sábado, 6 de fevereiro de 2016

A cara de Renato Sanches com 8 anos quando lhe disseram que aquilo ontem foi uma agressão.


QUERO AGRADECER A BdC E A JJ

Se JJ estivesse no Benfica, na posição de Rui Vitória, esta seria aquela altura em que faria a maior das cagadas. Com alguma sorte, talvez sobrevivesse a este próximo mês de loucos, à semelhança da "caganeira absoluta" que tivemos no ano passado, no Dragão e em Alvalade. Mas o mais natural em JJ seria perder quase tudo nesta altura. Já todos vimos este filme demasiadas vezes.

Agora está tudo invertido. JJ está (por vontade própria) apenas no campeonato, pois duvido que jogue a Liga Europa a sério, com os titulares indiscutíveis (vamos esperar para ver). Esse é o maior problema "externo" que temos pela frente. E é Rui Vitória que tem que mostrar o que vale, nas horas grandes.

Analisando a nossa casa, Renato, por mais miúdo que seja, foi o desbloqueador do jogo do Benfica. Deu uma consistência brutal à equipa. Veio cortar com aquela forma tosca e inconsequente de tentar progredir fazendo passes para o lado. Renato progride. E pronto! E defende bem, é carraça e muito, muito forte. Terá que melhorar o passe para ser um génio total, mas ainda tem muito tempo para isso. A forma como ocupa o campo é impressionante, um verdadeiro colosso de força. E técnica. Acredito que seja o médio do futuro, disputado por todos os grandes emblemas europeus.

Renato contribuiu também para desbloquear Pizzi, que agora, mais solto na frente de ataque, encontra frequentemente as tabelas do génio. Pizzi está, finalmente, onde tem que estar.

Carcela trouxe mais progressão ainda ao nosso jogo. É muito rápido, cruza muito bem, e tem aquela característica rara, própria de um grande extremo, que é a procura da linha para cruzar para as costas dos defesas. Nem Pizzi nem Gaitan o fazem, normalmente.

O Almeida, com as limitações que todos lhe reconhecemos, tem feito cruzamentos tensos e jogado mais com o respectivo extremo. Até Eliseu tem estado razoável, tirando um ou outro pormenor.
Lizandro é óptimo, mas acho que já todos o sabíamos antes da titularidade.

Mitro é muito melhor do que o meio-passe-por-nove-milhões, e tem que jogar. Sempre. Com o génionas.
E sobre Jonas, já não sei mais o que dizer. Sei que é um privilégio vê-lo jogar, razão pela qual, desde que entrou na equipa, nunca mais perdi um jogo na Luz e arredores. Só espero conseguir esta proeza até que se reforme.

A equipa cresceu, sem dúvida. E, tal como em outros anos, quando uma parte da equipa se entende e joga muito bem, a outra vem atrás. Mérito a Rui Vitória, que, segundo aparenta, sabe motivar muito bem a sua equipa. Os jogadores estão, definitivamente, com o treinador. O balneário está muito unido, vê-se claramente no prazer que têm em jogar, no prazer que têm em marcar mais um golo, na vontade genuína com que imprimem intensidade até ao final dos descontos de um jogo que se está a ganhar por cinco bolas a zero.
Tenho algum receio pelos jogos com equipas que sabem defender bem e atacar bem. O nosso processo defensivo continua a ser muito fraco. Esperemos que este ataque demolidor o consiga compensar.

"And now, a word from our sponsors": esta azeitice completa de BdC, de JJ (com os árbitros) e de todos os verdes lacaios a soldo que vemos na televisão, tem dado frutos... para o nosso lado!!! Quero, por esta razão, agradecer a BdC pela sua incomensurável dose de demência descontrolada, esta insana contenda, este desequilíbrio desvairado, e de uma "tonteria" absoluta, que tem dado frutos na motivação do nosso balneário. E a JJ também, pela total falta de classe e estupidez profunda como se referiu a Rui Vitória. Disse publicamente que não era treinador, mas os seus ex jogadores não gostaram daquilo que disse. Os seus ex jogadores-relegados-ao-banco-de-suplentes também não gostaram. E aqueles que não eram seus jogadores, porque tinham que nascer dez vezes para o ser, também não gostaram. Nada melhor do que um grupo unido em torno de um sentimento de justiça. E nada melhor do que um verdadeiro vilão para o conseguir. Sabem aqueles vilões dos filmes norte americanos? Aqueles que têm tudo, mas tudo, para serem vistos como odiosos, nojentos e insuportáveis? Pois é isso tudo. Os nossos jogadores estão na posição de heróis. Que tenham um final feliz! Que sejam estes o fevereiro e o março do nosso contentamento.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

PREOCUPAÇÕES DE FEVEREIRO

Há duas principais formas de fazer análise futebolística:

1) a RESULTADISTA - se a equipa vem ganhando uns jogos, está a jogar muito bem e é favorita; se empatou ou perdeu algum jogo, está sem identidade e à procura da melhor forma; se perdeu vários jogos, está a jogar muito mal e não tem quase hipóteses nenhumas de atingir os objectivos. Esta análise é a mais recorrente - podemos ouvi-la constantemente nas rádios e nas televisões, lê-las nos jornais desportivos ou nas redes sociais. Não tem qualquer mérito porque não depende de mais nada senão das bolas que entram ou deixam de entrar na baliza. Se, por exemplo, uma equipa que está a ganhar consecutivamente começa de repente a perder o analista resultadista não entende a razão do fenómeno,  passando imediatamente a defender que a equipa está a jogar muito mal e já não tem quase hipóteses nenhumas de atingir os objectivos. Serve apenas para quem não tem conhecimentos sobre o jogo: como há que dizer alguma coisa, vai-se pelo mais fácil: os resultados.

2) a PRAGMÁTICA - independentemente dos resultados da equipa, o analista pragmático observa sobretudo o que se passa em campo para lá dos golos marcados e falhados. Ou seja, não pensa apenas no que aconteceu, mas naquilo que poderia ter acontecido. É claro que este tipo de análise é mais rara por motivos óbvios: é preciso conhecer o jogo para além de olhar para o jogador que vai com a bola; é preciso entender um conceito simples mas que por vezes parece complexo que é o da relativização das estatísticas em futebol - neste desporto, os números interessam muito pouco, quase nada dizem do que é importante dizer sobre um jogo; é preciso ser anti-popular em discussões futebolísticas. Como é que um benfiquista chega perto de 4 consócios e lhes diz: "Pessoal, 10 vitórias consecutivas e tal, golos atrás de golos, jogadas bonitas, emoção,  mas... esta equipa tem pouquíssima qualidade defensiva e ofensivamente vive sobretudo do talento de 3 jogadores, não de uma dinâmica colectiva ensaiada e posta em prática pelo treinador"? Vai logo levar com os 4 consócios em cima e provavelmente ser acusado de nem sequer ser benfiquista ou de querer que a equipa perca para ter razão. As pessoas confundem muito aquilo que se quer daquilo que se vê.

Portanto, como é que se chega a 5 de Fevereiro, dia do jogo em Belém, recheado de vitórias e golos, e há a percepção de que neste mês, contra equipas mais fortes e com uma Direcção sem ter mais uma vez ajudado o treinador (inacreditável como não fomos buscar um central e um médio de transição), a equipa vai ter maus resultados e colocar em causa os objectivos da época? Ou então como é que se chega a 5 de Fevereiro, dia do jogo em Belém, recheado de vitórias e golos, com a convicçâo de que mais cedo ou mais tarde o Benfica vai passar para a liderança e consumar o 35 além de passar pelo menos aos quartos da Champions?

Agora escolha. Seja resultadista ou pragmático. Ou então seja assim-assim. Eu confesso: tenho muitas preocupações de Fevereiro.



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Tanto Golo e Tão Mais que Golos



Temos o Avançado Trabalhador, aquele que corre e defende muito, aquele que pressiona alto, joga liberto de egoísmos e cria os equilíbrios no último terço do terreno.

Temos o Segundo Avançado, jogador que liga o meio-campo ao ponta de lança. É um avançado que procura mais criar espaços para o golo do que o concretizar. O Segundo Avançado traz os médios e os extremos para zonas de finalização. O Segundo Avançado arrasta os defesas e proporciona maior liberdade e apoios ao ponta de lança.

E portanto temos também o Ponta de Lança. Posição mais clássica na frente de ataque. O homem golo. Normalmente robusto, rápido no curto espaço, bom de cabeça e com o olhar preso no balançar das redes. O Ponta de Lança tabela em prol de se isolar, o Ponta de Lança dá um passo atrás para finalizar dois passos à frente. O Ponta de Lança tem a arte do último toque, aquele que descansa a bola no grito de golo.

Qual o mais valioso? Provavelmente aquele que é conhecido como o Avançado Completo.

O Avançado Completo não é nada mais que um super jogador que por acaso joga na frente de ataque.
É um avançado que joga para a equipa, que defende, que corre e que acaricia a bola em qualquer zona do terreno; brilha na área, brilha no meio-campo e brilha na linha; joga tanto que em 90 minutos consegue ser egoísta e altruísta em simultâneo, sabe exactamente quando atacar a baliza com os seus pés ou com os pés dos seus parceiros.

Um Avançado Completo é um jogador de categoria mundial, é um avançado de classe, é Jonas.

Jonas é um típico trabalhador. Garante os equilíbrios no último terço, defende e apoia os seus colegas em qualquer zona do terreno.
Jonas é o segundo avançado que qualquer ponta de lança quer. Maravilhosa leitura de jogo, sabe quando largar a bola, entusiasma na sua capacidade de tabelar, combina excepcionalmente com os médios e com os extremos e não se coíbe a ir à linha, seja para abrir espaços ou para cruzar.
Jonas não sendo ponta de lança também o é. É-lhe inevitável. A qualidade é em demasia e a classe de outro mundo. Lê tão bem o jogo que sabe sempre quando aparecer para finalizar; toca tão bem a bola que do seu pé ela sai quase sempre redondinha para o fundo das redes. Não precisa de egoísmo para marcar, não precisa de constantes oportunidades para fazer balançar as redes.

Jonas acaba com a teoria de que um goleador se cria com um posicionamento junto da linha de golo. Jonas tem a sua própria teoria, aquela que nos diz que o goleador nasce na elevação da qualidade e fluxo ofensivo da sua equipa, pois nessa transcendência os seus golos irão aparecer com a mesma naturalidade com que veste de vermelho e branco.

21 Golos à 20ª jornada. É o melhor marcador do campeonato e está a 5 golos da melhor marca das últimas 13 épocas – Cardozo e Jackson com 26 golos em 30 jornadas.
 
9 Assistências – 2ºmelhor assistente do campeonato.

Umas dezenas de assistências para assistências.
 
E muito, mesmo muito, futebol.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Acabar o assunto e os vouchers

Oficialmente já foi colocado um ponto final neste assunto. Ficou esclarecido que o Benfica nada mais faz que receber muito bem os árbitros e que tal atitude está dentro da legalidade do simbólico.

Não oficialmente o assunto continua a correr. Há os adeptos de clubes rivais que continuam a querer um castigo para o Benfica e que insistem na ideia que há uma qualquer tentativa de influenciar os árbitros. Há os oradores do nosso clube que teimam em manipular intelectualmente o assunto, mentindo e tentando transformar a conversa em algo mais ridículo do que aquilo que verdadeiramente é (e que triste espectáculo, mais um, deu o Pedro Guerra ontem).

Dentro da legalidade cada clube recebe os árbitros como quiserem. Os vouchers são legais mas são desnecessários. São dispensáveis e não fazem qualquer sentido.

Se é para insistirmos em receber tão maravilhosamente bem os árbitros deixo a seguinte proposta:
- Acabar com os vouchers.
- Providenciar o serviço mínimo e humano que consiste em colocar no balneário garrafas de água, alguma fruta (nada de fruta exótica ou tropical) e ainda disponibilizar a assistência de um fisioterapeuta.
- Manter a visita ao Museu Cosme Damião.
- Camisola do Eusébio e não só. Até este ano tem sido a do Eusébio e a minha proposta é que a partir de agora se defina um jogador diferente todas as épocas.

Faria ainda outra alteração. A visita ao museu e a camisola só seriam ofertadas em jogos na Luz (não no Seixal) e no primeiro jogo da época que cada um dos 4 árbitros fosse arbitrar em nossa casa.

Assim se acaba com a conversa e com a parvoíce dos vouchers.
Assim se faz algo que, para mim, faz sentido.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O delay que nos mata o golo


Para qualquer adepto de futebol há poucas coisas mais irritantes do que o delay. Talvez aquele sócio do Piso 1 (fui lá uma vez e não volto, já disse) que, atrás de nós, enquanto soltamos o corpo e a voz para a acústica do Estádio, nos ordena que nos sentemos: "está a sentar, isto não é o peão", ao que normalmente tenho por tradição responder: "está a levantar, isto não é a ópera", mas só de vez em quando, não vá a maralha ter de arrefecer os rabinhos e aquecer as raivas contidas, atirando-me, qual Lyonce Viiktória, em voo rasante pelas alturas do anfiteatro. Com sorte, poderia imitar a já antiga Águia do Barnabé que, entre bezanas de tarântulas, ratos e toupeiras, às vezes acabava a fazer compras na Zara do Colombo.

Talvez o assobiador compulsivo, sempre tão empenhado em escolher criteriosamente os momentos do jogo em que se levanta para fazer barulho: ou quando chama o árbitro de "minha querida papoila" ou quando carrega todas as frustrações da sua vida num só instante e as traduz num gesto seco - três dedinhos em riste e dois em curva para a solidão da língua - em direcção aos Taliscas desta vida e acaba com um sempre digno: "joga à bola, palhaço", não sabendo ser ele o verdadeiro protagonista do circo idiota em que voluntariamente se inscreveu.

Apetece sempre qualquer coisa, nestes momentos: um "vai assobiar para o caralho, cabrão!" ou então, numa perspectiva mais preocupada com a higiene do cefalópode: "coças o cu e metes na boca, és pouco porco, és!", mas atentemos que é o Benfica que estamos a ver, é escusado tornarmos o Estádio numa caótica guerra de aldeia de gauleses, entre peixes podres, menires, javalis e um bardo atado a uma árvore. Há-de chegar o dia em que soltemos pequenas lanças de veneno no calor dos cachecóis.




Mas o delay, essa finta dos deuses das ondas de som, tem de estar presente em qualquer campeonato minimamente credível que premeie as maiores irritações para um adepto. O delay é cobarde, esconde-se no ar, esvai-se no tempo, ri-se de nós em silêncio e depois em som, esvoaça por cima, aparece por dentro, cai num fosso vazio, sobrevoa-nos pelo céu. O delay goza-nos, enquanto tragicamente nos relembra a nossa condição humana. Adora mostrar-nos do que é capaz, adora saber-nos impotentes para o controlar. O delay é a prova intangível de que há maldade no mundo.

Quantas vezes vimos jogos em tascas, esperando aquele golo salvador ou temendo o golo da desgraça, enquanto um velho de transístor no ouvido, de pé, mãos acenando ao ar como que antecipando a euforia ou a depressão colectiva, arrisca uma umbilical relação com o divino delay e se faz deus, anunciando, com 3,456 segundos de diferença, o goooooooooooooooooooooooolo? Quantas, delay do céu, quantas? E nós ali, olhando esperançados o ecrã ou morrendo por dentro no temor da tristeza, feitos bonecos humanos nos braços de forças incontroláveis, apenas iscos da existência. O crime de nos negarem a surpresa infantil do gesto do golo.

O eterno caso do gajo que está no café, todo equipado à Benfica, de rádio no bolsinho de onde sai um fio malandro que só lhe acaba nos tímpanos. O herói da tarde. Para ser visto, vai para a mesa central, a primeira, a metro e meio da televisão. Nas jogadas perigosas levanta-se em gestos de desespero, enquanto nós ainda estamos a ver a bola nos pés do Júlio César. Sabemos que não vai dar golo, sabemos da impossibilidade da festa, do remate nas redes, do lance brilhante, da magia do esférico a voar para a baliza. Basta atentar no gesto demoníaco do pobre demónio a pedir mais uma mini - e nós ainda a vermos a bola a passear no meio-campo. Para quê olhar a televisão, se o delay nos goza com a ausência de golo? De que vale encher o peito de esperança naquele lance pela ala se na Luz ainda ninguém tinha levantado o coro glorioso da jogada decisiva?

Como explicar o delay àquele velho sócio do Benfica que está no estádio de rádio ao ouvido a querer ouvir o golo antes do golo acontecer?

domingo, 31 de janeiro de 2016

A criatividade de Pizzi

É importante falar de Pizzi, o jogador responsável pela melhoria no futebol da equipa. Com Jonas e Gaitán,  é ele quem garante a criatividade que desequilibra o bloco adversário.  São raros os jogadores criativos, aqueles que perante os mesmos desafios inventam novas soluções de jogo para jogo. Retirado da responsabilidade defensiva que tinha no miolo, Pizzi pode agora passear-se pelo relvado de forma mais livre, procurando sucessivas combinações colectivas, tendo, claro, em Jonas, o seu destino predilecto. Porque se conhecem, se reconhecem. Sabem a arte um do outro.


São Jonas

Já faltam palavras para a criatividade e bondade de São Jonas. Em todos os jogos novos brinquedos para os benfiquistas.


sábado, 30 de janeiro de 2016

Alberto Miguéns

"Lealdade ao SLB é dizer a verdade, honrar o passado, não é encobrir "maldades e maldadezinhas"; enganar os consócios"

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Sobre vouchers


1) Serem considerados legais é, à partida, um descanso para qualquer benfiquista. Este é um clube que deve sempre ser fiel aos seus princípios de honestidade,  decência e seriedade;

2) Houve quem, representando o Benfica, tivesse dito e/ou dado dado a entender que era mentira que o clube oferecesse vouchers. Já estamos habituados a que as pessoas que representam o Benfica mintam aos benfiquistas; este foi só mais um episódio entre centenas de aldrabices por parte da "estrutura";

3) O facto de serem legais não os justificam. Pelo menos, à luz da ideologia benfiquista. Os árbitros ganham bastante bem, não precisam de ajudinhas de alimentação. Como sócio,  espero que os vouchers tenham acabado aqui.

4) Bruno de Carvalho, na sua saga anti-Benfica militante (que colhe naturalmente muita simpatia entre a maioria de sportinguistas), fez mais uma vez uma figura ridícula. O Sporting está transformado numa coisa sem sentido, lamacenta, paranóica,  odiosa. Tenho a certeza de que o meu avô, grande sportinguista, teria vergonha de ter um  Presidente tão baixinho.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

E que tal irmos ao mercado buscar um médio?


Temos o Sanches (que é um puto que por mais qualidade que tenha, e tem, não deve ter um peso desmesurado em cima), temos o fraco Talisca (que ainda se safa a segundo avançado, no miolo é uma desgraça) e temos o Samaris (que é muito mais um médio defensivo do que um "8"). Vamos atacar os próximos meses, lutando por Campeonato e Taça da Liga e estando nos oitavos da Champions, só com esta malta? E se o puto se lesiona?

Vejam lá isso. Eu ia buscar um médio de grande qualidade, experiente, mais cerebral do que o puto, um gajo que entenda o génio do Jonas, o talento do Gaitán, a criatividade do Pizzi. Um gajo para fazer a diferença entre ganhar alguma coisa ou não ganhar nada.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Fizeste-nos mais Benfica

Hoje é o teu dia, Rei dos Reis. Foste de príncipe da bola de trapos e pés nus no chão até ao trono mundial viajando no talento, na vontade, no sonho. Impuseste o teu nome, a tua marca sobre o relvado; ensinaste a glória do golo e a ternura do abraço solidário ao guarda-redes adversário. Foste um de nós, foste mais do que nós. Foste Benfica, criaste Benfica. Fizeste-nos,  Eusébio, a todos nós, ainda mais Benfica.

Hoje estamos todos sentados à mesa contigo. E brindamos à tua eternidade.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O Benfiquismo simiesco



Têm aparecido por aí uns vídeos do Diamantino a desmascarar personagens como o croqueteiro José Eduardo (também os temos, oh, se temos!) ou o sociopata Bruno de Carvalho (também temos disso, sim, sim!). O curioso é que o nosso Diamante agora tem sido muito elogiado depois de ter sido insultado de todas as maneiras e feitios em anos anteriores, quando era dos poucos que chamava a atenção para a falta de escrúpulos do mister Jesus.

É que o verdadeiro adepto, aquele que acha que gosta mais do clube do que os adeptos com cérebro, vive-o segundo a lei universal segundo a qual "defender o Benfica é defender todos os que representam o Benfica, independentemente das borradas que fizerem". É por isso que passa o tempo a fazer figuras de parvo, ora deixando que funcionários faltem ao respeito ao clube, ora defendendo precisamente o contrário um ou dois meses depois (basta que esse funcionário vá parar ao rival ou simplesmente deixe de nos representar).

Este tipo de adepto, que é o que mais existe, não tem qualquer ideologia além de duas:

- o insulto gratuito a tudo o que mexe decorrente de uma paranóia oligofrénica - está tudo contra o nosso clube: árbitros, fiscais de linha, jornalistas, polícias, stewards, fotógrafos, dirigentes desportivos, a UEFA, a morsa do Oceanário, a Comunidade Vida e Paz e, claro, os próprios adeptos do seu clube, os tais que levam dentro da tola um mínimo de neurónios.

- defender muito estupidamente que a defesa do Benfica se faz pela omissão,  pelo silêncio, até pela mentira. Há problemas? Não sabe nem quer saber, não pode é "dar armas aos outros". É por isso que "é preciso apoiar" seja lá o que isso for. As coisas "resolvem-se entre nós", temos de "cerrar fileiras". Portanto, quando o "Catedrático" - agora rebaixado a "Judas" - empurrou o Senhor Shéu era preciso "apoiar". Como? Fingindo que não aconteceu, que não foi nada de outro mundo; afinal, Jesus era nosso funcionário e nessa condição tinha liberdade de processos. E não só apoiar como, o que também é tido como grande sinal de apoio e defesa do clube entre os símios, insultar todos aqueles que acharam vergonhoso o treinador do Benfica andar a empurrar um homem com 40 anos de mística ao peito.

É assim o adepto sem cérebro: para "apoiar o Benfica", lá na sua demência de apoiadura, apoia tudo o que não é à Benfica que é para ninguém atacar o Benfica. E se, por acaso, numa ou noutra sinapse que lhe aconteça, acabe a ler este texto, ah é certinho, tira logo a conclusão evidente: "Este gajo não é um verdadeiro benfiquista!"

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Indiana Jonas - Em busca da baliza perdida


A expressão que faz o título deste texto é do Nuno Matos e não podia ser a melhor forma de começar a falar em Jonas porque o brasileiro é, ao mesmo tempo, um aventureiro pelos relvados e um descobridor de segredos perdidos. Às vezes parece que só ele tem o mapa que nos levará à baliza; a chave que abrirá a porta sagrada do golo.

Jonas é elegância em estado puro. Veja-se o porte altivo, pescoço estendido, cabelo arrumado, olhar aquilino. Movimenta-se pelo campo como se seguisse uma rota só sua, diferente dos demais - aquela que sabe poder chegar às redes adversárias. Jonas encontra o caminho da baliza por estradas invisíveis aos olhos dos mortais, rotas silenciosas, troços da realidade que só ele vê, que só ele sente, que só ele conhece.

O golo acontece a um determinado minuto mas na verdade o golo já aconteceu muitos segundos antes, quando Jonas correu para a bola e a recebeu e desenhou mentalmente o futuro da jogada e o presente da bola nas redes. Jonas joga futebol de 11 como se estivesse num pavilhão a jogar futsal. Trocas simples de bola, em movimento vertical recua ou sobe consoante a harmonia da harmónica colectiva. Faz de pivot, de placa giratória que tudo mete em movimento.

Nené com sotaque, nunca se despenteia, não se suja, não perde tempo com ninharias estatísticas - está ali para jogar futebol, não para fazer a maratona. Parece até alheado do jogo. Julgamos que Jonas estará pensando no que fará a seguir, se comerá peixe ou carne, que filme ver, qual a série que estará a dar na televisão. Quando a bola está em Luisão ou em Júlio César, é possível que Jonas, enfiado entre os centrais, vá dissertando sobre a maravilhosa poética na escrita de Guimarães Rosa, lembrando o não menos maravilhoso «Manuelzão e Miguilim» sob o olhar surpreendido de uma dupla de defesas que ainda não se apercebeu que a bola vai estar dentro da baliza exactamente daqui a 37 segundos.

Jonas já sabe que vai ser golo. Por isso vemo-lo agora a dizer as últimas palavras sobre o escritor brasileiro e a dirigir-se tranquilamente para a linha lateral, onde vai tabelar com o extremo, voltar para a grande área, dar um toque de calcanhar que vai isolar o médio em frente ao guarda-redes e depois simplesmente, já com a baliza perdida finalmente encontrada, agarrar na arca cheia de golos de ouro e distribuí-los pelo público. Vemos Jonas lançar para cada adepto um golo como se todos os adeptos de futebol merecessem um golo só seu. É esse o grande destino do nosso herói: inventar todos os dias um golo novo para oferecer aos benfiquistas. Porque é ele o centro do Universo do golo do Benfica.


Boçalidade

A reacção da maioria dos sportinguistas à piada de Marisa Matias explica muita coisa sobre os adeptos de futebol - no Benfica ou noutro clube seria exactamente igual. O futebol é amado maioritariamente por gente demasiado doente para rir de si própria.

Pastorinhos

Uma pessoa que acredita no "pé frio" de um treinador é uma pessoa que acredita em beber água para os adversários não marcarem golo ou que é verdade que Nossa Senhora de Fátima tenha aparecido em cima de uma árvore. Não tem nada a ver com o que o futebol é. Boa escolha do Porto.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Leonel Sergio Andrés

A Bola d'Ouro é um prémio que não faz sentido. Individualizar num desporto que é visceralmente colectivo é negar-lhe a sua essência: um jogo que é um equilíbrio constante entre bola, espaço, colegas e adversários.  Esta dança, esta procura constante pela melhor decisão,  este engano de puxar continuamente a bola para terrenos que favoreçam a progressão, isto, o bom futebol, não é quantificável num único jogador.

O craque não é contabilizável. Não são os títulos que a sua equipa ganha, a quantidade de golos que marca, as assistências que faz que o definem como craque. O craque é aquele que faz da sua técnica individual apenas um veículo de transmissão directa do que lhe diz o cérebro. O craque conhece e reconhece a movimentação dos outros a uma velocidade tal que o que faz tem sempre coordenadas definidas não por um qualquer computador ou um treinador mais científico mas pela sua própria interpretação da geografia. É esse farol, essa bússola mágica,  que lhe define o génio.

Não são números num quadro, gráficos para cima e para baixo, estatísticas. Isso são consequências daquilo que faz em campo mas isso não é o que ele é. Porque o que ele é pode, a certo momento e por razões várias, não gerar nas calculadoras mundiais números estratosféricos. Mas o que ele é persiste acontecendo no relvado. A sua capacidade de antecipar, de surpreender, de criar, de gerar a possibilidade do golo - atente-se: a "possibilidade do golo", nem sempre o golo em si -, é isso que o faz craque. É essa a razão pela qual deslumbra e faz sentido.

Não havendo forma de acabar com o espectáculo feérico que é hoje a entrega do prémio ao "Melhor jogador do Mundo", proporia que ao menos se começassem a premiar as parcerias dentro de uma equipa. Em vez de dar prémios individuais, passarmos a dar prémios aos melhores trios do Mundo. Por isso este ano a minha Bola d'Ouro vai para o Leonel Sergio Andrés.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Jonas, o tipo da foto




Este tipo da foto, além de ser o génio que é, consegue ser responsável por meter a nu a forma como se vê futebol em Portugal (diria no mundo, mas os outros que se resolvam). Este tipo da foto, esta preciosidade, este verdadeiro Vinicius de Moraes dos relvados, não lhe chegando andar a escrever poemas pelas Choupanas desta vida, ainda faz com que se destruam todos os mitos sobre o avançado "possante, agressivo e intenso" que querem vender aos adeptos que os compram e papagueiam como verdade universal. Só para continuar em campo, que é onde este tipo da foto gosta mesmo de viver, até marca muitos golos e faz muitas assistências. Só mesmo para meter um tampão nas bocas e elevar os cérebros.  Mas podia o tipo da foto não marcar nem um golo em 10 meses, que continuaria a ser o melhor jogador do Benfica. Estou tão agradecido por ter este tipo da foto a jogar de águia ao peito que até enlouqueço e grito:

OBRIGADO, VIEIRA!

domingo, 3 de janeiro de 2016

E depois da Jornada em Guimarães



O que fica?

Para começar fica o relançar do campeonato.

Estivémos a 7 pontos da liderança e a 5 pontos da vice-liderança mas agora, pelo menos neste contexto, parece tudo bem mais optimista.

Neste momento estamos a 2pts do Porto e a 4 do Sporting. Além disso, também já afastámos o possível fantasma do Braga.

O calendário não está fácil mas a verdade é que, apesar de faltar ir a Alvalade, já fomos ao Dragão, Braga e Guimarães.

O mais triste disto tudo é o mais positivo ser o facto de terminarmos esta jornada só a 2 e 4 pontos dos nossos rivais.

Este negativo positivo é o que nos permite ainda sonhar. Estar a 2 pontos do Porto de Lopetegui e a 4 do Sporting que é Sporting, é péssimo mas mantém as esperanças bem acesas.

Desta jornada fica também um Benfica sem futebol. Fica um Benfica sem ideias. Fica um Benfica frágil defensivamente. Fica um Benfica fraco ofensivamente. Fica um Benfica perdido sem bola. Fica um Benfica previsível com bola.

Fica um Benfica dependente da inspiração das individualidades.
Fica um Benfica que pode ganhar por ter melhores jogadores que os adversários.
Fica um Benfica irreconhecível.

Foi um jogo onde tivémos a sorte da arbitragem, um jogo onde jogámos contra um adversário de contra-ataque e que tem feito um fraco campeonato, e foi um jogo que se decidiu aos 75 minutos com um duplo remate do puto Sanches.

Muito, muito pouco.

O nosso melhor período foi os primeiros 20 minutos. Tivémos mais bola, levámos o jogo maioritariamente para o meio-campo adversário e parecíamos estar a conseguir controlar as saídas vimarenses. Contudo, tudo isto só resultou num remate de longe do Renato.
Após os 20 minutos inicias começámos uma péssima exibição. Oportunidades foram 2 para cada e depois lá surgiu a dupla bomba que forçou o golo e a vitória neste jogo.

Talvez para aquilo que o Guimarães treina, quer, tem e é, consideram ter feito uma boa exibição.
Agora, para nós, Sport Lisboa e Benfica, Bicampeão Nacional, isto foi um jogo desesperante.

Custa-me não ver uma evolução relevante no nosso futebol. É isto que o treinador quer? Ou simplesmente não consegue passar a mensagem?

Deste jogo ficaram os 3 pontos e a certeza que nas próximas jornadas andaremos sempre com o coração nas mãos.

Quando o sistema de jogo está quebrado, quando os processos tácticos estão tão entalados, fica quase impossível analisar as performances dos jogadores.

O individual salva o colectivo que o condiciona.

Um organizador de jogo não organiza sem linhas de passe.

Um avançado não faz a diferença na área se a bola lá não chegar ou se constantemente tiver de recuar.

Um central não pode corresponder posicionalmente perante recorrentes desequilíbrios defensivos.

A nossa equipa está demasiadamente dividida. Há uma exageradamente visível sectorização dos jogadores. Jogamos com posicionamentos e progressões em linhas paralelas que comportam entre si profundos buracos de acção e intervenção.

Apesar das muitas criticas que tenho lido ao Lisandro, vejo-o mais como vítima de um colectivo lento e partido.

Considero como catastrófica a dinâmica colectiva da nossa dupla de meio-campo.

É fácil elogiar o Renato pela idade que tem, por vir do Seixal, pelo seu esforço, força e por ter resolvido o jogo. Marcou e tentou muito mas sinceramente não gostei nada da exibição dele. Culpa própria? Também mas não só.

O regresso do Luisão até pode não acrescentar qualidade individual mas irá certamente proporcionar uma melhor organização e atitude defensiva à equipa.

Todos os outros regressos – do Nico à melhor forma, do Salvio e do Semedo – e aquisições – Cervi e Grimaldo – não vão resolver o problema deste Benfica.

A qualidade individual vai aumentar e assim ficará menos complicado resolver os jogos do modo como já têm sido resolvidos.
Os remates de longe vão melhorar, os cruzamentos vão melhorar, a velocidade das alas vai aumentar e a capacidade de último passe vai melhorar.

Vencer tem de ser sempre positivo. O problema é quando as vitórias são mentirosas e podem levar certas pessoas a acreditar nessa mentira. Vencemos mas jogámos muito mal e há muito que tem de mudar. Só posso acreditar que no Benfica quem lidera o Futebol saiba ver além do resultado final.

Esta Quarta estarei no estádio na expectativa de ver muito mais que uma vitória. Estarei no estádio com a exigência de ver uma clara evolução que nos demonstre haver capacidade para ganhar não só este jogo como todos os que o seguem.


sábado, 2 de janeiro de 2016

DANÇA E FUTEBOL: A COREOGRAFIA DE UM ATAQUE MÓVEL


No relvado ficam marcas invisíveis da movimentação dos jogadores; parábolas,  diagonais, círculos quase perfeitos, gráficos cardíacos, sprints em linha recta paralelos à lateral. Se, em vez de preferir ouvir a voz dos jogadores ou o som que as gotas de água fazem quando embatem na garganta de Rui Vitória, o adepto escolher um lugar mais alto, com melhor vista, mais abrangente paisagem, vai então ficar atento à dança colectiva e individual que o jogo lhe proporciona.



O futebol é dança.  Cada vez mais uma dança moderna, sem pontos fixos nem posições a que fiquem agrilhoados os jogadores. O jogo evoluiu para um espaço de liberdade de que já não sairá, exceptuando quando é pensado e treinado por quem ainda pensa que a dança só faz sentido se o palco tiver marcações a anunciar aos bailarinos o lugar onde devem estar em determinado momento.  Isto não significa que não haja indicação de zonas estáveis por onde começar o bailado, locais vastos de onde se parte para que a sequência seja feita toda ela livre de quaisquer amarras posicionais. O jogo pede áreas longas e largas, referências apenas zonais para favorecer o colectivo, povoar o espaço inimigo em estratégia inesperada.

Na última edição do Jornal de Letras, lemos Daniel Tércio versar sobre dança enquanto traça, sem o saber, o futuro do ataque móvel no futebol: 《Mas o que importa neste caso – e esta a razão deste texto – é que Cunningham, em meados do século XX, adoptou a epígrafe de Einstein “não existem pontos fixos no espaço”. O coreógrafo norte-americano declarou aliás a este respeito: “eu decidi abrir o espaço para o considerar por igual, em qualquer lugar, ocupado ou não,  tão importante como qualquer outro. Num tal contexto não temos que nos referir a um ponto preciso no espaço. Se não existem pontos fixos, então cada um dos pontos é igualmente interessante e igualmente mutável.” Segue discorrendo Tércio sobre a importância da mobilidade livre: “Com Cunningham algo de novo acontece, uma vez que uma sequência não tem que estar condicionada a outra, podendo tudo ser constantemente deslocado, tornando o movimento contínuo.”



O jogo há muito vem dando esta lição evolutiva.  Grandes equipas com grandes treinadores têm testado e voltado a testar com sucesso a possibilidade de uma utopia realizável. De um lugar de ultra liberdade. Nesse espaço em que a primazia vai inteira para a qualidade de movimentação,  para a criatividade individual e colectiva, para a inteligência com que se enfrenta o adversário, características físicas perdem a sua importância e dão lugar ao que verdadeiramente valoriza o bom futebol: cérebros craques em vez de caparrudos “agressivos” e “muito intensos”. Na mobilidade de um futebol sem pontos fixos, o central pode ser um anão, o extremo só ter uma perna, o avançado não ter força para rematar, o médio sofrer de reumatismo. Fundamental é que o treinador seja intenso e agressivo a pensar.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

UM NEGÓCIO DAS ARÁBIAS

Assisti ontem de manhã a uma das cenas mais surreais de que tenho memória. Por isso, e por me ter alegrado o dia de forma surpreendente, resolvi partilha-la aqui convosco, para começarmos o ano em beleza. Depois me dirão se lhe acharam tanta graça como eu achei. Vou tentar que a descrição seja o mais fiel possível, de forma a pintar o quadro com as suas verdadeiras cores. No final, acredito que vão ficar tão incrédulos como eu ainda me encontro.

Sentei-me no Frutalmeidas da Avenida de Roma para tomar um pequeno almoço tardio. Um belo de um copo de sumo depois, ia já no segundo pastel de massa tenra quando reparo na mesa da frente com mais atenção. Confesso-vos que não tenho por costume ouvir propositadamente as conversas dos outros, mas este grupo era ostensivamente espalhafatoso. Sem qualquer desprimor para a profissão, diria que toda a dinâmica de interação dos seus elementos era algo apalhaçada. Chegava mesmo a ter traços de um número de Vaudeville.

Da primeira vez que reparei neles, pareceu-me ver um grupo de gente vestida de forma perfeitamente normal. Mas ao fim de pouco tempo notei que estavam todos com uns óculos à Groucho! Vocês conhecem esses óculos de que falo, com certeza. Com um bigode e um nariz enorme na ponta? Sim? Pois podia jurar que não os estavam a usar segundos antes.
Este pormenor deixou-me alerta. O resto das roupas era completamente normal. Pelo menos até ao momento em que me virei para o empregado durante dez segundos, não mais, para pedir outro pastel de massa tenra. Quando me volto de novo para a mesa, reparo que agora um deles envergava uma daquelas faixas presidenciais, que vemos frequentemente nos presidentes da América do Sul. O pormenor mais curioso era mesmo uma miniatura que ostentava na faixa. No lugar da roseta surgia uma réplica de uma mesa de matrecos, tapada por um plástico transparente. Daqueles plásticos próprios para não deixar saltar as bolinhas, sabem do que falo? Isto é surreal, reconheço, mas juro-vos que é tudo verdade. Estas pessoas mudavam de aparência com a facilidade de um truque de televisão. A minha atenção estava ganha. Não ia descolar mais o olhar da palhaçada, por um segundo que fosse.

O estranho grupo era composto por três membros da direção de uma equipa feminina de matraquilhos e por dois empresários, com os quais se decidia, naquela altura, um futuro patrocínio do clube. Ao que percebi, queriam arranjar à força um valor superior ao do clube rival, o clube com mais títulos lá do bairro. Até esse momento, digo-vos que desconhecia toda esta problemática em torno dos matrecos. Nem tão pouco sabia que existiam equipas femininas da modalidade, quanto mais que estas eram patrocinadas.

O presidente do clube (o tal que envergava a faixa!) era um tipo entroncado, com uma voz rouca e de risco ao lado. Falava com uma entoação cómica, meio afetada. Para vos poder situar melhor, nos diálogos que se seguem imaginem um pseudo beto da linha, sem a educação, mas com todos os maneirismos ampliados. Todo ele em cómico, todo ele em bom! Sentava-se ao lado de dois lacaios, o Zé Inácio e o Zé Otávio. E argumentava com os futuros patrocinadores, donos de uma oficina de bicicletas. Como já referi, queria à força obter uns euros a mais do que os rivais. Os senhores das bicicletas diziam-lhe que não, Presidente, não dá, o seu clube não tem a dimensão do outro, nem lá perto. Pode esquecer. Ninguém lhe vai dar mais do que nós oferecemos, Presidente.
Mas o Presidente não se dava por satisfeito. Limpou o bigode de plástico com um guardanapo e pediu mais um copo de sumo ao empregado. Olhou para os patrocinadores, como quem domina todos os esquemas possíveis, e avançou com uma contra proposta.

—Oiça, amigo. Nós não podemos ficar atrás do nosso rival, percebe? Temos que engan… bom… temos que mostrar aos sócios que somos tão grandes ou maiores do que os outros. Senão vamos perder a cara, está a ver? Os nossos doze associados vão ficar fulos da vida, e com razão. Já lhe disse que somos pela transparência? Não? Pois digo-lhe agora que somos o único clube de matraquilhos nessa cruzada, contra tudo e contra todos, percebe? Nós somos especiais, entende? Olhe, vamos tornar a proposta mais aliciante para o vosso lado. Parece-lhe bem? Vamos negociar também a cedência de direitos de imagem de algumas partes do corpo deste meu capach.. quero dizer, deste meu colega de direção. O que me diz se juntarmos aqui o rabo do Zé Inácio como extra? Deve dar para acrescentar pelo menos… vá, sei lá… mais uns cento e cinquenta paus ao bolo, não será assim?

O desgraçado do Inácio, que bebia nesse preciso momento um pouco de sumo de jaca, mal podia acreditar naquilo que estava a ser dito sobre o seu traseiro, para lá dos insólitos óculos. O pobre acabou por não conseguir engolir o sumo, que cuspiu integralmente no chão de calçada. Os outros quatro elementos do grupo levantaram os oito pés, em uníssono, para os baixarem logo de seguida, sonoramente. Parecia um número muito bem ensaiado, garanto-vos. E, nessa altura, a coisa ficou ainda mais interessante. Os sapatos, afinal, já não eram assim tão normais. Eram pretos, sim, mas muito grandes. Muito maiores do que os pés! E todos com as solas meio descoladas. Abanaram também em uníssono.
Ainda incrédulo e de olhos esbugalhados, Inácio balbuciou como pôde.  O meu rabo, Presidente? Mas… mas o meu rabo não! Não, senhor presidente, o rabo não. Tenho dito!

—Esteja calado Inácio, oiça. É pelo clube. O clube acima de tudo, Inácio. E é só para a fotografia, homem, estes senhores vendem selins, tá a ver? Shôr empregado! — exclamou, de dedo esticado — tenha a gentileza de trazer outro copo de sumo de abóbora aqui para o Inácio.

Nesta altura a conversa não corria como o Presidente queria. O rabo do Inácio não estava a ter a melhor recepção do lado dos patrocinadores, habituados aos grandes modelos para a promoção dos seus selins. E o Presidente decide virar mais uma carta.

—Bom, temos outras propostas para os senhores. Escolham alguém para morder. Eu mando o Zé Otávio morder uma… vá, duas pessoas à vossa escolha. Antes de responderem, reflitam bem na minha proposta. Duas pessoas. À vossa escolha. A quarenta euros a mordidela, vá, vezes dois… bom…isto é… vá, mais cem euros e não se fala mais nisso. Brindamos à proposta?  Otávio, o que é que acha disto? Posso mandar vir o sumo de tomate, para selar o negócio?

Eu garanto-vos que, até este momento, Otávio tinha uma estatura perfeitamente normal. Ficarão, por certo, tão descrentes como eu fiquei com aquilo que vos vou revelar. O Otávio era anão! E, até aqui, tudo bem. Não seria de estranhar esta sua condição de tamanho reduzido. A questão é que, segundos antes, Otávio não sofria de nanismo. Alterou, por artes mágicas, não só a estatura como também o figurino, num piscar de olhos. Em vez do fato, vestia agora um casaco largo, em xadrez amarelo e laranja, com as mangas muito curtas, quase pelo cotovelo, deixando bem visível uma camisa de flanela azul e branca. Gesticulava com fartura, depois de espicaçado pelo presidente. Dizia alto que sim, que mordia, claro que mordo, quantos são? Mordo já o Jojó, carago, odeio o Jojó Juju. Passa a vida a gozar connosco, esse farsante.
O presidente chamou-o a si.

—Ouça, Otávio, o Jojó Juju agora é dos nossos. Lembra-se? Os outros é que são maus, o Jojó virou o paletó ao contrário, está recordado? Agora é dos bons.

Otávio sacudiu a cabeça com movimentos rápidos, durante uns segundos, como quem reclama alguma racionalidade. Enquanto o fazia, pude ouvir, distintamente, o barulho de um chocalho. Não vi o chocalho, admito, mas escutava-o perfeitamente. Devia ser um daqueles chocalhos imateriais da UNESCO.
O Jojó Juju? disse, muito rapidamente. O Jojó é uma pessoa maravilhosa, Presidente. Só lhe encontro virtudes. É um Ser fantástico, presidente!

Nesta altura, e por indicação do Presidente, Inácio tira uma tuba enorme do bolso. Não me perguntem como é que a tuba foi parar dentro daquele sobretudo roxo com bolinhas castanhas, porque eu, neste momento, nem sequer consigo justificar o aparecimento do sobretudo! O facto é que ela apareceu assim, do nada. E que bem que tocava Inácio. Começou a fazer uma belíssima linha de baixo, que manteve nos minutos seguintes, sempre em crescendo, aumentando desta forma o suspense do final da parada, que se aproximava. FOHM-POHM-POHM-POHM, FOHM-POHM-POHM-POHM
A Inácio juntou-se também Otávio, com um ukelele que tirou de uma daquelas malas de executivo com código. E passámos a ter harmonia, com quatro cordas. TINGERLIHM-DIHM DIHM,  TINGERLIHM-DIHM DIHM. O presidente joga todas as cartas que ainda possui, e passa a cantar as propostas. Avança com a mãe, e com o pai também. Com a coleira do Cabeçudo, o seu belo gato felpudo. FOHM-POHM-POHM-POHM, toca Inácio. TINGERLIHM-DIHM DIHM, acompanha Octávio.

—Noto que os senhores patrocinadores não me tomam as dores. Percebem agora que o clube dará tudo o que tem e o que não tem, como vos convém. Têm que entender que eu só não quero ficar mal, quero passar à frente do nosso rival!

Octávio complica os acordes nesta altura, omitindo a tónica e a quinta, que são brilhantemente dadas por Inácio, e faz extensões como pode. A estrutura impõe-se.

—Ofereço-vos um tuc-tuc com três passeios, conduzido por uma mulher de belos seios. Deixem-me tornar o momento musical mais engraçado, enquanto seguro neste berimbau dourado. Agora, sempre que os senhores torcerem o nariz a uma nova proposta, o berimbau ira soar em vossa resposta. BOIN-OIN-OIN-OIN-OIN-OIN.
Seguem-se então um par de meias e umas calças de pijama muito feias — BOIN-OIN-OIN-OIN-OIN-OIN — mas são quentinhas, ora bolas. Uma campainha das antigas, a funcionar? Um disco de velhas cantigas, por estrear? Um corta unhas e este canivete suíço. Como? Não valem um piço? — BOIN-OIN-OIN-OIN-OIN-OIN — Dou-vos licor de tangerina e uma camisa muito fina. Um ferro de engomar, que se recusa a funcionar, mais um belo de um brasão, que é todo feito à mão. Do Otávio, cedo-lhe as cuecas, e do Inácio a sua coleção de bonecas!!!! Cedemos toda a publicidade à volta da mesa de matraquilhos e ainda as camisolas suadas das nossas jogadoras para os vossos filhos. Pintamos os bonecos com as vossas cores, e assim. Até os pomos sentados, em cima de um selim!—BOIN-OIN-OIN-OIN-OIN-OIN.

O desespero é cada vez mais evidente na cara do presidente, que decide jogar a derradeira cartada.

—Já vos falei que somos os maiores defensores da transparência nos Matraquilhos? E se eu vos cedesse a transparência?

Depois desta quebra de rima, fez-se silêncio absoluto. Octávio e Inácio tinham parado de tocar, perante a antecipação da oferta. A tampa não, presidente. Tudo menos a tampa. É aquilo que nos define, Presidente, aquilo que nos torna tão diferentes, tão especiais.

—A rivalidade acima de tudo, meus queridos lacaios. E agora, senhores patrocinadores? O que me dizem? Cedo-vos a tampa transparente, para adaptar em cima de uma mesa de matraquilhos. Já lhes tinha dito que somos os únicos defensores da transparência? A transparência acima de tudo, meus caros! Então? O que me dizem?

E assim se fez o negócio e veio bebida e comida para todos. Os patrocinadores estavam em delírio. Ficaram com os  direitos sobre tudo o que podia ter algum valor. São os verdadeiros donos do clube. E excederam a proposta do rival nuns míseros cem euros e um selim. Dos mais baratos. 

No meio desta confusão de sumos e pasteis, com o Presidente a ajeitar a faixa e o cabelo, chega um terceiro lacaio, que tinha estado à procura de um lugar para o carro durante todo o tempo da negociação.

—Ó Zé Eduardo, só agora é que você chega? Para a próxima vem você ajudar-me e fica o Inácio encarregue de arrumar o carro. Recusou-se a ceder os direitos de imagem do rabo nas negociações, acredita? Ao menos o seu está sempre disponível.


E foi de lá, bem do meio de toda essa disponibilidade, que o Zé Eduardo tirou um sax tenor, juntando-se ao resto do grupo. Sairam em êxtase do Frutalmeidas e foram a celebrar o negócio pela rua fora, tocando e dançando, e com um novo e adequado figurino. Estavam todos vestidos de árabe.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Dois rápidos comentários sobre a histeria dos supostos acordos milionários dos 3 grandes



1) É inadmissível a forma como a maioria da Comunicação Social apresenta os números,  não discriminando o que tem de ser discriminado e fazendo crer que o Benfica é o clube que menos recebeu quando na verdade é o contrário;

2) Tendo em conta a dimensão do Benfica em relação aos seus rivais a diferença de valores deveria ser, se houvesse competência,  substancialmente mais elevada. Mais uma vez se comprova que Vieira só é negociador implacável na fantasia da propaganda.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

FELLATUS INTERRUPTUS

CRÓNICA ALGO FICCIONADA SOBRE A EVA, O JOSÉ E O MAGNATA RUSSO E SOBRE A EQUIPA QUE TODOS JULGAVAM SUA

O magnata russo foi buscar o José para treinar a sua equipa de futebol. Os sócios pediram o José e agora os sócios têm o treinador que sempre quiseram, disse o magnata russo, quase como quem antevê um chorrilho de problemas.

O José elaborou um plano a vários anos para a equipa do magnata russo, que envolvia uma articulação complexa de todas as engrenagens envolvidas na gestão de uma equipa de futebol de primeira linha. Absolutamente talhado para o sucesso, o plano de José começa a ter frutos ao fim de uma época. Ganha um campeonato, sem discussão. Nem sempre a praticar o futebol mais bonito, mas José é um cientista do jogo. É meticuloso e altamente atento ao pormenor. O seu xadrez defensivo é feio mas quase perfeito.

José tem uma personalidade forte, capaz de deixar sem fala o jornalista mais atrevido. Toma decisões e morre por elas, se achar que tem razão. E foi aqui, numa destas decisões, que entrou Eva.

Eva era médica da equipa do magnata russo. Fora contratada para dar assistência aos jogadores, em campo e fora deste. O magnata russo ter-se-á esquecido, porém, de especificar em contrato qual o tipo de assistência que não queria que Eva desse fora de campo. Segundo notícias de alguns tablóides, o ex da escultural Eva veio chorar a público que a namorada, para além de postar aquelas fotografias provocantes no facebook, faria também atendimento personalizado ao domicílio de uma quantidade enorme de jogadores da equipa do magnata russo.

E é aqui que tudo se torna muito confuso!

O magnata julga que a equipa é dele. E, supostamente, assim será, por direito. Foi o magnata que a comprou, como se de um brinquedo se tratasse. O magnata põe e dispõe dos seus gasosos milhões para contratar e despedir quem quiser, organizando o seu brinquedo de luxo como um negócio altamente rentável.

O José, cujo ego tem as bolas a roçar o pico do Everest, refere-se à equipa como sua, e aos jogadores como sendo os seus jogadores. Mai time, mai plaiars. E serão, José, és tu que os pões a jogar. Tu é que decides as tácticas. Tu é que decides quando, onde e como treinam. Tu decides o que eles comem, quando comem, quem cozinha para eles. Mas esqueceste-te de um pormenor na gastronomia planeada da equipa. Não decidiste quem podia comer a Eva. Nem como. Nem quando! E quando achaste que era hora de dispensar a Eva, já era tarde demais.

A Eva entrou no jardim para socorrer o Eden, que estava caído no chão enquanto chorava alto pelos carinhos da bela mulher. Nesse final de jogo fatídico, Eva corria solícita, gloriosa, de cabelo ao vento e mala de cruz na mão, enquanto José espumava de raiva. E tudo isto perante o olhar incrédulo do magnata russo na bancada de honra, em total negação. Afinal, esta era a equipa de Eva. Ela era a única a assistir noite e dia, sem parar, qualquer jogador que solicitasse os seus cuidados.

Depois disto, meus caros, o fellatus ficou para sempre interruptus e José perdeu a equipa. O magnata russo ficou a ver passar os seus navios, ao longe, continuando sem perceber nada.

Agora, a equipa perdeu o José, o magnata perdeu um bom projecto, os jogadores perderam Eva e também a cara. O único que terá ganho alguma coisa foi mesmo o ex da Eva, mas não creio que goste particularmente do acréscimo.