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terça-feira, 30 de outubro de 2012

O sangue verde caqui-cacique

(Já ninguém liga nenhuma ao Sporting. Percorro a blogosfera benfiquista e um silêncio sepulcral sobre o estado decrépito dos nossos mordomos e organizadores de eventos. Tenhamos algum respeito, caramba. Além de nos servirem peças de comédia do mais alto quilate, ano após ano, devemos-lhes algum fingimento de rivalidade. Para que eles acreditem que ainda são alguma coisa. É mesmo muito importante que eles acreditem que ainda são alguma coisa. O que decididamente não queremos é que eles olhem para a realidade. E depois o espectacular humor, como fica?

Já imaginaram o que seria se o Benfica estivesse em 10º lugar, afastado da Taça em Outubro e ficado nos últimos 3 anos a 80 pontos da liderança? Conseguem prever a loucura por esses blogues lagartos? Eles mesmo agora, no estado comatoso em que se encontram, conseguem arranjar forma de escrever imenso sobre o Benfica. Imaginem se não estivessem mortos.

Já que ninguém liga nenhuma ao Sporting, eu farei uma viagem ao passado. Deixo-vos com um texto que escrevi há um ano, numa altura em que se falava muito no racismo do Eusébio. Nunca se esqueçam, devemos deixá-los a pensar que ainda são alguma coisa)

 

O sangue verde caqui-cacique

Este Sábado de manhã tinha tudo para ter sido um dia igual aos outros, não fosse ter aparecido nas mesas do café "O cacifo do Paulinho", ali como quem vira à esquina depois do "Sangue Leonino", uma bomba: Eusébio na capa a chamar racista ao clube de Telheiras!

O povo pôs-se em sentido, caíram cinzas de charuto no maple acolchoado do Senhor Telles Menezes que se levantou de súbito da mesa e gritou: ó Memé, dá cá o jornal que eu quero ler o que esse nhurra anda a dizer do meu querido Sporting!

Lidas as parangonas, Menezes não se conteve e dissertou assim, para toda a plateia ouvir (ver não podiam porque tinham o cabelo à frente):

"Como é que esta merda de Preto pode ser embaixador do futebol português, andar a mamar à custa da Seleção quando esta joga fora, se não tem respeito pela Instituição SPORTING? Devia calar a boca e mesmo que o sentisse, não o dizia! Só espero que quando a Selecção jogar em Alvalade, o atinjam com impropérios que o ofendam a sério. Preto do caralho!",

ao que se seguiu uma enorme e sentida salva de palmas, particularmente de Zacarias Ramalhosa y Mello (de nascença apenas Zacarias Ramiro mas que, entre viagens a Badajoz e uma conquista, mais tarde casamento, com Madalena Lopez Mello, acabou não só com distintos apelidos como com aquele "y" no meio, que tantas portas lhe abririam, mormente na famosa casa de concubinato "Veludo e Primavera", onde passava os serões a injectar heroína e a receber carícias de donzelas altamente qualificadas): "Brilhante, Chico Diogo, brilhante! É pô-lo no espeto, como fazíamos no Ultramar, caralho!". Aqui subiu ao ambiente um ligeiro mal-estar, especialmente na mesa dos Tomaz Britto, que prontamente se apressaram a responder ao bigode extremamente bem cuidado do antigo Zacarias Ramiro, hoje Ramalhosa y Mello: "Ó Ramalhosa, não diga essas coisas. Sabe perfeitamente que nós não dizemos "caralho". No máximo, um "apre" ou um "fosga-se"! Agora um "caralho", Ramalhosa y Mello? Francamente, nem parece seu!"

"Tem toda a razão, Manuel, mas o que é que quer? Quando me falam do meu querido Sporting, sobe-me a gravata ao pescoço!", respondeu Ramalhosa y Mello (antigo Zacarias Ramiro), com a cara intumescida, quase vermelha - o que o irritava duplamente porque, dizia ele, pior do que o objecto da fúria, só a imagem da mesma - tão visceralmente encarnada, cor dos pobres e dos trabalhadores.

Por esta altura, já uma vozearia ecoava por todo o café, sem que se percebesse, no meio dos escombros, palavras definidas ou sons perceptíveis - uma imensa mancha de ruídos alarvemente infectando o brandy do Senhor Leão de Campo de Ourique, que, num salto atlético, caiu em cima do balcão de mogno polido e botou discurso:

"Não diria melhor, Ramiro y Ramalhosa!" (era usual o Senhor Leão de Campo de Ourique, especialmente nos dias em que acordava a torradas e conhaque francês, deixar cair "acidentalmente" o berço de cheiro a sopa dos pobres de Zacarias Ramiro, numa luta intensa pela pureza da raça que já lhe havia custado dois dentes, um prato do Alandroal que muito estimava e uma pequena cadelita rafeira que, na emoção da contenda, acabou debaixo de um cd da Mafalda Veiga). "Embaixador do nosso futebol? Ouve lá ó cabrão: A primeira vez que ouviste um hino português nos jogos olímpicos, não foi ninguém do teu clube galináceo, besta quadrada. Porco preto!"

"Porco preto não, ó Campo de Ourique! Não se ofendem assim os porcos pretos! Tenha lá isso em consideração e continue, se fizer o obséquio...", exclamou Tobias Barbosa Vaz, enquanto dilacerava dois pedaços de gordura de presunto pata negra e fazia por esquecer a afronta a tão distinto animal que ele, com tanto cuidado, criava e assassinava à queima-roupa num terreno baldio numa terra esconsa da Andaluzia.

"Pronto, está bem, retiro o porco preto. É apenas e só um macaco gorila, um preto calcinha. As saudades que eu tenho de degolar-lhes os ventres, as tripas dos animais a saírem-lhes pela boca, aquelas bestas aos gritos a sangrar pelo cu!"

"É isso mesmo", gritava Biba Parvalheira, "ainda me lembro do meu Pai a trazer para a nossa casa de Sá da Bandeira os crânios dos nhurras atados uns aos outros que a gente desfazia o nó e usava como bola de futebol! Ah, bons tempos... as saudades que eu tenho de África...",

Ficaram nisto uma boa meia-hora, entre gritos histéricos, rememorações de genocídios belíssimos e sovas monumentais, quando entrou pelo café um senhor de tez escura.

"É aqui que se discute o sportinguismo?", perguntou, bebendo um carioca de gole.

"É, sim", disse Francisco Fernandes Fernandez , "e diz-se mal de pessoas como o macaia Eusébio, macaco apreciador do marisco tremoço, pessoa substancialmente diferente do que é o verdadeiro negro, como vosselência, que tem orgulho na sua raça!"

O senhor de tez escura olhou-o espantado, quase a rir, mas conteve-se. Virou-se para o resto das pessoas e disse ao que vinha:

"É só para avisar que, daqui em diante, os senhores vão passar a andar enjaulados".

sábado, 7 de julho de 2012

O pequeno genial (e o genial bigode)

A mulher do Chalana andou com o meu Pai no liceu. Parece que não era conhecida por ser adepta da monogamia; nem disso nem das pernas tapadas. Tinha outros interesses, que extravasavam a lida doméstica ou o leve e tranquilo passar das horas à lareira a fazer rendas de bilros. 
 
Havia referências pontuais a esse facto, lá por casa. Mas eu só retinha a palavra "Chalana" nas várias conversas que se mantinham sobre o assunto. Era como naquele anúncio dos Whiskas para gatos. Eles falavam, dissertavam sobre conhecidas exibições de Anabela à janela, vendo os transeuntes enquanto se formavam filas de homens na sua rectaguarda mas o que eu ouvia era "bla bla bla Chalana bla bla bla Chalana".  
 
É que eu tinha uma camisola do Chalana. Acho que cheguei a fazer um bigode farfalhudo e a colá-lo com UHU à cara e saí pelo pátio a fintar franceses imaginários. Quando os adversários eram reais, jogava num ringue da minha rua, que era o sítio de eleição para se jogar futebol em Abrantes e que era um autêntico luxo: balizas presas ao chão, redes (redes!), marcações bem delineadas a tinta, bancadas, balneários e laranjeiras no terceiro anel para quando desse a fome e a sede ao mesmo tempo. 
 
Nesse campo, os mais velhos contaram-me mais sobre Chalana. Falavam-me que, de férias, em vez de ir passear a mulher - que provavelmente estaria em horas extraordinárias, mas não propriamente em labutas de ofício -, Chalana esfalfava-se por esses ringues, apesar de as indicações do Benfica serem na exacta direcção contrária (diz que os músculos não se dão muito bem com misturadas entre relva, pelado e cimento durinho). Mas o bigode do pequeno genial não era de virar a cara a uma boa peladinha e vai daí fintava, sem discriminação, gordos, velhos, coxos, donas de casa, padeiros e até há relatos de uma vez em que Chalana, farto de fintar adversários no campo, começou a galgar degraus de bancada com a bola sempre colada aos pés. 
 
Isto faz parte de um imaginário muito meu, que provavelmente foi invadido e conspurcado ao longo dos anos por esses grãos de areia que as horas têm e que nos fazem ter da vida, como diz o Marquez, não a ideia do que ela foi mas do que nos lembramos dela. E eu lembro-me de Chalana. No campo. No relvado da Luz, entre outros 21 que tinham a óbvia vantagem de assistirem àquilo de perto e não sentados junto ao placard gigante do terceiro anel. 
 
Como dizer? O homem não era humano. Tinha coisas de louco, acreditava em impossíveis galgadas campo acima e elas aconteciam. Os jogadores pareciam aqueles modelos que fazem anúncios futebolísticos, afastando-se do protagonista para realçar e focar a luz no herói. Só que não eram modelos e não se afastavam do protagonista; eram simplesmente afastados por uma anca que mentia e um pé que falava. 
 
Devia haver uma cláusula em qualquer jogador que assinasse com o Benfica: usar bigode farfalhudo em honra de Chalana. Quem não aceitasse, podia ir para a janela observar os transeuntes.
 
 
 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Templo do Povo

Um dos grandes mistérios da humanidade reside no entendimento da noção de idolatria por parte das massas em redor de um indivíduo. São vários os exemplos do passado a iluminar esta realidade e, embora os mais atentos estejam cientes dos constantes sinais de despotismo que os tiranos, desde muito cedo, alimentam, nem por isso a história se reescreve com novos capítulos nem com diferentes percepções dos indícios que perigosamente adivinham o futuro. 
 
É-me difícil assistir à cegueira generalizada das massas em função do seu líder tirano sem que, de dentro de mim, avancem aos tropeções cães raivosos em busca de um motivo, um só motivo que me faça explicar e entender a razão pela qual as pessoas, com ou sem olhos, sofrem de miopia no cérebro.
 
Assistindo ao discurso formatado de Vieira, na tomada de posse de mais um mandato no trono benfiquista, lembrei-me de um tal de Jim Jones, o homem que levou ao suicídio colectivo, em delírio e de livre vontade, um milhar de pessoas. Pessoas como nós, crentes e descrentes no mundo, pais, filhos, primos como nós, uns aos outros atirados, gente. O cerebelo engaiolado de milhares de pessoas na ideia de um homem e das suas loucuras.
 
Jim Jones convenceu o povo de que o caminho era ele que o conhecia e, com isso, permitiu-se todos os delírios que o mundo ainda estava para adivinhar: violência mental, violação física, humilhação, aniquilamento, desprezo e homicídio - tudo de forma perfeitamente natural e quase sem contestação (alguns, no fim da crença, desconfiaram do homem mas já seria demasiado tarde). Gente como nós. Pessoas como nós, que religiosamente seguiram aquele homem até à própria morte, desterrados na Guiana, entregues ao cultivo dos alimentos e ao desaparecimento da consciência e do pensamento próprio. No fim, devotados à causa, devotaram-se à morte e entregaram-se-lhe livres, inteiros e preenchidos por, com aquele gesto, seguirem viagem para o lado de lá com o seu líder. Entender isto? Não sei. Explicá-lo? Menos ainda. Só a certeza da incompreensão por tamanho delírio colectivo. 
 
Ao ver o pavilhão da Luz repleto de benfiquistas em louca e desenfreada euforia, gritando "O Benfica é nosso até morrer", idolatrando em êxtase o tirano, não pude, não consegui, deixar de ver naqueles que gritavam a mesma alma de pedra daqueles que um dia foram ao encontro da sua própria demência, cruzando o canal do Panamá. 
 
Ontem, 91,7 por cento dos benfiquistas votantes entregaram o Benfica a quem o desprezou, o humilhou e o desrespeitou. Ofereceram ao líder, de livre e espontânea vontade, a crença na obra feita - a obra dos terceiros e quartos lugares no campeonato (haverá tetra para a medalha de bronze?), a obra da mentira, do enxovalho, da contradição, da falsidade, da injustiça, da desvalorização do que é, ou do que foi?, este clube. 
 
E o líder subiu ao palanque. Não riu porque os líderes não riem, não precisam. Leu o texto que o súbdito lhe escreveu e, ditas as banalidades que o povo queria ouvir, abandonou o local em ombros (mas cuidado com as intimidades), seguro de si e do seu próprio ego. Estava concluída a sessão. 
 
 
 
 
 
 
* passaram 3 anos desde que este texto foi escrito - 3 ANOS. Está tudo tão miseravelmente igual que destrói o coração de qualquer benfiquista. Chamo a atenção para a discussão na caixa de comentários, em que Joseph Lemos (que eu julgava nunca aqui ter comentado) entra na discussão, como tantos que hoje saltitam em defesa de Vieira, sem dar um único argumento, uma única ideia - apenas insultos, preconceitos, parvoíce, armado em maior benfiquista que os outros. Sim, este Lemos que cria blogues para dizer mal dos benfiquistas, inventar estórias sobre eles e falar com ele próprio, entre dois nicks. Um must do vieirismo demencial.