sexta-feira, 6 de março de 2020

Bruno Lage - Culpado ou Vitima

Foi notório o crescimento da crítica a Bruno Lage neste espaço. Bruno Lage é culpado dos seus erros. E não temos qualquer pudor em os apontar até porque poucos estarão mais desiludidos do que nós.

Outros pintam Bruno Lage como vítima - vítima de outros que estão hierarquicamente acima.

É verdade que o grande culpado será Luís Filipe Vieira e que Bruno Lage é também vítima da gestão do presidente dos bigodes.
Mas haverá só um culpado? Não podem haver vários e com diferentes níveis de culpa? Não podemos aceitar que alguém que faz algo positivo também pode fazer algo negativo? Uma vítima terá de ser somente vítima?

O que diferencia este espaço é o facto de não nos guiarmos por resultados - ou melhor, não mudamos de opinião consoante vento. Muitos que agora se chegam à frente para criticar Vieira esquecem-se daqueles que sempre o fizeram, sempre viram o presidente dos bigodes por aquilo que ele é. Aqui criticou-se Vieira no ano do Tri, no ano do Tetra e não só no ano do falhado Penta. A crítica à gestão do actual presidente do Sport Lisboa e Benfica nesta época foi feita em ainda em 2019 quando as árvores ainda não se despiam.

Portanto respondendo a muitos. Não, não achamos que Lage é o único e nem sequer o principal culpado em nada do que de pior se passa no nosso clube. Tem as suas culpas mas o principal responsável é o presidente bota bigodes. Agora isso nunca nos impedirá de olhar para o jogo com olhar crítico, nunca nos impedirá de avaliar o trabalho feito pela equipa técnica do Sport Lisboa e Benfica. Nunca nos impedirá de tecer opiniões sobre aquilo que mais nos apaixona a todos - o futebol jogado.

Mas numa fase em que tão justamente temos batido no Bruno Lage, é normal que menos tenhamos batido em outros mais responsáveis que ele. Cada a coisa a seu tempo - como se costuma dizer. 
Assim, antes de arrancarmos para uma sequência de doze vitórias consecutivas quero recuperar a crítica à preparação de toda esta época.

O clube factura como nunca, o clube está numa Liga dos Campeões milionária, o clube apresenta-se como campeão nacional numa Liga onde os seus rivais vivem crises institucionais e financeiras, o clube tem todas as condições para se lançar numa hegemonia nacional e numa afirmação europeia. E como é construído o plantel para estes objectivos?

Falou-se da necessidade de contratar um guarda-redes. Fosse como titular fosse como alternativa. Avançou-se para a contratação de um guardião italiano lesionado. Lá abortaram o negócio. E nada mais fizeram para suprir esta necessidade.

Há anos que o clube necessita de um lateral-direito. É óbvio e sabido. Mais uma vez nada se fez. 
Apesar do bom momento de Ferro e de Dias, sobrava ao plantel Jardel e Conti. Era crucial a contratação de um bom central. Nada. 
E por aí adiante. Na lateral esquerda Grimaldo continuou sem cobertura. No meio-campo não se foi contratar um médio com maior capacidade de desequilibrar com bola - ficando o Taarabt sozinho nesta posição. Para o ataque quase que se ignorou a saída e importância de João Félix. Aquela posição de segundo avançado, de jogador criativo, com golo e capacidade de dar criatividade a todos os espaços do ataque, foi totalmente ignorada. Em vez disso investiu-se em extremos e pontas de lança desnecessários ao plantel.

Portanto não só o real reforço do plantel foi desvalorizado como ainda se permitiu que a época arrancasse com um plantel de 30 jogadores.
E sim, tivemos Bruno Lage publicamente a comentar a necessidade de reforços que nunca chegaram e também a necessidade de trabalhar com um plantel curto - não um plantel médio de 25 jogadores e muito menos um plantel imenso de 30 jogadores.

A gestão desportiva desta época foi mais uma vez desastrosa. O foco desta gente é ter bonitos relatórios e contas, passear pela China, lançar aplicações para os sócios meterem ainda mais dinheiro no clube e preparar OPAs para amigos. O Benfica de bigode é um Benfica de negociatas e não um Benfica de sucesso desportivo. Mas um clube de futebol vive de resultados desportivos. A custo esta gente percebeu isso. Não adianta tornarem o clube numa empresa se depois não ganharem no relvado pois os verdadeiros rendimentos aparecem com o sucesso desportivo e não nos balancetes e diagramas muito bem construídos. Mas percebem tão pouco da exigência do jogo, gostam tão pouco do jogo, que aquilo que acham suficiente para se vencer claramente não o é. Uma política de serviços desportivos mínimos. É este o Bigode que paira por todos no clube.

Fica a ideia que Bruno Lage queria seguir uma determinada construção do plantel mas estrutura aka Vieira e seu bigodes seguiram por outro caminho.

Depois temos a Europa. O discurso de ambição europeia é benéfico ao ego de Vieira. É ali que vende o clube a negócios e patrocínios pelo mundo fora. É ali que ganha o calor dos adeptos. Mas que faz esta pessoa para esse sucesso? Paga a um bruxo na guiné para mexer umas folhas a ver se a coisa com alguma sorte corre bem para o nosso lado? Só se for isso mesmo.

Não existe retenção de talento. Não existe investimento forte na equipa. Existem palavras.

E depois vamos ver a abordagem a estes jogos e a equipa andou a usar... os suplentes vindos da formação. Vamos acreditar que foi Lage que decidiu que a Liga dos Campeões era a nova Taça da Liga? Algum treinador não quer mostrar o seu trabalho na Liga dos Campeões? Algum treinador quer desestabilizar um balneário ao impedir os melhores jogadores de participarem nos maiores jogos? Foi opção de Lage ou foi sugestão em forma de bigode? Os jogos da Liga dos Campões são para ganhar ou para encarar como montra para o Seixal?

E nem se aproveitou o mercado de inverno para se corrigir tudo. Valeu a contratação de Weigl que por melhor que seja duvido muito que tenha sido pedido ou sequer entendido pelo treinador.

O Sport Lisboa e Benfica não tem um verdadeiro projecto desportivo. O próprio Seixal é encarado como um mercado de negócios. É o Benfica empresarial. O Benfica das negociatas. O Benfica das construções. O Benfica de Bigode

Bruno Lage tem as suas responsabilidades na forma como treina, na forma como monta a equipa, na forma como faz substituições e na forma como pede aos seus jogadores para actuarem. Isto é somente responsabilidade de Bruno Lage.
Bruno Lage é também responsável por um dia ao acordar ter olhado ao espelho, ter olhado para a lâmina e de novo para o espelho, e ter decidido que gostava daquele bigode e que o iria deixar farfalhar toda o seu ser.

Bruno Lage falou do que queria para o plantel. Mas exigiu? Lutou por isso? Ou aceitou ser somente mais um de voz praticamente irrelevante? Lutou pelos reforços que queria ou aceitou não ter poder nenhuma na decisão?

Para mim um treinador, principalmente um treinador de um clube grande, deverá ser sempre o principal responsável pelo futebol do clube. Poderá estar envolto numa estrutura, terá de respeitar a política desportiva do clube, mas será sempre ele a utilizar a estrutura e não o contrário. Um treinador de clube grande tem de liderar e tem de se fazer ouvir. Um treinador de clube grande não pode nunca aceitar que lhe sugiram que jogadores usar ou não. Bruno Lage tem responsabilidade de comer e calar e ainda o fazer com um sorriso na cara.

E é aqui que tenho de falar de um antigo treinador do Benfica. Numa altura em que muitos dos meus colegas de escrita clamam pelo regresso de Jorge Jesus - algo que eu sou contra - a verdade é que Jorge Jesus era o líder do futebol no Benfica. Quando a estrutura lhe fragilizava o plantel ele exigia reforços que o satisfizessem. Em anos de títulos foi Jorge Jesus que assegurou que a direcção não lhe sabotava a época desportiva. Nunca comeu e calou, nunca aceitou Bigode. E isto é um treinador. Independentemente das suas competências, de todas as outras suas qualidades e defeitos, nesta vertente o Benfica teve treinador.

Mas lá está, vivemos um Benfica de bigode que só aceita quem adopta esse visual. Rui Vitória aceitou o bigode com todo o gosto. Bruno Lage achou que tinha de o adoptar.

O Bigode de Vieira cresce pela testa, infiltra-se nos poros da pele e envolve toda a massa cinzenta de quem o usa, acabando por finalmente se instalar aconchegadamente na sua espinha dorsal.

É um mal que há muitos anos vai minando o Benfica e o benfiquismo.
Hoje mina Bruna Lage que acedeu a usá-lo.


terça-feira, 3 de março de 2020

Dominó de Substituições à Lage

Há uns dias analisei o jogo com o Shakhtar e nessa análise destaquei alguns posicionamentos e individualidades que me saltaram à vista.
Algo de que não falei foram das substituições. Ponderei falar mas tinha o foco noutras situações, até porque as mexidas de Lage no decorrer de 90 minutos já têm sido motivo de vários debates.

Mas hoje terei de falar disso. É que ontem o Benfica empatou com o Moreirense na Luz e assim perdeu a liderança e o maior destaque do jogo é sem dúvidas as substituições de Bruno Lage.
Já é recorrente. Já perdemos demasiados pontos em jogos em que Bruno Lage parece simplesmente sabotar qualquer tipo de reacção da equipa.

Como é que é possível que este treinador tenha uma ideia tão arcaica do jogo? Como é que é possível que Bruno Lage, sim Bruno Lage (!!!), seja um treinador que desvaloriza de forma tão drástica a qualidade de um futebol apoiado e as vantagens da exploração do espaço interior? Como é que possível que Bruno Lage tenha sempre como solução - para jogos com resultados desfavoráveis - a largura das alas e o bombeamento de bolas para a área?

São vários jogos já a recorrer a essa “filosofia” e ontem foi miseravelmente à descarada.
Vejamos. O Benfica tem um problema no processo defensivo? Tem. Contudo o Moreirense nem estava particularmente interessado em atacar e muito menos em pressionar a nossa primeira ou segunda zona de construção. Fizemos 45 minutos onde fomos superiores. Sem brilhantismo, sem esmagar, mas fomos superiores. Taarabt a fazer um jogão nas suas incursões pelo centro do terreno, Weigl finalmente a aparecer em terrenos que lhe são mais favoráveis - portanto mais avançado e mais próximo da construção de jogo. Foi o nosso forte na primeira parte, aquilo que Taarabt, Weigl e até o Pizzi nos estavam a oferecer num futebol criativo, de apoios e de bola no pé. Fomos a zero para o intervalo. Entrámos por cima do jogo. Com o Tomás mais solto e a aparecer com maior frequência no ataque e na área adversária. Mais velocidade com bola e na decisão, maior pressão, linhas mais juntas. Foram 15 minutos de grande superioridade encarnada.

Apesar da superioridade, apesar de termos o Moreirense encostado às cordas, apesar de estar claramente a cheirar a golo encarnado na Luz, Bruno Lage, com mais de meia hora para jogar, desespera. Começa a panicar. E assim faz o que faz sempre e lança um ponta de lança para a molhada.

A opção de colocar um segundo ponta de lança em campo de forma a abrir as marcações de uma equipa tão recuada não é nenhum absurdo. O desespero é a ideia por detrás da mexida.
Tira um médio e coloca um ponta de lança fixo. Mais um homem preso entre os centrais. Com isto tira obrigatoriamente algum jogo criativo e de progressão em apoios à equipa. Com isto passa a mensagem que começou a hora do chuveirinho. E para piorar tira quem? Weigl. Portanto não só esta substituição retira um criativo do jogo entrelinhas fazendo-o recuar – Taarabt – como ainda faz sair do jogo aquele que estava a ser o principal apoio à posse.
A ter de escolher entre Samaris e Weigl, Bruno Lage escolhe Weigl. E até poderia ser uma opção de cautela defensiva – apostando em maior risco ofensivo optaria por um único médio mais agressivo sem bola. Mas Samaris tinha amarelo. Logo foi uma escolha de estilo de jogo - entre um médio de progressão em apoios pelo jogo interior e um jogador de lançamentos longos, Bruno Lage optou por um bombardeiro no meio-campo.
Este foi o primeiro passo de Bruno Lage para sabotar a vitória e a liderança encarnada. Logo depois surge o golo do Moreirense e aí Bruno Lage entra numa total espiral depressiva.

Com pelo menos 25 minutos para darmos a volta ao resultado, Bruno Lage acredita que a única solução da equipa é abdicar totalmente do jogo interior e passar a lateralizações e lançamentos longos.

Assim a primeira reacção de Lage ao golo sofrido foi tirar Rafa. Apesar de não estar na melhor forma Rafa é craque. O Benfica tem de criar oportunidades de golo e Bruno Lage decide tirar o Rafa. E isso para lançar Cervi, um jogador ofensivamente muito inferior. E nem é só de qualidade individual que se fez esta substituição. Não. A opção de Lage passa por tirar um jogador de ataque que constantemente procurar os espaços interiores para progredir e incorporar na área, e no seu lugar colocar um outro jogador que irá manter a equipa mais aberta, que se irá posicionar lá na ala esquerda na procura do espaço para cruzamentos – seus ou do lateral. Sim, até Grimaldo nesta ideia de Lage é obrigado abdicar do seu ponto forte, incursões pelo centro, para jogar colado à linha.

Não satisfeito e continuando nesta sua ideia, três minutos depois Lage comete mais um pecado.
Para última substituição Bruno Lage tira Taarabt. Atenção, o Benfica tem de marcar dois golos e depois de tirar Rafa do jogo tira Taarabt. O marroquino não só estava a ser o melhor em campo como é também o jogador mais criativo e talentoso do plantel. Se havia jogador capaz de descobrir e criar espaços de incursão na área, tanto para si como para os seus companheiros, esse jogador era Taarabt. Pois bem, Bruno Lage retira Taarabt do jogo e diz que foi por o marroquino se estar a agarrar demasiado à bola. Pois, Bruno Lage não queria bola no pé, queria bola batida para o ar.

E o dominó continua a tombar. É que esta mexida não só nos retira o mais talentoso e melhor em campo como ainda faz recuar Pizzi. Mais uma vez se repete a premissa da primeira substituição - Bruno Lage não quer um jogador de condução mas sim um jogador mais apto a bater bolas. E assim Pizzi é retirado da zona onde faz a diferença - próxima dos avançados e das zonas de finalização - e é arrastado para um meio-campo a dois com instruções de baterem longo.

Mas e quem entra? Quem é o ás de Bruno Lage para a reviravolta no marcador? Sim foi Jota. O que raio tem dado Jota a este Benfica para ser ele a opção? Jota entra e é logo encostado à direita. E eu pergunto: Jota não é aquele jogador que actua preferencialmente no lado esquerdo para puxar a bola para dentro? É. E o “para dentro” é o problema. Então Jota é encostado à direita. Bem aberto à direita. E é isto que Lage faz à equipa.

Somos melhores. Estamos melhores. Temos boas exibições e estamos a cheirar o golo. Tudo isso a jogar com a seguinte equipa:

Dois centrais que batem na frente mas ambos capazes de jogar entrelinhas se tiverem apoios. Dois médios a dar posse de bola à equipa – tanto pela recuperação como pela sua qualidade com bola. Um de futebol mais longo e outro de futebol em apoios. Um trio de médios mais ofensivos muito criativos e a explorarem o espaço interior. Dois laterais com possibilidades de subirem aproveitando este posicionamento dos 5 médios em futebol mais interior. E um ponta lança, um homem golo, um homem a tentar usufruir do espaço que todos os outros lhe podiam ir criando.

E Lage decide mudar tudo drasticamente:
Retira o jogo interior. Assim tem em campo dois defesas para baterem longo, e dois médios para... baterem longo. Dois laterais bem abertos e colados à linha a dar abertura. Dois extremos bem abertos e colados à linha a dar abertura. Dois pontas de lança presos junto aos defesas a procurar espaços de finalização.

Bate, corre, abre, centra. Bate, corre, abre centra.

E foi assim que Bruno Lage sabotou mais uma reacção da equipa. Foi assim que Bruno Lage voltou a provar que não sabe o que está a fazer a este nível. Foi assim que Bruno Lage continuou a provar que não sabe o que a equipa faz bem nem o que a equipa faz mal. Foi assim que Bruno Lage se voltou a apresentar.

Uma dor.



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Benfica 3-3 Shakhtar - Queda Europeia

Quero falar sobre o jogo de ontem. Quero falar sobre o jogo de ontem porque me deu diversas e distintas sensações. Aliás, discutindo em outros grupos percebi ao intervalo que o meu estado de espirito era bastante diferente do dos outros com quem debatia o jogo. Quero falar sobre o jogo porque para mim foi bem mais que uma simples falta de garra, ou más escolhas de titulares, ou más substituições ou até má exibição. Houve muita coisa a acontecer naquele relvado da Luz.

Começo por dizer que gostei do 11 escolhido. Contudo pensei que Lage daria continuidade à aposta no Samaris e considero que, estando em condições físicas, este jogo era para o Vinicius e não para o Dyego Sousa.

Fiquei satisfeito com a forma como a equipa entrou em campo. Pressão alta colectiva, boa reacção à perda de bola e tentativa de jogar apoiado, com muita bola e pelo chão. Um Benfica com iniciativa, com vontade de se impor na sua casa e na eliminatória. Bastante procura do jogo interior, do futebol entrelinhas, com Taarabt, Pizzi e Chiquinho a surgirem bastante nesse espaço. E um Grimaldo mais soltinho, mais liberto de amarras tolas e com espaço e liberdade para subir, para fletir para o centro e incorporar as jogadas de ataque - aquele lateral 10 que tanto nos encantou na primeira metade da época.

Provou-se que se pressionamos mais e melhor, se temos mais bola e se temos a iniciativa do jogo, provou-se que se formos uma equipa activa e não uma equipa de futebol passivo e expectante, as nossas lacunas defensivas - que existem e precisam urgentemente de ser trabalhadas - são menos evidentes porque estão menos expostas. Se somos nós quem tem bola, quem ataca, quem pressiona e quem condiciona, então o adversário irá ter menos e piores oportunidades para fazer tremer o nosso processo defensivo.

Gostei dos primeiros 45 minutos. Fui com boas sensações para o intervalo. Vi no colectivo da equipa coisas que ainda não tinha visto e que tanto reclamava para ver. Sim, houve um período pior logo depois ao 1-0. Não me refiro ao empate mas sim à reacção ao empate. Foram uns 10 minutos em que a equipa quebrou e voltou a expor-se ao recuar e dar a bola ao adversário. Mas voltámos a assumir o jogo e acabamos claramente por cima.

Individualmente estava bastante agradado com a exibição do Pizzi, com o talento explosivo do Taarabt e com o novo velho Grimaldo. Rafa bastante limitado no momento de decisão e o Dyego a corresponder ao que o jogo lhe pedia - sem brilhar mas a cumprir.

O pós intervalo foi ainda melhor. Com a eliminatória empatada voltámos a querer ser donos do jogo e da bola. Pressão alta, condicionamento da primeira fase de construção do adversário e como consequência o 3-1, a passagem para a frente da eliminatória, uma finalização soberba do Rafa e uma decisão fantástica do Dyego.

Foi até ao 3-1 que vi o Benfica que quero, que vi o potencial desta equipa. Foi até ao 3-1 que finalmente me senti bem a ver um jogo do Benfica. 
O problema foi o pós 3-1. E mais uma vez nem falo do golo sofrido. Falo da reacção a esse golo. Fica comprovado que este Benfica não sabe lidar com alterações no marcador. Impressionante como golos marcados ou sofridos alteram tão drasticamente o futebol desta equipa.

A partir do 3-2, a partir do minuto 49, foi tudo muito mau - à excepção de algumas individualidades. A partir desse momento voltámos a ter o Benfica que se tem arrastado por toda esta época. Fraco, fraquinho. Uma dor. Uma queda abruta na realidade que é o futebol desta equipa.

Vou enumerar o que me ficou da segunda-parte:

- Esta equipa não está fisicamente preparada para um jogo de pressing e rápida reacção à perda de bola. Fizemo-lo durante 30 minutos e não conseguimos mais. Quanto menos temos bola mais temos de correr atrás dela - ou então ficar na expectativa. Mostrámos não ter condições para jogar daquele modo de forma constante.

- O processo defensivo é fraco. Sim o Tavares é júnior. Sim o Dias tem abordagens ridículas aos lances. Sim o Ferro está uma nódoa. Sim o Grimaldo deixa espaço nas costas. Mas estas fragilidades ficam ainda mais evidentes quando o colectivo defende mal. Um exemplo do quanto mal trabalhado é o nosso processo defensivo é a nossa linha de fora-de-jogo. Desorganizada e totalmente descoordenada. Durante o jogo foi ouvir o Pedro Henriques, e depois do jogo muitos outros, culpar o Rafa pelo primeiro golo dos ucranianos. O argumento é que o Rafa como ala teria de correr atrás do lateral fosse como fosse, o argumento é que ali tem de jogar o Cervi porque ele o faz. Vejam a repetição e vão perceber porque o Rafa não acompanhou o jogador. Quem define a linha de fora-de-jogo é o Dias. O Rafa travou a corrida quando chegou a essa linha. O resto da defesa estava fora da linha. Com isso o adversário ficou milimetricamente em jogo. Vamos culpar o Rafa por ter feito defensivamente aquilo que os restantes defesas parecem incapazes de fazer?

- O posicionamento do Chiquinho e do Weigl são inexplicáveis. Tens jogadores de qualidade e retiras-lhes todos seus atributos para os condicionares posicionalmente a ideias sem grande sentido. E assim temos os adeptos a questionar a qualidade e utilidade dos jogadores.

Comecemos pelo português. Principalmente na segunda parte irritou-me o papel do Chiquinho. Um médio criativo, forte nos apoios, no jogo entrelinhas e na chegada à área, andou a jogar como ponta de lança. Quantas vezes o Taarabt recebia a bola no centro ou o Tavares na direita e não havia uma única linha de passe para o centro? E eu via isto e perguntava-me como era possível, onde andava o Chiquinho. Procurando-o fui constantemente encontrá-lo junto ao Dyego no meio dos centrais. Então no nosso suposto médio organizador/segundo avançado andava preso às zonas de finalização. Não fica fácil para o Tavares. O miúdo ainda não tem tomates para acelerar o jogo com bola, para partir para cima do adversário, e assim quando recebe a bola resta-lhe travar e passar para trás ou travar e bombear para a área onde estão todos à espera.  
Mas se o médio ofensivo dos apoios está preso entre os centrais adversários, o médio defensivo dos apoios está preso entre os centrais da própria equipa. Percebo o médio defensivo vir aos centrais buscar jogo mas não entendo que em posse se posicione entre estes e ali fique. Depois queixamo-nos que só passa para trás e para o lado? A alternativa é bombear na frente. Para mim o Weigl tem jogo para ser um Busquets - jogador durante antes incompreendido por quase todos. Mas para isso tem de se posicionar no meio da acção e não fora dela. O Weigl tem de jogar sempre entrelinhas e a dar apoios. Recebe e toca, tabela, desmarca sempre a dar linha de passe na construção entre a pressão adversária. Essa é a qualidade dele - decidir, passar e dar linhas sobre pressão. Estamos a desperdiçar um jogador talentoso porque queremos que seja o Fejsa.

Bruno Lage pode ter Chiquinho e Weigl a dar linhas ao Taarabt, ao Tavares, ao Grimaldo, ao Pizzi e ao Rafa, mas opta por os afastar da zona de construção e obrigar o Taarabt a fazer raides de magia por todo aquele terreno.

Perdemos a eliminatória em casa por dois golos, num jogo que empatámos e que estivemos bem mais próximos de perder do que de ganhar.

Uma palavra para Pizzi e Taarabt. O marroquino foi simplesmente magistral e quanto mais joga mais se percebe a confiança que ganha e coloca nas suas acções. O 21 voltou a mostrar que do que depender dele terá sempre boas exibições seja em que jogo for - o colectivo tem de ajudar pois Pizzi é bom mas não é Jonas. Duas excelentes exibições.



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Necessidades Exibicionais do Benfica de Lage

Boavista 1-4 Benfica
Benfica 3-0 Zenit
Benfica 4-0 Famalicão

O que têm estes jogos em comum entre si e de tão divergente relativamente a praticamente todas as outras 23 vitórias da época?

A exibição da equipa.

Porto 3-2 Benfica

Famalicão 1-1 Benfica
Benfica 0-1 Braga
Shakhtar 2-1 Benfica

O que têm estes jogos em comum com praticamente todas as outras 23 vitórias da época?

A exibição da equipa.

Aquelas três vitórias consecutivas de Dezembro fizeram-nos acreditar que Bruno Lage finalmente tinha estabilizado uma equipa, uma filosofia e uma rotina de treino. Finalmente parecia que o individual estava a ser optimamente explorado pelo colectivo. Foram excelentes exibições a culminar – naturalmente – em excelente resultados.


Até aí íamos jogando pouco apesar de vencendo quase sempre. A partir daí voltámos a jogar pouco, apesar de vencermos quase sempre – pelo menos até Fevereiro.

Não terá Bruno Lage percebido o que se fez bem naquelas 3 vitórias  consecutivas de Dezembro? Terá o treinador caído na esparrela da teoria que “em equipa que ganha não se mexe”? Os facilitismos do campeonato português iludiram tanto Bruno Lage como aos jogadores?

Pelo discurso parece já ter percebido que há um problema no processo defensivo da equipa. Mas quanto mais tempo necessita para o treinar e melhorar? A ideia passa por meter mais jogadores a defender? É assim que Bruno Lage quer compensar o fraco processo defensivo? É colocando os médios e extremos com maior preocupação defensiva?

Uma coisa é certa. Quanta mais tempo passamos a defender, menos tempo passamos a atacar. Quanto mais os jogadores se preocupam com o momento defensivo, mais cansados chegam ao momento de definição. Quanto mais recuados jogamos, mais demoramos e mais nos cansamos para chegar à baliza adversária.

Haverá assim tanta incapacidade de trabalhar defensivamente que torne necessária a aniquilação da nossa qualidade ofensiva? Em prol de um processo defensivo falido temos perdido criatividade e dinamitas ofensivas. Em prol de uma compensação defensiva estamos cada vez mais previsíveis no ataque. Menos jogadores, menos linhas de passe, menos apoios, menos movimentos e mais e mais profundidade e bolas pelo ar.

Estamos numa fase critica da época. Fora da Champions e com meio pé fora da Liga Europa logo na primeira eliminatória. Ficámos fora da Final-4 da Taça da Liga. Estamos no Jamor apesar de pouco termos feito para isso nas meias-finais com o Famalicão. E de sete pontos de vantagem, estamos agora com três pontos de desvantagem (sim com menos um jogo).

Próximos jogos:

Gil Vicente – Benfica
Benfica – Shakhtar
Benfica – Moreirense
Setúbal – Benfica
Benfica – Tondela

São cinco jogos para cinco vitórias. Apuramento na Europa e quatro vitórias no campeonato para aí depois se voltarem a fazer contas.

Começando já hoje com o Gil em Barcelos.

Mas estas 5 vitórias consecutivas não vão cair do céu. Não é o não ter medo de ganhar ou o que raio for que vai elevar o futebol da equipa.


É começar a jogar mais já hoje. Sem teorias de pragmatismo. Bola no pé, assumir jogo, subir linhas e desfrutar do futebol.

Ganhar a jogar bem é um excelente lançamento para os próximos jogos e restante época.

Ganhar a jogar mal é um adiar do problema.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Ética, Honestidade, Respeito, Solidariedade, Desportivismo – Valores Fundadores sem “mas”

Não quero me prolongar ao longo da semana a falar sobre o assunto. Mas hoje, só hoje, terei de voltar a ele.
Um jogador de futebol abandonou o relvado no decorrer de um jogo. Um episódio triste que trouxe consigo muitos outros que não consigo que me sejam indiferentes.

O Futebol em Portugal já há muito tempo que não é paixão. Aqueles valores de desportivismo, solidariedade e até de rivalidade são cada vez mais raros neste desporto cada vez mais movido a ódios.
Perante um ódio racial, algo impensável numa sociedade como a nossa e mais especificamente no contexto desportivo, o que vemos são vozes de outros ódios levantarem-se. São ódios combatidos e alimentados por mais ódios e ódios e mais ódios.
E enquanto cidadão, enquanto amante do Jogo e enquanto benfiquista, não posso não dizer nada enquanto vejo outros falharem constantemente com o seu dever de cidadãos.

Quem temos a relativizar o caso são, na sua minoria, adeptos do Vitória Sport Clube – os prevaricadores – e, na sua maioria, adeptos do Sport Lisboa Benfica – porque a vítima foi um jogador equipado com a camisola do Futebol Clube do Porto. E ao contrário seria igual. 
Mas atenção, isto não é demonstração do que são os adeptos benfiquistas. Não. Isto é demonstração do que são os adeptos do nosso futebol. Vivem de guerras.

Como é possível que tanta mas tanta gente se tenha apressado a transformar este incidente num Benfica-Porto? Como?

Um atleta abandou um jogo, uma competição, enquanto este decorria devido a insultos racistas. Já aconteceu lá fora e cá dentro a crítica foi unanime. Agora acontece cá dentro e é o que vemos.
Relativiza-se o caso, desvaloriza-se a situação, porque outros jogadores – das suas cores clubísticas – foram também em tempos alvos de insultos racistas. Desvaloriza-se porque adeptos rivais insultam os das nossas cores clubísticas. “No pasa nada” porque adeptos de azul e branco já foram multados por racismo.
E isto é só mesquinho. O que esta gente não entende é que não está em causa o Porto, não está em causa o resultado desportivo, não está em causa os adeptos e dirigentes portistas. Está em causa sim um atleta que sentiu necessidade de abandonar o terreno do jogo.

O Vitória Sport Clube não é um clube racista. Os seus dirigentes não se cansam de o dizer. O facto de um conjunto de idiotas terem tido um comportamento racista isso não personaliza o próprio clube. O que vincula o clube são as suas acções e o Vitória Sport Clube como um clube não racista, como clube interessado no combate ao racismo, só terá um caminho: Ajudar as autoridades a identificar os prevaricadores e agir disciplinarmente contra os mesmos. Quando os adeptos falham aos valores do clube cabe também ao clube agir em conformidade.

Agora quatro pontos que me sinto obrigado a responder depois de tudo o que vi escrito:

1. Prévios comportamentos de ódio e violência: Infelizmente o futebol vive disso. Os constantes insultos aos árbitros. Os constantes insultos aos jogadores. Os constantes insultos aos adeptos adversários. Uma cultura que está enraizada no adepto de futebol. É a cultura do “Filho da Puta” quando um guarda-redes bate um pontapé de baliza. É tudo condenável mas ninguém quer saber. Como ainda mais condenável são os actos de violência que todas as semanas acontecem ao redor dos jogos. Tudo isto deve ser condenado no momento e nunca mais esquecido. Agora, nada disto deve servir como desculpa nem como arma de arremesso para casos futuros. A bola de neve da ignorância não pode rolar infinitamente num “o que vem deles é condenável e o que é nosso é desculpável”.
Por mais chocante que seja a imagem do adepto do Benfica a sangrar no autocarro, alguém me consegue explicar porque tem essa imagem de andar a ser atirada contra este caso Marega? Uma pessoa foi violentamente agredida. Outra pessoa foi alvo de insultos racistas. Uma coisa justifica a outra? Uma coisa suaviza a outra? Um idiota de um adepto portista atirou uma pedra contra um adepto benfiquista. Um atleta do Porto foi insultado, com base na cor da sua pele, por adeptos do Vitória de Guimarães. Onde está a relação dos dois casos? Uns idiotas da claque do Porto fizeram um cântico deplorável sobre o avião da Chapecoense. Que tem o atleta Marega a ver com isso? Que tem a cor da sua pela a ver com isso?
Não há ódios bons e ódios maus. Não há espaço para irresponsabilidades. E todos aqueles que desvalorizam este caso, tal como todos aqueles que vão sempre desvalorizando tudo o que é feito pelos da sua cor clubística, são uns irresponsáveis incapazes de assumir os seus deveres cívicos. 
Repito. Isto não é sobre o FCP. Não é sobre o Pinto da Costa. Nem sobre o Jota Marques. Não é sobre os Superdragões e não é sobre o Sérgio Conceição. Isto nada tem a ver com as pessoas que vivem e gravitam naquele clube. Isto nada tem a ver com aqueles que sistematicamente atacam o Benfica. Nada. Vocês estão a fazê-lo ser, mas não é. Isto é sobre um jogador que teve de abandonar o relvado no decorrer de um jogo. Nada tem a ver com o vosso inimigo nem com as vossa guerras.

2. Política e hipocrisia: Sim há muita hipocrisia no Futebol e na política. De todos os clubes e políticos que se manifestaram quantos não o fizeram só para ficar bem na fotografia? Quantos irão realmente fazer algo sério para mudar o estado lastimável em que está o futebol português? Poucos ou nenhum. Sim é verdade. Mas hipocrisia também é alguém auto-intitular-se contra o racismo e contra a violência mas depois fazer as suas condenações variar consoante a cor clubística.

3. Reacção do Sport Lisboa e Benfica: Este foi um dos temas que também surgiu em debate. Como aconteceu com um atleta do Porto, então o Sport Lisboa e Benfica nem tinha de se pronunciar. Na verdade, foi o longo silêncio do clube que levou a esta teoria. Quem achou que o clube não tinha de se pronunciar fê-lo porque o clube simplesmente ainda não tinha reagido. É a regra simples da clubite - tudo o que é feito no nosso clube é de apoiar. Cada posição invertida e contraditória é de concordar.
Claro que o Sport Lisboa e Benfica ia e tinha de reagir. Há o lado político e há a imagem do clube. Um acontecimento de racismo no campeonato português, com todos os canais e jornais a falar do assunto, com os media internacionais e os políticos portugueses a abordar a situação, como poderia o maior e mais representativo clube de Portugal não dizer nada? Ainda para mais até os silêncios comunicam e a mensagem que esse passaria era de uma enorme falta de cultura desportiva e social.

Portanto sim o clube tinha de reagir e reagiu. E sim o clube tinha de condenar os acontecimentos no Afonso Henriques e... não o fez.
Faltou decência a quem lidera o Sport Lisboa e Benfica para fugir ao estúpido Benfica-Porto já criado por vários dos seus adeptos e até por produtos da sua comunicação - Hugo Gil e Boaventura por exemplo. Um vídeo genérico, reciclado e nem uma palavra sobre os acontecimentos em questão. Nem uma palavra de solidariedade para com o atleta. 
E foi nisto que estes dirigentes transformaram o Sport Lisboa e Benfica. Estes dirigentes que trouxeram para o clube hábitos e culturas de outros tempos e de outros clubes e que fortemente as têm enraizado dentro do benfiquismo.

“O Sport Lisboa e Benfica repudia veementemente os actos de racismo verificados hoje no jogo do Vitória SC – FC Porto. O clube solidariza-se com o atleta Moussa Marega e disponibiliza-se para de uma vez por todas se tomarem medidas que permitam criar um futebol saudável para todos, independe da sua cor clubística e principalmente da sua cor de pele.” 
Tão tão simples.

4. Ser benfiquista: Claro que depois também surgiram as normais acusações de falta de benfiquismo. É o “ou estás contra eles ou estás contra nós”. Para estas pessoas ser benfiquista é odiar tudo o que tenha a ver com o Porto ou com o Sporting. Ser benfiquista é querer que a equipa ganhe seja por que meios for. Ser benfiquista é defender os criminosos de vermelho e branco e atacar qualquer um, criminoso ou não, de azul ou verde.
A todos vocês que fazem do benfiquismo algo tão perverso só vos posso dizer que isso não é benfiquismo, isso é pura idiotice.
Não entro em medições de benfiquismo. A própria definição de “ser benfiquista” é muito ampla. Para mim tem bases que não podem nunca ser abaladas. Para mim benfiquismo é algo que está alicerçado em duas vertentes: Vitória e Valores. Assim vejo o benfiquismo como um querer que o clube vença sempre mas sempre e somente sendo fiel aos seus valores fundadores.
Ontem li gente defender que o Benfica tem é de ganhar jogos e não se preocupar com questões sociais. Li gente dizer que o Benfica tem de ganhar seja como for e porque meios for. 
Era eu bem mais novo quando via Pinto da Costa criar uma máfia de poder para beneficiar o FCP garantindo-lhes vitórias com muito jogo sujo. Para meu espanto, perante tão evidente conspurcação da competição, via os adeptos portistas assobiarem para o lado. Só lhes interessava ganhar. E para meu orgulho via os adeptos benfiquistas recusarem algum dia ganhar daquela forma. “Somos diferentes” dizíamos todos. Poucos anos depois percebi o quanto eram frágeis essas convicções. E hoje em dia é vermos a quantidade de benfiquistas que defendem que importante é ganhar, não importa como.
Ignorar os valores que criaram e fizeram crescer este clube para mim nunca será benfiquismo. Lutar constantemente contra quem coloca os valores do clube em causa, sejam rivais ou dirigentes do próprio clube, é para mim, e sempre será, a obrigação de qualquer benfiquista.

Portugal não é um país racista. Contudo isso não significa que não exista racismo em Portugal. Existe. É histórico e arrasta-se por gerações.

Hoje em dia podemos até debater sobre o que é racismo e se só existe num sentido. Muito do que a sociedade vê como sendo racismo não o é. São exageros, são hipocrisias, são posturas de u, politicamente correcto. O que não invalida a sua existência e o seu histórico. Nós das novas gerações não vivemos os piores momentos deste flagelo. Nós deste país à beira mar plantado não temos total noção das repercussões do racismo. Nós caucasianos deste Portugal percebemos a sociedade actual mas não entendemos a dor que muitos de outra cor e de outra nacionalidade trazem consigo. Não entendemos e muitos de nós nem tentamos respeitar.

Existe racismo nos dois sentidos? Existe. Contudo são de gravidades diferentes. E isso não há como negar. Não é possível apagar o histórico, a dor e a selvajaria que tanto marcou a humanidade. Não ver isso é querer ser cego em proveito próprio.

É verdade que tal como muitos têm repetido, o que se sucedeu ao Marega não é um caso único. Não é um caso único em Portugal. Não é um caso único num estádio de futebol. Mas apesar de muitos agirem como se isso desvalorizasse o sucedido, a verdade é que só lhe dá ainda mais importância. É por não ser único que urge ainda mais agir. É por não ser único que não podemos continuar todos a assobiar para o lado. O vosso argumento, mesmo que se recusem a o admitir, é somente baseado em clubite. Esqueçam isso. Sejam melhores.

A arte do insulto é uma constante no mundo do futebol. Todos os jogadores e adeptos estão sujeitos e habituados ao insulto. Infelizmente é verdade. Chama-se filho da puta a um jogador e corrupto a um árbitro como se diz olá a um conhecido. É inadmissível mas é verdade. Contudo esta verdade em nada se contextualiza no mundo do preconceito pela cor da pele. Não misturem coisas que não podem ser misturadas. Há insultos gerais, insultos para todos. E depois há os insultos que só visam aqueles de raça negra. E se um caso é pura falta de educação o outro é já descriminação. Determinadas ofensas e determinados ruídos só se fazem na direcção dos jogadores negros. E é neles que vivem essas memórias que despoletam dores do passado, vergonhas de uma história não há muito tempo escrita. E isso tem de ser totalmente irradiado.

Moussa Marega resolveu abandonar o terreno de jogo. Isto é o que torna esta situação diferente. É um mote. Um mote que deve ser seguido. Este exemplo deverá ser seguido por todos os jogadores que sofrerem insultos racistas durante um jogo de futebol. E quando todos começarem a seguir o exemplo de Moussa Marega, quando colegas e adversários tomarem a mesma atitude, aí finalmente teremos políticos e dirigentes, aí finalmente teremos todos vocês odiadores, a mudar drasticamente a sua passividade e a melhorar o desporto e a sociedade nacional.

Há valores que ou temos ou não temos. Não existe meio termo. Existe fingir que temos. Isso existe. Não podemos ser pessoas dignas às vezes. Não podemos ser honrados mas só quando dá jeito. Não podemos ser éticos mas só quando saímos beneficiados. 
Aqueles valores que todos aparecem a defender são valores que se vivem e não que se repetem em frases ocas. Ser absolutamente contra o racismo é ser absolutamente contra o racismo. Não é dizer que se é e depois colocar um “mas” à frente. Não há “mas”. É no “mas” que vocês se perdem.

Existe racismo em Portugal. Existe racismo no desporto. Existe preconceito à cor da pele. E neste futebol podre, de dirigismo podre e de adeptos que nada gostam do jogo, existe um enorme racismo clubístico. 

Agora deixo a palavra para os nossos políticos, para os nossos dirigentes e para os nossos ministros. 

Façam acontecer.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Dyego Sousa Para o Ataque ao Campeonato e Liga Europa

É Dyego Sousa o jogador que o Benfica precisava neste final de mercado de inverno? 

Até é. 

Era sabido que não viria um titular nem para o centro nem para a direita da defesa, o médio já tinha sido contratado e como tal as necessidades do plantel prendiam-se num avançado e num guarda-redes com qualidade para substituir e competir com o Odysseas. 

Com a saída do Raul de Tomás ficou evidente a necessidade de se contratar um terceiro avançado.
Vejamos: 

- Tal como Vieira já referiu, não há avançados no Seixal para serem lançados na equipa principal. 

- Só Vinícius e Seferovic é curto para o ataque ao resto de uma época que ainda pode ser muito longa. A lesão ou suspensão de um levam à ausência de qualquer avançado no banco de suplentes. 

- As possibilidades de abordagem a um jogo, ou a parte do jogo, em 4-4-2 ficariam bastante limitadas com as opções presentes. Não só não haveria um substituto aos dois em campo como ainda a única dupla possível seria a de dois avançados puros, sem a presença daquele 9,5 mais criativo capaz de ligar todos os sectores de ataque, pensar o jogo e distribuir a bola pelos espaços do ataque. 

Sim precisávamos de um avançado. E sim, o Dyego Sousa é um bom jogador e é um bom ponta de lança. 
Não é um nome que faça balançar o coração encarnado e aí as expectativas saíram furadas. É uma escolha mais pragmática e com objectivos de curto prazo em vista. 

Preferia uma terceira opção de ataque com maior potencial de futuro no clube. Preferia um avançado que nos desse outras opções ofensivas - o tal 9,5. Mas Dyego Sousa foi a opção possível, vem preencher parte das lacunas ofensivas do plantel e acredito que até vem para encostar o Seferovic que está a fazer uma época lastimável. 

Vem é um pouco contra a maré. É ver o que Rui Costa e Bruno Lage disseram de ego cheio antes e perceber que esta contratação os contraria. Sai muito mal Bruno Lage nas declarações que fez sobre o Gáitan. 
A opção pelo Dyego Souza também traz um sinal alarmante para aquilo que temos visto Bruno Lage pedir à sua equipa. Fica a ideia que se considerou importante ter mais um avançado paro o chuveirinho. E não é disso que o Benfica precisa.  

Esta equipa irá evoluir quando tiver menos potencializadores de bombos e mais entusiastas de bolinha no pé. 

Um remendo no plantel com um jogador de qualidade e que será muito útil. Não me entusiasma mas não desgosto. 

Bom avançado, boa relação com a bola, cabeça levantada, boa capacidade de finalização. 




terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Benfica e Porto no Bessa

Aquando da sua eleição para a presidência dos Boavisteiros, Vítor Murta exultou sobre a necessidade da equipa de futebol do clube voltar a ser o “Boavistão” de fim do século passado/inicio do presente, corporizado no epíteto, e cito, “em que era canela até ao pescoço”.


Obviamente que isto não é para ser levado à letra (ou pelo menos, imagino que não seja) e tal frase procura, isso sim, traduzir uma forma de jogar essencialmente focada nos fatores emocionais e físicos do jogo. E, goste-se ou não, Vítor Murta foi sagaz ao perceber que Lito Vidigal seria um dos melhores protagonistas ao dispor para escavar um buraco no tempo e fazer a equipa recuar aos anos 90. Enfim, Vítor Murta quis, Lito Vidigal sonhou, a obra nasceu. 


Porém, mais do que falar sobre o Boavista em si, importa-me mais identificar na sua equipa um estilo de jogo e confronta-lo consigo mesmo ou com algo bastante diferente e, para tal, recorrerei a dois jogos em que o Boavisteiros, fossem quais fossem as circunstâncias, tenderiam sempre a perde-los. Falo, como será fácil de perceber pelo título, dos jogos frente a SL Benfica e FC Porto.

No derby da cidade do Porto assistimos, penosamente, a um jogo assente em constantes duelos aéreos e físicos, entre duas equipas de almas gémeas e onde a lei do mais forte acabou por imperar. Sem prejuízo do resultado, foram bastante visíveis as dificuldades que o FC Porto teve para levar os 3 pontos em disputa, parecendo até, em vários momentos, que as qualidades individuais dos jogadores ao dispor de ambos os conjuntos se apresentavam indistintas e/ou bastante marginais, coisa que, sabemos, não é verdade. Displicência azul e branca? Não me parece, de todo. Transcendência axadrezada? Talvez. Mas o que realmente concorreu para esse nivelar de qualidades foi o facto de a equipa mais forte - FC Porto - aceitar levar o jogo para um patamar onde as diferênças se diluem e as qualidades que verdadareiramente importam não aparecem, porque grandes, rápidos e/ou agressivos podem ser todos, mas relacionar-se bem com a bola e com os companheiros... não é para quem quer, apenas para quem pode!

Por oposição a isto, temos o jogo que o Benfica foi fazer a casa dos Boavisteiros. Ao contrário de Sérgio Conceição, Bruno Lage foi à procura de um jogo que eliminasse ao máximo toda a físicalidade que o Boavista quisesse impor, fazendo-o com um jogo de passe curto, associativo e de paciência, sem momentos de acelerações a cada passe, sem jogo directo a potênciar duelos aereos, ou seja, sem nada do que poderia fazer aproximar a qualidade superior dos seus jogadores à qualidade (ou falta dela) dos jogadores adversários, retirando do jogo todos os factores em que o Boavista poderia ser igual ou até superior ao Benfica. Resultado? Um jogo bastante tranquilo e uma das melhores exibições da época. Não foi um jogo perfeito, mas foi bastante melhor do que o Porto havia feito no mesmo estádio e do que a própria equipa do Benfica vinha fazendo até aí.

Este duplo exemplo colocado em oposição entre si, procura apenas demonstrar de forma bastante básica e simples que a resposta a qualquer dificuldade será sempre a da inteligência e qualidade de execução, sempre! Mesmo contra equipas cujo poderio físico é importante, se em vez de o contornar o procurarmos confrontar, por certo vamos ter bastantes dificuldades e imprevisibilidade no jogo. E exemplos destes ocorrem todos os fins-de-semana, tão faceis de ver e entender que me causa sempre uma enorme preplexidade a forma como se continua a acreditar que o caminho a seguir é o caminho da imponência física e emocional, deixando a relação com a bola e com o jogo para segundo ou terceiro plano, tal qual Sérgio Conceição afirmou recentemente. A ser como o timoneiro Portista afirmou, seria muito mais complicado defrontar o Boavista do que o Barcelona... Absurdo, não?

P.S. 1 - Para Bruno Lage: A tenacidade defensiva de Seferovic e Cervi é bastante útil ao colectivo? Sim e é bom que assim seja, porque com eles em campo, seja por erros técnicos ou de decisão, a equipa passa muito mais tempo sem bola do que passaria com qualquer outro dos seus colegas a jogarem nas suas posições.

P.S. 2 - Para Sérgio Conceição: Na mais recente visita do FC Porto ao Jamor, a equipa melhorou claramente com a entrada dos portentos físicos Sérgio Oliveira e Nakajima, em substituição dos virtuosos Loum e Manafá, não foi? Ontem mesmo, no jogo com o Tondela, o FC Porto fez o melhor jogo em organização ofensiva da era Sérgio Conceição, porque conseguiu juntar no mesmo 11 a potência física de Nakajima, Luis Diaz, Corona e Otávio, certo?



segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O que se pretende e o que se promove

A cada decisão e/ou pensamento por nós revelado sobre qualquer situação/assunto em concrecto, não estamos apenas a revelar ao mundo o que achamos sobre aquele tema, naquelas circunstâncias, mas estamos também a demonstrar qual/quais o(s) principio(s) que nos norteiam sobre a globalidade das situações envolventes a esse mesmo assunto. Isto é, as consequências de cada tomada de posição são muito mais abrangentes e perenes do que o resultado imediato dela.

Quando, por exemplo, aceitamos por boa, a ideia de que os problemas migratórios se resolvem com a construção de muros entre pessoas, estamos não só a validar aquela decisão naquelas circunstâncias, como estamos também a dizer aos nossos pares que acreditamos numa sociedade profundamente discricionária e, pior, que tal separatismo se pode reger por critérios tão aleatórios e genéricos, quanto o local de nascimento de cada um. 

Como não poderia deixar de ser, no futebol, nomeadamente com as ideias preconizadas por cada treinador, passa-se exactamente o mesmo. Olhando para o treinador como, entre outras coisas, o líder ideológico de um colectivo, há que entender que as ondas de choque das suas escolhas, mesmo que circunstanciais, terão influencia em todas as vertentes do jogo da equipa. 

Como sabemos, o futebol é um jogo bastante atreito ao caos - bem vistas as coisas e em boa verdade, talvez seja mais correcto dizer que o futebol é naturalmente caótico e que a tentativa de lhe colocar alguma ordem é contrária à essência do jogo - nesse sentido, é absolutamente impossível prever ou estabelecer com rigor e à partida, todas as incidências de uma partida de futebol, pelo que cabe ao treinador, através da ideia de jogo que escolha, estabelecer princípios, regras para o jogo da sua equipa. E esses princípios serão sempre a base de todas as respostas dos seus jogadores quando expostos a todas as variáveis presentes em cada jogo.

Face a isto, faz-me sempre uma enorme confusão quando verifico alguns treinadores ficarem agastados com momentos em que os jogadores procuram, no fundo, fazer o que mais vezes lhes é solicitado pelos hábitos que lhes são impostos pelas ideias de quem os lidera. Quando se opta por um caminho ideológico, há que entender, ao mesmo tempo, quais as vantagens que isso trará, mas também as desvantagens que daí advirão. Só conhecendo profundamente ambos os lados da questão, um treinador estará pronto para ir evoluindo e, mais importante, ajudar os seus a evoluírem consigo e com as suas ideias. É absolutamente impossível ser-se profundamente competente em todas as ideias existentes, e quem disser que quer jogar tudo, quer atacar de todas as formas, quer defender todos os espaços, acreditem, o mais provável é que não consiga fazer coisa nenhuma com real qualidade. Há que fazer escolhas e concessões e entender que se vive e morre com e por causa delas. No fundo, a busca de uma ideia completa não se esgota no "como quero ganhar", mas também contempla o "como vou perder". 

Recorrendo a exemplos mais concrectos, para mim é absolutamente incompreensível a reacção que Sérgio Conceição teve ao primeiro golo sofrido em Vila do Conde, no final da época passada, e que acabaria por degenerar  num empate profundamente comprometedor para as aspirações do FC Porto naquela altura. E porquê? Recordando, na origem desse golo está uma tentativa falhada de Iker Casillas ligar o jogo directamente nos avançados, num contexto que pedia uma maior segurança na posse, como melhor defesa do resultado que então se cifrava num 2-0 favorável aos azuis e brancos. E no final do jogo, o treinador portista referiu exatamente isso: para ele, aquela decisão do seu guarda-redes, naquele momento, era inconcebível. O que há de errado nisto? Quanto a mim, tudo. Sérgio Conceição refere várias vezes duas ideias que tem para o seu jogo: Por um lado, não gosta da posse pela posse, isto é, não vê virtudes e vantagens na posse de bola como forma de gestão do jogo e assim, também, defender; e por outro, vê no passe directo uma forma virtuosa de ligação entre zona de construção e o ataque, seja na referência, seja na profundidade. Assim sendo, e bem vistas as coisas, o que fez Casillas naquele lance em concrecto? Nada mais que seguir as directrizes gerais do seu treinador. Era o que mais se aconselhava? Não. Era o que, segundo o próprio Sérgio, o seu treinador queria naquele momento? Não. Porém, mais do que perceber o momento, há que entender que aquela decisão, embora não pretendida, não foi nada mais do que promovida por Sérgio Conceição, pois o técnico portista tem que entender, ou pelo menos devia, que ao escolher um estilo, se for competente a operacionaliza-lo (e, claramente, é o caso), os seus jogadores vão segui-lo, mesmo que em determinadas circunstâncias fosse mais aconcelhavel fazer exactamente o oposto.

Algo de semelhante se passa com Bruno Lage. Nas análises públicas pós-jogo, é frequente ouvir o timoneiro benfiquista lamentar-se de alguma falta de paciência e ausência do melhor critério com bola, por parte dos seus jogadores. Estando eu cem por cento de acordo com esta analise, o que há então de errado nela? Para o percebermos o erro, devemos recorrer ao pensamento do próprio Bruno Lage: Na excelente entrevista de final de época que o técnico concedeu a vários jornalistas, um dos momentos mais importantes surge quando Bruno Lage afirma que não pretende condicionar as decisões, com bola, dos seus jogadores. Ora, não condicionando as decisões individuais, não mostrando claramente o tipo de decisões que pretende para o seu jogo, estará Bruno Lage a ajudar os seus jogadores a diferenciar essas mesmas decisões? Estará Bruno Lage a fazê-los evoluir nesse momento tão importante para o jogo, uma vez que não os expõe ao contexto? Quanto a mim, não. Ou seja, os que decidem mal, os que decidem com base em critérios errados, vão continuar a fazê-lo e os que decidem, por norma, bem, no limite, vão também continuar a fazê-lo ou, pior, deixar-se-ão contagiar pelos mais fracos nesse requesito (até por serem a maioria) e entrarão também no rol de más decisões. 

A juntar a isto há ainda a considerar o tipo de escolhas individuais feitas por Bruno Lage. Optando pela tal lógica de não condicionar decisões individuais, seria de supor que o treinador benfiquista tivesse na tomada de decisão um critério de distinção no momento das escolhas que faz a cada jogo. Porém, o que verificamos é exctamente o oposto: Rafa, Gedson, Gabriel, Ruben Dias ou Seferovic, podem ser conhecidos por muita coisa, mas nenhuma delas é a capacidade de decisão e, no entanto, são todos elementos proeminentes nas escolhas de Bruno Lage. Há ainda Zivkovic que é, claramente, dos que melhor decide no plantel e está relegado para as profundezas das escolhas de Lage, vendo-se, inclusivé, ultrapassado por... Cervi. 

Há ainda um terceiro factor: posicionamentos. Como anteriormente referi, Bruno Lage afirma não querer condicionar as decisões dos seus jogadores, mas será que é mesmo assim? Obviamente que não. Lage até pode não restringir directamente os seus comandados, mas condiciona-os de forma muito óbvia quando determina que hajam muito mais linhas de passe em largura e a provocarem a profundidade da linha defensiva adversária do que em apoio ao portador. 

Ou seja, facilmente encontramos três factores que concorrem directamente e em conjunto para a falta de paciência na circulação que o próprio Lage identifica: Eu sou mau decisor, o meu treinador não me obriga a um caminho e coloca-me mais possibilidades de passe em profundidade e largura do que em apoio, o que vou eu escolher maioritáriamente? Parece-me obvio. 

Mais uma vez, e tal como sucede com Sérgio Conceição, parece-me estranho e até desonesto do ponto de vista intlectual, que Bruno Lage se queixe tantas vezes de algo que é, claramente, decorrente das suas ideias e escolhas. 

Reforço, o que eu identifico de errado não são as ideias, embora não goste de nenhuma delas, mas sim a identificação de erros que não são mais que as consequências negativas que elas promovem. Seria estranho, no minimo, que Guardiola se queixasse da falta de capacidade dos seus jogadores para ganharem duelos físicos, não? 

O que se escolhe e o que se promove com isso, viver e morrer por isso, ganhar e perder por causa disso. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Lageball - Criatividade no relvado

Na época passada muito escrevi sobre o Lageball. Um futebol de ataque e pressão alta mas principalmente um futebol criativo, imaginativo e de apoios. Um futebol onde surgia um central com maior qualidade de construção. Um futebol com um lateral de ingressões à 10. Um futebol que dava asas a um meio-campo mais capaz de reter a bola e pressionar alto. Um futebol com um avançado móvel e colectivo. Um futebol com três jogadores de ataque puramente criativos. Criatividade de pensamento, criatividade de execução, criatividade técnica e criatividade de imaginação.
Foi o Lageball que durante um curto espaço de tempo nos apaixonou.

Por isso agora pergunto a Bruno Lage: Que é feito desse futebol que foi baptizado com o teu nome?
Olhemos para o jogo com o Portimonense - o último jogo e um jogo de goleada.
Claro que já esperava os comentários no pós-jogo. Ficou 4-0 então já foi uma grande exibição. Nada contra se ser resultadista, tudo contra se ter uma opinião resultadista.

Esperava tais comentários dos muitos adeptos e comentadores mas não do nosso treinador.

"Bruno Lage: «Notícia da noite é o nosso bom jogo»"

Como todos saí agradado da Luz com o resultado. Ao contrário de muitos continuei a sair agastado com a exibição.

Para mim é um problema muito grande caso o treinador do Sport Lisboa e Benfica considere que a sua equipa fez um bom jogo na Quarta-Feira passada. Demonstra que também o treinador tem uma opinião resultadista o que não lhe permitirá nunca evoluir o futebol da equipa.

Uma primeira parte horrível da equipa. Não foi de paciência. Foi de incapacidade. Um Portimonense com melhor posse de bola, melhor qualidade a sair a jogar, mais criatividade, mais jogo interior, mais aproximação à baliza e com movimentos mais técnicos. Um Benfica sem conseguir construir uma jogada e constantemente a recorrer a balões dos centrais e a cruzamentos totalmente disparatados tanto do Cervi como do Almeida.
Um golo de canto fez a diferença a nosso favor nos primeiros 45 minutos. Outro golo de canto no arranque da segunda-parte acabou com o jogo a nosso favor. A partir daí o adversário, que é obrigatoriamente mais frágil, quebrou animicamente, subiu as suas linhas irracionalmente e deu-nos os espaços necessários para tanto o Grimaldo como o Chiquinho abrirem a defesa com o apoio do Vinicius. A goleada foi contextual e não o resultado de uma boa exibição. E Lage tem obrigação de perceber isso.

Olhemos para o Lageball e para o que se viu na Luz com o Portimonense. Com Jardel no lugar do Ferro não houve lugar à existência de um central com melhor construção de jogo - logo balões. A dupla de médios mostrou qualidade na retenção da bola e no primeiro passe mas não tinha apoios centrais para dar continuidade. O lateral esquerdo continuou com as suas ingressões a 10 mas sem apoios ofensivos para conseguir rasgar. O avançado muito isolado no ataque e assim mais a trabalhar para o golo do que para o jogo colectivo. E em vez de 3 puros criativos de ataque tivemos 1 - o Chiquinho.

A pobreza do futebol do Sport Lisboa e Benfica explica-se pela falta de criativos. Quando antes tínhamos 4 criativos em campo a servir e a ser apoiados por um ponta de lança, agora temos dois - o lateral esquerdo que tem de progredir todo o campo para dar criatividade ao ataque e o ala direito acabado de chegar a este patamar e acabado de regressar de uma lesão. É pouco. Pouquíssimo. Aquele trio de criatividade ofensiva foi substituído por precaução defensiva. Um médio móvel mais subido no relvado para criar mais pressão mas incapaz com a bola no pé. Um extremo esquerdo inofensivo com a bola no pé e somente importante em tarefas defensivas.

Além do resultado, as boas noticias a retirar do jogo são as exibições de Chiquinho e Vinicius. Contudo são boas noticias que termos ainda de perceber que continuidade terão. Já se sabia que o Vinicius tem mais golo que o Seferovic mas será uma aposta de Lage ou só um jogador de segunda-linha? A qualidade de Chiquinho também já era sabida contudo neste jogo actuou no lugar de Pizzi numa evidente estratégia de descanso do transmontano. Lage verá Chiquinho como um "Clone de Pizzi" que será eternamente o seu suplente ou como uma solução para as costas do ataque encarnado, actuando simultaneamente com Pizzi, com Rafa e com Grimaldo?

Criatividade Lage. Criatividade.


https://www.record.pt/futebol/futebol-nacional/liga-nos/benfica/detalhe/bruno-lage-noticia-da-noite-e-o-nosso-bom-jogo?ref=Benfica_BucketDestaquesPrincipais