Desde
sempre, e é uma tendência natural e generalizada, procuramos razões estanques e
formulas exatas para determinar as causas e competências do sucesso/insucesso. Procuramos
tornar absolutamente previsível o que, por natureza, não é passível de previsão
ínfima. Porém essas fórmulas não existem e, mais vezes do que se possa julgar,
métodos semelhantes em contextos diferentes dão origem a resultados
completamente distintos, pois a realidade não é estanque e a vida é bem mais
que um videojogo onde um algoritmo (por mais complexo que seja não deixa de ser
exato e, por isso, previsível) determina quem vence e quem perde, escolhendo o
que resulta e o que não resulta.
O
mesmo se passa no futebol. A maior discussão recente gera-se em torno de Rui
Vitória, estando de um lado quem defenda que o treinador do Benfica, apesar de
vencer, não tem um processo de jogo bem trabalhado e definido e, do outro, quem
defenda exatamente o contrário, isto é, que não seria possível vencer tanto sem
que tivesse ideias claras e muito concretas sobre o jogo e o que quer dele.
Pois
bem, para falarmos do Benfica e de Rui Vitória, falemos, por analogia, do Real
Madrid e de Zidane: Um dos melhores jogadores da história do jogo, leva menos
de 2 anos no comando técnico Merengue e, nesse período de tempo, já arrecadou 2
Ligas dos Campeões, 1 Liga Espanhola, 1 Campeonato do Mundo de Clubes e 2 UEFA
Supercup.
Perante
isto, fica a pergunta: Zidane tem ou não o tal processo? Não! Não porque não é
notória uma ideia de jogo completamente vincada e trabalhada, isto é, uma ideia
que ultrapasse os jogadores de que dispõe, uma ideia que se mantenha imutável
seja qual for o 11 que escolha para cada partida, uma ideia que permaneça identificável
perante todo e qualquer adversário. Isto, para mim, é claro como a água e já
nem está no domínio da discussão.
Mas
se não tem aquilo tudo, como ganha tanto? Pela qualidade individual que tem ao
dispor. Mas não há outros com qualidade semelhante e que não ganham tanto? Há,
mas poucos são os que, não tendo o tal processo, têm tamanha qualidade e,
sobretudo, com um perfil individual tão aproximado do colega. E, desengane-se
quem pensar o contrário, com ou sem processo, quem ganha/perde a esmagadora
maioria dos jogos são os jogadores.
De
facto, o Real Madrid, hoje em dia, tem uma qualidade suprema ao dispor do seu
treinador. Sempre teve, claro, mas talvez nunca como hoje tão bem “casada”, tão
complementar quanto esta. Ter ao dispor jogadores como Isco, Kroos, Modric,
Benzema, Asensio e Marcelo é mais do que meio caminho andado para se ter
qualidade na hora de ganhar jogos e troféus. Estes jogadores, todos juntos, e
porque têm um perfil, um ADN futebolístico tão próximo uns dos outros, chegam a
fazer parecer que existem coisas onde não as há, fazem acreditar qualquer um
que a esmagadora maioria das coisas feitas em campo são fruto da qualidade das
ideias do seu treinador, quando na verdade, é exatamente o contrário. Estes
jogadores, todos juntos, potenciam o treinador e não o inverso.
Reparem
que, por exemplo, se ao 11 tipo do Real retirarmos Isco (eventualmente o elo
mais fraco na cadeia alimentar que é o estatuto mediático) e lhe juntarmos
Bale, todo o jogar Merengue cai abruptamente, porque Kroos e Modric deixam ter
quem os ajude no controlo do jogo através da posse e das boas decisões, porque
deixa de existir mais alguém, para além daqueles dois, que compreenda
totalmente o futebol de Benzema e porque o número de bolas que cai nos pés de
Bale e, por isso, nos pés de quem decide pessimamente, de quem vê o jogo pela
correria e não pela inteligência, aumenta consideravelmente, diminuindo assim a
capacidade para se assumir um jogo conexo e, aparentemente (apenas), com ideias
sólidas e vincadas.
Ora,
se existisse o tal processo, mesmo que se trocasse Isco por Bale as ideias permaneceriam
semelhantes, embora o nível a que eram executadas fosse diferente, para pior,
no caso. Mas não é isso que se passa, o que realmente acontece é uma mudança
abrupta da forma de jogar de toda a equipa.
Então
é Isco a peça-chave de toda a mecânica Madridista? Não. A chave está no número
de jogadores com o mesmo perfil, isto é, jogadores associativos, criativos (não
são dribladores) e capazes de tomar as melhores decisões na esmagadora maioria
das situações.
Voltando
à questão do ter ou não ter processo para se vencer, vejamos o jogo de ontem da
UEFA Supercup: Man. Utd. x Real Madrid, Mourinho x Zidane, processo x
ilusionistas. Quem ganhou? Quem deu um bigode de futebol? Quem pareceu ter mais
e melhor processo? Exatamente quem tem menos processo e mais ilusionistas,
porque quando a bola salta, um processo mau (Mourinho) frente a jogadores top
(Isco, Kroos, Modric, Marcelo e Benzema) tende a correr melhor para quem quer
mais alguma coisa do jogo do que só destruir.
Algo
de muito semelhante, na minha opinião se tem passado no Benfica de Rui Vitória.
Ter Jonas, Pizzi, Fejsa, Lindelof, Semedo, Grimaldo e Ederson é ter um número
muito significativo dos tais ilusionistas, é ter um número muito alto de
jogadores com o tal perfil idêntico e bem identificado: Associativo, criativo e
boas decisões, três pilares base e comuns a todos eles. Um ADN tão comum e bem “casado”
que nos faz ter a ilusão de que há o que nunca houve e dificilmente haverá.
É
isto um grande problema? Seria se não existisse no clube quem entendesse esta
dinâmica e não percebesse que, com Rui Vitória, é fundamental ter uma coisa: um
ADN demarcado de jogador. E a melhor prova disso, ainda este ano, são as
contratações de Seferovic e Chrien. Dois jogadores que falam o mesmo dialeto futebolístico
que os nossos melhores e mais importantes.
Por
isso, quando se diz que Rui Vitória não tem processo, entendam isso como uma
constatação de facto e não como uma sentença de derrota. Errado não é dizer que
Rui Vitória não tem processo, errado é achar que não há vitórias sem processo.
