O "caso de Dusseldorf" tem dado para um estudo sociológico de grande qualidade. Infelizmente para nós, benfiquistas, com conclusões não muito brilhantes. Depois do único texto que fiz sobre o assunto no próprio dia, tenho assistido a esta novela com orgulho - pela qualidade de muitos adeptos em ainda saberem o que é (ou o que era) o Benfica - e muita vergonha - por ler autênticos tratados de portização, de adeptos que vêem na desculpabilização de actos imbecis a forma natural de defenderem o Benfica.
Importa esclarecer: o acto imbecil não foi o do Luisão - o capitão do Benfica não esteve bem, foi demasiado sôfrego, acabou por encostar o corpo no árbitro, mas - poupem-nos a teorias bizarras - o homem não agrediu ninguém. O árbitro fez um circo monumental (não se sabe bem porquê), e desse acto artístico o encosto de Luisão passou a "agressão". Não foi, todos sabemos que não foi, mas também há que apontar ao capitão do Benfica um comportamento indesculpável - se não pelo acto em si, pela ausência de noção de que prejudicaria o clube.
O acto imbecil vem depois. Aliás, os actos imbecis: a profunda e vergonhosa imbecilidade de, tendo um árbitro caído em campo "encostado" por um jogador do Benfica, toda a comitiva benfiquista aparecer aos olhos do mundo a rir e a gozar com a situação; e, claro, a forma como Carraça e o Benfica defenderam o caso nos dias posteriores.
Sobre a primeira imbecilidade, tenho lido dos argumentos mais hilariantes possíveis: que os jogadores alemães também se riram, que o público também galhofava muito, que em casa todos gargalharam e que, portanto, como humanos seres que os jogadores, treinadores e dirigentes são, seria normal aquele circo festivo. Quem diz isto desconhece várias coisas: começa por desconhecer o que deve ser um clube de futebol e profissionalismo - quando há possibilidade de suspensão de um atleta, não há tempo nem espaço para risadas -, desconhece o que são as conveniências - os alemães podem rir à vontade, não foi um jogador deles que se encostou ao árbitro, fazendo-o cair -, e desconhece lamentavelmente o que é (ou o que foi) o Benfica - neste clube há (havia?), antes de tudo, uma união entre os seus funcionários que não permite que um acto grave (o encosto de Luisão mas sobretudo o facto de um árbitro ter caído no chão aos olhos do mundo) seja tratado tão levianamente como o foi, tanto pelos risos histéricos como pela estúpida argumentação que se lhes seguiu.
O único e eficaz comportamento teria sido, primeiro, o evitar da contenda, aparecendo alguém a manifestar tristeza pelo ocorrido e desvalorizando o acidente - e não, como feito, entrando em quezílias e teorias da conspiração - e, depois, o silêncio até tudo ter sido resolvido tentando atenuar as possíveis sanções. Nada disto foi feito: Carraça carraçou estupidamente (o lagarto em si não lhe permite ter respeito ou compreender o clube que representa), vários jogadores apareceram a defender o Luisão (criando, na opinião pública, a ideia de que ninguém ali se preocupava com a queda do árbitro e futuras repercussões) e nenhum, nenhum!, agente que viesse acalmar os ânimos. O Benfica preferiu inventar conspirações absurdas, a melhor a de Pragal Colaço que só lhe faltou dizer que a União Europeia está contra o nosso clube - esta gente cai recorrentemente no ridículo e ainda há adeptos que vão atrás desta miserável pobreza de espírito.
Mas houve finalmente, e depois de muita baboseira, uma acção louvável do homem que é o responsável por tudo isto mas que, neste caso específico, esteve muitíssimo bem: Luís Filipe Vieira. A tentativa de conversação e acordo com os responsáveis pelo clube alemão, procurando uma plataforma de entendimento e menorização dos castigos que hão-de vir foi, no meio de 10 anos de tanta tonteira, das melhores coisinhas que vi ao nosso Presidente. Resta saber que tipo de acordo será esse.