segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Terapia de choque

O jogo de Quarta-feira não é só mais um jogo. Não o é pelo adversário, não o é por ser onde é, não o é por ser "apenas" para a Taça e, principalmente, não o é porque é, historicamente, o jogo mais difícil, em termos mentais, que o Benfica tem desde há duas décadas atrás.
Jogar no Dragão é, para a nossa equipa, uma espécie de última fortificação psicológica depois de uma grande e exaustiva viagem: é o Adamastor para a nossa nau. 
Todas as questões tácticas que queiramos abordar para este jogo, embora relevantes e condicionantes do que poderá vir a acontecer, passam para um segundo plano se a questão mental não for ultrapassada. 
O Benfica tem um trauma profundo em jogar no Porto. Por questões históricas extra-futebol (ou que deveriam sê-lo) - como a chegada a um balneário infestado de excrementos, gente bizarra e violenta nos túneis das Antas, arbitragens deploráveis, recepção por parte dos adeptos com insultos e arremeso de objectos e mais um sem número de barbaridades que, ao longo dos anos, aqueles cães amestrados, de trela ao pescoço (mas sem açaime), espumando de raiva, a mando do dono, exerceram sobre os nossos jogadores -, mas também porque, dentro de campo, o Porto tem sido quase sempre superior - basta pensar que nos últimos 25 anos o Benfica ganhou apenas por duas vezes em terras invictas. E não chega desculparmos esta incapacidade desportiva à luz dos caricatos acontecimentos que vêm ocorrendo por parte daqueles energúmenos porque a um clube e a uma equipa como o Benfica exigem-se sempre a superação e a transcendência nos momentos difíceis.
Foi, aliás, numa das vezes em que cheirava a merda no balneário, em que a pressão dentro do Estádio (no relvado mas principalmente em zonas interiores dele) era sufocante, que o Benfica foi vencer o jogo e o campeonato com dois golos de César Brito em 1991. Aqui, o Benfica superou-se, encontrou, na adversidade, a razão para demonstrar a sua superioridade futebolística - e é sempre isto que esperamos do nosso clube. Que alguém ensine esta lição aos nossos jogadores e que eles entendam o jogo de Quarta-feira como a crucial oportunidade da época para, além de ganharem um novo impulso para o que dela resta, poderem fazer abanar a estrutura consistente que o adversário tem revelado.
Ganhar ao Porto, depois de amanhã, não será só ganhar ao Porto. Será ganhar uma segunda vida no campeonato, uma ida ao Jamor mas, fundamentalmente, será ganhar a todas as fraquezas mentais que o Benfica tem tido nos últimos 30 anos sempre que se desloca àquele terreno pejado de imundos acéfalos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Números que dão confiança para um futuro próximo

Com a vitória de ontem em Vila do Conde (2-0), o Benfica completou o seu 30º jogo oficial esta época. Curiosamente, ou talvez não - dado que a equipa sofreu de uma grave crise psicológica nos primeiros dois meses -, nem um único empate.
Esta curiosidade não é fruto do acaso, advém da capacidade que a equipa tem, quando em vantagem, para conservar o triunfo e da incapacidade que a equipa teve, quando em desvantagem, para conseguir dar a volta ao jogo ou, pelo menos, empatá-lo. Esses dois/três primeiros meses da época originaram quase na totalidade as derrotas sofridas - são 9 em 30 jogos, 7 delas até ao momento que marca a transformação da equipa, o jogo e derrota no Dragão.
Desde esse momento traumático, o Benfica jogou por 14 vezes, perdendo apenas duas, ambas para a Champions League. A nível interno, entre Campeonato, Taça de Portugal e Taça da Liga, jogaram-se 12 jogos e por 12 vezes consecutivas o resultado pendeu para a nossa equipa, num total de 36 golos marcados e 7 sofridos. É uma série notável de um conjunto que devia ter começado logo desde o princípio com estes números e que, por uma série de razões já anteriormente apontadas, umas por culpa própria, outras nem tanto, acabou por hipotecar tanto a possibilidade de liderança no Campeonato como a prestação europeia, sendo que aqui ainda tem uma segunda vida para chegar ao sucesso.
O que não sofre nem pode sofrer contestação é a qualidade óbvia destes jogadores e desta equipa como colectivo. O futuro será o que nós quisermos que ele seja, desde que se mantenham (ou até melhorem) os níveis de concentração e intensidade e que se façam, pontualmente, alterações tácticas que procurem adaptar-se às especificidades de cada jogo. E, se possível, que David Luiz não saia e entre um médio de características diferentes dos que temos actualmente no plantel.

domingo, 23 de janeiro de 2011

75 minutos de luxo, 15 minutos de lixo

Duas ideias principais - uma boa, outra nem tanto - sobressaem do jogo de ontem e corroboram os indícios que a equipa vinha dando nos primeiros jogos deste 2011: a melhoria qualitativa do futebol da equipa, tendo períodos de beleza e classe impossíveis de igualar por qualquer outra equipa portuguesa da actualidade; consequência dessa qualidade individual mas sobretudo colectiva, a equipa deslumbra-se, ganha confiança em demasia e perde os níveis de concentração (aconteceu em Coimbra, depois da expulsão de um jogador da Académica, ainda na primeira parte, aconteceu com o Olhanense e aconteceu ontem, a ganhar por 3-0). Se a primeira nos deixa confiantes e orgulhosos no futebol que os nossos jogadores praticam, a segunda deixa-nos hesitantes em relação à real capacidade desta equipa em manter-se coesa durante todo o jogo quando chegar a fase em que um erro pode ditar o sucesso ou insucesso de um jogo e de uma prova. Mas são boas as notícias: é que, se o entrosamento e qualidade demonstrados em grande parte dos jogos são difíceis de alcançar (e alcançámo-los), a perda de intensidade em determinados períodos do jogo é, espera-se, facilmente reparada por quem dirige e treina. Aproveitem-se estes sustos para exemplificar o que não deve nunca ser feito e teremos Benfica até final de época em várias provas e vários desafios importantes.

Roberto - É o de sempre: bolas pelo ar para o segundo poste, não existe - ou sai mal ou hesita (ficando desde logo afastado da possibilidade de as defender), raramente as intercepta; bolas de frente, seja em remates de fora da área, seja a sair-se a um jogador isolado, é muito bom. Belíssima defesa a 10 minutos do fim.
Maxi - Está menos interventivo em termos ofensivos, mas justifica-se pela capacidade de Salvio em criar espaços. Defensivamente, cumpre, não andando particularmente inspirado em termos posicionais. Mas isso sempre foi assim. Comepensa com entrega total.
Luisão - Está numa forma soberba. Varre aquela zona toda com imponência. A acrescentar, uma fabulosa assistência de calcanhar para Cardozo no terceiro do Benfica.
Sidnei - Ainda não é o jogador competente que queremos ter quando David Luiz sair (será já em Janeiro?). Tem talento, muito, mas falta-lhe entender a forma como funciona a linha defensiva da equipa e melhorar no timing de saída aos adversários. A jogada que acaba com um jogador do Nacional em frente a Roberto é o melhor exemplo disso. Mas Sidnei só crescerá se jogar. E hoje até marcou e tudo.
Coentrão - Voltou a estar empolgante em termos ofensivos. A defender, esteve bem até que... perdeu duas vezes o duelo com o adversário nos dois golos do Nacional. Não se pode considerar essas falhas de somenos.
Javi - Perdeu menos bolas em zonas perigosas do que é normal, o que pode ser um sinal de que está avisado de que deve corrigi-las. Controlou a sua zona de acção. No resto, o mesmo de sempre: joga simples.
Salvio - Já é o jogador do qual os adeptos esperam que abra as defesas adversárias. Ontem, mais uma vez não desapontou: desequilibrou no lance que abriu o marcador. Além disso, foi sempre procurando os espaços e a profundidade. São fantásticas as cavalgadas pelo flanco, à boa maneira antiga. Às vezes lembro-me de Vítor Paneira, quando o vejo correr quilómetros junto à linha, com a bola sempre controlada. É um belíssimo jogador. Comprem-no. Se o Roberto custou 8,5 milhões de euros, não vejo onde está a dúvida sobre dar 15 milhões por este menino.
Aimar - Que grande jogo! Já há uns meses que não se lhe via um jogo destes (principalmente, porque esteve lesionado). Tem tudo: agressividade no pressing, poder de antecipação das ideias do adversário, criatividade, visão de jogo, inteligência. É um luxo ter este homem no nosso clube.
Gaitan - Eu já não sei o que hei-de dizer mais sobre Gaitan a extremo-esquerdo. Tirando o jogo de Leiria, em que esteve muito bem, o normal dele, desde o princípio de época, é isto: talento desperdiçado. Posicionalmente, melhorou, já acompanha mais o adversário e compensa as subidas do Coentrão mas é só. Tem um número de perdas de bola inacreditável, a decisão é quase sempre errada ou de risco (mesmo quando passa pelo adversário ainda na defesa, muitas vezes decide-se pela finta em vez do passe, que seria a escolha óbvia e mais segura). Expõe a equipa várias vezes durante o jogo a transições perigosas do aversário. Nas provas internas, e com equipas mais fracas que a nossa, isto vai passando. Na Europa, será suicídio persistir neste erro - que só é de casting por estarmos a querer fazer dele aquilo que não é nem será.
Saviola - Esteve no primeiro golo, com um remate forte, esteve no terceiro, recuperando uma bola praticamente perdida, e esteve no quarto, fintando, ganhando a linha e assistindo na perfeição Jara. Dito isto, dizer que não esteve tão bem na decisão em zonas de finalização. Podia ter marcado e assistido em algumas jogadas em que decidiu mal. Acontece, é humano.
Cardozo - Esteve bem na movimentação e fez um golo. Depois saiu. É isto, o paraguaio. Se os penalties a favor do Benfica, fossem assinalados (como são a favor de outros, mesmo quando não existem), o Cardozo já devia ter mais, pelo menos, 4 ou 5 golos. Ontem ficaram mais dois por marcar, enquanto em Aveiro o Porto ganhava 3 pontos com um lance que, sendo penálti, é muito menos óbvio do que os que existiram na Luz, tanto o cometido sobre Salvio como o que aconteceu sobre Saviola. E assim estão 8 pontos de diferença. Este campeonato é uma mentira.
Martins - A culpa não é só dele mas, poucos minutos depois de ter entrado, a equipa passou de um futebol notável para um futebol hesitante e displicente. Perdeu muitas bolas, algumas em zonas perigosas. Precisamos de um médio com outras características como Pinto da Costa precisa de uma cela.
Jara - Ainda peca por alguma euforia e sofreguidão demasiadas, sempre que entra. Mas está lá qualidade e capacidade colectiva. Dêem-lhe espaço para ir entrando. Ainda foi a tempo de marcar o golinho (segundo consecutivo, depois de ter marcado ao Olhanense).
Menezes - Teve frio.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sou do Benfica...

... e isso me envaidece.

Confissão

Pinto da Costa: "Do Benfica só queria o Elmano Santos".

Ora aqui está a confissão, na primeira pessoa, que este homem se dedica mais a comprar árbitros do que jogadores!... Será que é aceite em tribunal, ou é como as escutas?


P.S.: Levando o gajo a sério, e admitindo que o Elmano é do Benfas (aí é?), pergunto: será que isto quer dizer que é o único que lhe falta comprar?



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Procura-se médio

Uma das razões que levou ao mau início de época da equipa esteve relacionada com o mau planeamento e organização do plantel. Foram vendidos três jogadores fundamentais e para o seu lugar vieram cinco ou seis que ou não tinham a mesma qualidade ou tinham potencial mas não eram, ainda, jogadores totalmente formados. Esta queda qualitativa revelou-se fatal e o Benfica comprometeu, veremos se a título definitivo, o resto da época.
É também e fundamentalmente por isso que nesta reabertura de mercado interessava reajustar o plantel, comprando com critério e apontando cirurgicamente às deficiências do mesmo. E, entre as compras já efectuadas, que pelas características dos jogadores em causa revelam uma estratégia a médio prazo e não para o imediato, o problema mantém-se: falta um médio ao Benfica. Se era importante colmatar essa falha há uma semana atrás, com a lesão do Amorim, é, mais do que necessário, fundamental pra o sucesso da equipa nos exigentes quatro meses que nos esperam.
Neste momento, não há um único médio de construção no plantel. Há dois pivots defensivos (Javi e Airton), três alas (Gaitan, Salvio e Fernandez) e três médios ofensivos (Aimar, Martins e Menezes). Pensar o Benfica nos próximos meses sem um médio que assegure, nos muitos jogos de dificuldade acrescida que a equipa irá ter, estabilidade, segurança e equilíbrios no miolo é projectar o fracasso. Este cenário é-me incompreensível essencialmente por dois motivos: o clube no início de época e em Dezembro procurou contratar esse tal médio, pelo que não se compreenderá se até final de Janeiro o não fizer, porque revelará não uma lacuna na interpretação das deficiências do plantel mas a assumpção de que, não conseguindo comprar antes, abdica de procurar o equilíbrio do plantel por questões financeiras; o segundo prende-se com a questão táctica: achará Jesus que o Benfica terá sucesso se, nos grandes jogos, persistir em jogar com Gaitan e Salvio nas alas, sem necessitar de dar outro tipo de qualidade em posse ao meio-campo? Se sim, e parecendo um erro tremendo, mesmo nesse caso precisaria de alternativas credíveis (que não tem); se não, de que é que estão à espera para contratar o tal jogador de que necessitamos?

Pensar este Benfica com os actuais jogadores de meio-campo (Amorim provavelmente terá mais dois meses de recuperação) é projectar o fracasso. Não pela qualidade (que há em barda), mas pelas características dos jogadores que temos. Urge comprar alguém com outras características. E que venha preferencialmente de um campeonato europeu, experiente e com facilidade de adaptação ao modelo de Jesus.  

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Adoro o doce sabor dos golos logo pelo final de tarde...

Cheirou-vos ao ano passado? A mim também. Podemos considerar oficial: a equipa voltou aos níveis de intensidade do ano passado. Quando assim é, muito dificilmente se pode não perder contra o melhor futebol praticado em Portugal. Veloz, desconcertante, mudando constantemente de flanco desequilbrando a estrutura adversária, letal. Só não é igual num aspecto do jogo: as bolas perdidas. São muitas e em zonas perigosas. Aparecem mais agora porque os jogadores estão mais confiantes e arriscam mais do que no início de época mas é um ponto a ser revisto rapidamente. Contra outro tipo de equipa, mais evoluída técnica e tacticamente, perder tantas bolas em zonas cruciais do campo poderá ser fatídico.

Júlio César - Bem. Sem trabalho, praticamente. Tem, no entanto, de soltar a bola mais rapidamente. Isto não é o Belenenses.
Amorim - Grande, enorme jogo. Este rapaz, venha de lesão ou esteja a jogar constantemente, é um pêndulo. Jogue a médio direito, médio esquerdo, pivot, lateral, é sempre a mesma bitola. É daqueles para fazer carreira no clube. Repito: gostava de vê-lo a pivot defensivo.
Luisão - Patrão. Controla a sua área como quer e nos últimos tempos tem procurado subir mais no terreno, para dar opções no processo de construção. Indiscutível.
David Luiz - Voltou a exceder-se na forma como aparece na frente e procura os desequilíbrios ofensivos. Regra geral, quando o faz, cria desequilíbrios, sim, mas na própria equipa. No resto, no que faz bem, esteve excelente. Terá sido o seu último jogo de águia ao peito?
Coentrão - Podemos respirar de alívio. O de Caxinas está de volta. Que jogador monstruoso. Sobe, desce, aparece em zonas de finalização, logo a seguir está junto à defesa a cortar uma bola. Quem me (nos) dera que este ficasse por cá por muitos anos...
Airton - Bom aproveitamento da oportunidade. É muito forte onde Javi é fraco: na qualidade na posse e critério no passe. Tem de melhorar ainda a forma como se posiciona - por vezes parece esquecer-se de que joga sozinho naquela zona e descai sobre um lado. A médio prazo, se continuar a evoluir, tirará o lugar a Javi.
Salvio - Um jogo de intermitências. No cômputo geral, esteve bem, voluntarioso, aguerrido, procurando a profundidade umas vezes, outras iniciando a construção pelo meio. Mas perdeu algumas bolas. No resto, mais um golo marcado e esteve na jogada do último.
Martins - Depois da fraca prestação em Leiria, mais do mesmo. Um número incrível de perdas de bola, displicência total em campo, pouca intensidade e capacidade para aparecer em zonas mais avançadas a desequilibrar. Fê-lo uma vez: deu golo. Este Martins sem ânimo é desolador.
Gaitan - Era fogacho. Após uma belíssima exibição, ontem teve provavelmente uma das 3 piores desde que chegou ao Benfica. Defensivamente vem crescendo, e ontem até esteve bem nesse particular, ofensivamente foi, salvo raras excepções, uma nulidade: péssimas decisões, perdas de bola, cruzamentos mal tirados, egoísmo, sobranceria. Cada vez mais dá ideia que Gaitan é psicologicamente débil.
Saviola - Duas assistências e um golo. Nos últimos 7 jogos, marcou 8 golos. Mas Saviola é mais do que os números mostram. Muito mais. O melhor jogador do campeonato.
Cardozo - Mais dois golos. Qual deles o mais fabuloso? Leva 87 com a camisola do Benfica vestida. Tenho a certeza absoluta de que este ano chega aos 100.

Aimar - Foi bom ter jogado para ganhar ritmo, depois da lesão. Mas ainda está longe do Aimar que conhecemos.
Kardec - Procura movimentar-se, cabeceia bem e é só, por enquanto. Ainda não está feito jogador.
Maxi Pereira - Entrou para o lado esquerdo e não fez grande coisa. Melhor: fez. Um penalty totalmente estúpido. Às vezes tem estas paragens cerebrais.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Ontem à noite

O talento organizado OU Gaitan como nunca o vimos

 Os nossos medos revelaram-se infundados: com Salvio e Gaitan nas alas, o Benfica fez ontem um dos melhores jogos da época. Não sendo brilhante em grande parte do jogo, foi ainda assim uma equipa totalmente organizada em campo, consistente, compacta, segura na rectaguarda, pressionante e dinâmica no meio-campo e criativa, embora perdulária, no ataque. É, aliás, na segurança defensiva e na qualidade de pressão que a equipa de ontem foi diferente de todos os outros Benficas que vimos esta temporada. Essencialmente por dois factores: maior qualidade nos movimentos de transição (defensivos e ofensivos) e a boa exibição de Gaitan (de longe, o seu melhor jogo desde que chegou a Portugal) - se ofensivamente, todos sabemos das qualidades do argentino, residia na sua incapacidade de entender o movimento defensivo uma das deficiências do jogo benfiquista. Ontem, Gaitan foi o ala que o Benfica procura desde o começo de época. Esperemos que tenha sido um crescimento sustentado na assimilação das ideias de Jesus e não apenas um acaso.
Ainda assim, como ponto negativo, destaca-se o número absurdo de perdas de bola em zonas de perigo que os jogadores continuam a cometer - especialmente Javi Garcia (recorrente em todos os jogos), mas também Maxi Pereira, Coentrão e Martins. Contra equipas mais letais, algumas perdas ser-nos-ão fatídicas.

- Roberto é Roberto, não mudou nada nas saídas da baliza: não me dá segurança nenhuma. Pode fazer bons jogos (e tem feito), mas há sempre a possibilidade de um erro a cada bola bombeada para a área (ontem teve mais uma das suas estapafúrdias saídas), o que obviamente não constitui perfil adequado a um GR do Benfica.
- O Maxi fez o pior jogo desta época. Inseguro, trapalhão, mal a defender no um-para-um e com um número de passes errados inaceitável. Tendo em conta a boa época que tem feito, foi provavelmente um momento menos bom. Não há razões para alarme. Mas ajudava ter no plantel outro lateral que lhe fizesse concorrência.
- Os centrais estiveram muito bem. Luisão, vindo de lesão, esteve intransponível e David Luiz fez bem o que faz bem e não fez o que faz mal.
- Desde o jogo no Dragão, Coentrão andava tímido, hesitante, pouco participativo nos movimentos ofensivos da equipa. Ontem voltou a ser o lateral fantástico que todos conhecemos. Esperemos que seja para ficar. Também passou pela sua exibição o bom jogo do Benfica.
- Javi - o pior em campo, ontem. Luta, agressividade, sentido posicional, tem; o que lhe falta, e ontem foi o expoente máximo disso, é qualidade no passe e critério de decisão. Se virmos estatísticamente a eficácia de passe do espanhol, deparamo-nos com um número elevado; o problema passa pelos momentos em que erra: quase sempre em zonas perigosas, com a equipa balanceada para a frente. Umas vezes porque falha o passe, outras porque perde a posse, exagerando no tempo de soltar a bola. Airton é, neste ponto específico, muito mais forte.
- O Salvio andou em boa parte do jogo ausente das luzes da ribalta. Mas não haja enganos: pela sombra, trabalhava bem os momentos defensivos e criava linhas de passe em construção. Quando os focos o iluminaram, fez uma assistência, criou o desequilíbrio no segundo golo (excelentes a mudança de velocidade e cruzamento), apareceu bem para finalização (cabeceamento ao segundo poste que passou perto da baliza) e atirou uma bola ao poste. É um diamante já não em bruto. E tem tanto ainda para crescer.
- Como disse atrás: Gaitan fez o melhor jogo desde que chegou ao Benfica. Muito capaz em termos defensivos (Jesus fala numa melhoria desde que Amorim entrou para a esquerda, mas discordo da razão: não era Gaitan o problema, mas Martins) e criativo e desequilibrador sempre que rasgava a ala. Tenho sido muito crítico da utilização deste talento puro naquela posição mas, tal como a crítica foi justa, é justo reconhecer que ontem Gaitan foi o médio esquerdo de que a equipa precisa desde que começou a época. Esperemos por mais jogos para ver se é fogacho ou fogo eterno.
- Não esteve bem, Martins. Perdas de bola, pouca agressividade sem ela, menor fulgor para aparecer na frente. Saiu bem.
- O que dizer de Saviola? Podia ter marcado mais? Sim, mas também podia ter jogado menos. Minto, não podia. Ele não sabe jogar menos do que bem. Às vezes joga bem, outras é genial.
- Este é daqueles que anda ali aos tropeções, a levar porrada, a saltar, a passar a bola com a cabeça, a cair, em esgares de quem está com caganeira e não pode rir. No resto, cabeceia para uma grande defesa do GR adversário, faz um golo e dá outro. É o Cardozo, olé, olé! É oficialmente o melhor marcador estrangeiro da História do Benfica. É fraquinho, dizem alguns. Ele responde com aquela cara de parvo que tem e com... golos.
- Amorim, bem. Entra para qualuqer posição do meio-campo e cumpre. Gostava de vê-lo, em certos jogos, a pivot defensivo. Traria outra qualidade e dinâmica ao momento de construção. Merece jogar mais.
- Jara tem vindo a ser mais produtivo e consequente. Ontem jogou menos de 10 minutos mas foi a tempo de fazer uma assistência. Como Amorim, merece mais minutos.
- Menezes jogou muito pouco, é quase impossível poder mostrar alguma coisa de qualidade. No entanto, pelo tempo que leva de Benfica e pela (pouca) vontade que demonstra em querer mostrar o que tem para dar, parece-me que em Junho deixará de andar de águia ao peito.

11 vitórias nos últimos 10 jogos de campeonato. Dá pena pensar naquelas 3 derrotas nos 4 primeiros jogos do campeonato. Não fosse isso, e estaríamos em cima do Porto. Ainda assim, eu acredito. Somos a melhor equipa a jogar futebol em Portugal. Passámos pelo trauma causado pela megalomania e prepotência de princípio de época, ganhámos confiança, melhorámos a consistência defensiva (embora ainda haja trabalho a fazer em termos de organização colectiva), falta-nos sermos mais letais na frente. Eu ainda acredito no Marquês de Pombal. 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Que seja o que Jesus quiser

Já é um clássico termos dúvidas sobre o pensamento de Jesus. O jogo de ontem, parecendo ao primeiro olhar poder dissipá-las por completo, veio trazer uma das grandes: Jesus apostou no nosso velho meio-campo desequilibrado porque realmente acredita ser possível conciliar Salvio e Gaitán nas alas como conceito para um onze-base ou apenas por acreditar que o Marítimo (e equipas similares) na Luz não tem qualidade para explorar as claras deficiências colectivas que a equipa teima em apresentar? Se a resposta a esta pergunta é a primeira hipótese, estamos tramados; se é a segunda, estaremos tramados a espaços, dividindo jogos em que golearemos com empates e derrotas, sempre que o tal adversário mais frágil tiver uma noite mais inspirada. Pela última vez: Gaitán e Salvio nas alas ao mesmo tempo... NÃO. Se o segundo, apesar de ontem ter tido momentos menos felizes, continua, teimoso, a demonstrar que merece a titularidade, o primeiro, embora seja o titular indiscutível de Jesus e tenha óbvia qualidade, persiste em provar que não é jogador para ficar preso na esquerda deste meio-campo. Que Jesus use Gaitán à esquerda, colocando alguém à direita que equilibre a equipa, estamos em desacordo (por remeter Salvio para o banco), mas ainda aceitamos a teimosia; que o faça, colocando Salvio mais vertical na ala direita, é, mais do que preocupante, intrigante e até - permita-se o devaneio - revoltante. A equipa abre buracos por todos os lados, permite transições rápidas do adversário pelas linhas, pelo corredor central, entre as linhas de meio-campo e defesa. Qualquer adversário mais capaz fará mossa num meio-campo com dois jogadores ainda em fase clara de adaptação aos automatismos e modelo de Jesus (ainda que, e insistimos nisto há muito tempo, Salvio esteja num patamar superior em termos de entendimento do jogo). Que o próprio insista religiosamente nisto, quase como querendo provar à exaustão não necessitar de um médio mais posicional, é daqueles mistérios que nem Poirot nem Gregory House saberiam desvendar.
O Benfica fez o que devia, entrou com a atitude correcta, respeitando o adversário e a competição, o que obviamente é aquilo que todos esperamos que a equipa faça em todos os jogos. A vitória é justa, de um onze com várias alterações e proposto a, depois de estar a ganhar com vantagem tranquila, "congelar" o jogo. Teve alguma sorte também, diga-se, e beneficiou de um adversário demasiadamente ingénuo defensivamente e pouco capaz de jogar com os espaços que o Benfica foi dando. Não se retiram conclusões praticamente nenhumas em relação ao que poderá vir no futuro, além da positiva agressividade com que os jogadores entram em campo e que parece estar, finalmente, assimilada por todos. O trauma terá passado - bom indício de sucesso. Falta agora dar o salto qualitativo em termos de segurança colectiva.

O Moreira esteve bem, gosto do Moreira. O Sidnei começa a ganhar ritmo, que é o que ele precisa, mas voltará rapidamente ao banco. O David Luiz tem tanto de bom atleta como de acéfalo, o que fará dele um eterno central do Benfica ou um flop de um qualquer monstro europeu. Fábio Faria sem ritmo, Maxi certinho. Airton, apesar de um ou outro erro, demonstrou ser uma alternativa credível a Javi Garcia - oferece até outras possibilidades e tem outras características que o espanhol não tem; a questão é que, neste modelo de jogo, Javi é a opção certa para aquela posição. Gaitán continua o mesmo: talento em barda deslocado e desperdiçado numa prisão em que ou reluz individualmente a espaços ou apodrece, perdendo bolas, abdicando do movimento colectivo ou até, coisa pouco habitual, fazendo maus cruzamentos - é uma heresia jogar amarrado. Salvio é o que se tem dito dele aqui, não é de hoje, embora as análises que se lêem por aí falem num jogador aparecido há pouco tempo (o futebol é esta caixinha de surpresas). Martins bem, embora ainda à procura de ritmo (uma curiosidade: fala-se muito no bom pontapé do Martins. Faz-me alguma confusão essa ideia. Para cada bom remate, tem 10 desajustados). Saviola é Saviola, recuso-me a fazer mais comentários. Foi o ano passado e tem sido este ano. Só que agora marca, deve ser por isso que já se lê por aí que está de volta o Saviola do antigamente. Kardec desiludiu. Peixoto simplesmente deplorável, embora para ele vá a minha solidariedade: se os adeptos assobiadores procuram criar um jogador totalmente desmotivado e incapaz de decidir, estão de parabéns, o homem já não consegue dar um passo no relvado sem se borrar todo nos calções. Amorim igual a si próprio, merece jogar mais. Jara mostra capacidade, agressividade, atitude, qualidade de movimentos, mas também mostra pouco entrosamento com os colegas, algum egoísmo, (ainda) inadaptação às ideias de Jesus. Mas faz-se. Não o queimem já. Já chega haver um gajo a deixar cagalhões pelo relvado.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um caso de falta de leite

Ao longo de dois anos de existência deste blogue, se alguma vez escrevi um post exclusivamente dedicado a um dos rivais será muito. Não vejo interesse, para além da discussão futebolística, em passar a minha vida a pensar nos outros nem como particularmente produtivo em termos de análise à realidade do nosso clube a constante alusão aos adversários. No entanto, há sempre o chegar de um dia em que a excepção toma, por momentos, o lugar de destaque na sala principal. Chegou esse dia. Farei um post exclusivamente sobre o Porto. Ei-lo:

Antes de mais, vejam isto. Estou a falar a sério: vejam isto. Não, não é para saltarem o vídeo, vejam tudo, do princípio ao fim.

Está visto?

Eu também vi. Caído de pára-quedas no vídeo, mas vi. E fiquei boaquiaberto. Pode parecer estranho alguém ainda ter um momento surpreendente quando vê Pinto da Costa fazer referências ao Benfica, mas confesso, ainda assim, e 30 anos depois de este ter chegado ao poder sempre com o mesmo ódio na mira, a minha total e mais sincera estupefacção por aquilo que este vídeo demonstra e prova à saciedade.
É como aqueles momentos em que uma epifania se nos chega, por vezes sobre coisas tão óbvias e facilmente imaginadas - uma vez, enquanto conduzia e fazia sol e chovia ao mesmo tempo, vi o arco-íris pôr-se sobre uma montanha; e depois, qual momento divino, apesar de facilmente confundível com uma análise de um estúpido (e se calhar era), pensei na palavra "arco-íris". "Arco" e "íris", separados, um arco visual, um arco de cores translúcidas à membrana interior dos olhos. Nunca tinha pensado nelas separadamente e as juntado depois para compreender o significado sem ser apenas uma ideia geral, sem ser uma palavra composta que associamos a uma imagem sem que pensemos realmente nela (pensem em "rainbow", também dá).
Este homem não ama o clube que preside; odeia o nosso. Não assina por mais uns anos com o treinador que tem por querer desalmadamente o treinador que tem por mais uns anos; quer desestabilizar o nosso treinador. Não diz que nos clubes sérios não se dão votos de confiança, fazem-se renovações de contratos por achar realmente isso; diz porque o Presidente do Benfica deu votos de confiança ao nosso treinador em vez de lhe renovar o contrato. E, no fim, fala das vitórias do próprio clube não pelas vitórias do próprio clube mas para poder falar noutra Vitória, a nossa.

Como a epifania do arco-íris, hoje tive outra: Pinto da Costa queria ser não o Presidente do Porto mas o Presidente do nosso clube.

E é por isso que esta imagem serve de prova em qualquer estudo psicanalítico que se possa fazer sobre esta perturbada personalidade:

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Nuit et brouillard

Eu sou do Benfica. Não porque faça parte de um clã de iluminados, não porque conheça melhor a verdade e, de certeza, não porque seja melhor do que os outros que vêem, pensam, lêem, amam, são futebol. Sou do Benfica porque o meu Pai era do Benfica. Se o meu Pai fosse do Alain Resnais, eu era do Alain Resnais. E sou. Eu nem sequer gostava de esparregado e agora gosto, e isto não é para falar de esparregado, embora o esparregado seja uma das descobertas da minha maturidade, não contando o Alain Resnais, que é bom e não consta que fosse benfiquista. Eu amo o Benfica porque nem sei explicar. Entre o que foi o exterior e o interior, algo em mim despertou para este clube. Se podia ter sido outro? Podia, embora hoje, aqui, nisto que sou, essa seja uma ideia igual a não gostar do Alain Resnais. O meu Pai viu o Eusébio ao vivo, no Estádio de Alvalade, que era a catedral do meu Avô, sportinguista patológico. O meu Pai não se apaixonou pelo Estádio de Alvalade. A partir desse momento, um gene nasceu. Chegou a mim. Se filhos aparecerem, gostarão do Benfica. Já do Alain Resnais, não posso dizer. Será escolha deles.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Salviola, o Jardel de Coimbra e outros disparates

Jesus e a crítica dizem que foi o melhor Benfica da temporada. Eu acho que sim. Mas não foi só. Mas vamos por partes, como dizia o Jack, o Estripador:

- O melhor Benfica da época? Durante meia hora, provavelmente, sim. Dois golos, várias oportunidades, pressão sobre o adversário. Não foi tão bom como o ano passado, mas foi bastante bom. Claro que fazer dois golos quase antes de o jogo começar ajuda. Mas tentar fazê-los também. É esta mudança de atitude que se aplaude. E ao mesmo tempo se critica: onde é que ela andou? E não me lixem: isto não tem a ver com questões físicas, técnicas ou tácticas: é uma questão mental. O ano passado entrávamos em campo com vontade de atropelar o adversário e...às vezes atropelávamos mesmo. Vamos lá, Jesus. É este o caminho para a Terra Prometida (de certeza que já alguém tinha feito este chiste, mas aqui fica na mesma).

- E o resto? Bom, o resto foi muito parecido com o que temos visto: quando acabou o gás de Gaitán o meio campo voltou a ser tenrinho. Aí a diferença de qualidade fez o resto, mas a jogar assim arriscamo-nos a dissabores frequentes. Mas em casa com o Rio Ave pode ser.

- Destaques individuais? Sálvio, claro. O Ricardo só tem elogios para o rapaz e ele dá-lhe razão. Acho que vamos ter um desgosto quando o Vieira não accionar a cláusula de compra em Junho. Dois golos de cabeça de um extremo são sempre uma anormalidade. Se esse extremo não tem pescoço (o que dificulta o “gesto técnico” do cabeceamento) ainda tem mais valor. Saviola, também. Mas eu nunca o vejo jogar mal (defeito meu, com certeza). O Gaitán parece ter mais vontade de trabalhar, mas dá a sensação de não aguentar 90 minutos. Já é um progresso: preocupa-me menos que não possa do que não queira. Pela negativa, Cardozo. Não desenvolvo muito porque detesto falar mal de jogadores do Benfica. Se jogou mal tinha uma boa razão para isso (provavelmente esteve até às tantas e distribuir comida aos sem-abrigo de Lisboa – os jogadores do Benfica quando jogam mal é por razões nobres, não tenham dúvidas).

- Do outro lado, João Tomás. 34 anos, e ainda tinha lugar no plantel de qualquer dos grandes (já para não falar da selecção, que andou a testar os Edinhos desta vida). Sábado (mais) uma exibição extraordinária, com dois golos e uma bola no poste (reparem na posição em que ele está neste lance, de onde vem a bola, e de como ele a coloca magistralmente). Jogador completo, profissional de mão-cheia, mas o empresário deve ser o Darren Lamb.
É um dos jogadores mais injustiçados de sempre. Sábado, para não variar, voltou a sê-lo: o que é que fez para merecer ser assobiado na Luz? Veio para cá por meia dúzia de tostões, fez golos em barda no pior Benfica de sempre, e saiu por 5 milhões (muito dinheiro na altura). Nunca teve, que eu saiba, nenhuma palavra incorrecta para com o clube. Obrigado, João, e desculpa qualquer coisinha.

- A expulsão do Coentrão: se calhar foi muito inteligente. Eu acho que foi chico-espertice, e não gostei. Gostava de ver sair uma punição exemplar para estes lances. Jesus, isto é o Benfica. Não gostamos disto. E não, o facto de o Special One (“El especial”, “il speciale” ou “o sacana que ganhou tudo para o Porto” como é conhecido noutras línguas) o fazer não é desculpa.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Estratégias de compra e venda

Tendo em conta as notícias que saíram hoje sobre a concretização do negócio de compra de Fernandez ao Racing e de venda de Patric ao Atlético Mineiro, fico simultaneamente satisfeito e preocupado. Se, por um lado, há o assumir de um mau planeamento da época, indo em busca de um jogador que, de facto, seja o extremo-esquerdo de que a equipa precisa, por outro tenho sérias dúvidas que seja Fernandez a solução para o problema. Não porque conheça o jogador (não conheço), mas porque, mais uma vez, a escolha recai num elemento que precisará, por vir de um campeonato em que as características de jogo são substancialmente diferentes, do natural tempo de adaptação. Esta contratação poderá fazer sentido se o pressuposto for o de médio prazo, preparando-o para na próxima época poder ser integrado já rotinado com o resto da equipa; se a ideia é colocar Fernandez a titular a partir do momento em que saia do Aeroporto, estaremos muito provavelmente incorrendo em mais uma má decisão estratégica.
Em Janeiro, só faz sentido contratar um jogador se ele tiver as características certas para vir colmatar, no imediato, as lacunas do onze titular: conhecimento do tipo de jogo que aqui se faz, experiência ao mais alto nível europeu e facilidade de assimilação das ideias do treinador. Fernandez poderá até vir a revelar-se um jogador com facilidade de adaptação mas, a priori, não me parece o caminho certo a seguir.
Por outro lado, com esta escolha, assume Jesus e toda a estrutura do Benfica que a opção de compra de Gaitán para suprir o espaço deixado vago por Di Maria, foi um verdadeiro falhanço. O que é contraditório, visto que o treinador do Benfica opta, sempre que pode (e tem podido quase sempre), por Gaitán para aquele espaço do terreno. E, se nos primeiros dois meses poderíamos ter compreendido a sua vontade em adaptá-lo a uma posição que claramente não é a sua, nos últimos dois - e esta escolha por Fernandéz vem corroborá-lo - tem sido um caso de pura falta de humildade em assumir o erro e de teimosia bacoca, o que não deixa de ser preocupante.
Há, no entanto, e se Fernandez entrar directamente para a esquerda do meio-campo, uma boa notícia: veremos o talento de Gaitán explorado decentemente. Na minha visão, dar-lhe-ia a oportunidade de jogar a segundo avançado, no lugar do Saviola. Ou seja, um suplente muito utilizado. Veremos que planos tem Jesus para este talento.

Outra notícia que saiu foi a de o Benfica ter vendido Patric ao Atlético Mineiro. Sinceramente não percebo esta decisão. Há cerca de um ano e meio o Benfica comprou 70 por cento do passe de Patric por 2 milhões de euros; agora, depois de um excelente campeonato brasileiro, em que revelou poder ser uma alternativa credível a Maxi Pereira (e essa é umas lacunas do plantel, não ter um substituto natural ao uruguaio; deixemos Amorim a médio, a sua posição natural), um jovem com potencial, que provavelmente nos próximos dois anos verá o valor do seu passe altamente inflaccionado, vendemos 50 dos 70 que tínhamos por 1 milhão e meio. É verdade que recuperámos o dinheiro investido mas parece-me que teria sido mais benéfico para o clube uma de duas coisas: recuperá-lo para o nosso plantel, fazendo-o evoluir a espaços na lateral direita e prepará-lo para a próxima época OU deixá-lo emprestado no Brasil, evoluindo no jogo para depois, se mostrasse a qualidade que parece ter, trazê-lo para o plantel principal da equipa. Entre ter recuperado 1 milhão e meio de euros e ter esperado mais um ano pela sua evolução, escolheria claramente a segunda opção. Não aconteceu assim, é pena. Espero que não o vejamos no futuro numa grande equipa europeia e a remoer o erro de casting.
Sílvio, do Sporting de Braga, seria uma contratação inteligente. Grande qualidade, português, 23 anos, provável jogador de Selecção no futuro, das escolas do Benfica. Olhem, gastem o dinheiro recebido pelo Patric no Sílvio e não se fala mais nisso.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ontem vi-te no Estádio da Luz reforça o plantel

Depois de uma busca apurada por parte da equipa de prospecção deste blogue - a quem Villas-Boas pede recorrentemente conselhos sobre Power Point e Excel -, após meses e meses a visualizar comentários em blogues, a definir perfis e a enquadrá-los adequadamente nas necessidades do Ontem vi-te no Estádio da Luz, é com grande satisfação que anunciamos a contratação de mais um elemento para dizer disparates: Mr. Shankly.

O contrato tem a duração do tempo que o Mr. Shankly quiser, sendo que, por ingressar no blogue, receberá as contrapartidas financeiras de ser insultado por anónimos imbecis e muitas vezes apenas o silêncio resultante de ser este um sítio onde se juntam à vez 2, 3 ou, em dias de loucura, 4 pessoas ao mesmo tempo. Ao blogue terá de dar apenas e só uma coisa: a sua mais sincera opinião, coisa em que é, de facto, bom.

Aproveitamos para anunciar que o plantel, com esta contratação, fica fechado. Não haverá saídas e muito menos entradas, visto que não queremos fazer disto uma equipa de futebol. Temos 5. Dá para o futsal. Quem se desculpar com os árbitros estupidamente ou passar o tempo a falar dos outros, vai à baliza.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A César o que é de César!

De uma coisa não nos podemos queixar: este Benfica é sempre uma incógnita, cria expectativas, aumenta a surpresa, traz emoção e incerteza a qualquer jogo. Nunca sabemos como irá entrar em campo: o Benfica confiante do ano passado ou o pesadelo macambúzio deste? É nisto que estamos: quando a equipa parece pronta a desabar por meses em exibições medíocres e sonolentas, ela apresenta-se mais forte, pronta a vencer todos os obstáculos que lhe aparecem à frente, ainda que, e essa é a única constante, cheio de tremeliques no seu jogo. Ontem não foi diferente. Uma primeira parte com vontade, com períodos de bom futebol mas longe da área adversária até uma segunda parte em que, nos primeiros 20 minutos, nem sabíamos desenvolver contra-ataques nem sabíamos defender até aos nossos últimos 20 metros (em que, aí sim, estivemos bem). Nessa parte negra do jogo, bastava um passe vertical bracarense para ultrapassar meia-equipa do Benfica. Lembrou-me tempos idos, os de Flores, Quique Flores, numa espécie de linha pirilau com que o Benfica fazia (pensava que fazia) pressão aos adversários. Isso e Gaitán e Cardozo a marcarem homem-a-homem com a mente - não lhes conhecia atributos tão esotéricos como os que ontem apresentaram; muito bem estiveram na arte de deixar os colegas na merda. Parabéns. Depois o Domingos - que dizem ser bom treinador e eu também já tive os meus momentos de engano - decidiu que o Benfica tinha de ganhar o jogo (talvez para ter mais tempo para preparar a equipa para a Taça da Liga) e retirou de campo Andrés Madrid, que era só o gajo que estava a varrer o meio-campo e a dar bolinhas adocicadas por entre os médios do Benfica. Obrigado, Domingos. O Jesus, que tem dias, viu a jogada e agradeceu. Meteu o Sálvio pelo Martins (que correu muito, quase sempre mal) e estava construída a auto-estrada - o Guilherme, que até estava a aguentar a coisa, viu-se, desejou-se e enterrou-se, crítico em relação à construção desta quando os problemas do país não se coadunam com empreitadas estruturais. Aimar apareceu, Javi apareceu, Gaitán apareceu (aleluia!), Saviola apareceu. Cardozo também andava por lá mas só foi visto como Walking Dead (está provado cientificamente que os joelhos dos zombies estão virados ao contrário). Deu para tudo. Obrigado, Domingos. Até para o Aimar marcar um golo de cabeça.

O Roberto estava no banco a matutar sobre o euromilhões e a agradecer a Deus (e a Jesus, filho pródigo) o facto de ser titular em detrimento de um gajo melhor e pornograficamente mais barato do que ele, o que só vem corroborar a ideia de que, a haver força Divina, ela não é socialista. O Coentrão continua a pensar no Hulk e o David Luiz, como quer ser vendido, começou a perceber o estratagema: ser mais parecido com Bruno Alves. O gordo e talentoso Sidnei varreu a ocorrência e veio provar que os gordos merecem nem sempre ir à baliza. Maxi, este meu ódio de estimação, às vezes dá-me vontade de casar com ele - todos os dias dá lições de humildade aos colegas (deve ser do ar de monge budista). Javi parece que vai mas não vai e Gaitán definitivamente não vai. Martins, como é mais bolos e petardos, prefere zonas centrais e Aimar deve ter recebido ordens do psicólogo para extravasar as frustrações pessoais com os árbitros. Depois é Cardozo, zombie jarreta (aprende, Roberto), e Saviola a ensinar todos os dias como se trata a bola. 

Amorim foi no fim.
Sálvio é o que está à vista - não de todos. Mas compreende-se: não é jogador do Benfica, portanto não convém metê-lo a jogar. O problema é que, quando joga, fá-lo bem. Vieira é que não deve ter gostado nada. Por ele, Sálvio não jogava mais. Mas que afronta é esta? 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Confiança...

A discussão anda na boca de todos, ou quase todos, e tem ofuscado os juros da dívida pública e falências e FMIs e outras pantominices que fazem o dia-a-dia do nosso triste país.

Naturalmente, a discussão anda também aqui, e claramente, é o sítio onde tem sido discutida de forma mais brilhante e clarividente. Li o post anterior e os respectivos comentários e tenho a firme convicção que estão bem perto do busílis da questão - quero com isto dizer que não opinaria melhor.

Mas quero opinar mais, sobre uma nuance que é discutida, sim senhor, mas não vai onde eu gostaria que fosse. É assim:

Fico possesso com a cabecinha dos nossos jogadores, tão fraquinha que é! Em termos de atitude mental é das equipas mais fracas que vi jogar este ano. E porquê?

- Porque são fracos da cabeça? Sim, mas não chega…

- Por causa do Jesus? Sim, mas não justifica…

- Por influência do LFV? Epá, sim…mas nem tanto ao mar nem tanto à terra…

Então mas porquê?

Enquanto penso nisto, disperso-me um pouco e relembro estórias do mundo do futebol: daquelas que os jogadores contam quando se reformam, de treinadores que não dirigem palavra aos jogadores e presidentes que nunca aparecem e coisas que tal… Sempre achei estas estórias esquisitas porque a malta até pode ser incompetente, mas tratando-se das suas carreiras, custa-me a acreditar que não se esforcem. Os dirigentes e afins hão-de querer que a equipa ganhe, certo?

Eu acho que sim. E então penso em como será o dia-a-dia nos corredores do estádio, ou do centro de estágio do Benfas. E depois lembro-me de uma entrevista que o Diogo Luís (lembram-se?) deu a comparar o Toni e o Mourinho: ele contava que durante o treino se falhasse um par de cruzamentos o Toni batia palmas e dizia que para a próxima era melhor; já o Mourinho o obrigava a ficar mais meia hora depois do treino só a cruzar. Já estão a ver onde quero chegar? Já estão a pensar no Porto? Pois, eu também, mas só um bocadinho, porque eles são uns sebosos e como exemplo deixam muito a desejar. Mas uma coisa é certa: nenhum jogador do Porto, que se arme em campeão das dúzias, anda tranquilo nos corredores lá da toca onde habitam. Porque em cada esquina deve haver um gajo de bigode a arrotar a alho e a cheirar a casa de alterne para lhe fazer logo sentir que escolheu o caminho errado para a felicidade. Tenho a certeza. Como tenho a certeza que todos os clubes ganhadores terão o mesmo tipo de estratégias (embora mais elevadas) de “motivar” os seus activos.

E é isto. A malta farta-se de falar no que está diferente em relação ao ano anterior, mas esquecem-se do que não mudou, do que se mantém desde os tempos em que fomos treinados por um lobotomizado (e um pouco antes, para ser verdadeiro – mas é sempre bom denegrir o gajo que levou uma pêra do Sá Pinto – viram como o fiz outra vez?); e o que se mantém é esta tolerância para o fracasso, para a fraqueza. Os jogadores sabem que quem se lixa é o clube, ou o treinador, ou o treinador e o clube.

Será que me perdi? Espero que não. Apenas queria dizer que há clubes em que os jogadores têm confiança nas suas qualidades e outros clubes onde os jogadores têm confiança que se fizerem uma triste figura alguém os vai surpreender num corredor do estádio a arrotar a alho e bom…há clubes onde os jogadores não têm confiança…

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O preço da falta de atitude

Não me apetece dissertar sobre o que se passou na Luz. Foi de tal modo mau que me parece uma estupidez debater os assuntos tácticos (ainda que eles, mais uma vez, revelem o desnorte de Jesus). Quando uma equipa que entra de pijama em campo decide fazer a cama ao treinador, até podiam estar em campo Casillas, Dani Alves, Carvalho, Piquet, Lahm, Busquets, Xavi, Iniesta, Ronaldo, Messi e Villa. Queria só relembrar aos jogadores do Benfica - não que eles pareçam muito importados com isso - que, além do prestígio que deitaram na lama, além do dinheiro que fizeram o clube perder e além do desrespeito total que revelaram pelos adeptos, há uma outra realidade que, e apesar do anjo Lacaralhette vos ter salvo do abismo, a vossa atitude revelou:

Em vez de defrontarem um destes:

Basileira, Rubin Kazan, Glasgow Rangers, Lech Poznan, Aris Salónica, Gent/Lille, PAOK/Dínamo Zagreb, Bate Borisov, Sparta Praga, AEK, Young Boys, Metalist, Sevilha, Steuaua Bucareste/Nápoles, Besiktas

irão jogar contra um dos seguintes:

Spartak Moscovo, Ajax, Twente, Manchester City, Bayer Leverkusen, Villarreal, Dynamo Kiev, CSKA Moscovo, Zenit, Estugarda, PSV, PSG, Liverpool


Obrigadinho por tudo e vão para o caralho, se Jesus quiser, está bem?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Assim de repente, na pausa para o cigarro...

Foda-se! Que merda.
Vou precisar de tempo para enumerar todas as merdas que vi...talvez no feriado...



sábado, 4 de dezembro de 2010

Um talento que dá sono

No futebol, o que faz haver favoritismo de uma equipa sobre outra tem um nome: talento. Outra(s) coisa(s), bem diferente(s), é(são) o que faz uma equipa aproveitar esse talento e merecer esse favoritismo: atitude, intensidade, garra, organização, superação. Se uma equipa se encosta ao talento e despreza os restantes o mais provável é não ganhar um jogo ou, se ainda assim a qualidade se impuser, ganha mas passa por dificuldades pelas quais não necessita. Ontem foi isto que aconteceu: acomodada ao talento individual e à qualidade dos seus jogadores, o Benfica entrou em campo como se a vitória tivesse de chegar por hereditariedade natural, como se os genes do jogo tivessem sido escolhidos ainda antes de este começar. Se eu consigo entender um jogo menos conseguido da equipa, quando ela faz tudo para o ganhar, é-me de todas as formas inconcebível ver os jogadores do Benfica displicentes, arrogantes, lentos, crentes numa ordem qualquer divina que os ilibe de lutarem pelo resultado.

A escolha do onze foi a correcta embora haja uma excepção: Aimar por Martins. Não se compreende a escolha de um em detrimento do outro, se pensarmos que um vem de uma lesão e o outro vive um momento fulgurante tanto a nível exibicional quanto físico e mental. Parece ser um desperdício de recursos. E o jogo, esse filtro da verdade, provou-o de forma cirúrgica. Martins, entrado ao intervalo, recuperou a intensidade que Gaitán deixara nas ruas de Buenos Aires e Aimar esvaziou o balão antes de o jogo passar pelos ponteiros dos 60 minutos. Teria sido mais benéfico para a equipa ter entrado com Martins e deixado entrar Aimar na última meia-hora. Mas Jesus põe e dispõe. Limitemo-nos, pois, a rezar com mais ou menos crença na absolvição.

Em posse, fomos previsíveis e pouco dinâmicos; em perda, quase ausentes de intensidade; em contra-ataque, pouco esclarecidos. Valeram-nos dois momentos exteriores a tudo isto: um brinde do Pai Natal Moretto e uma bola parada (onde, haja luz, ainda conseguimos manter um nível de eficácia razoável e que parece ser das poucas ideias que viajaram do ano passado para este que se mantiveram lúcidas sem entrarem em depressão crónica).


Notas individuais:

- Coentrão, desde o jogo do Dragão, parece outro jogador: temeroso, pouco consequente, falho na luta individual, menos agressivo. É um dos case-study mais (des)interessantes desta época, um exemplo de como a falta de confiança tem toldado esta equipa.

- Gaitán: fez-me dizer o dicionário inteiro de asneiras. Gastei todo o vocabulário pornográfico com o argentino. Tem talento? Aos magotes. Está a jogar onde deve? Não. Mas nada justifica a atitude passiva, desinteressada, pouco solidária com o resto da equipa. Gaitán definitivamente não serve para jogar na ala. Se isso era perceptível quando a equipa estava desequilibrada, continua a sê-lo com o meio-campo remendado. Não sofre pelo movimento colectivo, é ele, a bola e o que lhe apetecer. Procura movimentos internos mas até aí sem chama, sem capacidade de decisão, um diamante em bruto embrutecido pela pouca clarividência. É deixá-lo aprender este futebol e, a dar-lhe oportunidade de pisar o relvado, metê-lo noutras andanças - experimentar o rapaz a 10 e a segundo avançado. Não vale a pena insistir mais nisto: estraga-se um talento nato e a equipa perde fluidez e intensidade de jogo.

- Amorim: é pau para toda a obra. Hoje, quando Jesus viu que o Gaitán ainda vinha de pijama, foi para a esquerda para ve rno que dava. Não esteve mal mas nota-se-lhe que nem é aquele o seu lugar nem ele está ainda no melhor momento físico. De qualquer forma, neste Benfica, tem lugar de caras na direita do meio-campo.

- Aimar: como escrevi atrás, acusou os maus níveis físicos. Ainda assim, foi dos que mais incorporou a ideia de que um jogo não se ganha apenas pelo talento. O problema é que um pressing consequente depende de toda uma equipa e não apenas de 3 ou 4. Lutou, procurou movimentos verticais com os avançados, tentou abrir espaços mas a pouca movimentação dos restantes e a boa organização defensiva dos de Olhão limitaram-lhe os rasgos. Saiu bem. Espero vê-lo com outra dinâmica no próximo jogo. Mesmo que entre a partir do banco.

- Martins: é daqueles que tem de estar em campo desde o começo do jogo. Vinha de boas exibições a 10 e ontem voltou a uma das alas do meio-campo, tendo nos últimos minutos estabelecido lugar atrás dos avançados. Trouxe logo outra capacidade de limitar os movimentos do Olhanense e abrir os olhos a uma equipa que parecia estar em campo à espera que o céu caísse sobre a própria cabeça. É, neste momento, um indiscutível.

- Salvio: se em termos de talento puro, deve alguma coisa a Gaitán - ainda que seja dotado tecnicamente -, do ponto de vista de entendimento do jogo e de capacidade colectiva está muitos furos à frente do Nico dorminhoco. Por mim, era aposta para a esquerda do meio-campo no jogo com o Schalke.

- Cardozo: o "tosco" já vai com os mesmos golos que Magnusson, o até ontem maior goleador estrangeiro da História do Benfica. Ele é feio, é lento, é parvo, cheira mal da boca mas é... bom. Vão assobiar para o caralho, benfiquistas de merda.

- Saviola: afinal não foram três, foi só um. É o melhor jogador do Benfica. E está a voltar aos golos. Dê a equipa tudo o que tem que ele está lá para fazer o que sabe.

Por fim, uma referência a Daúto Faquirá. É um dos melhores técnicos portugueses. E não é de agora. O trabalho de um técnico vê-se, mais do que no palavreado às vezes absurdamente fechado em triângulos perpendiculares e pontas verticais em duodenos cerebrais, no campo. Merece outras viagens. Quem sabe um dia não voa de águia... 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Olhão bem aberto

Ainda não é hoje que iremos descobrir se Jesus aprendeu a lição ou não. Aimar está de fora e é, portanto, quase lógico (embora ultimamente nada o pareça com Jesus) entrar em campo com Martins a 10, Amorim à direita e Gaitán à esquerda. O que está por descobrir é o que fará o treinador do Benfica quando Aimar e Martins estiverem simultaneamente aptos - será essa a última cartada para entender o jogo que é a época 2010/2011.

No entanto, a Jesus ouvi coisas estranhas, por serem incoerentes. Ouvi Jesus falar no jogo de Aveiro como o jogo em que "a equipa esteve equilibrada". Ora, a equipa esteve equilibrada porque as peças do todo estiveram no sítio certo - coisa que andamos a pedir aqui há mais de dois meses. Jesus só viu em Aveiro como deveria jogar ou viu antes mas foi casmurro? Qualquer uma delas não descansa este pobre coraçãozinho encarnado.

Sem provas dos nove para tirar, espera-se que a equipa, JÁ EQUILIBRADA, possa fazer um bom jogo e mostre aos adeptos que podemos contar com ela para o resto da época. Temos tanta qualidade que é um crime desperdicá-la por factores mentais ou má disposição das peças no terreno. Este Benfica, bem organizado, pode ser a máquina mortífera do ano passado. Não duvidem disto. Para a goleada de mais logo:

Roberto
Maxi, Luisão, D. Luiz, Coentrão
Javi
Amorim, Martins, Gaitán
Saviola, Cardozo

Vidência: o Saviola hoje marca três golos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Moltes gràcies, més que un club

"O resultado é óbvio: 5-1 para o Barcelona. Dois de Iniesta, dois de Messi e um na própria baliza do Pepe. O Real marca por Xabi Alonso.

Mourinho expulso, Guardiola tranquilo junto ao banco, mas com aquele sorriso a querer ganhar vida.

O Barça hoje vai dar um festival."

Escrevi isto hoje à tarde num blogue. Não de forma gratuita mas - e ao contrário da generalidade das várias opiniões que li e que defendiam um prognóstico de resultado equilibrado - porque, de facto, este jogo tinha uma boa probabilidade de acabar desta forma. O Barcelona não só é fortíssimo como equipa como o é ainda mais em casa e, mais importante, em jogos contra equipas de grande valia e que arriscam na forma como encaram o jogo. Quando esse adversário se chama Real Madrid, escusamos de falar na motivação extra que os catalães têm para um jogo deste tipo. Quando o treinador do Real Madrid se chama Mourinho e é o responsável pela eliminação do Barça na Champions do ano passado, é de mais motivação ainda, se é possível, que falamos e pensamos. Falamos numa super-equipa, extremamente motivada para vencer o adversário (por razões desportivas mas também culturais), que, é bom não esquecer, tem rotinas consolidadas ao longos de vários anos, ao contrário do Real Madrid.

Não era, pois, algo de estapafúrdio prognosticar uma goleada culé - ainda que não tenhamos visto (eu, pelo menos, não vi) gente a fazê-lo. E é isto que espanta e é isto que não faz sentido. A lição futebolística que o Barcelona deu hoje ao Real não é nenhuma surpresa e devia, portanto, ser expectável por quem analisa o futebol a um nível, digamos, profissional. Mas não. Ao ouvir as barbaridades dos comentadores da SportTv (na segunda parte; na primeira o stream deixou-me ter o prazer orgástico de ouvir os argentinos da ESPN; que génios da análise da bola!), ficamos com a sensação que esta gente, primeiro, nunca jogou futebol, segundo, nunca viu futebol, terceiro, nunca gostou de futebol e, quarto e mais importante, não merece falar disto que a todos apaixona e move. Em contraposição, como referi, ouvir os argentinos - um deles o autor daquela peça genial sobre Aimar e Saviola que há uns tempos coloquei aqui no blogue - é conhecer mais do jogo, é conhecer tudo do jogo, é amar ainda mais, se é possível e é!, esta coisa que passa por descobrir uma forma de, em dança, levarmos uma pérola até ao reduto último do adversário. O Barcelona ganhou, goleou e, muito mais do que isso, o Barcelona provou (pela centésima vez) que a inteligência ao serviço do jogo, o talento ao serviço do jogo, a rapidez de raciocínio ao serviço do jogo são absurdamente mais importantes do que as questões atléticas e até tácticas (se as entendermos como meras leituras estanques do posicionamento em campo). Esta gente - Xavi, Iniesta, Pedro, Villa, Messi, Bojan, Jeffren - tem altura para caber naquelas casas ancestrais, da Idade Média, que vemos em ruínas nas aldeias deste país. Estes anões, se os víssemos na rua, não nos pareceriam jogadores modernos, estrelas, vendedores de produtos de beleza. Apenas e só homens, vestidos sobriamente, entre uns treinos e uns jogos. Depois, em campo, gigantes do pensamento veloz e da técnica sublime, Deuses nos quais colocaram, como chip divino, todas as jogadas imagináveis e imaginadas por todas as crianças num pelado deste Mundo. Eles concretizam o que nos sonhou.


Ainda sobre este recital, dizer que:

- o Busquets fez um jogo perfeito. Não só é, do ponto de vista posicional, o melhor médio defensivo da actualidade, como não é médio defensivo nenhum. É médio, ponto. A forma como evolui no campo, deixando a que à partida seria a sua zona de acção, para interceptar passes e antecipar o que o adversário vai fazer, só é possível pela sua qualidade inegável mas porque a equipa é toda ela uma harmonia de jogos de compensações e conhecimento mútuo.

- a pressão que o Barcelona faz atinge, em vários momentos do jogo e contra equipas como o Real Madrid (que é constituída por cepos, claro), a perfeição. Mas o que assusta de tão genial e intenso nem é a pressão à saída do jogo organizado do adversário mas a capacidade de pressing que exerce um milionésimo de segundo depois da perda. É sufocante. É delirante.

- A posse. Tão e tão elogiada que será que vale a pena falar nela? Vale. Sempre. A posse é do estilo da rua, não é dos laboratórios. É lógico que é trabalhada ao extremo mas tem nela, dentro, na origem, o perfume da decisão de um miúdo de rua, entre futeboladas no meio dos estendais de roupa. É arriscada, dirão alguns. Nada mais falso. Esta forma de lidar com a bola, juntamente com a enorme capacidade de passe e recepção dos seus intérpretes e confiança no que o colega vai fazer, é a menos arriscada de todas. Por um simples motivo: é a mais simples. Há um estilo particular de o Barcelona tocar a bola que não se vê em mais equipa nenhuma no Mundo e, no entanto, ao nível da capacidade de desposicionar o adversário é a mais eficaz: um jogador toca a bola para outro, virado e correndo para ele e este que recebe não triangula logo nem passa para outro; toca directo no colega que a passou. Estes dois toques desvirtuam a marcação adversária porque a ilude a pensar que o jogo estagna naqueles dois metros que separam os jogadores catalães. Depois, sim, variantes, bola metida numa ala, bola metida nos centrais, bola vertical para um dos avançados. Tudo gira. E é tão bonito.

- O Villa é daqueles gajos que a gente quer ter se for fazer uma viagem ao Mundo durante dois anos. Fala todas as línguas, sabe que comida as culturas diferentes ingerem, é capaz de sair do seu país, ir viver para o meio dos índios e ser não como eles mas ser eles. Adapta-se de tal forma que devia vir a sua foto como exemplo de que Darwin tinha razão no que dizia.

- Iniesta. Eu não quero morrer sem ver este génio ser considerado o Melhor Jogador do Mundo. No papel. Em campo, para mim, ele já o é há dois milénios.




Um lamiré do Benfica Campeão (aleluia!)

O que me espanta neste Jesus 2010/2011 é que ainda não tinha percebido que tem de jogar com um médio que equilibre a equipa, seja Peixoto seja, preferencialmente, Amorim. E que não pode jogar simultaneamente com Aimar, Martins e Gaitán no meio-campo. Quando o Aimar se sentiu indisposto no jogo em casa com o Lyon, apareceu o Martins a 10 e o Peixoto a interior esquerdo. Grande joga, tudo certo, venha o Porto no Dragão! Chegados lá... inventa para caralho. Depois do Dragão, continua com a ideia peregrina de não dar ao Javi apoio nenhum no meio-campo. Resultados: levamos 3 do Hapoel e goleamos a Naval em casa num jogo em que podíamos ter mamado dois ou três golos. É só um médio de transições, Jesus, a qualidade no resto salta à vista! Anda lá, aprende com os erros, sê humilde.

O que me preocupa é que os melhores onzes e melhores jogos resultam sempre de o Jesus não ter a possibilidade de juntar Martins e Aimar, como hoje, em que não tinha o argentino. Sempre que os tem aos dois, mete-os no onze. Está na altura de optar por um ou por outro, tem de ser. Eu percebo que seja difícil deixar um deles no banco mas no ano passado ele fez isso e ninguém se queixou - Martins foi um óptimo 12º jogador muitas vezes.

Ou, a querer juntar os 2, tem de tirar Gaitán e não Amorim. Quanto ao argentino, só o vejo a segundo avançado neste esquema. A médio esquerdo faz desequilibrar a equipa e não explora as qualidades que tem individualmente. Ainda assim, e por a equipa estar mais equilibrada com Amorim, hoje já fez um jogo com outra qualidade.

O que me espanta é Jesus não ver isto. Como não tenho a presunção de achar que sei mais do que ele, deve haver aqui algum erro de análise da minha parte, com toda a certeza. Esperemos para ver os próximos jogos. Mas não me espanta que volte a entrar em campo com um meio-campo com Javi, Martins, Aimar e Gaitán. Lá casmurro é ele!


Tão xau!

domingo, 28 de novembro de 2010

O bom que é Aimar não jogar

Boas notícias, meus caros: Aimar não joga. Não, não estou louco nem tenho uma noção futebolística ao nível de Luís Campos. Aimar não jogar é provavelmente a melhor notícia que nos podiam dar. É que, não jogando Aimar, não há a possibilidade de Aimar e Martins jogarem ao mesmo tempo. Isto, juntamente com Gaitán na ala, tem sido o plano suicida de Jesus em grande parte dos jogos. Sem Aimar, vai Martins para onde deve estar (lembro, em relação a isto, que a últma vez que Martins jogou a "10" fez não uma, não duas, não três, mas quatro (4!) assistências. Na Champions!) e, esperamos nós, mete-se ali um gajo que realmente apoie Javi e equilibre a equipa - ou Amorim à direita ou Peixoto à esquerda.

Notas soltas:

- Depois das declarações e polémica em torno de uma suposta vontade de David Luiz em sair em Janeiro, espero bem que as palavras de Jesus sejam levadas a sério e que o brasileiro entre em campo hoje. O pior que podia acontecer seria desvalorizarmos um activo como David Luiz, dando-lhe razões para se desmoralizar e deixar de dar tudo pelo clube. Tem falhas óbvias, mas continua a ser um bom jogador que poderá ser excelente se for humilde o suficiente para querer aprender.

- Tendo em conta o resultado de ontem (Sporting, 1 - Porto, 1), livrem-se de perder pontos hoje. Sim, acredito no primeiro lugar, sempre acreditei. Porque temos muita qualidade no plantel, porque acho possível que este estado de espírito mude e a confiança chegue mas, acima de tudo, porque, como ontem foi evidente em Alvalade, o Porto é uma equipa boa mas com falhas e defeitos evidentes que, ao longo do Inverno, o farão perder pontos em alguns campos (além de que terão de vir jogar à Luz). É aproveitar todos os pontinhos que os gajos perderem. Começando hoje.

PS - Raramente escrevo aqui sobre outros clubes mas hoje... tem de ser. Depois de ter visto o Bettencourt em risos cúmplices sentado ao lado do máfio, perdi completamente o respeito pela grande instituição que é o Sporting Clube de Portugal. Até que esse ser rastejante e submisso saia da Presidência do clube, o Sporting não será mais do que um aprendiz de corrupto e, portanto, não será o Sporting honrado que sempre conhecemos mas apenas e só o Sporting Clube do Porto.