1) Após um fim-de-semana em que os 3 principais clubes ganharam os seus jogos e mantiveram o campeonato ao rubro, a conclusão óbvia - para quem quiser ver para além dos óculos de cabedal - é a de que o Benfica só não será campeão nacional se for muito incompetente.
Mesmo jogando de uma forma que não potencia ao máximo a qualidade dos jogadores que tem, o Benfica passeou-se pelo relvado, criando situações de perigo em catadupa e apenas impedido de ter ganho por números históricos porque o excelente centro de formação de árbitros deu mais um rebento ao futebol nacional. Mas a fluidez, a subtileza, a forma simples como a equipa arranja caminhos para a baliza, mesmo "desfalcada" de Javi, Witsel e Nolito, é o garante de que, se houver competência, em Maio o país estará outra vez inundado de vermelho e branco.
Claro que para isto contribuem também as fracas prestações que vamos vendo dos rivais mais directos. Em Coimbra, mais uma prova cabal da incapacidade colectiva do Porto. Sim, ganharam por 3-0, mas isso deveu-se basicamente ao facto de o jogo ter sido contra os casados do Monte Formoso, ainda por cima treinados por um rapaz que anda a ver se agrada ao dono de tal forma que acaba em experiências futebolísticas contra o campeão nacional. Não resultou para Pedro Emanuel. Uma pena. Mas ele tem uma explicação:
«A imagem da primeira parte não é a da Académica que queremos, assumo a responsabilidade, os jogadores fizeram exactamente o que lhes pedi, não fizeram o que é normal fazermos, assumi uma estratégia que não foi a ideal»
Está certo, Pedro. Podes contar com um tacho daqui a uns meses pelos bons serviços demonstrados.
Por outro lado, anda para aí uma loucura com o anão que, de repente, se pôs aos saltos a querer entrar no jogo dos adultos. Até o Presidente, sem que nada tivesse a ver com a conversa, veio dizer que o dele é que é o grande clube. O que ele ainda não percebeu é que ninguém quer saber do que ele diz.
E assim é também com o futebol: os lagartos andam doidos, todos molhadinhos por terem defendido estilo autocarro durante 70 minutos um resultado contra uma equipa que está morta mas ninguém ainda a avisou. Ter passado o tempo todo atrás, cheio de medo de um Vitória que não assusta nem o Luís Campos, é o que para os sportinguistas quer dizer que vão ser campeões.
Eu digo-vos uma coisa: eu andava com pena deles, porque neste último ano tenho visto a montanha russa entre o desespero que sentem quando se dão conta do clube de que são adeptos e a euforia que advém de terem consecutivamente algo a que não estão habituados: vitórias. Mas a pena passou-me depois de ter assistido à arrogância com que esta gente se pavoneia só porque estão - veja-se bem! - a 3 pontos das melhores equipas. Como eles agora dizem: é isto o Sporting. De facto, é isto: um clube de frustrados, que de tão pouco habituado ao sucesso, inventa números imaginários sobre os títulos conquistados (já passou um mês e ninguém sabe explicar; embora todos saibam escrever "16.000 títulos" e acreditarem nisso) e acha que vai ser campeão porque ganhou em inferioridade numérica a uma equipa em estado de putrefacção.
A realidade futebolística, a péssima forma de defender que a equipa tem, o anormal do Rinaudo - a quem, após ter visto o seu primeiro jogo de pré-época, augurei muitos vermelhos e amarelos e não me tem desiludido, tal é a estupidez e a violência gratuita do argentino -, o facto de o Sporting, quando apanhar uma equipa decente pela frente, vir a levar uma goleada das antigas, não contam para estes adeptos em estado de demência. Mas, dizia, não tenho pena deles. Merecem. Merecem tudo, tal é a petulância com que se enchem de ares. Em Janeiro, vai dar-me gozo ver o cabeção desta gente, quando estiverem a 10 pontos da liderança - a juntar aos 64 das últimas duas épocas. Depois lá terão de ir ver mais jogos de futsal.
2) Vieira dá recados a Jesus em praça pública? Este, quando não há problemas, quer inventá-los. E, por favor, ó Filipe, deixa as ironias parolas para o rei delas. Fecha a matraca e deixa-te estar quieto no teu lugar.
3) Muito por culpa do Diego Armés - pessoa a quem dou algum crédito na arte de avaliar jogadores - dei tempo ao Emerson para que fizesse da minha opinião negativa uma mais optimista. Tenho pena, mas ela manteve-se bastante negativa. Não dá um décimo do que o Capdevila daria a esta equipa.
4) Vitórias em Basquetebol, Futsal e Andebol (coça monumental ao ABC). Bom fim-de-semana e um golo de Joel Queirós que é de tosco.
5) Anaís Moniz sagrou-se campeã nacional de Triatlo. Mais um a juntar aos 500.000 títulos do Benfica. E em Abrantes, ainda por cima!
Nesta semana ouvi falar tão bem de Bruno Esteves, o árbitro do encontro Benfica-Paços de Ferreira, que me agarrei à ideia utópica de que havia bons árbitros em Portugal. Mas tudo depende da perspectiva de onde se olha. De facto, Bruno Esteves é um bom funcionário. Daqueles que lembram os colegas do liceu que faziam os trabalhos de casa, os nossos projectos de grupo e, no fim, assinavam o nosso nome, não sem antes mostrarem a cara que desaprovava o nosso comportamento altamente repreensível por termos passado o tempo comunitário a beber cervejas e gold strike no bar esconso em vez de darmos ao grupo a nossa mais integral inteligência. Bruno Esteves, dependendo do ângulo de onde se olhe, esteve muito bem. Direi até: esteve sublime. Uma arbitragem ao melhor nível do que se lhe exige, se o que se lhe exige é foder a torto e a direito o Benfica. Mas não foi nada de especial. Afinal, ponhamos em fila pirilau as suas acções:
- Golo mal anulado a Cardozo; - Fora-de-jogo mal tirado a Bruno César que, isolado, se preparava para atirar para as redes; - Penálti não assinalado por mão do jogador do Paços; - Penálti (outro) não assinalado por mão do jogador do Paços; - Não marcação de passe intencional de um jogador do Paços para o seu guarda-redes, na linha da pequena-área.
Lista gira, não é? Podem juntar o penálti altamente kafkiano marcado (claro) a favor do Paços e temos aquilo que se pode nomear uma arbitragem 5 estrelas. Pelo menos para Reinaldo Teles, que via o jogo entre ucranianas de pernas longas e bebia uísque importado da Escócia, onde, dizem, fazem do melhor líquido que pode haver. Não, está certo: Bruno Esteves cumpre os requisitos. É um excelente árbitro. Até já há quem diga - muito sem escrúpulos - que conhece as maravilhas de Ipanema em viagem gratuita. As coisas que as pessoas são capazes de dizer. O que se sabe - sabe? - é que Bruno Esteves mantém o seu traseiro afastado da Madalena. Entende-se: são tempos difíceis. E depois a tecnologia hoje permite outros desvarios. Faz bem Bruno Esteves. Um árbitro que viaja muito.
Também vi Jesus acolitar os seus pensamentos no gesto comum daquele 442 anémico. Sim, é um facto que Jorge apela sempre ao seu umbigo e vai levando o cotão até ao fim. Depois retira-o, todo contente, e sente que a culpa foi, claro, da t-shirt.
Uma vez Gaitán, mil vezes Gaitán. Até alguém lhe esfregar nas fuças que pelos vistos é jogador do Benfica. Uma surpresa quando acontecer mas que é preciso normalizar, não vá o rapaz pensar que ainda está na casa-de-banho a chutar o sabonete contra os ladrilhos da banheira.
E há Nolito, esse ser que pontapeia os jogos à bordoada e os aniquila. Um chato. Tem de ficar no banco, se possível de cobertor no colo para não levantar ondas de calor.
Também há Matic, mago interior que, com Jesus, está na função de encantador de serpentes. Desconhece tal função mas tenta. E normalmente tenta mal.
E eu sou muito exigente - logo, mau benfiquista. Mas aqueles 20 minutos finais, enfim, como dizer? custaram-me na alma. É que no coração tenho outra ideia, menos dada à volatilidade que advém de ver gente do Benfica a pensar no churrasco de Domingo. Coisas tão minhas, tão minhas, que estive para saltar o fosso que não existe e encher o Garay, o Emerson, o Maxi e o Gaitán de beijos com os nódulos das mãos. É pena, porque dói muito e nem sempre vale o esforço.
Não somos bem uma equipa mas há tantos guerreiros de Aquiles que vamos andando. Até um dia. Até hoje.
- Morreu Duda Guennes, um dos poucos que mantinha "A BOLA" num estado levemente superior aos restantes concorrentes. Inteligente, cínico, céptico, sonhador, certeiro, carregado de humor e uma escrita apelativa, foi sempre um dos pontos altos da minha leitura desse jornal que já não compro há ano e meio. Ficarão as memórias das crónicas em livro para quem quiser. Menos um dos bons.
- O Benfica alienou parte dos passes de Gaitán, Jara, Nolito, Bruno César e Garay ao Fundo de Investimento. Se compreendo a necessidade de algum retorno financeiro e a natural obrigatoriedade de dar ao Fundo algo com que o mesmo se sinta ressarcido no "risco" que corre, há, por mais voltas que dê, negócios incompreensíveis:
2 milhões de euros por 15 por cento de Gaitán? Ou seja, para os responsáveis do Benfica, o argentino vale menos de meio Coentrão, é isso?
600.000 euros por 10 por cento de Jara? Pensei que o empréstimo fosse uma aposta segura na qualidade que no Benfica se acredita que o argentino tem. Pelos vistos, não. Vale 6 milhões de euros. O mesmo que custou.
Vende-se logo 20 (!) por cento do Nolito, um jogador que explodiu nos primeiros meses e que, a não ficar no Benfica, poderá sair por valores muito acima da média? E vende-se por... 1,3 milhões de euros? Então o rapaz vale só 6,5 milhões de euros? Não dá para entender estes negócios. Claro que virá alguém dizer que o espanhol chegou a custo zero e que por isso o negócio é genial. São formas de ver as coisas. Eu acho que, se fazemos um bom negócio, devemos potenciá-lo ao máximo e não pensar de forma rasteira. Mas se calhar eu sou um mau benfiquista.
Bruno César, jogador com uma margem de progressão fantástica (e já hoje uma certeza clara de que tem qualidade), vale 7 milhões de euros (1,035,000 euros por 15 por cento do passe)? Ok.
Garay - 1.175.000 euros por 10 por cento - é o único que faz sentido nesta negociata. Por outro lado, chegam notícias de Espanha de que, afinal, o Benfica não deu 5,5 milhões de euros mas 13 pelo internacional argentino. Do Benfica, ainda não se ouviu palavra. Talvez se compreenda melhor assim o porquê de ser o único negócio que parece defender o Benfica nesta troca de interesses com o Fundo. Ou então não.
- Capdevila não serviu para a Champions nem serve para sentar o rabo no banco num jogo contra o Paços de Ferreira na Luz. A sério: já é tempo de alguém explicar aos adeptos, especialmente aos sócios, que novela é esta. É que o homem veio contratado por vários motivos que os dirigentes benfiquistas deram e não cumpriram. Além disso, não deve estar a ganhar pouco. A convocação de Luís Martins é a prova final de que o espanhol não entra nas contas de Jesus. Mais uma vez, ficamos sem saber porquê.
- A renovação de Maxi Pereira é algo que vai acontecer nos próximos dois meses? Não querem esperar pelo último dia? Sempre a deixar os adeptos naquela roda-viva da emoção, estes malandros.
- Continuo à espera que alguém do Sporting me explique os 16.000 títulos. E já lá vai um mês. É fodido.
- No 5º aniversário do Caixa Futebol Campus, o Benfica organizou o torneio Youth Cup, em que participaram os escalões de iniciados, juvenis e juniores. Os nossos putos despacharam a concorrência (e que concorrência!) em todos os jogos e venceram o caneco. Os resultados foram estes:
Primeiro dia:
Iniciados: Benfica - 2 Barcelona - 1
Juvenis: Benfica - 3 Real Madrid - 2
Juniores: Benfica - 3 Fulham - 1
Ora, isto só quer dizer uma coisa, usando de uma lógica batatal muito pouco fiável: daqui a 5, 6 anos - e, a partir daí, por 10 anos consecutivos - seremos campeões europeus.
Se há coisa que não aceito de ânimo leve é a displicência pouco profissional dos jornalistas e quejandos bípedes relacionados à imprensa escrita. Em Portugal, é um açoite sempre que se compra um jornal.
A pessoa, imaginemos, situa-se no jardim do Campo Grande, sentada num banco de madeira, olhando as árvores, os fumos, as cadeiras-de-rodas e a rotunda de Entrecampos. Passa-lhe pela cabeça abrir o jornal que tem no colo, nem que seja como escape pelo facto de estar farto de olhar para coisas mortas. Enche-se de brios, abre a primeira página e logo avança pelo esófago aquele refluxo próprio de quem andou na noite anterior em difusas e alcoólicas experimentações.
É isto que ocorre sempre que um homem decide ler as crónicas dos especialistas - uns, profissionais do ofício, dissertam em modo poético-paulocoelhiano sobre as mesmas metáforas que há 50 anos fizeram as alegrias dos gajos que ainda viam Lisboa pelo cano de escape do cu de um burro; outros, mais néscio-sábios, alvitram conhecimentos científicos sobre coisa nenhuma, embora haja quem os idolatre como uma donzela de Oeiras idolatra o Bacalhau com Natas. "É uma delícia", dizem, e o mundo todo se encolhe e mirra ao passar da estupidez ao desespero sem boca. Sim, esta é do O´Neill, mas esse fica no reino dos deuses para que se não confunda no cheiro desta avenida de pútridos, pífios, cheiros tóxicos.
E estamos nisto: um homem abre o jornal, vomita, limpa o ranho, a baba e o resto de feijão verde à manga do casaco e volta a ler para ter a certeza de que leu mal.
Entretanto, no Bairro Alto, na Conde Valbom ou na Cedofeita, homens de calças-bege e ténis moderníssimos, escrevem tratados de jornalismo que fazem Cláudio Ramos corar de júbilo e bater duas punhetas seguidas em frente ao televisor que por esta altura está a passar o "Project Runaway".
É muito isto e não é nada disto: o jornalismo desportivo em Portugal existe, sim, mas na careca encardida de Alexandre Pais, homem de tal forma sublime que, de entre dois candidatos, fez o seu jornal acertar no errado, embora tenha passado a noite no twitter em louvores ao erro crucial. Sim, o jornalismo português louva o erro como nutella: cremoso e achocolatado. Com, dizem, laivos de nozes. Melhor faria Pais se enchesse o brilho da carcaça saliente com o dito produto. E pronto, ficava tudo bem ali, ao som de matraquilhos numa noite de aldeia. GOLO! E afinal a bola tinha ido ter ao colo da Dona Gertrudes que fazia mais um casaco de inverno para os netos que têm 40 anos.
Vai nisto e temos os franceses. Chegam de mansinho com Roqueforts e acabam em Bries, Camemberts e Moelleux du Revards. Ninguém percebe. Inventam coisas estranhas: desde uma corrida em bicicleta pelo país, em que participam os maiores génios drogados que este mundo já viu, até jornais desportivos. Alexandre Pais, quando soube que existia um tal de "L´equipe", enviou especiais enviados ao país das gordas professoras de "La grande bouffe" e de psicadélicos animais de Godard, e ficou na sua casa de Marvila a fumar cigarros electrónicos porque a saúde, a saudinha, é uma coisa muito preciosa.
De lá vieram, incrédulos, os energúmenos com queixas altamente legítimas: parece que por lá, pelas Franças, se fazia uma espécie de jornalismo decadente: dizia-se a verdade. "Horrível", exclamou Pais, entre lentilhas e um Kebab delicioso que havia comprado, porque é pela universalidade da espécie, num pequeno poiso nos Anjos, enquanto lia trechos de Olímpio Bento e dissertava sobre a beleza da escrita deste que foi surripiado pelo jornal concorrente: "Este Olímpio é que era, pá, precisamos de lamber mais os túbaros dos porcos!" e ria-se de forma bizarra, enquanto coçava os próprios num gesto que, na volta, trazia cheiros fétidos de noites passadas a ver as TeleVendas.
Dos franceses, diz a História, Pais e Serpa não gostam. São pouco dados à ficção. Melhor seria que se aventurassem pelos mundos apocalípticos das quezílias-quintenhinhas lusitanas. E portanto Pais e Serpa (e os outros que andam ainda a lamber os túbaros uns dos outros) não gostaram nada da lista que os franceses avançaram nos dias que correm sobre os maiores clubes europeus:
1. Real Madrid. 483 pontos
2. Milan, 330
3. Bayern, 288
4. Barcelona, 250
5. Liverpool, 237
6. Manchester United, 229
7. Ajax, 220
8. Benfica, 217
9. Juventus , 215
10. Inter, 184
(...)
11. FC Porto, 138
48. Sporting, 39
Dizem, muito legitimamente, que o estudo estará mal construído, que peca por ausência de credibilidade e informação, que as Supertaças nacionais e os títulos conquistados a troco de familiares e matrimoniais aconselhamentos deveriam, claro, construir a pirâmide que elege os que, de facto, constroem coisas pelo país.
Eu concordo: acho ultrajante não ter em conta a extraordinária competência na arte do putedo ou os milhares de consagrados 20ºs lugares em estafetas de Telepizza.
Longe da vista, nunca do coração, nestas últimas três semanas vivi o Benfica pelas entranhas. Sem saber de resultados, sem ver jogos, desconhecendo os marcadores dos golos, se os houve, o clube atinge-nos onde dói e simultaneamente nos sabe melhor: na alma. Sem cores, som, olhos, resta-nos a redescoberta de um sentimento de infância: o clubismo sem explicação. Amo-te muito, Benfica.
As razões para tão grande afastamento são claras: a propositada ausência que me impus da modernidade tecnológica mais básica; um amigo que, tendo ficado encarregue da missão ultra-importante de mensageiro de golos, umas vezes se esqueceu, outras ficou sem saldo; a desesperante falta de interesse no futebol português além-fronteiras, facto mais que provado na inexistência de qualquer notícia, mesmo que de duas linhas, sobre este nosso campeonato no excelente Gazzetta dello Sport - Holanda, Rússia, Escócia, Roménia, até Hungria mereceram, mesmo que timidamente, uma ou outra referência na página sobre futebol internacional. De Portugal, zero. Fica para reflexão.
Por isso, podem adivinhar a sede de bola com que cheguei ontem à 11:10 ao Aeroporto de Lisboa. Pensei em ir ver um jogo qualquer de infantis, desde que uma das equipas envergasse camisolas vermelhas, só naquela de ficar mais próximo de assistir a uma bola pontapeada por jogadores vestidos à Benfica. Mas descobri, no café do Bairro, duas coisas: que tínhamos empatado no Dragão (o que, não sendo fenomenal, me deixou surpreendido - essencialmente, por aquilo que o Armando relata em posts anteriores, compreenda-se) e que havia jogo na Roménia. Estava, portanto, o dia preparado para uma ressaca de viagem em grande.
E, de facto, apesar de o resultado ter sido escasso, não pude ter melhor recepção: o Benfica está a jogar muito mas muito à bola. Falta-lhe só - e talvez tenha sido pontual, não sei, estive afastado - definir melhor os infinitos lances que cria de superioridade ofensiva. Não falo só do remate, mas dos dois, três passes anteriores à possibilidade de golo. De resto, uma delícia: segurança na defesa, circulação de bola exemplar, criação de espaços, apoios frontais, transversais, planetários, bola corrida, rápida, procura das laterais, mudança de flanco. Tudo. Esta equipa está muito bem trabalhada pelo nosso mister e, se continuar a evoluir, pode ser que o meu pessimismo com que parti para Itália se desvaneça e nasça em mim um homem novo, cheio de esperança.
Ontem, admito, deliciei-me. E era só isso que eu queria quando chegasse a casa, após longo interregno. Ontem o Benfica recebeu-me com música, descalçou-me os ténis, massajou-me os ombros, fez-me um prato fabuloso, serviu-me um copo, acendeu-me um cigarro e aninhou-se-me nos ombros. A minha pátria é o Benfica.
E não é que o Sérgio tem razão? Toca a andar que há mais vida para além da paranóia sportinguista.
Umas coisinhas sobre o Porto – Benfica, desde já avisando que não sou muito dado ao desmanchar das carcaças. O jogo foi um parto muito difícil e apesar dos cinco novos jogadores lançados de início, seria difícil esperar que a equipa conseguisse escapar à memória colectiva e esquecer a época anterior, particularmente os 5-0. Toda a primeira parte, sem menosprezar o valor do adversário, foi o espelho desse estado de alma. Felizmente, a equipa esteve bem, nunca se desconjuntando na organização defensiva e sobreviveu.
A segunda parte foi muito diferente, a equipa melhorou muito, em termos qualitativos e nesse aspecto foi muito superior ao adversário, exemplos são os dois golos e mais uns calafrios oferecidos aos adversários.
Resumindo, acredito que o Benfica tenha crescido competitivamente, dentro e fora do campo, no corpo e na mente. Podem acreditar, jogar nas instalações portistas e sobreviver, qualquer que seja a modalidade, é mais que difícil. Já estive em estádios onde o apoio às suas equipas não anda longe do fervor religioso, indefectível. Jogar nas “casas” portistas, a hostilidade e o ódio são quase sensações físicas. Por muito que os atletas sejam mentalizados para tais ambientes, eles nunca estão preparados, tal o espanto da coisa.
Foi muito mais que um jogo, diria que foi uma batalha ideológica e o facto tornou-se visível depois de o jogo terminar. Desde logo duas ideias: a diminuição do Benfica – jogar para o ponto – e a arbitragem, nomeadamente na palhaçada do uruguaio. Este está há vários na “casa”, sabe como funcionam as coisas. Noutra ocasião, o árbitro Jorge de Sousa teria posto Cardozo na rua – lembram-se da expulsão do paraguaio em Braga, no balneário? — o uruguaio, sabendo-o, lançou o isco. Que Jorge de Sousa não tivesse mordido, pode ser um sinal da complexidade dos tempos que vive o futebol português.
Outra questão foi a irrepreensível actuação da PSP portista, cuja passividade e colaboracionismo anteriores patrocinaram as calorosas recepções proporcionadas aos benfiquistas. Também aqui parece haver algo de diferente, talvez resultante da mudança de ciclo político e das condições vividas no país.
Venho aqui ao tasco depois de uns dias de ausência, leio um texto interessante do Armando sobre uma palermice que todo o sportinguista já arremessou contra um benfiquista, e depois abro a caixa de comentários de ambos os posts…e epá…get a life!
Vamos fazer um “what if”. Vamos então admitir que o Sporting é mais antigo que o Benfica. OK! Ganharam. São mais antigos. Uhuhuhuh!! E agora, são melhores por isso? São mais alguma coisa?
Alguém nos comentários falava de antiguidade, e do prémio para o clube mais antigo. Onde é que está o primeiro clube a ser fundado em Portugal (ou Lisboa, não sei bem o que se está aqui a discutir…) Ou vão argumentar que o Leyton Orient F.C. (1881) da Division One é maior clube/mais importante que o Arsenal F.C. (1886) ou que o Sporting ou o Benfica?
Sinceramente, get a life!
P.S.: Sportinguistas, se querem mesmo, porque querem e precisam, defender a vossa superioridade sobre o Benfica, façam como o porto e ganhem mais títulos que nós (títulos de futebol, que afinal, um momento de sinceridade aqui, é o que se discute, right?). É que ao menos o porto já tem por onde pegar, algo real e concreto, por oposição a um azucrinar completamente demente que é essa coisa da data de fundação e dos 16.000 títulos e não sei mais o quê…
Caro MM, a questão da data de fundação do SLB, é importante apenas para o SCP. Trata-se, da necessidade, ideológica, de estabelecer quem é mais antigo no futebol português. Ora, sabe-se que o SLB não foi um clube “prenda”de um ricaço a um neto ou bisneto ocioso. Consulte-se, no site do Sporting, a seguinte afirmação: “Vou ter com o avô e ele me dará outro clube”, quando concluiu que os compinchas de Belas estavam mais interessados na componente de festas, bailes e saraus do Belas e nada no futebol. Assim nasceu o Sporting e da genética resultaram consequências visíveis na importância da fundação do SLB, o qual, como é conhecido teve uma génese completamente diferente, feita de militância, sangue, suor e lágrimas. O SLB tornou-se uma obsessão para o SCP, por razões que só a psiquiatria pode explicar. A data da fundação, a sua data concreta é uma questão importante no campo dos princípios, afinal trata-se da paternidade mas, mais importante que a data de nascimento, é sabermos de quem somos filhos, pelo menos para mim. Podem dar as voltas que quiserem, fossar na angústia existencial, o facto existe, indiscutível: o SLB é o filhinho do papá e este chamou-se Sport Lisboa e se herdou bens de uma tia rica, o GSB, isso é um pormenor. E não tenho qualquer dúvida que essa angústia existencial tem a ver com a inconsciente certeza, adquirida logo no início, que seriam sempre segundos: o SLB era o clube dos novos tempos, o SCP representava os valores de uma baixa aristocracia decadente e parasitária. Como fantasia, a tese sportinguista é aceitável, o problema é a realidade histórica, reescrevê-la é um exercício inútil. Fora sportinguista e preocupar-me-ia com outras questões: o facto de já não serem segundos e o porquê de há muitos anos o SCP já não ser “o” rival do SLB. Estas sim são questões importantes.
Mais tarde abordarei outra ficção: o sportinguismo de Cosme Damião. Cumprimentos. Armando
Quando há tempos escrevi sobre os “noyaux”, não imaginaria regressar tão depressa à antropologia cultural do micro mundo sportinguista e das pequenas chatices. E como Ricardo está indisponível, alguém tem que tratar do expediente, segurar as pontas, como soe dizer-se.
Trata-se da data de fundação do Sport Lisboa e Benfica, uma espécie de esqueleto que, segundo os sportinguistas, guardamos no armário do imaginário benfiquista. Segundo eles, o Benfica foi fundado em 1908 e não em 1904. Nesta última data foi fundado o Sport Lisboa, afirmam, coisa muito diferente do Sport Lisboa e Benfica que surgiu em 1908, em consequência da fusão com o Sport Clube de Benfica. Deixando de lado, a importante questão de saber se foi uma “fusão” ou uma “absorção”, é esta a lógica sportinguista e assenta numa premissa “irrefutável”: com a fusão desapareceram as entidades até aí conhecidas como Sport Lisboa e Sport Clube de Benfica e surge uma entidade nova, o Sport Lisboa e Benfica, logo o ano de fundação foi 1908. Simples, não é?
Esta ficção em forma de teoria pode parecer um preciosismo e não é, afinal trata-se de afirmar o direito de progenitura sportinguista no futebol da capital.
Esta reivindicação resulta de uma conveniente confusão entre “entidade” e “identidade”. Sendo indiscutível que em 1908, desapareceu a entidade identificada por Sport Clube de Lisboa, incorporada, fundida ou absorvida pela entidade Sport Lisboa, que além do espólio da referida extinta, falecida de morte natural, incorporou na sua identidade a referência geográfica “Benfica”, lugar onde passou a residir. Portanto, se a entidade Sport Lisboa, agora com nova identidade, continuou a existir, como pode falar-se em “fundação”? Já para não falar que a entidade conhecida pela nova identidade Sport Lisboa e Benfica, manteve tudo quanto era do Sport Lisboa: o emblema, ao qual acrescentou uma roda de bicicleta, tributo à falecida, a divisa e símbolo, além das cores, na bandeira e no equipamento, incluindo a sua estrutura associativa e dirigente. Resumindo, a entidade manteve-se, alterando apenas a identidade.
Esta questão, mais estúpida que absurda, poderia conduzir, a seguir-se a lógica do raciocínio sportinguista, à reinvenção de uma nova data para a fundação de Portugal. Aprendi que em 1143, com o tratado de Zamora, o país terá adquirido o estatuto de reino independente. Por comodidade, admitamos que já com a denominação “Portugal”. Só que o futuro revelava algumas chatices: em 1189, Portugal conquista o Algarve 1, com a tomada de Silves e em 1249, o resto algarvio, o Algarve 2, com a tomada de Faro, passando a chamar-se “Reino de Portugal e dos Algarves”. Estão a perceber, a História é uma aldrabice, Portugal foi fundado em 1249 e não em 1143! Tal como o Sport Lisboa e Benfica, fundado em 1908 e não em 1904.
Por pura diversão, eis outro absurdo: a minha companheira, através de um acto de registo notarial, aceitou incorporar na sua identidade o meu apelido. Será caso para dizer que a fui “pescar” à maternidade no seu dia de “fundação”?
Tenham juízo, que diabo, não é assim tão difícil compreender a diferença entre entidade e identidade. O engraçado é que muitos benfiquistas também parecem enredados nesta incompreensão, dando importância a uma pequena intriga. A entidade Sport Lisboa, mais tarde conhecido por Sport Lisboa e Benfica, foi fundado em 28/02/1904 e do facto existe o respectivo registo, o resto é o complexo de inferioridade e a frustrada tentativa de afirmação de uma progenitura que a História recusa, pesem as cabriolas e habilidades administrativas.
PS. As minhas desculpas por tantas repetições, foram necessárias para dar uma certa ênfase à demonstração.
Maxi – Por vezes faz uma ou outra falta desnecessária, o que me irrita profundamente, mas a entrega, e a capacidade que teve de ajudar o ataque, fazem esquecer esses pequenos erros. O Maxi de sempre!
Luisão – Adoro a ideia deste homem ficar 13 anos no benfas. Grande, no campo, no estádio, em casa, para todos transmite garra e vontade de os comer.
Garay – Boa companhia ao Luisão, não me apercebi de falhas relevantes.
Emerson – Não tem qualidade para o Benfica, muito menos para a CL. Não compreendo a atitude de JJ. Cometeu uma infantilidade inacreditável entregando a bola ao adversário ainda na nossa defesa, quando tentou fazer um drible (coisa que nunca devia de tentar na vida!). Um embaraço, um cromo a destoar totalmente.
Ruben Amorim – Cumpriu, mas em muitas situações ficaram expostas as suas limitações. Mas bolas, com o que tem jogado, entrar assim no onze para defrontar o MU não é fácil.
Javi – Adoro. Patrão. Este é dos poucos que quer ganhar sempre, custe o que custar.
Witsel – Não posso dizer que esteve mal, mas esperava mais dele. JJ devia de fazer umas alterações ao meio campo, que beneficiariam muito a Witsel e Aimar, mas ele não quer…
Aimar – Desgastou-se muito sem bola, e na primeira parte foi mais individualista do que costuma (devia) ser. Mas Aimar é Aimar, e para mim é sempre uma dádiva!
Gaitán – O Bom, o Mau e o vilão. Este gajo é tudo num só e irrita-me solenemente. Irrita-me porque tem tudo para deslumbrar. E sim, teve pormenores deslumbrantes, o mais importante deles o enorme passe de trivela para o Cardozo marcar. Mas também foi ele que perdeu a bola no golo do MU, e em muitas outras situações, em que arrisca só porque sim, ou quando deixa aos outros o trabalho de recuar, de recuperar. A minha convicção é que uma equipa de top não se pode dar ao luxo de ter um jogador com essa atitude. Ele julga que basta fazer o que faz, o que talvez seja culpa do JJ. Certo é que se fosse eu a decidir iria muitas mais vezes para o banco.
Artur – Coloquei aqui o Artur porque só agora me lembrei dele. Está tudo dito. É fantástico não pensar no guarda-redes.
Cardozo – Que grande exibição - não foi só o golo, que foi brutal, mas também tudo o resto. Quem segue este blogue sabe que eu tenho um pequeno problema com o Cardozo, mas ontem fez tudo aquilo que tenho dito que não faz. Ainda bem, ontem adorei estar mais enganado do que o zezé camarinha num bar gay! Para mim, o melhor em campo - e está tudo dito.
Nolito – Entrou bem, tendo ficado clara a sua influência em novo período de domínio do Benfica. Pena as oportunidades falhadas, mas o GR do MU não estava a brincar.
P.S.: Estou satisfeito, é claro que estou. Mas fiquei com a sensação que o MU estava também a pensar no Chelsea. Não foram só as mudanças no onze; tenho a sensação que se o jogo fosse a eliminar, se fosse realmente importante, teriam engrenado outra velocidade.
Às vezes pergunto-me: Se o Benfica está a viver as melhores épocas e a praticar o melhor futebol dos últimos 15 anos, porque é que estou sempre a criticá-lo? Porque esta insatisfação, que tantas vezes transparece neste blogue…
Julgo que a razão está no adversário. Neste caso o porto.
Nunca como agora senti tanta diferença entre as duas equipas. Talvez porque antes tinha análises menos racionais, mais emotivas. Mas mais do que isso, porque o porto não costumava ser assim tão bom. O porto do jesualdo era fraco, teve (tem) uma estrutura que por competência mas também corrupção conseguia potenciar o seu rendimento. E como jesualdo temos muito outros treinadores e plantéis, mais ou menos banais, que atingiram patamares de sucesso que não correspondiam ao seu valor. São outras histórias e vocês benfiquistas estão cansados delas. Houve a epifania Mourinho, mas mesmo aí o Benfica estava numa fase ascendente, aquele equipa do Camacho fez coisas interessantes e o Benfica vinha dum buraco enorme e sentia-se a equipa (clube) a crescer.
Agora não.
Neste momento do nosso futebol a palavra mais importante parece-me a competência.
O porto é das equipas mais competentes do mundo. Tão competente que transcende o real valor dos jogadores, que não considero assim tão extraordinário.
A minha enorme frustração, e a origem de tantas críticas é a falta de competência do Benfica.
Temos um plantel formidável. Estamos pelo menos ao nível do porto nesse capítulo. Com a mesma competência estaríamos ao nível dos melhores da Europa. Porque é isso que o porto é neste momento.
Não é só competência táctica, é também a competência de se ser profissional. O exemplo mais gritante é o Gaitán. Talvez o maior artista do nosso campeonato, mas claramente um incompetente, pouco profissional, um cancro que mina a integridade do órgão vivo que deve ser uma equipa. Compare-se James e Gaitán. Que diferença de atitude. Essa diferença vem de cima, essa diferença chama-se competência – do jogador, treinador, equipa técnica e direcção. Todos têm culpa no facto de Gaitán não ser tudo o que podia ser.
Por tudo isto acho que o Benfica vai perder hoje.
Logo agora, que poderíamos ganhar. Ganhar quase sempre. Sim, porque mesmo que ganhemos hoje será um fogacho, uma transcendência temporária, porque logo chegará um empate displicente na liga, ou uma eliminação incompreensível na taça.
Pela primeira vez sinto o porto muito superior, sem encontrar justificação para não estar nesse patamar. E é nesse patamar que deveríamos estar, que merecemos estar, essa glória de campeonatos conquistados e noites europeias inesquecíveis, míticas, em que as camisolas escarlates vergavam tudo e todos, tantas vezes que se chegava a tornar hábito.
Pela primeira vez, parabéns ao porto. Enorme competência.
P.S.: Ok, admito que ainda acalento a esperança de vitória, hoje e sempre; mas é só coração, que se recusa a ver o óbvio…
Há muitos anos atrás, ainda o chato do José Nicolau de Melo - que no Facebook pede abraços, ainda que mudos - tinha orgasmos em directo com os passes do Bobó para o Ricky Owubokiri, a equipa de infantis do Benfica de Abrantes saiu do famigerado Campo do Bairro Vermelho para aquele que seria um dia épico, provavelmente o mais épico de todos os dias que o clube viveu.
Para minha fortuna, eu presenciei este episódio de perto, visto que era um dos 10 putos que ia na carrinha do clube, de estofos rotos, vidro partido, motorista – que era simultaneamente Director-Desportivo, enfermeiro, empregado de limpeza e churrasqueiro - e algumas letras do nome do clube desaparecidas, metamorfoseando-nos nos jogadores do “Sor Arates e enica”. Os outros 8 foram no carro dos pais, recebendo quilómetros a fio os conhecimentos futebolísticos da família – “Zé, tu agarra bem o gajo, não o largues”; “Paulo, quando chegares à zona da grande área, rematas, não passas a bola a ninguém!”; “Ouve o teu Pai, Toninho, não oiças o que o treinador diz, começas a correr, vais à linha e cruzas”, conselhos que o Mister Bragança detestava ouvir durante o jogo, quando os pais dos atletas, propositada e arrogantemente, cantavam, encostados à estrutura de ferro e banco de madeira e que os aprendizes atiravam fora como atiravam a Gorila de Laranja quando começava a azedar.
O caminho levar-nos-ia ao campo pelado do Vila Nova da Barquinha, terreno mítico - já na zona exterior da vila, apenas circundado por um recinto onde se assavam frangos, se bebiam toneladas de vinho e onde as velhas levavam o bigode a molhar os beiços na aguardente medronheira que sempre acompanhava as festarolas de Verão - por ter assistido “in loco” ao homicídio de um árbitro mais avesso às vontades do povo indígena, acabando pendurado por uma corda numa das balizas. Felizmente que esta história só veio à baila muitos anos depois, em conversa no Tonho Paulos – café abrantino onde a democracia junta degenerados, alcoólicos, drogados, pais de família e padres; caso contrário, ter-me-ia dado longos e trágicos pesadelos nas noites anteriores ao jogo.
A viagem tinha tudo para correr bem. O motorista surpreendentemente não estava bêbado; o mister, talvez por ter discutido com a mulher no dia anterior, não debitava prelecções sobre o jogo; os jogadores encontravam-se todos de boa saúde, sem lesões, embora o Coutinho aparentasse uma ligeira mazela no joelho esquerdo, provavelmente resultado da queda que dera na noite anterior no pavilhão do Pego e que, por motivos óbvios, não podia revelar, não fosse o Mister abdicar dos seus serviços por comportamento pouco profissional.
A este respeito, o Coutinho e outros (não me acuso), tínhamos (acuso-me) uma desculpa quase impossível de contrariar: Chalana, ele próprio, rei dos relvados e rei dos bigodes, fartava-se de jogar em pavilhões sempre que ia a Abrantes passar férias com a família da mulher Anabela, abrantinos de gema. No entanto, o Bragança, que era sportinguista, mostrava-se pouco solidário com as histórias de lendas benfiquistas, recusando comportamentos desviantes à boa prática da modalidade. Fosse o exemplo um Manuel Fernandes ou um Jordão e talvez a sensibilidade do Mister se potenciasse a um ponto de compreensão, mas isso são suposições que, a esta distância nos anos, abdicamos de fazer.
De modo que, tirando a suposta lesão do Coutinho, o plantel estava de boas saúdes e o ambiente na carrinha corria de feição. É verdade que o sistema de amortecedores da carrinha gemia de velho, e que as conversas eram entrecortadas por rápidos saltos no asfalto, o que até sabia bem porque dava aquela vertigem na barriga. “Vá mais rápido, Senhor Antunes”, gritávamos de trás, na esperança de mais uma lomba.
Se fosse possível voltar no tempo para dentro daquela viagem, talvez fosse difícil admitir que aquela gente ia para um jogo de futebol, tais eram os assuntos díspares que percorriam o ar por dentro da carrinha. Desde as invenções de uns em relação a supostos feitos sublimes com mulheres – havia quem jurasse a pés juntos, sem figas, que dois dias antes tinha dado um beijo à Carolina, diva do 5ºB, rapariga de faces rosáceas e aquilo que parecia ser o princípio de mamas, embora ninguém tivesse a certeza – à efabulação de corajosas aventuras, entre as quais, a melhor de todas, a que o Pires contava sobre ter comido, ao mesmo tempo!, amendoins, tremoços e um pastel de nata. Quando esta história foi contada, toda a gente se calou, até o treinador e o motorista. Era, de facto, um feito extraordinário, só ao alcance dos duros e todos os outros (confesso-me) sentiram aquela pontinha de inveja que se nos agarra e da qual não nos conseguimos libertar. Bem que eu queria ter sido o herói desta junção de sabores mas a sinceridade obrigava-me a admitir a mim próprio que o máximo que conseguia fazer era comer 5 carcaças seguidas com manteiga e tulicreme.
Se isto fosse um filme, o realizador traria ao público, em plano apertado, a cara do Rocha quando ouviu a história do Pires mas como isto não foi e não é um filme ninguém notou o movimento gástrico que fez o nosso avançado pedir para parar a carrinha 10 minutos depois. Continuámos no fingimento infantil de sermos adultos enquanto na rádio passavam anúncios de ourivesarias, mini-mercados e músicas do José Malhoa.
Foi só quando, a 5 quilómetros da Barquinha, o Rocha começou a meter as mãos à cabeça que alguém gritou para o mister: “Shôr Bragança, acho que temos de parar!”. A carrinha, que a esta altura ia a alta velocidade, uns 60 quilómetros/hora, começou a travar, a traseira guinou toda para o meio da outra faixa, e lá embicou para o meio do mato, entre um poste de electricidade e um pinheiro tronchudo. O ponta-de-lança abriu a porta corrida com as duas mãos, começou a correr, fintou dois arbustos e acabou a vomitar numa ponte que dava para uma horta. Escusado será dizer que as folhas dos pimenteiros levaram rega para dois anos. E abstenho-me de contar aqui os impropérios que a velha, dona do terreno, vociferou porque há coisas que devem manter uma certa discrição de palavreado.
O mister, responsável pelo jovem imberbe – ainda que goleador nato -, aproximou-se do Rocha, preocupado com a saúde do mesmo (mas também com a possibilidade de perder um activo de grande importância!) e perguntou-lhe: “Ó que caralho, Rocha, mas o que é que tu comeste hoje?”, ao que o avançado-centro, ainda esbranquiçado de cal e temeroso da reacção do treinador, respondeu: “ó shôr Bragança, desculpe-me, comi 3 pratos de feijoada”. Estávamos arruinados. O mesmo é dizer: estávamos fodidos.
Sem o nosso abono de família, melhor seria projectar uma táctica que nos permitisse empatar ou, vá – na melhor das hipóteses –, ganhar por um ou dois. “Goleadas, esqueçam”, gritava o mister, já esquecido das quezílias pessoais da noite anterior – em que, diriam os relatos posteriores, teria levado duas chapadas da mulher por ter sido visto no Tiagu´s Bar a apalpar duas venezuelanas com filhos – e totalmente focado nos objectivos da equipa.
O Rocha por esta altura mantinha-se calado, entregue aos suspiros, aos ais, aos gemidos semi-surdos, procurando convencer o estômago de que estava bem. Bocejava, e a cada bocejo tínhamos medo de que em vez de pimentos pintasse de feijões os nossos pés. Felizmente que o Rocha tinha gasto a tinta toda na horta da velha e já estávamos a chegar com a nossa carrinha ao terreno de jogo.
Parado o veículo, saídos os adultos, saímos todos com a nossa bolsinha das chuteiras debaixo do braço e, para não dar alento aos atletas do Barquinha que nos recebiam com olhares entre o medo e a raiva, metemos o nosso ponta-de-lança no meio de nós, e ninguém chegou a ver o ar de vómito com que ele entrou no balneário. Sentámo-nos nos banquinhos de madeira, pusemos os casacos pendurados em cima de nós e olhámos o mister com ar de preocupação. O Shôr Bragança sacou do seu papelinho das tácticas, cofiou a bigodaça, olhou o motorista (que era também Director-desportivo, empregado de limpeza, enfermeiro e churrasqueiro) e disse: “Ó Antunes, dá uma aspirina ao gajo!”.
De repente, levantou-se uma esperança naquele balneário com cheiro a suor, lixívia e roupa encardida: o Rocha afinal ia jogar. O Bragança leu os nomes dos titulares, enquanto ia entregando as belas camisolas vermelhas, uma a uma, e, quando o “9” voou para as mãos do nosso ponta-de-lança com hálito a couves e morcela, sabíamos que o dia estava ganho – a não ser que alguém acabasse com uma corda no pescoço. O Rocha ainda protestou: “mas a minha barriga, Mister…”, só que o técnico, avalizado nestas matérias, ignorou a frase e enviou-o para o terreno de jogo. Os misters sabem o que fazem. Levantámo-nos, abraçámo-nos em jeito solidário e paneleiro, gritámos “Benfica” e fomos para dentro de campo, onde fomos recebidos em apupos pelos bêbados e mães locais e com uns aplausos das famílias abrantinas que tinham levado os filhos.
O jogo correu de feição, ganhámos. Quando chegámos ao balneário, ao intervalo, todos bebemos chá verde quente menos o Rocha, que não merecia por ter sido pouco profissional. No fim, com as pernas presas de lama, frio e toneladas de cãibras, ouvimos, desinteressados, o shôr Bragança, que continuava chateado – não sabemos se com a mulher, se com o Rocha. Mas sorriu levemente. Afinal, tínhamos brindado o Barquinha com um 17-0, sem espinhas.
O Rocha? Pena ter comido aquela feijoada. Só marcou 14 golos.
Quando o empréstimo vale a pena - a exibição de Ivo Pinto, lateral-direito do Porto emprestado à União de Leiria, é algo que deve merecer-nos o maior dos respeitos. Conseguiu desequilibrar a própria defesa 4 ou 5 vezes (3 delas de forma perigosa), atacar desenfreadamente, arriscando tudo sem ninguém nas costas, e a falta de intensidade nos lances, especialmente nos primeiros 20 minutos em que era crucial dar vantagem a quem lhe paga, e em alguns golos, especificamente nos terceiro e quarto, constituem uma exibição de gala. Assim, meus caros, vale a pena emprestar jogadores.
Quando o futebol não chega - o que será mais preciso para renovar os contratos a Maxi e Aimar?
Quando o papel nem serve para ler nem para limpar o cu - o tipo de folha do jornal "Record" é áspero, desbota a tinta e não tem possibilidade de leitura. Um exemplo da desavisada utilização de recursos que tanta falta fazem ao planeta. A última tara do pasquim é a possibilidade de Capdevila rumar a outras paragens. Alguém explique ao palerma do Alexadre Pais que as inscrições acabaram há uma semana.
Quando não há argumentos contra a verdade - eles vêm, alguns tímidos, outros mais agressivos, comentam, insultam, falam noutras coisas. Argumentos que sustentem o que andam a dizer há anos a fio é que... nada. 16.000 títulos? Está bem, Marreco. Onde é que estacionaste a nave?
Quando um ex-Presidente do Sporting é apoiado pelas Associações de Braga e Porto - o que dizer? São muitos anos de submissão. Onde estará o Sporting Clube de Portugal? Este Sporting Clube do Porto não serve. E como poderia ter havido uma limpeza geral a estes corruptos se o primeiro tivesse aparecido e se tivesse unido a nós. Infelizmente o ódio ao Benfica é maior que o amor-próprio. E assim Pinto da Costa vai dividindo e reinando. Já chega deste futebol podre. Seara ou Hermínio. Tudo o resto é merda.