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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Jorge Jesus de Ontem para Hoje

Não vou aos tempos do Amora recuperar o trio de centrais de Jorge Jesus, importa-me somente perceber o Benfica nas mãos de JJ.


Na sua primeira passagem pela Luz apresentou-se ao clube com a forte afirmação que a equipa consigo jogaria o dobro. Dito e feito. Nas mãos de Jorge Jesus a nossa equipa começou a jogar muito mais.

Agora no seu retorno foi ainda mais ambicioso. Assim que chegou afirmou que a equipa iria jogar o triplo e que nos ia oferecer espectáculo. Dito porém longe de ser feito. Este novo Benfica do Jorge Jesus tarda em carburar e tem reunido apáticas exibições atrás de enfadonhas exibições.

Verdade seja dita, o nome é o mesmo, o homem é o mesmo, mas o treinador está longe de o ser.

Jorge Jesus habituou-me a um futebol aberto, rápido e muito desequilibrado. Só quando a equipa estava muito bem trabalhada é que o dito desequilíbrio nos favorecia. Mas acima de tudo, Jorge Jesus habituou-me a uma equipa forte no jogo sem bola, expert na capacidade de defender com poucos e extremamente potenciadora da criatividade ofensiva.

Com o seu 4-2-4 fazia evoluir os seus centrais, elevava a estrelas os médios com que segurava o meio campo e espremia todo o talento dos criativos da frente, procurando um Benfica dinamizador e goleador.

Partir o jogo e lançar ataques rápidos sempre foi uma característica do futebol de Jorge Jesus. Isso não mudou. Desaproveitar a formação, casmurrar com certos jogadores por si escolhidos e arrogantizar por aí fora, também são características que se mantêm. Aliás, a arrogância é a sua característica mais visível e muitos dissabores nos tem dado, tanto por certos comportamentos quanto devido à cegueira que esta lhe causa na hora de mexer no jogo.

O problema é que o essencial que fazia de Jorge Jesus um potencial magnifico treinador parece estar desvanecer-se com o tempo.

- Extrair futebol de talentos.

- Defender bem com poucos.

- Atacar com criatividade.

A expectativa de ver certos jogadores nas mãos de Jorge Jesus tornou-se numa pura desilusão. Chiquinho, Pedrinho, Jota, Pizzi, Darwin, Waldschmidt, Everton, Krovinovic, Florentino e Gonçalo Ramos. Pouco se espremeu, muito pouco se lapidou.

A velocidade do Rafa, a qualidade de um jogador feito como é o João Mário e um super jogador como é o Weigl, têm sido o destaque individual deste Benfica.

Dedo do Jorge Jesus só mesmo em zonas mais recuadas do terreno. Viu-se logo uma forte melhoria no posicionamento do Rúben Dias e estamos a ver um Otamendi muito mais seguro do que aquele trapalhão que cá chegou.

Quanto ao processo defensivo ficou evidente o fracasso de Jorge Jesus na época passada. A equipa defendia mal e o treinador do Benfica para contrariar isso só teve uma solução: colocar mais um defesa em campo. Foi assim que passámos para os 3 centrais.

E nada tenho contra um sistema de três centrais. Contudo não gosto quando é usado por estes motivos e somente com o objectivo de tapar a baliza, de encher a área defensiva.

Por fim temos a pouca criatividade que o ataque do Benfica tem demonstrado nas mãos deste novo mais velho Jorge Jesus. Não é por acaso que praticamente todos os jogadores criativos têm falhado. Este treinador nunca valorizou a posse de bola mas também nunca descurou do ataque apoiado, mesmo jogando em transições rápidas.

Hoje vemos um Jorge Jesus a fazer das suas armas ofensivas a força e a velocidade – o ataque à bruta. Três homens na frente para correrem de frente à defesa adversária, chocando nela até a partirem.

Para mim assim se define o retrato deste Benfica. Ao menos finalmente temos uma equipa com uma identidade de jogo. Jorge Jesus encontrou o seu 11, finalmente encontrou o seu (novo) futebol. Funciona? É bonito? É prazeroso? É espectacular?

De forma muito simplificada podemos dizer que o 4-2-4 deu lugar lugar a um 3-4-3 - com 3 centrais a servir de tampão na área, com 3 atacantes a baterem-se com os defesas contrários e com 4 homens em compensações.

Os adversários com alguma facilidade conseguem criar várias aproximações à nossa área contudo são constantemente levados ao espaço nas alas tendo de recorrer a cruzamentos que facilmente os nossos 3 defesas conseguem limpar. Jogo partido e o tampão defensivo a funcionar.
Lá na frente é constante o ataque á profundidade e a velocidade vertical dos nossos 3 avançados coloca as defensivas adversárias em constantes sobressaltos. Colocamos igualdade numérica nos ataques e os adversários a correr atrás da bola mas depois falta-nos a criatividade, a técnica e os apoios – o Yaremchuk pode fazer este papel mas não é o seu futebol natural; o Darwin é feito para este jogo mas peca pela fraca qualidade técnica na recepção e condução da bola.

E com a criação desta identidade de jogo surge um problema de plantel. Não temos segundas escolhas. De 11 jogadores só 4 podem ser substituídos sem se mudar o estilo de jogo – Guarda-redes, um Central, Ala direito e o Ponta de Lança.

O Grimaldo, o João Mário e o Weigl simplesmente não têm substitutos. De resto todas as outras opções de ataque são jogadores de posse, de controlo da bola, de jogo interior e futebol entrelaçado – não encaixam nesta ideia.

Os últimos 6 jogos parecem-me bem ilustrativos disto que aqui tenho divagado.

Barcelona – O Benfica foi dono do jogo sempre que o partiu. A defesa esburacada deste Barcelona transmitia insegurança a todo o colectivo sempre que apanhava com os nossos avançados. Com os nossos 3 centrais o catalães simplesmente não tiveram futebol para furar. Só não foi assim quando após o primeiro golo a nossa equipa decidiu recuar, permitindo tempo e espaço para o Barcelona subir linhas, respirar e tentar construir – sem jogo partido ficámos a ver jogar um triste Barcelona.

Portimonense – Em 90 minutos de jogo só durante 20 é que fomos ofensivamente avassaladores. Perante os algarvios bem recuados faltou-nos criatividade no ataque para criar mais perigo durante quase 4/5 da partida.

Trofense – Uma excepção pelo contexto do jogo e do adversário. Não há muito a analisar numa equipa sem identidade. O 11 titular foi mal gerido pelo treinador e tal foi reconhecido quando para tentar segurar o 1-0 se viu obrigado a lançar os habituais titulares.

Bayern – O jogo do Benfica ficou em exposto aqui. Incapacidade de ataques apoiados resumiu a ofensiva encarnada a 3 jogadas de ataque resultantes de 3 cavalgadas individuais. E logo na primeira as carências técnicas do Darwin foram evidentes. Sem bola a equipa foi incapaz de impedir o Bayern de facilmente criar inúmeras jogadas de ataque. Depois perante jogadores deste calibre não é um tampão de 3 centrais que vai impedir incontáveis sustos na nossa baliza – vários bem antes de qualquer um dos quatro golos concedidos.

Vizela – O jogo que confirma as fragilidades desta forma de jogar (e treinar). O Vizela recusou-se a partir o jogo e com isso o Benfica não conseguiu lançar as cavalgadas ofensivas, o que banalizou os seus atacantes. Por outro lado com simples tabelas os jogadores da casa iam criando várias aproximações à nossa área. Porquê? Porque a preocupação dos nossos centrais em fechar a área aumenta o distanciamento para os nossos médios.

Vitória – Em Guimarães, com algumas alterações ao 11 titular, tivemos outras confirmações.
Alternativas como o Meitê são simples aberrações de águia ao peito – há jogadores que simplesmente não têm substitutos.
As nossas alternativas ofensivas trazem um outro futebol à equipa, quebrando-se a tal identidade de jogo. Com Pizzi e Everton a equipa tem um futebol mais rendilhado, mais pensado, mais técnico, mais interior e apoiado. Enquanto quisemos ter bola e jogar fizemos dos nossos melhores jogos da época. Depois foi o descalabro, o desmoronar de uma equipa sem identidade e jogar no medo com jogadores inconcebíveis.
Neste caso o Vitória aceitou partir o jogo, ganhou-nos o meio-campo, meteu mais homens juntos à nossa defesa e não se preocupou com os desequilíbrios defensivos pois desta vez o Benfica não tinha sido montado para os aproveitar.

Agora voltaremos ao 3-4-3, ou melhor ao 3-0-4-0-3. A questão será perceber se o Estoril aceitará ou não partir o jogo. Se não aceitar o Benfica dificilmente sofrerá golos mas também dificilmente marcará.





segunda-feira, 24 de maio de 2021

Final da Taça de Portugal _ Braga 2 – 0 Benfica

O jogo que não salvava a época mas que daria um pouco mais de animo para a preparação da próxima temporada. Além disso, a história do Sport Lisboa e Benfica também se fez muito com conquistas da Taça de Portugal.

Deu-se a derrota que esta época do Benfica merecia.

No jogo da Pedreira o Benfica entrou melhor, conseguiu a expulsão de um adversário e sentenciou o jogo. Ontem aconteceu o mesmo mas com o Braga como protagonista.

Jorge Jesus, depois do bluff durante a semana, optou por manter os 3 centrais. Não diria que foi a decisão mais acertada pois aquele trio – com o Morato incluído – não apareceu, nem podia aparecer, muito bem oleado nos seus movimentos e posicionamentos. E ainda tivemos um Vertonghen limitado e um Otamendi a jogar demasiado para a plateia – peço equilíbrio a um central e não que varie grandes cortes com entradas e corridas desenfreadas.

Olhamos para os primeiros 17 minutos e o que vemos é que, apesar de nenhuma equipa estar a dominar o jogo, o Braga estava mais confortável em campo e com uma melhor capacidade de ter bola. Vimos no Benfica aquele que normalmente é o problema das equipas de Jorge Jesus – fortes sem bola mas incapazes de controlar o jogo com a mesma. A equipa do Carvalhal entrou melhor, com um futebol mais fluído e com maior capacidade de criar jogo. Foi com esse Braga a assumir o jogo que surgiu a oportunidade que levou à expulsão do Helton Leite.

Fora de jogo inexistente. Toque parece-me haver. O jogador do Braga ia isolado só com o guarda-redes e sofre o toque quando fica sem ninguém entre ele e a baliza aberta. Sim, a bola vai na direcção da bandeirola de canto mas não, a bola não ia sair pela bandeirola de canto. O desenrolar normal do lance seria o avançado ter a bola dominada próximo da área e sem ninguém entre ele e a baliza.

Em termos teóricos o árbitro só poderia dar vermelho directo. De uma forma mais subjectiva poderia haver a nuance da importância do jogo, do minuto da falta e da deslocação da bola a fugir da baliza, para o árbitro tentar defender o jogo 11 para 11. Enquanto consumidor de futebol talvez considere que essa fosse a decisão mais positiva contudo nunca a mais acertada.

Para lançar o Odysseas o Jorge Jesus entre o Pizzi e o Taarabt escolheu retirar o 21 encarnado. Acabou por ser a opção mais acertada devido a uma maior capacidade do marroquino em rasgar e comer metros com bola. Mas esperava mais, de um grande treinador no Benfica esperava não só que lançasse o obrigatório guarda-redes como tivesse imediatamente iniciativa de construir a equipa para jogar com 10: Darwin para o lugar do Everton. Com menos jogadores ofensivos era importante ter um avançado que só por si conseguisse carregar a equipa para zonas de ataque, deixando a defesa do Braga sempre desconfortável.

Depois da expulsão começa o recital do Galeno pela esquerda. Sem muito perigo o Braga foi fazendo tremer a nossa defesa mas a equipa acabou por se equilibrar e terminar a primeira parte, ali os últimos 15 minutos, a dividir o jogo e até a chegar com bastante perigo à baliza do Matheus.

A bater o minuto 45 há trapalhada do Vlachodimos e o Vertonghen, que tinha de fazer melhor, acaba por ser traído pelo movimento do keeper e improvisa um corte que leva a uma excelente finalização do Piazón.

Pelo que foi exigido dele durante toda a primeira e por aquilo que conseguiu corresponder, diria que o Taarabt acabou por ser o mais preponderante jogador do Benfica nos primeiros 45 minutos.

A segunda parte foi do Braga. Em vantagem quiseram desde o inicio procurar o segundo golo e aproveitar o maior espaço que o Benfica ia dar por ter de procurar o empate.

O Jorge Jesus acabou por melhorar o jogo encarnado com as substituições perto do minuto 60. O Rafa e o Darwin trouxeram desconforto à organização do Braga. Esse desconforto foi acentuado quando o Carvalhal tem de tirar o Al-Musrati já depois de ter substituído o Castro.
Assim, mesmo sem muita cabeça, o Benfica foi conseguindo voltar ao jogo.
Já a entrada do Nuno Tavares foi somente uma desesperada opção táctica para anular o Galeno numa marcação homem a homem. Não resultou.

O Braga fechou o jogo com o 2-0, foi um resultado justo de uma equipa que jogou melhor desde o primeiro minuto.

A verdade é que este Braga foi mais equipa que o Benfica, apresentou maior identidade de jogo, um colectivo mais oleado e muito mais conforto com a bola.

O Benfica, tanto com 10 como com 11, nunca mostrou dinâmicas colectivas, entrosamento entre os vários sectores nem jogadas de grande envolvência. Uma equipa mais trabalhada para jogar sem bola e que entrou a procurar pressionar alto de forma a condicionar a posse do adversário, foi assim dando espaços nas costas que o Braga nunca se importou de explorar.

Comportamento deplorável do Taarabt e do Eduardo no final do jogo. O Benfica vai perder o marroquino por vários jogos. Não percebi a expulsão do Piazón. Houve ali outros comportamentos que deviam ter sido analisados pelo árbitro e pelo VAR e que merecem ainda vir a ser escrutinados e punidos. Quis o Nuno Almeida tentar amenizar os estragos que estavam a ser criados numa Final que devia ser uma Festa.

Sintetizando:

Bom e competente jogo do Braga.

Medíocre e inseguro jogo do Benfica.

Arbitragem dentro da média, sem grande casos a assinalar e com um 3+ numa escala de 0 a 5.

Homem do jogo: Al-Musrati

Pior do jogo: Jorge Jesus, não só pelo pouco futebol da equipa como também pelas tristes declarações no pós-jogo.

PS: Uma nota para o Carlos Carvalhal. Ouvi-lo falar depois do jogo foi como ver uma criança toda feliz porque recebeu aquele brinquedo que sempre quis. Delicioso e muito mais disto no Futebol sff.



sábado, 13 de março de 2021

O EFEITO ILUSÓRIO DA FORMAÇÃO

Nesta semana que passou, tivemos a agradável surpresa de ver que o nosso Henrique Araújo foi considerado pelo Sindicato de Jogadores o Melhor Jovem da Segunda Liga no mês de Fevereiro. Um prémio que lhe assenta bem, não só pelos golos e assistências, mas principalmente pela evolução que tem tido ao longo desta temporada, onde tem acumulado tempo de jogo e experiência que lhe permitiram dar um bom salto qualitativo. Um salto que se pedia, pois quem acompanhava de forma assídua os escalões de Formação percebia que faltava algo ao jogo do Henrique.

Para ser um bom ponta-de-lança, o jovem madeirense não podia apenas aparecer quando a bola lhe chegava nas zonas de finalização; precisava de se associar mais, de ser mais pró-activo fora da sua zona de conforto. O Henrique beneficiou claramente da subida do Gonçalo Ramos à equipa principal, pois abriu-se ali um espaço que ele não tinha tido até então – o da titularidade. Mas, por outro lado, o próprio Gonçalo não beneficiou em nada desta subida.
Ao contrário do seu colega, perdeu tempo de jogo. Tempo de jogo que seria fulcral para a sua evolução e para se desenvolver nas áreas onde ainda precisa. Ora, não é no banco ou na bancada que ele irá ter esse espaço de evolução, mas também não consideramos que o Gonçalo Ramos estivesse totalmente preparado para subir à equipa principal e agarrar a titularidade. Se já poderia ter mais minutos? Isso sim, consideramos que deveria ter. Mas também não acreditamos que fosse o tempo de jogo suficiente para proporcionar tamanha evolução.
O título deste texto não serve para descredibilizar a nossa Formação, nem apontar lanças a um projecto de desenvolvimento de jovens. Há coisas a serem bem feitas dentro do Seixal, mas há outras que começam a preocupar aqueles que estão mais atentos. Neste momento, temos jovens da Formação a chegar demasiado cedo à equipa principal e a prejudicar o seu desenvolvimento, temos jovens que já não cabem no contexto da equipa B mas que também não sobem nem são emprestados e temos jovens que simplesmente não têm qualidade para representar o Benfica e continuam a tapar o caminho a outros que são mais talentosos do que eles, ainda que mais novos.
Em relação aos que não têm qualidade, não existem grandes sugestões que possamos dar, porque das duas, uma: ou estamos perante uma incapacidade gritante na avaliação daqueles que merecem ser jogadores profissionais do Benfica ou então a permanência destes com a Águia ao peito interessa mais a alguém dentro do Seixal. Nós cá acreditamos muito nas pessoas que trabalham e avaliam os nossos jovens talentos, por isso o problema só pode estar em quem gere e autentica essas avaliações...
Mas, para além destes jovens cujo futuro dificilmente passará pelo mais alto nível do futebol Glorioso, existem ainda os outros que têm talento. E o que fazer com estes quando o espaço competitivo da equipa B já é curto para eles, mas ainda não estão 100% preparados para a realidade da equipa principal? Um empréstimo a equipas competitivas da nossa Liga seria uma boa opção, mas gostaríamos de ver algo mais. A nossa sugestão passaria por incorporar no Benfica algo que já se faz nos campeonatos mais desenvolvidos ou nos grandes grupos mais mediáticos, como o City Group ou o universo da Red Bull. Já que gostamos tanto de falar na internacionalização da marca “Benfica”, porque não começar por aqui?
A absorção estratégica de uma ou duas equipas em competições como a Liga Belga, a Liga Austríaca ou até mesmo a Segunda Liga Holandesa poderia oferecer aos nossos jovens o tal patamar competitivo que necessitam antes de chegarem à equipa principal. Este seria um excelente contexto para que continuassem a potenciar as suas características, ao mesmo tempo que desenvolveriam/acrescentariam novas capacidades ao seu jogo. Obrigá-los a jogar fora da sua zona de conforto, num tipo de futebol diferente, debaixo de condições climatéricas diferentes, num país com uma língua completamente diferente. Dar-lhes mundo num contexto mais exigente que o da equipa B, mas não tão sujeito à pressão como a mediática equipa principal.
Seria um excelente passo a tomar, até mesmo para incorporar jovens talentos que o nosso Scouting detectasse em mercados mais alternativos, como o norte-americano, o asiático ou até mesmo o africano, onde se encontram alguns bons talentos com uma óptima margem de progressão, e a trazê-los para o universo Benfica sem que tivessem obrigatoriamente de vir logo para Portugal. Numa fase mais adiantada – e à imagem do City Group –, poderíamos expandir a nossa rede para outros continentes e absorver equipas de outros campeonatos, de maneira a aumentar a visibilidade da nossa marca e a possibilidade de chegarmos aos talentos locais de forma mais célere.
Estas são ideias que não acreditamos que nunca tenham passado pela cabeça de quem gere os destinos do nosso clube. No entanto, com estas ideias a serem colocadas em prática, ter-se-ia de abdicar de muita da promiscuidade que vemos entre o Benfica e alguns “players” do mercado futebolístico. Infelizmente, pelo meio vão-se perdendo oportunidades de desenvolvimento e modernização.
Em suma, o efeito da Formação é ilusório porque foi-nos passada a mensagem que todos os jovens fabricados no Seixal são Bernardos e Félixes, o que não é de todo verdade. Não, não é possível lutar pelo campeonato com 11 jogadores saídos recentemente da Formação. Há uma parte de jogadores geniais que atingem a sua maturidade futebolística mais cedo e, esses sim, merecem dar o salto mais rapidamente, uma vez que são sobredotados. E mesmo a esses há que juntar alguma experiência. Mas há outra parte (a grande maioria) que precisa de fazer o seu caminho. Sem pressas, sem pressões e, acima de tudo, sem exageros, principalmente no que toca à gestão das (suas e nossas) expectativas. E tudo o que servir para os ajudar no seu desenvolvimento e beneficiar o clube será sempre bem-vindo.



sábado, 20 de fevereiro de 2021

Jorge Jesus e o Jogo sem Bola

 

Esta sempre foi uma das principais características do treino de Jorge Jesus. Foi na qualidade do jogo sem bola, tão mal trabalhado no Brasil, que Jorge Jesus se começou a destacar no Rio de Janeiro. Foi a qualidade do jogo sem bola que tanto marcou o Benfica de Jorge Jesus de outros tempos.

Equipa sem bola - capacidade de pressionar com as linhas mais próximas e principalmente qualidade de posicionamento.
Na sua primeira passagem pelo Benfica uma das marcas de Jorge Jesus era defender bem com poucos. Isto acontecia porque todos os jogadores sabiam como se posicionar tanto no momento ofensivo como no momento defensivo. Havia um conhecimento colectivo de como cada um se devia posicionar e movimentar nas mais variadas fases do jogo e com isso surgiam sempre compensações tacticamente perfeitas entre os vários jogadores.
A equipa jogava equilibrada mesmo no próprio desequilíbrio do seu jogo.

Este jogo sem bola e este aprimorado posicionamento defensivo é algo que tem faltado ao Futebol do Benfica desde Julho de 2015. Esta era a primeira e principal evolução que esperava ver neste novo Benfica de Jorge Jesus. E durante meses andei bastante decepcionado.

Se recuarmos até Agosto Iremos deparar-nos com alguns sinais positivos.
Depois de todos aqueles jogos-treino longe do olhar dos adeptos, de onde nos chegavam vários relatos sobre uma quase violenta pressão sobre os posicionamentos de Rúben Dias, vieram os amigáveis na Luz contra o Bournemouth, Braga e Rennes.

Nessa altura fiquei com excelentes perspetivas para esta época do Benfica. A espaços foi possível ver uma boa pressão sobre o adversário, uma defesa sempre bem posicionada com a linha de fora-de-jogo controlada e uma equipa totalmente equilibrada a jogar com 10. Eram sinais já de grandes melhorias face ao que tinha ocorrido nas temporadas anteriores.

Mas a verdade é que este momento de maior esperança não teve grande seguimento. Durante toda a primeira metade da época não voltámos a ser uma equipa bem posicionada defensivamente e nem forte no jogo sem bola.

É preciso aqui realçar o duro golpe que foi a saída do Rúben Dias. O central era já a voz de comando daquela defesa, foi o principal foco de evolução na pré-época com o Jorge Jesus e quando saiu chegou um Otamendi trapalhão e completamente alheio ao processo defensivo.

Qual é a boa noticia no meio disto tudo? Qual a boa noticia mesmo em jogos menos conseguidos e em resultados menos satisfatórios como foram o de Moreira de Cónegos e o de Roma (contra o Arsenal)? A equipa defensivamente está muito mais compacta do que estava até ao inicio deste mês.

Isto reflecte-se na subida de rendimento tanto do Otamendi como do Verthongen. Reflecte-se na exibição de Moreira de Cónegos onde durante quase 70 minutos a equipa jogou em total equilíbrio não dando espaço ao Moreirense para atacar. Reflecte-se na exibição com o Arsenal onde quase todo o jogo a equipa esteve sempre muito activa na limitação do espaço onde o adversário poderia progredir e criar.

A equipa continua muito limitada na qualidade com bola, no processo ofensivo e capacidade de criar desequilíbrios nas defesas adversárias.
Mas nota-se uma clara evolução defensiva no nosso processo de jogo.

Infelizmente em Moreira de Cónegos esta evolução exigiu um maior condicionamento dos movimentos dos laterais, o que nos roubou (na primeira parte) capacidade de dar profundidade aos corredores. Além disso a saída do Weigl acabou com todo o equilíbrio da equipa.
E infelizmente em Roma esse equilíbrio exigiu uma adaptação táctica para 3 centrais e também a um quase abdicar de atacar.

(Nada contra a jogar com 3 centrais, contudo na Liga Europa foi uma excepção de cariz unicamente defensivo)

Há uma evolução na equipa. Espero vê-la ainda mais consistente agora no jogo com o Farense e acompanhada por uma melhor capacidade da equipa em ter bola e criar jogadas de perigo ofensivo.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Desconecta BTV

 

Ontem de madrugada acordei meio atordoado. Alheio às horas liguei a televisão sem saber bem com que intenção.

Não eram ainda 4 da manhã e o Benfica tinha jogado com o Famalicão no inicio da noite do dia anterior. A verdade é que aquela segunda parte deixou-me deprimido e assim que acabou o jogo afundei-me no Youtube até adormecer.

Por isso quando ligo a televisão esta encandeia-me com BTV. Estava a dar o programa Chama Imensa.

Apesar da vitória o Benfica vinha de uma sequência de maus resultados, pouco futebol, eliminação da Taça da Liga e com uma desvantagem de 11pts para a liderança do campeonato. Apesar da vitória frente ao Famalicão, este foi mais um jogo pouco conseguido: bom arranque com dois golos logo a abrir, depois 30 minutos a controlar os espaços e por fim 45 minutos a ver jogar.

Assim deixei-me a ouvir o que na BTV, perante o contexto actual do nosso futebol, se estaria a dizer.

No momento deu-me um impulso imenso de vir aqui desabafar mas... 4 da manhã. E apesar das 36 horas já passadas, não tenho como não soltar aquela experiência aqui em palavras.

Apanhei o finalzinho da intervenção de um João Diogo onde falou do Porto, de arbitragens e de penalties. Deu-me logo um nó.

De seguida o jornalista da BTV passa a palavra para um tal de António Bernardo, perguntando-lhe se sobre o Porto e a arbitragem tinha algo a dizer. Depois de nos fazer saber que também o António Rola já tinha estado minuciosamente a falar do Porto e de arbitragens e que concorda totalmente tanto com o Rola como com o João Diogo, o António Bernardo afirma que quer falar de “outras coisas que eu acho que posso acrescentar... E posso já relembrar aqui 3 ou 4 situações que me andam a preocupar”.

Pensei eu, ingénuo, que estando o assunto arbitragem arrumado, agora iriam falar sobre os jogos do Benfica, as dificuldades que temos tido, as melhores e/ou piores exibições de alguns jogadores, sistemas tácticos, reforços... algo assim.

Não. Começou a falar do Pedro Mantorras. Sim. “Relativamente ao Porto tenho uma coisa a dizer, eu estava no Benfica em 2002-03 quando o Pedro Mantorras era um mártir a levar pancada”. Epa o que esta malta faz para não ter de falar de Futebol.

Portanto as 4 coisas a que este António Bernardo andavam a preocupar eram:

1 – Arbitragens
2 – Imprensa toda dominada pelo Porto e pelo Sporting
3 – Unilabs, se mudaram de laboratório e se é verdade que os jogadores do Benfica tiveram mesmo Covid.
4 – “Caso” Palhinha e ter juízes amigos.

E termina a dizer “Isto é que são coisas importantes a debater no Futebol e no Desporto em termos gerais”.

Exacto. São estas merdas de novelinhas e de choros que é crucial debater no Desporto.

Já estava eu meio em dúvida se estaria mesmo acordado quando aparece o José Marinho a falar. Questionado sobre esta época atípica onde o Paços de Ferreira surgia com tão bom desempenho, o José Marinho entra, como sempre, naquele seu mundinho onde é rei mas de coisa alguma. Fala e fala e fala, com grande autoridade, mas depois quando se espreme percebe-se que não faz ideia sobre o que diz.

O inicio da sua intervenção dava um bom número de comédia. Começou a criticar aqueles que tanto falam da importância de se ter uma boa estrutura nos clubes e a meio desta palermice lá se lembrou que é no Benfica que mais se fala nisso. Enrolou-se. Inverteu a coisa e começou a elogiar a Estrutura do Benfica.

Assunto estrutura rebobinado lá começou a falar do sucesso do Paços de Ferreira. Então salientou que aquele clube tem um sucesso constante e que isso se deve por sempre ou quase sempre escolherem acertadamente tanto os treinadores como os jogadores. E enquanto o Marinho debitava eu juro que pensei que ele estava era a falar do Rio Ave.

Então avança relembrando que a actual posição do Paços de Ferreira não é surpreendente porque “por exemplo” há uns anos com o Paulo Fonseca tinham conseguido apurar-se para uma pré-eliminatória da Liga Europa. Insiste que para o Paços esta não está a ser uma época atípica porque nos últimos anos têm-nos habituado a andar lá em cima e sempre com boas equipas. É o que dar falar de cor caro José Marinho.

Para começar é esquecer o “por exemplo” porque a referida época é uma exepção e não somente um dos possíveis exemplos. E depois é elucidar que o apuramento foi mesmo para o Play-Off da Liga dos Campeões.

Sim, em 2012-2013 o Paulo Fonseca conduziu o Paços de Ferreira a um excelente 3º lugar.
Desde então disputaram-se mais 7 campeonatos o Paços classificou-se em:

16º


13º
17º - Despromoção
1º - Promoção
13º

E atenção, todo o respeito pelo Paços de Ferreira. Contudo dizer que nos últimos anos estar em 5º lugar não é atípico para o Paços quando nos últimos 7 anos só duas vezes ficou no Top-10 tendo mesmo sido despromovido em 2018 e tendo disputado a segunda liga em 2019...

Tão sobranceiro falou o José Marinho sobre o Paços de Ferreira conseguindo confundi-lo com o Rio Ave e mostrando deste somente saber que há uns anos era treinado pelo Paulo Fonseca e que ficou num lugar Europeu (qual não sabe) e que esta época é treinado pelo Pepa.
De resto não refere nada em especifico sobre este clube – nem treinadores, nem jogadores, nem modelo de jogo – e o que tenta falar sai tudo ao lado.

Que fraude é este José Marinho.

E que tristeza de canal tornam a BTV.

Depois desta intervenção do Marinho desliguei a televisão. Não dava para mais. A curiosidade matou mesmo gato.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Franco Cervi

Chegou ao Benfica no Verão de 2016 para substituir Nico Gaitán e trazia no seu pé esquerdo esperanças benfiquistas de muita fantasia.


Com a alcunha de Chucky e com a facilidade com que enfrentava os adversários Cervi apresentava-se como um extremo repentista capaz de barafustar a ala direita de qualquer defesa.

Este puro extremo infelizmente rapidamente perdeu a sua magia. Jogo após jogo, época após época, Cervi foi-se tornando cada vez menos fantasista. Por quebra de confiança, por perda de habilidade ou até por culpa dos seus treinadores, a verdade é que num instante se percebeu não ser o extremo que o Benfica precisava.

Mas houve algo que Franco nunca perdeu – a garra, a vontade, a determinação e a capacidade de trabalho. São aquelas características que conquistam os adeptos e que lhe abrem espaço no plantel.

Cervi não pode ser o extremo do Benfica porque simplesmente perdeu o seu ímpeto ofensivo. Incapaz de ir no um para um, Cervi banalizou o seu jogo.

Isto juntamente com a sua postura aguerrida fizeram dele uma opção mais defensiva para os treinadores – até como extremo é utilizado numa visão mais de retranca, de cobertura ao lateral.

Assim começamos a descobrir o Cervi lateral. Mas sejamos honestos, o argentino não é forte defensivamente. Ter garra, correr muito e lutar intensivamente, não é saber defender. Tem maus posicionamentos, más abordagens e a maioria das vezes simplesmente corre atrás dos atacantes.

Cervi não só não é o extremo que o Benfica precisa como também não é o lateral que o clube necessita.

E por isto sempre tenho defendido que não tem lugar no 11 do Benfica.
E por isto tanto tenho defendido a sua venda.

Mas há contextos e contextos. E hoje o Benfica precisa de Cervi.

No início da época deveria ter saído pois não contava – Havia Nuno Tavares para cobrir Grimaldo e principalmente a possibilidade do clube se reforçar. Mas agora, a fechar Janeiro, não faz qualquer sentido a saída do argentino.

- Grimaldo vive a inconstância das lesões.

- Nuno Tavares já demonstrou não ter qualidade para jogar no Benfica.

- Jorge Jesus parece começar a apostar na possibilidade de uma táctica com 3 centrais, criando-se assim a posição de Ala esquerdo no 11 titular.

Sem que o clube tenha recorrido ao Mercado de Inverno para reforçar a lateral esquerda, com as actuais necessidades do plantel, a possível alteração táctica e a entrega do jogador apesar de mal ser opção, deixar sair Cervi é só mais uma falha estratégica desta direcção.

Só um desespero financeiro é que o pode explicar. Isto e uma contínua cegueira de quem nos dirige.

Cervi que saia mas só no final da época.



sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Renato Paiva




Ontem pudemos assistir a mais um recital dado pelo Mister Renato Paiva. Uma hora de bom futebol e de onde retirámos três ideias importantíssimas:
⚽️ a inserção dos jovens num novo contexto competitivo (II Liga);
⚽️ a criação de um modelo de jogo potenciador da tomada de decisão do jogador;
⚽️ a gestão de expectativas, a necessidade da experimentação de dificuldades e o exemplo do Tomás Tavares.
É um gosto poder ouvir estas pequenas aulas dadas pelo Mister. Já merecia ter dado o salto para um outro patamar, por isso temos de nos sentir uns privilegiados por ter na nossa Formação alguém tão competente e conhecedor do jogo.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Futebol Português - Retoma Foi Levantar a Tampa do Esgoto

O campeonato recomeçou há uma semana e antes do seu início já havia uma polémica - decisões quanto a subidas e descidas. Mas esta seria sempre uma polémica que tinha de acontecer. Esta aceita-se, é normal.

Mas o arranque do campeonato, que repito só começou há uma semana, trouxe-nos vários outros casos.

Desde a invenção que o presidente do Famalicão estaria na lista directiva do Pinto da Costa e que por isso o Famalicão ofereceria o jogo ao Porto. Não ofereceu, venceu e uma invenção é uma invenção.

A polémica com a arbitragem do jogo Famalicão - Porto. De penalties não assinalados que supostamente envergonhariam o futebol nacional pelo mundo a fora a penalties não assinalados totalmente ignorados. Isto claro, a depender da cor de quem fala. O campeonato arranca logo com fortes críticas e suspeições sobre a equipa de arbitragem.

A isso sucede-se o ataque a um autocarro de uma equipa que empatou o seu jogo. Sim. Os jogadores do Benfica obtiveram um mau resultado e por isso o autocarro em andamento foi atacado, dois jogadores foram hospitalizados e o clube viu-se obrigador a fortalecer a segurança dos atletas. Se a bola que foi ao poste tivesse entrado estava tudo bem e os rapazes das pedras estariam a lançar fogo de artificio. A juntar a isto ainda tivemos a vandalização da casa de jogadores.

Ainda se discutia isto e lá veio mais um caso, mais uma polémica. Uma investigação jornalística a expôr supostos actos ilegais ou imorais do Sport Lisboa e Benfica.  

E isso trouxe-nos várias acusações e exposições de coisas relacionados com o Futebol Clube do Porto. Aliás, nos últimos dias a minha caixa de correio electrónico parece que só recebe ataques ao Porto. Ataques vindos da própria comunicação do Benfica. Agradeço mas dispenso ser arrastado para esse lodo.

E atenção. Isto em uma semana! Depois de dois meses e meio sem futebol. Depois de uma quarentena forçado por um vírus que afectou o mundo inteiro. E isto é só aquilo que sei, é só aquilo a que fui exposto enquanto benfiquista. O pouco que tive atento às notícias e o contexto do meu facebook - sigo somente determinadas páginas e todas elas benfiquistas ou supostamente neutras.

Portanto se a isto juntarmos toda a treta que andará pelos lados dos azuis e brancos, dos verdes e brancos e de todos os outros clubes desta primeira liga... É este o esgoto que é o futebol português.

(Eu a escrever isto e o meu cão a mandar uma daquelas bufas caninas... não podia ter tido um timing mais perfeito)

A retoma do futebol nacional trouxe certamente uma multiplicidade de orgasmos pelos estúdios da CMTV. Mas o que é bom para esse canal não é bom para o Futebol. Porra, não é bom para o Desporto e nem sequer para o país.

Eu amo o meu clube, eu amo futebol. Sou desde sempre um louco por este desporto. Mas digo sem qualquer ponta de hesitação que se é para esta merda então que se suspenda o futebol português, que se limpe toda esta trampa, que se criem rigorosas medidas de protecção dos jogadores e do espectáculo e que só aí se retome a competição. E se o problema principal forem os três grandes então que se resolva esse problema.

É inaceitável que se continue a destruir um desporto, uma cultura, um belo fenômeno social, só para alguns lucrarem com os ódios alimentados.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Ética, Honestidade, Respeito, Solidariedade, Desportivismo – Valores Fundadores sem “mas”

Não quero me prolongar ao longo da semana a falar sobre o assunto. Mas hoje, só hoje, terei de voltar a ele.
Um jogador de futebol abandonou o relvado no decorrer de um jogo. Um episódio triste que trouxe consigo muitos outros que não consigo que me sejam indiferentes.

O Futebol em Portugal já há muito tempo que não é paixão. Aqueles valores de desportivismo, solidariedade e até de rivalidade são cada vez mais raros neste desporto cada vez mais movido a ódios.
Perante um ódio racial, algo impensável numa sociedade como a nossa e mais especificamente no contexto desportivo, o que vemos são vozes de outros ódios levantarem-se. São ódios combatidos e alimentados por mais ódios e ódios e mais ódios.
E enquanto cidadão, enquanto amante do Jogo e enquanto benfiquista, não posso não dizer nada enquanto vejo outros falharem constantemente com o seu dever de cidadãos.

Quem temos a relativizar o caso são, na sua minoria, adeptos do Vitória Sport Clube – os prevaricadores – e, na sua maioria, adeptos do Sport Lisboa Benfica – porque a vítima foi um jogador equipado com a camisola do Futebol Clube do Porto. E ao contrário seria igual. 
Mas atenção, isto não é demonstração do que são os adeptos benfiquistas. Não. Isto é demonstração do que são os adeptos do nosso futebol. Vivem de guerras.

Como é possível que tanta mas tanta gente se tenha apressado a transformar este incidente num Benfica-Porto? Como?

Um atleta abandou um jogo, uma competição, enquanto este decorria devido a insultos racistas. Já aconteceu lá fora e cá dentro a crítica foi unanime. Agora acontece cá dentro e é o que vemos.
Relativiza-se o caso, desvaloriza-se a situação, porque outros jogadores – das suas cores clubísticas – foram também em tempos alvos de insultos racistas. Desvaloriza-se porque adeptos rivais insultam os das nossas cores clubísticas. “No pasa nada” porque adeptos de azul e branco já foram multados por racismo.
E isto é só mesquinho. O que esta gente não entende é que não está em causa o Porto, não está em causa o resultado desportivo, não está em causa os adeptos e dirigentes portistas. Está em causa sim um atleta que sentiu necessidade de abandonar o terreno do jogo.

O Vitória Sport Clube não é um clube racista. Os seus dirigentes não se cansam de o dizer. O facto de um conjunto de idiotas terem tido um comportamento racista isso não personaliza o próprio clube. O que vincula o clube são as suas acções e o Vitória Sport Clube como um clube não racista, como clube interessado no combate ao racismo, só terá um caminho: Ajudar as autoridades a identificar os prevaricadores e agir disciplinarmente contra os mesmos. Quando os adeptos falham aos valores do clube cabe também ao clube agir em conformidade.

Agora quatro pontos que me sinto obrigado a responder depois de tudo o que vi escrito:

1. Prévios comportamentos de ódio e violência: Infelizmente o futebol vive disso. Os constantes insultos aos árbitros. Os constantes insultos aos jogadores. Os constantes insultos aos adeptos adversários. Uma cultura que está enraizada no adepto de futebol. É a cultura do “Filho da Puta” quando um guarda-redes bate um pontapé de baliza. É tudo condenável mas ninguém quer saber. Como ainda mais condenável são os actos de violência que todas as semanas acontecem ao redor dos jogos. Tudo isto deve ser condenado no momento e nunca mais esquecido. Agora, nada disto deve servir como desculpa nem como arma de arremesso para casos futuros. A bola de neve da ignorância não pode rolar infinitamente num “o que vem deles é condenável e o que é nosso é desculpável”.
Por mais chocante que seja a imagem do adepto do Benfica a sangrar no autocarro, alguém me consegue explicar porque tem essa imagem de andar a ser atirada contra este caso Marega? Uma pessoa foi violentamente agredida. Outra pessoa foi alvo de insultos racistas. Uma coisa justifica a outra? Uma coisa suaviza a outra? Um idiota de um adepto portista atirou uma pedra contra um adepto benfiquista. Um atleta do Porto foi insultado, com base na cor da sua pele, por adeptos do Vitória de Guimarães. Onde está a relação dos dois casos? Uns idiotas da claque do Porto fizeram um cântico deplorável sobre o avião da Chapecoense. Que tem o atleta Marega a ver com isso? Que tem a cor da sua pela a ver com isso?
Não há ódios bons e ódios maus. Não há espaço para irresponsabilidades. E todos aqueles que desvalorizam este caso, tal como todos aqueles que vão sempre desvalorizando tudo o que é feito pelos da sua cor clubística, são uns irresponsáveis incapazes de assumir os seus deveres cívicos. 
Repito. Isto não é sobre o FCP. Não é sobre o Pinto da Costa. Nem sobre o Jota Marques. Não é sobre os Superdragões e não é sobre o Sérgio Conceição. Isto nada tem a ver com as pessoas que vivem e gravitam naquele clube. Isto nada tem a ver com aqueles que sistematicamente atacam o Benfica. Nada. Vocês estão a fazê-lo ser, mas não é. Isto é sobre um jogador que teve de abandonar o relvado no decorrer de um jogo. Nada tem a ver com o vosso inimigo nem com as vossa guerras.

2. Política e hipocrisia: Sim há muita hipocrisia no Futebol e na política. De todos os clubes e políticos que se manifestaram quantos não o fizeram só para ficar bem na fotografia? Quantos irão realmente fazer algo sério para mudar o estado lastimável em que está o futebol português? Poucos ou nenhum. Sim é verdade. Mas hipocrisia também é alguém auto-intitular-se contra o racismo e contra a violência mas depois fazer as suas condenações variar consoante a cor clubística.

3. Reacção do Sport Lisboa e Benfica: Este foi um dos temas que também surgiu em debate. Como aconteceu com um atleta do Porto, então o Sport Lisboa e Benfica nem tinha de se pronunciar. Na verdade, foi o longo silêncio do clube que levou a esta teoria. Quem achou que o clube não tinha de se pronunciar fê-lo porque o clube simplesmente ainda não tinha reagido. É a regra simples da clubite - tudo o que é feito no nosso clube é de apoiar. Cada posição invertida e contraditória é de concordar.
Claro que o Sport Lisboa e Benfica ia e tinha de reagir. Há o lado político e há a imagem do clube. Um acontecimento de racismo no campeonato português, com todos os canais e jornais a falar do assunto, com os media internacionais e os políticos portugueses a abordar a situação, como poderia o maior e mais representativo clube de Portugal não dizer nada? Ainda para mais até os silêncios comunicam e a mensagem que esse passaria era de uma enorme falta de cultura desportiva e social.

Portanto sim o clube tinha de reagir e reagiu. E sim o clube tinha de condenar os acontecimentos no Afonso Henriques e... não o fez.
Faltou decência a quem lidera o Sport Lisboa e Benfica para fugir ao estúpido Benfica-Porto já criado por vários dos seus adeptos e até por produtos da sua comunicação - Hugo Gil e Boaventura por exemplo. Um vídeo genérico, reciclado e nem uma palavra sobre os acontecimentos em questão. Nem uma palavra de solidariedade para com o atleta. 
E foi nisto que estes dirigentes transformaram o Sport Lisboa e Benfica. Estes dirigentes que trouxeram para o clube hábitos e culturas de outros tempos e de outros clubes e que fortemente as têm enraizado dentro do benfiquismo.

“O Sport Lisboa e Benfica repudia veementemente os actos de racismo verificados hoje no jogo do Vitória SC – FC Porto. O clube solidariza-se com o atleta Moussa Marega e disponibiliza-se para de uma vez por todas se tomarem medidas que permitam criar um futebol saudável para todos, independe da sua cor clubística e principalmente da sua cor de pele.” 
Tão tão simples.

4. Ser benfiquista: Claro que depois também surgiram as normais acusações de falta de benfiquismo. É o “ou estás contra eles ou estás contra nós”. Para estas pessoas ser benfiquista é odiar tudo o que tenha a ver com o Porto ou com o Sporting. Ser benfiquista é querer que a equipa ganhe seja por que meios for. Ser benfiquista é defender os criminosos de vermelho e branco e atacar qualquer um, criminoso ou não, de azul ou verde.
A todos vocês que fazem do benfiquismo algo tão perverso só vos posso dizer que isso não é benfiquismo, isso é pura idiotice.
Não entro em medições de benfiquismo. A própria definição de “ser benfiquista” é muito ampla. Para mim tem bases que não podem nunca ser abaladas. Para mim benfiquismo é algo que está alicerçado em duas vertentes: Vitória e Valores. Assim vejo o benfiquismo como um querer que o clube vença sempre mas sempre e somente sendo fiel aos seus valores fundadores.
Ontem li gente defender que o Benfica tem é de ganhar jogos e não se preocupar com questões sociais. Li gente dizer que o Benfica tem de ganhar seja como for e porque meios for. 
Era eu bem mais novo quando via Pinto da Costa criar uma máfia de poder para beneficiar o FCP garantindo-lhes vitórias com muito jogo sujo. Para meu espanto, perante tão evidente conspurcação da competição, via os adeptos portistas assobiarem para o lado. Só lhes interessava ganhar. E para meu orgulho via os adeptos benfiquistas recusarem algum dia ganhar daquela forma. “Somos diferentes” dizíamos todos. Poucos anos depois percebi o quanto eram frágeis essas convicções. E hoje em dia é vermos a quantidade de benfiquistas que defendem que importante é ganhar, não importa como.
Ignorar os valores que criaram e fizeram crescer este clube para mim nunca será benfiquismo. Lutar constantemente contra quem coloca os valores do clube em causa, sejam rivais ou dirigentes do próprio clube, é para mim, e sempre será, a obrigação de qualquer benfiquista.

Portugal não é um país racista. Contudo isso não significa que não exista racismo em Portugal. Existe. É histórico e arrasta-se por gerações.

Hoje em dia podemos até debater sobre o que é racismo e se só existe num sentido. Muito do que a sociedade vê como sendo racismo não o é. São exageros, são hipocrisias, são posturas de u, politicamente correcto. O que não invalida a sua existência e o seu histórico. Nós das novas gerações não vivemos os piores momentos deste flagelo. Nós deste país à beira mar plantado não temos total noção das repercussões do racismo. Nós caucasianos deste Portugal percebemos a sociedade actual mas não entendemos a dor que muitos de outra cor e de outra nacionalidade trazem consigo. Não entendemos e muitos de nós nem tentamos respeitar.

Existe racismo nos dois sentidos? Existe. Contudo são de gravidades diferentes. E isso não há como negar. Não é possível apagar o histórico, a dor e a selvajaria que tanto marcou a humanidade. Não ver isso é querer ser cego em proveito próprio.

É verdade que tal como muitos têm repetido, o que se sucedeu ao Marega não é um caso único. Não é um caso único em Portugal. Não é um caso único num estádio de futebol. Mas apesar de muitos agirem como se isso desvalorizasse o sucedido, a verdade é que só lhe dá ainda mais importância. É por não ser único que urge ainda mais agir. É por não ser único que não podemos continuar todos a assobiar para o lado. O vosso argumento, mesmo que se recusem a o admitir, é somente baseado em clubite. Esqueçam isso. Sejam melhores.

A arte do insulto é uma constante no mundo do futebol. Todos os jogadores e adeptos estão sujeitos e habituados ao insulto. Infelizmente é verdade. Chama-se filho da puta a um jogador e corrupto a um árbitro como se diz olá a um conhecido. É inadmissível mas é verdade. Contudo esta verdade em nada se contextualiza no mundo do preconceito pela cor da pele. Não misturem coisas que não podem ser misturadas. Há insultos gerais, insultos para todos. E depois há os insultos que só visam aqueles de raça negra. E se um caso é pura falta de educação o outro é já descriminação. Determinadas ofensas e determinados ruídos só se fazem na direcção dos jogadores negros. E é neles que vivem essas memórias que despoletam dores do passado, vergonhas de uma história não há muito tempo escrita. E isso tem de ser totalmente irradiado.

Moussa Marega resolveu abandonar o terreno de jogo. Isto é o que torna esta situação diferente. É um mote. Um mote que deve ser seguido. Este exemplo deverá ser seguido por todos os jogadores que sofrerem insultos racistas durante um jogo de futebol. E quando todos começarem a seguir o exemplo de Moussa Marega, quando colegas e adversários tomarem a mesma atitude, aí finalmente teremos políticos e dirigentes, aí finalmente teremos todos vocês odiadores, a mudar drasticamente a sua passividade e a melhorar o desporto e a sociedade nacional.

Há valores que ou temos ou não temos. Não existe meio termo. Existe fingir que temos. Isso existe. Não podemos ser pessoas dignas às vezes. Não podemos ser honrados mas só quando dá jeito. Não podemos ser éticos mas só quando saímos beneficiados. 
Aqueles valores que todos aparecem a defender são valores que se vivem e não que se repetem em frases ocas. Ser absolutamente contra o racismo é ser absolutamente contra o racismo. Não é dizer que se é e depois colocar um “mas” à frente. Não há “mas”. É no “mas” que vocês se perdem.

Existe racismo em Portugal. Existe racismo no desporto. Existe preconceito à cor da pele. E neste futebol podre, de dirigismo podre e de adeptos que nada gostam do jogo, existe um enorme racismo clubístico. 

Agora deixo a palavra para os nossos políticos, para os nossos dirigentes e para os nossos ministros. 

Façam acontecer.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Treinador Rui Vitória

Um treinador de futebol é muito mas também mais que aquilo que faz no treino.

A sua imagem fica mais condicionada pelas decisões que toma nos jogos do que pela trabalho que desenvolve longe dos olhares dos adeptos.
Normalmente as discussões em seu torno rondam muito à volta das tácticas, dos titulares e das substituições.

Numa altura em que se fala tanto sobre o actual treinador do Benfica de forma tão critica e empolgada, achei por bem dar um passo atrás e analisar o seu desempenho no Benfica de forma mais serena e metodológica. 

Não vou olhar a resultados nem a conquistas. Não vou argumentar que ele é bom porque já ganhou nem que é mau porque está a perder. Quando ganhava e agora que perde, é o mesmo treinador, com as mesmas ideias e o mesmo método.
Não irei olhar a estatitisticas porque a sua viabilidade depende sempre de quem as maneja e de intenções de perspectiva. Tentarei olhar para o que precede os números.

Vou considerar que existem 8 vertentes da responsabilidade de um treinador:

- Comunicação: Externa e Interna
- Construção do plantel
- Ideia de jogo
- Modelo táctico
- Treino colectivo
- Treino individual
- Convocatória e escolha dos titulares
- Leitura do jogo e substituições.

O primeiro pecado do treinador do Benfica é logo na comunicação. Nem vale a pena alongar-me muito neste aspecto. Para dentro e para fora é um discurso baseado em chavões de auto-ajuda. Peca pela ausência de conteúdo, pela superficialidade de um discurso linear que nada acrescenta. É um discurso que encaixa bem na primeira impressão mas que cansa quando não evolui, quando não passa daquilo. Não acrescenta nada.

E perante maus resultados a comunicação do treinador Rui Vitória piora porque a esta junta-se um discurso de desculpabilização que varia entre as arbitragens e o factor sorte.
É do mais básico e desinteressante que podemos encontrar.

Um discurso que não funciona no médio e longo prazo em alta competitividade. É indesmentível que Rui Vitória proporciona um bom ambiente de trabalho para os jogadores e para o balneário. Rui Vitória leva ao seio do grupo um bem-estar óbvio. Mas isto é pouco. Até a descontracção contrai. Até a pouca pressão pressiona. Até o não incómodo incomoda. Porque os jogadores necessitam de muito mais. Liderança acima de amizade.

Quanto à construção do plantel também não há necessidade de queimar muitas linhas.
O actual treinador do Benfica parece acomodado a que esta seja feita pelos dirigentes do clube.
Orienta o plantel que o clube lhe disponibilizar. Um romantismo que em nada beneficia a sua posição de liderança, a sua condição de Treinador.

No que respeita a modelos tácticos já me posso alongar mais.

Apesar de dois anos a jogar em 4-4-2 o modelo deste treinador é o 4-3-3 que actualmente utiliza.
Chegou a um Benfica que jogava com 2 homens no centro do terreno, dois alas e dois avançados. Um 4-4-2 que se desdobrava num rápido 4-2-4. Tentou implementar o seu modelo, onde reforçava o meio-campo abdicando de um avançado e solidificando um puro 4-3-3 com dois alas bem abertos. Não resultou. Não conseguiu fazer a mudança.
Acabou por ceder à fórmula antiga e deu aos jogadores o prazer da familiaridade.
Já no decorrer da terceira época, com as fragilidades defensivas cada vez mais incomportáveis, recorreu ao 4-3-3, o seu 4-3-3.

Com Rui Vitória este é um sistema táctico claramente mais defensivo. A opção pelos três médios não é em prol de um maior controlo da bola a meio-campo para uma mais curta e elaborada construção de jogo. No seu 4-3-3 o terceiro médio surge para um maior preenchimento dos espaços no jogo sem bola. Uma tentativa de um acrescido equilíbrio no momento de defender.

4 defesas - 3 médios centro - 2 alas de rasgo - um ponta de lança. Portanto tenta povoar a zona de recuperação para rapidamente lançar os velocistas enquanto o ponta de lança prende os defesas adversários e procura zonas de finalização.

É no seguimento da análise táctica que sou obrigado a entrar na análise à Ideia de jogo.

Rui Vitória tem uma ideia de jogo. Contudo é tão arcaica, tão desinteressante e tão básica, que a este nível parece ser quase inexistente.
Reduz-se à capacidade de luta dos jogadores. Queimar linhas com passes longos e tentando ganhar as segundas bolas em zonas do terreno que deixam a defesa adversária em desequilíbrio.

A ideia de jogo deste treinador passa por defender com muitos, recuperar a bola e colocar rapidamente na zona defensiva do adversário.
Assim tem tendência por optar por um ponta de lança forte capaz receber os lançamentos longos e por dois extremos velozes que usem essa velocidade para rapidamente se aproximarem da defesa adversária, seja para recuperarem as segundas bolas, para pressionarem o receptor da bola ou para a receberem do ponta de lança.
Queima-se linhas com os passes longos, queima-se linhas com velocidade e fintas dos alas, e tenta-se ganhar a bola no terço ofensivo para surgirem os desequilíbrios.

Este é uma ideia de jogo muito britânica - Kick and Rush. Contudo em estado muito primitivo e introduzido num contexto - clube Grande e futebol português - onde não corresponde às expectativas e exigências do clube.
Estamos a falar de um campeonato onde normalmente os defesas estão bem posicionados nos jogos com os Grandes. Estamos a falar de uma equipa com jogadores de qualidade técnica desaproveitada em prol da sua capacidade física.
Daí a constatação que o treinador Rui Vitória coloca as suas equipas a praticar um futebol de clube não-grande.

Qualquer Modelo Táctico e  Ideia de Jogo nascem e crescem no Treino.

Para mim é nesta vertente que encontramos a pior face deste treinador.
Há uma táctica, há uma ideia de jogo, há uma preferência pelas características dos jogadores, mas não existe um trabalho que faça tudo encaixar e fluir.

O treino tem a sua vertente física, táctica e técnica.
Sim, os jogadores do Benfica são fisicamente capazes. Sim, os jogadores do Benfica sabem os seus lugares no terreno de jogo. Não, os jogadores do Benfica não estão integrados num processo de jogo.

O jogo é o reflexo dos treinos, resulta do trabalho diário da equipa.

Para a análise irei dividir os momentos do jogo em 4: Com bola em fase defensiva; Com bola em fase ofensiva; Sem bola em fase defensiva; Sem bola em fase ofensiva.

Em todos estes momentos notamos carência de treino.

No momentos defensivos é recorrente o recurso ao "alivio". Muitas vezes mais por necessidade do que por convicção.
Esta necessidade aparece da ausência de linhas de passe. Não há movimentos dos médios que proporcionem soluções de passe ao defesa com a bola. O centro do terreno é constantemente um vazio de atletas de encarnado.
Daí advém não só o bombardeamento de bolas para o avançado como também a constante lateralização de jogo.

Também no momento ofensivo existe esta carência de linhas de passe na zona central. Lateralização e cruzamentos.
Há um fosso no centro do terreno que não é explorado. Só Jonas vai contrariando esta tendência e sem progressão pelo centro, os desequilíbrios ficam dependentes da criatividade e velocidade individual pela linha - Rafa e Salvio.

Contudo, desde o primeiro jogo oficial de Rui Vitória no Benfica, é o desempenho sem bola que mais me preocupa.

Na reacção à perda de bola temos a pressão do avançado e da velocidade dos alas. Só que assim que o adversário contorna esse primeiro momento a equipa entra imediatamente em contenção. É neste momento que entra a minha maior critica ao trabalho do treinador Rui Vitória.
O mesmo vazio central que existe com bola mantém-se quando a equipa se encontra sem ela. É nesse espaço que os adversários encontram tempo para receberem a bola, furarem as nossas linhas, pensarem e executarem já de frente para para a nossa linha mais defensiva.

Por isso com este treinador apesar de defendermos com muitos defendemos muito mal.
Os jogadores assumem as suas posições em blocos defensivos lentos e desligados. O bloco de médios aproxima-se da zona da bola, os defesas mantêm o bloco e o fosso entre sectores aumenta.

Após a linha avançada ser batida na pressão inicial, a qual é exercida sem a cumplicidade dos restantes sectores, basta um passe para bater a linha de médios, um passe central para a zona deserta entre estes e os defesas. Sem apoio próximo e sem exercer pressão, o último sector defensivo vai recuando em contenção, aumentando o fosso entre sectores, e permitindo que os avançados adversários se aproximem quase sem oposição da nossa área, imediatamente farejando as zonas de finalização.

Ao defendemos com muitos mas com os blocos tão distantes, em contenção sem pressão e recuando à necessidade de se defender sobrelotando as zonas de finalização, evidencia-se a ausência da intensidade de treino.

O que vamos sabendo e aquilo que observamos nos relvados em dia de jogo, mostra-nos uma enorme passividade desta equipa técnica na preparação e condução dos treinos.
Exercícios básicos onde não se explora a capacidade dos jogadores em reagir em espaços curtos, onde não se explora os posicionamentos defensivos e as devidas compensações. O desposicionamento defensivo nas nossas laterais é uma simples consequência de tudo isto.

Com Rui Vitória percebemos um treino descontraído, onde os jogadores formam duas equipas que disputam um jogo-treino sem rigor táctico, sem exigência, sem aquelas constantes interrupções e correcções. Sem intensidade técnica.

E quando o treino colectivo tem estas lacunas o treino individual não tem como ser muito diferente. Se os jogadores não são levados ao limite, não são moldados. Não são pressionados a evoluir.

Nestes quase 3 anos e meio de Benfica é raro o jogador no qual vemos o dedo de Rui Vitória.
Há o lançamento de vários jogadores da Formação do clube mas pouca evolução. Os miúdos crescem aquilo que os minutos de jogos os obrigam, melhoram mas não se desenvolvem. No que respeita às dezenas de jogadores contratados em nenhum vimos o seu potencial ser aproveitado e exponenciado. Os jogadores não evoluem nas suas capacidades nem se afirmam para voos superiores.

Em mais de 3 anos só conto 4 jogadores a contrariar este desperdício: Ederson, Semedo, Lindelof e Guedes.
Ainda assim só o Semedo me parece ter evoluído no treino deste treinador.

É muito muito pouco. 
Temos um poço de talento desejoso de ser lapidado para o estrelato mas correntemente estagnado no tempo.

Por fim temos a questão da escolha dos jogadores - Convocatória, titulares e substituições.

Um treinador deve optar pelos jogadores consoante uma conjugação da sua ideia de jogo com os desempenhos destes.

Esta não será uma análise segundo às minhas preferências. Assim não irei abordar a qualidade das escolhas mas sim a sua incoerências.

Rui Vitória fomenta um inexplicável carrossel da titularidade à bancada.
Tem sido frequente ver um jogador ser aposta e imediatamente deixar de o ser. Entra, não brilha e fica fora das próximas opções. Isto evidencia uma aposta não sustentada nas características do jogador nem naquilo que o treinador idealiza para a equipa.
E enquanto temos jogadores que não têm a oportunidade da continuidade, temos outros que se mantém na titularidade indiferentes às suas prestações. A uns exige-se o brilho no curto período que lhes é concedido, a outro exige-se que estejam simplesmente presentes.

É de louvar o lançamento de miúdos da formação. E nos primeiros tempos era de elogiar o modo como gerias as suas exibições e afirmações. Não poucas vezes vimos um suplente ser chamado, corresponder e manter a confiança do treinador mesmo depois do anterior titular ter recuperado. Aqui fomentava um espirito de grupo muito forte com um grande sentido de competitividade entre os jogadores. Qualquer membro do plantel sabia que dependeria só de si fazer futuras oportunidades valerem a pena. Uma equipa onde imprescindíveis eram aqueles que rendiam. Outros tempos.

Neste contexto de convocatórias considero que o mais criticável em Rui Vitória é quando notamos que as suas indecisões de escolha variam com os resultados e não com as características dos jogadores. A escolha do 11 não é muitas vezes desconexa daquilo que pede aos jogadores. Que estilo de avançado é mais favorável ao treinador? E de médios? E de guarda-redes? Com Rui Vitória a resposta parece sempre depender dos nomes presentes em momentos de vitória. 

E nada muda quando abordamos o seu papel no momento das substituições. Mais uma vez roçamos o termo "banalidade".

O que esperamos de um técnico no decorrer de uma partida? Alguém que leia o jogo e que mexa neste consoante aquilo que deseja a cada momento da sua progressão.
O treinador Rui Vitória parece abdicar do rasgo técnico-táctico, da iluminação, da abordagem e reacção a um momento especifico do jogo. Não o vemos agarrar o jogo e modificá-lo à sua vontade, contrariando ou reforçando a sua tendência.

O que vemos? Um conjunto de soluções previamente concebidas nos minutos previamente definidos.
Se a equipa tem de marcar faz substituições linearmente ofensivas. Se a equipa tem de defender então faz substituições linearmente defensivas. Se for para manter a toada então faz a chamada troca "jogador por jogador".
Com resultados negativos é aberrante a forma como perde o controlo do jogo por decidir encher o relvado de avançados.

Esta é a minha análise geral ao trabalho do Rui Vitória. E é nela que entendo o que constantemente vemos em campo. Muito além da escolha do 11 titular e da entrega e determinação dos jogadores.

É a vertente técnica do técnico Rui Vitória que me faz tremer sempre que marcamos um golo. Ao longo de 3 anos e meio já é habitual vermos um Benfica a entrar em força nos jogos, para cima do adversário, a tentar cheio de moral chegar ao golo. Mas isto aparenta surgir sempre da superior qualidade dos jogadores e da força da camisola que envergam.

Um "Vamos para cima deles" que se vai esvaziando com os minutos. E logo vemos os adversários assentar o seu jogo colocando em cheque todas as nossas fragilidades.
É recorrente vermos esse esforço inicial esvaziar-se assim que conseguimos um golo. O alivio da vantagem expõe-nos ao adversário como um reflexo de um modelo de jogo muito pautado pela emoção.

Rui Vitória é um treinador que não evolui e não faz evoluir. É um treinador que não acrescenta à voz do benfiquismo. É um treinador de fracas ideias e metodologias.

Para os voos que o clube ambiciona, para a exigência de um futebol dominador, elegante e criativo que tem de existir neste nosso Benfica, é claramente um treinador insuficiente.

Um treinador Insuficiente. 


domingo, 29 de abril de 2018

Luisão


O jogo de ontem foi o epílogo da carreira de Luisão ao serviço do Benfica. O capitulo final de um livro bonito, com alguns episódios tristes pelo meio e que na verdade já estava acabado há pelo menos dois anos.

Em Novembro de 2015, com 34 anos, na sequência da fractura de um antebraço após empurrão de João Pereira num jogo para a Taça de Portugal em Alvalade, Luisão perdeu a titularidade e dessa forma o Benfica pôs fim a um ciclo de resultados negativos e de golos sofridos nos quais o zagueiro não tinha estado em bom plano. Daí para a frente, na época 2015/2016, a história é a que se conhece: o Benfica estabilizou com Jardel coadjuvado por Lisandro primeiro e Lindelof depois e conquistaria o tricampeonato. Luisão ainda voltaria para uma tosca aparição a final da Taça da Liga frente ao Marítimo (2-6).

Na temporada seguinte, a sua reinclusão num quarteto defensivo onde encontrou jogadores com qualidade inquestionável como Nelson Semedo, Lindelof ou Grimaldo, protegidos por Ederson, permitiu colmatar as fragilidades do capitão encarnado, nomeadamente no que à velocidade e mobilidade diz respeito e assim passar incólume por entre os pingos da chuva.

Ontem, quatro meses e meio depois da última aparição com a camisola encarnada, Luisão, aos 37 anos, apresentou-se ao nível que os ex-jogadores costumam exibir nos encontros das velhas glórias encarnadas, estando em plano de destaque nos três golos sofridos: falta de velocidade no primeiro, perda de bola aérea com um adversário 10 cm mais baixo no segundo e dureza extrema de rins no terceiro.

O percurso de Luisão enquanto jogador do Benfica deveria ter terminado no final da época 2015/2016. A sua perpetuação foi um acto de caridade no qual o aspecto desportivo foi esquecido. E prolongar o contrato a Luisão após a presente temporada, como se equaciona actualmente para os lados da Luz, deveria fazer repensar o nome do clube para Sport Lisboa e Amigos.