Sim, esqueçam. Dediquem-se a outras áreas da vida igualmente interessantes: plantem na vossa marquise de Massamá aquela buganvília que andam a namorar sempre que vão aos Domingos ao Continente; façam longas e saudáveis caminhadas pelo Cais Sodré e acabem na Tasca do Cid às 9 da manhã a comer torresmos e ovos cozidos; tenham filhos para alimentar o ego ou para esquecer a depressão; matem os filhos quando eles crescerem; pintem a casa com aquele salmão que a vossa Maria vos anda a pedir há mais de 10 anos; oiçam consecutivamente o extraordinário álbum “Linda Sónia”, do Nel Monteiro, que vos chama do palanque giratório daquele café em Trás-os-Montes onde vão embebedar-se nos Julhos quentes; vistam a tanga fio dental de leopardo que a sex shop de Odivelas teima em apresentar-vos todos os dias, no vosso caminho para o comboio; ponham um rímel e aquela sombra para os olhos que há tantos anos vocês anseiam por experimentar. O que quiserem. Mas esqueçam, por favor, o campeonato.
Bem sei que o poder da ilusão - ou o mero desconhecimento desse dom tão extraordinário que é a antecipação dos acontecimentos – é capaz de levantar ventos e tempestades tais que o adepto meio que fica inebriado pelo perfume de um jogar selvático, instintivo, vertiginoso e ofensivo. Sim, o Benfica tem momentos de sublime coragem e talento atacantes, puro deleite aos olhos, aos sentidos e ao coração. E, por esse facto, nos deixamos tão facilmente levar na onda empolgada da esperança sem razão. Mas pensem mais um bocadinho, leiam o que o nosso timoneiro diz com atenção e, depois de fazerem todas as contas, concluam: não vamos vencer o campeonato.
Para Jesus, o que verdadeiramente importa é o processo ofensivo. As questões defensivas, diz o nosso líder, são questões de somenos. Importante, fundamental mesmo!, é treinar os mecanismos que produzam futebol espectáculo e, caso a ampulheta do tempo e a inspiração do momento estejam connosco, golos. Mas só se os elementos decidirem juntar-se numa orgia festiva de futebol de ataque com finalizações acertadas. Caso contrário, paciência, ficará para outro dia. O risco, diz quem sabe – ou seja: o nosso guru -, é a forma como vê o futebol. Que importa sofrer 2 se se marcam 3? Ou que importa se se sofrem dois e só se marca um, se aquele perfume, aquela coragem, aquele vertiginoso jogar estiverem presentes? Nada, absolutamente nada.
Aprendamos com Jesus, porque é ele quem nos avisa: o 433 - que aqui neste tasco lançámos ainda a época ia em forma fetal e que ele tem sido forçado a usar, embora algo consternado - não é mudança nenhuma em relação ao 4132 da época passada. Razão? Aimar está mais avançado no terreno. Extraordinário pensamento. Não fosse o facto de Aimar ser indubitavelmente um médio e de não jogarmos agora de forma suicida com dois extremos e apenas um gajo no miolo, e a gente quase acreditava. Mas calma. Não julguem que Jesus, apesar de querer vender-nos a banha da cobra, estará convencido com esta mudança (que para ele não existe). Esperem pelo próximo jogo, que ele vos trará todo lampeiro aquela táctica boa com que ele decidiu iniciar o campeonato e com ela perder dois pontos logo de entrada.
É que a Jesus ninguém convence de nada. Temos um lateral de qualidade superior? Temos, mas não joga. Jesus crê na possibilidade de escolher os piores para assim provar que ele é que tem razão. E, se nada disso sair provado, há-de ter sido culpa de seu Pai, sempre tão irado e propício a fúrias divinas que mudam os destinos dos jogos. Temos um extremo puro no plantel? Temos, mas vai ser emprestado. Isto porque – e, uma vez mais, teremos de recorrer à sapiência do líder – “temos 3 extremos para um lugar”, expressão com que ainda hoje, 3 dias depois de a ter lido, me debato, sem compreender que espécie de pensamento subversivo será este. Temos um óptimo substituto de Aimar para o último terço dos jogos e uma alternativa de grande qualidade em certos jogos, até para gerir bem a condição física do mago? Temos, mas encostamo-lo a uma faixa, que é para tirar de lá aquele espanhol irritante que só por ter andado a marcar golos em catadupa não saiu mais cedo do onze. Temos um extremo que, faça chuva, sol, perca 300 bolas por jogo, não tenha o mínimo conceito de jogo colectivo, joga sempre? Temos, e por Jesus continuará porque – palavras do mestre - parece que lá para os segundo e terceiro terços do campeonato dele veremos coisas bonitas.
Façam como vos digo: dediquem o vosso tempo a outras áreas de diversão. Assim, tal qual está mentalmente o nosso técnico, por aquilo que diz, por aquilo que pensa, pelo que nos quer vender e pelas opções que faz e as que se antevêem, o Benfica não será campeão.