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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto




1. O resultadismo é uma doença nacional. Uma praga que se alastra por todo o treinador de bancada, jornalista, profissional mister, dirigente, etc e coiso. A análise geral que tem sido feita às prestações de Ronaldo podia servir de resumo perfeito desta doença: quando marcou dois golos contra a Hungria, foi considerado extraordinário e foi logo proclamado que "está de volta o grande Cristiano"; nos restantes 4 jogos, como não marcou golos e falhou alguns, passou a ser "uma vergonha um jogador desta qualidade não ajudar a Seleccao". Ora, eu digo que ontem o nosso herói fez o seu melhor jogo. Estou, aliás, positivamente surpreendido por ver este novo Ronaldo: muito mais dentro do jogo colectivo, a permitir-se ser mais solidário, a potenciar melhor as qualidades dos colegas. Já não procura ser sempre, em cada lance, o protagonista final: percebeu que pode ganhar mais se abrir no colega; pode primeiro fixar 2 adversários para criar o espaço onde outro possa entrar; porque é ele o chamariz, pode servir de engodo; pode vir combinar atrás, dar respiração à equipa. Está numa fase da carreira em que, perdendo o rasgo das alas e diagonais, pode tornar-se num segundo avançado de excelência. Se continuar assim, proporei a Vieira que o contrate para fazer dupla com Jonas.

2. Porque é um portento físico,  Renato leva tudo à frente: adversários, bola, árbitro, relvado, oxigénio, até a inteligência. Decide mal, pessimamente. De vez em quando, surpreende e faz algo que nos deixa com esperança de que os seus 18 anos lhe permitam vir a entender o jogo e a elevar o seu futebol a um patamar que não seja apenas o físico, mas logo na jogada a seguir nos mostra que está programado para aquilo e não mais do que aquilo. Eu confesso: estou longe de achar Renato um óptimo jogador. É evidente que tem qualidades e características que agradam e vão permitir-lhe andar algum tempo na ribalta, mas não mais do que isso. Carrega, transporta, varre, marra, invade, força, combate, mas não pensa, logo não joga. Se eu disser que o Ronaldo ontem fez um jogo muito melhor do que o jogo do Renato provavelmente chamam-me louco.

3. Sonhamos e ainda bem. Queremos é ir passando e depois logo se vê. Pragmaticamente, não jogamos nada. Pragmaticamente, temos tido sorte (ela também existe, mais ainda num jogo com todas estas variáveis). Pragmaticamente, quando apanharmos uma equipa com qualidade individual e colectiva acima da média (a Croácia chegava perto disso e por isso foi-nos claramente superior), voltamos para a nossa Baixa da Banheira. Mas isso é o que é provável. No entanto, o Engenheiro que tem fé também tem grande fezada. Um país que consegue produzir um delírio como Fátima claro que pode ganhar um Euro sem ganhar um jogo.

4. 3 minutos. É este o tempo de jogo que tem o mais criativo dos 23 jogadores que foram a França. Numa equipa que joga com anemia, aos soluços, emperrada,  a pedir licença ao pé direito para levantar o pé esquerdo, que não encontra soluções para entrar no espaço do adversário, que roda a bola em carrossel pelas linhas e pelos centrais, abdicar de Rafa é uma heresia só entendível pela religiosidade sacrificial de Fernando Santos que, para cumprir o seu grande objectivo - ganhar o Euro sem ganhar um jogo -, não pode meter em campo um tipo que mais cedo ou mais tarde criaria uma situação de golo e de consequente vitória, destruindo assim todo um trabalho de meses.

5. Em não sei quantos livres marcados por Cristiano Ronaldo neste Europeu, o único que causou perigo foi marcado por Raphael Guerreiro para a cabeça de Pepe.

6. Na semana passada, 9 em 10 jornalistas diziam Renato SanCHEZ. Hoje já só 7,5 jornalistas em 10 dizem Renato SanCHEZ. Sigamos o cherne, meus amores. No final do Euro, só pode ficar o Nuno Luz a dizer Renato SanCHEZ.

7. O título desta crónica anti-patriótica é do Mário de Carvalho.