quinta-feira, 28 de maio de 2009

Quique, o mágico

Quique Flores. Mais um nome que fez manchetes, que encheu de esperança a nação benfiquista. Após uma época ridícula em que tivemos 2 treinadores e o Chalana, o cargo de treinador do Benfica tinha algo de bom, era difícil fazer pior, talvez por isso se explique o inacreditável apoio que o Quique teve quase até ao final da época. Treinador espanhol, jovem, não tinha grandes feitos no seu passado mas tinha conseguido resultados bastante razoáveis no Valência, o que a juntar à sua postura charmosa, ao seu bem falar, fizeram com que grande parte da nação benfiquista começasse ali a ver um potencial novo Mourinho. A mim confesso que desde o início a quantidade de vezes que ele repetiu a palavra “ilusión” me deixou na dúvida se teríamos o próximo Mourinho ou o próximo Luís de Matos, mas naturalmente que lá dei o benefício da dúvida como sempre.

Na pré-época houve coisas que me desagradaram logo. Todo o mundo teve oportunidade de treinar (até Edcarlos e Luís Filipe) mas houve pelo menos 3 que me pareceram um pouco postos de lado: Zoro, Petit e Adu. Se em relação ao primeiro nem me aqueceu nem arrefeceu, os outros 2 eram dos meus favoritos, e por isso a facilidade com que Petit saiu, e a vontade de despachar Adu não me agradaram nada. Claro que fica por saber se foi decisão sua ou superior, mas se um treinador aceita tudo sem se impor é um banana e não serve, se foi decisão sua ter que ver com os seus próprios olhos cepos como os que viu e nem sequer exigir uns treinos para o Adu, então é um nabo. Também decidiu não contar com Diamantino e Chalana. Decisão legítima, mas tem que abarcar com as consequências. Se eu for trabalhar para a China, se a empresa me colocar um tradutor à disposição e eu recusar, a partir daí não me posso desculpar por não perceber chinês. Infelizmente, por alguns banhos tácticos que Quique levou, deu para perceber que ele não fazia a mínima ideia de como o adversário jogava, ao contrário deles que conheciam o nosso futebol previsível de trás para a frente. Como se isto não fosse suficiente, veio a guerra com o Maradoninha, outro dos meus preferidos. Logo aí, se eu mandasse, entre Quique e Léo eu sei bem quem escolhia…

Passando ao futebol, apesar de alguns lampejos contra a lagartada e o Nápoles, o futebol apresentado não me entusiasmou. Começava-se a ver que seria um futebol razoavelmente eficaz contra equipas que assumissem o jogo, mas inconsequente contra quem não o fizesse, ou seja quase todas as equipas em Portugal. E mesmo algumas equipas que o assumiam conseguiam vulgarizar completamente a nossa equipa, como foram os casos do Gala e do Olympiakos. Entre os milhentos pecados que foi cometendo, vou tentar lembrar-me dos que lhe fui apontando, e resumi-los aqui:

- Filosofia de jogo muito à base da contenção e de transições rápidas, completamente contra-natura com o que o Benfica tem de ser;

- Total ineficácia na gestão da baliza, conseguiu passar a época sem dar confiança a nenhum dos GR;

- A dispensa de Leo conjugada com a titularidade primeiro do Jorge Ribeiro e depois do David Luíz fizeram com que passássemos grande parte da época debilitados no flanco esquerdo com a agravante de sacrificarmos o que podia (e pode) vir a ser um grande central;

- A aposta em Amorim na direita foi uma imbecilidade que nos custou o nosso melhor médio centro, e como se viu pelos jogos do Urreta tínhamos uma solução. Aliás, até teríamos outras, num Benfica mais atacante podiam jogar o Reyes ou o Di Maria no flanco direito. E goste-se ou não, houve um reforço escolhido por ele para esse lugar, se esse jogador falhou então ele será muito culpado;

- O duplo pivot para funcionar tem de ter 2 jogadores muito completos. Para mim só havia 2 no plantel (ou 3, no máximo) que podiam desempenhar bem o lugar: Amorim e Katsouranis. O 3º que me parece ter características para o lugar é o Felipe Bastos. Yebda é limitadíssimo no passe e no remate, Carlos Martins é fraquíssimo na ocupação de espaços, e Bynia está ao nível do Yebda. Perderam-se meses em que não se rotinou a melhor dupla, e isso podia-nos ter trazido mais pontos. E em certos jogos, certos momentos em que tínhamos de arriscar tudo por tudo, acredito que Aimar também podia ocupar uma das posições;

- As declarações sobre Reyes foram completamente inoportunas e a partir daí o rendimento do nosso jogador mais decisivo foi uma sombra do que vinha sendo. Reyes apesar de alguns alheamentos fez uma primeira metade da época em que se mostrou batalhador, motivado, o que conjugado ao seu incrível talento resolveu alguns jogos. Mas Quique é capaz de ter tido inveja de algum jogador aparecer mais nas capas do que ele, e com aquelas declarações parvas no Restelo perdeu um jogador, e que jogador;

- Aimar. Incrível como um ex-nº10 da Selecção Argentina pode ser um problema, mas Quique conseguiu. No seu esquema de 4-4-2 parece-me que Aimar só poderá funcionar num dos lugares do duplo pivot (perdendo-se alguma capacidade defensiva) ou numa das alas, desde que tenha alguma liberdade para flectir para o centro e exista um lateral com muita qualidade ofensiva. Mas Quique fiel ao seu esquema e à sua teimosia insistiu com Aimar a avançado. Foi triste ver o argentino no meio de jogadores corpulentos que o neutralizaram com alguma facilidade, vê-lo a finalizar mais (e mal) que a construir, conseguiu não tirar rendimento dele e queimar um lugar que tanto jeito teria dado a Cardozo;

- Suazo. O que disse a Aimar aplica-se a Suazo, se bem que por motivos diferentes. Este jogador podia ter feito uma dupla de sonho com Cardozo, mas Quique decidiu quase sempre jogar com ele e Aimar, fazendo com que Suazo tivesse que suportar quase todas as despesas de área. Quando nos víamos a ganhar era frequente ver Aimar recuar no terreno e a táctica era biqueiro para a frente para a corrida do Suazo, era deprimente ver o hondurenho completamente rebentado por andar o jogo todo a correr quase meio campo sozinho. E depois já se sabia, estivesse a 100% ou a 30%, ele era a primeira opção, Cardozo a segunda, o que tendo em conta que um é nosso o outro é do Inter, ainda se torna mais estúpido;

- Cardozo. Mesmo com todos os equívocos já referidos de Quique, uma coisa ficou provada neste final de época: com o Tacuara em campo as possibilidades de marcarmos golos e consequentemente ganharmos aumentam exponencialmente. Infelizmente Quique não descobriu isso, a lesão de Suazo é que o possibilitou. Nem quando foi assobiado por substituí-lo percebeu que era para ele;

- Mantorras. É coxo, não aguenta os 90 minutos, blá, blá, blá. Como o Trap percebeu mesmo com estas condicionantes todas Mantorras ainda pode valer ouro. Ou alguém duvida que em meia dúzia daqueles finais complicados de jogos com ele em campo havia sempre a hipótese de golo? Viu-se que Quique ficou surpreendido no último jogo da época, isso diz tudo.
Ainda podia falar do total desaproveitamento de Felipe Bastos e Urreta, mas o post já vai longo. E escusam de vir com a lenga-lenga de “no fim é fácil apontar os erros” porque quem me conhece e segue os meus comentários sabe que eu fazia estas críticas quando ainda liderávamos a Liga, não fui na “ilusión” tão publicitada.

Resumindo, quanto do descalabro foi culpa de Quique? Deve ele continuar?

Respondendo à primeira pergunta, muito. Apesar de reconhecer que hoje em dia no Benfica qualquer técnico se arrisca a ser queimado e não campeão, há uma série de erros de Quique que não têm nada a ver com as (in)competências de LFV e do Rui. Cometeu uma série de erros inadmissíveis, e mesmo num clube extremamente bem organizado corria o sério risco de fazer uma má época. E fez, aliás fez uma péssima época, a “sorte” dele foi como já referi entrar após uma época que roçou o ridículo, logo não era difícil melhorar um bocadinho, se bem que ele se esforçou. E não podemos esquecer que ele não sofreu com a saída de nenhum titular da época anterior, e ainda viu entrarem 10 jogadores que custaram mais de 2 dezenas de milhões de euros ao clube.

Quanto à segunda pergunta, defendo há muitos meses que as eleições deviam ser em Junho/Julho. Se fossem e tivéssemos um novo Presidente, defendi sempre que o Rui e o Quique deviam pôr o lugar à disposição, para que o novo Presidente pudesse escolher sem pressões financeiras. Caso fosse decidido dar um segundo ano a Quique por iniciativa do novo Presidente e o do Rui, tentando mostrar que os problemas do nosso futebol derivavam todos do LFV, eu iria aceitar respeitosamente a posição apesar de achar sinceramente que não ia funcionar. Acho Quique um fraco treinador, com graves problemas em termos motivacionais, e que revelou total ignorância sobre o futebol português, daí preferir a sua saída.

Por mim “vaya com dios” fazer companhia ao Nélson, não deixa nenhumas saudades.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O nosso Rui Costa...

Terminou mais uma época e é tempo de balanço. Farei um post para o Director Desportivo, outro para o treinador, e outro para os jogadores. Deixo de fora o Presidente por várias razões, por um lado acho que nem merece o tempo gasto, por outro vai haver eleições e cada um vota em quem quer, respeito a democracia.

Por uma questão hierárquica, começo pelo posto mais alto, o do Maestro Rui Costa.

Apesar de tornar este post (ainda mais) secante, obrigo-me a fazer um enquadramento histórico: Rui Costa foi o meu primeiro ídolo do futebol. A primeira camisola autografada que obtive é o nº10 da Selecção assinada amavelmente pelo Rui. Chorei inclusivamente algumas vezes com ele, como foi o caso do golo marcado contra nós na Luz. Torci pela Fiorentina e pelo Milão. Numas férias que fiz em Itália, quando passei por Florença, não desisti enquanto não descobri os transportes para chegar ao Artemio Franchi, apesar de estar a chover “cats and dogs” nesse dia, só porque sonhei ter a sorte de chegar lá e ver um treino do Rui (e do Nuno que também lá estava na altura). Não vi nada, não vi nenhum dos 2, mas era fã a esse ponto. E o “era” nem é um passado muito distante, ainda o ano passado, no final de mais uma época degradante, o Benfica fazia o último jogo em casa e eu já tinha jurado que não voltava a pôr os pés na Catedral naquela época, no entanto não resisti, lá convenci a namorada que já quase morria de tédio nos jogos a ir à Luz para nos despedirmos do Rui. Fui, quase vomitei quando vi fazer-se a onda num campeonato que terminávamos em 4º, mas pelo Rui tudo vale (valia?) a pena.

Tudo isto para dizer o quanto eu admirei o jogador Rui Costa. Pela sua classe, pelo seu talento, pela correcção demonstrada, pelo quase romantismo com que vivia o futebol foi um caso único de paixão futebolística. Mas a partir do momento em que passa para Director Desportivo, aí doa a quem doer tem de ser avaliado pelos resultados, seja o Rui, seja o Veiga, seja a minha Mãe, se desempenhar um cargo de responsabilidade no Benfica serei implacável na análise.

Tinha expectativas altas para o Rui. Julgava-o uma pessoa integra, benfiquista, e com alguns skills, pelo que pensei que muita coisa ia mudar na Luz. Confesso que este sentimento foi algo abalado quando alguém que conhece o Rui há largos anos me disse que ele era um vaidoso de primeira que se ia colar ao lugar como uma lapa, tal como o Vieira, e que nada ia mudar, o entreposto de jogadores e comissões na Luz ia continuar. Não quis acreditar, e continuo a acreditar que Rui põe o Benfica acima dos seus interesses pessoais. Daí eu ter esperado uma alteração radical da política desportiva do Benfica, acreditei que íamos começar a fazer 3 a 4 contratações cirúrgicas, apostar nos jovens da cantera, e tentar conservar a todo o custo aqueles jogadores que podiam transmitir alguma mística, já que foi assim que me parece que se construiu um Benfica vencedor, tão diferente deste Benfica que actualmente vemos a definhar. Para ajudar à festa, no início do seu trabalho teve mais de 20 milhões de euros para gastar, algo que aumenta as suas responsabilidades.

Dito o que esperava, vou dizer o que vi acontecer: a mesma merda de sempre. Voltou-se a deixar sair jogadores importantes (Petit e depois Léo), voltou-se a ignorar os jovens, voltou-se a fazer uma dezena de contratações, agravadas com o show-off de chegarem as estrelas em jactos privados a Tires como se de D. Sebastião se tratassem. Contratou-se um daqueles típicos técnicos “moderno, jovem, tacticamente evoluído”, mas que bem espremido nunca tinha ganho nada. Falou-se uma vez mais em “ano 0”, em “projecto de 2 anos”, e quase todos engoliram e bateram palmas porque era Rui que o dizia, logo era lei, como quase tudo o que ele diz. Infelizmente o campeonato não se ganha em Agosto, nem o trabalho do DD termina aí, por isso quando começou a bola a rolar assistimos a mais uma sequela de filmes já bem conhecidos, a gestão ridícula do caso Léo, o encostar de Diamantino e Chalana, a choradeira da arbitragem, a equipa desgarrada que ia jogando cada vez pior, e o triste fim de época em que ficamos sempre com a sensação que se a Liga durasse mais uns meses até a UEFA estaria em risco. Acaba-se mais uma época em depressão, e os resultados são cruelmente frios: 3º lugar, vergonhosa prestação europeia, e apenas a taça da cerveja para disfarçar.

É possível achar bom o trabalho do DD que com mais de 20 milhões para gastar está à frente da equipa que obtém estes resultados? Não vejo como, aliás penso que se em vez de Rui Costa fosse outro qualquer já estava na forca há muito tempo. Mas tenho a certeza que mais de metade dos benfiquistas acham que o Rui esteve muito bem e que “só” errou ao escolher o treinador. Infelizmente esse “só” custará uns milhões largos e mais um ano perdido. Eu não adopto essa teoria, porque é uma escapatória à Vieira, e a última coisa que quero ver é o Rui tornar-se igual a ele. Ou seja, chega ao fim do ano, corre com quem está abaixo dele, e tudo fica bem, o responsável maior passa incólume e continua. É o que Vieira tem feito durante anos e espero que Rui se desmarque já. Porque para mim só existem 4 cenários:

- Ou aceita mudo e calado que se corra com o Quique, contratando-se outro treinador nas suas costas, começando já o novo ciclo a gastar milhões em jogadores novos, e aí está a ser cúmplice de Vieira tornando-se farinha do mesmo saco;

- Ou assume publicamente que errou ao contratar Quique, assume todos os seus restantes erros, e mostra-se confiante que este ano pode ser diferente explicando em que é que consiste a mudança;

- Ou assume que o seu projecto era com Quique, e demite-se com ele, admitindo que as coisas no Benfica actual não funcionam como ele gostaria, e coloca-se à disposição para voltar a colaborar com o clube no futuro, caso outras pessoas com outra forma de pensar tomem conta do clube, e aí ganhará todo o meu respeito;

- Ou então, num cenário que me parece quase impossível, consegue a manutenção de Quique, defende o projecto de 2 anos publicamente, e aí apesar de eu achar que não trará grandes resultados, ganhará o meu respeito pela coerência demonstrada, e pela inversão de estratégia em relação ao Benfica de Vieira.

Resumidamente, ao fim dum ano não estou minimamente satisfeito com o trabalho de Rui Costa. Agora o que não sei é o quanto é responsabilidade dele, e o quanto está acima dele, mas duma coisa tenho a certeza: se ele continua caladinho ao lado de LFV, Paulo Gonçalves, e restantes elementos responsáveis no clube, então será julgado com eles, e com eles sairá em ombros, ou corrido pela porta pequena. Por tudo o que o Rui Costa jogador e homem representou, por mim espero que saia pelo seu próprio pé e volte a entrar pela porta grande, podendo na estrutura certa ajudar o nosso clube a voltar a ser o Glorioso que todos conhecemos. Rui, está na hora de mostrar se és um dos nossos, todos queremos acreditar que sim, e ainda estás perfeitamente a tempo de o fazer.

domingo, 24 de maio de 2009

Bipolaridades

Tenho um amigo lagarto que acusa os benfiquistas de serem bipolares. Sem querer concordar, experimento alguma inquietude face à classe evidenciada por Quique, especialmente nos últimos dias. Sabem quando um gajo acaba (se é que isso acontece) com uma gaja chata, mas dotada? Aquela coisa do “A gaja era burra, mas será que não estou armado em esquisito?” – sensação de arrependimento futuro, apesar do acerto da decisão, sensação de que estamos a mandar embora algo de que vamos sentir (muita) falta...estão ver? Se calhar não...

P.S.(para os menos esclarecidos): Estou só a tentar ilustrar uma sensação, não quero com esta analogia dizer que o Quique tem mamas fixes, ou que é bom a falar ao microfone – o que, por acaso, até é! Estão a ver... sensação lixada...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Este blogue vai a votos!

De há uns tempos a esta parte, este blogue tem sido alvo de ferozes comentários anónimos insurgindo-se contra aquilo que esses dignos comentadores acham que é uma forma subversiva de escrever textos. Na mente desses iluminados, a ideia geral que perpassa é a de que os membros desta tasca trazem consigo uma agenda própria e muito estudada no sentido de defenderem x, y ou z através de mecanismos subliminares de fino recorte artístico mas desvendáveis sob a luz que irradia dos focos dos cérebros anónimos. Argumentar a esses fiéis conspiradores que não passamos de 4 gajos que gostam de um clube chamado Benfica e dizer-lhes que o que nos move é tão-só o amor, a dedicação e a pornografia carnal pela cor vermelha é, já se viu, totalmente inconsequente. Não vale a pena persistirmos no erro de nos justificarmos perante tamanha exibição de clarividência anónima. Resta-nos, portanto, inventar novas motivações que justifiquem a razão de aqui estarmos para ver se, mesmo que os não convençamos, ao menos isto nos dê para rir mais um bocadinho já que a época foi de levar lágrimas aos olhos, mais uma vez.
E é assim que, na sequência de várias leituras de conspirações e conspiradores, eu, blogger Ricardo, representando o quarteto do Ontem Vi-te no Estádio da Luz, anuncio em primeira mão e em diferido ("on-liner", como diz o nosso putativo treinador, para quem nos quiser seguir via satélite de planetas só imaginados por Isaac Asimov) a candidatura destes quatro bípedes à Presidência do Benfica.
As linhas gerais desta equipa são simples e eficazes. Passo a esclarecer os sócios votantes para que nos não julguem parcos em ideias e estéreis em atitudes:
- O nosso treinador será sempre, ao longo do nosso mandato, um treinador português. Porque é mais barato (razão nada despicienda no momento de crise que o Universo atravessa), porque conhece todos os cantos deste bairro degradado que é o futebol português, porque terá a tendência para chamar jogadores portugueses de qualidade com quem trabalhou, porque o Benfica necessita de gente que saiba o que é o Benfica real e ao mesmo tempo conheça o que foi e o que pode vir a ser o Benfica glorioso, porque um treinador português será mais fácil de convencer quando quisermos ir beber copos, porque estamos fartos de estrangeiros medíocres (entenda-se: espanhóis com a mania da superioridade nacional esquecidos já da carga de porrada que, em tempos, levaram dos nossos que os fizeram sair daqui com o rabinho entre as pernas).
- O nosso Director Desportivo será sempre, ao longo do nosso mandato, um gajo que perceba de futebol. Ainda é cedo para lançarmos o nome mas garantimos aos honrosos benfiquistas que temos em carteira um nome consensual que trará ao Benfica não só o conhecimento profundo de todas as áreas ligadas ao futebol como também a noção de que só à batatada é que isto lá vai. Mentimos, temos já o nome: Rui Costa.
- Um cargo diferente, nunca antes visto em clubes de futebol, será inaugurado por esta equipa: o Prospector Universal. Alguém apaixonado por este desporto que domina, do Sudão às Maldivas, todos os campeonatos do Planeta Terra. Alguém capaz de, no domínio maravilhoso da prospecção, reconhecer num campo pelado da Suazilândia aquele trinco fabuloso que o clube precisa, a custo zero (ou, vá lá, a custo de uma feijoada e um jarro de tinto para o seu agente) e sem prejuízos para o nosso clube. Este cargo será ocupado por duas mentes que respiram, mesmo quando dormem, a arte de encontrar bons jogadores: Luís Freitas Lobo e Carlos Azenha. Perguntar-se-ão: "e ordenados para esses gajos?" Está já tratado. No contrato que temos assinado com eles, caso ganhemos as eleições, estão lá muito bem explicadinhos todos os termos: 500.000 vídeos de jogos entre o Burkina Faso e o Togo, desde as camadas jovens aos jogos puramente anónimos como são os que se passaram entre duas minas pelos locais ávidos de uma bola de trapos. Convencemo-los ainda quando lhes explicámos que podiam fazer as análises (com gráficos fabulosos!) aos jogos que se passam diariamente na Cidade Universitária, com o acrescento benéfico de nos descobrirem também aí algum lateral-direito que sobressaia.
- Um director de Comunicação que não seja careca, que não seja parvo e que não tenha a ideia estúpida de ir gozar com os nossos adversários para as conferência de imprensa. Muito menos um que leve uma Taça ganha com um erro do árbitro e que com ela ache que está a fazer um grande serviço ao clube. Temos esse homem: João Vieira Pinto. Não que seja um mestre na oralidade mas aqui pensamos mais no conhecimento de futebol e menos na eloquência verbal. Com JVP, teremos alguém a explicar correctamente a razão das tomadas de decisão do clube. Não está descartada a hipótese - está ainda em negociação, portanto não o afirmamos assertivamente mas quase podemos jurar - de Marisa Cruz ser a acompanhante em todas as conferências de imprensa.
- Uma equipa de futebol! É verdade: iremos ter uma equipa de futebol! Sim, um plantel, 22 jogadores! É aqui que sentimos que fazemos a diferença para as demais candidaturas. Procuraremos, portanto e no limite das nossas capacidades, conseguir uma equipa de futebol e com ela ganharmos coisas. Sim, achamos que é importante ganhar coisas.
Estas são as primeiras ideias que divulgamos. No futuro, outras serão lançadas para a mesa no sentido de todos os benfiquistas ficarem a conhecer todo o nosso projecto. Admitimos, neste momento, a agenda que fez este blogue nascer e, fazendo um mea culpa geral, esperamos que os nossos queridos benfiquistas compreendam que se o não fizemos antes foi por pura especulação, falta de respeito, egoísmo, estupidez e muito medo de que o Senhor Vieira nos chamasse de abutres. O senhor Vieira e todos os cães vieiristas que viessem atrás. Hoje sentimos que o nosso projecto é inatacável. Porque tem boas ideias e porque oferece a todos os que votem em nós 100 quilos de carnes argentinas - não falamos obviamente do Dí Maria que esse não dá nem para entrada.
Votem em nós! Especialmente os anónimos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Tiro aos pratos

  1. Já está. O Benfas foi mesmo o terceiro a cortar a meta e acabou por demorar mais uma jornada para chegar ao inglório final. Até o LFV diz que não ganhámos nada, ficando a sensação que a Taça da Liga é um troféu mais metafísico do que real no nosso futebol.
  2. Depois de uma semana a clamar pelo Salvador, este foi traído pelo judas bronzeado e - como é exemplo a votação aqui a decorrer – já há malta pronta a crucificar a possibilidade anunciada.
  3. A verdade é que o peso do banco benfiquista já se fez sentir: Jesus já começa a parecer menos competente, e Quique, mais. Já nem é preciso um contrato para se começar a escolher a cova no cemitério encarnado.
  4. Sim, porque Jesus foi arrogante. Esquecendo o azar que teve no jogo, ficou patente que o treinador do Braga resolveu ignorar a receita, por todos conhecida, para contrariar o Benfica, e tirou da cartola uns truques e baldrocas que fizeram do Braga um dos adversários que mais se pôs a jeito às parcas armas do onze encarnado.
  5. Mas Quique não é bestial, e assinou mais umas quantas besteiras. Tantas alterações na penúltima jornada, com jogadores a trocar, regressar ou alternar de lugar, mesmo que acertadas, só sublinham o desnorte ou, pelo menos, a falta de estabilidade que marcou esta época.
  6. Quem vê Jorge Ribeiro a actuar no lugar que já foi de Léo, automaticamente recorda as palavras de Quique, remoendo os 90 minutos nessa paulada intelectual de que o brasileiro tinha a aprender com o português.
  7. Revelo-vos a palavra mais panisga da gíria futebolística: “acarinhar”. Começa por ser curioso como povoa o másculo léxico dos que giram em torna do futebol, mas fica tudo esclarecido ao ver o que um pouco de carinho fez ao Cardozo; é bonito...
  8. A incompetência e genérica falta de classe dos nossos árbitros é frequentemente subestimada. A arbitragem na pedreira de Braga, com amarelos a torto e a direito, conseguindo expulsar, por acumulação, um jogador em 12 minutos (nem que tenha sido o estouvado Yebda) é formidavelmente estapafúrdia. Ainda para mais, quando não mostrou amarelo no único lance violento de que resultou uma lesão (Katsouranis). Genialmente estapafúrdia, já que nesse lance ainda conseguiu amputar o Rúben Amorim ao último jogo da época. E eu digo que é subestimada porque se o jogo fosse outro, qualquer um duvidaria das intenções do árbitro. Desta vez, só pode mesmo ter sido falta de jeito, ainda que seja difícil de acreditar e, para o árbitro, mais humilhante!
  9. Mas foi mesmo a noite de Quique. Depois de levar na corneta toda a semana, de assistir à oficialização da descrença geral nas suas capacidades, eis que o espanhol prega com três castanhadas que deixaram Jesus de braços abertos, a barafustar com a equipa. E para coroar a noite, na conferência de imprensa ainda lhe perguntam pelo Atlético de Madrid: “Eu nunca falo com outros clubes quando tenho contrato (...)” – Olé!!
  10. Mas que venha o Jesus, que venha, VEM JESUS! Primeiro por que ando verdadeiramente intrigado com as estonteantes madeixas do senhor – tenho que ver aquilo mais de perto e de forma mais sistemática. Segundo, o nome é mesmo formidável e dar-me-ia um prazer monumental passar um ano inteiro a fazer trocadilhos rascas com o Senhor!!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vários estádios

- Numa altura em que os benfiquistas carpem as mágoas de mais uma época decepcionante, o treinador do "novo ciclo" está escolhido: Jorge Jesus. Esquecendo as razões calculistas e interesseiras da actual Direcção com esta escolha e a vontade de, contratando um técnico promissor com boa receptividade junto dos adeptos, ganhar mais umas eleições, diria que é, das opções avançadas e possíveis, uma das que mais agrada. Jesus é competente, é ambicioso, espera ardentemente a possibilidade de demonstrar num grande as qualidades que julga (julgamos?) ter e conhece como poucos a realidade tão específica do lamaçal que é o campeonato português. Por tudo isto, Jesus aparece aos meus olhos como a solução certa para treinar a equipa principal do Benfica. Mas não deixo de ter, bailando, dançando e sapateando, uma dúvida: por quanto tempo a massa benfiquista aceitará um treinador português? Outra dúvida: se Fernando Santos, que fez um excelente trabalho no clube, nunca teve os adeptos do seu lado, será Jesus capaz de operar um milagre na mentalidade daqueles néscios que assobiam jogadores, acenam lenços brancos, cospem na inteligência e comem doses massivas de boçalidade ao pequeno-almoço? Tenho dúvidas, mas está na altura de o Benfica não ecoar infinitamente sob as vozes da tacanhez de espírito. Está na altura de filtrar as opiniões. Que Jesus possa ter um eterno descanso. O descanso que os santos não tiveram. Que Jesus veja a Luz que Santos não viu. E prometo que esgoto aqui os parvos trocadilhos. Mas não juro pelos jornais desportivos.
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- Um benfiquista para cada boa acção que vê na direcção do Benfica vê logo outra má. Não há como enganar. Desta vez, depois da boa escolha de treinador, são as contratações de jogadores sem que o técnico tenha voto na matéria. Não sei quem é Álvaro Pereira, desconheço se é craque ou se é mais um Balboa (parece que custa os mesmos 4 milhões de euros), mas de uma coisa tenho a certeza: contratar jogadores antes de ouvir o novo técnico é um erro crasso na construção de um plantel. Erro que persiste ad eternum. Já vamos com dois laterais. Quantos mais virão antes de Jesus chegar pela primeira vez à Caixa Futebol Campus?
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- Quique sai pela porta pequena. Confesso que acreditei neste homem. Mais pela sua qualidade de discurso do que pela sua qualidade como técnico. No fundo, acreditei que a sua postura inteligente seria capaz de inundar a forma como o espanhol via e vê o futebol. Infelizmente, enganei-me, enganou-se, enganou-me. Quique nunca conseguiu demonstrar no Benfica ser capaz de ver o futebol através dos olhos universais, antes fechando-se na sua concepção de forma autista, teimosamente egocêntrica e nada condizente com a realidade. Não foi humilde, não quis aprender e com isso ganhou um bilhete de volta a Espanha. Acho bem. A estabilidade é um conceito que só pode rimar com competência e essa Quique provou desconhecer ao longo do tempo.
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- Na votação ali ao lado, Veiga domina a intenção de voto dos benfiquistas. Acho curioso, no mínimo. Há dois meses os resultados seriam tão diferentes que, tal como fico curioso com a votação, fico espantado com a força crescente da blogosfera. "Bastaram" uns textos do José Marinho no Mágico SLB para que a opinião pública benfiquista, de repente e sem aviso, tenha encontrado no homem do capacho do Luxemburgo a poção mágica de Panoramix para a debilidade benfiquista. Nem tanto ao mar, meus companheiros. Vieira não será seguramente o presidente eleito por este blogue, mas julgamos manter todos a desconfiança típica dos que se julgam inteligentes. Aqui, Veiga ainda não convenceu ninguém. E terá de penar muito para que algum dia o faça. Entretanto - e julgo que falo pelos meus caros colegas do Ontem... -, sabemos uma coisa: queremos mudar de pneus.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Agora Escolha!

O reinado de Quique parece estar perto do fim. Com a anunciada saída ficarão por responder algumas das questões mais pertinentes sobre o espanhol: Ele frequentava solários ou conseguia aquele tom de pele só à base de creme cenoura? Considerará o seu trabalho ao leme do clube encarnado livre de mácula, ou, no seu íntimo, já terá admitido a enorme arrogância com que encarou o futebol português? Nunca saberemos...

Entretanto, aproxima-se o sucessor. Esbatidos pela bruma Sebastianista vislumbram-se dois vultos a cavalo: Jesus e Scolari.

Sabe-se que ambos não desdenham o cargo. Quando entrevistado pelo repórter do Ontem Vi-te, Jesus foi igual a si mesmo: “Há muito que os méritos das minhas qualidades têm sido despreteridos pelos agentes do futebol e penso que com a humildade de mim mesmo e dos jogadores poderemos ganhar muitas vitórias para o clube! Estou disponível para ir viver para a cidade de Sport e trabalhar muito p’rá prole do clube!”. Quanto ao Sargentão, e quando questionado se gostaria de se sentar no banco benfiquista: “Claro qui sim. Eu gosto do banco benfiquista, e se para mim banco é caixa, a verdadji é que o centro de treinos do Benfica é Caixa, logo eu acho qui está certo. Agora há qui difender os mininos, há qui apoiá! Quem si considera benfiquista tem qui pôr uma bandeira do Benfica na janela, e tem qui ter uma águia como animal di estimação. Tem qui ser – só assim irei pró Benfica!”

Como no mítico programa da RTP2: Agora Escolha! No entretanto, um defeso quase tão empolgante como os episódios de "O Justiceiro" que animavam a votação...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Obrigado, futebol.

O futebol é um desporto maravilhoso. Tem tudo o que os outros só têm em parte. O jogo de ontem entre Chelsea e Barcelona veio mais uma vez, se fosse preciso, confirmar esta ideia. Para quase todos, os catalães iam passear classe, futebol apoiado e lances de génios para o relvado de Stamford Bridge. Para quase todos, o Chelsea ia suar para não ser goleado. Depois o que se viu foi um jogão sem mácula dos de Londres, capazes de aniquilarem na perfeição o jogo rendilhado do Barça, defendendo de forma sublime (sim, também se defende de forma sublime) e em bloco todas as investidas dos espanhóis. Mas talvez até isto fosse ainda previsível. Quase todos não contavam era com a capacidade de, defendendo mais alto, o Chelsea ter sido sempre, repito: sempre, a equipa mais perigosa em campo. Do minuto 1 ao minuto 93, o Chelsea deu um banho de bola não à equipa do Barcelona em si mas à ideia que o mundo tinha da equipa do Barcelona. E não foi preciso recorrer a medidas drásticas: "bastou" fazer daquele jogo um jogo de concentração total, possuir médios capazes de entenderem, a cada segundo, os momentos do jogo e as movimentações excelentes dos catalães. O Barça nem se pode dizer que jogou mal, não jogou, procurou fazer aquilo que faz sempre; o problema esteve no adversário que ontem encontrou, sublime a antecipar passes rasgados, perfeito na forma como os alas (principalmente Malouda no lado de Messi) recuavam em apoio aos laterais, cirúrgicos Essien, Ballack e Lampard na ocupação dos espaços, na teia que ia tecendo em redor dos médios do Barça - houve fases do jogo em que eu juro que vi Busquets, Keita e Xavi todos presos por um fio invisível mas forte toldando-lhes os movimentos. Se em Barcelona a estratégia não resultou (resultou no resultado mas falhou na tentativa de aniquilar o futebol do Barça e também na procura de ser mais incisiva em transição), em Londres o futebol apresentado foi de excelência e de... espectáculo. Espectáculo não é só ver o Messi a fintar 10 jogadores numa cabine telefónica; espectáculo é também, e principalmente, ver uma equipa, como colectivo, como uma entidade una com 22 patas a mover-se em campo, como um bicho de engrenagens mecânicas, dominar cada pedacinho de relvado. O Chelsea ia chamando os jogadores do Barça para a sua zona de acção e depois enrolava-o, como uma cobra, no seu viscoso corpo, abria a boca, metia-os entre os dentes afiados e ia degustando calmamente cada ofensiva barcelonista. No tempo certo, lançava os alas, insistia com os médios pelo meio, fazia recuar Anelka ou Drogba para meter nas costas da defesa os jogadores do miolo. E o Barcelona assistia, incrédulo, a tudo aquilo, incapaz de acreditar que tudo aquilo era possível, orgulhoso que estava de uma viagem recente a Madrid. É certo que Guardiola optou (mal) por retirar Henry de campo. Optou mal por duas razões principais: perdeu a capacidade inigualável do francês nas diagonais, no último passe e no remate mas acima de tudo abdicou do melhor do Mundo (Iniesta) na posição em que ele é o melhor do Mundo. Ainda assim, o melhor do Mundo viria a resolver a eliminatória.

sábado, 2 de maio de 2009

D. Rui Costa

Basta percorrer as linhas de vários livros que vão sendo escritos nos blogues encarnados para nos darmos conta de que ao Benfica pode faltar tudo mas não falta um D. Sebastião. Rui Costa, para os adeptos benfiquistas, é Deus na Terra e coitado daquele que se digne a dizer o contrário. Para estes, todo e qualquer projecto futuro do clube há-de ter a mão misericordiosa do maestro, há-de ser não a via que em seus fins procurará o apogeu do Benfica mas a poltrona óbvia e sucessória que acomodará o actual Director Desportivo no trono da liderança.
Compete-nos, no entanto, repensar este sebastianismo: que provas irrefutáveis sobre a evidência de que Rui Costa é o homem certo para o clube terão estes adeptos para tão grande demonstração de afinidade religiosa? Os 5 anos em que foi jogador profissional, os 12 anos em que, de longe, jurava amor incondicional a um clube que definhava em estádios vazios, goleadas sofridas por terras galegas e arranha-céus de jogadores medíocres que, por passarem perto do Estádio, eram logo apelidados de novos Eusébios? Compete-nos, não deixando nós de sermos, como qualquer homem de coração aquilino, ideólogos do RuiCostismo, entregar a emoção nas mãos do diabo e questionar: que caralho fez mais Rui Costa pelo Benfica que Chalana, Humberto Coelho, Veloso, Eusébio, Simões, Torres, José Augusto, João Pinto (esse mesmo), Nené ou Bento? A menos sabemo-lo bem: passeou aquela camisola pelos relvados menos dois séculos do que qualquer um destes. A menos sabemo-lo bem: gritava benfiquismo a partir de terras transalpinas enquanto os dessa lista falavam dentro de campo a língua do Benfica.
Urge, portanto, relativizar tudo isto e entender o sentimento dos caros adeptos benfiquistas como uma necessidade, em tempos de crise, de uma crença. Uma crença possível, a única crença, aquela que nasce de um país em ruínas, perdido entre a gloriosa memória e a entediante actualidade. Um país onde qualquer bípede que não seja conotado com outras fronteiras é tido de imediato como o grande e possível rei de toda a nação. Sem que se reflicta, sem que haja, do ponto de vista dos neurónios, mais actividade do que aquela existente em jogos no estádio do Sporting. Mas, tal como nos jogos no Alvalade XXI, as cadeiras às cores podem originar grandes ilusões de óptica.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Só um porquê:

Olá, vinha só fazer uma perguntinha aqui, como é que se diz, à blogoesfera:

Porque é que uns são castigados no imediato e outros dizem tudo o que querem, indignam-se que nem putos malcriados a quem o chupa lhes foi roubado e não lhes acontece nada?

Obrigado e bom dia.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O mito da recuperação financeira...

Como este blog já andava a ficar com muitos textos inteligentes e engraçados do Ricardo, venho espetar aqui uma seca sobre contas para verem o que é bom para a tosse :)

Pontos prévios:
Esta não é uma análise extensiva, é uma análise simplista que pretende focar apenas alguns pontos para que todos percebam o que na minha opinião é essencial;
Do que apurei LFV tomou posse a 3/11/03, pelo que a minha análise resultará da comparação entre o Relatório e Contas da Benfica SAD em 2003/2004, e o último que se conhece, ou seja o 1º semestre de 2008/2009.
No final da época poderei fazer uma análise mais completa com as contas anuais.

Principais dados dos Balanços:

O Balanço reflecte a posição duma entidade num determinado momento. Conforme o que referi em cima, a comparação vai ser entre 31/07/03 (uns meses antes da chegada de LFV, mas mais próximo que no final da época), e 31/12/08:

Total do Activo
31/07/03: 110.732.672
31/12/08: 161.059.599

Aumento de aproximadamente 51 milhões, dos quais 28 milhões são um aumento na rubrica “Plantel de Futebol”, e 16 milhões no Imobilizado Corpóreo, maioritariamente devido à construção do nosso Campus.

Total do Passivo
31/07/03: 83.966.121
31/12/08: 147.382.449

Aumento de aproximadamente 64 milhões (com as consequências que se verão a seguir), dos quais 45 milhões é um aumento das dívidas relacionadas com operações bancárias (que geram custos financeiros, como é evidente). Registe-se que em Janeiro foi feita a emissão do papel comercial no valor de 40 milhões, sendo que apenas 28 são para pagar empréstimos já existentes, pelo que se prevê um aumento relacionado com estas dívidas.

Total do Capital Próprio
31/07/03: 26.766.551
31/12/08: 13.677.150

Metade do que existia foi “comido”. Acrescente-se o facto do capital social da SAD serem 75 milhões para se perceber em que estado estão as nossas finanças. Aqui, valha a verdade que a maior “delapidação” é anterior a LFV, mas o facto de metade do capital que existia aquando da sua chegada ter ido ao ar não abona muito a seu favor. O Benfica tem preparada uma fusão com a Benfica Estádio para contabilisticamente resolver este problema, mas é disso que se trata, uma mera operação contabilística entre sociedades do grupo, nada mais.

Principais dados das Demonstrações de Resultados:

A DR reflecte a performance duma entidade num determinado período, que no nosso caso corresponde à época desportiva. A comparação vai ser entre a época 2003/2004 que apanha a chegada de LFV, e os 6 meses da época 2008/2009 que se conhecem.

Custos com pessoal:
2003/2004 (12 meses): Aproximadamente 26 milhões
2008/2009 (6 meses): Aproximadamente 17 milhões

A manterem-se os valores para a segunda metade da época (tendo em conta a poupança em prémios, á natural que seja semelhante), chegaremos aos 34 milhões, o que representa um aumento de 30% em 4 anos e meio, ou seja acima do crescimento médio de salários em igual período. E não me parece que a qualidade do plantel tenha crescido 30%, mas isso já será conversa para outra análise.

Custos Financeiros:
2003/2004 (12 meses): Aproximadamente 3.4 milhões
2008/2009 (6 meses): Aproximadamente 2.8 milhões

Iremos para os 5.6 milhões, mas tendo em conta que o passivo bancário aumentou mais que o dobro, este valor é “normal”, apesar de não deixar de ser muito preocupante ter aproximadamente 500.000€/mês de custos financeiros.

Prestações de Serviços:

2003/2004 (12 meses): Aproximadamente 35 milhões
2008/2009 (6 meses): Aproximadamente 24 milhões

Chegando aos 48 milhões não há dúvidas que se nota uma evolução nestas receitas, a que não é estranho o aumento de sócios, quotizações, cativos, etc. Infelizmente o Relatório de 2003/2004 não desenvolve muito este proveitos, pelo que não dá para fazer uma análise mais profunda.

Finalmente um rácio que considero vital, custos com pessoal/proveitos operacionais:
2003/2004 (12 meses): Aproximadamente 70%
2008/2009 (6 meses): Aproximadamente 66%

Este rácio ilustra quantos dos nossos proveitos operacionais, ou seja os “normais” em que se exclui venda de jogadores, por exemplo, são absorvidos pelos custos com pessoal. É um indicador chave, não é por acaso que quase todas as empresas em momento de crise atacam os custos com pessoal. A própria Deloitte, no brilhante estudo que fez sobre as finanças no futebol, salientou o evidente, são os elevados ordenados pagos que estrangulam completamente as finanças dos clubes. Seria positivo registar a ligeira evolução, mas na minha opinião este indicador nunca pode estar acima dos 50%, daí eu criticar tão veemente a inversão nesta área que aconteceu esta época, bem ao jeito de “fuga para a frente” típica do último ano de mandato de qualquer governante. É que em igual período da época 2007/2008, este indicador estava nos 48%, valor que considero excelente no nosso futebol.

Por esta e por todas as razões apresentadas é que não engulo o mito da recuperação financeira. Em alguns aspectos estamos piores que quando LFV chegou, noutros estamos mais ou menos na mesma. E temo sinceramente que o pior ainda se esteja para descobrir.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Andrés

Bola no meio campo, um anão com o pé em cima dela, 21 jogadores a correrem em direcção a pontos diferentes do relvado, uns mais do que outros, e os olhos do anão a ver aquilo tudo. Quase arrogante, o anão segue, pé ante pé, olhar ante olhar, fingindo ser difícil a arte de ver o que mais ninguém vê. A bola, no entanto, não precisa de óculos, fica ali, debaixo, de lado, à frente dos pés do anão e ele, como um oráculo, antecipa-lhe a dança. De repente, ainda os outros dançarinos continuam a correria sem fim, o anão aplica na bola um passe de linha recta (todos os passes do anão são em linha recta, mesmo quando são curvos) que encontra um dos outros que correm e, surpreendido este, atira para golo. Nas bancadas, louvam-se a ciência e o toque mortífero do marcador, os jogadores festejam junto à bandeirola de canto e o anão vai, saltitando, recolher o abraço de agradecimento. Ali agradece-se não só o passe mas o nível de q.i., não só a visão mas a superioridade moral para passear em campo. O anão tem direito a estar em campo porque ele é, mais do que os outros, o dono da verdade. Ele não é grande nem é forte, não é rápido nem sabe driblar 5 jogadores numa cabine de peep show; mas é ele quem, no fim, sai de campo com tristeza. Porque queria mais. Mais duas horas de jogo, mais tempo para lançar os dados, ver as cartas, rir-se do bom que é jogar futebol.
Como em tudo, há os medíocres, os bons, os muito bons e os melhores do Mundo. O anão faz parte daqueles que nunca será o melhor do Mundo. Porque é tão bom que o Mundo não teve tempo de olhar para ele.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O meu nome é Sérgio e hoje torço pelo Manchester

AVISO: Se só tem tempo para um texto e quer ler algo com qualidade, cheio de Benfica nas linhas, passe de imediato para o post seguinte: “Kentucky fried entremeada”.


O meu nome é Sérgio e hoje torço pelo Manchester!
Torcer contra uma equipa portuguesa num jogo europeu é sinal de tacanhice e pequenez, fraqueza moral e patriotismo ambíguo. Apoiar os portugueses na Europa é sinal de sensibilidade, responsabilidade e nobreza de quem o pratica, é (quase) sinal de evolução antropológica, afastando o protagonista de grunhos neandertais que mais não vêm que o próprio clube.
Eu cá discordo. Acho uma parvoíce. Passamos os dias da vida a racionalizar o mundo: racionalizamos dinheiro, trabalho, trânsito, crises, decisões e confusões e nem no escape do fim-de-semana, no futebol, se cansam de racionalizar. Não digo a gestão ou a organização da coisa; digo as duas horas passadas no estádio, ou em frente à televisão, digo essa patetice de se meter a razão em assuntos do coração.
Pergunto: mas vocês torcem mesmo pelo porto? Ou sporting? É que um gajo para torcer tem que gostar, querer! Não entendo isso! A mim o Manchester nem aquece nem arrefece, mas o porto? Epá, o meu coração mirra assim que os tripeiros sobem ao relvado...
A sociedade é dura, eu sei. Também eu já me armei em evoluído. Lembro-me perfeitamente do dia em que o fiz pela última vez: jogavam os mesmos porto e Manchester, em Manchester. Estava com amigos e o porto ia perdendo por um golo, e com ele as hipóteses de seguir em frente. Eu, ia dizendo alarvidades do tipo: “Ah e tal, coitado do porto, até merecia passar, que os ingleses são uns merdosos...” e nisto o camelo do costinha marca golo. Caíram-me os colhões ao chão e fiquei uns segundos a fitar o ecrã e os festejos – merda! Jogadores do porto a festejar?! Foda-se. Esta merda está errada! - É óbvio que passei os restantes minutos a torcer pelo M.U. mas o mal estava feito, e os gajos acabaram a ganhar a Liga dos Campeões. Nunca mais me perdoei...
Agora esforço-me por manter as coisas simples. Torcer pelo porto, qualquer que seja o atenuante, é como casar por dinheiro. É uma prostituição. É açaimar o sentimento, aparelhar o coração e encavalitar-lhe a razão em cima, feita bem maior, feita pontos da UEFA ou prestígio nacional. Há quem o faça, mas não é para mim; não tenho jeito. Durante aquelas duas horas dou o comando à alma benfiquista e ao coração escarlate e só chamo a razão em instâncias derradeiras, para prevenir males maiores. Dou um exemplo: Este Sábado via o Benfica no Grogs no Bairro Alto, e nisto o árbitro anula um golo encarnado, iludido por não sei o quê mais o teatro do guarda-redes da académica; o meu coração gritou-me logo: “Vamos já a correr ao estádio e espancamos até à exaustão árbitro e jogador!” – já vestia eu o casaco, interveio a razão: “Calma! Olha que isto a pé até ao estádio é um grande esticão. Quanto ao carro, está bem estacionado e quando voltarmos do espancamento o Bairro vai estar um pandemónio, não vai haver lugar. Além disso, acabaram de nos servir mais uma imperial e quando regressarmos vai estar pior que mijo. É melhor não ir.” - E fiquei.

Kentucky fried entremeada

Ali, onde agora vive um senhor mamarracho de nome Colombo, era um baldio de terras aos solavancos, couves, armaduras de príncipes antigos e casas da idade do Fernando Pessoa. Ali, onde a esta hora senhoras elegantes e meninas petulantes encontram mais uma fantástica bugiganga para encher a vaidade dos quartos e salas de estar, foi, um dia, um parque arcaico de estacionamento, um caminho tortuoso até à catedral e uma enorme sala de repasto benfiquista. Ao ar livre, como tinha de ser.
O carro estacionava-se a 2 quilómetros do Estádio e a partir daí punham-se galochas e enfrentava-se o lamaçal. Antes de chegarmos ao repasto, deliciava-nos todo aquele benfiquismo em forma de gente: grupos de 10, 15 pessoas faziam círculos imperfeitos em volta de uma fogueira, de um fogareiro e de uma panelona digna de reis que no seu interior aquecia e amparava um bruto cozido à portuguesa ou, para os mais sensíveis às vicissitudes das transformações gástricas, um belo de um caldo verde, recheadinho com chouriço do melhor que podia haver; para beber, tinto, que era a cor e bebida naturais de quem, por dentro, levava acesa a chama imensa.
Normalmente, eram homens, pais e filhos, poucas mulheres e ainda menos filhas. No entanto, a equipa feminina de cada família tinha também o seu ofício, visto que vinham das mãos delas os repastos que tanto aconchegavam o estômago e o coração dos seus mais-que-tudo. A fome e a sede, ali, naquele sítio onde hoje ardem galinhas de Kentucky e carnes do Sr. MacDonald, não eram mais do que a medida certa para o impulso de noites de glória. Começava com o ritual de comer e beber; acabava em goles de golos.
Para quem não levava metade da casa atrás, esta era uma visão que aproximava e apaixonava e servia de entrada ao que viria a ser a refeição, sentados que ficávamos em banquinhos corridos de madeira rodeando as casas de repasto, quase sempre entregues a famílias inteiras. O ritual era simples: fazia-se um rectângulo de balcões, em volta bancos para os benfiquistas não comerem de pé e lá dentro era uma festa de cerveja, vinho e cheiros de carnes com muita gordura. Para os meninos, trina de laranja, para os pais, vinho em barda, que a noite era uma criança. Nos entretantos, enquanto se trinchavam pedaços de entremeada, febras e as sopas iam ao lume, e regados, bem regados, a cerveja, a tinto, a branco e, para os mais friorentos, a abafadinho, discutiam-se onzes, dizia-se mal do treinador (sim, já na altura acontecia) e ansiava-se pela hora da visão gloriosa de um relvado iluminado por 4 focos de luz. Os pais faziam a sua pedagogia, perguntando aos filhos o nome dos 11 heróis que iriam entrar em campo, os filhos acertavam em 3 ou 4 jogadores mais conhecidos e de tempos a tempos até aparecia um que falava no nome de um jogador de um rival nacional. O pai não gostava, batia com o copo com força na madeira e gritava: "esse é lagarto, filho!" e o filho, que nunca se tinha apercebido de que os homens tinham a capacidade de se metamorfosear em répteis, bebia mais um gole de trina enquanto dizia para dentro que nunca mais abria a boca para dizer o nome daquele jogador.
E o mais bonito de tudo era quando, na mesma mesa, se juntavam avô, pai e filho. E todos eles, ali sentados em redor de um objectivo, apesar das idades, a sentirem o mesmo: a pulsação acelerada, a ansiedade, o nervosismo, a paixão. Todos eles com o coração da mesma idade.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Arte

Há uma arte no futebol a que o mundo da bola dá pouco relevo. É a arte de dar porrada.

Verdadeiros caceteiros pretendem, geralmente, duas coisas – meter medo e castigar. Serve o mesmo propósito pedagógico. A arte passa por conseguí-lo sem que o árbitro ou a televisão testemunhem. Uma grande referência é o Jorge Costa. Um senhor na arte de aviar. Do seu reportório destaco a arte de saber tropeçar no adversário quando este se preparava para escapar. E com isto evitar um amarelo. No Benfica, não há um único jogador que saiba fazer faltas. Talvez o menos mau seja o Katsouranis.

Mas existe um sucessor. Na minha opinião, já superou o mestre. Primeiro, porque é fisicamente mais capaz. O Jorge era lento e não conseguia levantar a perna acima da cintura e, como tal, não conseguia cravar pitons acima da cintura dos adversários atingindo-os a velocidades baixas. O Bruno não. Consegue elevar o pé à altura da goela do opositor e sendo mais ágil é também muito mais fluído – todo o lance se transforma num movimento homogéneo e plástico em que corre, projecta-se, corta a bola e aterra com uma zona dura numa parte frágil do adversário. Aquele lance, no último clássico, em que tenta pontapear o Suazo na sua área após ter sido pressionado pela bola exalta uma elegância que um bailarino de Conservatório não desdenharia. O seu domínio das Leis de Newton, fundamentalmente da Inércia e a sua aplicabilidade à arte de atingir articulações após disputas aéreas envergonha muito doutorado em Física Clássica.

O Bruno, nos últimos quatro anos a jogar em Portugal tem visto um cartão a cada 8 (8!) jogos (691 minutos). O caceteiro-mor do panteão benfiquista, Petit, um bípede, na minha opinião, muito menos mau, demorava 3 jogos (260 minutos). Entre os jogadores mais violentos/incumpridores encontram-se Suazo, Quim, Moreira, Aimar ou Reyes (Benfica) ou os carniceiros colegas Hulk, Lucho, Benitez (com apenas 4 jogos), entre outros...É ou não é arte?

Para os interessados (www.zerozero.pt):

Bruno Alves (todas as competições):

2005/2006 - F.C. Porto - 668 minutos (2 A / 1 V)

2006/2007 - F.C. Porto - 3185 minutos (7 A)

2007/2008 - F.C. Porto - 3360 minutos (3 A)

2008/2009 - F.C. Porto - 3150 minutos (2 A)

Petit (todas as competições):

2005/2006 - Benfica - 3832 minutos (17 A)

2006/2007 - Benfica - 2808 minutos (8 A)

2007/2008 - Benfica - 2293 minutos (9 A)

2008/2009 - F.C. Koln - 2229 minutos (9 A)


P.S.: É engraçado como sempre ouvi que o Petit era protegido em Portugal. Afinal, também é protegido na Alemanha. É preciso ter influência!

terça-feira, 7 de abril de 2009

Para contar aos filhos em noites macabras

Não importa para aqui, embora importe para todo e qualquer outro sítio que não este, as razões que levaram Camus a escrever uma pérola literária chamada "A Queda". Mas o título da obra aplica-se, em boa verdade, ao Benfica dos últimos 15 anos e, especificamente, a este desta época, que acaba por ser uma excelente metáfora de todos os outros.
É uma queda que acontece sem que alguém tenha sequer conseguido entender de onde é que se caiu, visto que, em orgulhos de altitude, esta águia pugnou sempre pela modéstia nos seus voos. No entanto, orgulhosa ainda que intermitente, ela ainda esvoaçou por cima dos céus de Nápoles, naquela que se poderá considerar a noite em que mais alto sonhou chegar e em que mais alto fez sonhar quem nela aposta todos os limites do coração. Mas era um voo sem futuro, um voo para aguiazinhas em começo de existência, muito pouco capaz de ditar leis no mundo natural e selvagem e logo a águia, esventrada por tiro de caçador furtivo, voltou aos naturais voos baixos de uma sobrevivência medíocre e sem alma. A queda, embora de fraco pendor dramático, fazia assim a sua aparição inequívoca e definitiva.
Caía-se de um sítio que se desconhecia e assim, no meio da bizarria do comportamento animal, ninguém - nem o próprio humano! - entendeu para que lugar se queria ir. Foi assim que, da queda, a águia passou ao segundo momento: a inacção, que, em linhas gerais, se baseou no facto de, como o próprio nome indica, ficar pregada ao solo a ver os outros animaizinhos fazerem pela vida.
A águia não se importou. Era maior, melhor e mais poderosa do que todos os outros seres que por ali pululavam. Se os outros eram espertos e dinâmicos, a águia tinha do seu lado a grandiosidade e a história de todas as águias antepassadas para fazer valer o estatuto de superioridade moral sobre todos os seres e sobre todas as coisas.
Pena é que, ao perder penas, a águia tenha ficado depenada.

sábado, 4 de abril de 2009

Como é que se pode ser portista?

Ainda o Martins estava a rematar e já eu estava a pensar naquilo que viria a ser um post (mesmo que atrasado). Logo de imediato me veio, como besta selvagem e instintiva, a frase: "por uma vez, senti-me portista" e estive para escrevê-la ainda que me custasse, mesmo que de forma irónica e sardónica, dizer tal coisa. Como não tive oportunidade de começar o texto (porque, no fundo, no fundinho de tudo, o texto é o seu princípio; o resto é o reflexo da ideia primeira), deixei que a ideia tivesse direito a desaparecer. Não desapareceu. Isto porque, entre várias fusões cerebrais, na Sexta-feira, no "Governo Sombra", na rádio, o Ricardo Araújo Pereira começa a sua intervenção assim: "por uma vez, senti-me portista".

E pronto. A gente aceita. Porque é isso, porque está tudo dito. Por uma vez, senti-me portista. Eu acrescentaria: por uma vez, senti-me QUASE portista. É que, de facto, fomos, no geral, beneficiados. Mas não gostámos. E não fingimos.

Ainda estou para perceber como é que se pode fingir.

sábado, 28 de março de 2009

Morram todos!

Morram esses deuses que nos condenaram a ser uma selecção de remates a rasar poste e barra e adeptos de calculadora na mão;

Morram os Suecos e a sua patética concepção de futebol baseada unicamente na utilidade de serem uma cambada de troncos-com-olhos grandes como a merda;

Morra o Cristiano Ronaldo e a sua incapacidade para ajudar Portugal, quanto mais desequilibrar;

Morram os jogadores-poetas Portugueses e as suas exibições com 20765 remates e ZERO golos, por serem jogadores que no seu código genético têm gravada a vocação para jogar à bola com a ingenuidade, elegância e inocência com que a Heidi passeia pela montanha;

Morra o Carlos Queiroz por transportar a selecção para o passado (e cada vez me convenço mais que o faz inconscientemente e não por doutrina) e para este reino do jogo bonito mas tão eficaz como o Danny, esse fantasma do futebol português dos anos 80/90...

Viva o Deco que em meia hora salvou o que podia ser salvo do meu serão futebolístico!

P.S.: Só para dizer que estas mortes todas são metafóricas, digamos que ao desejar morte estou a invocar o Luís de Matos para fazer desaparecer a coisa em causa, menos no caso dos deuses - que eu sou ateu.

Escabeche

Não entendo bem o escabeche que a turma dos lagartos, sejam eles jogadores, treinadores, massagistas, armazenistas, motoristas e -istas por aí adiante até chegar a dirigentes, sócios, sócios com cotas em atraso e simpatizantes de lagartagem andam a fazer com o penalti roubado que os atirou para os penaltis e daí para à derrota na Taça da Liga às mãos do Quim. Até o panisga do Lucílio pediu desculpa!

Na verdade, o que é estranho neste clássico do futebol português não é ter havido um erro grosseiro do árbitro que adulterou o resultado final. Isso é habitual. Acontecerá, direi eu, em (mais de) metade dos casos. ESTRANHO, é o alarido, a gritaria histérica, os pedidos de desculpa despropositados e a genérica verborreia que se tem aventado a propósito.

Acalmem-se lá lagartos, foram roubados, foi só isso – dói um bocadinho mas depois passa, acontece a todos (ou quase)!

A Cruz de David

O David não teve estrelinha. Esse exótico hondurenho, que assim que vi marcar aquele golo contra o Guimarães (o da rabona do Aimar) me cheirou a melhor marcador do campeonato, espatifou o menisco e com ele selou a passagem pelo Benfica.

Acreditei que seria o, agora manco, Suazo que agitaria as turvas águas em que se conserva o último troféu de melhor marcador do campeonato com a camisola escarlate, apadrinhado pelo saudoso Rui. Na verdade, a relação não funcionou, mas se isto fosse uma sitcom americana o nosso Benfica sempre poderia dizer, antes do abraço de despedida:

- It’s not you, it’s me…

domingo, 15 de março de 2009

Futuro...

Contrariamente ao que dizia o nosso presidente há uns anos, não me parece que esteja no futuro próximo do Glorioso pertencer à lista dos 5 maiores clubes da Europa. Ainda assim, pela vitalidade que demonstra mesmo em época de vacas magras, creio que o nosso Benfas facilmente alcançaria uma posição temível na Europa, e, implicitamente, dentro de portas - um exemplo que me ocorre é o Lyon, mas há mais.

E o que é que nos separa desse futuro? Na verdade, acho que nem estamos assim tão longe, falta pouco - mas falta um pedaço importante!


Gostando-se ou não, a verdade é que desde o Vilarinho, mas essencialmente com LFV, o Benfica iniciou um processo que o atirou para o século XXI. Trata-se agora de uma empresa, cotada em bolsa, com credibilidade, com capacidade de gerar receitas em grande escala e um potencial de negócio e de rentabilidade sem par em Portugal. Lamentavelmente, a frieza da gestão empresarial não chegou ao futebol profissional e apenas atingimos algum sucesso no reinado do “desaparecido” José Veiga, esse senhor bem penteado e de pronúncia saloia que não vestia bem com as nossas cores e que, sinceramente, me agrada ver longe, bem longe.


E então, e o futebol? Pois, o problema mantém-se. Tenho sido acusado de pessimismo, aliás, admito um certo pessimismo, mas insisto que na génese do mesmo estão sinais bem preocupantes... Como ando a ver Dr. House em doses substanciais, arrisco uma metáfora:

Se o nosso Benfica for o doente, o que lhe receitar? Um treinador novo?

Concordo que não. Já testámos esse tratamento e o paciente continuou a agonizar.

Melhores jogadores?

Sim, claro que sim, mas o investimento desta vez até foi feito e os sinais vitais não melhoraram...

O director para o futebol, o nosso Rui?

Não! Nem todo o meu pessimismo me vai fazer virar baterias contra o Rui, pelo menos não nos próximos 50 anos. O Rui é um clássico, é como a aspirina, só faz bem!


Antes de continuar, até porque não sei onde isto vai dar, recuo um pouco. O treinador até pode não ser parte do problema, mas também não está a ser parte da solução. O meu pessimismo alimenta-se aqui. Neste dilema. Não devo despedir mais um treinador, apesar de não estar a funcionar. Não há solução, só deixar andar. E sim, eu sei que temos que lhe dar mais tempo - tenho a certeza que todos nós lhe vamos dar mais tempo e se o Quique quiser cá ficará por mais um ano, pelo menos. Mas uma coisa fique clara, ele não é parte da solução. Não é ele que vai criar uma nova equipa, como fez o Camacho da primeira vez que por cá passou. O que se está a assistir é a um treinador que apesar de mexer com a maneira como a equipa se posiciona e movimenta não altera a sua personalidade, e isso será essencial para o salto que todos esperamos para o Benfica. A diferença que vai do porto para o sporting (na champions) é de personalidade, tem a ver com a psique do grupo. E se no porto tal não tem necessariamente a ver (só) com o treinador, na generalidade dos casos essa identidade é passada ao grupo pelo treinador.

O que eu tento dizer é, esta primeira época do Quique não soa ao começo de nada, apenas a uma continuação - e do que tem sido o nosso passado recente não vale a pena assistir a mais sequelas.

Mas vamos acreditar e dar mais um ano ao homem, afinal não nos resta mais nada e eu, secretamente, estou sempre à espera que seja no próximo jogo que vamos fazer o Barcelona parecer uma cambada de tropeços!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Regresso

Acabo de regressar de 2 meses de viagem. Com esta frase simples mas cheia, pretendo explicar a minha ausência deste tasco, mas também introduzir o texto que se segue.

Estive longe e sem vontade de acompanhar o dia-a-dia neste cantinho à beira-mar plantado. Claro que cumpri com o básico e li tudo o que foi escrito neste blogue! Tive também curiosidade de investigar os resultados dos derbies e... pouco mais.


Ciente da minha ignorância em relação ao que se terá passado na liga sagres, proíbo-me de fazer qualquer juízo de valor. Ignoro se o Benfica ultrapassou o Barcelona na qualidade de futebol jogado, se tivemos a maior onda de lesões da história do futebol moderno ou se o Maxi Pereira foi eleito o melhor jogador da liga em Janeiro. Repito, não pretendo avaliar nada nem ninguém; mas deixem-me sublinhar o óbvio, baseado em parcas informações e na segunda parte do jogo de ontem:


Nestes últimos 2 meses nada mudou! Nada!

Eu substancio:


  1. Levámos na boca do Porto na Luz, e até parece que o senhor do apito molhou a sopa;
  2. Levámos na boca do Liedson, que se jogasse todas as semanas contra o Benfica era, seguramente, o melhor jogador do Mundo;
  3. Encontro-nos, sensivelmente, com o habitual desempenho estatístico (aqui sublinho o facto de ser quase impossível, para o Benfica de hoje, ter um melhor marcador no campeonato!)
  4. Não jogamos uma beata! Temos dificuldade em impor o nosso futebol quanto estamos a ganhar, mas também quando estamos a perder ou empatados.
  5. Não consigo ver ao fim-de-semana o fruto do que deve ser uma semana de trabalho; desta vez até temos um dez talentoso e não sei mais o quê e quem, mas jogar à bola é que ‘tá quieto!
  6. (Eu sei que o ponto 4 e o 5 são a mesma coisa, mas precisava de espaço para explanar a minha indignação frustrada com os espectáculos que nos têm sido oferecidos!)
  7. As outras equipas perderam muito do respeito que tinham por nós. Jogar com o Benfica é mesmo uma oportunidade para ganhar.
  8. Os árbitros portugueses são a maior nódoa e acumulam erro atrás de erro. E ontem nem fomos propriamente prejudicados, se calhar a Naval até teria algo a dizer nesse capítulo - pelo menos eu sei que teria, se tivesse sido ao contrário (lance do 2º golo).


Resumindo, não é sem algum desânimo que regresso para uma realidade de crise, desemprego e Sócrates, depois de embalado por aventuras de mochila às costas. Poderia, contudo, haver recantos acolhedores onde me ambientar, o velho clube de sempre, essa camisola encarnada que veste a minha paixão pelo futebol poderia bem sê-lo! Mas não! Nada disso... Nem Rui Costa, nem Quique, nem Suazo, nem mesmo o Aimar souberam botar a bola p’rá frente e tirar o Benfica desta apatia crónica que o envolveu e para a qual não consigo vislumbrar antídoto.

terça-feira, 3 de março de 2009

A estranha forma das flores

Se ninguém avança, atiro-me eu: não sei o que pensar de Quique Flores. Tanto pode ser um homicida como um voluntário em missão de apoio aos mais carenciados. Não sei. É o ar dele que me confunde, são as suas opções que me desnorteiam. Se, por um lado, vejo nele um bípede capaz de ajudar uma velhinha a quem tenha caído a dentadura no passeio, por outro, e isto é que castiga, dói e faz comichão, há nele qualquer coisa de subversivo e de louco.

Vejamos: será possível conciliar numa mesma matéria de corpo e cérebro um discurso coerente e razoável com a opção, ao longo de uma certa fase do campeonato, de pôr o Binya a titular? Outra: conseguiremos nós, adeptos em busca de sinais tranquilizadores, acreditar num homem que evita meter o Amorim ao centro e, simultaneamente, quando é prejudicado, diz que não fala em arbitragens? Isto é real? Tem sentido? Propaga-se, é contagiante, faz morrer? É que eu não estou habituado a isto. Tudo o que não for um treinador a dizer mal dos árbitros, (desculpem lá, mas...) causa-me urticária aos neurónios. E, portanto, prefiro pensar que ele é mentiroso e falso a achar que estamos perante alguém capaz de, sem merdas, optar por falar em futebol.

E o problema está aqui: eu prefiro mas, como qualquer gajo que se preze, não consigo. Há em mim, como em qualquer gajo que se digne, a piolhosa tendência para a esperança. E eu tenho-a, confesso. Inequivocamente, vive em mim a vontade de crer nestas coisas estapafúrdias e surreais. E é então que, crendo no senhor Flores, crendo na sua indomável tendência para gostar de futebol, eu fico ainda mais descrente, porque se um treinador é capaz de passar ao lado dos discursos bacocos, das invejas mesquinhas e das atitudes desprezíveis e, mesmo assim, mete o Binya a titular, o Amorim a apanhar laranjas na direita do meio-campo, o Cardozo invariavelmente a ouvir anedotas porcas do Martins no banco e acha que o Balboa algum dia será capaz de ser jogador de futebol, eu só posso perder a fé e lançar-me de foguetão rumo ao ateísmo.

Para quando, Flores, a tua revelação? Decide-te, homem: ou falas apenas e só em futebol - o que, enfim, repito, é estranho mas estou disposto a aceitar bizarrias -, mas percebes de futebol ou então metes os jogadores certos nas posições certas e, de tempos a tempos, fazes figura de José Mota*. Se não puseres mais o Binya a titular, sou rapazinho capaz de aceitar de ti um "isto é uma vergonha, fomos escandalosamente roubados", um "temos de levantar a cabeça", ou até um belíssimo "existiram situações neste jogo que deviam ser investigadas".

Não aceito mais do que estas duas possibilidades. Tudo o que sair disto é provocação clara aos benfiquistas e aos outros todos. O mundo da Liga Sagres não está preparado para um homem da tua estirpe, isso é mais do que certo, mas ao Benfica interessa um treinador que, além de gostar de futebol, o saiba compreender. Sem mais floreados.
___________
* para quem não está familiarizado com o termo, e depois de uma investigação aprofundada a todos os dicionários e enciclopédias referentes ao fenómeno futebolístico:
"fazer figura de José Mota" - fazer cara de parvo e de chateado, sem razão aparente; labrego; armar-se em Mourinho com chapéu de trolha e talento de rolha; parolo; dizer mal do Benfica de qualquer forma; não dizer mal do Porto de qualquer jeito; fazer figura de otário.

segunda-feira, 2 de março de 2009

No comments...

“O primeiro semestre do exercício de 2008/2009 apresentou um resultado consolidado negativo de 9,35 milhões de euros e um resultado operacional consolidado negativo próximo dos 7 milhões de euros, os quais representam em ambos os casos um decréscimo face ao período homólogo anterior”, refere o comunicado.

Esta evolução está “significativamente influenciada pela diminuição dos proveitos gerados com a alienação de direitos desportivos de atletas, pela não participação na edição da Liga dos Campeões da presente época e pelo investimento realizado no reforço do plantel principal”.

A SAD do Benfica salienta, no entanto, que “as receitas televisivas atingiram neste semestre um montante de 6,1 milhões de euros, o que representa um aumento superior a 2 milhões de euros face ao período homólogo anterior”.

“Esta variação devesse ao facto da rubrica ter sido positivamente influenciada pela não participação na Liga dos Campeões, dado que a Benfica SAD teve oportunidade de comercializar directamente os seus direitos de transmissão”, facto ao qual “acresce a criação da Benfica TV, que reforçou o poder negocial do Benfica no sector audiovisual”.

O passivo da Benfica SAD atingiu os 147 milhões de euros, aumento “justificado pelo reforço efectuado no plantel principal através da aquisição de direitos desportivos de atletas e pelo aumento da respectiva massa salarial, aliado ao facto das receitas operacionais terem decrescido pela ausência da Liga dos Campeões”.

“Por contrapartida do aumento do passivo, observa-se nos valores do activo um crescimento de 13 milhões de euros”, tendo os capitais próprios diminuído “para um montante de 13,7 milhões de euros, condicionados pelo resultado líquido negativo alcançado no presente semestre”.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Estatísticas II

GOLOS/ASSISTÊNCIAS - TOTAIS (MIN. JOGADOS - Nº DE JOGOS QUE OS MINUTOS REPRESENTAM)

Suazo
5/0 - 5 (1508 minutos - 17 jogos)

Cardozo
7/4 - 11 (1432 minutos - 16 jogos)

N. Gomes
7/4 - 11 (1252 minutos - 14 jogos)

Aimar
1/5 - 6 (1377 minutos - 15 jogos)

Reyes
4/6 - 10 (1800 minutos - 20 jogos)

C. Martins
1/7 - 8 (1328 minutos - 14 jogos)



Os números, já o admitimos, valem o que valem. Mas ainda valerão alguma coisa ou o que conta, em futebol, poderá estar inequivocamente à margem destes frios e distantes números que, afixados num qualquer quadro de parede de Quique Flores, pouco ou nada dizem ao espanhol?
Não podendo perguntar directamente ao Flores, deixo a caixa de comentários a quem queira dissertar sobre o que aqui é apresentado. Digam de vossa (in)justiça.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Crise económica, BPN, Freeport, casamento homossexual, eutanásia? Hã? Vem aí mais um derby, pah!...

Reformulo: vem aí o derby! Quem é que se vai lembrar de questões menores agora? Mais importante do que saber quem é que o PSD vai desenterrar para a presidência de Lisboa é saber se vai jogar o Suazo ou o Cardozo. E o Yebda, que foi poupado, vai jogar, não vai?
Desde que comecei a escrever este texto já devem ter sido despedidos mais uns cinquenta mil portugueses, as acções de uma grande construtora já desceram mais 40% e o número de casos de raiva em Angola já duplicou, mas o que é que isso interessa? Com que laterais irá jogar o Paulo Bento? Grimi, Abel, Pedro Silva, Miguel Veloso, Caneira… E o Patrício, será que a prótese já chegou? Joga ele, ou será que temos Tiago (dá-se bem contra o Benfica…).
Jorge Ribeiro e André Luiz? Maxi? Epah, difícil… Quantos Magalhães terá o Sócrates entregue desde que estou a escrever isto?
E o Di Maria? Afinal como é que é? Afinal também marca golos brilhantes quando o Maradona não está na bancada? Joga ou não? Há o cigano, que até gosta de jogos grandes, há o Ruben, que já devia ter ido para o meio há algum tempo… Então e outro puto de treze anos? Afinal é ou não é o pai da criança?
Na Austrália os incêndios não dão tréguas aos soldados da paz daquele país e na Venezuela confirma-se que haverá ditadura até o outro querer. Então mas e na frente, Paulo? Levezinho, Derlei, Vuck, Postiga… Quem? Que dupla, o que é que te passa por essa cabecinha tão bem ornamentada?!
Mas achas que os gajos deviam poder adoptar também? Mas já o fazem, ou não sabes que podes adoptar um puto sem seres casado? Não, naquele meio campo tem de haver Katso, Yebda e Aimar… Ou arriscas Ruben no meio? Ou Carlos Martins? Esse não, pois não Quique?
Fecharam mais 34 fábricas e o ministro japonês bebe gins. O outro fuma ganzas… Então mas é um puto como os outros, ou não? Ganhou umas quantas medalhas e tal, submeteu-se aos testes todos, estava limpo…. Qual é a espiga, Bob? Não, o Veloso não deve calçar… E o Yannick? Nem convocado, às tantas… O Moutinho sim, esse está em grande forma. Esse e o Russo dos tiques no pescoço, que às vezes dá ares de grande jogador de bola… Como é que ele se chama?
Seja como for, para bem da nação e independentemente de quanto é que os administradores do BPN receberam por fora, temos um derby este fim de semana! Quem quer que jogue, que seja um grande espectáculo, que dignifique o futebol português… Epah, mas quem sou eu? O Sócrates? OPaulo Portas? Que demagogia… Eu quero é que o Benfica ganhe, nem que seja com um penalty como o outro…

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Estádio da Luz

É provável que ainda ninguém tenha percebido mas, dentro do Estádio da Luz, há outro: o Estádio da Luz. Coincide, com uma forma oval a que na escola primária dávamos o nome de conjunto, com este em metade e foge dele, para o Alto dos Moinhos, com outra metade. É um Estádio grande, enorme, tem 3 anéis, é duro, insistente, provocativo. Sempre que vou ver o Benfica lembro-me dele. E sinto saudades.
Das portas estreitas, dos corredores imensos, do barulho dentro dele, da sua imponência. Aquilo não era um estádio, era a Arca de Noé; não era um projecto de arquitectura moderna, era um templo antigo. Nele, gregos ensaiaram as primeiras noções de teatro, romanos construíram impérios, medievos lutaram de espada em riste por mais uma mão de território. Não se abria aos olhos do adepto de forma fácil, era preciso entendê-lo, percorrer-lhe as entranhas anos a fio, milénios a fio, ir de barco navegando pelos seus mares.
Para uma criança, era um Adamastor que adorávamos e temíamos. O que estaria do outro lado, passado o túnel de acesso? Um mar, um rio, ilhas e sereias, domadores de leões, artistas, raparigas de brinco de pérola? E que cores traria? Que imensidões, que coordenadas, que belezas anunciava? De mão dada com o meu Pai, de cachecol maior do que eu ao pescoço, timidamente avançava por entre o túnel, enquanto ouvia um borbulhar em êxtase, um som antigo de milhões de anos vociferar e que ninguém sabia ao certo como e de onde vinha.
Não se via o relvado, como agora. Era preciso, primeiro, beber-lhe o sangue. As bancadas eram muros para quem chegava. Antes da beleza, como uma obra de arte, vinha a incompreensão, a dificuldade em chegar perto. Depois, sim, ultrapassadas todas as barricadas, todas as intempéries, todas as gangrenas e escorbuto da navegação marítima, o sol, a luz, as indígenas semi-nuas dançando ao ritmo do batuque, da forma, da cor. Do maravilhamento.
Dentro do Estádio da Luz, há um Estádio. Lembro-me dele. E sinto saudades. Em todos os jogos, em todos os segundos, em todos os momentos em que vejo o Benfica, sentado confortavelmente num lugar sem chuva, sem gente a vender as coisas mais inacreditáveis para as necessidades de quem vê um jogo de futebol, sem pancadaria, sem homens de rádio ao ouvido, sem placards electrónicos sujos, enormes e frios, sem o sentimento de estar verdadeiramente em casa, lembro-me dele e tenho saudades.
Tenho saudades do Benfica.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Debate Quinzenal

A tarde estava triste. Não chorava mas envolvia-nos com aquele bafo frio de nuvens densas, a que é costume chamar-se de "um dia de merda". As pessoas, no entanto, pareciam não estar preocupadas. Afinal, o dia era de Debate quinzenal! Logo muito cedo começaram a chegar à Praça de São Bento os costumeiros vendedores de cachecóis com as famosas imagens da Assembleia e as bandeiras a vermelho, com a cara do melhor jogador da casa: José Sócrates, exímio driblador de questões incómodas e maestro na arte de, no semi-círculo de discussão, falar mais no que as equipas adversárias não fizeram no passado do que debater os assuntos da sua própria equipa - um génio com a gravata ao colarinho.
Confesso que estava nervoso. Era a minha primeira experiência na "Casa da Democracia" e tinha sérias dúvidas sobre as prestações de António Pereira Coelho e de Ribeiro Cristóvão. Sobre o primeiro, a minha inquietação maior residia em saber se seria capaz de servir de tampão às transições económicas a que, muito provavelmente, estaria sujeito por parte da bancada adversária; já sobre o segundo, questionava-me se seria homem capaz de funcionar, em apoio, com profundidade na hora de assistir o nosso grande goleador. Para acabar com o nervosismo, eu e uns amigos, empolgados pela multidão eufórica e por uma sede indesmentível, estacionámos ao pé de uma barraca de cerveja e ali ficámos, em alegre cavaqueira, até perto do início da contenda. Estava um ambiente algo conturbado: viam-se, ao longe, os primeiros adeptos socialistas e, não fosse a imediata intervenção da autoridade, teríamos saído dali todos à batatada - continuo a dizer que as Juventudes em nada dignificam a Política, são bandos de delinquentes sempre em busca de motivos para a violência. É certo que apoiam, que gritam muito, que têm barba e que têm megafones, é certo também que, na arte da demagogia e ignorância mais suja e mais baixa, eles são peritos - afinal, estão bem instruídos desde muito novos, logo que entram nas faculdades. Por mim, deixava a política entregue aos adeptos, apenas e tão-somente aos adeptos apaixonados pelas causas; os que se sentam nas tribunas do Parlamento, não gritam e são civilizados.
Quando faltava meia-hora para o debate, acabámos a cerveja de um trago e dirigimo-nos para a entrada. Como tínhamos bilhete, estávamos tranquilos e não havia motivos para preocupações, certo? Errado. Hoje em dia, já não se pode ir à política sem que sejamos apalpados por todos os lados e olhados com descrença por energúmenos de coletes fluorescentes, como se fôssemos alguns criminosos que decidiram ir ver política, sem outro intuito que a violência gratuita. Senti-me indignado! Para além da normal apalpadela, ainda me retiraram dos bolsos um isqueiro que o PSD de Abrantes me tinha dado há mais de 10 anos, o mp3 que tinha uma música cubana sobre o "Comandante" e a fita no cabelo por revelar - nas palavras do energúmeno e cito - "razões suficientes para uma batalha campal, devido à cor alaranjada". Bom, lá entrei sem isqueiro, sem mp3 e com o cabelo desgrenhado, na esperança, porém, que o debate valesse a pena e pudesse esquecer mais uma atribulada entrada no semi-círculo do poder.
Chegados, o mesmo de sempre: alguém estava sentado na minha cadeira. Blá, blá, blá, "o seu lugar é na tribuna em cima do Luís Fazenda", "não é nada, é perto do Portas", "é sim, veja, A 22, lugar 18, tribuna bloquista". Lá saiu o barbudo, com cara de quem não comia, não dormia e não f... ingia há uns bons meses e eu, finalmente, pude encostar-me e esperar o espectáculo. Meus amigos, e que deprimente foi! Sócrates, na zona central, felizmente não fez um único passe a rasgar a bancada da direita; sempre em movimentos circulares, atirava para trás, grunhia para a frente, voltava a meter a bola no passado, chegava-se à entrada do semi-círculo direito mas logo recuava e voltava a empatar o jogo. Do lado da nossa equipa, um jogo de cintura assinalável; muita táctica, muito empolgamento, muito sorriso irónico, mas política... nem vê-la. Parecia que nenhuma das duas equipas queria ganhar. Absurdo!
O mais interessante da contenda foi observar como anda o "Sistema" por estes dias em Portugal. Meus amigos, a arbitragem foi escandalosa, do princípio ao fim! Jaime Gama, que já me estava atravessado desde aquela ida a um mercado, em que não beijou nenhuma das peixeiras, foi igual a si mesmo: gritante desigualdade de critérios, autoritário em demasia com os nossos e caseirinho como sempre. Há um lance no debate que não deixa dúvidas a ninguém: quando Pedro Santana Lopes se preparava para rematar contra a baliza de Manuel Pinho, atirando-lhe com um remate em "os portugueses não têm dinheiro para comer", aparece Pedro Silva Pereira, já na primeira bancada à entrada para o átrio, que ceifa o nosso líder parlamentar com um "não diga mentiras, pá!". Punições? Nada! Nem um "Ministro da Presidência, estamos na Assembleia da República", quanto mais um "Pedro Silva Pereira, faça o favor de abandonar o Parlamento e ir tomar banho mais cedo". Escandaloso! Mais tarde no debate, já perto do fim, outro lance em que Jaime Gama, arguido no processo "Apito socrático", mostrou toda a sua tendência para a equipa da casa: estava Alberto Martins a gastar tempo, tecendo loas infinitas ao goleador José Sócrates, quando do seu lado direito um seu companheiro de bancada se vira e diz: "muito bem, muito bem", aplaudindo, meus amigos, aplaudindo! O que fez Jaime Gama? Fingiu não ouvir nada e foi complacente: "faça o favor de terminar, deputado Alberto Martins". Se isto não é um roubo de Parlamento, então não sei o que é! Muito triste. Assim não vale a pena vir à política. Se é para isto que sofremos e gastamos dinheiro, quando podíamos ter ficado em casa, confortavelmente a ver o debate pela televisão, então não vale a pena.
Quando acabou o debate, ficámos algum tempo a olhar no vazio - com aquela cara anestesiada de quem acaba de ver um debate de merda e não ganhou - e à espera que os adeptos da casa saíssem. Para meu espanto vejo, no interior do semi-círculo, Sócrates e Santos Silva numa galhofeira pegada sacarem de um cigarro e começarem a fumar em pleno terreno de debate. Eu, que tinha ficado sem isqueiro e farto de andar a fumar ao frio, sempre que me decido a sair de casa e quero - veja-se a heresia - ir comer fora, questionei o segurança que, com um ar sábio e algo arrogante, me respondeu: "Devem ter fretado a Assembleia". E eu tudo bem.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

8, 44 ou 80?

Segundo os nossos caríssimos leitores, o Benfica não está em primeiro porque o Quique "percebe tanto disto como o Homer de cerveja sem álcool" - escolha que passou pela meta em primeiro, embora logo atrás (a um voto de distância) viessem as usuais desculpas de mau pagador, "fomos escandalosamente roubados".

Esta escolha é curiosa e releva bem os pontos deixados em cima da mesa há uns tempos atrás. Lembro o texto de Novembro em que, baseado na feroz votação em apoio a Quique Flores, neste poiso se pedia alguma paciência e disponibilidade para aceitar algum insucesso que chegasse no decorrer da época. Desde então ficámos sem Taça de Portugal e sem UEFA, continuamos na Taça da Liga e, no campeonato, perseguimos o Porto por um ponto e mantemos intactas as hipóteses de sermos campeões.

Olhando para a realidade actual, parece-me que a votação se baseia, mais do que na desilusão de vermos duas competições fugirem-nos, na bipolaridade, esquizofrenia e, muitas vezes, numa acentuada teimosia que Quique Flores demonstra ter nas opções que faz. O espanhol não parece querer abdicar da sua busca incessante por rotinar o 442 (que é, na prática, um 424), não vendo (ou não querendo ver) que, seguindo esse caminho, estará sempre mais perto do insucesso. Por altura desse texto, Quique emendou a mão e procurou dar solidez ao sistema, tornando-o num não-sistema. Quando se coloca Amorim à direita, dificilmente poderemos chamar aquilo de 442 clássico pelo simples facto de que aquilo não é um 442 clássico. Esta opção, elogiada por todos nós e, antes, pedida à exaustão por todos nós, deu frutos e tornou a equipa mais sólida, menos permissiva às ofensivas adversárias mas, e aqui está tudo na mesma, muito pouco capaz de desequilibrar nas áreas contrárias. Quando as duas únicas soluções do Benfica são o passe longo do Luisão para os avançados ou o passe para o Reyes e ele que se desemerde, constatamos facilmente que ao Benfica, muito mais do que um treinador, bons jogadores ou árbitros competentes, falta uma ideia. Ela simplesmente não existe, não se vêem jogadas recorrentes, movimentações repetidas, espaços procurados, triangulações ensaiadas, rotinas, dinâmicas - aquilo a que, nos anos 90, o Toni chamava de "automatismos". Não há automatismos nesta equipa, Toni. Em 9-1, 8-1-1, 7-2-1, 1-9, 1-1-8, 1-2-7 ou 442 clássico, é preciso ter automatismos.

Não é, no entanto, impossível que eles apareçam. Não sei se esta época, que está mais direccionada para um contínuo sofrimento e necessidade de títulos, mas nas próximas. Esquecendo por uns segundos a questão da importância ou não de sermos campeões, é importante, a meu ver, que não esqueçamos o passado recente e que não entremos (como a votação perigosamente parece anunciar) mais uma vez na espiral louca da mudança de treinador. Dar ao espanhol o benefício da dúvida e esperar pelo final da época parecem-me opções bastante mais razoáveis do que, de repente, pormos tudo em causa e, então aí sim, definitivamente perdermos a hipótese (que é muito real) de renovarmos o título de 2005.

No texto de Novembro pedia que o 80 não se tornasse em 8. Ainda não se tornou. Mas temo que.