sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O HAT-TRICK DE RUI ÁGUAS – DOIS GLORIOSOS GOLOS E UM EXTRAORDINÁRIO QUASE-GOLO 



1988, segunda parte das meias-finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Eu, o meu Pai e mais 129.998 benfiquistas na Luz sob o mote do Presidente João Santos - "Um benfiquista, uma bandeira" - cantamos "Benfica, Benfica, Benfica" a levar o Glorioso até à final de Estugarda. Mats Magnusson de costas faz um passe a isolar Rui Águas. O romeno do Steaua ainda consegue recuperar a bola, mas logo o filho do Bicampeão Europeu a rouba e segue rápido para a baliza, meio descaído na esquerda. Entra na área.

(O meu Pai mete a mão na minha perna e flecte os joelhos à espera do golo, eu meto a mão na perna do meu Pai e flicto os joelhos a desejar o golo, as pernas e as mãos cruzam-se e os joelhos flectem-se a ordenar o golo, os filhos metem todos as mãos nas pernas dos pais, os pais metem todos as mãos nas pernas dos filhos, todos os joelhos do mundo flectidos com saudades do golo. Tudo em tensão: mãos, pernas, joelhos. 130.000 pais e filhos, amigos, padrinhos, vizinhos e estranhos agarram-se às pernas uns dos outros numa corrente humana de pernas, joelhos e mãos a fazer do Estádio da Luz um absurdo fenómeno de flexões colectivas e o coração aos saltos, em místicas diástoles em gloriosas sístoles, pulsando desejos infantis: "faz golo, faz golo, faz golo, faz golo, faz golo, faz golo")

Rui Águas dá um toque ligeiro para a frente (amacia-a, prepara-a, acalma-a). Quando lhe aparece um adversário ao lado, mete-lhe a bola por entre as pernas, e, já sem espaço, salta - salta como um cavalinho, como se fosse o último salto de sempre - para poder rematar. Um lance à Jonas (ou é Jonas que tem coisas de Rui Águas?). Remata e a bola é defendida no chão por Liliac. Uma jogada transcendental que começou com Silvino e o seu equipamento verde a colocarem a bola em Álvaro que levantou na esquerda para a cabeça de Pacheco que, junto à linha, cabeceou para Magnusson que, de costas, meteu em Rui Águas e o resto é História. Um extraordinário quase-golo.

(Por todas as casas e cafés do país, por todo o mundo, os joelhos flectidos, as mãos nas pernas, a saudade do golo esvaem-se em quase-golo e os corações benfiquistas voltam à nervoseira habitual. Tudo sempre à espera de mais um golo. Do terceiro golo em viagem para Estugarda.)

A bola distancia-se da baliza adversária, segue para os romenos. Já fora do plano das câmaras, Rui Águas, longe da bola e no meio dos centrais romenos, frustrado pelo extraordinário quase-golo, automotiva-se olhando o Estádio da Luz - "Um Benfiquista, uma bandeira" - e, em pleno relvado, começa a sonhar com os dois golos que já tinha marcado na primeira parte.

(GOLO GLORIOSO NÚMERO 1 - Aos 25 minutos, canto para o Benfica. Pacheco trata da ocorrência. Como Águia Vitória, a bola voa por cima do relvado. Entra na área. Mozer, armado em Mozart, já tem tudo na cabeça e desvia para o segundo poste. A bola parece meio perdida, vai a sair do perigo. Mas não, há Rui Águas e a sua disponibilidade mítica para o salto-peixinho. O goleador anteviu, reflectiu, dispôs-se ao chão. Cabeceou não só para o lado contrário do guarda-redes como ainda lhe deu efeito para cima - poucos jogadores no mundo seriam capazes desta loucura: talento, técnica e uns pozinhos de despero. A redonda entra no topo da baliza, abana as redes e depois é o caos, o Estádio entrou em erupção e a lava caiu quente a queimar o relvado. Lembro -me de ser atirado com os meus 6 anos para 7 ou 8 filas abaixo. "Foi você que perdeu o seu filho num golo do Benfica?"

GLORIOSO GOLO NÚMERO 2 - Aos 33 minutos, Mozer (outra vez doidão por aquilo que hoje se definiria como o "movimento ofensivo"), segue meio-campo romeno adentro, faz passe para Rui Águas, que sofre falta. Livre perigoso, sobretudo se na nossa equipa tivermos um Diamante chamado Diamantino. O capitão não marca o livre de forma normal, ele faz diferente. Ele faz diferente: amanteiga a bola, marca um livre como se passasse manteiga por pão quente. Ela segue tão amanteigada por cima dos romenos só para encontrar a cabeça de Rui Águas que, em jeito perfeito como lindíssimo cabeçeador que sempre foi (um dos melhores da História do Futebol), a desvia, a encaminha, a ensina, a dirige para dentro das redes. Rui Águas é abraçado efusivamente, não notando que, nesta altura, na maluqueira dos 130.000, eu já tinha sido atirado para dentro da toalha branca do Eusébio. "Foi Você que encontrou o seu filho num golo do Benfica dentro da toalha do Eusébio?")

Rui Águas pensa em José Águas, o Pai. O bicampeão europeu homenageado pelo filho com a melhor forma que um filho pode homenagear o Pai: repetindo-lhe os feitos. 20 anos depois, o Benfica estava outra vez numa final da Taça dos Clubes Campeões Europeus.



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Otília, a Rainha das bifanas



Na noite anterior ao dia que será o dia de jogo, Otília deitada na cama faz contas de somar. Febras, entremeadas, hambúrgueres, salsichas, chouriças, pão normal, papo-seco, pão de cachorro, ketchup, mostarda, barris de cerveja, garrafas de vinho, uma de moscatel, outra de uísque barato, azeite, óleo (muito), sal, pimenta, especiarias (as que der para comprar), guardanapos, batatas de pacote, batatas-palha, cenouras, pickles, lavar copos, comprar pratos de plástico, confirmar se a televisão está boa, ligar para os senhores da MEO, ir às botijas de gás, limpar a rulote, escrever na lousa e no papel as promoções («à entermiada, hamburgue, hot-dog, chourisso e febra»), lembrar o Manel de encher os pneus da viatura, dizer-lhe com carinho: «põe água no carro», ao filho pedir que leve os aventais pretos, à nora não dizer nada, que é uma cabeça tonta.

Passa a noite nisto: relembra tudo uma vez, depois volta a percorrer a listagem das coisas a fazer, perde-se a meio, começa de novo, «febras, entremeadas, hambúrgueres...». Com os anos de ofício, as coisas a fazer são lembradas com método, raramente mudam de posição, tudo tem a ciência que Otília criou na sua cabeça e no seu agir. Começa pelas carnes, a meio põe a necessária padaria, depois vêm os molhos, logo a seguir os bebes, as gorduras, os condimentos, acompanhamentos, a higiene, os utensílios, a necessária burocracia, as limpezas, os escritos e, por fim, os avisos à navegação da tripulação da rulote para que se não percam num detalhe, morram num pormenor, destruam a noite de negócio por um esquecimento sem sentido.

Otília tem dos dias a ideia de um trilho de comboio - pouco interessa o chegar, mais vale acautelar o ir. Limar os parafusos, arranjar as estacas de madeira, limpar as plantas que nascem no meio, fazer brilhar o metal. O comboio - esse comboio que anda em movimento há exactamente 64 anos - deve passar sem um sobressalto, galgar em direcção ao lugar para onde vai sem nenhum contratempo, dentro do tempo previsto, indo indo indo, só vapor, velocidade e horas marcadas no relógio grande dos ponteiros pretos das estações. Chega-se ao destino não por acaso divino mas pelas mãos de homens que acautelam o seu chegar. Os silvos da noite, os raios do dia, o fumo, a humidade, as temperaturas, os frios e os calores, a força do tempo - tudo mecânicos elementos que conspiram contra a desenvoltura do comboio em movimento. Basta que uma roldana, uma porca, uma lasca, um esquecimento aconteçam e toda a engrenagem afunda num tropeço de forma, abrandando o passo ao comboio, sulcando-lhe as vontades, quebrando-lhe o eixo, desencarrilhando-lhe as promessas.

Houve um dia, já longínquo na memória, dia de sol glorioso de um princípio de tarde junto ao Estádio da Luz (o verdadeiro; Otília ainda hoje diz do Estádio antigo esta palavra honesta e genuína: o "verdadeiro"), em que, por maus preparos e ineficazes antecipações, Otília ficara sem pão nem cerveja em frente a uma horda de benfiquistas sedentos, esfomeados, desvairados, alucinados, dementes. Culpa, claro, uma e outra e mais outra vez, da nora que, tendo ido de manhã tratar das unhas dos pés, se esqueceu acidentalmente (Otília reforça sempre, quase 30 anos passados, o a-c-i-d-e-n-t-a-l-m-e-n-t-e com uma projecção que fere fundo em quem a ouve) de passar pela panificadora e pela Central de Cervejas. Como se fosse possível alguém acordar um dia e desmemoriar o cérebro para função tão fundamental, como se um ser humano - na palete existencial entre o profundamente bronco e o brilhantemente genial - pudesse esquecer-se de tais ofícios e deveres.

As gentes aos urros, vociferando impróprios impropérios futebolísticos sobre Otília, queixando-se, esfomeados, da pouca-vergonha que era aquela barraca de madeira sem pão para o conduto nem líquido para a goela. «Nunca mais cá volto, ah é certinho», ouviu Otília a mais de 342 benfiquistas em fúria, chorando por dentro a perda da reputação tão a pulso conquistada a amor, carinho, saborosíssimas gorduras feitas de ancestrais segredos que sobreviveram na família Casimiro séculos e séculos e séculos até desaguarem nos seus truques mágicos de mulher veloz a tratar os comeres. Disso nunca Otília se esquecera na vida e disso fazia questão de recordar pelo menos uma noite em férias - não para estragar o convívio estival, mas para alertar os parceiros de ofício e de vida para as profundezas mórbidas do desconcertante desleixo dos elementos. A nora Fátima tudo isto ouvia e calava - engolia em seco, olhava o horizonte, agarrava-se vezes sem conta ao copo de fresco verde e deglutia, sem botar faladura, uva, água e humilhação. O filho, cansado de ouvir os gritos da esposa (que Fátima no recato do lar ganhava novas coragens), desvirtuava o discurso da mãe, parodiando: «ao menos isto agora dá para rir», o que enfurecia ainda mais Otília e a fazia dar pontapés debaixo da mesa ao marido - que não estava minimamente interessado na conversa, perdido de uísque, lagosta e visões de mulheres lindas passeando cães no calçadão.

Otília era Benfica pela parte do Pai; benfiquista por influência da mãe. Em nova (há quanto tempo), comovia-se com José Águas: uma paixão que lhe durou a vida inteira e ainda não esqueceu - atrás das garrafas, junto ao bibelot de uma menina triste que tem na prateleira de cima, mora ainda o elegante benfiquista levantando uma orelhuda Taça dos Campeões. Por decoro e respeito ao esposo, fixou-a ali para que só ela o veja. Quando alguém pede um Martini (é tão raro pedirem Martinis nas rulotes), ela esquece-se das febras, segurando o antebraço do Manel: «deixa, eu sirvo; está um calor insuportável nas carnes».

Sente saudades do Benfica, Otília. Saudades de ser feliz, indo ao estádio. Comove-se muito com a alegria das pessoas antes dos jogos; entristece-se com a tristeza das pessoas depois dos jogos. No meio, enquanto as pessoas se alegram ou entristecem a ver o Benfica, ela fica sentada num banquinho de madeira a ouvir o relato. Cansada, de olhos cheios de fumo e bochechas encarnadas de calor, fecha os olhos e encosta a cabeça contra a porta da rulote. Imagina que está dentro do estádio, ouve as jogadas e vê tudo por dentro dos olhos. Quando é golo, festeja com o marido, o cunhado, a nora e os filhos. Imitam o som das bancadas: «Glorioso SLB, glorioso SLB», lá do alto de onde vêem só luzes e um fumo que sai do relvado, sobe as bancadas, torneia os tectos e se esvai em direcção ao céu. Todos aos saltos na rua, correm até ao viaduto, batem em carros, apitam buzinas, abraçam-se uns nos outros todos engalfinhados. Depois, quando o golo perde o prazo de validade dos afectos, voltam silenciosos para perto da rulote e baixam o volume do som para favorecer outro golo - se ouvirmos baixinho o relato, potenciamos novo milagre.

Dependendo do resultado final, Otília assim também depende de si própria. Se o Benfica ganha, está tão feliz que se torna mecânica no ofício - ninguém quer saber da qualidade da febra se ganhou. Se o Benfica perde, fica tão triste que faz questão de preparar as melhores iguarias para os olhares e gestos e palavras desiludidas dos clientes que estão quase quase a chegar - pior do que a derrota, só mesmo a injustiça de lhe juntar uma ceia tão mal servida.

Otília finge sempre que não nos observa. Se olharmos para ela, os seus olhos estão na grelha; se não olharmos, ela olha-nos com amor e ternura. A dor nossa é a dor dela. A sua infelicidade é a mesma que sentimos. É por isso que Otília faz brilhar os olhos sempre que, perdidos ou ganhados, lhe dizemos com o coração na boca: «Estas são as melhores bifanas do mundo».

domingo, 5 de novembro de 2017

Os Caminhos do 4-3-3

Em Março de 2013 Jorge Jesus dizia:

"Não é necessariamente um modelo para as equipas pequenas mas, para mim, é o mais fácil de anular."

Realmente se olharmos para a táctica no papel é com esta ideia que ficamos.

Quatro defesas como normalmente as equipas se apresentam.
Três homens no meio campo a assegurar o equilibrio e a posse de bola mas longe dos sectores ofensivos.
Dois extremos sem apoios. Isolados junto às linhas.
Um avançado preso no meio dos centrais numa luta titânica de um contra o mundo.

No papel, na base da construção do 4-3-3, é isto que vemos. Esta táctica transmite-nos um equilibrio defensivo com um meio-campo controlador mas com uma quase total inoperância ofensiva.

Basta fechar o avançado e encostar nos extremos e o adversário não ataca.

O 4-3-3 fica então anulado, incapaz de criar e de projectar jogadas ofensivas.

No papel o actual treinador do Sporting tem razão. O 4-3-3 é o sistema mais básico, é a táctica que menos exige a quem o defronta e mais exige a quem o utiliza.

É esta a grande magia do 4-3-3 - A exigência que impõe a quem actua nele.

Um 4-3-3 defensivo, com três motas no ataque, pode ser utilizado sempre naqueles duelos de Pequenos vs Grandes.

O 4-3-3 ofensivo só pode ser utilizado por Grandes que tenham uma mente brilhante no comando (Pep Guardiola por exemplo).

Este sistema só por si oferece estabilidade defensiva, equilibrio no meio-campo e posse de bola. Um treinador que seja também um maestro irá oferecer-lhe um caracter ofensivo não advinhável.

Batuta na mão, indicar os intérpretes e começa a música.

A linha de 4 defesas perde três elementos.

Um lateral é extremo. O outro é médio.

Um defesa dá dois passes em frente. O outro visita o trinco.

O trinco é construtor.

Os médios são vagabundos. Pac-Men das linhas de passe. Comem todas.

Os extremos perderam a linha. Um troca os olhos aos centrais. Outro junta-se aos médios, abrindo espaço ao lateral.

O avançado? Outro Pac-Man. Come todos os espaços.

Um carrossel de emoções. O 4-3-3 rapidamente se transforma num 1-7-2. A bola avança e aparece o 1-3-6.

Os médios que construíam andam agora pelas zonas de finalização.

Que defesa a 4 consegue lidar com 6 avançados? Que dupla de centrais não perde o norte quando a sua referência de marcação desaparece e lhe surgem dois criativos pela frente?

E o lateral o que deve fazer? Agarra o extremo que fugiu para dentro? Corre atrás do lateral adversário que aparece que nem uma flecha? Fecha no avançado que ali apareceu na procura da tabela?

Mas agora perdeu-se a bola. Como defender com só um defesa?

Pressionando alto. Dos 6 avançados 3 atiram-se aos defesas. Os outros 3 cobrem-lhes as costas, juntando-se aos 3 que estavam na linha média do campo. E já estamos num 1-6-3.
O adversário sobe, quatro médios vão à pressão, outro recua para junto do central e o outro cobre o espaço. Estamos num 2-7-1, com os extremos a recuperarem a zona de pressão do segundo terço do terreno.

A bola não vai chegar controlada ao nosso terço defensivo. Pelo menos não pelo adversário. Mas chegando estão lá 2. Aliás, já estão 4. Ou 5. Ou 6.

É que o Futebol, pelo menos aquele que mais me encanta, é um jogo de apoios, é um desporto colectivo onde todos jogam unidos em cada zona do campo.

E esta é a maravilha do 4-3-3. De um equilibrio parte-se para um desiquilibrio trabalhado.

É a táctica que mais exige dinamicas, mais exige inteligência, mais exige criatividade e mais exige trabalho. É portanto uma táctica talhada para os melhores.

Sempre quis um 4-3-3 no nosso Benfica. O Jorge Jesus é um treinador de dinâmicas mas avesso à posse de bola e ao controlo do jogo. Gosta de uma equipa de ataques rápidos. Pelos menos assim o era no Benfica. Deixava a criatividade para os atacantes e por isso jogava logo com 4.

Sabia que para vencer em Portugal não tinha de controlar mas sim de esmagar. E o caminho mais fácil para tal era largar 4 atacantes criativos nas defesas adversárias. Daí o seu muitissimo trabalhado 4-2-4.

Já o Rui Vitória é um fã do 4-3-3 - sistema de jogo que tentou implementar no Benfica assim que cá chegou.
Faltou talento e faltaram ideias. O 4-3-3 que trazia era um 4-3-3 de contra-ataque e não o soube transitar para um clube dominador.

Rapidamente cedeu aos processos que já eram naturais a esta equipa. Os maus resultados assim o exigiram.

Mas o 4-2-4 não é o seu habitat. Tem vindo a procurar variações que o deixem mais confortável, que deixem a equipa mas próxima de um sistema de 3 médios. Seja jogando com um médio interior direito ou jogando com um segundo avançado em zonas de construção.

Olhemos para o papel.

Fejsa com Renato; Pizzi mais encostado à direita mas procurando espaços interiores; Jonas a cair para a direita; Nico na esquerda; Mitro no centro do ataque. 4-3-3.

Fejsa com Pizzi; Salvio na direita; Cervi na esquerda; Jonas a vir buscar jogo ao centro do terreno; Mitro no centro do ataque. 4-3-3.

São algumas variações do 4-3-3. São variações que criam maiores equilibrios e apoios no 4-2-4 de Jorge Jesus, perdendo-se aquela vertigem que era sua marca.

O actual treinador do Benfica continua na sua senda por criar uma equipa à sua imagem. Quer recuperar o seu 4-3-3. Nada contra Mister. Só não gosto do caminho que tem seguido.

Esta época já vimos Rui Vitória lançar um 4-3-3 puro. Contudo é sempre num contexto defensivo. Quer os 3 médios não para os apoios ofensivos mas para tapar os buracos defensivos. Por isso apresenta sempre o um triângulo não invertido, com dois médios trabalhadores na base.

E esta é uma base da qual parece já não abdicar.

O vértice mais ofensivo tem sido oferecido ao Jonas, pelo menos enquanto não puder abdicar de um sistema com dois avançados.

Neste caminho temos perdido os nossos dois construtores de jogo. Pizzi e Jonas. A inteligência, a criatividade, a mobilidade. A cola da equipa. O mister começa a não saber o que fazer com eles.

E não são os únicos. Olhemos ao Zivkovic, extremo a quem "falta rasgo".

No entender de Rui Vitória o 4-3-3 é um sistema de contra ataque. 3 médios para fechar, dois extremos para rasgar, um avançado para finalizar.

Mas num clube grande, numa equipa que tem de partir uma linha defensiva de 10 jogadores, tal sistema não funciona.

Esta época os problemas defensivos eram óbvios. O treinador do Benfica respondeu reforçando defensivamente o meio-campo. Assim surgiram agora os problemas criativos.

É que ainda por cima "O Jonas não pode jogar em 4-3-3 pois não consegue actuar sozinho na frente". Esquecendo-nos nós que neste sistema, pelo menos quando montado para dominar dinamicamente, nunca um avançado actua sozinho no centro do ataque.

O Rui quer um 4-3-3. Terá dedos para este piano?

Os caminhos do 4-3-3 são infinitos. Receio que o nosso treinador esteja a optar pelo caminho da perda dos criativos.

E a magia do 4-3-3 está na criatividade.



sábado, 4 de novembro de 2017

Aqueles Jogos na Nossa Quintinha

Trimmmmm

Hora de almoço. Mas mais que isso. Hora de calçar as chuteiras. Hora de alguém ir a correr marcar as balizas.

"Leva a minha camisola."
"A minha também!"

Sopa. Prato. Fruta.

Sair do refeitório e desatar a correr. Uns por aqui. Outros por ali. Cada um pelos seus atalhos. Todos com o mesmo destino - o pó da bola a rolar no pelado da nossa Quinta.

Temos balizas. Falta a bola. Quem tem bola? Temos adversários.

Chuteiras, pó, calções, pedrinhas, t-shirt, suor e sol.

"Quem vai à baliza?"
"Últimos!"
"Penúltimos!"
"Bora começar! Já perdemos 10 minutos!"

E rola a bola. Todos nós, todos crianças, todos na mesma correria, dezenas de pernas no mesmo movimente desenfreado por todo aquele pelado.

Há bolas por todo o lado. Umas invadem campos alheios. Outra foi para o galinheiro. Outra subiu a rede e caiu na mata.

Aparecem os fintinhas. Aparecem os primeiros esfolamentos. Aparecem os petardos de força. E lá vêm as mãos agarrar de dor locais onde a bola nunca deveria encostar.

Surgem as primeiras discórdias.

"Saiu!"
"Não saiu!"
"É nossa!"
"Não, é nossa!"
"A bola é minha eu é que mando."

O vento bate na cara. A bola está dominada. Em velocidade ele passa por um, tabela com o amigo, passa pelo terceiro, vai rematar, vai ser golo... e o lance é varrido.

Bola lá para o fundo. Pedras no joelho. Mãos esfoladas.

"Falta!!! É falta."
"Foi limpo! Foi na bola. Não sejas maricas, joga à bola!"

Começa a confusão. Todos correm uns para os outros.

Mas rapidamente lá aparece o do costume. Agarra a bola, chuta para o adversário. Sabe que a bola era da sua equipa mas não quer perder tempo. Ele só quer é jogar.

"Não há nada. Segue o jogo. Vamos jogar."

Está confiante que não precisa daquele falta para ganhar. A seguir corre mais para compensar a sua equipa.

É um jogo entre amigos e colegas. É um jogo entre miúdos que só se querem divertir antes de voltarem às lições sobre os Rios Europeus e as Datas dos Descobrimentos.

O importante ali é jogar, correr, passar, rematar e marcar.

A simplicidade juvenil de um Futebol onde tudo o que importa é ver a bola rolar.

Mas a infância esmorece na idade adulta. Duas equipas já não podem decidir sobre uma falta, de quem é o lançamento e nem se a bola entrou. E imaginem quando se mete o fora-de-jogo ao barulho...

É necessária ajuda. Quem decida por nós. Uma pessoa. Um árbitro. Acertada ou errada, é necessária uma decisão que permita que o jogo continue.

O Futebol é um jogo onde duas equipas disputam a bola e a tentam colocar na baliza adversária.

Duas equipas. Duas balizas. Uma bola. Golo.

O árbitro vem ajudar o jogo a fluir. O árbitro vem tomar as decisões que adversários não conseguem tomar. E a equipa de arbitragem vem ajudar o árbitro a decidir bem.

A nossa infância está tão distante que já nos esquecemos de como aqui viemos parar.

Atacamos quem nos vem ajudar. Sem razão. Com razão. Sem piedade. À bruta. Sem escrúpulos. E só porque sim. 

Para quê dificultar ainda mais o que foi criado para nos permitir jogar?

Naquele pelado o jogo parava por não haver decisão. No relvado agora pára para se contestar cada decisão.

Em tempos idos, o professor de ginástica era uma benção.  Era o professor e o que ele dizia era ordem. Ponto. E o jogo seguia.
Até sempre Stôr Dario. Bem haja Stôr João Pedro.

Mas agora nos estádios exigimos o mais bem preparado de todos. Exigimos que não erre. Nunca. Pelo menos não contra nós. Exigimos que siga a nossa decisão.

Na quinta o miúdo dava a bola ao adversário só para poder jogar mais um pouco.
Hoje o dirigente pede processos, exige jarras, aponta corrupção, contrata pessoas para questionar o árbitro e pede faltas de comparência.

O miudo defendia o jogo. O crescido ataca-o.

Esquecemos as raízes. As origens do jogo. O valor desta paixão. A necessidade que esta acarreta. 
Com ou sem razão, criticamos cada decisão.

Nunca serei contra as contestações, as análises dos lances nem à exigência de desempenhos arbitrais cada vez melhores.
Só não posso aceitar que tão facilmente percamos noção do motivo de existir um árbitro. Não consigo assumir por regra que a equipa de arbitragem existe para prejudicar. Não entendo que percamos o discernimento de perceber que uma decisão errada não passa somente disso e que o erro apenas nasce da necessidade de o jogo continuar. 

Vivemos num Futebol onde o árbitro é o vilão. Não percebemos o seu papel. Não entendemos as suas dificuldades. Não reconhecemos o seu contributo. É mais uma equipa que joga contra nós. É um individuo ali colocado para nos prejudicar. Há sempre uma intenção malévola no seu apito.

O importante já não é a bola rolar. 

É o Futebol negócio cada vez mais indiferente à paixão do jogo.

É um jogo já tão distante daquele que disputámos naquele campo.

É a saudade dos tempos jogados lá naquela velha Quinta.

São as memórias que não me falham.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Svilar e o golo

Só não se pode dizer que o jovem Belga teve uma belíssima estreia na Luz, porque cometeu um erro natural, apesar de fatal, tendo em conta a sua inexperiência, mas que deriva da sua enorme mais-valia, que é o posicionamento e capacidade de antecipação.

De facto, no lance do golo, como noutros, o posicionamento agressivo de Svilar é o mais recomendável e o mais correcto, o erro surge na decisão, quando o jovem decide agarrar uma bola enquanto recua perigosamente para a linha de golo, em vez de a socar, por exemplo, por cima da barra.

Este erro poderia ter sido evitado, tanto mais que anteriormente Rashford, em lances de pontapé-de-canto, já tinha tentado aquele tipo de abordagem e, estou certo, com mais tempo de jogo será facilmente corrigido por Svilar.

O errado é que se diga, ou que lhe digam, que o problema está/esteve no posicionamento demasiado alto. Não! Será assim que evitará, tal como Ederson (numa comparação mais recente), muitos e muitos lances de apuro para a sua baliza.

P.S. Quanto ao jogo, o Benfica jogou contra o Man. Utd. como o Vitória jogaria contra o Benfica, o problema é que o Benfica não é o Vitória! Zero ideias, zero futebol colectivo e tudo, mais uma vez e sempre, entregue ao individual, caminhando assim para a eliminação da Liga dos Campeões.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Voz ao Sabor do Vento

Já passou um ano desde a grande entrevista que o actual presidente do Benfica deu na TVI.

Não sei se está para vir aí outra ou se, como a época começou como começou, a coisa ficou adiada para uma altura mais calma.

Já sei que, segundo o próprio, Luís Filipe Vieira não se esconde! Não se esconde nem recolhe os louros.

A entrevista do “Não dou pontapés na bola” e do “Não posso ser responsabilizado pelos resultados desportivos” após a época do Jorge Jesus em que perdemos tudo no final, não aconteceu.

A entrevista/culto ao presidente ainda nos festejos do tricampeonato também não aconteceu.

A entrevista/homenagem no inicio da época do tetra também não aconteceu.

Ainda na AG o Vieira atirou aos sócios que nem sequer deu entrevista nenhuma após sermos tetracampeões. É verdade sim senhor. Esqueceu-se foi de dizer que a entrevista foi marcada e consecutivamente adiada porque surgiu o “escândalo dos mails”.

Inocente estava eu à espera de uma entrevista em Setembro. Não vencemos jogos suficientes para isso.

Seja como for, e voltando ao que me trouxe aqui, vim só deixar um lembrete a todos os meus companheiros de Benfica, a todos os sócios e adeptos do clube.

Se Vieira falar não liguem muito. Não se iludam. Não percam tempo a acreditar e a discutir o assunto.

No Benfica temos um presidente demagogo que diz aquilo que acha que o povo quer ouvir.

Em Setembro de 2016 dissertou sobre como o Seixal era o presente da equipa principal.
Vieira falou que o Benfica tinha no Seixal os reforços para todas as posições – só mesmo na posição de ponta de lança é que havia algumas lacunas.

Vieira afirmou que o Benfica só iria ao mercado em raras excepções.

Um ano depois temos:

Pedro Pereira

Hermes
Filipe Augusto
Simón Ramírez
Daniel dos Anjos
Keaton Parks
Alan Jr.
Lytvyn
Matheus Leal
Thabo Cele
Fali Candé
Alex Pinto
Igor Rodrigues
Willock
Arango
Salvador Agra
Douglas
Patrick
Seferovic
Matos Milos
Chrien
Svilar
Gabriel Barbosa
Krovinovic

Contando com a recompra do passe do Varela e do Rebocho, estamos a falar de 25 jogadores.

Um plantel inteiro no espaço de um ano.

Atenção. Com isto não estou a discutir a qualidade dos reforços nem a necessidade deles. Com isto não estou a discutir a qualidade dos negócios nem a necessidade de contratações.

Com isto só estou a relembrar que temos um presidente que constantemente nos tenta fazer de idiotas, de fantoches que só servem para votar e pagar.

Só estou a relembrar que quando ele falar não vale a pena dar importância e muito menos acreditar.

Quando quisermos brincar com areia… Há castelos à espera de serem construídos por essas praias fora.




sábado, 30 de setembro de 2017

Dez ideias sobre a Assembleia Geral de 29 de Setembro de 2017

Assembleia Geral do Benfica no final dos anos 90

1. Cerca de 2000 adeptos disseram "presente" naquela foi a mais concorrida Assembleia Geral (AG) do clube nos últimos largos anos. Ainda que parte da "movida" se deva aos recentes maus resultados da equipa de futebol, não deixa de ser um sinal de importante vitalidade de um clube que é tetracampeão  e no qual os adeptos não parecem acomodados. Surpreendente sinal de militância.

2. Sobre o Relatório e Contas em si não serei seguramente o mais indicado para o apreciar. São páginas e páginas de números, siglas e gráficos que não domino e cujo entendimento penso só estar ao alcance de quem estuda ou estudou nas áreas de Economia, Gestão ou Finanças. Ainda assim, partilho da preocupação de um consócio que sublinhou o facto de o passivo ter descida apenas 11 milhões de euros em 4 anos, precisamente os anos de maior sucesso desportivo e de maiores vendas. Quando o sucesso desportivo terminar e as vendas escassearem, que rumo tomaremos?

3. O voto electrónico acelera significativamente um processo que já estava para lá de obsoleto com os velhinhos membros da Mesa da Assembleia Geral a contarem os votos por papelinhos no ar a 50 metros de distância. Porém, numa AG onde o som e o sentimento de descontentamento eram tão grandes, ficou no ar a sensação de que o Relatório e Contas foi aprovado com estranha facilidade. Mais: foram publicamente divulgadas as percentagens de voto (Sim - 61.38%, Não - 29,25%, abstenção - 9,37%) e na própria AG o número de votos em cada uma das opções, mas não foi divulgado o número de sócios que votaram em cada uma delas. Talvez houvesse aqui uma surpresa desagradável e que deveria fazer repensar o sistema que chega a atribuir 50 votos a um sócio.

4. Luís Nazaré e Virgílio Duque Vieira, respectivamente presidente e vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral (MAG) do Sport Lisboa e Benfica, têm de se demitir. O primeiro por, em exercício de funções, faltar à Assembleia Geral do clube para estar no jantar de encerramento da campanha autárquica do Partido Socialista em Lisboa, onde acumula o cargo de presidente da MAG da Junta de Freguesia de Alvalade. Se estar no jantar de campanha é mais importante que estar no exercício das funções para as quais foi eleito, não deve continuar a acumular um cargo que não está disposto a desempenhar. O segundo por, numa altura em que o ambiente já se encontrava mais "quente" fruto de intervenções críticas mas construtivas para com a Direcção, ter a brilhante ideia de ter acendido o rastilho de pólvora numa atitude de prepotência que em nada dignifica os valores do Sport Lisboa e Benfica.

5. A qualidade das intervenções. Surpreendeu-me. Muitos e bons sócios intervieram com discursos críticos mas estruturados e construtivos sobre o momento desportivo em campo, sobre a estratégia comunicacional do Benfica e sobre o reconhecimento que tanto jogadores como Direcção têm para com os adeptos, sobretudo os que percorrem quilómetros atrás de quilómetros para ver a equipa seja no Bessa ou em Basileia.

6. As presenças, mas também as ausências, são sempre notadas. De realçar que depois de todo o alarido gerado, Rui Gomes da Silva faltou a um momento importante da vida do clube. Também Rui Rangel, antigo candidato a presidente do Benfica. Gostava de ter visto Gaspar Ramos. E Nuno Gomes. E que Rui Costa saísse da zona de conforto que é a sombra da parede do pavilhão. Mas também gostava de ter visto outras caras. Como Pedro Guerra, que preferiu esconder-se em vez de ser submetido ao escrutínio dos sócios. Ou Manuel Damásio, que anda de braço dado com o actual presidente. Há companhias com as quais nos damos mas que por vezes é melhor nem apresentar à família, não é?

7. A postura de Luís Filipe Vieira numa AG não é condigna com a de um presidente do Benfica. Não pode estar sistematicamente agarrado ao telemóvel a enviar mensagens nem pode estar reclinado na cadeira numa pose digna de um aluno desafiante numa sala de aula ou de um indivíduo num jantar com amigos num tasco. Mais ainda, a conversa do "pé descalço" e do "sacrifício pessoal e familiar" é para inglês ver. Quem era Vieira antes de chegar ao Benfica? Algum dia atingiria a projecção mediática e o estatuto social e financeiro sem ser através do cargo que ocupa no Benfica? Algum dia, sem ser através do Benfica, conseguiria chegar à lista dos 100 portugueses mais ricos? Não admito esta estratégia de vitimização pessoal da parte de alguém que já retirou, para a sua vida pessoal, muitos e bons dividendos à custa do cargo que ocupa.

8. As respostas dadas pelo presidente surpreenderam-me em parte. Não esperava tamanha abertura e sinceridade, dentro daquilo que consegue, na abordagem a alguns dos temas (que foram leakados para a comunicação social e que são agora do domínio público). No entanto, continuam a faltar respostas a muitas questões pertinentemente levantadas nesta e noutras AGs: que trapalhada é esta na história dos emails, existem ou não, constituem forma de coacção e são enviados por iniciativa ou a mando de quem; a que propósito o novo director da comunicação do clube, Luís Bernardo, foi contratado, tendo sido ele responsável pela sabuja campanha de perseguição a Renato Sanches quando liderava a comunicação do Sporting; como é possível Domingos Soares Oliveira ter direito a 50 votos, correspondentes a mais de 25 anos de filiação, sendo sportinguista assumido e estar há pouco mais de 10 anos no clube; Pedro Guerra continua ou não director de conteúdos da BTV; que sociedades são a Identiperímetro e a Red Up Sports.

9. "Deixem-me dizer uma coisa para um sócio que disse para eu pedir a demissão. Eu vou estar cá muitos e muitos anos.". E este é outro problema. Luís Filipe Vieira não "é" presidente do Benfica. Luís Filipe Vieira "está" presidente do Benfica. E a menos que promova um golpe estatutário no qual inviabilize a realização de eleições, terá de se submeter sempre ao escrutínio dos sócios para continuar a "estar" presidente do Benfica. Mas o actual presidente não deve nada à matreirice e como sabemos já se blindou com novos estatutos que inviabilizam muitos putativos candidatos. Este é só mais um dos motivos essenciais a uma revisão estatutária que, mais que partir da vontade e iniciativa dos sócios, deveria partir da Direcção a bem da transparência e da democracia participada no Benfica.

10. As Assembleias Gerais são para os sócios e o conteúdo das mesmas, não devendo ser alvo de secretismo, qual reunião maçónica, deve dentro de certos limites permanecer dentro daquelas quatro paredes onde foi discutido. Por outro lado, espero que, nos próximos dias, aquilo que virem escrito ou as imagens capturadas sirvam de estímulo para continuarem ou iniciarem as vossas participações vida activa do clube. Haja mais Assembleias Gerais assim. Devem continuar a ser vividas, como a de ontem, com adesão em massa.

Assembleia-Geral Ordinária 2017 – Culto de Benfica

Muitos sabemos, todos devíamos saber, que ontem se realizou mais uma Assembleia Geral do nosso clube.

Aconteceu num contexto agridoce:

Por um lado o Benfica é Tetracampeão, teve um lucro histórico no exercício em análise e reduziu o seu passivo.

Por outro lado, o Benfica está em 3º a cinco pontos da liderança, perdeu os dois jogos da Champions (tendo o último sido naquela fatídica noite de Basileia), não investiu no plantel e, apesar das vendas milionárias, o passivo reduziu pouco mais do que os 10% prometidos.

A AG só podia ter sido bem quente e é no calor do Benfica que estas têm sempre de ocorrer.

Irei dividir a minha intervenção em 3 pontos.

Benfiquismo na plateia:

Já tinha ouvido falar mas nunca tinha vivido nada como ontem.

Gostava que estivesse dado o mote para que todas tivessem a afluência de Benfica como esta teve.
Fila tremenda, pavilhão a abarrotar e finalmente uma participação dos sócios digna do nosso clube.


Não sou ingénuo. Sei que a grande maioria apareceu movida pela revolta da derrota em Basileia. Tivesse o jogo sido na próxima semana e provavelmente nem metade lá estaríamos.


Só posso esperar que quem regressou, quem se estreou e quem ouviu falar, tenha ganho o gosto e marque presença no pós-pentacampeonato.


A participação dos sócios foi maravilhosa. O Benfiquismo mostrou-se vivo, bem vivo. A chama continua a arder. E quem nos lidera percebeu que este sentimento não é abafado com o Tetra.

Vitórias alimentam a necessidade de mais vitórias. Não a saciam. Viciam.

Num momento de maior tensão houve uma dezena de adeptos que passaram o limite que nunca pode ser ultrapassado. Outros houve que apesar da revolta souberam acalmar os ânimos. Está tudo na comunicação social e prefiro não me alongar aqui sobre o assunto.

A usual soberba do não-Benfiquismo:

Como já é marca característica nas AGs do clube, como já é uma tradição imutável, de frente para os sócios estavam aqueles que não conseguem controlar a sonolência.
Nem a força do Benfiquismo os fez despertar. O Benfica Clube dá-lhes sono. Ponto.

O presidente do Sport Lisboa e Benfica gosta sempre de utilizar o vernáculo nas suas intervenções. É uma maneira inteligente de se fazer ouvir. Pode parecer contraditório mas os palavrões têm a magia de tornar cada mensagem mais verdadeira.


Pois bem, seguindo o exemplo do presidente cá vai:


Aqueles dirigentes estão-se a foder para os sócios. Não mandam a AG para o caralho porque os estatutos os obrigam a realizá-la. Para eles foi só mais uma merda de uma Sexta-Feira.

É vergonhosa a forma como a mesa do Conselho Fiscal vai dormitando enquanto os sócios intervêm.

É vergonhoso como o presidente da Direcção passa toda a Assembleia a menosprezar as preocupações e paixões dos sócios. Fá-lo deitado na cadeira como se estivesse a ver um episódio de Malucos do Riso – refestelado a rir de algo que não tem piada nenhuma.

Por fim, a postura no vice-presidente da Mesa da AG que ontem dirigiu a mesma.

Este senhor já nos habitou a maus momentos mas ontem bateu no fundo. É o principal responsável pelo momento mais triste da noite.
Com gente séria ali sentada daquele lado, este senhor ou já se teria demitido ou já tinha sido mandado embora.


A intervenção do presidente:

Vieira falou. Esta foi uma daquelas em que ele falou. Há quem diga que com a casa cheia era obrigado, até por uma questão de segurança, a o fazer. Há quem o diga. E provavelmente é verdade.


Esteve bem. O homem é inteligente. Falou de quase tudo e evitou aquilo para o qual não tinha resposta. Interveio não como politico mas sim como um homem do povo (o que também é politica). Fez-se ouvir. Fez-se ver.

No meio de mentiras, demagogias e meias verdades, também soube dizer algumas verdades. Ali ganhou votos. Ali reconquistou alguns apoios.

Não vale a pena estar aqui a indicar contradições, falácias ou exigir mais respostas.

Sobre o que disse destaco a forma veemente como negou, finalmente, qualquer ilegalidade no conteúdo dos famosos mails. Destaco a promessa que fez sobre uma redução drástica do passivo nos próximos 3 meses. Destaco o anúncio que fez sobre a continuidade do Nuno Gomes no Benfica. Destaco a reafirmação que o Jorge Mendes tem 10% de todos os negócios com jogadores. Destaco a critica que deixou ao Luisão e restantes jogadores pela sua atitude no final do jogo no Bessa. Destaco o anúncio de reforços para Janeiro caso não comecemos a jogar mais. Destaco o betão. E destaco o conforto com que ele se sente e senta na cadeira presidencial.


Uma última nota sobre os resultados da votação para aprovação do Relatório e Contas. Imediatamente foi noticiado no site do clube que este foi aprovado por larga maioria.

61% é uma estreita maioria, principalmente no contexto dos resultados financeiros e desportivos da época passada.
Seria interessante terem anunciado não só a percentagem de votos como também a percentagem de sócios. No número de sócios, talvez a larga maioria fosse no sentido oposto.

Concluindo,

Trago desta AG um sentimento de orgulho no Benfiquismo e vergonha no dirigismo. Orgulho dos que são do Benfica e vergonha dos que estão no Benfica.


O apelo que tanto é feito à união é falacioso. União não é todos dizermos que sim, não é todos termos a mesma opinião, todos dizermos o mesmo e todos estarmos de acordo. União é estarmos todos lá, mesmo em discordância.

Por isso farei eu também um apelo à união. Não me atrevo, como os nosso dirigentes e os seus empregados fazem, a pedir união no apoio à equipa. Essa está lá sempre. Esse existe independente de apelos e independe de quem nos dirige.
O meu apelo vai para a união contínua nas AGs do clube. Continuemos a rebentar de Benfiquismo aquele pavilhão.


Temos de fazer destas AGs momentos históricos do clube. Temos de as manter vivas. Temos de tirar consequências da sua realização.


Apareçam, intervenham, exijam respostas, critiquem, elogiem, discutam, gritem, cantem, felicitem. Pensem e discutam o clube. Votem para o relatório e contas mas tragam também novos pontos de discussão e votação.


Olhem os estatutos e façamos Benfica.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Eles Sabem que o Benfica tem de Ganhar.

Eles sabem que o seu prestigio está preso ao sucesso do Benfica.

Eles sabem que as parcerias surgem no rescaldo das conquistas do Benfica.

Eles sabem que o seu poder está dependente das vitórias do Benfica.

Eles sabem que as dezenas de milhões que parcialmente entram são consequência dos bons resultados do Benfica.

Eles sabem que os seus negócios prosperam ao sabor dos golos do Benfica.


Eles sabem que os bolsos se enchem na força dos êxitos do Sport Lisboa e Benfica.

Eles sabem tudo isto. Daí provém o seu quase benfiquismo. Daí vem o seu esforço e dedicação de fazer a roda do nosso potencial rolar.

Rolar o suficiente, o mínimo necessário, para alcançarem os seus benefícios.

Eles sabem.

Sabem mas foram toldados pela arrogância.

Pela ignorância.

Pela soberba.

A porra da bazófia passeia-se pelo nosso Seixal.

Pela incompetência que desconheciam. Há coisas que nunca olharam e o sabor das vitórias engana todos.

Não gostam da relva. Não percebem as bancadas. Não lhes interessa a bola.

O que importa é que pingue. E como tem pingado…

Eles sabem.

Eles sabem mas são cegos. Não viram. Achavam-se intocáveis. Não perceberam. Não se preocuparam.


“Somos os maiores!”

O clube é. Eles não.


Eles só se sabem aperaltar. 



domingo, 24 de setembro de 2017

No meio dos bons tornamo-nos melhores


Um colectivo é mais que a soma de todas as partes. Se assim não fosse, quem apresentasse os melhores valores individuais ganharia sempre. E mais que o talento, o engenho ou a capacidade dos atletas, há uma virtude muitas vezes esquecida no futebol (e na vida): melhor que ser bom jogador ou jogar bem, é conseguir tornar os que estão à nossa volta melhores. Assim se explica que jogadores como Cervi tenham um rendimento consistentemente superior quando têm a sua lado intérpretes como Grimaldo e não outro qualquer. Ou que a equipa esteja sempre um patamar acima quando tem Fejsa em campo. Mais que números e esquemas tácticos, jogadores como Grimaldo e Fejsa permitem dinâmicas. E a sua maior virtude, nomeadamente do sérvio, é permitir que todos à sua volta parecem e sejam melhores quando têm o papa-títulos dos balcãs em campo.

sábado, 23 de setembro de 2017

Sport Fejsa e Benfica



O jogo de hoje trouxe-nos de volta os melhores momentos de futebol que este Benfica pode oferecer. Ataque, criatividade e imponência como só os melhores podem dar. A diferença deste para os 5 jogos anteriores é colossal. Não fosse o manto sagrado e poderíamos jurar tratar-se de duas equipas completamente distintas. A este oceano de diferença qualitativa dou um nome: Fejsa!

De facto, é incrível o que a introdução de só um jogador, no meio de 11, pode mudar. Com o Sérvio em campo, já o sabíamos, conseguimos recuperar uma quantidade infindável de bolas, não dando a mínima hipótese ao adversário de chegar perto sequer da nossa última linha – que continua com debilidades. 

Na verdade, Fejsa traz esta capacidade de recuperação ao nível dos melhores do planeta, mas a introdução do Sérvio não aporta apenas benefícios defensivos, pelo contrário. Fejsa garante também mais linhas de passe simples e seguras aos centrais, bem como liberta o espaço atrás da primeira pressão adversária ao minucioso critério de Pizzi.

Com centrais tecnicamente limitados – e emocionalmente desconfiados – na hora de construir, ter um porto de abrigo (mais uma linha de passe) tão próximo é decisivo para que não surjam perdas de bola, seja por erros no passe, seja por se despejar bolas na frente sem critério.

A juntar a isto, o simples baixar de Fejsa para a linha dos centrais, liberta o espaço atrás da primeira pressão adversária para Pizzi se mover em apoios frontais de forma muito mais ampla a fluida, garantindo aqui sempre mais uma linha de passe bastante fiável ou, pelo menos, a atração de unidades que libertarão espaço nas costas.

Atacar é mesmo isto, atraír e soltar, “simples” assim.

Se recuarmos aos jogos em que Fejsa não marcou presença, víamos demasiadas vezes Augusto e Pizzi colocados na mesma linha de passe, anulando-se um ao outro por natureza e, pior, permitindo muitas vezes que a primeira pressão adversária anulasse, ao mesmo tempo, a construção dos centrais e da primeira linha do meio-campo, não libertando assim qualquer espaço entre a linha intermédia e defensiva adversária.

Sport Fejsa e Benfica, é assim chamado o processo colectivo do Benfica.

P.S. Nota para Zivkovic. Como salta à vista, o que falta a este pequeno genial é competição e continuidade, porque o resto… o resto tem ele!