Tão habituados à volatilidade emocional dos adeptos, nem os benfiquistas mais pragmáticos conseguem escapar a um certo entusiasmo que se está a gerar em torno da equipa. E com razão. A época que se avizinha promete ser risonha.
O planeamento da pré-temporada saiu do papel para o campo de forma exemplar. As saídas, as grandes vendas, são inevitáveis num clube com a dimensão e poderio financeiro que o Benfica ocupa na Europa do futebol (e se outros não vendem, terão de explicar esse milagre de engenharia financeira). As saídas de Nico Gaitán e Renato Sanches ocorreram com a normalidade esperada, por verbas interessantes dada a qualidade dos futebolistas em questão, se bem que a conjuntura do mercado poderia ter favorecido mais o Benfica no caso da saída do jovem Renato, caso houvesse maior prudência e perspicácia dos seus dirigentes (mas falaremos desse assunto noutras núpcias). E precisamente por essa mesma conjuntura, aliada ao facto de o Benfica ter vendido "a alma ao diabo", leia-se, Jorge Mendes, o clube poderá ainda efectuar avultados encaixes financeiros sem a necessidade de abdicar das chamadas primeiras linhas: Talisca, Lisandro ou Samaris, jogadores que estão longe de serem indiscutíveis nas escolhas de Rui Vitória, poderão sair por verbas interessantes graças a esse facilitador de negócios chamado Jorge Mendes. Deste modo, jogadores fulcrais como Ederson, Lindelof, Salvio ou Jonas, poderão ficar apesar do assédio de grandes colossos europeus e de outros novos ricos que proliferam entre a Europa e a Ásia.
No campo das manutenções e contratações, ao contrário do que sucedeu, regra geral, nas duas últimas temporadas, o Benfica parece ter igualmente acertado o passo. Contratou pouco, com critério, para posições carenciadas e aparentemente com acerto. Assegurou o desconhecido Kalacia, que nos poucos minutos que teve deixou sinais surpreendentemente positivos para um jovem de 18 anos; fez regressar o outrora dispensado André Horta, que parece estar a impor-se com autoridade na posição que ficou órfã com a saída de Renato Sanches; expandiu com talento e velocidade as alas, com as chegadas de Carrillo, Cervi e Zivkovic, três jogadores individualmente muito diferentes mas com talento mais que suficiente para serem titulares; fez ainda chegar dois jogadores que, muito provavelmente, noutros Benficas mais fracos teriam entrada segura no plantel e talvez até no onze titular, mas que provavelmente rodarão um ano na Europa para se adaptarem ao estilo de jogo do velho continente, tão diferente do sul-americano, casos de Celis e Benitez. Sete jogadores no total. Longe dos camiões de 20 atletas que chegavam noutros verões, há assim não tanto tempo.
Mas não nos fiquemos pelo plano mais superficial da questão. A existência de uma pré-temporada na qual não se andou a fazer turismo em viagens intercontinentais para ganhar dinheiro influencia, naturalmente, a qualidade do trabalho e o produto final do mesmo. Da mesma forma, a presença de um plantel mais curto, no qual não é necessário fazer um casting com quase uma dezena de jogos amigáveis para aferir a qualidade dos jogadores, tem influência na qualidade do trabalho e na estabilidade do plantel. E assim se vê a diferença gritante da pré-época actual para a anterior: índices físicos muito interessantes para uma fase tão precoce da época, entrosamento e cumplicidade entre os jogadores, processos bem definidos tanto na coesão defensiva como na dinâmica ofensiva.
É certo que os resultados e as exibições da pré-época não apresentam causalidade directa com a classificação final do campeonato, mas é inegável que há uma correlação entre ambas as variáveis, especialmente no que diz respeito à forma como as equipas iniciam as competições desportivas oficiais. E atendendo à estabilidade directiva (sim, é verdade, a "estrutura" existe), de equipa técnica e jogadores, acredito que o Benfica tem o primeiro tetracampeonato da sua riquíssima história ao seu alcance.

