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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Olhar o Benfica



O sistema táctico é importante, é a base de construção de um modelo de jogo, mas enquanto adepto isso é o que menos me importa no futebol do Benfica.
Não me interessa discutir se jogamos em 4-3-3 ou em 4-4-2; não me interessa discutir se jogamos em 4-2-3-1 ou em 4-5-1.

O meu entusiasmo é pelas ideias de jogo, a minha atenção é a filosofia do treinador.

O que importa um 4-4-2 quando o meio-campo actua longe dos atacantes? Não será antes um 4-4-0-2?
Um 4-3-3 em que os sectores joguem próximos e em progressão não será antes um 2-7-1? Ou um 2-8-0? Ou um 0-10-0?

O maior mérito no trabalho do Jorge Jesus era a consolidação da sua ideia de jogo. Independentemente de ser ou não a melhor, a sua filosofia de jogo estava solidamente trabalhada. A equipa desdobrava-se em vários momentos tácticos com todos os jogadores a saber o seu papel e, mais importante, a saberem também o papel dos seus colegas, permitindo assim constantes compensações fosse por quem fosse e onde fosse (os 6 anos ajudaram).

O Rui Vitória ainda parece estar a tentar encontrar-se. Chegou com uma filosofia mas optou por trabalhar com a do anterior treinador. Mais recentemente decidiu colocar a sua em prática e ainda mais recentemente percebeu que essa era curta para as exigências do Benfica. É notório que o treinador está ainda a tentar adaptar-se ao clube.

Variamos entre uma equipa que joga no pontapé para a frente e uma equipa que troca, inofensivamente, a bola; entre uma equipa que tenta progredir pelo meio e uma equipa que aposta na lateralização para procurar o cruzamento; entre uma equipa que pressiona na perda da bola ofensiva e uma equipa que não pressiona defensivamente no seu meio-campo.
Demasiadas inconsistências, demasiada confusão. Falta uma identidade colectiva.


A constante mudança de jogadores é também uma causa e consequência desta não-identidade.
Tacticamente é muito diferente ter o Almeida em parelha com o Samaris ou ter o Renato; é muito diferente ter o Pizzi na ala ou ter o Guedes; é muito diferente colocar o Jonas no apoio ao Mitroglou ou colocar o Jiménez.
São diferenças que vão além da qualidade individual. São diferenças pelas características destes jogadores que transformam radicalmente o mesmo 4-4-2.

O Rui Vitória, por motivos já anteriormente discutidos, demorou a apresentar-se em campo. Finalmente começa a fazê-lo e até já se nota alguma evolução na equipa.

Olhando os últimos jogos, principalmente o jogo em Setúbal, vejo um Benfica que reage à perda de bola, vejo um Benfica que finalmente impõe maior verticalidade pelo centro, isto devido à inclusão do Renato que quebra a pasmaceira da troca de bola sem progressão, e vejo os extremos a aparecer mais na área. Também vejo uma equipa com pouca imaginação, com pouco sentido de aventura, com receio do risco, a defender em contenção até à área e com um futebol ainda pouco coerente.

Sou fã de um futebol de posse. A posse de bola ajuda a dominar os tempos de jogo e permite que uma equipa controle o seu destino.
Jogando em posse é essencial a velocidade, o risco, a proximidade entre os jogadores e a dinâmica de rotatividade entre sectores. Jogar em posse exige uma progressão em tabelas, movimentações constantes e compensações em todo o terreno.
E ter posse não pode significar não perder a bola mas sim conseguir rápidas recuperações. Portanto tanto em posse como na perda desta, é essencial a proximidade dos jogadores.

Claro que isto é Barcelona de Pep Guardiola e não o Benfica de Rui Vitória.
O que temos visto é um Benfica que tenta jogar em posse mas que necessita constantemente de procurar um jogo mais directo e lateralizado. Uma mistura entre tentar ser Barcelona mas só conseguir ser Guimarães.

O que está a falhar?

Os jogadores mais ofensivos pouco participam em situações defensivas no nosso meio-campo, os extremos estão constantemente abertos e há demasiada lateralização do jogo.

Consequências:
- Defendemos sem pressão até à nossa área, portanto defendemos mal;
- Na recuperação da bola há poucas linhas para o passe curto, o que leva ao jogo directo ou a uma troca de bola inofensiva ou à perda da bola;
- Quando a bola chega ao extremo este está desapoiado pois o lateral ainda não subiu, os médios estão recuados e os avançados estão plantados no ataque, restando ao jogador jogar para trás ou partir para a finta na procura da linha de fundo.

Já estivemos pior. Há evolução e estes problemas começam a perder alguma expressão. Falta saber se esta evolução tem cérebro para continuar.


Como foi dito anteriormente, é importante saber escolher os jogadores.

Defendo que num plantel de 25 o treinador deve consolidar um núcleo forte de mais ou menos 15 jogadores (1 + 10 + 4). Estes jogadores são aqueles que vão, à partida, disputar a titularidade e são aqueles que vão cimentar a identidade e rotinas da equipa. É um núcleo que tem de permitir suprir todas as necessidades e nuances tácticas do colectivo.

O Rui Vitória ainda não tem este núcleo construído e isso nota-se no relvado.

Contudo, no Bonfim comecei a ver mais daquilo que quero.
O 11 inicial foi perfeito.

Na equipa do Benfica quero ver um 4-3-3 em constante mutação com um 4-2-3-1, com um 4-4-2, com um 4-2-4 e ate com um 3-3-4.
Quero ver um Semedo a dar profundidade na lateral, quero ver um Guedes em diagonais na direcção da baliza, quero ver um Samaris a controlar o meio-campo, com e sem bola, quero ver um Sanches a verticalizar o centro do terreno, quero ver um Gaitán a imaginar o jogo pela esquerda, quero um Luisão a comandar as tropas desde a defesa, quero ver um Mitroglou a dominar o centro do ataque e quero ver um Jonas a progredir o jogo colectivo da equipa, desde a linha de meio-campo até às redes adversárias, como um vagabundo a causar desequilíbrios de classe em cada zona do meio-campo adversário.

Com este plantel, o meu onze ideal seria: Júlio César, Nélson Semedo, Luisão, Lisandro, André Almeida, Samaris, Renato Sanches, Salvio, Jonas, Nico e Mitroglou.

Sem o Semedo colocaria o Almeida na direita e o Eliseu na esquerda; sem o Luisão deslocava o Lisandro e fazia entrar o Jardel; sem o Salvio apostava numa rotação entre o Guedes e o Pizzi.
Destaques individuais do momento:

O Lisandro, com minutos e confiança, começa a mostrar a sua qualidade. Não sei se renderá tanto com o Luisão como rende com o Jardel.

O Renato Sanches é o achado do momento. O médio que faltava na pasmaceira que era o jogo da equipa. O médio que o colectivo tanto necessitava.

O Guedes ainda não brilhou e está agora numa fase de menor rendimento. Já o Pizzi, jogando com maior liberdade ofensiva, começa a mostrar aquilo que sempre soube fazer.

O Eliseu está simplesmente péssimo.

O Samaris precisa de ter maior controlo emocional. Sinto-o ainda um pouco perdido naquela posição. Não pode chegar tantas vezes atrasado aos lances nem perder tantas bolas.

O Fejsa está numa má forma. O jogador que mais me tem desiludido esta época.

O Mitroglou é um excelente ponta de lança. Incompreensível as constantes trocas com o Jiménez.

O Cristante e o Djuricic continuam a não poder entrar nas minhas análises.


A Supertaça e a Taça já foram, temo uma contagem de 4 derrotas nos 4 jogos com os rivais e estamos também a 8pts da liderança.
O mínimo exigível é que hoje se fique a 5, que se elimine o Zenit e que sejamos Tricampeões.
Que hoje se junte à vitória uma boa exibição e maior evolução. Só assim o Rui Vitória recupera margem de manobra.
Quero muito poder voltar a dar-lhe o benefício da dúvida.

Nota 1: Hoje contra o União é para repetir o 11 do Bonfim.

Nota 2: O sorteio da Champions não podia ter sido melhor. Os Oitavos serão complicados, o Zenit tem muita qualidade, mas só nos posso considerar favoritos. É para passar, sem desculpas.

Nota 3: O Rui Vitória não pode insistir tanto numa mentalidade de abordagem ao jogo condicionada pelo adversário.


(amanhã apresento a lista daquele que considero, no momento, ser o melhor núcleo de 15 jogadores no Benfica)