Não é meu costume assistir ao circo que dá às Segundas-feiras à noite na Sic Notícias. Não porque não goste do espectáculo - quantas vezes, entre o Campo Pequeno no Natal e pequenas aldeias com tendinhas pintadas à mão pelos heróicos funcionários dos circos itinerantes, fui ver mágicos, malabaristas, senhoras de cabelos às cores a vender pipocas, bailarinas, elefantes, cavalos, leões, sanitas voadoras, homens gigantes, anões, pigmeus, pigmentações, duendes, cobras e outras variações -, mas porque acho estes palhaços fraquinhos ao nível da representação.
A última vez que tinha visto tamanha exibição de gravatas e egos e boçalidade e "olhe que não" e "ó meu caro" e "você sabe do que eu estou a falar" e, enfim, todo aquele circo mal amanhado, com palhaços horríveis e de um mau gosto desesperante em que uns sorriem para os outros, fazem sinais uns para os outros enquanto a câmara não os filma, combinam jantaradas e almoçaradas porque "afinal, somos todos amigos" e toda essa hipócrita maneira de ver o futebol e de dele se aproveitarem como, estes sim, verdadeiros abutres; a última vez, dizia, a que tinha assistido a espectáculo tão degradante tinha sido na semana em que soube que essa alimária do Gomes da Silva tinha andado a perguntar por mim num sítio onde trabalhei há uns anos. Não foi espanto nenhum, portanto, vê-lo nesse programa a insultar uns quantos "senhores dos blogues" e a disparar uma parvoíce qualquer, enquanto ajeitava a gravata, atirava um beijo por debaixo da mesa ao Guilherme Aguiar ("somos todos amigos, somos todos amigos") e retirava uma vassoura do cu.
Como tudo aquilo me cheirou mal - e não me refiro especificamente ao momento em que Gomes da Silva abriu a boca -, dei por terminada a minha participação n´"O Dia Seguinte", que já era a de um espectador muito pouco assíduo mas, de tempos a tempos, presente. Até que li o texto do Bcool e fui tentar perceber a que "abutres" se referia desta vez - é que já são tantas as vezes em que gente do Benfica chama "abutres" a alguém que a pessoa acaba por perder o norte e às tantas já não sabe muito bem como acompanhar a actualidade abutrical ou a abutralidade. Sem grande espanto, pelo nível humano a que nos habituou, verifico que o Vice-Presidente do Benfica e Administrador da SAD (é importante reter e repetir esta parte, em voz alta, muitas vezes) andou pela televisão a chamar "abutres" aos que discordam da forma como a Direcção de Vieira, na qual tem grandes responsabilidades, gere os destinos do clube.
Recapitulemos: um Vice Presidente do Benfica e Administrador da SAD (devagarinho: um Vice Presidente do Benfica e Administrador da SAD) todas as semanas aparece na televisão a dissertar sobre assuntos internos do clube. Todas as semanas este senhor aparece em casa das pessoas com aquele ar que Deus lhe deu e do qual não tem, evidentemente, culpa nenhuma, não fosse ter culpa de aparecer, todas as semanas, aos olhos das pessoas (e dos benfiquistas, alguns certamente abutres) cheio de si, todo lampeiro a botar faladura sobre assuntos que só dizem respeito ao Sport Lisboa e Benfica e aos seus sócios e adeptos - sejam eles abutres, carneiros, cães de fila ou de qualquer outra qualidade zoológica que sirva os intentos da argumentação mais honesta e lúcida.
Não satisfeito com a gravata às riscas (Sttau Monteiro tinha muito a dizer sobre homens de gravatas às riscas), com o protagonismo parolo e com os banhos argumentativos que leva tanto do corrupto - que é muito seu amigo, muito seu amigo, muito seu amigo - ou do advogado do Miguel num processo contra o Benfica, ainda acha este portuguezinho ser que tem direito a insultar os adeptos e sócios que - vá lá entender-se porquê - acham que o trabalho desta Direcção é de uma incompetência atroz.
Abutres, meu caro consócio, são os que se aproveitam do Benfica e dele retiram ganhos. Abutres são os que, à custa do clube, se passeiam pelo mundo em executiva, comem muito e muito caro, bebem muito e muito caro, ganham notoriedade e protagonismo sem que nada de relevante tenham feito. Abutres são os que não pagam para ir a Santa Maria da Feira, a Coimbra, a Olhão, a Guimarães, a Braga, a Aveiro, à Marinha Grande, a Londres, a Manchester, a São Petersburgo, etc, etc, etc; são os que não deixam a mulher e os filhos em casa num Sábado ou num Domingo de manhã para irem pela nacional percorrer o país durante 9 ou 10 horas, pararem a meio para um farnel, gastarem dinheiro que não têm para poderem apoiar a equipa durante uma hora e meia. Abutres de certeza que são os que não fazem as viagens a meio da noite, fodidos com mais uma exibição de merda da equipa e pontos estúpidos perdidos por decisões imbecis e erradas da Direcção de que faz parte. Abutres são os que não ficam uma semana a remoer derrotas - têm mais em que pensar, comer e comentar em programas de palhaços como o senhor, que vai almoçar e jantar com corruptos (espero que a sapateira tenha sido do seu agrado).
Vá lá chamar abutre em frente ao espelho, meu palhacinho amestrado.