quarta-feira, 13 de março de 2019

Tremida Luz Vacilou na Torre

"@Daniel, ainda n ouvi o que achaste do jogo de ontem. Partilha com a malta"

Em resposta optei por vir aqui em vésperas de jogo decisivo da Liga Europa deixar a minha ideia sobre o jogo na Luz com o Belenenses - até como uma espécie de antevisão ao jogo na Luz com o Zagreb. 

A análise a este jogo pode-se dividir praticamente em 3 partes: Equivocos do Lage, Acertos do Silas e Vacilos Individuais.

Começando pelo Benfica. Foi uma exibição satisfatória e suficiente para vencer este jogo.
Contudo satisfatório é insuficiente na Luz. E por isso um Benfica tremido.

Positivamente destaco a exibição do Ferro - um central de corte limpo, concentrado e com pés - destaco o golo do Jonas e destaco a capacidade de marcação e recuperação de bolas do Florentino.
De resto vimos vários jogadores muitos furos abaixo, algo também potencializado por menores acertos colectivos.

Há que analisar a dupla de ataque e a dupla de meio-campo. Jonas e Félix não são incompatíveis contudo são menos compatíveis do que jogando qualquer um deles com o Seferovic. Os movimentos não são os mesmos mas as zonas de acção são muito parecidas. Ambos têm tendência a recuar para vir buscar jogo e ambos procuram a mesma zona de finalização. É uma dupla que precisa de muito mais trabalho - treino a treino.

A dupla de meio-campo foi um equivoco do Lage. Na Luz contra o Belenenses a dupla Gabriel com Samaris/Florentino funcionaria mas a dupla Samaris e Florentino não. Num jogo em que estamos 90% do tempo a atacar fica-nos a faltar criatividade e visão de jogo no centro do terreno, o que nos obriga a recorrer constantemente a lateralizações e cruzamentos - o André Almeida passou o jogo a bombear bolas para a área. Não havendo Gabriel foi um equivoco do Lage ter optado por colocar Florentino ao lado do Samaris. 

Também nas substituições o treinador do Benfica não foi feliz. Tanto no timing como nas escolhas. Por exemplo, depois do 2-0 seria importante descansar o Jonas e colocar um médio ofensivo que jogasse de frente para a defesa adversária colocando-a constantemente em sobressalto.

Contudo, apesar das más exibições e dos equívocos técnicos, as opções do treinador foram suficientes para no decorrer da segunda parte estarmos a vencer por 2-0. Não foi por aqui que empatámos o jogo.

O Belenenses foi uma verdadeira equipa no Estádio da Luz. Talvez desde o jogo do Moreirense não visse um adversário do Benfica jogar tão bem no nosso estádio.
O Silas percebeu que o Benfica do Lage não se intimida com pressão alta e optou por fechar todos os espaços defensivos, retirando possibilidades aos criativos de combinarem em tabelas. Linhas recuadas e defensivamente muito compactos - uma autêntica torre. Apesar dos cuidados defensivos foi uma equipa que não procurou só defender. Sem chutão para a frente tentaram várias vezes construir rapidamente jogadas de ataque. Uma equipa que gosta e sabe sair a jogar, que troca bem a bola e que tem criatividade suficiente para dinamizar um jogo. No meio campo o Eduardo encheu aquilo, com e sem bola. O Kikas fez um jogão. E o Licá parece finalmente renascido.

Mas lá está. Sinal tremido do Benfica e sinal positivo do Belenenses mas mesmo assim o suficiente para conseguirmos os 3 pontos. Estes só nos fogem devido a dois vacilos. Uma parvoíce do Odysseas e mais uma paragem do Rúben Dias. Dois erros que nos custaram dois pontos.

A Luz do Benfica tremeu contra a Torre do Belém mas só foi mesmo abafada pelos vacilos de dois já algo usuais nestas andanças.

Este jogo tem pelo menos de servir como aprendizagem para o jogo com o Zagreb e como lição para a abordagem à próxima época.



quarta-feira, 6 de março de 2019

O Real e os resultadistas

O mundo futebolístico foi ontem abalado por um terramoto de proporções épicas com a eliminação do todo-o-poderoso Real Madrid aos pés de um jovem, imberbe e profundamente talentoso Ajax. As ondas de choque de tal resultado têm-se multiplicado e prometem não parar nas próximas horas, sendo mesmo imprevisível o seu alcance final.

As reacções ao sucedido têm sido mais que muitas e abarcam uma infinidade de gostos, claro está. Porém, há um traço comum à esmagadora maioria delas: a surpresa, a maravilhosa descoberta de um mundo novo, como se este Real anárquico, aleatório e anémico fosse uma verdadeira novidade. Lamento, não é. Este Real é, aliás, bastante requentado, sendo que a única novidade reside exactamente nos tantos que só agora o descobriram, mesmo que nos últimos 4 anos tenhamos assistido às mesmas coisas que ontem vimos.

E quem desconfia desta bipolaridade de reacções perante factos idênticos, bastar-lhe-á recuar umas semanas no tempo e confrontar o que foi dito sobre o Ajax x Real Madrid, mesmo que nesse jogo a sova holandesa tenha sido, para mim, maior. Diferença? Nesse dia quase nada entrou e ontem quase tudo deu golo, só! Ou seja, entre a primeira mão e a segunda, apenas o resultado foi diferente, tudo o resto foi igual. Os “putos” holandeses deram um arraial de “pancada” nos múltiplos campeões europeus, mas como não ganharam… nada a dizer. Porém, já nessa altura Solari era um profundo incompetente, já este Real andava ao sabor do vento e do que cada jogador soubesse dar, tal qual o era no tempo de Zidane, ainda que o francês, ao menos, colocasse mesmo os melhores em campo, em vez de ostracizar jogadores como Isco, Asensio ou Marcelo.

Os anos passam e continuamos a esperar que os resultados nos indiquem o que dizer, em vez de o dizer independentemente dos mesmos. Agora, será pacifico dizer-se que o Real é um barco à deriva e sem que o seu treinador faça o que é suposto um treinador fazer: dar ideias e identidade que transcendam as individualidades. Dizer isto nos tempos de Zidane, nos tempos em que a mesma aleatoriedade e os mesmos impulsos individuais davam títulos europeus era crime.

Por isso, sim, esta queda no precipício era uma tragédia pronta a acontecer a qualquer instante, desde há 4 anos, e sim, esta eliminação chega com 4 anos de atraso. E porque gosto de falar para lá do resultado, também sim, este Ajax imberbe, talentoso e destemido, também não prima pela organização e, tal como o Real, viverá e morrerá pelo caos de uma desorganização que se sustenta no talento individual e no perfil aproximado dos seus melhores (e tão bons que são!) jogadores. 

Queda no Voou pelo Abismo em Lageball

Vamos ser realistas. Esta época foi preparada para na próxima entrarmos directamente na Liga Europa. Sem conquistas, sem as dezenas de milhões da Champions, sem valorização de jogadores e com decréscimo do prestígio do clube. O objectivo passava por fazer valer o lema “Si enim non facile”.

A época começou sem que se corrigissem os erros da anterior, evidenciando-se ainda mais as lacunas dos anos anteriores.

Não nos enganemos. No primeiro fim-de-semana de 2019 estávamos arrumados. Já eliminados da Liga dos Campeões era muito difícil acreditar que fossemos capazes de eliminar o Galatasaray nos 16-avos da Liga Europa, que fossemos a Guimarães conseguir a qualificação para a meia-final da Taça de Portugal e muito menos que conseguíssemos voltar à luta pelo título.

Passados dois meses fomos ao Dragão virar um resultado e garantir os 3 pontos que nos colocam na liderança do campeonato. Isso estando já em vantagem na meia-final da Taça e a disputar os 8-avos da Liga Europa.

Um Benfica em cacos, onde as vozes se dividiam entre a necessidade de mandar embora o treinador e o receio de uma chicotada psicológica em Janeiro. Uma equipa sem treinador, cheia de dúvidas e com um presidente na casa da Cristina a jogar às cartas enquanto saudoso do anterior treinador apontava os seus esforços a José Mourinho.

E neste caos há por lá um treinador interino a fazer um trabalho provisório enquanto não se arranjava alguém melhor.

Neste caos surge um homem simples, um homem do futebol que respira futebol e que adora futebol. Chega, abstrai-se de todo o circo mediático criado pelo seu próprio presidente, ignora o fraco papel que lhe foi dado, e somente se preocupa em colocar os jogadores a treinar e a jogar futebol. 

Fá-lo sem o patrão da defesa – Jardel, sem o patrão do meio-campo – Fejsa e sem o melhor avançado e jogador da equipa – Jonas. Sem reforços de Inverno. Com metade dos reforços de Verão afastados. 
E rapidamente chegou ao coração dos Benfiquistas. Tudo porque fala sobre aquilo que treina e joga – Futebol.

Bruno Lage consolidou uma nova dupla no eixo-defensivo com Rúben e Ferro; Bruno Lage criou um novo duo do meio-campo revitalizando o Gabriel e limpando o pó ao Samaris; Bruno Lage recuperou a melhor posição do médio mais criador da equipa – Pizzi – retirando-lhe obrigações defensivas e colocando-o mais próximo tanto dos criativos da equipa como das zonas de definição; Bruno Lage percebeu o Rafa; Bruno Lage deu-nos uma nova dinâmica ofensiva retirando todo o potencial que por aqui já era reconhecido ao Seferovic e dando-nos finalmente o verdadeiro João Félix; Bruno Lage apresentou-nos o substituto natural do Fejsa – Florentino; Bruno Lage até nos mostrou que afinal até há uma alternativa ao André Almeida – Corchia.

É um novo Benfica. Um novo 11, uma nova táctica mas acima de tudo um novo futebol. Um treinador que adora o treino e percebe os jogos como um reflexo do que é treinado. Mais que um Benfica com uma ideia muito positiva de jogo, temos um Benfica com processos, com dinâmica, com um guião de jogo. Uma equipa que faz sentido. Temos uma identidade cada vez mais vincada.

Em Janeiro tínhamos a sensação que podíamos perder (ou empatar) qualquer jogo, fosse na Luz ou não, fosse contra equipas de que escalão fossem.

Hoje vivemos um sentimento oposto. Hoje sentimos que podemos vencer qualquer jogo em qualquer terreno. É uma crença muito emocional mas sustentada naquilo que vemos a equipa produzir. Os jogadores transmitem uma confiança tremenda. Não daquelas confianças frágeis induzidas por life coachings mas sim daquelas inquebráveis construídas pela percepção da qualidade do trabalho e do talento que têm.

O que temos pela frente?

Jogo em Alvalade para controlar e garantir mais uma final no Jamor contra o Porto.

Dois jogos com o Dinamo Zagreb para a Europa. Com Lage até já estamos a sonhar com mais uma final nesta competição.

E 10 jogos para o campeonato. 10 jogos. 10 vitórias. E eu acredito.

Belenenses (C)
Moreirense (F)
Tondela (C)
Feirense (F)
Setúbal (C)
Marítimo (C)
Braga (F)
Portimonense (C)
Rio Ave (F)
Santa Clara (C)

Uma época no lixo que pode muito bem se transformar numa época de dobradinha com brinde europeu.

Este é um dos grande méritos de Bruno Lage. Nós benfiquistas podemos novamente sonhar, viver entusiasmados. E nem sequer precisamos de ter preocupações em termos os pés nos chão. O nosso Treinador permite-nos essa extravagância pois ele próprio se encarrega de manter a equipa bem acordada enquanto nós adeptos vamos sonhando. 

Estivemos juntos ao abismo e muitos consideraram que despedir o treinador seria dar o passo em frente. E foi. 

Um passe vertical em frente a rasgar o abismo em Lageball.



segunda-feira, 4 de março de 2019

LAGENIAL



Os grandes treinadores são moldados em forja de múltiplas competências, como é sabido, mas só alguns possuem o verdadeiro toque de Midas. 
No clássico deste fim de semana assistimos a uma demonstração cabal da importância do treino e da comunicação no trabalho e nas ideias do novo treinador do Sport Lisboa e Benfica. Embora tenha sido este o ponto de partida para tudo o que as equipas de Lage fazem em campo, há momentos sem bola que nos ficam na retina. É de um desses momentos que faço a crónica agora.


Já li vários comentários por essas páginas fora, em várias plataformas diferentes, onde se vangloria o facto de Rafa e Lazarus Samaris terem vindo apressar as comemorações do primeiro golo porque queriam dar rapidamente a volta ao jogo. Mas isso não foi o que eu vi, e creio que tão pouco terá sido aquilo que aconteceu, objetivamente.


Bruno Lage é um eterno estudioso e profundo conhecedor do Jogo, em todas as suas vertentes. É claro que a idiossincrasia portista é sua conhecida: a violência, as agressões, a intimidação ou os célebres pisões, apregoados por Jorge Andrade, foram vistos e analisados pela cognição do nosso treinador ao longo de toda a sua vida. Lage sabe bem o que é o ambiente no Dragão, e sabe melhor ainda que não se deve espicaçar um ninho de vespas. Durante a semana, seguramente, foi passada uma informação importante a todos os jogadores do plantel: não provocar ninguém e ter sempre cuidado com os possíveis festejos; sobretudo, desvalorizar todas as provocações vindas do lado de lá, quer venham de jogadores, do banco ou dos adeptos azuis mais broncos. Todas estas pessoas são coniventes com uma história de enganos, e Lage sabe-o bem; uma história de domínio pelo ilegal, pelo ilícito, pelo compadrio e pelas trocas de favores. Uma história nojenta onde até estiveram metidas a política, a polícia e o sistema judicial locais, reforçando a ideia de que o FCP é o clube regional do compadrio; é o clube das reuniões em casas de putas, famosa parte da moeda de troca para as nomeações e os resultados do fim de semana seguinte. E é este o panorama que todos encontramos quando nos deslocamos ao Dragão; não se trata apenas dos onze arruaceiros em campo ou da equipa dos descolhoárbitros. Em cada dois espectadores, pelo menos um será vértice de violência, estupidez e intolerância, pronto a explodir a qualquer momento, formando rápida e instantaneamente uma rede de estupidez com o calhau mais próximo por cada coisa que menos lhes agrade. 

Esta é a estupidez que Lage sabe que pode atrapalhar o bem jogar. Pode atrapalhar a concentração dos jogadores, e sobretudo dos mais novos, que são muitos! (obrigado Lage). Felix celebrou daquela forma porque aquela é a sua celebração, como vimos, por exemplo, no jogo anterior, depois daquele maravilhoso golo a dois tempos e a dois pés. Não é nenhuma mensagem de provocação; não é nenhuma resposta a nada que a morcandade tenha dito durante a semana. É a celebração de um miúdo de 19 anos, tão somente. Mas Rafa tinha a lição bem estudada, tal como Lazarus Samaris. Vamos, puto, levanta-te porque aqui não estás bem. Vê-se bem, pela reação do Menino Feliz, que este conhecia as instruções, mas que se “esqueceu” por um momento. É normal. Depois chegou Samaris e tratou ainda de afastar o resto da malta daquela zona azulada. É mesmo assim que tem que ser, os mais velhos e mais experientes a tomarem conta dos mais novos.


Não tenhamos dúvidas que tudo isto foi parte da estratégia de Lage para o jogo no Dragão: entender muito bem o adversário em toda a sua idiossincrasia. A forma como abraça aquele calhau baixinho e careca, na altura das agressões dos jogadores do FCP, é maravilhosa; imagino-o a dizer então, então, isto é assim, já sabes, é futebol, não há muito a dizer. Concentremo-nos no jogo. Toma lá um abraço de fair play e diz-me agora onde é que fica o teu ódio e a tua provocação. Ainda consegues? Não? Ok, somos todos amigos, já percebeste que aqui não mora um calhau mas alguém bem formado, que acredita no sucesso do trabalho, do esforço e da dedicação. Mas, sobretudo, da inteligência.
Mesmo o próprio Conceição esteve relativamente controlado, pelo menos até ao momento em que achou que não deveria cumprimentar um miúdo que tem idade para ser filho dele, do alto da sua falta de carácter e desportivismo.


Este não foi apenas o clássico do Bem contra o Mal; em 2019, Lage deu lições de civismo e de inteligência pura, ao calar tanto ódio com uma postura exemplar. É também assim que se educa, mister, pelo exemplo. Obrigado.


sexta-feira, 1 de março de 2019

O Benfica é o BIG BANG



É-me estranho ler sobre o mundo anterior a 1904. As pessoas que existiram, os livros que escreveram, as brigas que tiveram, os quadros que pintaram, as músicas que inventaram, os dias sob o Sol de costas arqueadas, as cartas profundas que - a pena, a giz, a sangue - choraram, os amores que sentiram, as fomes, as tristezas, as guerras, os desvarios. Que espécie de humanidade era aquela, sem Benfica?

Quando Fernando Pessoa nasceu, os 3 oitos que lhe dão origem não são contemporâneos do Estádio da Luz. Como pode um homem escrever tamanha obra celestial sem ter provado as bifanas das barracas de madeira, ter abraçado desconhecidos sob a chuva, chorado desalmadamente uma derrota, envergado cachecóis e mantos sagrados, ter acalmado desamores na ternura do voo da águia, ter desistido de amigos por questões de paixão, ter vibrado e sonhado com golos do Benfica? Enquanto escrevia, numa alucinação de sentires e pesares, Pessoa nunca teve aquele conforto de alma de saber-se benfiquista.

Isto não está correcto, não pode ser verdade, há milagres escondidos na dimensão do mundo. Como Deus e outras patranhas similares, a invenção de que o Benfica nasceu em 1904 advém de uma necessária ilusão para que as notas toquem todas ao mesmo tempo e façam sentido. O Benfica não nasceu em 1904, o Benfica já existia muito antes de haver escritas e livros e pinturas e noções básicas de civilização. O Benfica nasceu no primeiro ser humano que surgiu na Terra. Quando um peixe, estafado de água e algas, se decidiu a caminhar, aos soluços, pela imensidão das veredas e coqueiros de uma ilha, meio grogue, já o Benfica o esperava nos areais da humanidade. Ainda não havia propriamente mundo nem humanos e já havia Benfica. O peixe criou patas, depois coluna vertebral, olhos e cabelos, noções de pele, medos, certezas, derivações de coragem, tudo isto enquanto o Benfica o alimentava de amor e daquilo que ele precisava para criar, não sem hesitações e despautérios, aquilo a que mais tarde se chamaria: o mundo.

Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil em 1808 (dois oitos, menos um que o do Pessoa), já D. João cantava loas ao benfiquismo, envergando no peito uma declaração de liberdade e independência: “Crio este país como forma de potenciar jogadores para uma realidade que, apesar de distante no tempo, criará grande discussão no seio do reino de Portugal e do Benfica”. Embarcado em fuga, D. João já inovava pela clarividência de raciocínio e premeditação, fomentando prospectores de talentos e novas abordagens aos mercados mundiais. D. João era naturalmente benfiquista, pleno de criatividade, astúcia e ilusão, alheado dos factores universais das valorizações de activos. Criou o Brasil só para potenciar Jorge Gomes e os demais que se lhe seguiram, como Mozer, Aldair, Ricardo Gomes e, os dois expoentes máximos da epopeia, Valdo Cândido de Oliveira Filho e Jonas Gonçalves - o golpe transcendental em D. Miguel e seus anafados absolutistas.

O que fez história e ficou na posteridade – admiremos Cosme Damião por isso – foi ter o nosso “fundador” encontrado, na Praia da Adraga, um notável manuscrito de D. João no qual este versava sobre a fundamental importância de criar em Portugal um clube que desse corpo à ideia universal de benfiquismo. Escusamo-nos a revelar todo o conteúdo do maravilhoso documento, chega-nos a ideia de que Cosme absorveu, criou e recriou à sua imagem – homem de dignidade admirável -, fazendo do Sport Lisboa e Benfica aquilo que ele é, apesar dos apesares, hoje. O que nunca ficou escrito, e é pena, é o facto de D. João, também ele, ter encontrado na praia cartas dos antepassados benfiquistas. Em resumo: uma sequência peculiar de descobrimentos de garrafas nas quais a História do Benfica é contada desde os tempos primeiros em que nem sequer havia giz, sangue, penas ou vidros. Um mistério que ainda está por ser descoberto, provavelmente advindo de relações internacionais com extraterrestres.

Festejemos, no entanto, o último dos humanos: o bigodudo Cosme Damião, o autor da proeza genial, e rara, de dar vida a um sentimento que percorre milénios de humanidade e existência. Naquela reunião na Farmácia Franco, Cosme nunca falou do Cosmos, limitou-se, bem, a inventar o Benfica. Agradeçamos, em devida vénia, respeito e amor, ao nosso ilustre bigodudo por isso. Não esquecendo, agora que conhecemos a verdade dos factos, que o Benfica nasceu do mar. E antes dos astros. O Benfica é o Big Bang.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O que quer do jogo Bruno Lage?


O estado eufórico da comunidade Benfiquista e do futebol em geral com os primeiros jogos (e que jogos!) do Benfica de Bruno Lage tem sido retumbante. Eu, claro está, incluo-me nesse grupo de pessoas que se deleita ao ver o melhor plantel em Portugal a jogar sob o desígnio de uma ideia e de um jogo coletivo, finalmente!

Mais do que os resultados (e são excelentes, mesmo com a derrota frente ao FC Porto), o que tem impressionado, tem sido a rapidez com que Bruno Lage tem transformado uma porção de terreno terraplanado, num belo parque de diversões, em menos de dois meses e a jogar, consecutivamente, duas vezes por semana.

E esta relação entre o tempo para treinar e a qualidade coletiva que a equipa apresenta, jamais pode ser ignorado, seja qual for o prisma de análise a este Benfica. De facto, o contexto com que Bruno Lage se deparou não podia ser pior: Equipa em crise de resultados, sem o mínimo de identidade, com zero hábitos de bom treino e, pior que tudo, sem tempo sequer para respirar, quanto mais treinar e implementar uma ideia.

Contudo, e apesar de parecer um presente envenenado, Bruno Lage nunca apresentou qualquer sinal de descrença ou enfado pelo que o destino lhe tinha reservado, não! Pegou no que tinha, no que queria e foi a jogo. Arriscou, continua a arriscar (o onze de ontem é um bom exemplo) e sem nunca se escudar em contextos, tem apresentado qualidade de trabalho (não falo de resultados), contando ainda com alguma felicidade, diga-se (e aqui sim, já falo de resultados), que também é necessária num contexto tão difícil.

Aqui chegados, e feita a ressalva sobre o enorme mérito de Bruno Lage, importa-me procurar perceber o que Bruno Lage quer do jogo e para o jogo, isto é, que tipo de ideia tem do jogar da sua equipa e o quanto faz depender essa ideia do adversário que terá pela frente a cada jogo.

Tendo em conta as palavras de Bruno Lage ao longo do tempo, seria de esperar uma equipa que procurasse jogar o mais tempo possível em organização ofensiva e em posse, porém não tem sido bem isso que a equipa nos tem dito no relvado.

Se nos primeiros jogos me parecia natural atribuir essa falta de congruência entre o jogo e as palavras do treinador à escassez de tempo para implementar algo, porque, de facto, jogar de forma coletiva e competente em organização ofensiva e em posse de bola leva o seu tempo, o que o jogo de ontem nos trouxe (bem como boa parte do jogo na Luz frente ao Sporting), não foi bem um Benfica de posse de bola e ataque organizado, muito pelo contrário, ontem vimos uma equipa recolhida no seu meio-campo em organização defensiva e a procurar saídas rápidas para o ataque, isto é, a absoluta antítese da ideia que ficava pelas palavras de Bruno Lage.

Sublinho: Não estou a falar da constituição do 11 (com a qual apenas discordo de Salvio e Cervi, que eu nunca escolheria para coisa nenhuma), estou a falar da ideia coletiva que ontem foi levada a jogo.

Naturalmente que mesmo em organização defensiva se notou a colossal diferença entre o que existe face ao que existia, mas ontem não achei que se Rui Vitória ainda fosse o treinador, a ideia tivesse sido diferente daquela. A qualidade dos comportamentos coletivos subiu absurdamente, mas a ideia… foi um fiasco, para mim. Não gostei, não gosto nem nunca gostarei de equipas que se guardem e escondam do jogo, deixando o seu destino entregue à competência de quem tem a bola. Felizmente, tal como já havia sido visto frente ao FC Porto, este Galatasaray deixa muito a desejar no que diz respeito à qualidade, caso contrário, caso houvesse um médio defensivo diferente de Fernando, por exemplo, dificilmente o jogo teria sido a tranquilidade que foi. Podemos achar e dizer que fosse esse o caso, não fosse Fernando o jogador limitado ofensivamente que é, Bruno Lage teria uma abordagem diferente ao jogo neste aspeto específico. Ok, até posso aceitar como justificação verdadeira, porém o que mais me importa saber é se, enquanto coletivo, esta ideia passiva do jogo é para manter nas partidas deste perfil ou se, de facto, é para sermos a equipa ofensiva e de posse que Bruno Lage “prometeu”.

Em suma, há duas ideias a reter, mais pela verificação do que pelo que já se sabia de antemão: Tendo Rui Vitória, qualquer escolha (e sublinho o “qualquer”) representaria uma evolução enorme. Porém, face ao contexto, Bruno Lage demonstra que não é apenas o “qualquer”. Não, quer mais do que isso, falta saber o quê exatamente.

A resposta será dada pela equipa daqui até final da época, mas não deixaria de ser engraçado que os jornalistas, quem têm tido Bruno Lage à disposição a uma média de 4 vezes a cada 7 dias, colocassem este tipo de questão ao treinador, em vez das habituais, boçais, patéticas e já cansativas questões redondas e sobre temas laterais que não são controláveis pelo treinador.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Declaração a um Amor

Aqui me encontro solteiro só porque não te posso ter só para mim.
Mas hoje me declaro a ti, neste dia de São Valentim.

Sport Lisboa e Benfica te amo, teu é o meu coração
Sempre que te vejo em campo todo eu uma erecção.

Não tenho pudor em admitir, não tenho receio de quem me ouvir
Mesmo à distância neste dia 14 só tu me farás vi… sorrir.

Felizmente vivemos nestes tempos modernos onde à distância te posso olhar
E assim mais logo em vídeo-chamada pela televisão te irei adorar.

Pelo relvado os teus movimentos, a tua cor, os teus passes me vão excitar
Com a bola a rolar, a magia a pairar, num orgasmo de delírio me farás gritar

Gooooooooooooooooooooolo

Que prazer de te ver triunfar.

Vamos Benfica!

Vamos meu amor!

(Gente casada ou em compromisso não se preocupem que este é o tipo de adultério mais maravilhoso que há)



sábado, 9 de fevereiro de 2019

Gabriel o lento


Em Portugal há uma enorme tendência para se classificarem os jogadores que se procuram destacar pela qualidade cognitiva como jogadores lentos e sem a famosa intensidade. É assim com Oliver – que hoje é mais elogiado, apesar de jogar consideravelmente pior, só porque corre mais; foi assim com Rúben Neves – que hoje rebenta com os “intensómetros” dos “intensadores”, porque se destaca na liga mais mediática do mundo; foi/é assim com André Gomes; foi com William Carvalho, mais um famigerado lento, etc. Tudo o que não for jogador que procure condução de bola ou corra que nem um desesperado (quem muito corre, acreditem, muito desespera) é colocado na prateleira dos “lentos”.

Mesmo sem conhecer absolutamente nada de Gabriel, vendo os seus primeiros minutos com a camisola do Benfica, facilmente se podia prever que seria mais um a ser arrumado na pilha de “lentos do futebol Português” e, caso Rui Vitória se mantivesse no comando técnico, acabaria a época com a etiqueta de “flop do ano” colada na testa.

Dizer-se que Gabriel é lento não é que em si seja um problema (ainda que tenha dúvidas sobre se realmente corre devagar ou não), o erro é achar-se que a velocidade de deslocamento é o que define um jogador e o não se ter reparado na enorme injustiça que se cometia com um jogador que passava jogos inteiros a ver a bola passar-lhe por cima da cabeça em momentos ofensivos e a ter que cobrir manchas colossais de terreno em momentos defensivos. Mais, não se percebeu que Gabriel nunca se iria destacar enquanto lhe fosse exigido que galgasse metros e metros com bola, tratando-se ele de um jogador marcadamente de passe e de critério. Sim, critério é o conceito-chave de Gabriel e o conceito maior no jogo de futebol. Decidir bem, em vez de decidir rápido, algo que pode resultar no mesmo em determinadas circunstâncias, mas que na origem são conceitos que partem de premissas absolutamente opostas, porque quem procure decidir bem vai conseguir decidir rápido quando tal se justifique, mas quem procura decidir rápido, vai fazê-lo sem considerar as circunstâncias.

Com a mudança no comando técnico do Benfica, Gabriel tem emergido como uma das faces maiores da mudança, no que diz respeito à ideia de jogo. O médio Brasileiro tem assumido um papel-chave na dinâmica de Bruno Lage, demonstrando a todos a qualidade que sempre teve e, pasme-se, continua a não ser particularmente rápido no deslocamento. Porém, e porque tem qualidade técnica, porque tem qualidade na decisão, o simples facto de hoje estar integrado numa ideia que procura muito mais um futebol conexo e associativo, um futebol de melhores decisões, um futebol de linhas mais próximas e de maior critério, o jogador emerge com um dos indiscutíveis no 11, por oposição ao que acontecia há 2 meses (!!!), momento em que era um dos mais contestados.

Por estes dias, o meu filho perguntava-me se podia comer mais uma goma. Porque já tinha comido umas quantas, lá lhe disse que não, porque demasiados doces fariam mal aos dentes e, perante a sua relutância em aceitar a minha explicação, disse-lhe mesmo que, caso continuasse a comer gomas, ficaria sem dentes. De imediato, abriu a boca e disse: “Pai, vês, ainda tenho os dentes todos!”. Assim se comenta futebol por cá, se ainda tem dentes é porque está bom, mesmo que seja previsível que a continuar assim, estes venham a cair todos. E só no momento em que não sobrar nenhum é que será permitido pensar diferente do óbvio.

Pior, quando um Gabriel desta vida lhes tira todo e qualquer dente, serão capazes de dizer que sempre pensaram como ele.

O problema de Gabriel nunca foi ser Gabriel, o problema de Gabriel sempre foi ter quem não soubesse que era Gabriel ou sequer compreendesse o que era ser Gabriel. E vou mais longe, correndo o risco de cometer uma heresia nos critérios dessa gente, para mim, se Bruno Lage quer mesmo um futebol de posse, Gabriel deveria assumir o papel de médio mais recuado no momento da construção, fazendo-o acompanhar de outro médio que não Samaris (que realmente é bastante limitado em tudo, sobretudo com bola).

Dar opinião sem assumir qualquer opinião, para além de um belíssimo acto de contorcionismo, é garantir que se pode dizer tudo e o seu contrário, mesmo que não se contribua em nada para o entendimento do jogo por parte de quem ouve ou lê.  

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Benfica-Sporting: um jogo que é um sonho intemporal




Deixemo-nos de merdas: por mais que o Sporting admiravelmente perca jogos e campeonatos uns atrás dos outros e goste de fazer intervalos sabáticos de 18 anos entre títulos nacionais, o jogo dos jogos é o Benfica-Sporting. O Benfica-Porto só é interessante porque explora o lado bondoso e solidário da espécie humana: queremos sempre que o Bem vença o Mal; por isso toda a gente olha para este jogo como se fosse um filme, sempre à espera que o Herói consiga vencer os criminosos e mauzões e no fim leve a miúda para casa. Ninguém morre pelo Benfica-Porto porque o Porto está corrompido, está sujo, tem muitas sombras. Não há nada de mais desinteressante e chato do que um clube cheio de sombras liderado por um beato com problemas psicológicos. O argumento até tinha potencial, mas os actores são medíocres. Ninguém vive pelo Benfica-Porto, ninguém morre pelo Benfica-Porto.

O Benfica-Sporting é outra coisa, é uma obra-prima. O Benfica-Sporting não tem sombras, é honesto, é a campo inteiro, é a céu aberto. O Benfica-Sporting é futebol puro e duro. Rivalidade que corre no sangue de todos os adeptos. É a vida toda desde que nascemos até ao apito inicial que nos inunda. São memórias de jogos antigos, desacatos familiares por uns serem do Sporting e outros do Benfica que acabaram numa guerra com garrafas de vinho pelo chão, pedaços de bacalhau e batatas a murro pelo ar, a avó que se escondia debaixo de uma cadeira, o puto que saltava para cima da televisão e voava para as costas do sportinguista, primo mais afastado que tinha vindo da França para o Natal, e acabou cheio de puré e doce de ovos nos cabelos. Benfica-Sporting é a vida toda com os nossos amigos: as bezanas nos tascos, nos bares, nos casamentos. Nós a gozarmos com eles; eles a serem gozados por nós.

Às vezes o Sporting ganha. Acontece o Sporting ganhar. E então isso também é Benfica-Sporting porque nos mostra, até de forma ternurenta, a alegria do nosso amigo, todo orgulhoso no seu clube. Ou o sorriso da nossa namorada leoa e aquela forma que ela tem de gozar connosco mas sem nos ferir muito porque ela, mais do que ninguém - afinal, é do Sporting! -, também sabe como dói perder estes jogos. O Benfica-Sporting é o Gabriel Alves na televisão e um «oooooooooooooooooooooh» com remates que ora vão para fora ou vão para dentro da baliza do Sporting. O Rui Tovar e o Mário Zambujal a anunciar no Domingo mais uma vitória do Benfica em Alvalade. O resumo a começar com a alegria de um estádio leonino cheio de esperança e a acabar com os jogadores do Benfica a saltar para os adeptos gloriosos e um final de imagem com adeptos sportinguistas a sair do estádio, desolados. Benfica-Sporting é Domingo, é o dia da folga e da festa. O dia da vida toda que se junta para gritar golo.

No trabalho há sempre, junto à máquina do café, no elevador ou entre cigarros, a rivalidade latente. Encontram-se um benfiquista e um sportinguista. A malta consegue passar uns segundos sem falar de bola mas depois, de mansinho, ainda com tons educados e de cordialidade, vai começando a discorrer o seu fanatismo clubístico e acaba tudo a apontar erros arbitrais inqualificáveis e a relembrar goleadas históricas. Se não houver mais argumentos, passa tudo para a batatada, com o Antunes já de gravata vermelha esgroveada e o Serafim todo pintalgado de verde dos tinteiros da impressora. Depois vão calmamente para as suas cadeirinhas em frente ao computador, onde jogam Solitário e ficam a pensar no resultado do Benfica-Sporting.

Não me venham cá com Benfica-Porto quando estou a falar de futebol. Quando falo de rivalidade. Quando o assunto é sério e entre gente séria. O Benfica-Sporting é que é. Nenhum Benfica-Porto consegue transformar uma semana inteira num autêntico festival de preliminares. São 7 dias em que benfiquistas e sportinguistas se lambem, se tocam, se lambuzam todos, se recriam, se provocam, se insultam gentilmente, se odeiam e se amam, se vivem. E aquele ar trocista que também está ansiosos e nervoso. E aquele ar gozão que também tem expectativa e receio dentro. Não medo, nunca medo. Medo não faz parte do Benfica-Sporting. Medo só faz parte do Benfica-Porto porque sabemos que é muito provável que o árbitro nos assuste.

O Benfica-Sporting é uma foda, um orgasmo, um vaivém espacial que vai e vem, que vai e vem, em loop eterno que nunca pára. Há no Benfica-Sporting uma espécie de sentimento de eternidade que só se sente quando estamos a foder. Como se nunca o mundo fosse acabar enquanto as duas equipas estiverem em campo a jogar futebol. E o jogo engravida e nascem golos do Benfica.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Bernardo, Neves? Agora é fácil


Nos últimos tempos temos visto jovens Portugueses brilharem ao mais alto nível no campeonato mais mediático do mundo, a Premier League. Bernardo Silva, Rúben Neves, Diogo Jota e Diogo Dalot vão paulatinamente confirmando o que se lhes via por cá: São craques!

Em comum têm dois aspectos essenciais: São talentosos, baixotes (excepção a Dalot), pouco dados a correrias parvas e, por isso, não se afirmaram em qualquer dos grandes Portugueses, não obstante terem feito a sua formação por lá ou, no mínimo, terem por lá passado, como é o caso de Diogo Jota.
Hoje, amontoam-se os elogios, crescem os admiradores e somam-se reconhecimentos de pares e especialistas.  Por estes dias, houve até, um treinador de um dos candidatos ao título a justificar os seus jogos mais estratégicos (eufemismo para ter como ideário único o de anular as ideias dos outros) o facto de não ter Bernardo’s Silva’s.

E qual o problema de tantas loas? Nenhum, até porque são completamente merecidas. O chato disto é que dizer-se isto hoje é dizer-se o óbvio. Óbvio esse que esteve lá sempre e que só precisou que o jogo o demonstrasse, mas por cá sempre se preferiu varrer o óbvio para debaixo de um qualquer tapete.

O verdadeiramente difícil não é ver o quão talentosos são Bernardo Silva, Rúben Neves, Diogo Dalot ou Diogo Jota, não. Não é difícil hoje, como não era difícil ver quando por cá andavam. Não, o verdadeiramente difícil é dar-lhes palco quando interessa, o verdadeiramente difícil é dar palco ao talento, o verdadeiramente difícil é “tê-los no sitio” para pôr Félix, Diogo Leite, Dantas ou Trincão (e outros) onde devem estar: No campo! Porque esperar que a sorte, o empresário ou o futebol internacional dê reconhecimento ao que não soubemos dar, não é muito diferente do que “só falar”. E falar… é fácil!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O óbvio Lage

Com 8 meses de atraso, no Benfica alguém foi forçado a perceber o óbvio (o que diz tudo sobre a corja que desgoverna o clube).
Boa sorte ao muito competente Bruno Lage. A herança é péssima - são 3 anos e meio de maus vícios - mas há talento para um grande futebol. Títulos não peço. Peço um Benfica a jogar à Benfica.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Portanto, o Presimente acha que vai contratar um gajo ainda pior do que o Professor. #RuaVieira


Félix, o anti-grunhos



Desde Agosto que João Félix entra sempre no neu 11 glorioso. Lembram-se o que diziam alguns grunhos? Recordemos:

"Loooooool"
"O puto não tem corpo"
"Precisa de ganhar estaleca"
"Deves querer perder os jogos!"
"Ainda és mais cego do que o Professor lol"

Grunhos serão sempre grunhos, não os conseguiremos mudar. Mas gostávamos que os grunhos, da próxima vez que aqui lerem alguma coisa que não entendem, alguma opção que lhes ultrapassa o cerebelo, façam um exercício: não insultem, não comentem, não mostrem que são grunhos. Calados ainda poderão não passar por grunhos; quando falam é que não deixam dúvidas a ninguém. E nós sabemos quem vocês são.

Um Félix ano de 2019 para todos.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Nova Vida Técnica no Banco da Luz


Rui Vitória já não é treinador do Benfica. Todos sabemos isso. O que ainda ninguém sabe é o que aí vem, é o plano para o que resta da época. Pelos vistos teremos de esperar pelo novo programa das manhãs da Cristina Ferreira para sabermos alguma coisa.

Interinamente o Bruno Lage assume a equipa. Pelo que tem sido especulado será só mesmo para 3 dias. Dois dias de treino e o jogo do Rio Ave. Com poderes de decisão totais? Não sabemos. Duvido muito. Alguma liberdade de decisão mas não um espirito livre.

A expectativa para ver a equipa hoje na Luz com o Rio Ave é muita. Há uma grande diferença entre o anterior técnico e o provisório agora presente. Contudo não acredito que isso fique visível hoje em campo. Acredito sim que teremos aquele impacto motivacional que uma chicotada psicológica provoca no imediato. Se conseguirmos resultados nos primeiros 20 minutos de entusiasmo então partiremos para uma jornada tranquila e refrescante. Se o jogo estabilizar e as equipas encaixarem no relvado ainda sem amasso encarnado no marcador, o efeito da chicotada esfumaça-se e teremos um jogo de coração na mão. Os problemas que levaram à mudança técnica não estão ainda nem perto de estar resolvidos e a equipa de hoje é a mesma da derrota em Portimão e anteriores exibições.

A vontade de ver Benfica é enorme. Porém a grande expectativa tem de estar no pós-Rio Ave. Sim queremos divertir-nos e ganhar os 3 pontos mas e depois? E o resto da época? Como vamos encarar as 4 competições? Como vamos fazer para encurtar a distância para a liderança e fugir ao 4º posto?

Vários nomes têm sido avançados. Aliás, têm-no sido há já um mês. A conversa do presidente do Benfica é pura politica. Sempre o foi. Não é para levar a sério. Porque se fosse... a incoerência matava cada neurônio de qualquer um que se importasse em ouvir.

O universo de treinadores é infinito e infinito é o universo de treinadores interessados em liderar o Futebol do Sport Lisboa e Benfica. Há qualidade por todo o mundo e com as mais variadas nacionalidades. Há genialidade em muitos nomes desconhecidos por todos ou quase todos os adeptos do futebol em Portugal. Mas não acredito que Vieira arriscará em um desconhecido.

Assim entre os nomes mais falados temos:

Leonardo Jardim
Paulo Fonseca
José Mourinho
Rui Faria
Luís Castro
Jorge Jesus
Abel Ferreira
Marco Silva
Vitor Pereira

Excluo já os seguintes: O Jardim optou por ir encher os bolsos na China, o Vitor Pereira com o passado que tem no Porto não me parece que estivesse interessado nem que agradasse ao povo benfiquista e o Mourinho não é possibilidade.

Aproveito para dizer que gostava de ver José Mourinho a assinar no final da época pelo Setúbal. Este José Mourinho não está interessado no Benfica nem o Benfica deveria estar interessado nele. É um treinador que precisa de se reencontrar e reinventar. Ficar dois anos no Setúbal, clube da sua terra e infância, poderia ser a melhor opção pessoal e profissional para o ex-Special One. Mourinho precisa voltar a ser apaixonar pelo jogo.

Dos restantes seis treinadores só vejo dois que aceitariam vir já: Rui Faria e Jorge Jesus. O Rui está livre e provavelmente ansioso por começar a sua carreira como treinador principal. O Jorge Jesus está louco por voltar a Portugal e principalmente ao Benfica. Contudo tem clube, obrigações e objectivos que certamente quererá cumprir lá.

Fosse qual fosse a opção, defendo que esta época deveria ser continuada pelo Bruno Lage até ao seu término. O comboio está em andamento e em alta velocidade. Não há tempo para parar e pensar. Não há paragem para ir apanhar um pouco de ar. Bruno Lage é competente, é entendido, é conhecedor e é um treinador que já está no comboio. Conhece o talento e forma de trabalhar do clube e conhece as mais variadas opções que tem na equipa principal e nos escalões de formação. Bruno Lage tem a capacidade e a tranquilidade para liderar a equipa nos 4 meses que restam de competições. Não quer e sabe que não pode fazer mudanças drásticas. Saberá ir treino após treino melhorando aquilo que necessita já de ser melhorado.

Manter Bruno Lage como técnico interino é a melhor opção para o que resta desta época e também para a preparação da próxima. Ter o Lage a comandar a equipa nos relvados não implica não ter outro treinador a preparar e planificar o arranque já da próxima época. É isto que defendo. Dar estabilidade ao plantel para o que aí vem e sem pressas nem precipitações escolher o melhor treinador para começar já nos próximos tempos a identificar as alterações que deseja ver implementadas para 2019-20, e assim assumir a equipa em Junho já com a preparação da nova época feita e as movimentações de mercado prontas e em andamento.

Mas quem?

O Marco Silva é uma boa opção claro. Contudo não só seria viável somente no final da época como a sua atenção estaria no Everton o término desta. Não o vejo em Março ou Abril a começar a integrar-se no projecto do nosso clube.

O Rui Faria é provavelmente a maior e mais desconhecida promessa do futebol mundial. Um treinador jovem que se quer afirmar como o seu tutor fez. Um treinador que tem um conhecimento do jogo, do balneário e da gestão do futebol superior a qualquer outro em Portugal. Contudo é um treinador que nunca passou de adjunto. Qual a sua capacidade de liderança de grupo? Qual a sua capacidade de tomar decisões e lidar com os problemas? Qual a sua capacidade de comunicação? Qual a sua ideia de jogo? Qual a sua competência para implementar essa ideia? Qual a sua preferência de jogadores? Certamente no Benfica haverá quem se possa reunir com Rui Faria e construir uma imagem de como este será enquanto treinador. 


Uma aposta que eu aprovaria mas com pouco entusiasmo. Um esperar para conhecer.

O Abel é um nome forte. Construiu uma boa imagem no Braga, muito bons resultados, grandes jogos e mantém uma postura positiva face ao universo benfiquista. Personalidade forte mas nunca pisou os calos dos benfiquistas.


Além disso é conhecida a estreita e constrangedora relação entre o Salvador e o Vieira.
É uma opção fácil e muito possível. Contudo também uma opção que não me agrada. Reconheço os méritos do Abel no Braga mas também vejo ali muito potencial que o técnico nunca soube aproveitar. É um treinador muito à portuguesa, muito focado no estudo e anulação do adversário. Não me parece treinador com qualidade para chegar a um grande e impôr um futebol dominador e tecnicamente superior.

Sobram o Paulo Fonseca, o Luís Castro e o Jorge Jesus. Na minha opinião o mais fácil seria o Castro, o mais indicado seria o Paulo Fonseca e o mais provável o Jorge Jesus.

Este Paulo Fonseca parece-me ser neste momento o treinador mais qualificado para agarrar neste Benfica. É muito mais treinador do que era quando saiu do Porto. Tem mais experiência, mais mundo, mais conhecimento e maior capacidade de liderar e lidar com a pressão. Tem mais estatuto. E tem aquilo que sempre teve mas agora mais aprimorado: competência técnica.


É um treinador que gosta do futebol que eu gostaria de ver no Benfica: jogo de posse e apoios, equipa com as linhas próximas, exploração da qualidade técnica dos jogadores, e equilíbrio.
 É um treinador que joga ao ataque mas que não descura dos equilíbrios defensivos. Seria um treinador caro e já foi negado. Contudo o que o Luís Bernardo nega ou deixa de negar...


Pode ser que trouxesse consigo o Boto também.

O Jorge Jesus é o Jorge Jesus. Um autêntico mestre do treino. Tem uma ideia de jogo entusiasmante mas desequilibrada. É capaz quase como nenhum outro de colocar 11 jogadores a fazer exactamente aquilo que ele quer. É um monstro do treino. Mas falta-lhe quase tudo o resto.


Para começar Jorge Jesus não merece treinar o Benfica. Pelas atitudes que teve tanto cá como depois de sair. Além disso não é treinador para o projecto Benfica.
Esqueçamos as invenções mediáticas alimentadas por quem é pago para isso (como a situação do Bernardo Silva a lateral esquerdo). Jorge Jesus não é treinador para aproveitar o melhor que o Seixal tem para oferecer. Jorge Jesus não é treinador para sucessos na Liga dos Campeões. Jorge Jesus perdido no seu ego não respeita o símbolo que o Benfica lhe coloca ao peito. Jorge Jesus é incapaz de gerir um plantel de forma equilibrada. É um louco por brincadeiras no Mercado.
O seu mundo e o se nível é o campeonato português. Restrito a este patamar brilha mas fora dele fica à deriva.

Para mim seria uma escolha muito infeliz. E parece-me que Vieira se sente demasiado necessitado dela.

Por fim o Luís Castro. Neste leque não seria a minha primeira escolha mas seria certamente a segunda. É um treinador que aprecio na sua globalidade. A sua postura correcta, as suas conversas sobre o jogo, o seu entender do Futebol, a sua ideia de jogo e a forma como consegue colocar os jogadores a executá-la.

Um treinador de pés assentes na terra, um treinador respeitado e respeitador, um treinador benfiquista, um treinador inteligente e acima de tudo um treinador muito competente. Um treinador que saberia tirar o melhor proveito do Seixal e do talento que já existe no plantel.
Seria o salto na sua carreira que já está pronto para dar.


É um treinador sério que também iria exigir um Benfica sério. Assim não o vejo sequer a aceitar conversações antes dos dois duelos que teremos em Guimarães nas próximas semanas. Posteriormente a abordagem, as negociações e a preparação da próxima época teriam sempre de ser tidas com conhecimento e aval do Vitória.
Não irá abandonar o compromisso que tem para esta época do nada. Seria todo um processo que teria de ser feito com respeito, com calma e sem alarido. Não espero menos dele e espero exactamente isto do meu clube.

E é isto.

Quero o Bruno Lage até final da época a liderar com toda a tranquilidade o que resta das competições. Quero o Paulo Fonseca ou o Luís Castro para assumir o cargo a partir da próxima época, dando-lhes estes meses para irem passo a passo preparando a mesma.

Por agora desfrutemos do jogo de hoje e vivamos nesta ansiedade pelo que terá a Cristina Ferreira para nos apresentar. 



11 Glorioso para voltar a ser Benfica

Ulisses
Salvio, Samaris, Jardel, Grimaldo
Fejsa
Zivkovic, Pizzi, Krovinovic
Ferreyra, Félix

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Dança e Futebol: a coreografia de um ataque móvel



No relvado ficam marcas invisíveis da movimentação dos jogadores; parábolas, diagonais, círculos quase perfeitos, gráficos cardíacos, sprints em linha recta paralelos à lateral. Se, em vez de preferir ouvir a voz dos jogadores ou o som que as gotas de água fazem quando embatem na garganta de Rui Vitória, o adepto escolher um lugar mais alto, com melhor vista, mais abrangente paisagem, vai então ficar atento à dança colectiva e individual que o jogo lhe proporciona.

O futebol é dança. Cada vez mais uma dança moderna, sem pontos fixos nem posições a que fiquem agrilhoados os jogadores. O jogo evoluiu para um espaço de liberdade de que já não sairá, exceptuando quando é pensado e treinado por quem ainda pensa que a dança só faz sentido se o palco tiver marcações a anunciar aos bailarinos o lugar onde devem estar em determinado momento. Isto não significa que não haja indicação de zonas estáveis por onde começar o bailado, locais vastos de onde se parte para que a sequência seja feita toda ela livre de quaisquer amarras posicionais. O jogo pede áreas longas e largas, referências apenas zonais para favorecer o colectivo, povoar o espaço inimigo em estratégia inesperada.

Na última edição do Jornal de Letras, lemos Daniel Tércio versar sobre dança enquanto traça, sem o saber, o futuro do ataque móvel no futebol: 《Mas o que importa neste caso – e esta a razão deste texto – é que Cunningham, em meados do século XX, adoptou a epígrafe de Einstein “não existem pontos fixos no espaço”. O coreógrafo norte-americano declarou aliás a este respeito: “eu decidi abrir o espaço para o considerar por igual, em qualquer lugar, ocupado ou não, tão importante como qualquer outro. Num tal contexto não temos que nos referir a um ponto preciso no espaço. Se não existem pontos fixos, então cada um dos pontos é igualmente interessante e igualmente mutável.” Segue discorrendo Tércio sobre a importância da mobilidade livre: “Com Cunningham algo de novo acontece, uma vez que uma sequência não tem que estar condicionada a outra, podendo tudo ser constantemente deslocado, tornando o movimento contínuo.”》

O jogo há muito vem dando esta lição evolutiva. Grandes equipas com grandes treinadores têm testado e voltado a testar com sucesso a possibilidade de uma utopia realizável. De um lugar de ultra liberdade. Nesse espaço em que a primazia vai inteira para a qualidade de movimentação, para a criatividade individual e colectiva, para a inteligência com que se enfrenta o adversário, características físicas perdem a sua importância e dão lugar ao que verdadeiramente valoriza o bom futebol: cérebros craques em vez de caparrudos “agressivos” e “muito intensos”. Na mobilidade de um futebol sem pontos fixos, o central pode ser um anão, o extremo só ter uma perna, o avançado não ter força para rematar, o médio sofrer de reumatismo. Fundamental é que o treinador seja intenso e agressivo a pensar.