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domingo, 24 de novembro de 2013

Vítor Martins, Artur e Vítor Baptista

Moinhos comove-se a falar em Vítor Martins, Artur e Vítor Baptista - 3 excelentes jogadores que foram forçados a acabar a carreira mais cedo, cada um com o seu azarado motivo.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Abençoado 4º Anel

A Sala de Convívio do 4º Anel é um lugar bonito. Não tem fronteiras porque não há paredes nem portas; é uma sala muito grande que vai daqui até ao infinito, de sedas nas janelas que não existem e nuvens nas mesas. Vemos os seus passeantes chegar de mansinho, parece que voam ou planam. Se houvesse fotografias e o mar dos céus não as tivesse inundado, veríamos o golo do Torres em voo rasante, o toque delicado e submerso do Julinho, o imperial cabeceamento do Águas, a fórmula mágica do Espírito Santo, a fuga desconcertante do Vítor Baptista. 

Todos agora aqui nesta mesa feita de cogumelos e almofadas. Sentamo-nos os seis. O meu Pai chegou e somos sete. Veio agora o Miklós e ficámos 8. Pomos as cartas na mesa, alguém as baralha - o Águas adora ser o croupier, acha que nós não sabemos os seus truques de bicampeão europeu. Cosme Damião traz-nos as bebidas, diz que não bebe, está cheio de sono e só apareceu para ser escrito nesta crónica. Todos nos levantamos, brindamos à sua memória, as cartas à espera no verde-nuvem da mesa-nuvem da sala-nuvem. Carregamo-lo às costas até à cama-nuvem e abandonamo-lo num sonho de moscatel.

De regresso à mesa, todos já olhando as cartas e o fumo dos cigarros escorrendo pelos átomos, um deles, o Torres, pergunta-me:

- E o Benfica, Ricardo? E o Benfica?

- Está muito calor aqui. Liguem a ventoinha. Julinho, avança.

O Julinho avança sobre a ventoinha, deixa um vento agradável na mesa e começamos a jogar. O Miklós dá demasiados sinais de não ter um bom jogo e antes que alguém o perceba decide mudar de foco, perguntando-me:

- Somos campeões, não somos?

Peço à menina que nos traga mais uns uísques. Alguém há-de pagar. A sala sem música, só o ruído bom das vozes e dos risos irónicos dos jogadores. Alguns fumam charutos, outros esperam pelas bebidas. Há ali qualquer coisa muito para além, muito indecifrável, pode ser que sejam as nuvens. O Vítor Baptista tem uma cabeleira loira na cabeça, dois olhos de estrondosos acidentes, as mãos aos desatinos, chupando-lhes as unhas. Diz:

- Agora, enquanto jogamos, o Benfica está a dar 5 ao Sporting. Não é, Ricardo?

- Falta a esta mesa amendoins, tremoços e um chouriço assado. Espírito Santo, faz qualquer coisa, pá. Vai buscar a assadeira.

O jogo decorre sem problemas de maior. O Julinho continua a ganhar e a deixar adversários pelo relvado. Neste momento só eu, o Julinho e o meu Pai ainda jogamos nesta varanda milenar e astronómica de estarmos todos sobre o universo, esplanada em cima da existência, barraca-foguete pelo caos das estrelas. O meu Pai:

- O Benfica anda a ser bem cuidado?

Perdi o jogo. Falhei na sequência das cartas. Despedi-me deles e voltei ao mundo dos abaixo do 4º anel. Eles lá não sabem. Eles lá são felizes. 


sábado, 13 de abril de 2013

Os rapazes do brinco

Houve duas tragédias naquele ano de 1988: a morte da nossa cadela 

o meu Pai agarrado ao focinho dela, em frente à lareira, o Eric Clapton cantava e chorava o filho num choro impossível de descrever. As chamas iluminavam as lágrimas do meu Pai e as orelhas peludas da minha Cocker já de olhos fechados para o mundo (a ver por dentro  a morte).

e o meu Pai a chegar a casa, com o galhardete de um PSV-Benfica, agarrado ao cansaço de horas de autocarro e tristeza. A cadela ainda era viva, esperou para morrer depois para não o deixar sozinho a ver o lume. 

Das duas vezes, o fogo foi a forma de não olharmos uns nos outros a pequena morte. Aquela que mata mais do que a grande morte, porque é feita de espinhos que se vão colando, sem aviso, à pele e só magoam no fim, quando já desistimos e choramos juntos. 

Foram mortes que, agora à distancia cerebral, percebo como fundamentais na minha vida. Antecipavam a tragédia, como um livro que começa a ensanguentar-se na narrativa até ao esguicho vermelho e final. Ainda não tínhamos morrido e no entanto todos mortos: uma vez pelo Benfica, outra pela cadela. Ainda pensávamos que éramos eternos.

Três anos, dois meses e cinco dias depois (já Verão de 91, portanto), acordei uma vez aos solavancos pela cama, suado, em gritos de desespero. Era a morte do meu Pai e a minha e a do Benfica e a da cadela, todos juntos e mortos num final apoteótico no qual o que restava era uma sombra que pairava por cima das casas. Uma onda escura que levava os telhados de um lado para o outro e os consumia por dentro, as nuvens fechando-se numa concha de frio e chuva e os sorrisos das pessoas debaixo de toldos, sombrinhas, agasalhos, escuras evocações ao divino. 

De todas as vezes em que quis aniquilar a tristeza atirei-me à contemplação do fogo. Quantas vidas viveram dentro de uns toros húmidos, de pinhas, de acendalhas? O meu Pai ainda hoje está sentado no banquinho a remexer a arquitectura que levanta fumo pela chaminé, há-de dizer - se o fumo entrar para dentro - que a lareira está a fumar mal, e nós, também sentados em bancos pequenos, a sentir o calor do fogo e as notas de uma música que não acaba, talvez de vez em quando nos lembremos daquela cadela com as orelhas peludas e olhos fechados, do quente que era estarmos todos juntos, do galhardete que ficava orgulhoso no meu quarto a dizer PSV-Benfica, da tragédia do Veloso, dos ensinamentos do Silvino, daquele equipamento todo vermelho, do quase-Diamantino e daquela memória que ficou da felicidade de ter sido lançado no espaço nos dois golos do Rui Águas no Estádio da Luz.

Ontem, Pai, vi-te no Estádio da Luz. Hoje só quero ir vingar as duas mágoas tão tristes com que chegaste a casa. Hei-de ver o Benfica ganhar uma final europeia por ti. E depois posso morrer e ficar para sempre, num limbo de vitórias do Benfica, no quarto anel onde tu circulas a beber copos com o Vítor Baptista.



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Vítor Baptista e... o outro.

 
Na sequência do post sobre Vítor Baptista, o leitor Conde do Vimioso enviou-nos uma história pessoal sobre o Maradona de Setúbal e outro jogador do Benfica, Barros. Aí está ela:


«O VÍTOR BAPTISTA E... O OUTRO

O outro é o Barros, também jogador do Benfica na altura embora tenha chegado ao Benfica um ano antes do Victor.

Conheci-os aos dois no ano de 1971 na Policia Militar em Lisboa onde eram geralmente colocados os jogadores dos dois grandes clubes de Lisboa por aqui havia mais facilidades de serem dispensados mas também aí se continuava a sentir a rivalidade.

Quando o oficial de dia era do Sporting ia a procuras dos desenfiados do Benfica e o contrário também acontecia embora menos enfâse já que na verdade andava lá um oficial que era um lagartoide fanático e os jogadores do Benfica era avisados para que no dia em que aquele indigente estava de serviço deveriam aparecer pelo menos à formatura da manhã.

Castigados entre os jogadores também havia e foi de castigo que eu conheci em um fim de semana, na piscina do quartel aquele que viria a ser (((embora já fosse, mas menos conhecido))) um jogador fora de série e um ser humano que só fazia o que lhe apetecia, sendo que nada planeava.

Estivemos nesse dia, Maio ou Junho, ainda ele era jogador do Vitória de Setúbal mas já contratado pelo Benfica. Acresce como facto curioso que nesse dia o Benfica jogava em Setúbal para o campeonato e ganhou como era normal nessa época.

Para o Victor era a normalidade absoluta, nada o perturbava, nem demonstrava o sentimento para o qual pendia o seu coração.

Como acima referi o Barros até fazia parte do meu pelotão e dormia (((nunca o ouvi ressonar porque devia dormir mas nunca dormiu))) na cama por cima da minha e então quando o dito oficial lagartoide estava de serviço era certinho o Barros aparecer pela manhãzinha e dizer-me:

Mano empresta aí a gillete (((não se sabia ainda dessa doença terrível))) que tenho que me ir apresentar ao lagarto e assim por muitas vezes.

Entretanto fui mobilsado para o Ultramar e o Barros também mas ele não foi pois pagou 25 contos a um veterano PM já com dois anos de serviço em Lisboa.

Este homem do mundo e dele desprotegido levava o serviço de PM ao extremo do rigor e muitas vezes criava embaraços mesmo a nós graduados.

Entretanto chega a S.Tomé uma revista editada em Angola que relatava as peripécias do barros na noite. Lá se dizia que ele tinha queimado com a ponta do cigarro uma corista dos Parque Mayer com quem andaria de amores.

Claro que a minha aproximação com o barros foi maior do que com o próprio Victor mas, alguns anos mais tarde foram os dois contratados pelo Boavista onde o Victor seria figura de proa como foi sempre toda a vida e aí surgiu nova aproximação.

Pensem o que quiserem mais o Victor tinha a coragem dos inteligentes (((possivelmente demais))) e era genuíno tanto dentro como fora do campo, andando sempre a frente no tempo.

Ele já usava brinco, calças de ganga rotas, barba de oito dias ou de meses, cabelo enorme e desalinhado e por isso o Victor não era indiferente para ninguém.

Uma noite apareceram-me no café onde para. O Victor com o aspecto de sempre mas de socos o que me deixou meio embasbacado perante os amigos, o barros que ao contrário do Victor era oriundo da classe média usava também o cabelo e barba grandes mas vertia com distinção.

A pergunta que fiz ao Victor tinha vindo publicada  em um jornal algum tempo antes: 

OH Victor, então agora vais a cavalo para os treinos??? 

Com a sua habitual descontracção respondeu-me:

Uns vão a pé, outros de carro e eu vou de cavalo, qual o problema e depois até tem vantagens pois não preciso de andar à procura de estacionamento.

A árvore está lá sempre e o cavalo enquanto espera preso por mim ainda se vai alimentado.

Fiquei desarmado.

Aquele era o Victor.

Claro que soube de outras peripécias dele que muita gente também saberá, como aquela de um jogo que o Benfica ia fazer à Rússia para as competições europeias, era Mortimore o treinador que deu ordens para que tudo aparecesse no aeroporto de fato e gravata, mas:

O Victor apareceu com a suas jeans rotas e aí o Mortimore deixou-o em terra.

Como já referi o Victor teve o condão de viver sempre como quis, fazer o que quis e isso não é para qualquer um mas para mim era demasiado inteligente , um génio que viveu uma vida de génio e morreu como os génios.

Em tempos de Eusébio apreguou aos quatro ventos:

"EU SOU O MAIOR"»

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Vítor Baptista

Hoje é ele o nosso homenageado no Facebook. Conta-nos o que sabes sobre o Maradona de Setúbal.



Fica a música do Vitorino dedicada ao "rapaz do brinco":