Como benfiquista, considero-me uma pessoa atenta e razoavelmente inteligente para pensar uma estratégia para o clube. Não tenho formação em gestão ou em áreas parecidas, não conheço os meandros do futebol, desconheço politiquices corruptas e tenho muita dificuldade com a burrice extrema. Como é óbvio, não sirvo para gerir um clube. O que me causa preocupação, visto que, na última entrevista de Vieira, o nosso Presidente abordou os temas fundamentais da equipa de futebol da mesma forma com que este blogue os discutiu. Com uma ligeira diferença: enquanto Vieira os analisou a posteriori, neste serralho antecipou-se muitos meses antes a realidade com que hoje todos estamos deparados. E isto não diz da inteligência destes escribas; diz, antes, da absurda incompetência de quem gere o Benfica actualmente.
Se um mero anónimo sem competências nem pretensões a cargos maiores do que o maior cargo a que aspiro e transporto com orgulho, o de ser sócio do Sport Lisboa e Benfica, analisa melhor a realidade benfiquista, antecipa melhor os problemas do futuro, dá melhores soluções, identifica as falhas e propõe melhores ideias para o clube do que quem gere os destinos do Benfica, então, meus caros, há sinais óbvios de preocupação. E há, com o conhecimento profundo que temos de 10 anos da (in)competência de Vieira, a noção de que nem os erros serão identificados nem as qualidades serão potenciadas. Porque, no fundo, o que falta a Vieira é um conceito tão simples quanto complexo de pôr em prática: uma estratégia consistente no tempo baseada na inteligência, na capacidade de trabalho, na idiossincrasia benfiquista e na capacidade para reconhecer mérito aos adversários.
Discutamos, passo a passo, a entrevista de Vieira:
«Jorge Jesus merece a minha confiança e a de todos os benfiquistas. Não podemos ter a memória curta, deu-nos alguns títulos. Este ano as coisas não lhe correram da melhor maneira, é preciso tirar ilações e corrigir os erros. Tem grandes virtudes, os seus próprios defeitos, mas é um trabalhador nato, vive o projecto intensamente. Não podemos ser ingratos para quem trabalha desta maneira dentro do Benfica»
Em primeiro lugar, dizer que para mim Jorge Jesus merece fazer mais uma época no Benfica. Isso não significa, porém, que aceite que o Presidente fale em nome de "todos os benfiquistas". Esta poderá parecer uma crítica estéril mas faz sentido fazê-la como demonstração do que é normalmente a premissa de discurso de Vieira: um todos por um para que ele não seja o visado quando as coisas correm mal; se correrem bem, o discurso passa a ter "eu" em doses industriais.
Depois, as coisas não "lhe" (reparem que não LHE correram bem, não foi ao Benfica, foi ao Jorge Jesus, não foi ao Vieira, foi ao Jorge Jesus) correram bem por erros próprios, sim, mas principalmente por erros estratégicos de toda a Direcção, tanto nas acções como nos discursos.
Por último, a questão da estratégia para a escolha de um treinador: um clube não deve decidir manter um treinador porque ele "deu-nos alguns títulos" (esta época, apenas um e menor), porque "é um trabalhador nato" ou "porque vive o projecto intensamente"; deve decidir manter o treinador porque o acha competente, mesmo que não dê títulos nenhuns.
O discurso é, portanto e mais uma vez, focalizado nos pontos que nada interessam e olvida a mensagem correcta a deixar aos adeptos.
«Assumirá as culpas que tiver de assumir, eu próprio também cometi erros, e vamos continuar»
Quais culpas terá de assumir Jorge Jesus? Não sabemos. Mas sabemos que teve culpas. Já o Presidente, ele próprio (repare-se na expressão "eu próprio", que remete para uma espécie de divindade que, apesar de acima dos homens, "também" consegue ser humilde e detectar pequenas culpas, pequenos erros, embora muito menos nefastos do que os do treinador) cometeu pecadilhos. Quais? Não sabemos. Mas... "vamos continuar". Para onde?, pergunta-se. Não sabemos. Mas vamos continuar. A fazer o quê, as mesmas borradas que se fizeram esta época? Não fazemos ideia. Mas sabemos de uma coisa: vamos continuar.
«Há um percurso longo para percorrer com o nosso treinador. Se não estivesse convicto que Jesus não será o treinador ideal, não estaria cá só por estar. É minha convicção que voltaremos a ganhar com ele!»
Afirmar, depois de uma época falhada, que há "um percurso longo para percorrer com o nosso treinador" é das coisas mais imbecis que se podem dizer. Não é motivação nem confiança para o treinador, é imbecilidade pura e dura, é afirmar que, corra como correr o trabalho de Jorge Jesus, o Benfica vai continuar a contar com ele. É permitir o relaxamento e não fomentar a responsabilização e a necessidade de mérito.
Mas podemos dormir descansados: Vieira tem uma convicção. E portanto está tudo bem. Porque no passado as suas convicções (começo por qual das milhares de convicções de Vieira que acabaram no esterco?) foram convicções com sentido. Mas o discurso é inteligente, para os papalvos: Vieira acredita que voltará a ganhar, tem convicções e, como sabemos, há uma larga maioria de benfiquistas que compra as convicções do Presidente como pãezinhos quentes. E Vieira, sabendo disso e tendo por trás uma máquina que lhe debita o que deve dizer e harmonizar os corações encarnados, não perde a oportunidade de vender sonhos.
«Agora o que é normal nesta casa é que quando não se ganha entramos todos em depressão. Há uns anos, era normal. Agora, quando ganhamos, andamos constantemente em festa»
Ora cá está, meus senhores, o primeiro ataque velado aos adeptos! Palminhas, palminhas para o Presidente! É uma chatice, de facto: perdemos, deprimimos; ganhamos, andamos em festa. Se não fosse isso, esse atentado por parte dos adeptos, e Vieira poderia trabalhar de outra forma, ganhar mais coisas, sem os chatos dos adeptos ora a deprimir ora em euforias tontas. Vamos lá a ver se nos entendemos de uma vez: quando perdermos, devemos acreditar nas convicções de futuro de Vieira e não deprimir; quando ganharmos, não devemos andar em festa que é para não prejudicar os jogadores do Benfica, treinadores e dirigentes, que são muito influenciáveis e acabam a esquecer-se das obrigações. Está entendido? Ai, ai, ai.
«Criámos demasiadas expectativas. Eu próprio, também.»
A sério? Nunca pensei que dizer que o objectivo era a Champions fosse criar demasiadas expectativas. E, repare-se mais uma vez, "eu próprio, também". Ou seja: quem criou as expectativas não foi ele, foram outros. Mas ele próprio, ainda que menos, também deve ter criado qualquer coisinha. E ele próprio vem admitir isto, sim porque ele não cria expectativas normalmente, foi só a época passada e portanto agora admite que não conhecia bem os meandros do futebol e da realidade benfiquista. Afinal, só está no Benfica há 10 anos. Baby steps.
«Passámos demasiado tempo a celebrar o Campeonato.»
Extraordinário. A sério, isto é extraordinário. De uma forma assim tranquila, tu cá tu lá, vem o Presidente afirmar toda a incompetência de quem gere os destinos do clube, mas assim como se não fosse nada. "Olha pá paciência, somos uns incompetentes do caralho, cagámos nas funções para que fomos eleitos e andámos em festa, que se foda, para o ano há mais". Mas ainda deve haver quem leia nisto sinais positivos: "o Presidente admitiu que é um incompetente. Agora, sim, estamos no caminho certo!". Até porque, como todos sabemos, em 2005 não perdemos uma Taça de Portugal porque andámos uma semana a "celebrar demasiado tempo o Campeonato". Não, não, foi só desta vez. Estamos no rumo certo, agora.
«O plantel foi insuficiente para as expectativas que todos tínhamos. Veio-se a provar que não tínhamos o plantel ideal. Paralelamente, não nos preparámos convenientemente para a Supertaça, que marca o início da época desportiva. O facto de andarmos em festa constantemente distraiu-nos de como deveríamos preparar o futuro. Temos que assumir esses erros. O que vai mudar a sério é que o grau de exigência em relação a todos os profissionais do Sport Lisboa e Benfica vai aumentar. Eu próprio vou delegar muito menos»
Ah o plantel coiso e tal? Então mas... uma pergunta estúpida: quem é que constrói o plantel? Portanto, deixa ver se entendi: as expectativas eram muitas mas o trabalho para construir um plantel que correspondesse às expectativas foi pouco? Pois, compreendo. E porquê? Ah, sim, porque andávamos distraídos constantemente em festa (leram aqui mais um toque aos adeptos ou fui só eu?). Mas "temos que assumir os erros". Muito bem, Presidente. E vai mudar alguma coisa? Ah, claro, vai "aumentar a sério o grau de exigência em relação a todos os profissionais do Sport Lisboa e Benfica" - podemos então concluir que, passados 10 anos, o grau de exigência no Benfica ainda não é o máximo, é? E agora, Presidente, o que fazer? "Vou delegar menos". Medo.
«Sou o único responsável pelo que se passou esta época»
Então mas... o Jorge Jesus não tinha culpas? Os adeptos não tinham culpas? Afinal é o Presidente que toma as culpas todas? És grande, Vieira. Assume tudo, muito bem. E o que fazer por seres "o único responsável pelo que se passou esta época"? Delegas menos e fazes mais borrada. Faz sentido.
«Qualquer deles [Di Maria, Ramires e David Luiz] é grande jogador e está em grandes clubes e são todos internacionais. Mas o único insubstituível no Benfica que conheci é o Eusébio, é ele a minha marca»,
De ir às lágrimas. Esta deve ter tocado no fundinho dos benfiquistas. E o toque pessoal de Vieira? O Eusébio não é a "marca" do Benfica, é a "marca" de Vieira. Registada e tudo, logo a seguir às empresas de construção. Mas, Presidente, se ninguém é insubstituível, por que razão não vai dar uma volta ao bilhar da esquina?
[ainda sobre os trÊs jogadores] «quando se atinge determinado deslumbramento, torna-se difícil lidar, têm a ambição de ganhar mais, mais e mais».
Pois. E como no Benfica "ganhar mais, mais e mais" não acontece, porque "ganhar" cria logo uma euforia estupidificada, é melhor vendê-los. Genial.
«Há que encontrar situação de equilíbrio em que o Sport Lisboa e Benfica não seja prejudicado. E lembro que as mais-valias são significativas. Desde Simão e Manuel Fernandes o Benfica nunca mais tinha feito grandes transferências. Fiz o que acho melhor para o Benfica. Temos as contas equilibradas. Se formos confrontados, é um acto de gestão. A única coisa que posso adiantar é que vamos ser muito mais rigorosos nas aquisições»
Este excerto é o que se pode chamar de "clássico vieirista". Está lá tudo: defesa supostamente intransigente do Benfica, auto-elogio da supostamente boa gestão financeira e desportiva e promessa de mais inteligência para o futuro nas aquisições - o que, mais uma vez, faz admitir a incompetência total mas ele só lá está há 10 anos, calma. Gosto especialmente da frase: "se formos confrontados, é um acto de gestão". Eu, se matar um gajo e me chamarem a tribunal, direi o mesmo: foi um acto de gestão. Tive de gerir a minha sociopatia da melhor forma.
«Vamos mexer, lógico. Esse maior rigor e exigência para o futuro vai existir, com certeza, determinado tipo de comportamentos vão ser alterados»
Lógico que vamos mexer. Devemos a nós próprios uma carnificina no plantel campeão. Um ano depois, já foram 4 titulares. Esta pré-época tem de servir para vender mais uns 3, pelo menos. E "vai existir maior rigor e exigência", ah pois vai! E "os comportamento vão ser alterados"! Quais, Presidente? Não sabemos. Mas vão ser alterados. Desta vez só vamos comprar 20 jogadores, emprestar só mais 10 e comprar mais 5 incompetentes. Baby steps.
«O plantel também tinha algumas carências. Teremos que ser muito mais cuidadosos no plantel, e vamos ser para que não tenhamos algumas lacunas», promete o presidente dos encarnados, exemplificando com a lesão de Salvio. «Se o Gaitán se lesionar, teremos problemas também. Na próxima época isso não vai suceder», garante»
Mas esta época, em Janeiro, falámos aqui nisso, Presidente. Com o Amorim lesionado, tínhamos de ir ao mercado, não falámos, Presidente? Foi feita alguma coisa? Não? Ah vendemos o David Luiz e enterrámos a época, como aqui também se disse, Presidente, foi? Mas vocês não lêem este blogue, Presidente? Se calhar é melhor. E acabámos em Braga sem soluções, com uma defesa fragilizada e a ter de meter o Menezes (by the way, virão mais desta qualidade?) no jogo mais importante dos últimos anos? Pois. Mas comprámos um médio quando vendemos o David Luiz, não foi? Sim, mas só para a próxima época. Está certo. O que vale é que "na próxima época isso não vai suceder". Afinal, que provas temos do contrário? 10 anos? O que é isso, Presidente? Estamos todos mais que tranquilos.
«O Benfica, durante toda a sua história, é um clube democrático, prova a sua vitalidade. Sinto orgulho porque há uma liberdade bastante grande, para isso contribui, porque devolvi clube aos sócios. Não estou agarrado à cadeira, nem alguma vez estive. Estarei cá enquanto o entenderem. No dia em que entenderem que não, sairei, e com a consciência completamente tranquila. O meu sucessor terá uma herança muito melhor do que a que recebi»
Pois não, claro que não estás agarrado à cadeira. Tu até antecipaste as eleições - nesse momento histórico para o clube - para evitar que alguns abutres te tirassem da cadeira. Tudo em nome do Benfica, tudo pelo Benfica. Porquê? "Porque o Benfica é um clube democrático". Exactamente, Presidente, exactamente.
«Tenho dado o melhor que sei e pensado em prol da instituição, com um erro aqui e ali, para o bem comum. Sou um homem livre e os benfiquistas são livres para escolher o que entenderem»
Ora um errozito aqui, outro errozito ali e as coisas afinal até se compõem. Ora uma comissãozita no Roberto aqui, outra no Alípio e Rodrigo ali, ora uma construçãozita em Madrid, outra com os companheiros Salvador e Oliveira ali e sei que tens dado o melhor que sabes pela instituição. E os erros - verdade vieirista em que devemos não só acreditar mas promover - servem "para o bem comum". Leram bem: um erro aqui e ali, para o... bem comum. A conta bancária é um bem comum do Vieira, da mulher e dos filhos, não é?
«Se fizer a pergunta à minha família, a resposta é que não me recandidato. Não é a altura própria, não vale a pena estarmos a especular sobre isso. Estou cá numa missão, quero levá-la até ao fim, nunca foi homem para deixar as coisas a meio»
Mais um clássico vieirista. Ele não quer está lá, está muito adoentado, sofre do coração, a família pede-lhe encarecidamente que volte a casa, mas tem uma missão e não é homem de deixar as coisas a meio. Um herói, no fundo.
«Por minha vontade, Fábio Coentrão não sai, mas há uma cláusula de rescisão. Tudo iremos fazer para manter os principais jogadores, tudo faremos para reforçar a equipa. Queremos melhor, não queremos que as lacunas que tivemos se repitam.
Agora quem fica ou sai...»
Isto, sim, deixa-me descansado. Nunca vi Vieira deixar sair os grandes jogadores por valores abaixo da cláusula de rescisão. Ele sempre prometeu isso e sempre cumpriu. Portanto, quanto a Coentrão estamos tratados: ou batem a nota ou não há cá Coentrão para ninguém! A menos que... ah pois, como com o Di Maria e o David Luiz, apareçam propostas irrecusáveis: assim do estilo 10 ou 15 milhões abaixo da cláusula de rescisão mas com excelentes jogadores metidos no negócio e uns objectivos inexplicados aos adeptos. Porque "não queremos que as lacunas que tivemos se repitam". E depois logo se verá. Dito isto, digo "agora quem fica ou sai" e deixo em suspenso. Genial, Presidente, genial.
«Já manifestou que quer continuar no Benfica. Na altura certa de negociar, e ela há-de chegar, é natural que todos tenhamos que fazer um sacrifício para o Salvio continuar no Benfica»
Eh lá, o Presidente anda a aprender umas coisas com o Governo: se há erros próprios (assim tipo: Roberto por 8,5 milhões) e ficamos na merda, como é que mantemos os melhores? Hmmm, deixa cá ver: já sei, dizemos que tentaremos o Salvio mas só se "todos" fizermos "um sacrifício". O que é que vai aumentar? As quotas, os bilhetes ou os dois?
«Peço a todos que não comecem a gritar que vamos ser campeões. O próximo jogo é uma final, vai ser esse o nosso pensamento. Internamente é isso que se vai dizer, e toda a massa associativa deve pensar assim também. Não há campeões feitos antecipadamente, já pagámos algumas facturas caras por pensarmos assim. Tenhamos todos os pés no chão, sejamos humildes, respeitemos todos os nossos adversários, porque eles nos vão respeitar»
Certo, Presidente, só acho mal que exponha assim o Benfica em praça pública. Esse discurso não é para os adeptos, presidente, é para as reuniões que mantém com os incompetentes que lidera. Mas é capaz de ser difícil conseguir resultados quando tem gente na estrutura para quem "o Porto é uma religião". Não sei, digo eu.
«Nesta filosofia, o meu compromisso é o de que iremos ter uma equipa preparada: o próximo jogo será sempre o mais importante. Depois no fim se ganhará. Lógico que temos a ambição de ser campeões, agora antecipadamente dizermos que vamos ser campeões é que não pode continuar»
Pois não pode, não. Eu diria mais: uma Direcção que ganha tão pouco, que mente tão descaradamente aos seus adeptos, que é tão incompetente, que antecipa eleições para que a concorrência não se organize, que repete à náusea as mesmas mentiras e promessas ano após ano já lá vão 10 anos "é que não pode continuar". Mas isto sou eu.