Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal - Hungria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal - Hungria. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Renato não usa gravatas às riscas


Nos últimos segundos do jogo, uma jogada de futebol altamente profissional e engravatado e, em contraste, a natureza selvagem do miúdo Renato. A sua dança de futebol de rua onde toda a bola merece o respeito de ser perseguida. A Hungria bocejava com ela na defesa, passava-a de pé para pé enquanto os portugueses, que receberam o código através de um papelinho escrito pelo treinador, limitavam-se a esperar pelo final do jogo.

Na parte inferior do ecrã vemos Renato Sanches a querer ir disputar a gloriosa redonda, depois a parar, a pensar nas ordens do Sargento Santos, a hesitar, a ter de cumprir a burocracia, preencher papéis, esperar pela folha picotada, pela factura, pela assinatura do árbitro a selar o encontro. Mas Sanches fervilha, não quer aceitar que aquela bola ande ali a fazer figura de parva, sem alguém que a procure, que a abrace, que a queira dentro de uma baliza. E então, contra tudo o que estava programado, contra todo o pacto de não-agressão luso-magiar, para surpresa dos húngaros, para desespero dos lusos, Renato Sanches corre para ela, pressiona, força o defesa a meter no guarda-redes, dá-lhe uma razão para existir. O puto despatetizou o momento burocrático com a vontade, com a gana, de uma infantil fome de bola.


O futebol invisível


Quando está 2-3, Ricardo Quaresma, na sua ânsia desalmada pelo precoce orgasmo, vai doido querer marcar um canto directo. Entretanto, João Mário, esse príncipe sem coroa, chega e diz

- Man, tem calma contigo. Vamos fazer diferente.

Assustado pela irreverência de João Mário (afinal, confrontar Quaresma ou Ronaldo nesta Selecção será digno de medalha entregue pelo Presidente da República), como menino mimado a quem recusam o saco de gomas, Ricardo não cruza, mete em João Mário, que espera e depois então passa para o cruzamento do cigano, já com a defesa húngara devidamente desposicionada. O resto é história: excelente cabeceamento de Cristiano para as pobres redes de pesca.

A estatística dirá: assistência de Quaresma, golo de Ronaldo. E, no entanto, o poema é todo do João Mário.

O calcanhar de Ronaldo



O calcanhar de Ronaldo não é consequência dos três séculos de treino; o calcanhar de Ronaldo é consequência pura do seu mais puro talento. De tanto lançamento de microfones, de idiotice, de fragilidade, de sorrisos ao espelho, de insegurança, o puto Cristiano fez esquecer ao mundo a sua extraordinária capacidade de grande e universal futebolista.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Fernando Santos - ou a glória ou o espeto


Em cada português, uma lousa onde traçar a vitória no Euro. Gizar a táctica perfeita. Escolher o 11 evidente. É simples, basta "não inventar". Talvez precisemos de um programa informático que reúna 11 milhões de onzes e dali saia então, filtrado por um algoritmo altamente lusitano, os 11 heróis que nos levarão à glória, mesmo que a máquina acabe metendo o Bruno Alves a ponta-de-lança, o Patrício nas entre-linhas e o Cristiano Ronaldo a fechar a ala direita.

Se escolher 11 jogadores para uma competição desta natureza fosse fácil, não era para nós. Decidir implica muito mais do que olhar estritamente para as características individuais de cada jogador. Requer um pensamento mais elaborado e colectivo, precisa de ter coerência com o trabalho que vem sendo preparado nos últimos meses. É por isso que Fernando Santos começa a dar sinais preocupantes.

Desde logo, a escolha por Quaresma em detrimento de João Mário no último jogo. De repente, sob o peso da crítica e das exigências populares por enfiar no relvado os 3 reis magos, o mister sucumbiu à pressão e perdeu a bússola com que vinha norteando as suas opções. Se o que estava trabalhado era um 11 que privilegiasse o entendimento entre 4 médios - dois mais interiores que soubessem furar defesas mais compactas através da movimentação dentro do bloco adversário e abrissem espaços para a entrada dos laterais, um posicional e um "8" em apoio aos dois avançados selvagens lá na frente - não se percebe a opção no jogo com a Áustria, que acabou por nem ser carne nem peixe. Portugal acabou por entrar em jogo em formato delícias do mar e naturalmente pagou por isso.

Sem ponta-de-lança de qualidade inegável, Santos, inteligente, optou por trabalhar uma equipa que tivesse nos seus médios a capacidade para semear com bola, num jogo de posse e pelo relvado, a planta que crescesse até ao golo. Uma linda árvore frondosa que fosse crescendo pelo jogo interior e constantes combinações curtas, usando as alas não para cruzamentos insípidos mas como forma de embuste. É evidente, um cruzamento não é nenhuma erva daninha se tiver o propósito e as condições ideais. Será o passe de André Gomes para Nani no nosso único golo igual a um charuto do Quaresma de meio do meio-campo? Não é, mas há quem queira chamar cruzamento a tudo e justificar cada bola atirada pelo ar sem critério como "mais uma opção válida".

O futebol desta equipa estava a ser trabalhado para uma forma específica de jogar - que, quanto a mim, viria a ter a sua natural glória a curto prazo - mas Fernando Santos, após o primeiro empate, decidiu esquecer-se de tudo isso e foi atrás do palreio (legítimo, porque todo o palreio é legítimo) da generalidade dos palradores lusitanos. Aí cometeu o seu primeiro erro, sobre o qual deverá reflectir e rapidamente corrigir, fazendo reentrar no 11 o único médio (já que não levou Pizzi) que pode elevar o futebol de Portugal à lucidez: João Mário. Na frente, soltar Ronaldo livre e escolher entre Nani ou Quaresma o seu companheiro para os desvarios.

O segundo erro de Fernando Santos derivou do primeiro: após uma aposta incoerente contra a Áustria, a equipa empatou, o futebol piorou (apesar das naturais oportunidades de golo), e o Mister, confrontado com tudo o que prometera, decidiu prometer ainda mais: agora já não íamos só fazer tudo para ganhar isto, agora já sabíamos que só vamos acabar no dia 12 de Julho no Marquês, com 11 milhões de portugueses em cima da cabeleira do Pombal. Era o desespero final.

Na sua bondade, na resposta às preces sedentas de glória dos emigrantes que amam este país de forma absolutamente enternecedora, Fernando Santos despiu-se, passou molho barbecue pela pele, abriu o grelhador e deitou-se em cima das brasas. Resta saber se o povo o vai querer bem ou mal passado.