É um problema: o Benfica está carregadinho de benfiquistas. Uma praga autêntica. Tivesse o Benfica menos benfiquistas e o mundo seria um mundo melhor. E o Benfica um clube melhor. O problema adensa-se quando nos deparamos com o facto de, além de o clube ter demasiados benfiquistas, ter muitos religiosos. Demasiados.
O benfiquista religioso é aquele para o qual a equação se resume a uma regra simples: o Benfica é sempre melhor e ganha sempre; se deixa de ganhar, a culpa estará noutra qualquer razão, transcendental ou não, mas sempre alheia ao próprio clube e a quem o serve.
O benfiquista religioso não acredita em culpas próprias - que ignomínia! -, muito menos reflecte sobre a possibilidade. Crê na injustiça extrínseca - algo ou alguém está contra nós. E o mundo, esse vil e cruel lugar, há-de tudo fazer para que o Benfica não ganhe.
O benfiquista religioso tem uma equação própria: o grau de confiança nos outros é directamente proporcional à evolução de poder que os outros têm no Benfica. Se é Presidente, confia-lhe a mulher, os filhos e até o strap-on que religiosamente guarda na despensa da cozinha (para os momentos mais secretos); se é adepto como ele, acha-o um traste de primeira e não se coíbe de brindar o semelhante com toda a gama de insultos - geralmente pouco imaginativos - de que dispõe no seu vernáculo-vocabulário primata.
Para o benfiquista religioso não interessa que o Deus em que acredita seja o mesmo que, pelas suas acções, vai contra tudo o que supostamente defende. Se um Presidente do Benfica apoia corruptos, o benfiquista religioso não se pergunta sobre isso, antes arranja forma de defender o facto com alguma teoria retirada da despensa (geralmente com um strap-on enfiado no olho que é cego): há-de ter estratégia, tudo isto. E inventa para si e para os outros razões superlativas pelas quais cegamente crê num ser que não existe.
O benfiquista religioso é de amores. E de ódios. Se ama, vai até ao fim do mundo na defesa dos seus deuses; se odeia, enxovalha e humilha até ao fim da sua vida. O Benfica neste processo interessa muito pouco, quase nada. Importa sim odiar ou amar, ser deste ou daquele, crer ou descrer com toda a infinita pujança a que um ser humano pode almejar.
O Benfica está carregado de benfiquistazinhos. Daqueles que, por óbvia incapacidade, vêem o clube como uma tasca de afectos e guerrilhas. Não interessa a discussão, o vinho que chegue e aos litros - logo se verá se o clube sobrevive.
Mas cuidado com o benfiquista religioso - a ressaca pode ser nefasta. E os amores tornados ódios de repente, sem aviso nem anúncio, só cerebelos electrocutados na visão da realidade. E, num instante, num jogo, num momento específico, metamorfoseiam-se crenças em crueldades e vai tudo a eito, ódios e amores, guerras e ternuras, gestos e lugares obscuros.
Não há nada mais difícil para o benfiquista religioso do que ser confrontado com a verdade. Assim como ele acredita que o mundo é gerido por osmose pelo filho de um carpinteiro nascido há 2000 e tal anos, assim ele vê os seres do Benfica que ama e defende. E tal qual aqueles nomes horríveis que um dia, perdido de bêbado em frente ao muro de uma estação, chamou ao deus-menino (só porque havia descoberto que o vizinho da frente afinal ia lá a casa não só para arranjar os canos da cozinha), assim ele é quando descobre que anda a defender uma canalha de incompetentes. Perde-se muita fé no processo, naturalmente.
Mas o benfiquista religioso tem esse poder intangível da sublevação silenciosa: um dia é isto, no outro dia já é aquilo. E nem ele nota a evolução do processo que o faz ser graduado e até doutor na escola da incongruente imbecilidade. Vai atrás do cérebro, aos saltinhos, povoado de incompreensão. Alguns acordam, a meio da noite, suados, tremidos, agitados. Uma impressão de alguma coisa que não compreendem. "Serei boçal?", perguntam-se, mas logo entendem que a palavra lhes é desconhecida e que o mundo afinal é essa grande loja dos chineses que, tendo tanta coisa, não tem nada para eles.