O problema maior de fazer análises resultadistas é que geralmente os que as fazem andam sempre equivocados – quando ganham, é tudo uma maravilha, não se pode criticar nada, quem critica é abutre – e, claro, surpreendidos – quando perdem, é tudo uma merda, a equipa é horrível e não há futuro. De uma vez por todas: a análise a priori é muito mais interessante e legítima que a que apenas documenta factos. Deixem-nos – escribas deste blogue - com as nossas previsões do apocalipse ou visões de miríficas paisagens futuras, se assim acharmos convenientes. E venham discutir futebol.
Neste sentido, o jogo de ontem era, mais do que uma mera hipótese, bastante previsível. O Benfica, se fosse um jogador no FM, seria daqueles que nos deixaria meia-hora a tentar perceber se o devíamos comprar ou não, tais as incongruências dos valores em que é muito bom e muito mau. O Benfica tem uma qualidade individual que pede, grita, exaspera por uma organização colectiva de excelência. E, no entanto, o que se vê é um grupo de jogadores que mistura grandes méritos com deficiências amadoras:
- a pressão é deficiente e quase nunca orientada: sai um jogador (o mais avançado) ao central adversário, às vezes vai outro (se for Aimar, se for outro qualquer, não vai) procurar pressionar o lateral e depois há um vazio de 20 metros em que não há ninguém e a equipa afunda-se no terreno. Se a pressão não é colectiva e organizada, não vale a pena desperdiçar dois jogadores nesse momento e será preferível que também eles baixem e compactem mais atrás.
- nenhuma equipa consegue exercer pressão estruturada se 3 ou 4 dos 10 não levarem o movimento colectivo a sério. E isto acontece no Benfica demasiadas vezes. Há jogadores (Gaitán desde sempre, Bruno César, muito, Cardozo mais vezes do que devia) que pura e simplesmente andam a passo, à espera que a equipa recupere a bola para correrem – isto nem nos iniciados é permitido!
- a forma como um jogador encara o jogo, no sentido competitivo, é crucial. Observe-se Luisão, o seu esgar, a sua postura em campo, a constante preocupação em estar disponível para um desequilíbrio adversário. Pernas flectidas, mãos em equilíbrio, olhar atento – uma desatenção de um colega e lá está ele, pronto a socorrer e a recuperar a posse. Agora observe-se Gaitán, mesmo nas vezes em que vem apoiar o lateral – corpo mortiço, braços caídos, olhar difuso – qualquer movimento adversário mais rápido deixa-o pregado ao chão, sem tempo de reacção e feito o desequilíbrio. Esta diferença competitiva entre Luisão e Gaitán (e são apenas exemplos, embora os mais evidentes) não pode acontecer na mesma equipa. Porque, tacticamente, gera problemas óbvios, mas também porque vai criando frustração nos que trabalham exemplarmente e tudo dão desde que entram até que saem. Ontem, Luisão, mal acabou o jogo, dirigiu-se para os balneários, pior que uma barata. Como eu o compreendo. Mas aqui a culpa é de quem permite que jogadores passem meses a fio sem um pingo de dinâmica competitiva – a equipa técnica, naturalmente.
- as bolas paradas: há coisas que não lembram a uma equipa de Distrital, menos, claro, a uma equipa de topo como o Benfica. Já viram a forma como defendemos os cantos? Fica um gajo em cima da linha da área e a equipa reza para que a bola seja bombeada. Quando não é e o canto acaba por ser marcado curto, o adversário faz invariavelmente um 2 para 1 porque não há nenhum jogador do Benfica preparado para ir cobrir o segundo jogador. Este posicionamento é patético e gera situações perigosas vezes sem conta. Isto não é de hoje, é de há muito tempo a esta parte. Nos cantos ofensivos, não criamos perigo, sendo que uma boa percentagem é desperdiçada por pontapés sem energia para o primeiro poste, onde estão dois ou três adversários.
- A questão da mentalidade e da maturidade psicológica: ontem não tivemos no banco o nosso treinador porque ele andou em histerismos no último jogo sem necessidade. Com isso, ficámos com um zombie no banco e perdemos aquela energia que, quando as coisas estão mal, ao menos agita e deixa os jogadores em alerta. Culpa do treinador, claro, mas da falta de uma atitude mais reflectida, ponderada e inteligente sobre os acontecimentos. Veja-se Aimar e a forma como fala com os árbitros, depois de as faltas serem marcadas. Ontem levou amarelo, continuou, arriscou levar o vermelho e continuava em discussões estéreis. Nisto, Aimar falha e desde sempre. Depois vem Garay, já o jogo estava no intervalo, e continua e leva amarelo. Falta quem explique e aconselhe jogadores e treinador. Falta que a estrutura seja potenciada ao máximo e não que nos autoflagelemos por entretenimento e diversão.
Em termos de abordagem ao jogo, nem sei que diga. Uma equipa que consegue sufocar o adversário por 30 minutos e depois abandona completamente o jogo e passa a navegar com o vento de trás e um gin-tónico na mão, não merce ganhar. Parece que agora o que está na moda é dizer "estavam a pensa rno próximo jogo", o que não deixa de ser um conceito curioso - assim, o Benfica está constantemente a jogar sem estar a jogar: contra o Olhanense, estava a pensar no Basileia, contra o Basileia estava a pensar no Braga. E que tal pensarem em marcar dois ou três golos e depois pensarem em marcar o quarto?
- As mudanças na equipa: vou pronunciar-me pouco sobre questões tácticas, porque já toda a gente sabe as minhas ideias. Mas não posso deixar de dizer que a substituição do Miguel Vítor pelo Luís Martins foi ridícula – e consequência de ter deixado um campeão do Mundo a ver o jogo sentado no sofá de casa. Como mau foi ter partido, mais ainda, a equipa, com a saída do Aimar e a entrada de Cardozo. Era altura para retirar Rodrigo, meter Cardozo, retirar Aimar, meter Amorim (subia Witsel, reforçando o miolo, que era onde estávamos a perder fulgor) e meter o Nolito pelo Gaitán, que estava cansado há duas horas. Não é que isto assim resultasse de certeza absoluta mas seria mais fácil dar certo do que aquelas ideias estapafúrdias de Raúl José (de Jesus?).
- As individualidades: Artur, Luisão e Garay (um erro parvo, no entanto) são excelentes. E é por isso talvez que as pessoas achem que defendemos bem. O que é esquecido é que uma equipa não é necessariamente boa a defender por ter bons centrais e guarda-redes. O Benfica tem problemas nas alas – na esquerda, tem um jogador medíocre; na direita, tem um jogador que parece estar a querer voltar aos tempos de mediocridade (renovem com ele, caralho, não queremos de volta o Mini Pereira) -, tem um 6 que o não é e tem dois alas que não querem saber do apoio aos laterais. Defender bem? Claro que não.
O golo do Basileia resulta de dois erros individuais claros (Maxi e Matic) mas também da deficiente forma como a equipa estava posicionada em campo. Martins esteve bem, dentro do possível (por mim, entre ele e Emerson, prefiro o puto), Maxi muito dado aos movimentos ofensivos mas, defensivamente, foi uma nulidade completa. Matic não é 6 – enquanto jogar nessa posição, esperem perdas de bola em zonas perigosas, lentidão de processos, afunilamento na zona central. Metam-no a 8 e irão descobrir um excelente jogador. Gaitán tentou (aleluia!), mas, como disse atrás, de forma deficiente – não basta estar lá a defender, é preciso estar em atitude competitiva e isso ele não tem (nem terá?). Bruno César fez o pior jogo de que há memória, mas ele não tem culpa que o metam nas alas. Witsel certinho, mas apagado, Aimar quase sempre bem, embora tenha de rever a forma como arrisca em demasia quando a equipa está balanceada no ataque – algumas perdas de bola são inadmissíveis. Rodrigo fez um golão, tentou muito mas nem sempre bem – é importante que o espanhol continue a ser visto como uma alternativa em vários jogos e não uma certeza absoluta. Tem qualidade, claro, mas também tem deficiências óbvias.
O jogo de Braga vai ser muito difícil. Mas isso já todos sabíamos. Ou não. Os que não sabiam ficaram, desde ontem, a saber.