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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Crónicas sobre um suplente - I - o dia antes do jogo

Na noite anterior ao jogo, o suplente encontra-se em casa, de robe, a assistir à novela da noite. Pede à mulher

filha, traz-me aí um martini

e a mulher, compreensivelmente preocupada, responde

mas, querido, amanhã tens jogo.

O suplente limpa as cinzas que o cigarro deixou em cima do sofá, dá uma passa e diz, com ar melancólico, expirando fumo

não faz mal, meu amor, amanhã é para a ressaca no banco.

Triste, a esposa resigna. Prepara a bebida ao suplente e traz-lha embrulhada num beijo, com uma frase

para mim serás sempre o meu titular. 

Três martinis, duas cenas de sexo escaldante e 4 zangas entre irmãos que afinal são amantes depois, ao suplente sobem-lhe uns calores pelo peito quando observa a esposa de pantufas com dois ursos nos pés e uma camisa de noite que faz adivinhar metade de uma mama.

Filha, vamos para o quarto, aqui está muito frio.


A esposa, visivelmente concentrada na teia de amores e desamores do televisor, prefere o chuto para canto


Mas não podes, querido. Amanhã tens jogo. Sabes lá se o Jesus não te põe a jogar, nem que seja 5 minutos.


Estamos na paz dos anjos, amor. Aquele gajo de tão mau que é nunca se lesiona.


E foi mais ou menos assim, com avanços e recuos, problematizações estratégicas, novos assuntos que surgiram no momento e alguma condescendência feminina que, após o fim da novela - e só depois -, o suplente e a sua mais-que-tudo acabaram a ter sexo alcoolizado no dia antes do grande jogo.


A meio da noite, a mulher acordou assustada: Goooooooooooooooooooooooooolo, gritava o suplente. 

Filho, filho, estás a sonhar.

E o suplente acenava para o armário, atirava beijos, metia o candeeiro da cómoda dentro da camisola, corria o quarto em desvarios à Eusébio e saltava para cima da roupa, com os braços no ar.

Acorda, querido, é um sonho, não foi golo.

Entre cuecas e meias, camisolas e t-shirts, leggings, gorros, pijamas e uma camisola oficial de campeão do mundo, a cabeça do suplente surgiu, já acordado e em prantos.

Tens a certeza de que não foi golo, amor? O fiscal de linha não levantou a bandeirola.

Não foi, filho. Estavas em fora-de-realidade.