terça-feira, 24 de maio de 2011

O que eu vi em Braga - Parte 2 - A cidade corrompida por Pinto da Costa

À entrada de Braga há um túnel. Não o mundialmente conhecido pelos pontapés de Vandinho mas outro, mais perto da estação de comboios, por onde passam carros, ciclomotores, animais e, de vez em quando, um ou outro bezano que se perdeu na noite.

Naquela tarde cheguei ao túnel faltavam 3 horas para começar o jogo e o trânsito parecia uma procissão religiosa, uma língua de carros em filinha pirilau, muito deles com bandeirinhas e cachecóis dos dois clubes. Mais do Braga, naturalmente, não por serem em maior número mas porque os benfiquistas de há uns tempos a esta parte decidiram não dar muito nas vistas para cima de Coimbra não vá o diabo tecê-las. Ainda assim, na amálgama lenta da procissão, estavam duas bravas viaturas que exibiam o seu clubismo desbragado - nenhuma delas a do vosso escriba (sempre gostei de manter os vidros incólumes) -, que rapidamente foram alvo dos fervorosos adeptos do Braga que se encontravam numa espécie de ponto alto estilo ponte de viaduto. Pareciam animais raivosos,

Ó filha da puta, tira-me essa merda daí, caralho!

Essa merda era um cachecol do Benfica no vidro traseiro do carro. Perto de um destes senhores, encontrava-se uma criança, supostamente filha do quadrúpede, que olhava não para o cachecol alvo da ira dos fanáticos mas para cima, para o suposto Pai, com um olhar entre a incredulidade e a incompreensão. O Pai não desarmava, empoleirava-se no varão, quase caía, aos gestos, aos cuspos, aos insultos e o pequeno bípede a pensar se a divindade genética lhe teria pregado alguma partida de mau gosto.

Volta para a tua terra, mouro do caralho!

E o malandro do benfiquista sem retirar o cachecol, a afrontar os escandinavos portugueses numa quezília que lembrou guerras antigas, na altura em que os bárbaros decidiram descer as escadas da Europa e vociferar contra esse conceito de Sul que a muitos ofende e discrimina. A este excelso animal, outros se juntaram enquanto os carros lentamente entravam na cidade. Não houve feridos, que se saiba. Mortos, muito menos. Na mistura das ruelas bracarenses, todos se diluíram. O jogo estava próximo. Havia que beber.

Parei o carro numa praça. Lembro-me vagamente de passear com o meu Pai por aquelas pedras minhotas já lá vão dois milénios. As pedras mantêm-se, oculto mistério que nem a ciência das estruturas consegue entender. Já a hospitalidade mudou uns continentes desde que há 10 anos por ali andei a fingir estudar. Perguntei a um velhote se devia deixar o carro ali ou levá-lo para mais perto da Pedreira. Os anos avisados do senhor deram-me a resposta esperada

Você vem de Lisboa, não vem? (tudo o que não seja gente com sotaque do Norte, vem de Lisboa)

Não, mas se quiser posso vir.

Então vem de onde? (é importante termos registos sobre a proveniência das pessoas, antes de darmos algum conselho)

Do Porto.

Ah está a estudar no Porto? (é fundamental, antes de darmos algum conselho, sabermos onde estuda a pessoa)

Não, mas estudei em Guimarães.

Em Guimarães? Ó amigo, você devia era ter estudado aqui.

Pois, pois devia. Mas é a mesma Universidade.

A Universidade do Minho é em Braga. Em Guimarães é só um pólo pequeno. É uma filial. (e fez-me aquele olhar malandro, de quem sabe ser dono do Mundo)

Gosto de Guimarães, é mais pequeno, lembra-me a minha cidade.

Então mas você não é do Porto?

Não bem, sou mais da província. (Abrantes pode ser considerada província do Porto, numa análise mais complexa da geografia)

De onde? (este lado pidesco dos portugueses é deveras interessante)

Olhe, estou com pressa. Deixo o carro aqui?

É melhor. Até porque você como benfiquista é capaz de vir a ter problemas à saída do estádio. (touché!)

Obrigadinho, caro velhote bracarense. Além de um conselho útil, pude confessar-me. Um dois em um que nos tempos que correm vale ouro.

Carro largado, hora de beber. Meto-me pela rua que vai dar à estação e entro no primeiro café. A sede era muita. Fico ao balcão, como convém a quem está sozinho e quer dois cérebros de conversa. Ou meio, vá, que não podemos ser exigentes.

É uma imperial fresquinha, se faz favor.

Não temos fino (fino, claro).

Venha média.

Sagres ou Bock? (aquele primeiro degrau que tudo explica)

(confundo-lhe as voltas) Super!

(silêncio com o som da cerveja a despejar em diagonal para o copo)

Você é de Lisboa, não é? (a pergunta mais ouvida em Braga naquele dia, importante para os arquivos dos arcebispos)

Sou.

Vem ver o jogo?

Venho. Entre outras coisas.

Que coisas? (assim, como um familiar. Ou como um pide. Mais pide, pelo subversivo do tom)

Venho ver um amigo. Aliás, ele já deve estar a chegar.

É de Braga o seu amigo?

Não, mas trabalha cá.

É de onde?

De perto do Porto. (mais uma vez, Abrantes como Ermesinde)

Ah… (um olhar desconfiado)

Então e o amigo? Não me diga que é de Olhão!

Hoje está um boa dia para o futebol (faz muito bem em não responder, então agora temos de falar destas coisas com estranhos?)

Está bom para beber. O jogo ainda não pensei nele.

O Braga vai ganhar.

Pode ser. Espero que não.

Ah é do Benfica? (com um ar falsamente surpreendido)

Sou. E você é do Braga, presumo.

Sou. Vocês antes tinham muita gente aqui do Benfica. Agora já ninguém é.

É, é. Estão é mais escondidos. E há aqueles que de repente deixaram de ser. O que é estranho.

Estranho? Não, deixámos de ser dos clubes de Lisboa para ser do da cidade.

Acho bem. Mas o amigo tem alguma preferência além do Braga?

Sou do Sporting. Desde pequenino.

Ah…

Mas agora com o Braga a ganhar sou do Braga.

Pensava que o clubismo não se mudava.

Então não muda! E também sou do Porto, às vezes. Do Benfica é que nunca.

Porquê?

Porque quando o Braga era amigo do Benfica, nunca ganhava. Agora com o Salvador o Porto ajuda-nos.

Ajuda como?

Dá-nos jogadores, somos respeitados pelos árbitros.

Ah…

Agora odiamos o Benfica.

Mais uma média, se faz favor. Odeiam? Porquê?

Porque são do Sul e nós somos do Norte!

Então mas você não é sportinguista?

Ah mas o Sporting não faz mal a ninguém.

E o Benfica faz?

Faz. Odiamos o Benfica.

Está certo. Olhe, eu não odeio o Braga. É uma boa equipa.

O ano passado íamos sendo campeões! Se não fossem os árbitros.

Aquela bola fora de campo que deu golo e a arbitragem contra o Guimarães não dizem muito isso.

O quê? Contra os espanhóis? Foi uma roubalheira.

Pois foi. A favor do Braga.

Ó amigo, quer mais uma?

Quero. Olhe, que seja um bom jogo de futebol. Sem pedras.

Quando é com o Benfica, não podemos garantir.

Porquê? É só um jogo.

Mas é o Benfica. Odiamos o Benfica.

(nisto chega o empregado do café, benfiquista, que faz um reparo)

Aqui o meu chefe é daqueles que era do Sporting mas que agora é mais portista que os portistas-

Então mas não era do Sporting?

Ele é de quem ganha.

Ah, então percebe-se que não seja do Sporting.

E odeia o Benfica.

Pois, o seu chefe já me disse. Mas fiquei sem perceber porquê.

Nem ele sabe bem. O que está a passar em Braga nos últimos anos é um fenómeno inexplicável. Eu já não posso ir a café nenhum. Se sabem que sou do Benfica, insultam-me, não me deixam quieto.

Mas há muitos benfiquistas como tu aqui.

Há, mas não se assumem. Têm medo. Olha, aqui ao lado há o café Benfica.

Ah, então esse deve ser um bom sítio.

Bom sítio? Aquilo é um lugar de ódio. Têm cachecóis do Braga por todo o lado e não deixam os benfiquistas irem lá.

Hmmm? Mais uma média.

Era de um benfiquista. Agora se vais lá ver um jogo, eles passam o tempo a dizer mal e a insultar.

Não deve ser fácil viver com esta realidade.

(um olhar perdido, triste) Nada. O ano passado passei o ano a ouvi-los, fui agredido.

Pelo menos fomos campeões (uma tentativa desesperada de optimismo da minha parte).

Fomos, mas nem pudemos festejar. Quando estávamos nas ruas, vieram uns gajos da claque do Braga e outros, muitos, Superdragões que começaram a agredir e a insultar.

E a polícia?

Não fez nada. Tivemos de sair dali.

(viro-me para o chefe, que estava a ouvir a conversa) Isto não está bem, ó chefe. Então o rapaz não pode festejar?

Eles que vão festejar para o caralho!

(o empregado para mim) É isto que vivemos aqui, desde que o Salvador chegou.

(nisto chega o meu amigo) Ricardo, tu vê lá o que dizes, que ainda acabas numa confusão de primeira.

Calma, estamos só na conversa.

Sabes o que me aconteceu (o meu amigo o ano passado foi agredido por 8 (!) gajos da claque do Braga porque estava a comemorar o campeonato de… basquetebol)

Sei. Vamos beber e fumar um cigarro lá para fora.

(fomos, eu, o meu amigo e o empregado fumar um cigarro cá para fora e o empregado) Vocês têm sorte em viver lá em baixo. Não fazem ideia do que é isto, aqui. Gente agredida, outros que já nem saem para ver jogos nos cafés, outros que já nem dizem que são benfiquistas. Estes gajos são uns fanáticos. E a mesma gente que antes tinha uma atitude de respeito. Alguns deles até eram do Benfica.

Mas o que é que mudou?

O Salvador. Desde que chegou, tem imposto uma cultura de ódio ao Benfica. O mais estúpido é que as pessoas não pensam por elas. Vão todas em rebanho.

Mas isto não pode ser só gente de Braga.

Claro que não. Há portistas que vão ver os jogos do Benfica para os cafés só para arrumarem confusão. Os superdragões vêm sempre que o Benfica joga na Pedreira. Este ano muitos dos que fizeram aquela confusão toda foram gajos do Porto. O ano passado vieram para evitar que os benfiquistas de Braga festejassem.

E os bracarenses não se insurgem contra isso?

Claro que não. O clube está patrocinado pelo Porto, vai ganhando mais vezes. Isto aqui é pior que no Porto.

(entrámos no café. Bebemos mais umas e fomos para o estádio. À despedida, o sportinguista que é do Braga, às vezes do Porto e nunca do Benfica)

Vejam lá, tenham cuidado!



O resto foi estádio. Um jogo de futebol. Que correu mal para o Benfica, apesar de ter sido muito melhor. No fim, à saída do Estádio e apesar de terem ganho, umas centenas de adeptos bracarenses esperavam a saída dos benfiquistas. Uma corrente de polícia a segurar os cães com raiva e eu a ver aquilo muito mal parado. Crianças, mulheres, velhotas pelas ruas de Braga a chamar nomes a quem levava o cachecol do Benfica. Gente que educa os filhos, que paga os impostos, que compra o pirilampo mágico. Gente. A mesma que, toldada pelo sucesso do Braga, se esquece de que vive em sociedade e, potenciada pelos métodos portistas de décadas, faz de Braga uma filial nojenta do Porto. O mesmo ódio naquelas caras, a mesma raiva, os mesmos animais.

Tenho um grande amigo, o Sérgio, deste mesmo blogue, que me diz que temos (clube) culpa de nos odiarem. Pela petulância e arrogância com que os nossos dirigentes falam e que os adeptos, alguns, seguem. Discordo. Há, é verdade, uma mania de grandeza por vezes estupidificante entre os benfiquistas mas nada, NADA, justifica estes comportamentos desta gente de cidades fantásticas como Braga e Porto. Nada, NADA, justifica este estado de espírito, esta venda dos princípios morais. Por muito que se ganhe. Por pouco que se ganhe. Quem perde é o país. Perdemos todos.

domingo, 22 de maio de 2011

Pereirinha - um talento em bruto

Gosto pouco de comparações. Muito menos entre grandes jogadores porque elas incorrem sempre num erro básico: procuram comparar o incomparável.

É impossível comparar jogadores porque todos os jogadores são diferentes. Podemos comparar características específicas, modos de pensar o jogo, números de eficácia, qualidade na interpretação do que lhes é pedido, inteligência intrínseca, rapidez de raciocínio, capacidade técnica. Se isoladas, estas são funções que podem ser comparadas. Mas convém não retirar delas conclusões definitivas. Um jogador pode ser em todas melhor do que o outro e no geral ter um rendimento inferior. Isto porque não chega definirmos o jogador sob o foco do rendimento individual ou das características inatas que tem. Retirar da análise a forma como se enquadra no colectivo, se é bem potenciado pelo técnico, se a posição que ocupa é a ideal para as suas aptidões, se a polivalência pedida o beneficia, é incorrer no erro de desprezar o que se pode chamar de potencial futebolístico do atleta.

A comparação mais recorrente na actualidade passa pelas longas discussões sobre se, entre Messi ou Ronaldo, há um melhor do Mundo. Não há. Porque esse é um conceito despropositado. Se num desporto individual, é possível chegar mais perto de uma verdade desse género - ainda que não factual e muito menos geradora de consensos - no futebol a simples interrogação posta nesses moldes é, mais do que ignorância, uma profunda e prolongada estupidez. Messi não é melhor do que ninguém apenas porque finta mais adversários ou marca mais golos ou descobre mais espaços que os outros. Messi é Messi e chega. Messi é um enormíssimo jogador de futebol. Ronaldo não é melhor nem pior, é outro enormíssimo jogador de futebol. E chega dizermos isto. Não são comparáveis. Não são sequer equiparáveis porque um e outro têm formas tão distintas de ser e ver o futebol que se torna criminoso analisar, de forma leviana e parola, se este é melhor porque marca mais golos ou se o outro é melhor porque joga mais bonito. Reduzi-los a uma equação matemática é não compreender o que é fundamental: a qualidade que os dois possuem.

Discutir Messi e Ronaldo, como se de deuses se tratassem, sem discutir Iniesta, Xavi, Fabregas, Scholes, Rooney, Busquets, Piquet, Sneijder, Falcao, Aimar, entre tantos outros, é menorizar o que é o futebol, caindo falaciosamente numa bipolaridade qualitativa ao estilo americano de Hollywood em que tudo é medido e analisado à lupa com intuitos de conclusão definitiva. É transportar o futebol para um universo de números e gráficos sem que se entenda que os números e gráficos estão e estarão sempre condicionados pelos factores exteriores ao próprio jogador: qualidade dos colegas, ideia de jogo do treinador, capacidade dos adversários, adaptação do próprio a todos esses elementos, etc.

Dito isto, queria apenas deixar uma ideia: Pereirinha seria uma excelente contratação. Principalmente tendo em conta o modelo e filosofia de jogo que Jesus tem.

sábado, 21 de maio de 2011

Armando assina pelo Ontem vi-te no Estádio da Luz a custo zero

A Direcção deste blogue admite que os festejos do ano passado toldaram a clarividência dos escribas presentes e por esse facto promete uma próxima época na qual não serão cometidos os mesmos erros. Mais humildade, mais trabalho, fazendo de cada post uma final será a mentalidade vigente daqui para a frente. Estamos conscientes das falhas, remendá-las-emos e prometemos aos leitores que tudo mudará daqui para diante.
Sabemos também que o plantel denotou desequilíbrios. Por exemplo, quando nas alas falhava o Ricardo ou o Sérgio, era um caos porque não tínhamos mais ninguém disponível; a lesão logo na pré-época do médio defensivo RogerAjacto também não ajudou. O desaparecimento do central Americano da face da terra deixou o plantel, mais do que desequilibrado, profundamente frágil ao nível emocional. E mesmo a contratação de Janeiro numa tentativa de preencher lacunas evidentes e dotar o grupo de mais qualidade no miolo, o Mr. Shankly, não trouxe os resultados esperados, muito pelo facto de Mr. Shankly ser um trabalhador-blogger, dividido entre o escrever posts e deixar o sangue no seu ofício.
Por todas estas razões, decidimos accionar o nosso excelente programa de prospecção ao nível da blogosfera e, tendo em conta o orçamento reduzido, procurar encontrar uma pérola a baixo custo. As conversações já vêm sendo feitas há vários meses e hoje podemos anunciar aos leitores e à CMVM a contratação a título definitivo de Armando, o ponta-de-lança que nos faltava e de quem se espera poder rivalizar com Falcao na qualidade e quantidade de golos marcados.
Sabemos que o Armando é para os adeptos do blogue um perfeito desconhecido. Temos presente que muitos duvidarão e questionarão esta contratação surpreendente. Mas, tal como David Luiz, acreditamos que, dentro de um ano, o escriba Armando valha nos mercados blogosféricos 20 ou 30 vezes mais do que nos custou. Aproveitamos também para anunciar que queremos manter Armando por muitos anos e que esta sua vinda para o blogue não serve de ponte aérea para nenhum grande blogue europeu porque nesse patamar já ele está.

Ao Armando, as boas-vindas. E que seja a revelação da temporada blogosférica.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

O que eu vi em Braga - Parte 1 - A viagem

Tarde solarenga, propícia à janela escancarada e ao motor em movimento. O essencial estava no carro: garrafas de água, rádio ligado, tabaco e, claro, o cachecol apertado no vidro traseiro para anunciar ao que ia.
Até à portagem, pouco sinal de vida benfiquista. Uma buzina aqui, um puto no carro à frente a olhar para trás e a dizer-me adeus, alguns olhares cúmplices, tímidos, e pouco mais. Estava calma a tarde das meias-finais da Liga Europa.
Passados os primeiros quilómetros depois da portagem, então sim, a romaria parecia querer aparecer e vi de tudo: desde os clássicos cachecóis no vidro às bandeiras no vidro de trás. Mas o vencedor da A1 foi um gajo que levava o carro todo vermelho, coberto de bandeiras e cachecóis por todo lado (até nas jantes!) e uma bandeira gigante de 3 metros enfiada entre o banco do pendura e a porta. Ultrapassei-o, buzinei, disse-lhe adeus e... nada. Com uma cara enfiada na estrada, o braço esquerdo tapando o vidro, este benfiquista, apesar de todo o festival circense da viatura, ia deprimido. Não sou dado a superstições mas aquela expressão de enfado alertou-me para uma noite de mágoa.
Cabelos ao vento, sol em barda, música boa, buzinadelas cúmplices depois, páro na estação de serviço de Pombal para um natural soltar das águas e uma cerveja fresquinha que a sobriedade começava a parecer coisa absurda.
Encontro o nosso deprimido sentado em frente a um pão com chouriço e, claro, uma mini Sagres. Não resisto e comento-lhe a festividade benfiquista que transporta no carro. Meio resmungão, lá me responde que os filhos o ajudaram na decoração. "Está bonito", digo, e avanço aquele número conhecido: "hoje é para ganhar!", ao que ele me responde: "não acredito". Segundo sinal de preocupação, mesmo não sendo supersticioso. "Então o amigo vem todo armadilhado até Braga e não acredita?", digo eu numa última esperança de que o destino nos moldasse a tragédia. "Foi uma promessa que fiz no jogo na Holanda, mas acredito pouco neste Benfica". Respondi-lhe qualquer coisa automática, "não diga isso!" ou "vai ver que tem uma surpresa" e aproveitei para fugir daquele mau karma enquanto podia.
À saída da área de serviço, um gajo sentado na relva a pedir boleia, com um atrelado de coisas, entre a guitarra e duas malas cheias de não se sabe bem o quê. Páro o carro, ele chega-se perto, analisa-me e acha que eu sou merecedor de lhe dar boleia. Os carros atrás à espera e ele a encher o banco de trás com tralha de 5 anos de vida nómada.
Era húngaro. Nome? Miklós (karma, karma, sai de mim). Para onde, Miklós? "Porto" (Karma?). Deixo-te em Gaia, Miklós, que o trânsito no Porto é uma afronta à humanidade e eu tenho um jogo para ver mais a norte. De Pombal até deixar o húngaro, esqueci o futebol.
Falámos de assuntos menores: da vida, da sociedade, de como viver nela, com quem viver nela, de quem fugir dela, e outros assuntos menores como a agricultura biológica, o estado do planeta, religiões alternativas e a possível vida em Marte. Foi bom. Serviu para esquecer o essencial e as superstições negativas que vinham vindo atreladas ao meu carro desde que saí de casa.
Em Gaia despedi-me do Miklós, dei-lhe umas garrafas de água, que ele recebeu por simpatia embora prefira, palavras dele, a água dos canos. Despediu-se de mim com um "os portugueses são mais humanos que os espanhóis" e deixou-me no carro um colar. Adeus, Miklós, encontramo-nos na Índia.
Ainda esquecido ao que ia, rapidamente o destino mo lembrou: à saída da área de serviço estava o nosso companheiro benfiquista encostado à berma a retirar toda a indumentária do carro. Compreende-se. Como o mundo anda, é melhor preservar as viaturas às pedras, aos escarros e aos insultos. O benfiquista ia deprimido mas não ia seguramente desavisado. Fiz-lhe um aceno, ele não respondeu e eu segui até Braga sem passar pelo Estádio do Dragão não fosse o destino dar-me mais notas musicais da ópera bufa que iria ver de seguida.
Chegado a Braga, parei o carro ao pé da estação de comboios (onde um amigo me vinha encontrar) e fui beber médias para o pé do Café Benfica, que é um café onde as pessoas odeiam o Benfica - na segunda parte, vão perceber o fenómeno.
O dono era um antigo sportinguista, agora do Braga, às vezes do Porto e nunca do Benfica. E eu fiquei sem saber se o Miklós tinha conseguido encontrar a comunidade de ocupas lá para os arrabaldes do Douro.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Que país é este que elogia e promove corruptos? (Versão para os surdos)

Há gente sem escrúpulos nenhuns. Primeiro, fizeram uma imitação do Jacinto Paixão, adulterando a voz de um outro alentejano que passava pelas ruas na tentativa desesperada de difamar o bom nome do Futebol Clube do Porto. Naturalmente, foram refutadas todas as ideias que indiciavam acções de corrupção. Não satisfeitos com a argumentação fabulosa de quem defende Pinto da Costa e seus cães, perdão, seus comparsas (uma argumentação que tem como ponto fundamental este: os resultados desportivos. O que é de um nível de sofisticação só ao alcance dos génios porque não há de facto melhor forma de refutar uma acusação de corrupção do que com os resultados que a equipa teve; não há) arranjaram forma de colar a cara do Jacinto Paixão e dar-lhe animação para que pareça que o ex-árbitro está de facto a admitir que foi aliciado e corrompido por gente ligada a esse clube honrado e digno de sede na gloriosa cidade invicta. O que é que vão inventar mais? 





Mas a cabala não acaba aqui. São tantos os tentáculos do Benfica por essa imprensa fora, especialmente em Espanha, onde o Benfica tem gente inserida em tudo o que é jornal, que - imagine-se - a "Marca" há duas semanas dava conta de um jantar entre António Garrido, Reinaldo Teles e o árbitro do jogo Porto-Villarreal. O mesmo modus operandi! Não acham coincidência a mais? Nem criatividade têm os dirigentes do Benfica para a invenção! Então quer dizer que estes dois dignos representantes do Futebol Clube do Porto iriam enveredar por caminhos sinuosos, por caminhos ilícitos, especialmente Reinaldo Teles, empresário de sucesso no ramo da importação/exportação de fruta fresca e exótica? Não digam mentiras, seus maus perdedores. A "Marca" é claramente controlada pelo Benfica:


«Directivos del Oporto cenaron con el árbitro tras el partido contra el Villarreal
 
Reinaldo Teles y Antonio Garrido, implicados en el caso 'Pito Dorado', acudieron al restaurante con el holandés Kuipers · También cenó allí el presidente Pinto da Costa


El Oporto, rival del Villarreal en las semifinales de la Europa League, incumplió el pasado jueves una de las reglas más importantes que marca la UEFA: la prohibición expresa de que directivos o miembros de cualquiera de los equipos contendientes acompañen a los árbitros del partido durante su estancia en la sede del choque. Y mucho menos, que coman o cenen con ellos.

Tras ciertos casos de corrupción aparecidos hace algunos años, el organismo que regula el fútbol europeo incide mucho en velar por cualquier tipo de conducta que pueda dar lugar a presuntas irregularidades. Y así lo expresa nítidamente en su reglamento: "Durante su estancia en la sede del partido, los árbitros deben ser únicamente atendidos por un enlace que será un representante oficial de las asociaciones nacionales del equipo anfitrión (artículo 20.08 del capítulo XIII)". Es decir, sólo puede acompañarles alguien de la Federación o del Comité de Árbitros.

Pero, según ha podido saber MARCA, esta regla se incumplió gravemente la noche del pasado jueves, cuando el holandés Bjorn Kuipers, encargado de dirigir el choque entre el club luso y el Villarreal, cenó con varios directivos y personas estrechamente vinculadas al Oporto en el mismo restaurante.

Kuipers cenó en la Marisqueira de Matosinhos -de la localidad del mismo nombre situada a 10 kilómetros de Oporto- con Reinaldo Teles, directivo del club portugués y persona de gran confianza del presidente de la entidad, y con Antonio Garrido, ex árbitro luso que colabora con el Oporto.

A lo largo de la cena, el asunto fue más allá cuando ¡el propio presidente! Jorge Nuno Pinto da Costa también apareció en el exclusivo restaurante de la Rua do Roberto Ivens.

La UEFA no ve con buenos ojos estas prácticas, sobre todo teniendo en cuenta que Pinto da Costa, Teles y Garrido estuvieron involucrados en el escándalo de corrupción arbitral que salpicó al fútbol portugués en 2004 conocido como 'Pito Dorado'.

Escuchas telefónicas

Teles y Garrido no fueron condenados porque la justicia portuguesa no aceptó como pruebas las escuchas telefónicas. El caso se saldó -además del descenso administrativo del Boavista y cinco árbitros suspendidos- con dos años de suspensión para Pinto da Costa y una sanción de seis puntos en Liga para el Oporto, que además fue apartado de la Champions League 2008-2009. Esta sanción fue posteriormente revocada por el Comité de Apelación de la UEFA.

La actuación del holandés Kuipers en dicho partido (que concluyó con un contundente marcador de 5-1 a favor de los portugueses) se saldó con tres tarjetas amarillas para los castellonenses -Catalá, Borja y Diego López-, un penalti señalado a favor de los locales y la reclamación de un posible fuera de juego en el cuarto gol del Oporto.

Ante la sospechosa irregularidad de esta cena, el Villarreal podría plantearse ahora presentar una reclamación ante la comisión disciplinaria de la UEFA, el mismo órgano al que iba dirigida la demanda presentada por el Real Madrid contra los jugadores del Barça, que fue desestimada el pasado lunes.»
 


É a inveja de quem não ganha. De quem precisa de atacar os outros, é o que é. E não ficou por aqui, este plano para manchar o bom nome da instituição portista. Depois de ter sido refutada a notícia anterior com um argumento estupendo sobre uma suposta ligação fraternal entre capitais Lisboa e Madrid, numa luta contra os malandros dos provincianos catalães e portistas, surpreenderam-nos a táctica de defesa quando, há dois dias, vem de Barcelona mais uma bomba de hidrogénio: o jornal ligado ao clube a que o Porto se tenta desesperadamente colar (como se tivessem, um e outro, alguma coisa a ver em termos de dignidade e postura), o "Sport", traz mais uma difamação inaceitável:


«CORRUPCIÓN EN EL OPORTO QUE ENTRENABA MOURINHO

Jacinto Paixao, uno de los árbitros implicados en la investigación que se abrió en 2004 en Portugal a raíz de descubrirse una gran trama de corrupción en el fútbol portugués, reapareció ayer para confesar. Si cuando todo lo que rodeó al `Silbato dorado¿ hace seis años quedó impune ante la justicia, el ex colegiado ha decidido romper su silencio para dar veracidad al escándalo... Y poner en la picota al Oporto de Pinto da Costa. Y de José Mourinho.

Campeón de Liga en 2003 y en 2004, aquel magnífico Oporto tenía sus puntos oscuros. De acuerdo a la confesión de Paixao, era habitual que el club `cuidase¿ a los colegiados con el pago de viajes personales, el ofrecimiento de prostitutas de alto standing o cualquier clase de regalos. Todo, claro, con anterioridad al partido que debiera dirigir el árbitro en cuestión. Así ocurrió en los días previos a un Oporto-Academica, disputado en diciembre de 2002 y que ganó el equipo local por 4-1... Remontando en la segunda mitad un 0-1, con tres dianas en los últimos trece minutos y dos logradas de penalti. Dudoso.

En toda la documentación que pudo incautar la policía, el nombre del presidente del Oporto, Pinto da Costa, aparece en varias ocasiones, aunque no existe constancia pública de que José Mourinho estuviera al tanto de lo que ocurría... Si bien es curioso como encaminó su equipo algunas victorias ligueras de aquel curso 2002-03. Un penalti le ayudó a remontar ante el Gil Vicente, otro le dio la victoria ante el Moreirense y un tercero abrió un triunfo ante el Beira Mar. Además del encuentro ante el Académica denunciado por Paixao.

Las irregularidades quedaron impunes, las escuchas telefónicas se aceptaron como prueba y la mayoría de involucrados fueron absueltos, aunque la sospecha quedó en el aire. El Oporto no fue el único señalado pero, a la vista de sus éxitos de aquella época, la confesión de Paixao puede abrir una tormenta.»





E agora, o que dizer? Há que falar em Mourinho, ódio ao Mourinho por parte dos catalães. O Porto não tem nada que ver com estas historietas de cordel. Aliás, é de uma coincidência notável que 99 por cento das notícias sobre corrupção em Portugal estejam ligadas a este clube honrado, de adeptos dignos e dirigentes imaculados. Caso contrário, teremos o quê? Um clube que beneficia há 3 décadas do favorecimento das estruturas do futebol, particularmente da da arbitragem, ganhando em catadupa troféus adulterados, construindo equipas e mentalidade vencedora enquanto aniquila a hipótese de sucesso dos outros, que estende tentáculos que lhe permitem a completa impunidade legal, moral e política, transformando os seus adeptos numa massa generalizada cúmplice de crimes de corrupção, uma massa acéfala, perdida e anestesiada pelos êxitos desportivos, abdicando dos valores, dos princípios, da dignidade com que deviam analisar e criticar quem comete actos corruptos?

Não, não acredito. É tudo mentira. É o poder de Lisboa contra os briosos, de fina ironia e guerreiros nortenhos. Não pode ser para acreditar. É que se for para acreditar muita gente vai ter de meter um balázio nos cornos quando se aperceber da filha da puta da hipocrisia com que vivem uma vida de atrasados mentais. Já dizia o César Monteiro: "Rosarinho, minha filha, ao servires um gelado, nunca te esqueças que um dia também tu serás mãe".

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Vieira goleia António Ferro

Como benfiquista, considero-me uma pessoa atenta e razoavelmente inteligente para pensar uma estratégia para o clube. Não tenho formação em gestão ou em áreas parecidas, não conheço os meandros do futebol, desconheço politiquices corruptas e tenho muita dificuldade com a burrice extrema. Como é óbvio, não sirvo para gerir um clube. O que me causa preocupação, visto que, na última entrevista de Vieira, o nosso Presidente abordou os temas fundamentais da equipa de futebol da mesma forma com que este blogue os discutiu. Com uma ligeira diferença: enquanto Vieira os analisou a posteriori, neste serralho antecipou-se muitos meses antes a realidade com que hoje todos estamos deparados. E isto não diz da inteligência destes escribas; diz, antes, da absurda incompetência de quem gere o Benfica actualmente. 
Se um mero anónimo sem competências nem pretensões a cargos maiores do que o maior cargo a que aspiro e transporto com orgulho, o de ser sócio do Sport Lisboa e Benfica, analisa melhor a realidade benfiquista, antecipa melhor os problemas do futuro, dá melhores soluções, identifica as falhas e propõe melhores ideias para o clube do que quem gere os destinos do Benfica, então, meus caros, há sinais óbvios de preocupação. E há, com o conhecimento profundo que temos de 10 anos da (in)competência de Vieira, a noção de que nem os erros serão identificados nem as qualidades serão potenciadas. Porque, no fundo, o que falta a Vieira é um conceito tão simples quanto complexo de pôr em prática: uma estratégia consistente no tempo baseada na inteligência, na capacidade de trabalho, na idiossincrasia benfiquista e na capacidade para reconhecer mérito aos adversários. 

Discutamos, passo a passo, a entrevista de Vieira:

«Jorge Jesus merece a minha confiança e a de todos os benfiquistas. Não podemos ter a memória curta, deu-nos alguns títulos. Este ano as coisas não lhe correram da melhor maneira, é preciso tirar ilações e corrigir os erros. Tem grandes virtudes, os seus próprios defeitos, mas é um trabalhador nato, vive o projecto intensamente. Não podemos ser ingratos para quem trabalha desta maneira dentro do Benfica» 

Em primeiro lugar, dizer que para mim Jorge Jesus merece fazer mais uma época no Benfica. Isso não significa, porém, que aceite que o Presidente fale em nome de "todos os benfiquistas". Esta poderá parecer uma crítica estéril mas faz sentido fazê-la como demonstração do que é normalmente a premissa de discurso de Vieira: um todos por um para que ele não seja o visado quando as coisas correm mal; se correrem bem, o discurso passa a ter "eu" em doses industriais. 
Depois, as coisas não "lhe" (reparem que não LHE correram bem, não foi ao Benfica, foi ao Jorge Jesus, não foi ao Vieira, foi ao Jorge Jesus) correram bem por erros próprios, sim, mas principalmente por erros estratégicos de toda a Direcção, tanto nas acções como nos discursos. 
Por último, a questão da estratégia para a escolha de um treinador: um clube não deve decidir manter um treinador porque ele "deu-nos alguns títulos" (esta época, apenas um e menor), porque "é um trabalhador nato" ou "porque vive o projecto intensamente"; deve decidir manter o treinador porque o acha competente, mesmo que não dê títulos nenhuns. 
O discurso é, portanto e mais uma vez, focalizado nos pontos que nada interessam e olvida a mensagem correcta a deixar aos adeptos.

«Assumirá as culpas que tiver de assumir, eu próprio também cometi erros, e vamos continuar» 
  
Quais culpas terá de assumir Jorge Jesus? Não sabemos. Mas sabemos que teve culpas. Já o Presidente, ele próprio (repare-se na expressão "eu próprio", que remete para uma espécie de divindade que, apesar de acima dos homens, "também" consegue ser humilde e detectar pequenas culpas, pequenos erros, embora muito menos nefastos do que os do treinador) cometeu pecadilhos. Quais? Não sabemos. Mas... "vamos continuar". Para onde?, pergunta-se. Não sabemos. Mas vamos continuar. A fazer o quê, as mesmas borradas que se fizeram esta época? Não fazemos ideia. Mas sabemos de uma coisa: vamos continuar.

«Há um percurso longo para percorrer com o nosso treinador. Se não estivesse convicto que Jesus não será o treinador ideal, não estaria cá só por estar. É minha convicção que voltaremos a ganhar com ele!»

Afirmar, depois de uma época falhada, que há "um percurso longo para percorrer com o nosso treinador" é das coisas mais imbecis que se podem dizer. Não é motivação nem confiança para o treinador, é imbecilidade pura e dura, é afirmar que, corra como correr o trabalho de Jorge Jesus, o Benfica vai continuar a contar com ele. É permitir o relaxamento e não fomentar a responsabilização e a necessidade de mérito. 
Mas podemos dormir descansados: Vieira tem uma convicção. E portanto está tudo bem. Porque no passado as suas convicções (começo por qual das milhares de convicções de Vieira que acabaram no esterco?) foram convicções com sentido. Mas o discurso é inteligente, para os papalvos: Vieira acredita que voltará a ganhar, tem convicções e, como sabemos, há uma larga maioria de benfiquistas que compra as convicções do Presidente como pãezinhos quentes. E Vieira, sabendo disso e tendo por trás uma máquina que lhe debita o que deve dizer e harmonizar os corações encarnados, não perde a oportunidade de vender sonhos.

«Agora o que é normal nesta casa é que quando não se ganha entramos todos em depressão. Há uns anos, era normal. Agora, quando ganhamos, andamos constantemente em festa»

Ora cá está, meus senhores, o primeiro ataque velado aos adeptos! Palminhas, palminhas para o Presidente! É uma chatice, de facto: perdemos, deprimimos; ganhamos, andamos em festa. Se não fosse isso, esse atentado por parte dos adeptos, e Vieira poderia trabalhar de outra forma, ganhar mais coisas, sem os chatos dos adeptos ora a deprimir ora em euforias tontas. Vamos lá a ver se nos entendemos de uma vez: quando perdermos, devemos acreditar nas convicções de futuro de Vieira e não deprimir; quando ganharmos, não devemos andar em festa que é para não prejudicar os jogadores do Benfica, treinadores e dirigentes, que são muito influenciáveis e acabam a esquecer-se das obrigações. Está entendido? Ai, ai, ai.

«Criámos demasiadas expectativas. Eu próprio, também.»

A sério? Nunca pensei que dizer que o objectivo era a Champions fosse criar demasiadas expectativas. E, repare-se mais uma vez, "eu próprio, também". Ou seja: quem criou as expectativas não foi ele, foram outros. Mas ele próprio, ainda que menos, também deve ter criado qualquer coisinha. E ele próprio vem admitir isto, sim porque ele não cria expectativas normalmente, foi só a época passada e portanto agora admite que não conhecia bem os meandros do futebol e da realidade benfiquista. Afinal, só está no Benfica há 10 anos. Baby steps.

«Passámos demasiado tempo a celebrar o Campeonato.»

Extraordinário. A sério, isto é extraordinário. De uma forma assim tranquila, tu cá tu lá, vem o Presidente afirmar toda a incompetência de quem gere os destinos do clube, mas assim como se não fosse nada. "Olha pá paciência, somos uns incompetentes do caralho, cagámos nas funções para que fomos eleitos e andámos em festa, que se foda, para o ano há mais". Mas ainda deve haver quem leia nisto sinais positivos: "o Presidente admitiu que é um incompetente. Agora, sim, estamos no caminho certo!". Até porque, como todos sabemos, em 2005 não perdemos uma Taça de Portugal porque andámos uma semana a "celebrar demasiado tempo o Campeonato". Não, não, foi só desta vez. Estamos no rumo certo, agora.

«O plantel foi insuficiente para as expectativas que todos tínhamos. Veio-se a provar que não tínhamos o plantel ideal. Paralelamente, não nos preparámos convenientemente para a Supertaça, que marca o início da época desportiva. O facto de andarmos em festa constantemente distraiu-nos de como deveríamos preparar o futuro. Temos que assumir esses erros. O que vai mudar a sério é que o grau de exigência em relação a todos os profissionais do Sport Lisboa e Benfica vai aumentar. Eu próprio vou delegar muito menos»

Ah o plantel coiso e tal? Então mas... uma pergunta estúpida: quem é que constrói o plantel? Portanto, deixa ver se entendi: as expectativas eram muitas mas o trabalho para construir um plantel que correspondesse às expectativas foi pouco? Pois, compreendo. E porquê? Ah, sim, porque andávamos distraídos constantemente em festa (leram aqui mais um toque aos adeptos ou fui só eu?). Mas "temos que assumir os erros". Muito bem, Presidente. E vai mudar alguma coisa? Ah, claro, vai "aumentar a sério o grau de exigência em relação a todos os profissionais do Sport Lisboa e Benfica" - podemos então concluir que, passados 10 anos, o grau de exigência no Benfica ainda não é o máximo, é? E agora, Presidente, o que fazer? "Vou delegar menos". Medo.

«Sou o único responsável pelo que se passou esta época»

Então mas... o Jorge Jesus não tinha culpas? Os adeptos não tinham culpas? Afinal é o Presidente que toma as culpas todas? És grande, Vieira. Assume tudo, muito bem. E o que fazer por seres "o único responsável pelo que se passou esta época"? Delegas menos e fazes mais borrada. Faz sentido.


«Qualquer deles [Di Maria, Ramires e David Luiz] é grande jogador e está em grandes clubes e são todos internacionais. Mas o único insubstituível no Benfica que conheci é o Eusébio, é ele a minha marca», 

De ir às lágrimas. Esta deve ter tocado no fundinho dos benfiquistas. E o toque pessoal de Vieira? O Eusébio não é a "marca" do Benfica, é a "marca" de Vieira. Registada e tudo, logo a seguir às empresas de construção. Mas, Presidente, se ninguém é insubstituível, por que razão não vai dar uma volta ao bilhar da esquina?

[ainda sobre os trÊs jogadores] «quando se atinge determinado deslumbramento, torna-se difícil lidar, têm a ambição de ganhar mais, mais e mais».

Pois. E como no Benfica "ganhar mais, mais e mais" não acontece, porque "ganhar" cria logo uma euforia estupidificada, é melhor vendê-los. Genial.


«Há que encontrar situação de equilíbrio em que o Sport Lisboa e Benfica não seja prejudicado. E lembro que as mais-valias são significativas. Desde Simão e Manuel Fernandes o Benfica nunca mais tinha feito grandes transferências. Fiz o que acho melhor para o Benfica. Temos as contas equilibradas. Se formos confrontados, é um acto de gestão. A única coisa que posso adiantar é que vamos ser muito mais rigorosos nas aquisições»

Este excerto é o que se pode chamar de "clássico vieirista". Está lá tudo: defesa supostamente intransigente do Benfica, auto-elogio da supostamente boa gestão financeira e desportiva e promessa de mais inteligência para o futuro nas aquisições - o que, mais uma vez, faz admitir a incompetência total mas ele só lá está há 10 anos, calma. Gosto especialmente da frase: "se formos confrontados, é um acto de gestão". Eu, se matar um gajo e me chamarem a tribunal, direi o mesmo: foi um acto de gestão. Tive de gerir a minha sociopatia da melhor forma. 

«Vamos mexer, lógico. Esse maior rigor e exigência para o futuro vai existir, com certeza, determinado tipo de comportamentos vão ser alterados»

Lógico que vamos mexer. Devemos a nós próprios uma carnificina no plantel campeão. Um ano depois, já foram 4 titulares. Esta pré-época tem de servir para vender mais uns 3, pelo menos. E "vai existir maior rigor e exigência", ah pois vai! E "os comportamento vão ser alterados"! Quais, Presidente? Não sabemos. Mas vão ser alterados. Desta vez só vamos comprar 20 jogadores, emprestar só mais 10 e comprar mais 5 incompetentes. Baby steps.

«O plantel também tinha algumas carências. Teremos que ser muito mais cuidadosos no plantel, e vamos ser para que não tenhamos algumas lacunas», promete o presidente dos encarnados, exemplificando com a lesão de Salvio. «Se o Gaitán se lesionar, teremos problemas também. Na próxima época isso não vai suceder», garante»

Mas esta época, em Janeiro, falámos aqui nisso, Presidente. Com o Amorim lesionado, tínhamos de ir ao mercado, não falámos, Presidente? Foi feita alguma coisa? Não? Ah vendemos o David Luiz e enterrámos a época, como aqui também se disse, Presidente, foi? Mas vocês não lêem este blogue, Presidente? Se calhar é melhor. E acabámos em Braga sem soluções, com uma defesa fragilizada e a ter de meter o Menezes (by the way, virão mais desta qualidade?) no jogo mais importante dos últimos anos? Pois. Mas comprámos um médio quando vendemos o David Luiz, não foi? Sim, mas só para a próxima época. Está certo. O que vale é que "na próxima época isso não vai suceder". Afinal, que provas temos do contrário? 10 anos? O que é isso, Presidente? Estamos todos mais que tranquilos.


«O Benfica, durante toda a sua história, é um clube democrático, prova a sua vitalidade. Sinto orgulho porque há uma liberdade bastante grande, para isso contribui, porque devolvi clube aos sócios. Não estou agarrado à cadeira, nem alguma vez estive. Estarei cá enquanto o entenderem. No dia em que entenderem que não, sairei, e com a consciência completamente tranquila. O meu sucessor terá uma herança muito melhor do que a que recebi»

Pois não, claro que não estás agarrado à cadeira. Tu até antecipaste as eleições - nesse momento histórico para o clube - para evitar que alguns abutres te tirassem da cadeira. Tudo em nome do Benfica, tudo pelo Benfica. Porquê? "Porque o Benfica é um clube democrático". Exactamente, Presidente, exactamente.

«Tenho dado o melhor que sei e pensado em prol da instituição, com um erro aqui e ali, para o bem comum. Sou um homem livre e os benfiquistas são livres para escolher o que entenderem»

Ora um errozito aqui, outro errozito ali e as coisas afinal até se compõem. Ora uma comissãozita no Roberto aqui, outra no Alípio e Rodrigo ali, ora uma construçãozita em Madrid, outra com os companheiros Salvador e Oliveira ali e sei que tens dado o melhor que sabes pela instituição. E os erros - verdade vieirista em que devemos não só acreditar mas promover - servem "para o bem comum". Leram bem: um erro aqui e ali, para o... bem comum. A conta bancária é um bem comum do Vieira, da mulher e dos filhos, não é?

«Se fizer a pergunta à minha família, a resposta é que não me recandidato. Não é a altura própria, não vale a pena estarmos a especular sobre isso. Estou cá numa missão, quero levá-la até ao fim, nunca foi homem para deixar as coisas a meio»

Mais um clássico vieirista. Ele não quer está lá, está muito adoentado, sofre do coração, a família pede-lhe encarecidamente que volte a casa, mas tem uma missão e não é homem de deixar as coisas a meio. Um herói, no fundo.  

«Por minha vontade, Fábio Coentrão não sai, mas há uma cláusula de rescisão. Tudo iremos fazer para manter os principais jogadores, tudo faremos para reforçar a equipa. Queremos melhor, não queremos que as lacunas que tivemos se repitam. 
Agora quem fica ou sai...»

Isto, sim, deixa-me descansado. Nunca vi Vieira deixar sair os grandes jogadores por valores abaixo da cláusula de rescisão. Ele sempre prometeu isso e sempre cumpriu. Portanto, quanto a Coentrão estamos tratados: ou batem a nota ou não há cá Coentrão para ninguém! A menos que... ah pois, como com o Di Maria e o David Luiz, apareçam propostas irrecusáveis: assim do estilo 10 ou 15 milhões abaixo da cláusula de rescisão mas com excelentes jogadores metidos no negócio e uns objectivos inexplicados aos adeptos. Porque "não queremos que as lacunas que tivemos se repitam". E depois logo se verá. Dito isto, digo "agora quem fica ou sai" e deixo em suspenso. Genial, Presidente, genial.

 «Já manifestou que quer continuar no Benfica. Na altura certa de negociar, e ela há-de chegar, é natural que todos tenhamos que fazer um sacrifício para o Salvio continuar no Benfica»
Eh lá, o Presidente anda a aprender umas coisas com o Governo: se há erros próprios (assim tipo: Roberto por 8,5 milhões) e ficamos na merda, como é que mantemos os melhores? Hmmm, deixa cá ver: já sei, dizemos que tentaremos o Salvio mas só se "todos" fizermos "um sacrifício". O que é que vai aumentar? As quotas, os bilhetes ou os dois?

«Peço a todos que não comecem a gritar que vamos ser campeões. O próximo jogo é uma final, vai ser esse o nosso pensamento. Internamente é isso que se vai dizer, e toda a massa associativa deve pensar assim também. Não há campeões feitos antecipadamente, já pagámos algumas facturas caras por pensarmos assim. Tenhamos todos os pés no chão, sejamos humildes, respeitemos todos os nossos adversários, porque eles nos vão respeitar»

Certo, Presidente, só acho mal que exponha assim o Benfica em praça pública. Esse discurso não é para os adeptos, presidente, é para as reuniões que mantém com os incompetentes que lidera. Mas é capaz de ser difícil conseguir resultados quando tem gente na estrutura para quem "o Porto é uma religião". Não sei, digo eu.

«Nesta filosofia, o meu compromisso é o de que iremos ter uma equipa preparada: o próximo jogo será sempre o mais importante. Depois no fim se ganhará. Lógico que temos a ambição de ser campeões, agora antecipadamente dizermos que vamos ser campeões é que não pode continuar»

Pois não pode, não. Eu diria mais: uma Direcção que ganha tão pouco, que mente tão descaradamente aos seus adeptos, que é tão incompetente, que antecipa eleições para que a concorrência não se organize, que repete à náusea as mesmas mentiras e promessas ano após ano já lá vão 10 anos "é que não pode continuar". Mas isto sou eu.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A patética comédia esperada

Foram tantas as patetices ditas ontem que nem sei por onde começar. Porque dá trabalho e porque não sei se me apetece reflectir mais uma vez sobre esta gestão absurda com que Vieira nos tem presenteado. Fica para mais tarde. Deixo só uma conclusão básica: quem, depois da noite de ontem, ainda consegue olhar para aquele homem de forma séria sem se rir (de tanto chorar) ou quer mal ao Benfica ou é estúpido.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O extraordinário poder negocial de Vieira

Chego a não ter palavras para a capacidade negocial do nosso Presidente. Então não é que emprestámos um internacional argelino de 26 anos a um clube que até há duas semanas lutava pelo campeonato italiano, impusemos uma clásula para venda no final da época de 3 milhões e o rapaz tem feito uma época de grande nível, sendo importantíssimo na excelente campanha do Nápoles? Mas parece que os italianos não estão para dar 3, querem dar só 2,2. E o Benfica? E o Benfica aceita, claro. No Benfica, já se sabe, é assim: os nossos vendem-se a preço de saldos, quando compramos pagamos mais do que os vendedores querem. Continua surpreendente o poder negocial de Vieira.

Por falar no amado Presidente de 90 por cento dos benfiquistas, hoje haverá entrevista do grande líder benfiquista na Benfica TV.
Espero ouvir coisas grandiosas, momentos épicos e promessas eternas e monstruosas. Acredito mesmo que Vieira prometerá aos benfiquistas que para o ano será campeão não só nacional, não só europeu, não só mundial, mas campeão interplanetário numa nova competição que a FIFA organizará com as congéneres do Sistema Solar.
Espero também uma boa mão de areia para os olhos e um movimento de anca que lhe permita afastar-se de todas as coisas más que têm acontecido e vangloriar-se de todo o sucesso que as várias modalidades vão tendo.
É difícil penetrar nesse universo em que, como líderes, somos responsáveis pelo bom e irreponsáveis pelo mau mas Vieira, chefe muito batido nestas coisas, consegue-o - por vezes, de forma brilhante. É lógico que para o sucesso de Vieira contribuem muito as massas encefálicas pouco esclarecidas de uma maioria de benfiquistas mas com essas, não podendo melhorá-las, nada podemos fazer.

Esperemos então por mais um desenrolar de frases feitas e promessas vãs. É disso que todos (todos?) estamos à espera para mais uns meses de euforia. Não tenho dúvidas de que seremos os campeões da pré-época.




domingo, 8 de maio de 2011

20 anos depois, mais uma Taça Europeia para o Hóquei

Parabéns aos nossos jogadores que, em casa do adversário, foram resgatar a segunda Taça CERS para o palmarés do Hóquei do Benfica.

É o ecletismo do Benfica. Porque o ecletismo tem essa coisa chata de só existir verdadeiramente quando verdadeiramente existe e não, como outros, porque se fala nele em todos os segundos.

Um abraço especial ao Diogo Rafael que conheci à saída do Benfica-PSV e que hoje marcou 4 dos 6 golos com que derrotámos os catalães do Vilanova.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O jogo mais importante dos últimos 20 anos

Para o modelo de jogo do Braga, o encontro de amanhã não é o mais favorável. A equipa minhota sente-se confortável a poder explorar os espaços deixados pelos adversários e não tanto a ter de procurar resolver os jogos.
É essa a maior vantagem do Benfica para amanhã. E é essa que não deve ser dada de bandeja ao adversário, tal como demos na segunda parte da meia-final da Taça de Portugal na Luz ou na primeira parte de Eindhoven.
Segurar e controlar um jogo não é defender acantonado atrás ou, pelo contrário, atacar em vertigem sem critério. Controlar bem um jogo é privilegiar a posse e circulação de bola, ser inteligente com ela, buscar os espaços, correr poucos riscos em zonas perigosas, dar um engodo ao adversário para que este suba as suas linhas e então conseguir espaços para sair rápido (mas de forma sustentada) a criar perigo e, se possível, marcar golos. Mas sempre, sempre!, de forma organizada, com critério, pressionante como um todo - e não, como muitas vezes vemos no Benfica, jogadores a exercerem pressões individuais totalmente desligadas umas das outras.


O jogo de amanhã vai ser posto nestes moldes. E é com eles que teremos de jogar. Entrar bem, não defensivamente, mas de forma segura, impormos o nosso jogo, aceitarmos a posse que o Braga quererá dar-nos para a utilizarmos com critério, de forma inteligente, puxando o Braga para linhas mais altas e procurando desferir golpes mortais.
Um golo, um único golo, será já um ouro tremendo e uma vantagem crucial na eliminatória. Mas com cabeça, não procurando esse golo de forma desenfreada, com perdas de bola no miolo potenciadores de contra-ataques, onde os bracarenses têm toda a força do seu jogo.

Convém, portanto, melhorarmos a nossa posse, sabermos pautar mais o jogo e aniquilarmos as transições do Braga. Para isso, para além da defesa habitual, parece-me evidente que teremos de jogar com capacidade de posse e posicionamento (Javi e Peixoto), alguma irreverência e capacidade de esticar o jogo nas transições (Gaitán e Martins) e, claro, a qualidade dos dois avançados.
No entanto, em vez de um 442, com Peixoto junto a Javi e Gaitán na esquerda, preferia deixar Peixoto fechar na ala (onde os bracarenses são perigosos) e subir Gaitán para o meio, em trocas posicionais com Saviola, que sabe descer no terreno e juntar-se ao miolo.


A minha equipa seria esta:
 
 
 
 


Só para lembrar os mais esquecidos: basta-nos um empate contra o Braga para chegarmos a uma final europeia. Um empate. Contra o Braga. Para final europeia. O que seria um cenário de sonho há uns anos hoje em dia é algo difícil de alcançar. Mas eu acredito. Só espero que os jogadores e treinadores e dirigentes acreditem o mesmo que eu e queiram estar em Dublin tanto quanto eu quero.


URGÊNCIA: Um dos leitores que se disponibilizou para dar boleia, o Henrique, entretanto já ocupou as vagas no carro. Não haverá por aí alguém que tenha um lugarzinho para este benfiquista ou que queira vir no meu e dividir despesas? É que, além de poupar uns cobres, sabia bem uma companhia até Braga. Fica o número, caso prefiram ligar: 969296829.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Um por todos e todos no sofá

Quando é que sabemos que o benfiquismo anda pelas ruas da amargura? Quando vamos - numa Terça-feira, ou seja, 4 dias depois de estarem à venda - cheios de medo de que já não haja bilhetes e a senhora que no-los vende diz que nem metade ainda foram vendidos e que muito provavelmente os 3.000 à disposição não sairão da loja. Há algo de muito errado nisto.
Eu sei que há gente que trabalha até às 6, 7 ou 8 da noite e que, mesmo que quisesse, não podia ir; sei que há quem não tenha dinheiro para aventuras destas; sei que o resultado é perigoso e pode acabar numa grande desilusão, especialmente se se percorrer o país para ir assistir ao vivo ao jogo. Mas, foda-se, o que isto demonstra é uma descrença total na equipa, um benfiquismo amórfuo, nulo, vazio. Principalmente por o resultado ser curto, é que temos de encher aquela merda e gritar Benfica do primeiro ao último minuto. Principalmente por sabermos que um golo basta ao Braga para passar a eliminatória, é que temos de levar o nosso apoio para que a nossa equipa marque os suficientes para que o Braga nem com 4 marcados passe à final.
Num universo de milhões, nâo há 3.000 almas dispostas a ir a Braga? Reparem: não é a Moscovo, a Oslo ou a Kiev. É a Braga. Apanham a A1 para o Porto e depois é um saltinho a Braga. Dividam carros, façam quermesses, comprem um porco de barro, não vão a putas, não comprem bifes do lombo, peçam o dia ao chefe, matem o chefe, comam o chefe, vão de bicicleta. Mas vão. 3.000, caralho. Não vamos encher 3.000 lugares numa meia-final europeia? Mas isto é Benfica?





Já agora, eu vou sozinho ter com um amigo a Braga. Se alguém da zona de Lisboa (ou a caminho de Braga) estiver interessado em dividir coche, cheguem-se à frente.


domingo, 1 de maio de 2011

Calcanhares de Jesus

Um dos problemas mais óbvios no Benfica é facilmente detectável se observarmos atentamente os discursos de Jorge Jesus. Não, não me refiro aos pontapés gramaticais ou ao cabelo à cantor romântico; esses são sinais que não só não deslustram como seguem uma tradição que vem de há 20 anos para cá - quem não se lembra dos excelentíssimos bigodes de Jesualdo Ferreira ou Toni? Do "perfeitamente normal" e farfalhudo de Artur Jorge (Obrigado, Sá Pinto)? Dos ares boçais de Souness ou Heynckes? Da profícua diarreia verbal de Manuel José? Do ar de estivador de Camacho? Não, esses são acessórios que o Benfica, como clube popular que é, não deve renegar embora não esteja certo que deva promover. Digamos que, se o resto estiver bem, são distracções saudáveis e formas positivas de rirmos de nós próprios.

O problema está não na forma mas no conteúdo, um chorrilho de ideias pré-fabricadas, pouco originais mas, acima de tudo, nefastas para os objectivos da equipa e indiciadoras do que pensa não só o treinador como toda a estrutura do futebol do Benfica.
Com o título de há um ano, o clube não cerrou fileiras, não se fechou em si mesmo para uma reflexão e um projecto comum baseado na humildade e na noção de sucesso sustentado num ideal de muito trabalho e pouca conversa; pelo contrário: reiventou-se pelo avesso, discursando por megafones a todo o mundo um ideal megalómano, demagógico e pouco humilde, dispersando-se em fait-divers inúteis e em anúncios globais de uma superioridade óbvia, não pelo trabalho a fazer mas pelo trabalho que estava feito. Os resultados, esses, são bem conhecidos. Aliados a decisões estratégicas desastrosas por parte da Direcção - tanto ao nível das estruturas do futebol, em que um incompreensível apoio a Fernando Gomes para a Presidência da Liga teve os resultados na arbitragem deste campeonato que todos conhecemos, quanto ao nível da própria organização interna, em que pululam seres estranhos e adeptos de outros clubes, em que a maior aberração, e a que no fundo resume bem as incongruências de quem dirige o Benfica, passa por termos como prospector para a América do Sul um tal de Jorge Gomes para quem o Porto "é uma religião" e através do qual perdemos, por exemplo, Falcao e James Rodriguez.

Por isso não espanta que na Benfica TV, após a vitória no Dragão por 2-0, tenhamos ouvido durante 3 meses falar numa presença assegurada no Jamor ou que Jesus e Vieira tenham em Agosto falado em conquistar a Champions. Todo o processo ideológico de quem nos dirige está errado e voltado apenas para um sucesso pontual, que logo se dilui em discursos imbecis e em estratégias falhadas: de repente, de uma posição altamente favorável pelo título conquistado e pela excelente equipa rotinada que tínhamos, o Benfica desbaratou a sua superioridade com a falta de humildade e estupidez habituais e bem conhecidas de Vieira.
O objectivo parece claro: vender sonhos absurdos e vender jogadores. Deixámos de ser um clube de futebol para passarmos a um projecto empresarial que acumula empréstimos sobre empréstimos (quem vier a seguir, que pague), sendo que para os ir pagando vamos vendendo as melhores peças - já foram Di Maria, Ramires e David Luiz; estão na calha Coentrão, Cardozo, Javi e outros se chegarem propostas a que muito pomposamente os nossos dirigentes chamam de "irrecusáveis", mesmo que para isso tenham eles próprios de se deslocar às cidades dos clubes compradores, numa lógica negocial só ao alcance dos predestinados.
Entretanto, vão-se comprando autocarros de jogadores, uns para os juniores, outros para o plantel principal, outros ainda para serem emprestados e outros que não sabemos bem para que servem, a não ser para aumentarem exponencialmente a folha salarial no orçamento.

Já não me iludo em projectar pré-épocas organizadas e com critério, porque os exemplos da última década servem de farol para o futuro. Já não surpreende nem quase machuca, enquanto vou lendo notícias referentes ao planeamento da próxima época aceito-o com a resignação própria de quem deixou de lutar - assim como decidi abdicar de ver provas em que participem simultaneamente Porto e árbitros portugueses, também a minha descrença em que algo verdadeiramente mude nas acções e no discurso (que apenas reflecte e antecipa as primeiras) é uma realidade.

E, por isso, não me espantei quando hoje fui ao site do Benfica ver a conferência de imprensa de Jorge Jesus. Ouvi-lo, naquele seu tom de fanfarrão de Alfama, desenrolar as suas qualidades, os seus méritos, as suas mais-valias, não sem antes dizer que "os outros é que deviam falar sobre mim", foi ouvir o mesmo Jorge Jesus em Agosto da época passada e foi ouvir Vieira durante 10 anos. Estão bem um para o outro na fanfarronice, na falta de humildade e no desrespeito pela qualidade dos adversários. E, por isso, o sucesso é pontual e rapidamente desbaratado.

É que... Jesus não acha que vai fazer mal ao Aimar não jogar hoje nem Quinta (por estar suspenso). Porquê? Porque o Aimar vai poder entrar fresquinho para a final em Dublin.

És o maior da tua rua, pá.