Fico desapontado quando percebo
que estou numa daquelas fases em que olho para o futebol com excessiva racionabilidade.
E encarar o futebol com racionabilidade é retirar-lhe grande parte da emoção, é
torná-lo mais previsível, é remeter os afectos para um plano secundário, é, em
suma, privá-lo de tudo aquilo que é a sua essência enquanto desporto
apaixonante. Olhar o futebol por este prisma é uma seca dos diabos, como está
bom de se ver, mas não há volta a dar: tem sido, para mim, uma inevitabilidade cair
neste abismo de quando em vez. Julgo tratar-se de um qualquer mecanismo de
auto-defesa - desenvolvido ao longo dos anos de forma inconsciente e que cresceu à medida que os sonhos de gloriosas conquistas se desvaneceram - que serve para me chamar à Razão quando a euforia em torno do
Benfica ameaça dominar-me.
Não sei se são todas iguais, mas
a minha Razão é uma meretriz impiedosa, gélida e irritantemente assertiva, uma
desmancha-prazeres sem par que só quer mal ao meu Benfica. Diz ela que é tudo
para o meu bem, que não gosta de ver-me metido em ilusões vãs. Acha a espertinha
que os momentos de felicidade e euforia tendem a convergir para a desilusão e
por isso mais vale jogar pelo seguro. Grande besta. Como se atreve a amputar a
felicidade de um benfiquista pleno de uma ambição que o faz sentir-se
abençoado? Pois se pudesse escolher, via futebol apenas com o Coração. Foi Toni quem
me mostrou que não há forma mais pura e bela de fazê-lo quando, naquele
memorável jogo de Leverkusen, se pôs a gesticular e a falar sozinho enquanto
andava à volta do banco de suplentes após Kulkov virar o resultado para 2-3.
Diz a Razão que devo
acautelar-me, que o Benfica tem uma boa equipa, mas não tão boa como ela
própria supunha no início do campeonato. O Coração jura a pés juntos que o
Benfica é a melhor equipa do mundo e arredores. Mas a razão, essa vaca-de-chocalho,
não se fica e insiste em demonstrar que a equipa do Benfica tem graves lacunas.
E vai mais longe: diz que estas já podiam e deviam ser sido supridas, concluindo
assim, de forma arrogante e soberba, que não é só a equipa de futebol que
revela lacunas no clube. O Coração, atarantado, apelida a Razão de má
benfiquista e atira que esta se queixa de barriguinha cheia pois está em primeiro lugar no campeonato. A Razão ergue o
tom para lembrar que acabámos de perder em Guimarães de forma inapelável, assustadora até. O
Coração, atemorizado, mirra e remete-se ao silêncio. A Razão toma-me de assalto.
Assim mesmo, de rompante, grosseira, sem pedir licença, acomoda-se em mim durante
dias, mais dias do que faria supor, tornando a minha semana irremediavelmente
cinzenta, a roçar mesmo o deprimente.
Chegado o dia de hoje, a Razão resolve aliviar-me um pouco. Conheço-lhe as manhas: também sabe ser cruel, a Razão. Percebendo que estou completamente tomado por ela, deixa-me fugir-lhe um pouquinho, dá algum espaço ao Coração e fica à espreita, aguardando pacientemente a oportunidade de voltar a esmagar-me. Apesar de puta sádica, nem a própria Razão tem razão de ser se não tiver com quem discutir. O Coração aceita o desafio e entra de rompante com um poderoso “vamos a Coimbra golear”. A Razão argumenta com serenidade que a vitória pela margem mínima é mais plausível e deve ser considerada bastante satisfatória. O Coração remata que o Javi está de regresso, fortalecendo significativamente a equipa em relação ao último jogo. A Razão contrapõe que, a avaliar pelo último jogo, também as experiências de Jesus estão de regresso. Quase a perder as estribeiras, o Coração quer acreditar que Capdevila será finalmente titular. A Razão afirma que é possível, desde que Emerson seja o condutor do Audi que se espatifou contra o autocarro do Legia de Varsóvia. A calma e prontidão da Razão nas suas respostas levam a que o Coração exaspere e sentencie: “Ai é? Então olha, escreve o que te digo: não só goleamos como o Emerson vai fazer a assistência para um dos golos!”.
A Razão ausenta-se da discussão e pede para
falar-me a sós. Diz-me que o melhor é que o post fique por aqui pois aquilo já não é o Coração a falar, é pura parvoíce. E explica-me que não posso correr o
risco de acreditar em parvoíces daquele calibre sob pena de poder vir a ser confundido com
um sportinguista.
Bem vistas as coisas, a Razão só me
quer bem.