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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Seferojonas



Quando, há uma semana e tal, falei na qualidade de Seferovic, fui naturalmente questionado pelos adeptos das estatísticas - que são tão legítimos adeptos como quem, como eu, não quer saber das estatísticas para nada - sobre o passado não muito goleador do avançado suíço. Que "tem números ridículos", que "como é possível comprar um avançado que marca tão poucos golos?", que "o avançado serve para marcar golos".

Bem, comecemos por aí: um avançado não serve para marcar golos. É esse o principal engano de quem analisa um avançado pelos golos que marca. Um avançado, como um defesa, um médio e um guarda-redes, deve ser analisado pela qualidade que tem, independentemente dos golos que marcam, das assistências que fazem, dos desarmes, das segundas bolas, dos cabeceamentos, dos remates, das defesas, dos quilómetros percorridos.

Ou seja, se quiserem falar de bola, então vão à GoalPoint e deixem o cérebro em casa - bastar-vos-á dizer que um avançado com 6.2 é melhor do que outro com 5.4., embora isso signifique zero em termos do que fez em campo. Se quiserem falar de futebol, então vieram ao lugar certo. Discordando ou concordando, aqui a análise é às características dos jogadores, aquilo que eles dão à equipa. Por exemplo, um avançado que marque 0 golos numa época pode ser substancialmente melhor do que outro que marque 20. Se largar o conceito GoalPoint ou outro qualquer site que faça do futebol a arte de um Técnico Oficial de Contas, não é difícil perceber porquê.

Seferovic pode não marcar golo nenhum num campeonato e marcar, como vai marcar este ano, mais de 25 golos numa época. Basta que o contexto mude para um espaço em que as suas melhores características sejam exploradas. Desde logo, que os jogadores ao seu lado tenham mais talento. Que o clube onde joga seja melhor e maior. Que a equipa na qual está inserido tinha ideias de jogo muito mais ofensivas. Que os seus colegas sejam talentos criativos como Zivkovic, Pizzi, Rafa ou Grimaldo. O QI futebolístico sobe, os desequilíbrios ocorrem, as oportunidades são em catadupa, os golos naturalmente aparecem.

Depois, há o elemento extra: Jonas. Seferovic vai jogar este ano ao lado de um génio, algo que nunca lhe tinha acontecido. E o suíço tem a qualidade suficiente para aproveitar o génio do brasileiro a seu favor. Juntos, criarão uma dupla letal que marcará mais de 50 golos na época. Mas poderiam os dois marcar zero golos que continuaram a ser óptimos jogadores de futebol.

O jogo, este jogo, como diria Vinicius sobre a vida, é a arte do encontro embora haja tanto desencontro nessa vida. O jogo, este jogo, depende de tantas variáveis que nunca pode ser encaixotado nuns quadros manhosos com contabilizações decimais sobre acções específicas. O jogo,  este jogo, depende sobretudo daquilo que a GoalPoint não pode nunca contabilizar: a movimentação dos jogadores. O bicho SeferoJonas mexe-se bem para caralho.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O Futebol não cabe no quadrado da Estatística



Actualmente há um fenómeno bizarro no futebol português chamado GoalPoint. É uma empresa que, entre outras coisas, descobre o melhor em campo através de um sistema que soma várias estatísticas: desarmes, antecipações, remates, etc., como se o futebol fosse boxe em que o jogador vai ganhando pontos ao longo do jogo consoante as coisas que faz. No fim, a GoalPoint faz as continhas e lá proclama que certo jogador foi o melhor porque teve 7.9 e o outro a seguir só teve 7.8.

Ora, além de os dados apresentados não nos dizerem nada sobre o jogo (quando me dizem que o Grimaldo rematou 3 vezes, 1 delas enquadrado, o que é que eu fico a saber do jogo com essa informação? Nada, a não ser que o Grimaldo fez 3 remates, 1 delas enquadrado; fez x desarmes ? Que bom, mas em que circunstâncias? Não teria sido melhor manter a posição e não arriscar o desarme? Antecipou-se y vezes? E não terá deixado a equipa desequilibrada? Não sabemos porque do jogo só temos números), este tipo de "ciência" é nefasta porque transmite a falsa ideia de que a estatística pode resumir um jogo de futebol.

Não pode, nunca pôde, não poderá. O jogo é demasiado complexo. A maior parte das coisas que um jogador faz em campo não é quantificável nem resumível num gráfico ou numa tabela.