segunda-feira, 18 de junho de 2012

Hóquei em Patins, será mesmo o primeiro de muitos ?


Após anos e anos de de insucessos, o Benfica decidiu no ano passado apostar no Luis Sénica como treinador, visto que nem o Carlos Dantas que tantas alegrias nos deu na década de 90 se mostrou capaz de contrariar o domínio dos tripeiros.

A minha ligação emocional com o hóquei vem de muito cedo, inclusivamente cheguei a obrigar os meus pais a comprarem-me um daqueles jogos com tabelas e jogadores com esferas nas bases, tipo o subbuteo do hóquei. À semelhança dos feitos do Eusébio, Coluna e todos esses heróis do futebol, o meu pai sempre me contou a equipa maravilha do Benfica que contava com aqueles jogadores que a imprensa depois tornou heróis lagartos, o Ramalhete e o Livramento, mas que no Benfica com o Adrião tinha formado uma das melhores equipas do Benfica de sempre e do mundo. À semelhança do futebol, entre 59/60 e 73/74, ou seja no espaço de 15 anos (14 épocas) o Benfica foi campeão 9 vezes, sendo que apenas os clubes moçambicanos o Desportivo e o Ferroviário de Lourenço Marques se constituíam como oposição.

A saída de Livramento e Ramalhete, um para ir para o estrangeiro ganhar mais dinheiro e outro por incompatibilidades com um director do Benfica, bem como o reformar de alguns jogadores levou o Benfica a perder o domínio. Eu bem gostava do Picas (até tive um canário com esse nome) e do Piruças, mas os 3 títulos no fim da década de 70, foram suplantados por uma geração de jogadores tripeiros de grande qualidade, dos quais Vitor Hugo, Vitor Bruno e Franklim eram os principais representantes e enquanto estes foram jogando, o Porto foi ganhando.

No entanto, no início da década de 90, surge no Benfica uma geração de jogadores que vinham do Oeiras, do Paço de Arcos, da Física e do Sporting que tantas alegrias me deram. Luis Ferreira (o grande capitão), Paulo Almeida (um tecnicista fabuloso), Vitor Fortunato (um grande defensor com uma tranquilidade inacreditável) e Rui Lopes (uma máquina de golos), tendo na baliza José Carlos (uma muralha). Conquistaram Portugal, a Europa (a primeira Taça Cers do Benfica) e levavam-nos ao pavilhão para tardes e noites memoráveis. Hóquei e Basquete, levavam-nos ao pavilhão e mostravam que o Benfica não era só futebol.

Em 7 anos conquistaram 5 títulos e uma taça europeia. No entanto, quer o Óquei de Barcelos, quer o Porto, reorganizaram-se e ultrapassaram o Benfica.  Jorge Godinho nunca foi um bom substituto de Rui Lopes, muito menos o Gaidão. A saída de Luis Ferreira nunca foi bem colmatada, Panchito apesar de fabuloso tecnicamente era demasiado conflituoso e egoísta, pelo que ele passou e o irmão ficou, Mariano que era visto como um apêndice do Panchito, acabou por conquistar os adeptos pela sua maneira de ser, a tenacidade, o colectivismo e a garra.

Ao que parece, devo dizer que agora acompanho muito menos o hóquei, quer porque poucos jogos dão na RTP, quer porque já não vivo na zona de Lisboa, os métodos do futebol também foram adoptados no hóquei e há um sistema que influencia significativamente os resultados. Não sei se é só culpa do sistema, mas há 3 elementos que estão nos tripeiros que são de uma grande qualidade, os espanhóis Edo Bosch e Pedro Gil, bem como o Ventura por quem não tenho qualquer respeito tendo em conta as suas atitudes no ringue.

À semelhança do futebol, a competência acaba por ganhar ao sistema, por mais corrupto que ele seja. Por isso, no ano passado apenas perdemos o campeonato no goal-average, mas conquistámos a Taça Cers e este ano fomos Campeões. A competência do Luis Sénica, que conseguiu diminuir significativamente a distância que tínhamos para os tripeiros. Mas também a competência de Sérgio Silva, que este ano mostrou que não é preciso ter medo, é olhá-los nos olhos e ganhar.

Destaco ainda a competência do director José Trindade, também ele um exímio ex-praticante, que penso estar a fazer um trabalho de sapa de reorganização do hóquei no Benfica, há neste momento 8 escalões na formação, mas a falta de títulos nos escalões de formação é indicativo que não temos a breve trecho uma fornada de jogadores talentosos que possam vir a discutir um lugar no Benfica.

Na verdade, tirando o Diogo Rafael e o João Rodrigues de 22 anos e o Valter Neves que vai fazer 29, o resto da equipa do Benfica é composta de trintões, e por muito que eu tenha criticado na altura das suas aquisições, convém assumirmos os erros que cometemos, a experiência dos jogadores veio a revelar-se decisiva para ganhar o campeonato. Inclusivamente o elemento mais idoso, Sérgio Silva (38 anos) vai para o Valdagno que nos eliminou na Liga dos Campeões porque a proposta que lhe fizeram é economicamente mais interessante.

Eu sei que o Sénica adoptou por fazer um Benfica à italiana, onde se priveligia a qualidade e experiência em detrimento da juventude. A minha questão é que nem todos os jogadores conseguem jogar ao mais alto nível até à idade do Sérgio Silva. O desafio é conseguir aliar a intensidade necessária durante muitos minutos à experiência e qualidade que têm, por isso, confesso que estou um bocado apreensivo quando vejo que Luis Viana vai fazer 36 este mês, Carlos Lopez tem 35 e Esteban Aballos e Cacau têm 32.

Estou confiante que o nosso treinador saberá o melhor caminho a seguir na senda do êxito, mas preocupa-me que nos tenhamos focado excessivamente em obter um êxito no curto prazo em detrimento de procurarmos conseguir uma equipa para dominar durante uma década. Claro que isto digo eu que nada percebo de hóquei. Apenas me limito a gostar de ver o Benfica jogar e ganhar.

Seja como fôr PARABÉNS CAMPEÕES !!!

PS - Não gostei nada de ouvir as declarações do nosso director José Trindade no final do jogo, pois parece-me que em virtude de não ganharmos há tanto tempo, desaprendemos de saber ganhar. O Benfica tem que ser o melhor dentro e fora de campo, tem que ser o exemplo e não pode escudar-se nos comportamentos asquerosos dos outros para os imitar.

PS2 - Sim, o mérito também é do no LFV que soube escolher o Trindade e o Sénica e lhe deu os recursos para sermos campeões

Futebol sem bola

Com decepção, tenho ouvido Pedro Ribeiro comentar os jogos do Euro. Não sei muito bem se foi ele que mudou ou se fui eu, mas houve um tempo em que não desgostava dos seus comentários aos jogos ingleses na Sport TV. Hoje noto que a questão central da minha admiração passava pelas horas e dias em que os jogos davam: geralmente de manhã ou início da tarde, aos Sábados e Domingos, horas que estão cientificamente patenteadas como veículos progressivos de uma cura de ressaca. Pode ser que a cabeça me latejasse em demasia, pode ser, e que tudo me parecesse de uma qualidade que não tinha.

Ontem foi quase insuportável ter de ouvir tanto disparate. Desde as infinitas loas a Ronaldo passando pelo desprezo a vários outros jogadores, foi um bocadinho repugnante. No golo da Holanda, no entanto, não se abordou o jogador Ronaldo, vá lá saber-se porquê. E no golo de Portugal, o primeiro, demorou-se algum tempo a compreender o passe fantástico de João Pereira. E mesmo quando se lhe reconheceu a mestria, foi com frases descabidas pelo meio, tanto que na segunda parte, quando o jovem Pereira avançou destemido pela área holandesa, surgiu a pérola: "bem, se ele assiste e marca neste jogo é o fim do mundo!".

Ora bem, João Pereira é um jogador medíocre - penso que é consensual. Mas é-o, acima de tudo, por não saber defender. A atacar, tem qualidades que extravasam em muito a média geral do campeonato português e até - imagine-se - de alguns chamados génios e fenómenos da natureza. Aquele passe, por exemplo, não é raro em João Pereira - e aquele passe demonstra muitas coisas. 

Coisas que Ronaldo, nosso líder, herói e capitão, raramente faz. Quantas vezes vimos Cristiano rasgar uma defesa com um passe daqueles? É que por mais que se treine e se crie uma máquina de jogar (e Ronaldo é uma máquina incrível), há lados do cérebro, da imaginação e da visão espacial que o madeirense não tem. Há coisas que não se treinam. Se se treinassem, Ronaldo seria uma besta extraordinária, o melhor de todos os tempos. Assim, é um jogador fabuloso, por aquilo que une características físicas e técnicas. Mas não mentais. E é por isso que Iniesta é o melhor de todos os tempos.

Mas a histeria de Ribeiro em relação a uns e o desprezo por outros, no caso do jogo de Portugal, não se aceitando, compreende-se. Falava o coração, além de outras coisas. Já o abordado no jogo da Espanha não deixa grandes dúvidas sobre a incompreensão que persiste sobre o Barcelona e sua forma de jogar. O lance era este: Piqué entra no meio-campo, avança uns metros, tem Xavi à direita, Iniesta em frente e Silva bem aberto junto à linha lateral. Toda a equipa da Espanha se condensava em poucos metros, excluindo Silva que abria o espaço e criava uma falsa ideia de passe óbvio. Ribeiro exalta-se: "já devia ter passado!". Mas Piquet não passou. Manteve-se no jogo interior, a bola rodou entre vários jogadores no meio e acabou numa jogada qualquer de que já nem sequer me lembro bem. Mas o mal estava feito. 

Piquet não "devia ter passado" coisa nenhuma. Não devia porque não era a melhor opção - passando, deixava Silva entregue a si próprio, sem apoios nem possibilidade de progressão -, e muito menos devia só porque era o gajo que estava sozinho. Mas o maior problema disto tudo é vermos um comentador - a quem já ouvi enormes elogios ao Barcelona (como não?) - dizer isto e não entender que afinal o que ele gosta no jogo da equipa catalã não é aquilo que a distingue de todas as outras. E isso, não sendo raro (quase todos os que comentam o demonstram), é bastante triste.

domingo, 17 de junho de 2012

O que me pareceu a entrevista do Jesus ao Record?


Óscar Sénica Santos ou Luís Fernando Cardozo

1) Com esta notícia da eventual compra do Bendtner, lembrei-me do tosco do Cardozo. O que andará a fazer esse tronco com olhos pelas terras paraguaias, no momento em que lêem este texto, ouvem umas análises especialíssimas sobre os jogos do Euro por aqueles grandes conhecedores das basculações e ouvem, talvez, Tony Carreira em cima de um suíno a comer punhetas de bacalhau? 

E, não estando em conhecimento das suas acções paraguaias, que futuro para este homem que só marca 25 golos/época, uma autêntico vergonha, digna obviamente de chibatada exemplar, consequente sangramento a céu aberto e, se possível (consoante a disponibilidade do domador), uma morte penosa ao som de Marco Paulo? Sim, que futuro? Fica ou sai? 

E o Benfica, o que tem a dizer sobre isto? Vender este calhau para comprar um fora-de-série que venha trazer grandes movimentações ao nível das entre-linhas entremeadas entretidas mas que faça, de máximo, 10 a 15? Ou preservá-lo, homem com 6 anos disto (parecendo que não, é giro), e fazer dele o melhor marcador pela terceira vez e segunda consecutiva?

Vocês é que sabem, doutos companheiros. Pelo sim, pelo não, se a caixa de comentários vos fizer urticária, abri ali uma sondagem do lado direito. 

2) Parabéns ao Sénica, herói maior do título de hoje. E Parabéns aos jogadores e aos adeptos. Vencer sticks adversários, pernas, patins e árbitros ao longo de uma época não pode, não é de certeza, tarefa fácil.  

 3) Fernando Santos consegue mais um excelente trabalho. Um dos 3 ou 4 melhores treinadores portugueses - e BENFIQUISTA - que no seu próprio clube sofreu da mais estúpida crítica, injusta avaliação e boçalidade de uns dirigentes que, enfim, são os que temos com a puta da cara limpinha, asseada e muito muito pilosa na zona em cima dos lábios.

Casa Abolá

«O jogador, de 24 anos, esteve na época passada emprestado pelo Arsenal ao Sunderland, onde até nem alcançou grande destaque (apenas marcou oito golos). Tem contrato por mais dois anos com os gunners, mas o futuro não deverá passar pelo emblema londrino, conforme diz o próprio Bendtner, citado pelo Sporten:

«O meu foco está completamente na fase final do Campeonato da Europa. O meu futuro vai ter
de esperar até termos concluído o nosso trabalho aqui.»

Portanto, "o futuro não deverá passar pelo emblema londrino". Porquê? Porque, CONFORME, as palavras do jogador, "deverá" (adoram os "deverá" e os "poderá" e os "alegadamente") querer sair. E o que nos diz o jogador? "O meu futuro vai ter de esperar até termos concluído o nosso trabalho aqui". Genial.

Há mais curvas nas notícias dos jornais desportivos que nos telhados e janelas das casas do Gaudí.

sábado, 16 de junho de 2012

Como diz, Cherbakov?


«Saudades daquele Sporting?
Que saudades, do Figo e daquela malta. Só fiquei um pouco triste com o Sousa Cintra, o presidente. Mas pronto. Acho que não se comportou bem comigo depois do acidente. Promessas, promessas. 

E o que acha deste Sporting?
É igual ao do meu tempo. Queres ver como? Então, todos os anos dizem no início: vamos ser campeões. Depois, a meio, dizem que está difícil. E, no final, não conseguem nada. Este ano nem uma Taça. Sabes o que te digo? É sempre a mesma merda (gargalhada).»

Estamos de acordo.

Banam-se as Assembleias - que coisa tão chata!

Felizmente para mim, não estive no mar conturbado que é Portugal, mas nas suas areias. Estava em território sagrado - afinal trata-se da cidade onde joga Andrés, o melhor do mundo - e posso jurar que não o vi por lá nem lhe comprei imitação de camisola; há coisas que devemos deixar aos intangíveis. Uma comprada na feira de Carcavelos terá o mesmo efeito e não manchará com suor de mortalidade aquele nome tão delicado.

Infelizmente para mim, não estive em Portugal. E por isso perdi a pseudo-Assembleia que por cá se deu. Gostaria, no entanto, de pedir aos meus consócios que me elucidassem sobre o ocorrido nela e, mais especificamente, me citassem de memória o discurso apoteótico que o sócio dos 3 grandes dirigiu à nação de SÓCIOS EXCLUSIVOS do Sport Lisboa e Benfica. Se estiverem muito cansados, chegarão as duas últimas frases.



sexta-feira, 15 de junho de 2012

Benfica em Moliére (O misantropo ou o atrabiliário apaixonado)



«ACTO PRIMERO


ESCENA PRIMERA
Filinto, Alceste


FILINTO
¿Qué es lo que pasa?
ALCESTE (sentado)
Dejadme, os lo ruego.
FILINTO
Pero, una vez más, decidme qué extravagancia...
ALCESTE
Dejadme aquí, os digo, y corred a ocultaros.
FILINTO
Pero al menos escucha uno a la gente, sin enojarse.
ALCESTE
Pues yo quiero enojarme y no quiero escuchar.
FILINTO
No alcanzo a comprender vuestros repentinos enfados, y en fin, aunque amigos, soy de los primeros...
ALCESTE (levantándose bruscamente)
¿Yo, vuestro amigo? Quitáos eso de la cabeza. Notoriamen­te lo he sido hasta hoy; pero después de lo que acabo de ver manifestarse en vos, os declaro sin más que he dejado de serlo y que no quiero sitio alguno en corazones corrom­pidos.
FILINTO
¿A vuestro paracer, soy, pues, muy culpable, Alceste?
ALCESTE
Vaya, deberíais moriros de pura vergüenza; semejante proceder es inexcusable, y cualquier hombre de honor se escandalizaría de él. Os veo abrumar a un hombre con aga­sajos, testimoniarle la mayor afección; con protestas, pro­mesas y juramentos acompañáis el furor de vuestros abra­zos, y cuando os pregunto luego quién es ese hombre, apenas
podéis decirme cómo se llama; vuestro entusiasmo por él decae al separares, y a mí me lo dais como indiferente. ¡Pardiez!, es una cosa indigna, cobarde, infame, rebajarse así hasta traicionar la propia alma; y si por desgracia hubie­ra hecho yo otro tanto, iría a ahorcarme al instante, de remordimiento.
FTLINTO
Por mi parte, no veo que el caso sea de horca, y os supli­caré no tomar a mal que me conceda gracia en vuestra sentencia, y que no me ahorque por esto, si os parece.
ALCESTE
¡Qué poca gracia tiene la broma!
FILINTO
Pero, seriamente, ¿qué queréis que se haga?
ALCESTE
Quiero que haya sinceridad y que, como hombres de honor, no pronunciemos palabra en la que no creamos.
FILINTO
Cuando un hombre viene a abrazaros lleno de gozo, es preciso pagarle en la misma moneda, responder lo mejor posible a sus manifestaciones, y devolver promesa por pro­mesa y juramento por juramento.
ALCESTE
No, yo no puedo soportar este cobarde proceder que afecta la mayoría de vuestra gente a la moda; y nada odio tanto como las contorsiones de todos esos grandes artífices de protestas, esos afables donadores de frívolos abrazos, esos obsequiosos habladores de palabras inútiles, que asaltan a todos con sus amabilidades y tratan en la misma forma al hombre de mérito y al tonto. ¿Qué ventaja hay en que un hombre os agasaje, os jure' amistad, fidelidad, celo, estima, ternura, y os haga el más deslumbrante elogio de vuestra persona, si corre a hacer lo mismo con el primer pelele? No, no, no existe alma un poco bien puesta que acepte una estimación tan prostituida; y la más honrada tiene por bara­tos esos dones, desde que ve que se nos confunde con todo el universo: la estimación se funda en alguna preferencia, y estimar a todo el mundo es no estimar a nadie. Pues que os entregáis a esos vicios de la época, no estáis hecho, ¡par­diez!, para ser de los míos; rechazo la amplia generosidad de un corazón que no establece diferencia alguna para el
mérito; yo quiero que se me distinga; y para decirlo claro, el amigo del género humano no es cosa que me convenga.
FILINTO
Pero cuando se anda en sociedad, preciso es cumplir con algunos convencionalismos que exige el uso.
ALCESTE      -
Os digo que no; se debería castigar inexorablemente ese vergonzoso comercio de las apariencias de la amistad. Quiero que seamos hombres, y que en toda circunstancia aparezca en nuestras palabras el fondo de nuestro corazón, que sea él quien hable y que nunca se disfracen nuestros senti­mientos bajo cumplidos vanos.
FILINTO
Hay muchas ocasiones en que la franqueza absoluta resul­taría ridícula y poco al caso; y a menudo, mal que le pese a vuestro austero honor, es bueno ocultar lo que tenemos en el alma. ¿Sería adecuado y decente decir a mil personas todo lo que pensamos de ellas? Y cuando hay alguien que nos desagrada o a quien odiamos, ¿debemos declararle la cosa tal como es?
ALCESTE
Si.
FILINTO
¿Qué? ¿Iríais a decir a la vieja Emilia que a su edad le queda mal hacerse la coqueta, y que los afeites que usa escandalizan a todos?
ALCESTE
Sin duda.
FILINTO
¿A Dorilas que es demasiado importuno, y que no hay oídos en la corte a los que no harte relatando su bravura y el brillo de su linaje?
ALCESTE
Efectivamente.
FILINTO
Os burláis.
ALCESTE
No me burlo, y no voy a perdonar a nadie a ese respecto. Demasiado heridos están mis ojos, y la ciudad y la corte no me ofrecen más que espectáculos buenos para revolverme de bilis; caigo en un humor negro, en un enfado sin límites, cuando veo vivir a los hombres como lo hacen; dondequiera encuentro sólo adulación cobarde, injusticia, intereses, trai-
ción, pillería; no puedo aguantar más, me enfurezco, y es mi propósito desafiar en sus barbas a todo el género humano.
FILINTO
Ese filosófico enfado es un poco demasiado salvaje; ríome de los negros ataques en que os contemplo, y me parece ver en nosotros dos, educados en la misma forma, a esos dos hermanos que pinta La escuela de los maridos, cuyos...
ALCESTE
¡Por Dios! Dejemos ya vuestras insulsas comparaciones.
FILINTO
No, renunciad buenamente a todas esas locuras. El mundo no ha de cambiar por vuestra diligencia; y puesto que la franqueza tiene tantos encantos para vos, os diré franca­mente que esta enfermedad da el espectáculo dondequiera que vais y que tan gran enojo contra las costumbres de la época os pone en ridículo ante mucha gente.
ALCESTE
Tanto mejor, ¡pardiez!, tanto mejor, eso es lo que pido; me resulta muy buena señal y me alegro en grande por ella: todos los hombres me son odiosos a tal punto, que me disgustaría pasar por discreto a sus ojos.
MANTO
¡Vos detestáis la naturaleza humana!
ALCESTE
Sí, he concebido por ella un odio espantoso.
FILINTO
¿Todos los pobres mortales, sin excepción, serán incluidos en este aborrecimiento? Todavía hay algo de bueno en el siglo en que vivimos...
ALCESTE
No: es general, y odio a todos los hombres: a los unos, porque son malos y dañinos, y a los otros, por ser compla­cientes con los malos y no tener para ellos ese odio vigoroso que debe provocar el vicio en las almas virtuosas. Se ve el injusto exceso de esta complacencia a propósito del per­fecto facineroso con el que mantengo pleito: a través de su máscara se ve al traidor plenamente; es conocido como lo que es en todas partes; sus caídas de ojos y su tono dulzón no engañan más que a los que no son de aquí, se sabe que ese palurdo digno de que se le ponga en evidencia se ha deslizado en la sociedad por medio de sucios menesteres, y que su fortuna, revestida por ellos de esplendor, hace
sonrojarse a la virtud y rezongar al mérito. Por más epítetos vergonzosos que se le apliquen dondequiera, su miserable honor no encuentra defensa en nadie; llamadle trapacero, infame y facineroso maldito, todo el mundo conviene en ello y nadie os contradice. Sin embargo, su mueca es bien­venida en todas partes: en todas partes se desliza, se le acoge, se le festeja; y si hay que conseguir un puesto con intrigas, se le ve ganárselo al hombre más honrado. ¡Ira de Dios, es para mí mortal ofensa el ver que se guardan miramientos con el vicio; y a menudo me sobrevienen súbi­tos impulsos de huir a un desierto lejos del contacto de los hombres!
FILINTO
¡Dios mío!, no nos aflijamos tanto por las costumbres de la época, y concedamos algún crédito a la naturaleza humana; no la examinemos de acuerdo con un rigor sin límites, y miremos con alguna indulgencia sus defectos. Es necesaria en una sociedad una virtud tratable; podemos ser reprensibles a fuerza de cordura; la perfecta razón huye de los extremos y quiere que seamos discretos por sobrie­dad. Esa gran rigidez de la virtud de los antiguos tiempos choca demasiado con nuestro siglo y con las costumbres en uso; exige demasiada perfección a los mortales: hay que ceder sin obstinación a la corriente; y es una locura sin igual querer ponerse a corregir el mundo. Como vos, yo observo cada día cien cosas que podrían ir mejor tomando otro curso; pero podrían presentárseme a cada paso, sin que me viera enfurecerme como vos; yo tomo a los hombres como son, buenamente, acostumbro a mi alma a soportar lo que hacen; y creo que, en la ciudad lo mismo que en la corte, mi flema es tan filosófica como vuestra bilis.
ALCESTE
Pero señor mío, mi buen razonador, ¿esa flema no podrá alterarse con nada? ¿Y si ocurre, por casualidad, que un amigo os traicione, que se intrigue para despojaros de vues­tros bienes, que se hagan correr perversos rumores a vues­tra costa, veréis todo ello sin encolerizaros?
FILINTO
Sí, yo miro esos defectos contra los que vuestra alma se subleva, como vicios inherentes a la naturaleza humana; y en fin, no se siente más herido mi espíritu al ver a un
hombre trapacero, injusto, interesado, que al ver cuervos hambrientos de carnicería, monos dañinos o feroces lobos.
ALCESTE
¿Me vería yo traicionar, hacer pedazos, robar, sin que...? ¡Pardiez!, no quiero hablar, tan lleno de despropósitos está ese razonamiento.
FILINTO
¡A fe mía! Haréis bien en guardar silencio, en escanda­lizar un poco menos acerca de vuestro contrario y en ocuparos de vuestro proceso.
ALCESTE
No me ocuparé nada, es cosa dicha.
FILINTO
¿Pero quién queréis entonces que abogue por vos?
ALCESTE
¿Que quién quiero? La razón, la equidad, mi justo de­recho.
FILINTO
¿No visitaréis a ninguno de los jueces?
ALCESTE
No. ¿Mi causa es injusta o dudosa, acaso?
FILINTO
Estoy de acuerdo; pero la intriga es enojosa y...
ALCESTE
No: he resuelto no dar un solo paso. Tengo razón 'o no la tengo.
FILINTO
No os fiéis de ello.
ALCESTE
No he de moverme.
FILINTO
Vuestro contrario es fuerte, y puede con sus influencias arrastrar...
ALCESTE
No importa.
FILINTO
Os equivocaréis.
ALCESTE
Sea. Quiero ver el resultado.
FILINTO
Pero...
ALCESTE
Tendré el placer de perder mi pleito.
FILINTO
Pero, en fin....
ALCESTE
Veré con este pleiteo si los hombres tienen la suficiente desvergüenza, si son suficientemente malos, perversos y mal­vados para hacerme una injusticia ante todo el universo.
FILINTO
¡Qué hombre!
ALCESTE
Aunque me costara mucho, querría perder mi causa por la belleza del hecho.
FILINTO
Alceste, se reirían buenamente de vos, si os oyeran hablar de tal modo.
ALCESTE
Peor para el que riera.
FILINTO
¿Pero esa rectitud que exigís en todo, ese pleno derecho en que os encerráis, lo encontráis aquí en lo que amáis? Por mi parte, me asombro de que estando al parecer tan reñidos vos y el género humano, pese a cuanto os lo puede hacer aborrecible hayáis buscado en él lo que os encanta a los ojos; y lo que me sorprende más todavía es la extraña elección a que vuestro corazón se entrega. La sincera Elianta tiene inclinación por vos, la gazmoña Arsinoe os mira con ojos muy tiernos; y sin embargo vuestra ,alma se niega a sus afanes, mientras que la retiene en sus lazos Celimena, cuya coquetería y maldiciente. espíritu parecen acomodarse tan bien a las costumbres del momento. ¿A qué se debe que, teniéndoles un odio mortal, las soportéis en esta bella? ¿No son ya defectos en tan dulce persona? ¿No los veis? ¿0 los excusáis?
ALCESTE
No, mi amor por esa joven viuda, no me cierra los ojos sobre los defectos que le encuentran, y, pese a la gran pasión que me inspira, soy el primero en notarlos así como-en condenarlos. Pero con todo esto, y por mucho que haga, confieso mi debilidad, tiene el arte de seducirme: vano es que vea sus defectos y vano que los reprenda; se hace amar a despecho de todo; triunfa su gracia; y sin duda mi pasión podrá purgar su alma de los vicios de la época.
FILINTO
Si lo conseguís, no habréis hecho poco. Así, pues, ¿creéis que os ama?
ALCESTE
¡Sí, pardiez! Si no lo creyera no la amaría.
FILINTO
Pero si su amor por vos os resulta indiscutible, ¿a qué se debe la pesadumbre que os causan vuestros rivales?
ALCESTE
Es que un corazón muy enamorado quiere tenerlo todo, y no he venido aquí más que con el propósito de decirle cuanto mi pasión me inspire sobre ese tema.
FILINTO
En cuanto a mí, si no tuviera yo más quehacer que ena­morarme, la prima Elianta ganaría todos mis suspiros; su corazón, que os estima, es sólido y sincero, y esta prefe­rencia, más adecuada, os convendría más.
ALCESTE
Es cierto: mi razón me lo dice diariamente; pero no es la razón la qué gobierna el amor.
FILINTO
Temo mucho por vuestro amor, y la esperanza en que vivís podría...»

(A tradução vai em espanhol para poder ser compreendida pela maioria dos jogadores, dirigentes e empresários do Benfica)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Comunicar, ou talvez não ... (parte 2)



... o que é importante, no site oficial, parece não ser uma prioridade para o departamento de comunicação. Como podem ver pela data, 14-06-2012, no canto inferior direito de duas páginas do nosso site, a página do palmarés da secção de atletismo e a página de apresentação da referida secção, o Benfica apenas conquistou 22 títulos em Masculinos no campeonato nacional de clubes de pista ao ar livre.



Curiosamente, temos uma página que nos informa que o Benfica venceu o campeonato nacional de clubes de atletismo 15 anos depois. Porém essa página não nos informa da data do feito, mas se somarmos os 15 anos a 1996, último título registado no palmarés, facilmente percebemos que fomos campeões em 2011, mesmo que o palmarés e a apresentação da secção não o indiquem.


"(...) Nos últimos anos, o Benfica tem privilegiado a formação de jovens atletas e, em 2005, ganhou todos os títulos nacionais (masculinos) dos escalões jovens: sub-23 (pista e pista coberta), juniores e juvenis. De então para cá, ganhou quatro dos últimos cinco títulos nacionais de sub-23 e quatro dos últimos seis de juniores. Em pista coberta, o Benfica ganhou todos os títulos nacionais dos últimos seis anos e, em 2009, foi ainda campeão de juniores. Além disso, voltou a ter uma equipa feminina que foi já campeã nacional júnior em 2009 (pista coberta e ar livre) e 2010 (pista coberta), juntando-lhe neste ano de 2010 o título nacional sub-23 de pista coberta.

É objectivo da secção, com este trabalho de base e com o reforço gradual da sua equipa principal, voltar a curto prazo a lutar pela primazia no atletismo nacional. (...)"

Este pedaço de texto retirado da página de apresentação da secção de atletismo era a imagem fiel do que se passava a Dezembro de 2010.

Em 2011 o Benfica foi Campeão Nacional de Clubes de atletismo em pista ao ar livre em Seniores Masculinos, Sub-23 Masculinos e Femininos, Juniores Masculinos e Femininos e Juvenis Femininos, sendo vice-campeão nacional em Seniores Femininos e Juvenis Masculinos. Em pista coberta o Benfica foi campeão em Sub-23 e Juniores em Masculinos e Femininos, sendo vice-campeão em Seniores Masculinos e Femininos. 

No passado fim-de-semana, o Benfica renovou o título em Seniores Masculinos e o vice-campeonato em Seniores Masculinos, mas estranhamente nada disto é reflectido nem na apresentação da secção, nem no palmarés, nem mereceu sequer uma nova página. Relativamente à pista coberta em Janeiro e Fevereiro deste ano o Benfica foi campeão Nacional em Seniores Masculinos, Sub-23 e Juniores em Masculinos e Femininos. Para o final de Junho teremos os campeonatos de Juvenis e em Julho os campeonatos de Sub-23 e Juniores de pista ao ar livre, onde se esperam mais títulos colectivos.

Este post visa alertar para 2 realidades distintas:

- a aparente incúria (podem chamar-lhe mau profissionalismo) de quem gere os conteúdos do site no que respeita à actualização da modalidade atletismo, algo incompreensível tanto mais que recentemente o Benfica recuperou a gestão de conteúdos do site, ou seja, já não há Sportinvest para culpar.

- o trabalho realizado no atletismo começou há vários anos, desde 2005 e foi uma aposta constante na detecção e formação de jovens atletas, algo que em Portugal só tem paralelo (na formação e detecção) noutro clube, a Juventude Vidigalense, mas para ter sucesso não basta apostarmos em formar, temos também que escolher alguns dos melhores para podermos competir com os nossos melhores adversários, o Sporting.

Quando oiço e leio elogios aos resultados de outras modalidades, lembro-me das apostas no Andebol e no Voleibol que nos levaram a um título (Campeonato Nacional), mas que depois não teve seguimento apesar dos significativos investimentos que têm vindo a ser realizados todos os anos, algo semelhante ao que se passa no futebol.

O hóquei em patins e o futsal são realidades à parte e esperemos atentamente o fim dos campeonatos para fazer o necessário balanço, não só deste ano, mas dos anos anteriores.







quarta-feira, 13 de junho de 2012

O mérito a quem o merece


Várias críticas foram feitas à Direcção do Benfica/Administração da Benfica SAD e ao seu presidente, o nosso, Luis Filipe Vieira, pelos insucessos do futebol. Mas há que dar o mérito a quem o merece.

Venho falar pois 2 duas modalidades onde o bom trabalho deve ser reconhecido e em especial o trabalho dos directores e treinadores dessas modalidades.

Atletismo

A figura central do atletismo é a antiga atleta Ana Oliveira. Desde há 4 ou 5 anos que iniciou um trabalho sustentado na formação do Benfica, quer na detecção quer no treino de jovens valores que tem levado o Benfica a conquistar títulos atrás de títulos nos escalões de formação.

Porém, como o Sporting se tinha reforçado no Benfica com os atletas seniores que muita luta lhes davam, era um esforço inglório lutar apenas com os jovens contra os consagrados. Assim sendo, foram contratados alguns atletas (por exemplo Paulo Gonçalves, Paulo Bernardo, Marco Fortes ou Arnaldo Abrantes, se bem que este fosse da nossa formação e tivesse ido para os lagartos enquanto senior) que nos deram a capacidade para com base na formação ser campeões nacionais. Não só campeões como bi-campeões.

É natural que se fale apenas do atletismo masculino, pois a diferença para o Sporting sector no feminino é muito grande, mas estou confiante que mais 2 ou 3 anos neste percurso e com a contratação de algumas mais-valias que compensem as maiores falhas na nossa equipa e poderemos também vir a ganhar em femininos. 

Basquetebol

O basquetebol do Benfica, que na nos finais da década de 80 e durante a primeira metade da década de 90 era respeitado na Europa e em Portugal esmagava os seus adversários, mas que após o fim da geração de Henrique Vieira, Carlos Lisboa, Pedro Miguel, José Carlos Guimarães, Mike Plowden e Jean Jacques Conceição, não me esqueci do Silvestre ou do Rodinhas, não teve substitutos à altura e entrou na mediocridade que marcou o Benfica a nível desportivo no final da década de 90 e início de 2000.

Com a contratação de Henrique Vieira enquanto treinador e de uma série de atletas "trintões", dos quais se destaca o retorno do Sérgio Ramos, bem como de outros atletas de valor o Benfica voltou a ser campeão, aliás bi-campeão. No entanto e aproveitando-se da sua condição de selecionador nacional, com o aliciamento de um dos jovens com mais valor, João Santos, os tripeiros voltaram a roubar-nos o título na final do ano passado.

Este ano, com Lisboa ao leme, voltámos a ser campeões, no pavilhão dos morcões que mostraram que o epíteto se adequa perfeitamente. O grupo está de parabéns. Mas não só os seniores estão de parabéns, pois o Benfica foi campeão em sub-20, sub-18 e sub-16, fazendo o pleno dos escalões de formação. Com um trabalho sustentado na formação, o Benfica poderá retirar da sua formação novos valores que lhe venham a assegurar um futuro radioso.

Embora como treinador prefira Henrique Vieira a Carlos Lisboa, o único basquetebolista português que acho que teve condições para jogar na NBA, Lisboa como nosso treinador, tem o meu apoio para continuar ao leme do Benfica rumo aos sucessos. Com os valores que estão para sair da nossa formação, apesar das lesões que os afastaram na maior parte da época, estou tão confiante no futuro do basquetebol como no do atletismo.

PS - Para quem não percebeu, obviamente que o mérito se estende também a LFV enquanto primeiro responsável pelo clube

Cristóvão, o pobre coitado

Paulo Pereira Cristóvão demitiu-se e segundo parece é suspeito de desviar dinheiro do Sporting. Ora está mais do que visto que o homem vai ser ilibado, pois toda a gente sabe que é completamente impossível desviar uma coisa que não existe. Mas se por algum infortúnio esta alimária for engavetada, poderá sempre recordar com nostalgia o conforto que era a caixa de segurança do Estádio da Luz. No entanto, a grande dúvida que fica é esta: e agora quem é que vai pintar a merda dos mastros?

terça-feira, 12 de junho de 2012

"Simão e Miguel gostavam de terminar a carreira na Luz ...


... Vieira está a pensar e vai falar com Jorge Jesus."

E vocês o que acham ? Querem os dois de volta ? Acham que fazem falta, ou pelo menos ainda podem ser úteis ? Ou à semelhança do Nuno Gomes, devem ir acabar a carreira para o raio que os carregue ? Ou devem ser-lhes impostas condições do tipo salarial, comportamental (convém que atletas do clube não andem por aí aos tiros), etc. ?

Deve o Benfica ser grato a quem tanto lhe deu, ou pelo contrário, só faz falta no Benfica quem ainda pode correr como se não houvesse amanhã ? Faz sentido ter referências no clube a acabar as carreiras ?

E a Mística ? Será que hoje em dia é só uma revista ?

A palavra fica com os nossos leitores ...

sábado, 9 de junho de 2012

Tudo o que eu devo ao futebol

Permitam-me que partilhe convosco este bonito texto do Joel Neto. Um texto de um sportinguista num blogue benfiquista? Sim. Porque o futebol do Joel é composto por sentimentos que vão muito para além dos puramente clubísticos. Porque o futebol do Joel é pleno de amor. Porque o futebol do Joel é o meu futebol. 
Deliciem-se, se fizerem o favor. 


"Tudo o que eu devo ao futebol

Nenhuma literatura alguma vez fez isto por mim. Nenhuma poesia, nenhuma arte, nenhuma filosofia. Fê-lo o futebol.

JOEL NETO
(autor do romance “OS SÍTIOS SEM RESPOSTA”, Porto Editora 2012)


De cada vez que me sento num estádio, ou me ponho em frente ao televisor, ou me curvo diante de um transístor, não é aquele jogo que vejo, não é aquele jogo que ouço. Estou em 1989, faltam dez segundos para Fernando Gomes atirar à barra o penálti que impedirá o Sporting de bater o Nápoles de Maradona – e aí vai ele, Gomes, com a bola na mão, caminhando entre o círculo central e a grande área, o olhar pregado na relva como quem sabe que lhe caberá a ele a dúbia honra de glorificar a nossa derrota. Estou mais longe ainda, aliás: estou no Verão de 1987 e Vítor Damas anda aos gritos em cima do risco de golo, a correr de um lado para o outro da baliza e a fazer exigências à descoordenada barreira do Sporting, enquanto Dito, Nunes e Diamantino parecem discutir quem marcará o livre directo cedido instantes antes por Ralph Meade – e já aí está Diamantino, partindo para a bola à falsa fé e ali mesmo começando a desequilibrar, de modo ao mesmo tempo infecto e irremediável, a final da Taça de Portugal, a nossa primeira vaga oportunidade de compensar cinco anos sem títulos de qualquer espécie (isto num tempo em que cinco anos sem títulos de qualquer espécie ainda eram uma tragédia, note-se), e que, não por coincidência, morreria aos pés do Benfica.

Ao meu lado está o meu pai, ainda jovem. Olho-o de soslaio, como que voltando a tentar desvendá-lo. Todos os dias o vejo sair e regressar a casa, com a sua impecável farda azul – e é quase tudo. Não sei ainda o quanto o admirarei no futuro. Não sei ainda o papel que terá no meu olhar sobre o mundo a sua honestidade férrea. Não faço ideia sequer de que está já plantando em mim a semente renovadora (e até um pouco maligna) da auto-determinação, incutindo-me a urgência de suplantar o destino que me parece guardado. Ou talvez comece já a intuir alguma coisa, não sei. Estamos na cozinha fria dos Açores. Lá fora, o silêncio. Não passam automóveis na rua em dias de futebol – os próprios melros parecem suspender o seu desenfreado canto quando joga o Sporting. Há como que um estertor de ansiedade por dentro do meu pai. Ondas peristálticas percorrem-lhe o pescoço, o peito, o estômago – e, no entanto, nem um esgar, nem um salto incontido, nem um gesto de impaciência. Até que se confirma que perdemos. Perdemos sempre, na verdade. Sempre que é importante. E então ele ergue-se silencioso, tossica a sua tosse tímida e nervosa, como que dando por concluída a tarefa mais irrelevante e aborrecida do dia – e desaparece lá para trás, para o quintal, onde passará a noite com um maço e um escopro, abrindo buracos sem razão aparente, e que no fim-de-semana seguinte se ocupará de tornar a tapar, assim o Sporting volte a perder.

Ao significado de tudo isto, demoro ainda muito tempo a percebê-lo. Nos quinze anos seguintes haveremos de viver a dois mil quilómetros um do outro – e mesmo quando, a dada altura, uma parte do meu ano começar a ser vivida não a dois mil quilómetros dele, mas a cem metros apenas, a distância entre nós demorar-se-á a mesma. E, contudo, continuaremos a ter o futebol. Teremos sempre o futebol. Mesmo que não encontremos mais nada sobre o que falar um com o outro, haverá o Sporting. Às vezes ainda tentamos fugir-lhe. Fugir-lhe, não: transcendê-lo. Não há razão para fugirmos do Sporting, afinal: o Sporting sempre nos partiu o coração, mas o que lhe devemos é já muito mais importante do que a simples alegria. Tentamos diversificar a conversa, digamos. Falamos do trabalho. Dos afazeres. Da crise. Da meteorologia – e, enfim, outra vez do Sporting (ou da selecção nacional, durante as grandes competições internacionais), agora menos frustrados com o fracasso dos outros assuntos do que gratos por aquele maravilhoso lugar a que poderemos voltar sempre. E, a certa altura, já nem é sequer uma possibilidade de comunicação, aquele jogo: é uma declaração de amor. Como, se calhar, se limitou sempre a ser: apenas a única maneira que encontrámos os dois de dizer um ao outro que nos amávamos, sem termos de efectivamente utilizar essas palavras.

O pai. Julgo que não me engano se disser que a idade adulta começa no momento em que um homem é pela primeira vez capaz de admirar o seu pai. O meu pai. Tenho a certeza de que, por muito que me tivesse esforçado, e ainda que o houvesse mesmo feito, eu jamais teria conseguido ser durante cinco minutos metade daquilo que ele foi ao longo de toda a vida, sem uma hesitação, sem uma ressalva, sem outra intenção que não apenas sê-lo. E que ainda é, aliás. Muitos escritores fizeram questão, algures ao longo da vida, de homenagear o pai. Fizeram-no muitas vezes a título póstumo, outras tantas quando ele se encontrava no leito de morte. Fizeram-no como forma de estender o braço, de recuperar o tempo perdido, de vencer a distância. Toda a literatura é isso, provavelmente: o impulso de vencer a distância, a irredutibilidade desse impulso. A mim, o momento de fazê-lo sobreveio-me talvez mais cedo do que a outros (embora mais tarde do que a muitos também). Chegou quase como uma epifania, sem se anunciar, quando eu sabia já que queria falar por uma última vez de futebol, mas ainda não porquê. E chegou avassalador: tomou o texto nas mãos e foi por aí fora, instrumentalizando-nos a todos, as pessoas, os lugares, os objectos, a rotinas, os cheiros – todos reduzidos a não mais do que ferramentas, como se a nós próprios não nos restasse mais do que abrir buracos sem razão aparente, talvez apenas para que pudéssemos fechá-los mais tarde, ainda que de novo por nenhum motivo que não o de manusear buracos.

Ao livro que resulta desse exercício decidi chamar-lhe “Os Sítios Sem Resposta”. A vida, se alguma vez puder ser reduzida a um sentido só, não passará provavelmente disso: de uma deriva pelos espaços que nada têm para dizer-nos de volta, da procura de um lugar a que possamos chamar nosso, do desorientado mas furioso caminho de regresso a casa. Mas, sobretudo, foi ao lado do meu pai que eu li pela primeira vez esse verso, esse maravilhoso poema de Tolentino de Mendonça que eu nem imaginava ainda roubar. “Regressamos a uma terra misteriosa/ trazemos uma ferida/ e o corpo ferido/ imprevistamente nos volta/ para margens mais remotas// (…) para além do jogo das nossas defesas/ qualquer coisa interior/ a intensa solidão das tempestades/ os campos alagados,/os sítios sem resposta// o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços.” Era sábado, eu estava à beira da mais importante e dramática decisão da minha vida (um momento puramente revolucionário, talvez, mas isso agora é o menos) e tinha por acaso o meu pai a meu lado, em Lisboa. Por acaso, não. De maneira nenhuma por acaso: alguma coisa nos dissera que devíamos estar juntos naquele dia, naquele tempo – alguma coisa dentro de nós nos encaminhara para ali. Passámos a tarde juntos, em silêncio, deambulando pela casa. Foi aí que eu o li. “Silêncio.” E então, sim, entrámos no meu Smart. Abrimos o tejadilho. Pusemos um disco de funk – e dirigimo-nos para Norte.

O Sporting, naturalmente, perdeu. Se ganhasse, conquistaria também o campeonato, pondo fim a novos quatro anos sem títulos de importância alguma. Durante mais de uma hora, o Sporting em cima deles. Ataques pela esquerda, ataques pela direita, determinação defensiva, resiliência. O Sporting comovente, como tantas vezes é o Sporting, sobretudo se a caminho de mais uma bela derrota. Pelo menos, eu recordo-o assim: abnegado e comovente. Até que, aos oitenta e quatro minutos, um pontapé longo do guarda-redes adversário. Para além do jogo das nossas defesas, qualquer coisa interior. O corpo ferido. Dois toques, uma triangulação – e nós reconhecendo já aquilo, aquele ritmo, aquela melodia. O silêncio. A intensa solidão das tempestades, os campos alagados, os sítios sem resposta. Um remate – e, pronto: golo do FC Porto. O teu silêncio, ó Deus – o teu silêncio altera por completo os espaços. Golo do FC Porto e, de novo, o fracasso. Mas, de novo também, não apenas meu. Não apenas dele. Nosso. O estádio atónito, insultos trocando-se entre adversários, murros digladiando-se entre amigos. E nós ali. Um ao lado do outro. No silêncio de sempre – voltando à cozinha fria dos Açores, ouvindo outra vez suspender-se o canto dos melros e, enfim, dispersando, ele para o escopro com que abriria buracos pelo quintal, eu ao quarto da infância, onde poria uma almofada sobre a cabeça, para reprimir as lágrimas, e tentaria dormir até ao fim-de-semana seguinte.
Nenhuma literatura alguma vez fez isto por mim. Nenhuma poesia, nenhuma arte, nenhuma filosofia. Fê-lo o futebol. E dedicar-lhe um romance, bem vistas as coisas, é pequeníssima penitência para tão grande milagre."