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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Caso Cardozo - mais um acto de gestão incompetente

O ruído em torno deste caso é imenso, não facilitando a clara interpretação dos vários episódios nesta que já é uma novela para ser falada e discutida por largos anos. Comecemos por onde deve ser começada sempre qualquer ideia: pelo princípio. E o princípio é clarinho e inequívoco: Cardozo infringiu. Infringiu as leis sociais básicas de um relacionamento entre treinador e jogador, infringiu na relação com um colega de plantel, sobretudo infringiu na ligação que tinha (e ainda tem) ao Benfica e aos seus adeptos. Por mais razão que tivesse para empurrar Jorge Jesus - e não são raros os casos de jogadores e ex-jogadores em conflito com o actual treinador do clube -, a partir do momento em que optou pelo confronto directo - exposto aos olhares de milhões de pessoas -, Cardozo perdeu toda a legitimidade para se vitimizar; melhor: perdeu toda a legitimidade que tivesse, restando-lhe esperar pela resolução do caso por parte da equipa técnica e da Direcção.


E é aqui que chegamos ao ponto crucial de toda esta novela: a incompetência já mundialmente conhecida de Vieira e seus acólitos mais uma vez fez das suas. Primeiro ponto: houve hipóteses, colocou-se em equação, alguém pensou em poder resolver a bem com Cardozo e permitir que ele fizesse parte do plantel para a próxima época - sim ou não? 


Se sim, o processo foi mal gerido desde o início. Não se consegue uma aproximação do jogador aos adeptos e ao treinador sem uma tomada de posição pública e inequívoca. Se Cardozo teve alguma vez alguma possibilidade de ficar no Benfica, o caso ter-se-ia resolvido de forma simples: multa pesada, conferência de imprensa, junto ao técnico, a pedir desculpas a Jesus, aos restantes colegas e aos adeptos do clube. Feito isto, tratava-se de sarar feridas internamente, consoante a capacidade - que sabemos ser pouca - de encaixe do treinador do Benfica.

Se não, o processo foi mal gerido desde o início. Se a partir daquela tarde, o destino do Tacuara estava traçado, havia que resolver a quezília de forma a que o negócio fosse o mais rentável possível. Parece simples mas para esta gente não é: um possível interessado terá na mão armas de negociação bastante mais fortes se ele souber que o jogador que quer comprar está em litígio com o clube e com o técnico. Ter passado dois meses sem uma - UMA! - única intervenção por parte do Presidente, sem que o jogador tivesse aparecido a revelar alguma (mesmo que apenas fictícia) aproximação, ter impossibilitado o jogador de entrar no Estádio da Luz (das medidas mais ridículas da História; mais uma), desaguou em quê? Os clubes interessados têm a mão e sabem disso - como Vieira também o sabe. O que podia ter sido um bom e rápido negócio - evitando-se assim esta penosa novela com contornos surreais e vergonhosos - acabou por se arrastar para esta vergonhosa tragédia paraguaia em que temos um jogador - ser o melhor goleador estrangeiro da História é um pormenor; não devemos escolher jogadores pelos golos quando a discussão é moral - e um clube virados do avesso. Assim, Cardozo ou sairá por um preço substancialmente menor do que aquele que poderia ser pago se a Direcção tivesse sido competente no tratamento do caso ou ficará no Benfica encostado por um treinador que - por mais jogadores que já tenha empurrado no final dos jogos; por mais adjuntos que já tenha empurrado no final dos jogos; por mais risadas que tenha dado quando o seu capitão atirou com um árbitro para o chão - não lhe perdoará a afronta pública. 

Há uma terceira opção: mentir. Fingir que o vendemos por um preço, tendo vendido por outro. Quem mente descaradamente aos sócios, aos adeptos em geral - na televisão e por comunicados - e à CMVM, é capaz de ter muito mais para ser descoberto nos próximos tempos - uma auditoriazinha não era nada mal pensado, benfiquistas. Anuncia-se um excelente negócio para as Rússias - digamos: 20 milhões de euros -, o Presidente sai como grande negociador, a malta aplaude o excelente poder negocial do grande líder, o Cardozo sai, vão-se os golos, fica o plantel a precisar de um ponta-de-lança (a menos que queiram fazer a época toda com Lima e Rodrigo, o que seria mais uma tragédia daquelas) mas o Domingos Soares Oliveira a esfregar as mãos de contente - dinheiro fictício ou real tanto faz; importa é passar a imagem de que a estrutura está pujante e cheia de vitalidade financeira - e o Rui Gomes da Silva vai mentir e enganar os benfiquistas para o Dia Seguinte, tecendo eternas loas ao grande Presidente do Sport Lisboa e Benfica.

Foi tudo muito mau, para sermos sinceros. Tudo muito amador, muito pouco digno, bastante rasteiro, quase só indigno, totalmente rasteirinho. Um clube gerido por gente sem valores dá nisto: incoerência nas acções; incompetência; má-formação de quem decide. E de quem comenta. Dizer-se que o caso Cardozo nada tem de anormal, enunciando apenas o que fez de mal o paraguaio e não reflectindo sobre o que fez de mal a estrutura para minorar o caso é ser-se, mais do que submisso a uma liderança fraca, enviesado de pensamento e opinião. O Benfica merece melhores dirigentes, mas também merece melhores adeptos.