Há histórias e estórias. Esta podia ser daquelas contadas às crianças, muito devagarinho, voz em sussurro, os olhos molengões, quase caídos para dentro do corpo e perdidos num remoinho de sonhos e pesadelos, imagens e sítios perturbantes. No fim, a criança dorme. Não veio mal ao mundo, estamos todos em sossego.
Podia começar mais cedo, esta história que é estória. Mas decido iniciar o conto no dia 10 de Junho de 2010. O país fervilhava com a alegria ensandecida dos benfiquistas, ninguém queria saber do trabalho, da esposa, do marido, das obrigações. Era só Benfica e mar e praia e outra vez Benfica. Nesses tempos, o que dizia o nosso Presidente era apenas ruído de fundo, mais fraquinho que as ondas que se formam lá longe, na linha do horizonte. Havia música no coração dos benfiquistas, os dias eram poemas, flores brotavam de copos de imperial - tudo era paraíso.
No entanto, Vieira, sempre compenetrado no seu ofício, tratava de assuntos. Muitos assuntos, tantos assuntos, eeeeeh assuntos que nunca mais acabavam. Um deles a venda de Di Maria ao Real Madrid, que tratava como deve ser tratado um negócio que deve favorecer os interesses do clube: com frontalidade, honestidade, sem merdas. E dizia-nos isto:
«Não há nenhum jovem envolvido em nenhuma transferência, há uma cláusula de rescisão que é para ser cumprida. Até ser cumprida, Di María será jogador do Sport Lisboa e Benfica»
E foi assim que a 29 de Junho de 2010 o Benfica anunciou no seu site oficial a estória corroborada pelo seu Presidente:
«A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD, em cumprimento do disposto no artigo 248.º do Código dos Valores Mobiliários, vem informar que chegou a acordo com o Real Madrid C.F. para a alienação a título definitivo dos direitos económicos e desportivos do atleta Angel Di Maria pelo montante de 25.000.000 de euros, estando igualmente previstos 5.000.000 de euros indexados à utilização do jogador e 6.000.000 de euros relativos a prémios de performance desportiva.»
Sem jovens envolvidos, apenas e só pelo valor da cláusula. Não sejam mesquinhos, uns milhões a menos, outros a mais, Alípios para aqui, Rodrigos para ali, o que importa é que o conto seja bem interpretado. E a criança durma.
Mas recuemos uns dias, até 26 de Maio de 2010. O que dizia este fabuloso contista, um verdadeiro Pirandello dos tempos modernos, sobre outro jogador, desta vez David Luiz?
«David Luiz
é um jogador de referência do actual plantel do Benfica e só sai se
pagarem a cláusula de rescisão. De outra forma, continuará connosco e
ficaremos felizes se tal acontecer»
E, de facto, continuou. Até ser vendido a meio da época e, com isso, ter deixado a equipa desguarnecida até final da mesma, acabando por perder tudo, como é aliás regra quase geral desde que o contista chegou de malas cheias ao Benfica. Mas terá ido pelos 50 milhões da cláusula de rescisão?
«A Sport Lisboa e Benfica - Futebol, SAD, em cumprimento do disposto no artigo 248º do Código dos Valores Mobiliários, informa que chegou a acordo com o Chelsea Football Club Limited, da Premier League, para a alienação a título definitivo dos direitos económicos e desportivos do atleta David Luiz Moreira Marinho, pelo montante de € 25.000.000,00 (vinte e cinco milhões de euros).
Mais se informa que o referido acordo prevê ainda a cedência a título definitivo da totalidade dos direitos económicos e desportivos do atleta internacional Nemanja Matic.
O Conselho de Administração
31 de Janeiro de 2011.»
Mais se informa que o referido acordo prevê ainda a cedência a título definitivo da totalidade dos direitos económicos e desportivos do atleta internacional Nemanja Matic.
O Conselho de Administração
31 de Janeiro de 2011.»
Aaaaaah quase. 25 mais Matic. Não sejamos, no entanto, unhas de fome. Matic valia 25 milhões de euros.
A criança continua a dormir. Leiamos, quase-quase a desligarmos a luz, um pouco mais desta fábula. Agora vem Coentrão, em cima de um arco-íris, mas não se pense que será fácil ao jovem português sair assim, com facilidade, do Benfica - menos do que os 30 milhões de euros da cláusula é que nem pensar! Os jornais, a 26 de Maio de 2011, já avisam:
«Luís Filipe Vieira, inflexível, promete dar luta aos pretendentes do lateral-esquerdo. Recusa-se a incluir jogadores para baixar valor do passe, apenas dinheiro. É difícil, mas presidente encarnado ainda sonha com permanência do lateral.»
«Lembra-me um sonho lindo, quase acabado, lembra-me um céu aberto, outro fechado». A criança dorme, sonha muito e lembra-se do Ramires e do Simão e de tantos outros cogumelos mágicos.
Mas... e Witsel e Witsel? O que tem a dizer o nosso Presidente da possível saída de Witsel?
«Os clubes sabem qual é a cláusula. Se pagaram, nada poderemos fazer.
Estamos muito felizes com Witsel e não pensamos em vendê-lo».
Coerente, sem dúvida.
«Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada»
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada»
(a criança dorme, ainda)
«Canta rouxinol canta
não me dês penas,
cresce girassol cresce
entre açucenas»
não me dês penas,
cresce girassol cresce
entre açucenas»
(há um movimento imperceptível por debaixo dos lençóis)
«Afaga-me o corpo todo
se te pertenço,
rasga-me o vento ardendo
em fumos de incenso»
se te pertenço,
rasga-me o vento ardendo
em fumos de incenso»
A criança está quase a acordar.