A vitória moral. A história do Benfica não é feita de suposições ou possíveis vitórias se não fosse isto ou aquilo. Vários são os exemplos do nosso passado que nos demonstram que muitas vezes contra vários elementos a desfavor o Benfica saiu dos jogos com vitórias - não morais, reais. Ontem não foi o caso. Perdemos o jogo e a eliminatória por vários factores e nem todos exteriores a nós. A sopa com que se fez a eliminação de ontem pode resumir-se a 3 razões principais: arbitragens (nos dois jogos) prejudiciais; mau planeamento da época; mau trabalho na preparação mental dos jogadores.
Arbitragens prejudiciais. Nos dois jogos o Benfica foi claramente prejudicado. Ontem, ao contrário da opinião generalizada que tenho lido por aí, nem sequer me parece que seja pelos motivos mais óbvios - tanto o penálti como a expulsão, apesar de deixarem lugar para a polémica, são aceitáveis e, na minha opinião, correctos. Pensemos, como exemplo, se os lances tivessem sido marcados a nosso favor - acho que todos concordaríamos com eles. No entanto, em tudo o resto, o senhor skomina inclinou o campo: critérios desiguais na amostragem dos amarelos (Mikel e Mata teriam de ter visto vermelho; um pelas faltas recorrentes, o outro pelos protestos que, no caso de Aimar e Maxi, resultaram em cartões) e nas faltas marcadas a favor de Chelsea (algunas inexistentes) e nas não marcadas a nosso favor (algumas em zonas perigosas).
Na Luz, jogo que gerou menos indignação por parte dos nossos adeptos, é que me parece que ficou a maior parte do prejuízo. O penálti não marcado a nosso favor é crucial e podia ter-nos deixado com um resultado muito mais favorável para encararmos o jogo de ontem. No cômputo geral, fica seguramente a certeza de que, com arbitragens justas, o Benfica podia ter tido pelo menos a possibilidade de levar o jogo de ontem para prolongamento.
Mau planeamento da época. São vários os erros estratégicos cometidos por Jesus desde Agosto e sobre eles já nos referimos exaustivamente antes, durante e depois de eles ocorrerem. O facto de termos chegado ao jogo da primeira mão - no qual poderíamos ter feito um jogo muito mais intenso - completamente de rastos fisicamente, com opções discutíveis e outras inacreditáveis - Emerson, o titular indiscutível, é o responsável principal do golo do Chelsea na Luz, por exemplo - retirou-nos fulgor e potencial para passarmos a eliminatória. Tivesse o Benfica cumprido com a sua obrigação em Guimarães e Coimbra (jogos para os quais partiu com 5 pontos de vantagem no campeonato) e o jogo do Porto em casa teria servido não só para colocar uma pedra na questão do título como para ganhar espaço no sentido de encarar a Champions com outra liberdade e frescura.
Não aconteceu, perdemos 10 pontos e o Chelsea apareceu-nos a meio de uma grande confusão de prioridades, não sabendo Jesus de qual competição abdicar - o tal "limite do risco" surgiu e Jesus não quis, bem, abdicar de nenhuma. Só que, claro, com consequências. A de ontem foi a de sermos eliminados. Também pela pouca frescura que demonstrámos na Luz e pelas opções risíveis que tivemos para o jogo de ontem. Que tenha corrido bem ou mais ou menos a algumas adaptações não iliba Jesus do princípio errado com que planeou a época. Pelo menos aqui e para mim. Acredito que muita gente verá na necessidade de utilizar Javi e Emerson a centrais ou Witsel a lateral-direito como algo já perfeitamente planeado e pensado pelo nosso mister. Mas aqui não tratamos de questões psiquiátricas, como deverão entender.
Mau trabalho na preparação mental dos jogadores. É algo para o qual temos ao longo da época feito referência. Em jogos cruciais, os jogadores do Benfica não têm tido um acompanhamento mental e estratégico adequado ao momento das competições e à importância dos jogos. Aimar tem um recorrente comportamento em campo que não se percebe, tendo em conta a noção de que em Portugal os árbitros facilmente distribuem cartões por tudo e por nada e na Europa pela força que as equipas dos principais campeonatos exercem sobre as arbitragens. Receber cartões amarelos por andar constantemente atrás dos árbitros a gesticular é estúpido e devia haver quem no Benfica explicasse isso aos jogadores. Igualmente para Maxi, que demonstrou muito pouca inteligência no lance da expulsão. Um jogo crucial com o Benfica a conseguir trocar a bola e a criar algum perigo junto da área do Chelsea não pode ter um dos nossos a entrar daquela maneira. Com isso Maxi resolveu mais um bocadinho da eliminatória - expulsou-se, deixou-nos com 10 e atirou o jogo e a passagem às meias-finais para o domínio do milagre. Ele podia ter de facto ocorrido mas isso não iliba Maxi do mal monumental que criou à equipa. Pelo menos aqui não iliba, que não tratamos de questões psiquiátricas, naturalmente.
O jogo. As emoções no futebol levam-nos a uma visão parcial das coisas. O jogo de ontem é um excelente exemplo: acabado, a sensação com que todos ficámos foi de um Benfica de grande nível, de uma enorme exibição e de muito azar (tanto com o árbitro como com as ocasiões de golo desperdiçadas). No entanto, o jogo de ontem tem muito mais para contar. Desde logo, a forma como o Chelsea o encarou. O domínio do Benfica na primeira parte, apesar de ter mérito dos nossos jogadores, deveu-se fundamentalmente à estratégia que os ingleses levavam: baixar as linhas, dar-nos bola, promover o erro e depois soltar contra-ataques para as costas da nossa defesa (no fundo o que qualquer treinador minimamente inteligente fará contra a equipa do Benfica). Não surtiu de imediato os efeitos desejados porque o Benfica conservava bem a posse de bola - isto de ter 3 médios é uma coisa boa, não é? -, o Chelsea não arriscava muito e, quando conseguia ter bola, não soube dar uma boa sequência aos espaços que o Benfica deixava atrás - um pouco como o Braga na Luz, mas menos, visto que o Braga teve oportunidades em catadupa de 4 para 2 e 5 para 3 no nosso meio-campo - isto de ter 2 médios é uma coisa má, não é?
No entanto, aquilo que o Chelsea procurava, aconteceu: erro defensivo do Benfica. Bola metida nas costas do Maxi, zona entre o lateral e o central e falta de Javi para penálti. Golo do Chelsea e ainda mais razões para se resguardarem. O que mudou a partir desse momento foi a expulsão do uruguaio, que fez com que o Chelsea encarasse a segunda parte com uma atitude ofensiva que não teria se tivesse ficado a jogar contra 11. E é aqui que aparece mais uma extraordinária organização da época: sem Maxi, o Benfica não tem lateral-direito (nunca teve, uma época inteira!). O que faz Jesus? Retira-nos do meio-campo o nosso único médio de posse e transição e mete-o a fechar a lateral. Com os resultados que se conhecem: o Chelsea ganha o meio-campo, a equipa do Benfica parte-se e surgem 4 evidentes oportunidades de golo, uma delas escandalosa, pelo lado direito da nossa defesa, onde o coitado do Witsel ia fazendo o que podia.
O Chelsea não marcou e Jesus mexeu bem. Retirou Cardozo - que não servia para o que pretendíamos - e Gaitán - já a pensar em Alvalade - e meteu dois homens que queimassem linhas, que forçassem a pressão e ao mesmo tempo chegassem rapidamente a zonas ofensivas. Nelson Oliveira e Djaló (que demonstrou ser uma boa opção para certos jogos) mudaram o jogo na frente mas foi na alma e num espírito, este sim: à BENFICA!, de toda a equipa que o jogo mudou. O Chelsea recuou, o Benfica ganhou o miolo (Matic, fabuloso, controlava todo o meio-campo e um Aimar a grande nível na segunda parte), abriu bem as alas e criou um futebol de grande qualidade - houve momentos de trocas de passes consecutivos e de primeira do melhor perfume que vimos esta época. As oportunidades surgiram, infelizmente não marcámos logo. Quando marcámos, o fim estava perto e o Chelsea temeu pela eliminatória.
O Benfica já não conseguia muito mais porque as linhas inglesas estavam quase todas fechadas - não estiveram no lance do Nelson, que podia ter metido no Djaló, o que revela ainda um jogador com muitas dificuldades ao nível da decisão final - mas um portento físico e de uma qualidade e talento que no futuro nos darão muitas alegrias. O Benfica carregava, os jogadores pediam Artur na área adversária, o sonho estava ali, quase tangível mas não deu. Foi quase. É o limite do risco: pode dar ou não. Com outra organização, outro planeamento, outra estratégia desde Agosto, este Chelsea seria devorado pelo Benfica. Porque Jesus tem razão: somos mais equipa. E ontem juntámos-lhe um pozinho de uma coisa que não se via há muito: ontem fomos Benfica.
O futuro. O jogo de ontem deixa-nos na dúvida: houve Benfica e superação porque ainda temos fisicamente algo a dar ou foi por ser um jogo da Champions? É evidente que os níveis físicos não são os melhores, as lacunas na equipa demasiado óbvias (Capdevila uma época inteira no banco porquê, meu Santo Eusébio?), mas ontem, com aquela atitude, aquela disponibilidade, aquela alma, ficámos todos com o coração mais cheio e mais confiante. Será este Benfica que veremos em Alvalade? Se sim, muito dificilmente perderemos pontos. Se for o Benfica que temos tido desde Janeiro, muito dificilmente não os perderemos. O que me parece quase definitivo é isto: a equipa, das três que lutam pelo título, que sair na liderança no final da próxima jornada, terá uma estrada aberta para ganhar o campeonato. Façamos a nossa parte, sejamos Benfica na Segunda-feira. E deixemos os outros devorarem-se loucamente entre eles.