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domingo, 29 de abril de 2018

Luisão


O jogo de ontem foi o epílogo da carreira de Luisão ao serviço do Benfica. O capitulo final de um livro bonito, com alguns episódios tristes pelo meio e que na verdade já estava acabado há pelo menos dois anos.

Em Novembro de 2015, com 34 anos, na sequência da fractura de um antebraço após empurrão de João Pereira num jogo para a Taça de Portugal em Alvalade, Luisão perdeu a titularidade e dessa forma o Benfica pôs fim a um ciclo de resultados negativos e de golos sofridos nos quais o zagueiro não tinha estado em bom plano. Daí para a frente, na época 2015/2016, a história é a que se conhece: o Benfica estabilizou com Jardel coadjuvado por Lisandro primeiro e Lindelof depois e conquistaria o tricampeonato. Luisão ainda voltaria para uma tosca aparição a final da Taça da Liga frente ao Marítimo (2-6).

Na temporada seguinte, a sua reinclusão num quarteto defensivo onde encontrou jogadores com qualidade inquestionável como Nelson Semedo, Lindelof ou Grimaldo, protegidos por Ederson, permitiu colmatar as fragilidades do capitão encarnado, nomeadamente no que à velocidade e mobilidade diz respeito e assim passar incólume por entre os pingos da chuva.

Ontem, quatro meses e meio depois da última aparição com a camisola encarnada, Luisão, aos 37 anos, apresentou-se ao nível que os ex-jogadores costumam exibir nos encontros das velhas glórias encarnadas, estando em plano de destaque nos três golos sofridos: falta de velocidade no primeiro, perda de bola aérea com um adversário 10 cm mais baixo no segundo e dureza extrema de rins no terceiro.

O percurso de Luisão enquanto jogador do Benfica deveria ter terminado no final da época 2015/2016. A sua perpetuação foi um acto de caridade no qual o aspecto desportivo foi esquecido. E prolongar o contrato a Luisão após a presente temporada, como se equaciona actualmente para os lados da Luz, deveria fazer repensar o nome do clube para Sport Lisboa e Amigos.

sábado, 28 de abril de 2018

Parabéns, FC Porto


O FC Porto prepara-se para quebrar um jejum de quatro temporadas sem conquistar o campeonato nacional, período nunca antes visto sob liderança de Pinto da Costa, pondo também fim a um ciclo (e não hegemonia) de triunfos do Benfica. Vencerá o campeonato e com toda a justiça.

Não que a época dos azuis-e-brancos tenha sido exemplarmente preparada, pelo contrário. O treinador foi escolhido e contratado de forma pouco ortodoxa e o plantel apresenta lacunas importantes inclusivamente em posições para as quais os titulares são jogadores cuja qualidade fica a desejar para quem quer ser campeão. Mas tal como a nossa própria experiência recente nos mostrou, não é só de qualidade em bruto que se fazem os campeões. E este Porto foi bem trabalhado. Prova disso são as retumbantes vitórias europeias no Mónaco ou com o Leipzig, a exibição em Alvalade para o campeonato, o jogo que fez (e que merecia ganhar, com erro grosseiro da arbitragem) frente ao Benfica no Dragão e a vitória decisiva que alcançou na Luz.

Resumindo, o Porto venceu porque foi melhor dentro de campo. Nas quatro linhas. Não foi por Francisco J. Marques, por Pedro Bragança, pela arbitragem, pela imprensa, pela sorte, o azar, as estrelas, as constelações, os astros. Há demérito do Benfica, naturalmente, pela forma absolutamente amadora como preparou a época e pela incapacidade crónica do seu treinador em extrair o melhor dos jogadores que tinha (algo que Sérgio Conceição fez com mestria exímia). Mas há sobretudo mérito do FC Porto. E enquanto andarmos preocupados com fait divers em vez de arrumarmos em definitivo a nossa casa e de reconhecer o mérito de quem ganhou com justiça, mais longe andaremos de voltar a ganhar.

terça-feira, 6 de março de 2018

Seriedade

Desde há muitos anos a esta parte, com maior ou menor disponibilidade laboral e pessoal para expressar as minhas ideias, que uma das batalhas que venho travando é a luta pela existência de um conjunto de figuras idóneas, sérias e honestas a dirigir os destinos do Sport Lisboa e Benfica. E se em várias ocasiões não me coibi de apontar o dedo a Luís Filipe Vieira e à trupe da qual se rodeou, foi precisamente por não confundir quem está a servir (ou a servir-se) (d)o Benfica daquilo que é a matriz e os valores do maior clube português.

E se a presunção de inocência é um direito importante que assiste a todos os indivíduos, não é por existir que nos devemos esconder atrás dela para não analisar criticamente os indícios preocupantes de actividades ilícitas praticadas por este conjunto de pessoas pouco recomendáveis que dirigem o Sport Lisboa e Benfica. Infelizmente, é mesmo assim: o Benfica é dirigido por um grupo de pessoas pouco recomendáveis, em nada melhores ou moralmente superiores aos dirigentes de Sporting ou FC Porto.

O Benfica, o meu Benfica, não é e não pode ser o refúgio ou protecção para a prática de actos ilegais. Que sejam investigados até ao tutano. E que se forem culpados, que seja a Justiça a fazer aquilo que os adeptos do Benfica já deviam ter feito há muito tempo: correr com esta gente que arrasta o nome do Benfica para a lama.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

20 anos de idas ao Estádio da Luz


7 de Dezembro de 1997. O Benfica recebia o saudoso Salgueiros em jogo a contar para a 12ª jornada do campeonato nacional. Um jogo como tantos outros. O meu primeiro jogo. Pela mão do meu pai, adepto moderadamente fervoroso, encorajado pelo meu tio João, residente na freguesia salgueirista de Paranhos, cidade do Porto, mas benfiquista desde sempre e sócio com quotas em dia mesmo vivendo na Invicta e com a companhia da minha prima Ana Rita, assim foi, naquela noite fria de 1997, que me estreei presencialmente no velhinho gigante de betão.

O jogo foi como tantos outros da década de 90. Partindo em 4º lugar, atrás de Rio Ave e Vitória de Guimarães e já a 8 pontos do líder FC Porto, aquele Benfica onde coabitavam génios como João Vieira Pinto e Michael Preud'homme com jogadores de qualidade sofrível (chamemo-los assim, para sermos simpáticos) como Tahar, El-Hadrioui, Panduru ou Taument, empatou a duas bolas com Salgueiros.

As memórias sobre esse dia e desse jogo, pese embora os 20 anos que me separam da data e o facto de ter apenas 7 anos de idade à altura, são mais que muitas. Desde a meia volta que tive de dar ao recinto para conseguir entrar na porta certa, para me sentar no topo norte (cadeira ou cimento?) até ao assoberbamento pela dimensão do Estádio e pelo ambiente. Sentia-me em casa. Tantas vezes tinha pedido para ir ao Estádio da Luz e finalmente, com sete anos e meio, o sonho tornava-se realidade. Havia uma felicidade em estar ali que ainda hoje sinto.

Dali para a frente, mais duas idas à Luz nessa temporada. Para assistir a um empate com o Estrela da Amadora numa tarde chuvosa (bis de... Martin Pringle!) e a primeira vitória, numa tarde solarenga de primavera, por 3-1 contra o Desportivo de Chaves. Historias de jogos a que fui e de jogos aos quais não marquei presença. Uma noite de chuva torrencial na qual, semi-abrigado no túnel de acesso à bancada, vi o Benfica, após estar a perder 0-2 ao intervalo com o Varzim, virar para 3-2. Aquela tarde em que recebemos a Fiorentina de Nuno Gomes para jogo de apresentação com o Estádio à pinha. E o que chorei por não ter ido ao derradeiro jogo da Catedral contra o Santa Clara.

Não são muitas as recordações da antiga Luz. Nem o tempo em que as vivi corresponde a um período perto de ser positivo na História do Benfica. Ainda assim, é com muita saudade que recordo o tempo em que a inocência de uma criança permitia acreditar que uma equipa composta maioritariamente por marretas seria capaz de ganhar jogo após jogo até à conquista de um campeonato que escapava há demasiado tempo.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Obrigado, Júlio César


Nunca fui um fã incondicional de Júlio César. Mesmo nos melhores anos da sua carreira, ao serviço do Inter de Mancini e de Mourinho, nunca o coloquei num patamar de qualidade onde se encontravam outros grandes nomes das balizas do futebol internacional. Ainda assim, e sobretudo após esta passagem de três temporadas pelo Sport Lisboa e Benfica, ganhei por Júlio César uma admiração e um carinho muito especiais. 

A carreia de Júlio César foi sempre marcada pela palavra "superação". E foi precisamente à medida que fui conhecendo a sua carreia que a minha admiração pelo goleiro brasileiro foi crescendo. Depois do início da carreira no futebol brasileiro, como tantos outros, no clube do coração, o Flamengo, no qual experienciou a titularidade aos 17 anos, alguns títulos e a luta para evitar a despromoção do Brasileirão, chegou à Europa em 2004 pela mão de Roberto Mancini. No entanto, mal chegou, foi emprestado ao Chievo Verona, clube no qual, durante os seis meses de empréstimo, não teve sequer a hipótese de se estrear. Regressaria ao Inter de Milão no início da época 2005/2006 para ser o quarto guarda-redes da turma interista. Até 7 de Julho de 2005, o dia que mudou a carreira de Júlio César.

Londres, 7 de Julho de 2005. Um atentado terrorista em 3 pontos da rede de Metro e um autocarro provoca 56 mortos e mais de 700 feridos. O Inter de Milão faria parte da pré-temporada em Londres e  perante as recusas de Francesco Toldo, Fabián Carini e Paolo Orlandoni em viajar, Júlio César aceita e conquista a titularidade da baliza dos nerazzurri para a temporada 2005/2006. Nas sete temporadas ao serviço do Inter conquista 14 títulos com destaque natural para a vitória na Liga dos Campeões em 2010 (com Mourinho ao leme), ano em que é eleito melhor guarda-redes a actuar no velho continente. E é no topo da carreira que surge o abismo.

Quartos-de-final do Campeonato do Mundo, África do Sul 2010. O Brasil adianta-se no marcador e está a 45 minutos de alcançar as meias-finais. Na segunda parte, após cruzamento da direita, uma saída em falso potenciada por falha de comunicação com Felipe Melo permite o empate dos holandeses, que minutos mais tarde fariam a reviravolta no marcador e deitavam por terra as esperanças dos canarinhos. Júlio César não se esconde. Dá a cara e assume responsabilidades na flash interview perante 200 milhões de brasileiros. Mas vai-se abaixo. Desanima. Desmotiva. Afrouxa. E o rendimento desportivo cai a pique no Inter de Milão. Dois anos depois da conquista da Liga dos Campeões, sai de Itália e procura novo rumo na carreira com os olhos postos no regresso à selecção brasileira, indo para o pequeno Queens Park Rangers, da Premier League.

Apesar de boas exibições individuais, que lhe valeram o regresso à selecção brasileira, o QPR acabou relegado ao Championship. E nem tudo foi um mar de rosas neste ínterim. Em três anos passou de melhor guarda-redes do mundo a desempregado. Teve de comprar o próprio equipamento e foi treinar sozinho para parques com o filho. Mas superou as adversidades e regressou pela porta grande ao escrete, defendendo um penalty de Diego Forlan nas meias-finais da Taça das Confederações 2013, conduzindo o Brasil à conquista do troféu e levando para casa o prémio de melhor guarda-redes da competição.

E é no ocaso de uma carreira brilhante que o destino atraiçoa Júlio César. O Brasil, por muitos designado como um dos principais favoritos à conquista do Mundial 2014, após ultrapassar o Chile  no desempate por grandes penalidades, no qual Júlio César defende três cobranças dos chilenos, é cilindrado pela Alemanha (7-1). No final dessa competição, Júlio César pondera anunciar o adeus aos relvados. Mas contrariado pela família, mantém as luvas calçadas e viaja para Lisboa para encontrar uma nova família futebolística.

Três épocas completas de Benfica. Outros tantos campeonatos, uma Taça de Portugal, duas Taças da Liga e duas Supertaças. No Benfica encontrou, além dos títulos, um clube que o acarinhou de forma muito particular e igualmente merecida. Deu estabilidade à baliza encarnada, que se encontrava órfã depois da saída de Oblak. E as suas defesas valeram títulos. Foi absolutamente decisivo com enormes intervenções na época do bicampeonato e igualmente muito importante, apesar de ver o seu papel subvalorizado, na época do tricampeonato, na qual defendeu a baliza encarnada durante mais de 2/3 da temporada.

De Júlio César fica além da qualidade, da simpatia e do carisma, a personalidade e o exemplo de liderança. Mesmo nos piores momentos pessoais ou colectivos, nomeadamente ao serviço da selecção brasileira, Júlio César não se escondeu e deu sempre a cara nas entrevistas após os jogos, assumindo responsabilidades. Não me esqueço também das várias vezes em que na rodinha de jogadores que se forma imediatamente antes dos jogos começarem, Júlio César usou da palavra para incentivar os colegas. Recordarei a forma correcta e cordata como aceitou a passagem de testemunho, de titular para suplente, sem levantar ondas e mantendo o profissionalismo. E a forma honesta como preferiu, como grande Homem que seguramente é, sair do Benfica pela porta da frente, pela porta grande. Obrigado por tudo, Júlio César.

sábado, 30 de setembro de 2017

Dez ideias sobre a Assembleia Geral de 29 de Setembro de 2017

Assembleia Geral do Benfica no final dos anos 90

1. Cerca de 2000 adeptos disseram "presente" naquela foi a mais concorrida Assembleia Geral (AG) do clube nos últimos largos anos. Ainda que parte da "movida" se deva aos recentes maus resultados da equipa de futebol, não deixa de ser um sinal de importante vitalidade de um clube que é tetracampeão  e no qual os adeptos não parecem acomodados. Surpreendente sinal de militância.

2. Sobre o Relatório e Contas em si não serei seguramente o mais indicado para o apreciar. São páginas e páginas de números, siglas e gráficos que não domino e cujo entendimento penso só estar ao alcance de quem estuda ou estudou nas áreas de Economia, Gestão ou Finanças. Ainda assim, partilho da preocupação de um consócio que sublinhou o facto de o passivo ter descida apenas 11 milhões de euros em 4 anos, precisamente os anos de maior sucesso desportivo e de maiores vendas. Quando o sucesso desportivo terminar e as vendas escassearem, que rumo tomaremos?

3. O voto electrónico acelera significativamente um processo que já estava para lá de obsoleto com os velhinhos membros da Mesa da Assembleia Geral a contarem os votos por papelinhos no ar a 50 metros de distância. Porém, numa AG onde o som e o sentimento de descontentamento eram tão grandes, ficou no ar a sensação de que o Relatório e Contas foi aprovado com estranha facilidade. Mais: foram publicamente divulgadas as percentagens de voto (Sim - 61.38%, Não - 29,25%, abstenção - 9,37%) e na própria AG o número de votos em cada uma das opções, mas não foi divulgado o número de sócios que votaram em cada uma delas. Talvez houvesse aqui uma surpresa desagradável e que deveria fazer repensar o sistema que chega a atribuir 50 votos a um sócio.

4. Luís Nazaré e Virgílio Duque Vieira, respectivamente presidente e vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral (MAG) do Sport Lisboa e Benfica, têm de se demitir. O primeiro por, em exercício de funções, faltar à Assembleia Geral do clube para estar no jantar de encerramento da campanha autárquica do Partido Socialista em Lisboa, onde acumula o cargo de presidente da MAG da Junta de Freguesia de Alvalade. Se estar no jantar de campanha é mais importante que estar no exercício das funções para as quais foi eleito, não deve continuar a acumular um cargo que não está disposto a desempenhar. O segundo por, numa altura em que o ambiente já se encontrava mais "quente" fruto de intervenções críticas mas construtivas para com a Direcção, ter a brilhante ideia de ter acendido o rastilho de pólvora numa atitude de prepotência que em nada dignifica os valores do Sport Lisboa e Benfica.

5. A qualidade das intervenções. Surpreendeu-me. Muitos e bons sócios intervieram com discursos críticos mas estruturados e construtivos sobre o momento desportivo em campo, sobre a estratégia comunicacional do Benfica e sobre o reconhecimento que tanto jogadores como Direcção têm para com os adeptos, sobretudo os que percorrem quilómetros atrás de quilómetros para ver a equipa seja no Bessa ou em Basileia.

6. As presenças, mas também as ausências, são sempre notadas. De realçar que depois de todo o alarido gerado, Rui Gomes da Silva faltou a um momento importante da vida do clube. Também Rui Rangel, antigo candidato a presidente do Benfica. Gostava de ter visto Gaspar Ramos. E Nuno Gomes. E que Rui Costa saísse da zona de conforto que é a sombra da parede do pavilhão. Mas também gostava de ter visto outras caras. Como Pedro Guerra, que preferiu esconder-se em vez de ser submetido ao escrutínio dos sócios. Ou Manuel Damásio, que anda de braço dado com o actual presidente. Há companhias com as quais nos damos mas que por vezes é melhor nem apresentar à família, não é?

7. A postura de Luís Filipe Vieira numa AG não é condigna com a de um presidente do Benfica. Não pode estar sistematicamente agarrado ao telemóvel a enviar mensagens nem pode estar reclinado na cadeira numa pose digna de um aluno desafiante numa sala de aula ou de um indivíduo num jantar com amigos num tasco. Mais ainda, a conversa do "pé descalço" e do "sacrifício pessoal e familiar" é para inglês ver. Quem era Vieira antes de chegar ao Benfica? Algum dia atingiria a projecção mediática e o estatuto social e financeiro sem ser através do cargo que ocupa no Benfica? Algum dia, sem ser através do Benfica, conseguiria chegar à lista dos 100 portugueses mais ricos? Não admito esta estratégia de vitimização pessoal da parte de alguém que já retirou, para a sua vida pessoal, muitos e bons dividendos à custa do cargo que ocupa.

8. As respostas dadas pelo presidente surpreenderam-me em parte. Não esperava tamanha abertura e sinceridade, dentro daquilo que consegue, na abordagem a alguns dos temas (que foram leakados para a comunicação social e que são agora do domínio público). No entanto, continuam a faltar respostas a muitas questões pertinentemente levantadas nesta e noutras AGs: que trapalhada é esta na história dos emails, existem ou não, constituem forma de coacção e são enviados por iniciativa ou a mando de quem; a que propósito o novo director da comunicação do clube, Luís Bernardo, foi contratado, tendo sido ele responsável pela sabuja campanha de perseguição a Renato Sanches quando liderava a comunicação do Sporting; como é possível Domingos Soares Oliveira ter direito a 50 votos, correspondentes a mais de 25 anos de filiação, sendo sportinguista assumido e estar há pouco mais de 10 anos no clube; Pedro Guerra continua ou não director de conteúdos da BTV; que sociedades são a Identiperímetro e a Red Up Sports.

9. "Deixem-me dizer uma coisa para um sócio que disse para eu pedir a demissão. Eu vou estar cá muitos e muitos anos.". E este é outro problema. Luís Filipe Vieira não "é" presidente do Benfica. Luís Filipe Vieira "está" presidente do Benfica. E a menos que promova um golpe estatutário no qual inviabilize a realização de eleições, terá de se submeter sempre ao escrutínio dos sócios para continuar a "estar" presidente do Benfica. Mas o actual presidente não deve nada à matreirice e como sabemos já se blindou com novos estatutos que inviabilizam muitos putativos candidatos. Este é só mais um dos motivos essenciais a uma revisão estatutária que, mais que partir da vontade e iniciativa dos sócios, deveria partir da Direcção a bem da transparência e da democracia participada no Benfica.

10. As Assembleias Gerais são para os sócios e o conteúdo das mesmas, não devendo ser alvo de secretismo, qual reunião maçónica, deve dentro de certos limites permanecer dentro daquelas quatro paredes onde foi discutido. Por outro lado, espero que, nos próximos dias, aquilo que virem escrito ou as imagens capturadas sirvam de estímulo para continuarem ou iniciarem as vossas participações vida activa do clube. Haja mais Assembleias Gerais assim. Devem continuar a ser vividas, como a de ontem, com adesão em massa.

domingo, 24 de setembro de 2017

No meio dos bons tornamo-nos melhores


Um colectivo é mais que a soma de todas as partes. Se assim não fosse, quem apresentasse os melhores valores individuais ganharia sempre. E mais que o talento, o engenho ou a capacidade dos atletas, há uma virtude muitas vezes esquecida no futebol (e na vida): melhor que ser bom jogador ou jogar bem, é conseguir tornar os que estão à nossa volta melhores. Assim se explica que jogadores como Cervi tenham um rendimento consistentemente superior quando têm a sua lado intérpretes como Grimaldo e não outro qualquer. Ou que a equipa esteja sempre um patamar acima quando tem Fejsa em campo. Mais que números e esquemas tácticos, jogadores como Grimaldo e Fejsa permitem dinâmicas. E a sua maior virtude, nomeadamente do sérvio, é permitir que todos à sua volta parecem e sejam melhores quando têm o papa-títulos dos balcãs em campo.

domingo, 17 de setembro de 2017

Ciclos

Todos os ciclos têm um fim. Não quero ser porta-voz das notícias de fim de ciclo do Benfica, que podem ser manifestamente exageradas e que, há precisamente dois anos, revelaram-se surpreendentemente falsas, mas há uma evidência que me parece dificilmente negável: a de que a temporada de ataque ao pentacampeonato não foi devidamente preparada.

Os erros acontecem no futebol. Tanto de quem chuta à baliza como de quem dirige o clube. É, no entanto, parte da função dos segundos, fornecer as condições necessárias ao sucesso dos primeiros. E os erros cometidos nesta pré-temporada pelos altos quadros do Sport Lisboa e Benfica no que toca à política de transferências são tão gritantes que se tornam incompreensíveis face a uma estrutura tão experiente e que se gaba de estar dez anos à frente da concorrência.

Ganhar quatro campeonatos consecutivos não é garante nenhum de continuidade no sucesso desportivo. E os adeptos, especialmente os de um clube como o Benfica, com o seu historial de troféus e títulos, deveriam manter os níveis de exigência no topo. Foi precisamente depois de um ciclo de 7 campeonatos em 8 possíveis ganhos pelo FC Porto (2006-2013) que os azuis-e-brancos embarcaram no maior jejum de troféus na Era Pinto da Costa. Não queremos que nos aconteça o mesmo.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Auto-reflexão

Antes de se sentarem confortavelmente a ler o próximo comunicado ou notícia encomendada pelo hábil departamento de comunicação gerido e pensado por homens como Luís Bernardo e com a colaboração de José Marinho, antes mesmo de se submeterem a essa tentativa de lavagem cerebral, gostaria de propor a seguinte reflexão.

Nenhuma equipa ganha sempre. Nem que faça tudo sistematicamente bem, com o maior rigor, seriedade e profissionalismo possível. Não é o caso do Benfica. Naquilo que parece ser o epílogo do tetracampeonato, o Benfica não parece ter sido, nas várias esferas do clube, suficientemente competente a preparar a época de ataque ao penta.

As saídas de Ederson, Semedo e Lindelof não parecem ter sido devidamente colmatadas. A direcção não acautelou devidamente as saídas que já se adivinhavam desde Janeiro e acumulou um sem-número de erros na gestão dos reforços para essas posições. Se compararmos individualmente os jogadores que compõem a linha mais recuada dos três grandes, fica a clara sensação de que o Benfica está uns bons furos abaixo de FC Porto e Sporting. Cento e vinte milhões de euros feitos na pré-época e apresentar jogadores como Varela, Almeida, Luisão (a caminho dos 37 anos) e Lisandro na defesa é um insulto à inteligência dos adeptos. Parece que a estrutura que proclama estar dez anos à frente das restantes não percebeu que no futebol, além de meio-campo e ataque, também são precisos defesas.

E quando há uma clara diminuição da qualidade individual, a qualidade colectiva ressente-se. O Benfica é hoje, enquanto colectivo, muito menos equipa que o que era há cinco meses. Se perante a inépcia do treinador as individualidades ainda resolviam, quando se diminui o número de individualidades capazes de desequilibrar não se pode esperar muito. Mais: os poucos jogadores de qualidade acima da média que têm representado o Benfica nesta temporada precisam de colegas à sua altura. No meio de um colectivo recheado de estrelas, todos brilham. No meio de um colectivo onde há demasiados jogadores banais, até os melhores passam por medíocres. 

Ma não podemos atirar as culpas exclusivamente para as individualidades que a estrutura nos deixou. Os processos e a ideia de jogo do Benfica de Rui Vitória são confragedores. Paupérrimos. Acredito que não se pode exigir mundos e fundos a um plantel desta qualidade, mas também não podemos apresentar um futebol tão desprovido de rasgo, tão estático, tão desligado entre sectores. A condição física não ajuda, é um facto. E não falo só da preparação física dos jogadores lesionados (14 desde o início da temporada). Já se perguntaram por que é que Pizzi e Jonas, ontem, pareciam esgotados como se estivessem no final de uma época com 60 jogos nas pernas?

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Obrigado, Mitroglou


Duas épocas, 88 jogos oficiais, 52 golos. Mais que os números e os títulos que ficam na História, permanecerá na memória encarnada como um jogador importantíssimo na conquista do tri e do tetracampeonato. Um jogador simples, profissional exemplar dentro e fora do campo, um goleador discreto e com um carisma muito especial sem nunca procurar protagonismo ou exigir atenções ou tratamento especial. Deixará saudade pelo golo, por aquele "because I like it" após a conquista da Taça da Liga e pela mantinha nos festejos de São Petersburgo. E sai com muita classe apesar de deixar antever nas declarações que haveria mais vontade por parte de outrem em vê-lo fora da Luz que vontade do próprio em sair.

Por tudo isto e pelo golo mais importante da História do tetracampeonato, Mitroglou será sempre recordado na Luz. 

domingo, 27 de agosto de 2017

No mundo dos neandertais

Calculo que estejam preocupados quanto baste com o plano desportivo do Benfica. Ou talvez sejam dos mais indulgentes e nada do que se está a passar mereça alarido. A mim, moderadamente pessimista, as minhas preocupações transportam-me ao que se passou este fim-de-semana em Paços de Ferreira.

Durante o intervalo do jogo que opôs Paços de Ferreira e Vitória de Guimarães, dois adeptos do Benfica, avô e neto, que se deslocaram com as cores e símbolos do seu clube à Mata Real para ver o jogo na bancada central, foram publicamente denunciados pelos adeptos vitorianos pelo "delito clubístico" e subsequentemente expulsos sob coacção verbal e física por parte dos adeptos pacences.

Pergunto-me se é este o futebol que queremos. Se queremos um futebol onde grunhos expulsam famílias. Onde a intimidação vence a ordem pública. Onde as forças de autoridade não actuam e as entidades responsáveis pela organização das provas não castigam. Onde a comunicação social não denuncia este tipo de atitudes (numa pesquisa rápida, apenas o MaisFutebol deu destaque a este triste episódio).

Se já é suficientemente selvático o que se verifica quando um adepto do Sporting ou Porto leva camisola ou cachecol do seu clube para a Luz (e o mesmo se aplica quando um adepto do Benfica leva símbolos do seu clube a Alvalade ou Dragão), é ainda mais incompreensível o que se passou ontem na Mata Real, com dois clubes com os quais o Benfica não tem qualquer rivalidade. Que as autoridades sejam céleres a multar e punir os infractores. Sob pena que os neandertais tomem conta das bancadas.

domingo, 20 de agosto de 2017

JVP, Aimar, Jonas

O futebol, enquanto desporto colectivo, é composto por jogadores com características muito diferentes. Há craques, matadores, caceteiros, jogadores de equipa, úteis polivalentes, vertiginosos, aceleras, patrões, enfim um sem-número de adjectivos. Pese embora a qualidade de jogadores como Simão, Di Maria, Gaitán e tantos outros cujos nomes ocupariam quase uma página inteira, ao longo dos últimos 25 anos lembro-me de ver apenas três jogadores que aliavam a toda a sua qualidade um toque de futebol refinado e de classe que os tornaram diferentes e especiais. Não se trata dos que mais deram o Benfica, dos que mais conquistaram, dos melhores nem sequer dos que mais gostei de ver jogar. São apenas os três que me lembro de ver que tinham um toque de bola, uma leitura de jogo e um brilho, enfim, uma classe que os colocou noutro patamar. João Pinto, Pablo Aimar e Jonas foram os três semi-deuses que envergaram a camisola do Benfica nos últimos 25 anos.

João Pinto chegou menino e viveu os melhores anos da sua carreira no período mais negro da História do Benfica. No pós-94, viu-se ano após ano rodeado por um elenco que não lhe permitiu brilhar em todo o seu esplendor de águia ao peito. Ainda assim, pelo repentismo, pelos argumentos técnicos que não se limitavam ao toque de bola e aos slaloms geniais (foi dele o melhor golo que não chegou a ser, contra a Alemanha), pelos voos de cabeça imortais, marcou uma geração de benfiquistas e fez com que muitos dos nascidos no final da década de 80 e início da década de 90 se tornassem benfiquistas por sua culpa, apesar da escassez de títulos. João Vieira Pinto, um imortal da História do Benfica.

Pablo Aimar chegou já um jogador feito. Envolto num clima de desconfiança pelo fraco rendimento desportivo nos anos que antecederam a sua chegada, além das lesões e tempos de paragem prolongados, após a libertação do futebol enfadonho de Quique Flores foi com Jorge Jesus que mais brilhou ao longo de três das épocas que passou na Luz. O que mais impressionava em Aimar, além da visão e da facilidade e simplicidade com que encarava o jogo, era a forma como orquestrava e dirigia uma equipa recheada de estrelas. Entre Di Maria, Ramires, Saviola, Cardozo, Witsel, Javi, Gaitán e Salvio, era ele que coordenava e corria o espectáculo. Provavelmente a melhor definição de classe que passou pela Luz nestes 25 anos.

Jonas. Custa crer que um dia venceu o prémio de pior avançado do mundo. Custa acreditar que foi dispensado pelo Valencia com apenas 30 anos depois de 48 golos em três temporadas em Espanha. Jonas foi absolutamente decisivo na História recente do Benfica ao ser o grande responsável pela conquista de dois campeonatos que, sem ele, muito provavelmente teriam ido para outras paragens. Técnica de remate muito acima do normal, descongestiona jogo com passes longos de primeira ao alcance de poucos e tem ainda uma qualidade que muito aprecio: tem uma vontade de ganhar muito superior à da maioria dos colegas de profissão.

domingo, 6 de agosto de 2017

Posfácio e prefácio


A época 2016/2017 ficou escrita a letras douradas na História do Sport Lisboa e Benfica. O tetracampeonato, tantas vezes tentado e outras tantas falhado pela geração de ouro do nosso clube, chegou finalmente, num percurso que se iniciou com contornos de tragédia na bota de Kelvin e que terminou em festa com uma goleada memorável frente a Vitória de Guimarães.

Neste caminho percorrido rumo ao tetra, importa recordar a forma como terminámos por ser um excelente tónico para o ataque ao penta: o Benfica ganhou porque foi melhor. Para além de todas as mudanças que se verificaram nos últimos dez anos no futebol português e das mudanças igualmente verificadas na chamada "estrutura" do Benfica, o plantel à disposição de Rui Vitória em 2016/2017 era de uma qualidade inequivocamente superior à dos rivais. Passámos de uma era na qual ser melhor não bastava. Era mandatário ser muito melhor para conseguir ganhar. Hoje, factores externos eliminados, basta ser melhor. E foi isso que o Benfica conseguiu ser no quarto ano do tetra. Melhor. Mérito aos jogadores pela sua qualidade, ao treinador e restante equipa técnica pela forma como conduziu o grupo, e à "estrutura" por ter possibilitado a matéria-prima, a estabilidade no seio do clube e o controlo dos factores externos.

Importa por isso, criada esta dinâmica de vitória, não perdê-la. Se a "estrutura" e o corpo técnico pouco ou nada mudaram, o plantel tem sido alvo de uma revolução natural face à posição que o Benfica ocupa no mercado e às necessidades financeiras que enfrenta. A reposição dos activos perdidos, neste momento, preocupa-me. As saídas de Ederson, Nelson Semedo e Lindelof não parecem devidamente colmatadas. Júlio César não parece ter a condição física para aguentar uma época inteira sem lesões e Varela oferece muitas dúvidas quanto à capacidade para assegurar a baliza de um grande. A saída de Lindelof, a meu ver a mais fácil de suprir, também não parece devidamente corrigida, pois Luisão vai evidenciando dificuldades cada vez mais óbvias no acompanhamento de adversários rápidos especialmente quando o bloco defensivo encarnado sobe no terreno, Jardel esteve praticamente um ano parado sendo que nos intervalos das lesões apresentou-se sempre a um nível que deixou a desejar e Lisandro, à beira dos 28 anos e após 4 temporadas na Europa, continua sem mostrar o posicionamento defensivo, a compostura e a regularidade necessárias para uma equipa com os objectivos do Benfica. Na direita, já se sabe há largos anos que André Almeida pode ser um jogador regular para tapar buracos mas sem a qualidade necessária para ser titular. E se Pedro Pereira era a primeira opção para o posto, a aposta saiu completamente furada pelo menos no curto-prazo, ficando igualmente por explicar como é que em oito meses de Benfica não foi chamado à equipa B para jogar e competir regularmente, em particular na segunda metade da temporada passada.

Que as sucessivas vitórias conseguidas nos últimos anos não sirvam de pretexto para o afrouxamento na qualidade do plantel e para o laxismo na construção do mesmo. Da mesma forma que nem tudo está errado quando se perde, nem tudo está certo quando se ganha. E foi também por desinvestir após um ciclo de vitórias sucessivas e domínio quase absoluto que um dos nossos maiores rivais vive, ainda hoje, a maior seca de títulos dos últimos 35 anos.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Em@il

Cerca de duas semanas depois de o caso dos emails ter vindo a público pela mão do director de comunicação do FC Porto, Francisco J. Marques, após a pálida reacção do Benfica e depois de lidas e discutidas diversas opiniões, a minha própria ideia encontra-se formada e até ver é tão desinteressante e sensaborona como este caso dos emails.

Em toda a história, parece-me da mais elementar importância saber se aquilo com que somos confrontados é, em primeiro lugar, real e não uma "inventona". Dada a ausência categórica de resposta em contrário por parte do Benfica, nomeadamente sob a forma de comunicado ou pela voz do seu incompetentíssimo e inábil director de comunicação, Luís Bernardo, parece-me seguro afirmar que a troca de correspondência electrónica efectivamente existiu. Se foi adulterada ou não, parcial ou totalmente, parece-me mais questionável. E vindo de quem vem, é uma suspeita a ter sempre em conta. Não acreditem em tudo o que vêem na televisão ou lêem na internet.

Igualmente interessante parece-me ser o conteúdo dos emails. Especialmente porque aquilo que nos tem sido vendido por parte da comunicação do FC Porto como uma grande teia de corrupção desportiva (olhem quem) não parece ser, nem de perto nem de longe, aquilo que os azuis-e-brancos queriam e gostavam que fosse. A linguagem utilizada e as frases tornadas públicas parecem apenas demonstrar que o esquema que dominou o futebol luso durante as últimas três décadas terminou em definitivo graças à acção de Luís Filipe Vieira (o "primeiro-ministro"). Não há evidência segura de corrupção activa, de ofertas de prostitutas a árbitros, de depósitos em contas de fiscais de linha (ou mesmo o afastamento de Vítor Pereira da UEFA). Há isso sim, uma queixa de uma nota atribuída a um árbitro cujo processo pelo qual foi conduzida a queixa deixa antever que as coisas podem efectivamente não ter sido efectuadas pelas vias legais ou, mesmo sendo, de forma pouco ética. Coacção? Sim, talvez. Da mesma forma que a coacção continua a ser exercida pelos outros grandes do futebol português, bastando ver as ameaças dirigidas pelo director desportivo do FC Porto, Luís Gonçalves, ao árbitro do último SC Braga x FC Porto ("a tua carreira vai ser curta") e que por acaso culminou com a descida do dito juiz à segunda categoria, ou as ameaças diárias oriundas do reino da oligofrenia verde-e-branca, onde presidente, director para o futebol, treinador, director de comunicação e comentadores do canal de televisão do clube perseguem e incitam persistente e diariamente ao ódio contra árbitros, rivais e dirigentes do futebol português.

Será, necessariamente, do interesse público e igualmente dos benfiquistas com escrúpulos que este caso seja investigado. Com celeridade e honestidade. Para já, as "provas" apresentadas parecem ser pólvora seca disparada no contexto do desespero pelos resultados desportivos e financeiros apresentados bem como uma tentativa de condicionar decisões futuras dos árbitros nos jogos do Benfica. E precisamente numa altura de enorme ruído e de estratégia de intoxicação da opinião pública, apareceu o Sporting com aquele que, em tempo de suspeita, pode ser um aliado do Benfica no caso de ser prejudicado em face deste clima: o vídeo-árbitro. Seria de uma sublime ironia.


sábado, 13 de maio de 2017

Dia de entrar na História


O centenário Benfica, clube mais laureado no futebol nacional, prepara-se para um feito histórico. Ao longo dos seus mais de cem anos de vida e dos trinta e cinco títulos de campeão nacional conquistados, de campanhas nacionais históricas, de noites europeias mágicas com duas taças dos campeões europeus conquistadas e oito finais perdidas, de homens como Eusébio, Coluna, José Augusto, Toni, Humberto, Chalana e tantos outros, faltava a conquista de um quarto campeonato nacional consecutivo. Essa espera, meus amigos, está prestes a acabar.

Por cinco ocasiões na sua história, todas elas no tempo em que as vitórias valiam apenas dois pontos, o Benfica estava à beira de conquistar esse feito. Em 1938/39, num plantel onde já se encontravam os históricos Francisco Ferreira e Espírito Santo, orientados pelo magiar Lippo Hertzka, o campeonato foi perdido por apenas dois pontos para o FC Porto, com um empate na deslocação ao campo dos azuis-e-brancos na última jornada; em 1965/66, sob a batuta do regressado Bela Guttmann, Eusébio, Coluna e companhia baquearam na recta final do campeonato, quando seguiam na liderança, terminando a prova um ponto atrás do Sporting; em 1969/70, novo ciclo de três campeonatos interrompido por vitória leonina, num Benfica onde pontificavam Eusébio, José Torres e Jaime Graça; em 1973/74, no fim de ciclo de Jimmy Hagan, com jogadores como António Simões, Toni ou Humberto, foi novamente o Sporting a superiorizar-se e a impossibilitar a conquista do tetra; por fim, em 1977/78, na segunda época de John Mortimore ao leme, o Benfica termina o campeonato invicto, em igualdade pontual com o Porto, com vantagem no confronto directo, mas perde o campeonato para os dragões na diferença de golos, critério utilizado à altura para definir quem ficava melhor classificado nas situações de igualdade pontual.

E mesmo a forma como aqui chegámos, sobretudo o modo de como esta aventura começou, dá contornos de epopeia a esta história. O tetra que a esta hora poderia ser penta começou na bota de Kelvin, com um golo que fez a nação benfiquista ir do céu à depressão num ápice. Teve compensação numa final europeia perdida no último minuto e prolongamento numa final da Taça de Portugal na qual o treinador foi publicamente arrasado por um jogador. Ainda assim, com o mesmo núcleo duro que tudo havia perdido nessa temporada, o Benfica conquistou o primeiro campeonato. Revalidou-o numa luta ombro-a-ombro com o Porto de Lopetegui até à última jornada. E conquistou, passados quase 40 anos, o tricampeonato contra o treinador que ajudou a conquistar os dois primeiros e que lançou, em conjunto com o seu presidente e com o apoio do outro rival, uma campanha vil, recheada de insinuações torpes e sem fundamento, cujo objectivo era impedir, a todo o custo, a conquista de um feito histórico.

E aqui chegamos. 13 de Maio de 2017. Um dia que pode e tem de ficar na História. Façam História. Inscrevam os vossos nomes no panteão onde figuram, por direito próprio, Francisco Ferreira, Espírito Santo, Rogério Pipi, José Águas, Costa Pereira, Cavém, Mário Coluna, José Torres, Germano, Cruz, José Augusto, Eusébio, António Simões, Toni, Jaime Graça, Nené, Toni, Vítor Baptista, João Alves, José Henrique, Shéu, Bento, Pietra, Carlos Manuel, Humberto, Chalana, Diamantino, Veloso, Otto Glória, Bela Guttmann, Mário Wilson, Jimmy Hagan, John Mortimore, Sven-Goran Eriksson, Ferreira Bogalho, Fezas Vital, Maurício Vieira de Brito, Adolfo Vieira de Brito, Ferreira Queimado, Borges Coutinho, Fernando Martins, João Santos e Jorge de Brito. Leiam estes nomes e sintam o peso da História. Façam o que ainda não foi feito. E o vosso nome juntar-se-á a estes na galeria dos imortais do Sport Lisboa e Benfica.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Doentio

Na antecâmara do derby, fora das quatro-linhas, faleceu uma pessoa vítima de atropelamento na sequência de uma rixa entre adeptos de Benfica e Sporting supostamente afectos a claques dos respectivos clubes. Penso que importa analisar este caso não só pelo facto de ter ocorrido um homicídio mas também pelo aproveitamento do mesmo que adeptos e dirigentes têm tentado tirar para branquear épocas de insucesso, desculpabilizar culpados e para demonstrar o que não são.

O falecido, que me custa catalogar como sendo adepto de futebol, era afecto à Fiorentina e com ligações às claques do Sporting. Ter-se-á deslocado a Portugal para "viver" o clássico juntamente com um grupo de adeptos organizados do Sporting (alguém sabe se iria sequer ao jogo?) à sua maneira. E é nesta estranha forma de vida que gostaria de reflectir um pouco: o que estariam os adeptos do Sporting a fazer naquele local, àquelas horas, na véspera de um derby? Não foram seguramente ver as vistas, passear com as famílias nem terminar faixas, coreografias ou estandartes. Estavam ali com um de dois propósitos: vandalizar murais e infraestruturas fora ou mesmo pertencentes ao complexo da Luz ou para uma rixa previamente combinada com adeptos afectados a claques do Benfica. Se foi a primeira, a inexorável precipitação de eventos é de lamentar mas não pode nem deve surpreender ninguém, pois este é o modus operandi de uma escumalha sem ocupação independentemente se serem vermelhos, verdes ou azuis; se foi a segunda, a lamentar só mesmo não ter havido mais estropiados, uma vez que estes indivíduos que se dizem adeptos de um clube não são mais do que adeptos de uma organização que, legal ou não, serve para encapotar um conjunto de práticas que não são, de todo, legais.

E é precisamente sobre a legalização das claques que me debruço. Pese embora não ter doutoramento na matéria, gostava que claqueiros, dirigentes desportivos e governantes me explicassem quais os benefícios práticos da legalização das claques. O futebol ficou pacificado? Diminuíram os crimes de elementos dessas mesmas associações? Que se saiba, não. Uma medida sem tradução prática e que na prática não serve para mais a não ser para os "ilegais" continuarem a cometer as suas ilegalidades e os "legais" perpetrarem as mesma práticas com a suprema lata de acusarem os "ilegais" de não estarem legalizados.

E quando estas acusações se estendem aos presidentes, pior o caso fica. De Bruno de Carvalho já não se espera nada de construtivo, positivo ou digno para o futebol português. As mais recentes declarações onde, de forma abjecta, tenta tirar proveito do falecimento de alguém para atacar uma instituição como o Benfica são a prova disso mesmo. Com a agravante do triste espectáculo da entrega da coroa de flores aos membros de uma claque organizada como forma de mostrar solidariedade para com a morte do italiano, para inglês (e câmara de televisão) ver, uma vez que a mesma coroa de flores seria depositada no lixo comum no dia seguinte. Por outro lado, a postura de Luís Filipe Vieira, por aí tão elogiada, merece vários reparos, a começar pelo proteccionismo que a direcção do Benfica continua a dar aos adeptos das claques no que à aquisição de bilhetes diz respeito, como se viu aliás para o jogo de Alvalade.

Já se sabe que a justiça, no futebol português, é um conceito muito arbitrário e que reflecte essencialmente o benefício do clube de cada adepto. A pacificação do futebol nacional é um mito e uma ilusão que se encontram muito longe de ser cumpridos. Com adeptos, dirigentes clubísticos e dos organismos reguladores do futebol nacional e com governantes como estes, diria mesmo que tal será impossível. São estes os responsáveis pelo estado doentio que se vive no futebol português.

domingo, 12 de março de 2017

Celebremos o futebol


Televisão, livros, carrinhos, legos e cassettes fizeram parte da infância de quase todos os miúdos nos anos 90. Não fui excepção. Com a diferença de que sempre privilegiei o futebol. Mesmo na televisão, no tempo dos quatro canais, mais que os desenhos animados era o futebol que me captava a atenção. Os jogos do campeonato nacional, o saudoso Domingo Desportivo ou o Remate na RTP com a Cecília Carmo, os Donos da Bola na SIC com Nuno Santos ou Jorge Gabriel, os jogos da Liga Espanhola e da Liga Italiana ou o Contra-Ataque com o Sousa Martins na TVI fizeram parte minha infância. Eram os meus desenhos animados. Era o que me prendia à televisão. Também vi cassettes. Tenho dezenas delas. Rei Leão, Pinóquio, Toy Story, Aladdin, Pocahontas, enfim, até as organizava por ordem alfabética, por ordem de duração. E qual foi a cassette que vi, que rebobinei para rever vezes sem conta até à náusea? A daquele Barcelona x Atlético de Madrid para os quartos-de-final da Taça do Rei de 1997.

Faz hoje vinte anos sobre esse jogo. Por feliz coincidência, o Zé Luís, meu primo, sabendo que não iria poder ver o jogo, deixou uma cassette a gravar. E graças a isso, vezes sem conta, vi e revi os frangos de Vítor Baía, os contra-ataques dos colchoneros, a classe e os golos de Ronaldo (o verdadeiro, o melhor futebolista que vi jogar e a primeira camisola que tive), aquele remate do Figo à entrada da área e a festa blaugrana após o golo decisivo de Juan Antonio Pizzi, que seria promessa eleitoral de Luís Tadeu nas malfadadas eleições de 1997 em que se elegeu Vale e Azevedo em detrimento do professor do Instituto Superior Técnico.

Não sendo a minha primeira memória sobre futebol, é talvez a primeira memória marcante que tenho. Celebremos o futebol.


quarta-feira, 8 de março de 2017

Não havia necessidade


Sinto-me um Diácono Remédios. Bem sei que a minha intervenção não será profiláctica, até porque o mal está feito, mas o futebol praticado pelo Benfica assim me obriga. Não havia necessidade de assistir ao que se passou hoje em Dortmund.

Sou um resultadista. Não sou um romântico à espera de um futebol cativante para me deixar com água na boca enquanto vejo o Benfica jogar. Quero resultados. Quero vitórias. E não me choca absolutamente nada que o Benfica seja eliminado por uma equipa como o Borussia Dortmund. Mas acreditem que mesmo para um resultadista tem de haver um conjunto de princípios de jogo, defensivos e ofensivos, que devem estar bem delineados e que devem ser cumpridos. Acreditar que os resultados podem surgir sem esses princípios não é resultadismo mas sim depositar a fé, a crença ou o que lhe quiserem chamar em algo de tão arbitrário e fortuito que dá pelo simples nome de... sorte. Há uma diferença enorme entre resultadismo e sorte. E os adeptos que acham que o Benfica esteve bem nesta eliminatória com o Dortmund porque pareceu em condições de discuti-la durante os primeiros 135 minutos da mesma, desenganem-se, porque não esteve. Este Benfica, personificado por Rui Vitória, não é resultadista. É um Benfica que se apoia e que aposta tudo na sorte. E isso é um péssimo princípio para quem quer ganhar no futebol, ainda para mais quando dispõe de um conjunto de individualidades muito acima da média, como é o caso do actual plantel do Benfica. A sorte não dura sempre.

Não peço para o Benfica jogar aberto nem para subir as linhas. Pensar que poderíamos jogar assim com o Dortmund seria de um romantismo que não se coaduna com a minha forma moderadamente cautelosa de ver o jogo. Mas precisamente por ser cautelosa e não ser medrosa faz com que não abdique de certos princípios de jogo. Falo de princípios de jogo e não de escolhas individuais de jogadores porque apesar de Vitória ter optado por Samaris, Almeida e Pizzi para o corredor central isso não faz do onze do Benfica obrigatoriamente mais defensivo da mesma forma que as escolhas de Mourinho para a final da Liga dos Campeões de 2010 (Pandev, Milito e Eto'o) não fazem do Inter uma equipa mais ofensiva. Está tudo relacionado com as ideias e com os princípios de jogo uma vez que as escolhas dos jogadores não reflectem obrigatoriamente uma ideia de jogo. E se o Benfica tem uma organização defensiva que é francamente boa para a realidade do plantel que apresenta (e aí o mérito deve ser dado ao seu treinador), ofensivamente, com tanto talento individual, torna-se incompreensível a ausência de um plano de jogo, o medo de ter posse de bola e a incapacidade de olhar o adversários nos olhos. É um reflexo de ausência de processos, de pouco treino e espelha o medo que Rui Vitória tem de jogar contra equipas de valia mais ou menos semelhante à do Benfica. Foi isto que se passou este ano com Besiktas, Napoli, Dortmund, Porto e Sporting. Com a certeza de que algumas vezes se perde, algumas se empata e outras tantas se ganha. Mas apostar o destino na sorte parece-me ser extremamente redutor para a qualidade individual que o plantel do Benfica tem.

domingo, 5 de março de 2017

Presimentes

Enquanto fenómeno social, o futebol move paixões que são por vezes difíceis de entender. Existe um certo grau de irracionalidade no jogo que faz com que os adeptos não se consigam distanciar o suficiente para conseguir analisar algumas decisões do próprio futebol, como não acontece em mais nenhuma circunstância da vida. Talvez por isso o patrão do adepto seja um déspota, a mulher seja uma controladora, o dono do café onde vê a bola seja um avarento, o primeiro-ministro seja um aldrabão, os políticos sejam todos corruptos mas o presidente do clube de futebol, ai o presidente do clube de futebol, seja um herói sacrificado, um exemplo de liderança e uma figura de culto.

Algo está errado. Especialmente quando os três grandes se vêem representados por estas figuras. E aqui estou completamente à vontade para falar porque a única vez que votei em Vieira foi há oito anos e o arrependimento chegou menos de um ano depois, não pelo título de campeão nacional conquistado mas pelos negócios pouco claros que começaram a surgir com o Atlético de Madrid. A confiança perdeu-se. Porque um clube é muito mais que os títulos que conquista e o seu presidente deve ser alguém minimamente digno e que represente os valores do clube. Por isso mesmo, apesar de reconhecer o excelente trabalho que Vieira tem feito em áreas como a construção de infraestruturas, a criação de condições para os escalões de formação singrarem, a modernização e profissionalização da estrutura e finalmente o sucesso desportivo, não posso nem irei esquecer as mentiras sucessivas, os negócios pouco claros e a ausência de um debate plural e democrático promovido por constantes fugas aos debates com a oposição, com alteração de estatutos e de datas de eleições para evitar candidatos incómodos.

Este défice democrático criado pelo populismo dirigido às massas por presidentes-ditadores é aliás um fenómeno que não é de hoje e não é exclusivo ao Benfica (nem a Vieira, porque mesmo Vale e Azevedo chegou a ter quase 40% dos votos depois de um dos mandatos mais nefastos de um presidente na História do Benfica). Também o FC Porto, cujo presidente tem mais anos de poder que eu de vida e no qual não me lembro de existir um candidato a desafiar Pinto da Costa, vive este problema de ausência de debate democrático. E o Sporting, claro, depois de ultrapassada a oligocracia do croquete que dirigiu o clube anos e anos a fio, vê-se agora a braços com um demagogo radicalista com um discurso que cativa a maralha e que coloca em xeque qualquer pessoa com ideias e que se oponha ao seu reinado através de comunicados, insultos e perseguições.

Não me identifico com esta gente. E tenho alguma dificuldade em compreender gente inteligente que utiliza justificações como "pelo menos fez obra", "deu-nos títulos" ou "devolveu o orgulho de ser benfiquista/sportinguista/portista aos adeptos". Nem tudo tem de ter um preço, especialmente quando ultrapassa a nossa dignidade ou a dignidade que os clubes devem ter.

P.S. Peço desculpa a todos os que ao longo dos anos foram comentando aqui ou no Eterno os meus posts, mas a partir de hoje só o poderão fazer através do Facebook na página do Ontem Vi-te no Estádio da Luz.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Um castigo inenarrável


Rui Vitória foi punido com um castigo de 15 dias e multa de 3825 euros na sequência de palavras dirigidas ao árbitro do encontro de ontem, Tiago Martins, estando assim impossibilitado de se sentar no banco de suplentes do Benfica nos próximos três (!) jogos do campeonato.

Pelas imagens, daquilo que é público, vê-se Rui Vitória a falar com o juiz do encontro e respectivos árbitros assistentes no final da partida, em tom assertivo e pouco exaltado, nada demais para o que se conhece e vê habitualmente no futebol português.

Recorde-se que Jorge Jesus, na sequência de gritos, perseguição e empurrão ao árbitro do encontro entre Vitória Futebol Clube e Sporting, para a Taça da Liga, teve a mesma suspensão de 15 dias mas falhou apenas um jogo para o campeonato e um para a Taça de Portugal, ambos em Chaves.

Fica registado. Revejam as atitudes de ambos os treinadores no final dos respectivos encontros e retirem as vossas conclusões.