filha, traz-me aí um martini
e a mulher, compreensivelmente preocupada, responde
mas, querido, amanhã tens jogo.
O suplente limpa as cinzas que o cigarro deixou em cima do sofá, dá uma passa e diz, com ar melancólico, expirando fumo
não faz mal, meu amor, amanhã é para a ressaca no banco.
Triste, a esposa resigna. Prepara a bebida ao suplente e traz-lha embrulhada num beijo, com uma frase
para mim serás sempre o meu titular.
Três martinis, duas cenas de sexo escaldante e 4 zangas entre irmãos que afinal são amantes depois, ao suplente sobem-lhe uns calores pelo peito quando observa a esposa de pantufas com dois ursos nos pés e uma camisa de noite que faz adivinhar metade de uma mama.
Filha, vamos para o quarto, aqui está muito frio.
A esposa, visivelmente concentrada na teia de amores e desamores do televisor, prefere o chuto para canto
Mas não podes, querido. Amanhã tens jogo. Sabes lá se o Jesus não te põe a jogar, nem que seja 5 minutos.
Estamos na paz dos anjos, amor. Aquele gajo de tão mau que é nunca se lesiona.
E foi mais ou menos assim, com avanços e recuos, problematizações estratégicas, novos assuntos que surgiram no momento e alguma condescendência feminina que, após o fim da novela - e só depois -, o suplente e a sua mais-que-tudo acabaram a ter sexo alcoolizado no dia antes do grande jogo.
A meio da noite, a mulher acordou assustada: Goooooooooooooooooooooooooolo, gritava o suplente.
Filho, filho, estás a sonhar.
E o suplente acenava para o armário, atirava beijos, metia o candeeiro da cómoda dentro da camisola, corria o quarto em desvarios à Eusébio e saltava para cima da roupa, com os braços no ar.
Acorda, querido, é um sonho, não foi golo.
Entre cuecas e meias, camisolas e t-shirts, leggings, gorros, pijamas e uma camisola oficial de campeão do mundo, a cabeça do suplente surgiu, já acordado e em prantos.
Tens a certeza de que não foi golo, amor? O fiscal de linha não levantou a bandeirola.
Não foi, filho. Estavas em fora-de-realidade.