Os adeptos do Benfica não são os melhores do mundo, embora o speaker de serviço discorde de mim. São adeptos que são pessoas que são do Benfica por uma razão que às vezes as ultrapassa e noutras as elucida. Não há aqui nenhuma metafísica além da natural metafísica que faz uma pessoa amar uma ideia. Intangível e sobrenatural, concedo, mas uma ideia.
Tivesse o meu Pai um amor impossível pelo Sporting e provavelmente este blogue chamar-se-ia "Ontem vi-te no Estádio de Alvalade". Nada que diminua ou desmereça o meu incondicional amor pelo Benfica, precisamente porque as explicações não são necessárias em casos de crime como este.
Por exemplo: o meu avô era um sportinguista inveterado, profícuo divulgador do sportinguismo por terras abrantinas, antigo Presidente do Sporting de Abrantes e uma pessoa a quem daríamos o nosso cartão multibanco, para uma eventualidade qualquer. O que mudou na linhagem familiar não foi a paixão pelo futebol - essa manteve-se sanguínea -, mas a qualidade do gesto. E, nesse particular, devemos reconhecer mérito a quem o tem: numa acção de desportivismo e amor pelo jogo, o meu avô, porque gostava do Eusébio e Coluna e José Augusto e tantos outros, um dia levou o meu Pai à Luz.
Quase ingénuo, achou que o filho merecia ver aquela equipa e provavelmente sentir o futebol para além das linhas da rivalidade. Este acto de heroísmo valeu-lhe o inesperado: o meu Pai apaixonou-se pelas cores erradas. E nunca mais o domou. Como uma águia em voo sobre as montanhas de Marche, o filho desafiou os limites do razoável e metamorfoseou-se em Benfica, vindo de um leonino sentir. Gostou do vermelho e das bandeiras e daquele perfume.
O que é importante descobrir neste gesto é o que lhe está acantonado: a qualidade do Pai, a honra e dignidade daquele homem que, amante do futebol, levou o filho vezes demasiadas a um estádio alheio. Há aqui uma beleza que perpassa impossível de tornear em palavras e que o meu Pai, demasiado benfiquista, não percebeu de imediato. Ele tinha mudado o rumo do sangue. Já não havia verde, só vermelho. E um choro eterno com que às vezes sou brindado em sonhos demasiado absurdos para dizer. Lágrimas verdes, pesadelos verdes, sonhos verdes. E dois homens que resistem à boçalidade dos cânticos inimigos.
Eu ser do Benfica é uma consequência de várias coisas, uma delas, a mais importante, a de o meu Pai me ter levado ao Estádio da Luz e eu ter visto naquele clube, naquela gente, naqueles jogadores, uma razão. Absurda ou circular, tensa, divina ou apenas real, uma condição para a minha vida. Mas não sou o melhor adepto do mundo. Não somos os melhores adeptos do mundo. Somos do Benfica e isso como existência chega-me bem. Só não quero que vejam nisto uma decadência religiosa como noutros perfis. Vivo bem com a minha noção de mundo. Deixem-me ser do Benfica porque sim. Sem rezas nem missas de sétimo dia.