo-nos no jogo. Toma lá um abraço de fair play e diz-me agora onde é que fica o teu ódio e a tua provocação. Ainda consegues? Não? Ok, somos todos amigos, já percebeste que aqui não mora um calhau mas alguém bem formado, que acredita no sucesso do trabalho, do esforço e da dedicação. Mas, sobretudo, da inteligência.
Mesmo o próprio Conceição esteve relativamente controlado, pelo menos até ao momento em que achou que não deveria cumprimentar um miúdo que tem idade para ser filho dele, do alto da sua falta de carácter e desportivismo.


Este não foi apenas o clássico do Bem contra o Mal; em 2019, Lage deu lições de civismo e de inteligência pura, ao calar tanto ódio com uma postura exemplar. É também assim que se educa, mister, pelo exemplo. Obrigado.


sexta-feira, 1 de março de 2019

O Benfica é o BIG BANG



É-me estranho ler sobre o mundo anterior a 1904. As pessoas que existiram, os livros que escreveram, as brigas que tiveram, os quadros que pintaram, as músicas que inventaram, os dias sob o Sol de costas arqueadas, as cartas profundas que - a pena, a giz, a sangue - choraram, os amores que sentiram, as fomes, as tristezas, as guerras, os desvarios. Que espécie de humanidade era aquela, sem Benfica?

Quando Fernando Pessoa nasceu, os 3 oitos que lhe dão origem não são contemporâneos do Estádio da Luz. Como pode um homem escrever tamanha obra celestial sem ter provado as bifanas das barracas de madeira, ter abraçado desconhecidos sob a chuva, chorado desalmadamente uma derrota, envergado cachecóis e mantos sagrados, ter acalmado desamores na ternura do voo da águia, ter desistido de amigos por questões de paixão, ter vibrado e sonhado com golos do Benfica? Enquanto escrevia, numa alucinação de sentires e pesares, Pessoa nunca teve aquele conforto de alma de saber-se benfiquista.

Isto não está correcto, não pode ser verdade, há milagres escondidos na dimensão do mundo. Como Deus e outras patranhas similares, a invenção de que o Benfica nasceu em 1904 advém de uma necessária ilusão para que as notas toquem todas ao mesmo tempo e façam sentido. O Benfica não nasceu em 1904, o Benfica já existia muito antes de haver escritas e livros e pinturas e noções básicas de civilização. O Benfica nasceu no primeiro ser humano que surgiu na Terra. Quando um peixe, estafado de água e algas, se decidiu a caminhar, aos soluços, pela imensidão das veredas e coqueiros de uma ilha, meio grogue, já o Benfica o esperava nos areais da humanidade. Ainda não havia propriamente mundo nem humanos e já havia Benfica. O peixe criou patas, depois coluna vertebral, olhos e cabelos, noções de pele, medos, certezas, derivações de coragem, tudo isto enquanto o Benfica o alimentava de amor e daquilo que ele precisava para criar, não sem hesitações e despautérios, aquilo a que mais tarde se chamaria: o mundo.

Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil em 1808 (dois oitos, menos um que o do Pessoa), já D. João cantava loas ao benfiquismo, envergando no peito uma declaração de liberdade e independência: “Crio este país como forma de potenciar jogadores para uma realidade que, apesar de distante no tempo, criará grande discussão no seio do reino de Portugal e do Benfica”. Embarcado em fuga, D. João já inovava pela clarividência de raciocínio e premeditação, fomentando prospectores de talentos e novas abordagens aos mercados mundiais. D. João era naturalmente benfiquista, pleno de criatividade, astúcia e ilusão, alheado dos factores universais das valorizações de activos. Criou o Brasil só para potenciar Jorge Gomes e os demais que se lhe seguiram, como Mozer, Aldair, Ricardo Gomes e, os dois expoentes máximos da epopeia, Valdo Cândido de Oliveira Filho e Jonas Gonçalves - o golpe transcendental em D. Miguel e seus anafados absolutistas.

O que fez história e ficou na posteridade – admiremos Cosme Damião por isso – foi ter o nosso “fundador” encontrado, na Praia da Adraga, um notável manuscrito de D. João no qual este versava sobre a fundamental importância de criar em Portugal um clube que desse corpo à ideia universal de benfiquismo. Escusamo-nos a revelar todo o conteúdo do maravilhoso documento, chega-nos a ideia de que Cosme absorveu, criou e recriou à sua imagem – homem de dignidade admirável -, fazendo do Sport Lisboa e Benfica aquilo que ele é, apesar dos apesares, hoje. O que nunca ficou escrito, e é pena, é o facto de D. João, também ele, ter encontrado na praia cartas dos antepassados benfiquistas. Em resumo: uma sequência peculiar de descobrimentos de garrafas nas quais a História do Benfica é contada desde os tempos primeiros em que nem sequer havia giz, sangue, penas ou vidros. Um mistério que ainda está por ser descoberto, provavelmente advindo de relações internacionais com extraterrestres.

Festejemos, no entanto, o último dos humanos: o bigodudo Cosme Damião, o autor da proeza genial, e rara, de dar vida a um sentimento que percorre milénios de humanidade e existência. Naquela reunião na Farmácia Franco, Cosme nunca falou do Cosmos, limitou-se, bem, a inventar o Benfica. Agradeçamos, em devida vénia, respeito e amor, ao nosso ilustre bigodudo por isso. Não esquecendo, agora que conhecemos a verdade dos factos, que o Benfica nasceu do mar. E antes dos astros. O Benfica é o Big Bang.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O que quer do jogo Bruno Lage?


O estado eufórico da comunidade Benfiquista e do futebol em geral com os primeiros jogos (e que jogos!) do Benfica de Bruno Lage tem sido retumbante. Eu, claro está, incluo-me nesse grupo de pessoas que se deleita ao ver o melhor plantel em Portugal a jogar sob o desígnio de uma ideia e de um jogo coletivo, finalmente!

Mais do que os resultados (e são excelentes, mesmo com a derrota frente ao FC Porto), o que tem impressionado, tem sido a rapidez com que Bruno Lage tem transformado uma porção de terreno terraplanado, num belo parque de diversões, em menos de dois meses e a jogar, consecutivamente, duas vezes por semana.

E esta relação entre o tempo para treinar e a qualidade coletiva que a equipa apresenta, jamais pode ser ignorado, seja qual for o prisma de análise a este Benfica. De facto, o contexto com que Bruno Lage se deparou não podia ser pior: Equipa em crise de resultados, sem o mínimo de identidade, com zero hábitos de bom treino e, pior que tudo, sem tempo sequer para respirar, quanto mais treinar e implementar uma ideia.

Contudo, e apesar de parecer um presente envenenado, Bruno Lage nunca apresentou qualquer sinal de descrença ou enfado pelo que o destino lhe tinha reservado, não! Pegou no que tinha, no que queria e foi a jogo. Arriscou, continua a arriscar (o onze de ontem é um bom exemplo) e sem nunca se escudar em contextos, tem apresentado qualidade de trabalho (não falo de resultados), contando ainda com alguma felicidade, diga-se (e aqui sim, já falo de resultados), que também é necessária num contexto tão difícil.

Aqui chegados, e feita a ressalva sobre o enorme mérito de Bruno Lage, importa-me procurar perceber o que Bruno Lage quer do jogo e para o jogo, isto é, que tipo de ideia tem do jogar da sua equipa e o quanto faz depender essa ideia do adversário que terá pela frente a cada jogo.

Tendo em conta as palavras de Bruno Lage ao longo do tempo, seria de esperar uma equipa que procurasse jogar o mais tempo possível em organização ofensiva e em posse, porém não tem sido bem isso que a equipa nos tem dito no relvado.

Se nos primeiros jogos me parecia natural atribuir essa falta de congruência entre o jogo e as palavras do treinador à escassez de tempo para implementar algo, porque, de facto, jogar de forma coletiva e competente em organização ofensiva e em posse de bola leva o seu tempo, o que o jogo de ontem nos trouxe (bem como boa parte do jogo na Luz frente ao Sporting), não foi bem um Benfica de posse de bola e ataque organizado, muito pelo contrário, ontem vimos uma equipa recolhida no seu meio-campo em organização defensiva e a procurar saídas rápidas para o ataque, isto é, a absoluta antítese da ideia que ficava pelas palavras de Bruno Lage.

Sublinho: Não estou a falar da constituição do 11 (com a qual apenas discordo de Salvio e Cervi, que eu nunca escolheria para coisa nenhuma), estou a falar da ideia coletiva que ontem foi levada a jogo.

Naturalmente que mesmo em organização defensiva se notou a colossal diferença entre o que existe face ao que existia, mas ontem não achei que se Rui Vitória ainda fosse o treinador, a ideia tivesse sido diferente daquela. A qualidade dos comportamentos coletivos subiu absurdamente, mas a ideia… foi um fiasco, para mim. Não gostei, não gosto nem nunca gostarei de equipas que se guardem e escondam do jogo, deixando o seu destino entregue à competência de quem tem a bola. Felizmente, tal como já havia sido visto frente ao FC Porto, este Galatasaray deixa muito a desejar no que diz respeito à qualidade, caso contrário, caso houvesse um médio defensivo diferente de Fernando, por exemplo, dificilmente o jogo teria sido a tranquilidade que foi. Podemos achar e dizer que fosse esse o caso, não fosse Fernando o jogador limitado ofensivamente que é, Bruno Lage teria uma abordagem diferente ao jogo neste aspeto específico. Ok, até posso aceitar como justificação verdadeira, porém o que mais me importa saber é se, enquanto coletivo, esta ideia passiva do jogo é para manter nas partidas deste perfil ou se, de facto, é para sermos a equipa ofensiva e de posse que Bruno Lage “prometeu”.

Em suma, há duas ideias a reter, mais pela verificação do que pelo que já se sabia de antemão: Tendo Rui Vitória, qualquer escolha (e sublinho o “qualquer”) representaria uma evolução enorme. Porém, face ao contexto, Bruno Lage demonstra que não é apenas o “qualquer”. Não, quer mais do que isso, falta saber o quê exatamente.

A resposta será dada pela equipa daqui até final da época, mas não deixaria de ser engraçado que os jornalistas, quem têm tido Bruno Lage à disposição a uma média de 4 vezes a cada 7 dias, colocassem este tipo de questão ao treinador, em vez das habituais, boçais, patéticas e já cansativas questões redondas e sobre temas laterais que não são controláveis pelo treinador.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Declaração a um Amor

Aqui me encontro solteiro só porque não te posso ter só para mim.
Mas hoje me declaro a ti, neste dia de São Valentim.

Sport Lisboa e Benfica te amo, teu é o meu coração
Sempre que te vejo em campo todo eu uma erecção.

Não tenho pudor em admitir, não tenho receio de quem me ouvir
Mesmo à distância neste dia 14 só tu me farás vi… sorrir.

Felizmente vivemos nestes tempos modernos onde à distância te posso olhar
E assim mais logo em vídeo-chamada pela televisão te irei adorar.

Pelo relvado os teus movimentos, a tua cor, os teus passes me vão excitar
Com a bola a rolar, a magia a pairar, num orgasmo de delírio me farás gritar

Gooooooooooooooooooooolo

Que prazer de te ver triunfar.

Vamos Benfica!

Vamos meu amor!

(Gente casada ou em compromisso não se preocupem que este é o tipo de adultério mais maravilhoso que há)



sábado, 9 de fevereiro de 2019

Gabriel o lento


Em Portugal há uma enorme tendência para se classificarem os jogadores que se procuram destacar pela qualidade cognitiva como jogadores lentos e sem a famosa intensidade. É assim com Oliver – que hoje é mais elogiado, apesar de jogar consideravelmente pior, só porque corre mais; foi assim com Rúben Neves – que hoje rebenta com os “intensómetros” dos “intensadores”, porque se destaca na liga mais mediática do mundo; foi/é assim com André Gomes; foi com William Carvalho, mais um famigerado lento, etc. Tudo o que não for jogador que procure condução de bola ou corra que nem um desesperado (quem muito corre, acreditem, muito desespera) é colocado na prateleira dos “lentos”.

Mesmo sem conhecer absolutamente nada de Gabriel, vendo os seus primeiros minutos com a camisola do Benfica, facilmente se podia prever que seria mais um a ser arrumado na pilha de “lentos do futebol Português” e, caso Rui Vitória se mantivesse no comando técnico, acabaria a época com a etiqueta de “flop do ano” colada na testa.

Dizer-se que Gabriel é lento não é que em si seja um problema (ainda que tenha dúvidas sobre se realmente corre devagar ou não), o erro é achar-se que a velocidade de deslocamento é o que define um jogador e o não se ter reparado na enorme injustiça que se cometia com um jogador que passava jogos inteiros a ver a bola passar-lhe por cima da cabeça em momentos ofensivos e a ter que cobrir manchas colossais de terreno em momentos defensivos. Mais, não se percebeu que Gabriel nunca se iria destacar enquanto lhe fosse exigido que galgasse metros e metros com bola, tratando-se ele de um jogador marcadamente de passe e de critério. Sim, critério é o conceito-chave de Gabriel e o conceito maior no jogo de futebol. Decidir bem, em vez de decidir rápido, algo que pode resultar no mesmo em determinadas circunstâncias, mas que na origem são conceitos que partem de premissas absolutamente opostas, porque quem procure decidir bem vai conseguir decidir rápido quando tal se justifique, mas quem procura decidir rápido, vai fazê-lo sem considerar as circunstâncias.

Com a mudança no comando técnico do Benfica, Gabriel tem emergido como uma das faces maiores da mudança, no que diz respeito à ideia de jogo. O médio Brasileiro tem assumido um papel-chave na dinâmica de Bruno Lage, demonstrando a todos a qualidade que sempre teve e, pasme-se, continua a não ser particularmente rápido no deslocamento. Porém, e porque tem qualidade técnica, porque tem qualidade na decisão, o simples facto de hoje estar integrado numa ideia que procura muito mais um futebol conexo e associativo, um futebol de melhores decisões, um futebol de linhas mais próximas e de maior critério, o jogador emerge com um dos indiscutíveis no 11, por oposição ao que acontecia há 2 meses (!!!), momento em que era um dos mais contestados.

Por estes dias, o meu filho perguntava-me se podia comer mais uma goma. Porque já tinha comido umas quantas, lá lhe disse que não, porque demasiados doces fariam mal aos dentes e, perante a sua relutância em aceitar a minha explicação, disse-lhe mesmo que, caso continuasse a comer gomas, ficaria sem dentes. De imediato, abriu a boca e disse: “Pai, vês, ainda tenho os dentes todos!”. Assim se comenta futebol por cá, se ainda tem dentes é porque está bom, mesmo que seja previsível que a continuar assim, estes venham a cair todos. E só no momento em que não sobrar nenhum é que será permitido pensar diferente do óbvio.

Pior, quando um Gabriel desta vida lhes tira todo e qualquer dente, serão capazes de dizer que sempre pensaram como ele.

O problema de Gabriel nunca foi ser Gabriel, o problema de Gabriel sempre foi ter quem não soubesse que era Gabriel ou sequer compreendesse o que era ser Gabriel. E vou mais longe, correndo o risco de cometer uma heresia nos critérios dessa gente, para mim, se Bruno Lage quer mesmo um futebol de posse, Gabriel deveria assumir o papel de médio mais recuado no momento da construção, fazendo-o acompanhar de outro médio que não Samaris (que realmente é bastante limitado em tudo, sobretudo com bola).

Dar opinião sem assumir qualquer opinião, para além de um belíssimo acto de contorcionismo, é garantir que se pode dizer tudo e o seu contrário, mesmo que não se contribua em nada para o entendimento do jogo por parte de quem ouve ou lê.