domingo, 26 de fevereiro de 2017

Futebol camaleónico

O futuro do jogo passará por ter 10 jogadores que podem jogar em todas as posições do campo. Com a evolução táctica a forçar mais criatividade individual e colectiva, ganhará mais vezes quem tiver jogadores-camaleões. Não mais a treta de o central ter de ser "alto e forte", o médio "intenso", o extremo "rápido" ou o avançado "possante". Ao longo do jogo, os melhores serão os que fizerem rodar os seus jogadores por todo o espaço do relvado. Aos 10:35 e 11:37 - Hummels, o central médio ofensivo.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Rogério Ceni e João Schmidt, dois extraterrestres no Brasil


Há uma boa ideia de futebol a nascer lentamente e incompreendida em São Paulo. Há um treinador a dar os primeiros passos que vai ser um dos melhores da História. Há um jogador que tenta ser o veículo dessa boa ideia através do seu treinador para os restantes colegas. Mas antes do sucesso vai haver polémica, já há polémica.

Rogério Ceni está a mostrar ao Brasil algo que ele definitivamente não quer nem compreende: pinturas de futebol europeu. Quer ter a bola, não quer ter de chegar à área adversária em 24 segundos. Diz: "não temos tempo contado, isto não é basquetebol" e levanta a ira de milhões de brasileiros pelo mundo. Neste momento, só os adeptos do São Paulo tentam perceber o que Ceni anda a fazer nos treinos e só porque foi dar 3 a Santos e deu 5 em casa ao Ponte Preta. Bastará que os resultados piorem para que o seu discurso maravilhosamente encantado pelo jogo e a ideia que tem para a sua equipa sejam massacrados.

Tem, no entanto, a seu favor as duas décadas e tal que deu ao clube como guarda-redes goleador. Isso dar-lhe-á algum espaço para poder revolucionar de vez um futebol que transborda de talento e escasseia de cérebro. Ponho as mãos no lume por Rogério Ceni enquanto ele vai cumprindo os seus primeiros meses de carreira: será finalmente o treinador brasileiro capaz de chegar aos grandes clubes europeus e ter sucesso. A fome de bola, o amor pelo jogo, o gosto por discutir o que quer fazer, a qualidade que se vai vendo em campo, a persistência na sua ideia no país mais céptico do mundo em relação a um outro tipo de futebol, dizem-me que mais cedo ou mais tarde Ceni ganhará tudo. Há ali um olhar ainda ingénuo de quem vem para o jogo para lhe trazer algo que ele ainda não viu. E depois João Schmidt.

Diz tudo de Ceni ter feito girar a sua ideia em redor de um jogador que é raríssimo aparecer por aquela banda. Anuncia que nos próximos meses veremos um São Paulo capaz de fazer do futebol brasileiro um pouco mais do que NBA. É médio, tem sangue de médio e cabeça de médio. Pode ser 6 ou 8, pode ser sempre o que a equipa precisar que ele seja.

João Schmidt, 23 anos, já passou por Portugal quando representou o Vitória de Setúbal há 2 épocas. Olhando para os 750.000 euros que custaria o seu passe e o facto de terminar contrato nos próximos meses, por mim regressaria ao nosso país para envergar a Gloriosa. O futuro vencedor da Champions Rogério Ceni que me perdoe.

 https://m.youtube.com/watch?v=BHYjavRVT3s

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Perdemos com uma vitória por 1-0



Talvez seja preciso recuar a um Benfica-Barcelona de 2006 para encontrar um dia em que o adversário chegou à Luz e fez de nós o que quis. Mas nem assim (ainda respirámos nesse jogo). O que se passou ontem foi um atropelo do princípio ao fim. Foi olhar para um jogo em que de um lado há um óptimo treinador e do outro há um mau treinador. Sem medos: há um mau treinador. Os jogadores do Benfica não estavam minimamente preparados para o atropelo que levaram; não sabiam o que iam encontrar, ninguém lhes disse que terrenos deveriam pisar, o que fazer em campo, que fórmulas para contrariar o adversário.

Como benfiquista - sócio, adepto, doente -, sinto vergonha do que se passou no Estádio da Luz. Ver o meu glorioso clube enterrado na sua área durante 90 minutos não é aquilo que eu espero, não é esse o desígnio que eu defendo para uma ideia colectiva que tem de ser briosa. Não fomos briosos, não ostentámos Mística nenhuma - a malta dos anos 60, 70 e 80 só não vai dizer isto porque foi comprada a troco de pneus para os carros e talvez uns ambientadores para snifar cheiros.

O Benfica, o maravilhoso Sport Lisboa e Benfica, é outra coisa. É um clube que, sem dinheiro, sem reconhecimento, sob a mão trágica de uma ditadura, chegou à Europa e tornou-se Bicampeão Europeu. Em 7 anos, foi a 5 finais europeias. O Glorioso Sport Lisboa e Benfica é o clube que tem 11 finais europeias, 3 delas ganhas. O Benfica, o mais Glorioso, é o clube que mais Campeonatos Nacionais tem, mais Taças de Portugal tem, mais Taças da Liga tem. O Benfica foi durante décadas o clube que contrariou o Estado Novo - o único com eleições democráticas, o único clube do povo, o clube ao qual foi proibido o seu Hino (Avante, Avante p'lo Benfica), o que viu ser-lhe negada a cor  (passou de vermelho a encarnado). O maravilhoso Sport Lisboa e Benfica é maior do que Portugal.

O meu Pai não me ensinou a ser de um clube submisso. Portanto, para mim ontem perdermos com uma vitória por 1-0.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Mudanças para ganhar

Ederson
Semedo, Lindelof,  Jardel, Almeida
Fejsa
Carrillo, Pizzi, Cervi
Jonas, Rafa

- Almeida por Eliseu. Com Cervi naquele corredor a garantir alguns momentos de profundidade, as poucas  mais-valias de Eliseu ficam colmatadas e Almeida defende melhor.

- Jardel por Luisão. Não sou fã do primeiro; nunca fui grande fã do segundo. Mesmo sem jogos nas pernas, contra uma equipa que explora constantemente o espaço entre o nosso médio defensivo e a nossa linha defensiva e a profundidade nas costas da defesa, Jardel será sempre melhor solução do que Luisão. Além disso, solta Lindelof para a direita, onde explora melhor as suas qualidades, especificamente a qualidade na saída de bola e a possibilidade de criar superioridade numérica em zonas perigosas para os alemães.

- Carrillo por Salvio. Talento contra correria desenfreada. Inteligência e instinto contra contabilizações da GoalPoint.

- Rafa por Mitroglou (ou por Jonas, se este não puder jogar). Comigo, o português seria sempre titular. É, a par de Jonas, Pizzi e Zivkovic (e Carrillo, a espaços), o que mais constantemente cria. Tem uma imaginação prodigiosa, faz coisas que não foram ainda vistas. Neste jogo específico será fundamental a pressionar em zonas mais baixas e depois,  na recuperação,  a ligar toda a equipa para os lances letais em que poderemos criar as nossas melhores oportunidades de golo.

2-1.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

UM POUCO MAIS SOBRE O ÓPTIMO JOGADOR QUE É PIZZI


Antes de mais, é importante esclarecer que 9 em 10 pessoas que falam de futebol só vêem uma vez o jogo sobre o qual falam: ao vivo ou através da televisão. Ora, isto limita muito a capacidade de perceber o que se passou em campo, já que há uma infinidade de acontecimentos que não são percebidos com uma só visualização. Juntem a isso a natural emoção e nervosismo de estar a ver a própria equipa e têm uma óptima poção mágica para não terem percebido nada do que se passou em campo para além dos golos, das jogadas perigosas, das faltas mais agressivas, dos possíveis penalties e das correrias de um jogador que consegue guardar a bola dentro de campo em carrinho.  Vejam, portanto, se puderem, o jogo mais uma vez. Mais duas, mais três.

No último jogo, Pizzi fez mais uma óptima exibição. Já sei: fez um passe de merda que ia dando golo do adversário.  É verdade, mas esqueçam agora esse lance. Revejam o jogo e atentem só no que anda Pizzi a fazer pelo campo. Com bola, sem bola, as indicações que dá aos colegas. "Mete ali", "traz", "estou livre", "solta na ala". Só lhe falta ter uma batuta. Vejam quando não só decide bem por ele mas pelos outros. O passe que encaminha a bola para o que ele sabe que vai resultar. Pizzi não é só um jogador que decide bem; ele ajuda a que toda a equipa decida melhor.

Escolho um entre milhares de lances iguais que faz durante a época: aquele que acaba com Semedo a sofrer penálti. São 15 segundos que resumem tudo sobre Pizzi: visão de jogo acima da média, noção perfeita do espaço,  dos colegas e da bola,  técnica, imaginação, inteligência, criatividade.

Ponham o vídeo nos 18:55 e vejam até aos 19:10. Pizzi recebe no meio, solta em Semedo para obrigar o adversário a focar-se na ala e a deixá-lo com espaço para pensar. Vai sempre dando o apoio a Semedo para que ele possa devolver.  Semedo devolve e corre para o espaço. Pizzi percebe que está congestionado,  que não é a melhor opção,  que a equipa não precisa de fazer tudo em histeria. Vai chegar ao perigo mas de outra forma. Sente que o adversário vem atrás dele, faz compasso de espera para retirar o adversário daquela zona e mete outra vez na direita, agora em Salvio. Vai logo dar ao argentino a opção de passe no meio. Salvio, muito bem, mete em Pizzi que, sem recepção,  directo, põe logo em Semedo que fica de frente para a baliza em posição privilegiada.

Pizzi é isto. Faz coisas destas constantemente. Faz de uma bola no meio-campo uma jogada de perigo em 15 segundos. Mete a equipa toda a fazer o que ele quer só pelo posicionamento e tipo de passe (geralmente para o espaço para condicionar positivamente as opções ao colega). Pizzi é extraordinário e não é pelos golos que marca ou pelas assistências. É porque mete sempre a equipa muito mais perto do golo. Agora digam-me: como é que a goalpoint vai meter a inteligência desta jogada na estatística?


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Era só o que faltava que não ganhassem hoje



O Benfica não anda a jogar nada. Zero ou perto de zero.

Porque já teve 40 lesões este ano, porque há uma dependência exagerada da qualidade individual, porque não há assim tantas ideias colectivas. Porque o Vitória deve ter jurado a nossa Senhora de Fátima que utilizaria o Pizzi em todos os 60 jogos da época e então,  "derivado disso", o Pizzi,  que é quem coordena todo o nosso futebol,  está mais morto que vivo (inclusivamente, até já fez um cameo no Walking Dead a esbracejar sem grande energia atrás do actor principal - ver próximo episódio).

O génio Jonas ainda anda à procura do melhor traço; o Fejsa é melhor não utilizar para não ter uma recaída de 2 meses, como dezenas de outros que vão passando pelo laboratório altamente científico do Senhor Doutor do Benfica.

O Lindelof está a jogar à Jardel. O Lisandro à Jorge Soares. O Luisão à King. O Jardel à Jardel. O Eliseu à Eliseu e o Grimaldo que nunca mais volta.

O Rui Vitória anda a falar numa oitava acima com árbitros enquanto coxeia (uma imagem tão tenebrosa que o fez ser mais castigado que um treinador que empurra fiscais de linha e cospe pastilhas por todo o lado). O adjunto dele, o Stephen Colbert, está cheio de tremeliques por ter de ir para o banco. O Vieira anda de mala na mão, qual vendedor de frigoríficos, pela China e pela Oceania a querer despachar meio plantel porque "o Benfica não precisa de vender jogadores para equilibrar as contas".

Sim, tudo isto. Mas também somos a melhor equipa. Temos os melhores jogadores. Somos os tricampeões. Os melhores adeptos vão encher o Bonfim. Para a semana o Sporting vai ganhar ao Dragão e deixar o Porto a 7 pontos, o que obrigará os SuperDragões a nova viagem de cortesia com ameaças de morte - desta vez, ja não aos árbitros mas ao seráfico Espírito Santo.

Livrem-se de perder pontos hoje. Ganhem pelo Eusébio. Pelo Coluna. Pelo mister Vitória, que estará suspenso a enviar sms's ao Stephen Colbert. Por mim. Por todos os benfiquistas e até pelos outros como o Presidente que neste momento está na Mongólia a ultimar uma excelente parceria que vai desenvolver significativamente a marca Benfica naquela região tão fanática pelo desporto-Rei.

Ganhem, meus cabrões. Ganhem com o melhor Vídeo-árbitro do mundo: os olhos do Pizzi.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Teatro na Austrália



O excelente comentador da Eurosport, Miguel Seabra, lembrava no início desta final histórica a frase genial de Navratilova: "Federer é o melhor de todos os tempos; Nadal é o melhor entre os dois."

Hoje Federer conquistou muito mais do que o 18° título do Grand Slam. Hoje Federer não foi só o melhor de todos os tempos - foi também, e sobretudo, o (muito) melhor entre os dois. Cai assim o pano cénico com maravilhosos momentos de Ténis: aos 35 anos, o génio finalmente domou a sua besta negra.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Um castigo inenarrável


Rui Vitória foi punido com um castigo de 15 dias e multa de 3825 euros na sequência de palavras dirigidas ao árbitro do encontro de ontem, Tiago Martins, estando assim impossibilitado de se sentar no banco de suplentes do Benfica nos próximos três (!) jogos do campeonato.

Pelas imagens, daquilo que é público, vê-se Rui Vitória a falar com o juiz do encontro e respectivos árbitros assistentes no final da partida, em tom assertivo e pouco exaltado, nada demais para o que se conhece e vê habitualmente no futebol português.

Recorde-se que Jorge Jesus, na sequência de gritos, perseguição e empurrão ao árbitro do encontro entre Vitória Futebol Clube e Sporting, para a Taça da Liga, teve a mesma suspensão de 15 dias mas falhou apenas um jogo para o campeonato e um para a Taça de Portugal, ambos em Chaves.

Fica registado. Revejam as atitudes de ambos os treinadores no final dos respectivos encontros e retirem as vossas conclusões. 

Um golo que brilha na escuridão

Com a tristeza,  passou-nos ao lado o golo mais bonito do Benfica esta época. Uma lição de como sair da pressão adversária sem pontapés para a atmosfera - jogadores juntos dando apoios e várias soluções, triangulação simples, bom posicionamento.  Pizzi finalmente liberta e Salvio cria o desequilíbrio. Ali, naquele momento, já o golo esperava refastelado numa praia a beber cocktails. Já o golo sabia que ia acontecer. Jonas recebe no meio, abre na esquerda para alargar a defesa do Moreirense e assim criar um falso chamariz enquanto, do lado contrário,  o Salvio segue o seu trilho natural, à espera de uma bola que aparece cheia de álcool dos pés do Eliseu. A finalização é óptima. Futebol de eleição que terminou aos 6 minutos deste jogo, mas o golo, este golo, valeu o bilhete.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Sondagem à boca das Furnas



Eu adoro esta foto exceptuando uma coisa. O quê?

a) A Taça dos Clubes Campeões Europeus
b) A Taça de Portugal
c) O manto vermelho
d) A outra Taça dos Clubes Campeões Europeus
e) O Marechal da Mística Pizzi
f) O único Presidente ilegítimo da História do Benfica

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Momento do Sporting

Hoje apetece-me escrever sobre o Sporting, até porque pelo que tenho ouvido mais ninguém está interessado em falar do que se passa no relvado sportinguista.

Esta semana ouvi um senhor na Sic Noticias a falar sobre esta crise de resultados e exibições.

O que ele disse não é muito diferente daquilo que todos os outros dizem (nunca é).
O Sporting perde e joga mal devido à sua estratégia de comunicação, à montagem da sua estrutura do futebol porque o André Geraldes é muito novo e devido aos baixos rendimentos dos seus jogadores.
Por sua vez os baixos rendimentos dos seus jogadores são consequência de motivos alheios ao jogo: o Bryan foi pai, o Gelson está a negociar o contrato e o William e o Adrien querem sair.
Isto é o Rui Santos a falar de futebol.

Acho isto muito pobre. 
Quando queremos analisar o rendimento de uma equipa devemos começar por olhar para o comportamento tático e colectivo desta.

Acima de tudo o Sporting joga mal por responsabilidade do seu treinador. A construção do plantel foi deficiente, a aposta nos jogadores é indecifrável, a construção táctica da equipa é inexplicável, a leitura do jogo é incompreensível e o rendimento dos jogadores é um reflexo do trabalho nos treinos e do seu posicionamento em campo.

O grande problema do futebol do Sporting é a incapacidade do Jorge Jesus em ler o jogo e de não inventar.

O Jorge Jesus é um grande treinador, um péssimo manager, um mau líder e um egocêntrico insuportável. Tem as suas ideias e não sabe adaptar-se nem aceitar os seus erros. Por isto não evolui.

Gosta de trabalhar as suas equipas para ataques rápidos e constantes. Muita gente à frente e pouca gente atrás. Abdica do controlo, do equilíbrio, do domínio no meio-campo e da segurança. Por isto o seu maior sucesso sempre foi no saber colocar uma equipa a defender com poucos.

É um treinador de 4-2-4 com laterais ofensivos e um médio de chegada à área. Neste seu estilo de jogo não pode viver sem um médio defensivo capaz de fazer todas as compensações, não consegue viver com um ponta de lança de área e não funciona sem um segundo avançado móvel capaz de fazer a ligação de todos os sectores no meio-campo ofensivo.

Na época anterior o Sporting não correspondia às ideias do seu treinador mas o desta época é exactamente um espelho destas.

O ano passado, com o plantel que lhe foi dado, o Jorge Jesus adaptou os melhores jogadores às suas ideias. Foi nesse contexto que o João Mário foi encostado à direita.
O que é que vimos nesse Sporting?
Um ponta de lança móvel com capacidade de ir às alas, pressionar os defesas e aproximar as linhas – Slimani. Um segundo avançado a fazer o papel ofensivo de um 10. E um João Mário, portanto um extremo direito que na verdade era um médio, a jogar mais encostado à direita.
João Mário e Slimani potenciavam um jogo mais curto e apoiado no Sporting. Os jogadores actuavam mais próximos e com isso defendiam melhor, pressionavam melhor, corriam menos e multiplicavam as linhas de passe.

Esta não era uma equipa à Jorge Jesus mas era muito o reflexo daquilo que o treinador fazia os jogadores renderem nos treinos.

Nesta segunda época já preparou uma equipa à sua imagem, num 4-2-4 puro.

Contudo começou logo por falhar em 3 momentos:

- Construção do plantel. Foram vários os jogadores contratados sem qualidade, o que acaba com a profundidade da equipa levando ao desgaste físico e emocional em várias posições.

- Qualidade do treino. Alguma coisa aqui está a falhar pois não era expectável que o Jorge Jesus não conseguisse tirar qualquer rendimento de jogadores como o Markovic e Joel. Aliás, também do próprio Bryan.

- A dupla ofensiva. Para mim aqui mora a falha fatal do futebol do Sporting. Não só o Jorge Jesus ainda não conseguiu definir um jogador para a posição chave de todo o seu processo ofensivo, a de segundo avançado, como anda a jogar com um excelente ponta de lança cujo o estilo não se enquadra no Futebol do treinador. Por algum motivo o JJ não se cansa de demonstrar a sua insatisfação com o Bas Dost e não consegue sequer perceber a sua importância além golos.

Haveria um quarto ponto que seria o impulso para a invenção, principalmente na lateral esquerda. Bruno César a jogar ali é um erro enorme. Não só a equipa fica com um péssimo defesa esquerdo como perde um bom/útil segundo avançado.

A avaliação ao desempenho dos jogadores nunca pode ser independente do desempenho da equipa, e vice-versa obviamente.

Com isto quero dizer que jogadores que rendiam muito, como o Gelson e o Adrien, só podem baixar o seu rendimento com o acentuar do mau momento desportivo da equipa. É uma questão mental e também física. Além disso, andam a exigir a um miúdo de 21 anos que seja a solução de todos os problemas da equipa.

Depois também não podemos dissociar o desempenho dos jogadores do posicionalmento táctico da equipa.

O Bryan não é um jogador de sprints. O Bryan é um jogador de classe, de futebol apoiado e de construção. Nunca de correrias.

Hoje temos um Sporting a jogar muito mais largo. O avançado joga mais subido e central e o extremo direito joga mais aberto e vertical. Isto afasta os jogadores do Sporting, reduz os apoios e as linhas de passe.
Isto obriga a que o Bryan jogue mais para trás, corra mais e recorra mais ao passe longo. E depois com um Bruno César a lateral e um meio-campo menos apoiado, o costa-riquenho tem também de andar a desgastar-se mais defensivamente.

E não muito diferente é aquilo que se passa com o William. Não nos enganemos, o William Carvalho é um grande médio defensivo. Não é é um trinco. Está longe de ser um Fejsa.
O William não é rápido com a bola no pé mas sabe jogar, sabe avançar no terreno, sabe impor o físico, ler o jogo e combinar com os colegas.
Neste Sporting a exigência sobre o William é a de ser mais defensivo e solitário. Assim é mais pressionado quando tem bola, tem menos apoio e perde os momentos do jogo para fazer aquilo que sabe.

Se à partida as coisas estão mal construídas é normal que o desempenho dos jogadores não seja o melhor. Depois é ir somando o peso dos maus resultados e o acumular do cansaço.

Então no meio-campo é gritante a falta de cobertura tanto ao Adrien quando ao William.

Tudo isto pode melhorar com duas pequenas mudanças.

Jorge Jesus tem de parar de querer provar que transforma caca em ouro e começar a apostar nos melhores jogadores. Aqui tenho de concordar com o Bruno de Carvalho. O Sporting precisa de se livrar dos jogadores de menor qualidade, mesmo contra a vontade do treinador.

O Bruno César tem de ser colocado atrás do Bas Dost.

Como lateral é péssimo e todos os jogos são erros atrás de erros. Como segundo avançado nunca será um grande jogador mas as suas características podem servir muito a equipa, aumentando simultaneamente o rendimento colectivo e individual de todos os jogadores.
Ele consegue fazer a ligação entre os vários sectores do ataque, criando assim mais apoios ao Bas Dost, ao Bryan Ruiz e aos médios leoninos. Aproxima as linhas, elevando a capacidade de pressão e o número de linhas de passe, e liberta os médios para o momento ofensivo. Além disso é um médio com boa capacidade de meia distância o que iria logo proporcionar outras opções de finalização à equipa, obrigando os defesas adversários a dar mais liberdade ao holandês.

Agora, digam de vossa justiça.

Coates não é melhor do que o pior central do Benfica. Não vejo qualquer interesse nesta compra além de parecer advir de um benfiquismo lagarto que é o de pensar mais no adversário do que em nós. Não quero vinganças nem roubos nem nada. Quero o clube comprometido consigo e com os seus adeptos. Coates é um calmeirão que se posiciona invariavelmente mal e que por isso se farta de dar porrada e fazer penalties (que por acaso nunca são marcados mas disso a culpa é do Benfica).







terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A magia (in)visível da CAN



O preconceito é mais sanguíneo do que se possa pensar. Todos somos racistas - brancos, pretos, mulatos, indígenas, ciganos, asiáticos, seres de outros planetas. A educação que tivemos condicionou-nos, tentou fazer de nós seres maldosos. Mesmo quando os nossos pais e os nossos amigos foram boas pessoas ou tentaram ser boas pessoas, mesmo assim a língua venenosa do preconceito tentou sempre condicionar a nossa forma de ver o mundo. E só há um antídoto: viajar (ou pelo mundo ou pelo nosso cérebro). Viajar para quebrar todas as barreiras. Viajar para amar as diferenças. Viajar para sermos melhores.

No facebook, a maior competição futebolística africana é partilhada através de pequenos momentos humorísticos, coisas peculiares, gestos cómicos. Alguém diz

- Os gajos só dão porrada!

Outro concorda e faz um like. Depois passa um vídeo em que um jogador na maca leva um toque de um carrinho de apoio.

Nada disto interessa para aquilo que o futebol africano tem a dar ao mundo, e é muito e é lindo.

Confesso que só há 8 anos comecei a ver a CAN com olhos de quem quer ver. O que tenho visto é um futebol cheio de invenção e de infância. Claro, mal jogado tantas vezes como aquelas que vemos em Portugal, em Inglaterra, em França,  mas há coisas naquela forma de lidar com a bola que não são europeias.  Coisas que ainda vêm de uma maneira de viver o jogo muito para além da táctica ou de exigências milionárias dos clubes.

A CAN ainda nos permite ver pedaços de futebol de rua descalça. Mesmo os craques conhecidos mundialmente, quando chegam às suas selecções tornam-se mais humanos, arriscam mais, esquecem as prelecções em hotéis de luxo. Não é raro ver um jogador africano, que no seu clube é obrigado a cumprir religiosamente as directrizes do seu técnico, a deixar fluir a sua memória de futebol. A fintar 3 adversários como se estivesse ainda na rua onde nasceu. E vêem-se coisas lindas. Coisas que o fizeram ser o extraordinário jogador que agora é na Europa.

A CAN não é um circo para desenvolver no facebook o preconceito mascarado. A CAN é um óptimo lugar para ver futebol. Para perceber futebol. Porque o futebol não é nem nunca foi património de nenhum lugar.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Esta jornada está a correr muito bem para nós



- conseguimos recuperar de um 0-3 para um 3-3, o que será uma óptima referência mental nos jogos futuros em que estivermos em desvantagem;

- fomos claramente prejudicados pela arbitragem, o que ajuda a destruir as teorias paranóicas dos rivais (a culpa de irmos na liderança afinal é mesmo do Benfica);

- o Sporting empatou logo a seguir, mantendo-se a 8 pontos de nós;

Agora só falta o Porto empatar com muito colinho do árbitro para ficarmos com o campeonato no papo.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O elo mais fraco

O erro é um acontecimento natural em todas as profissões. Correctores de bolsa, médicos, bancários, empregados de mesa, advogados, jornalistas, todos erram. Os árbitros não são excepção. Tempos houve em que o erro na arbitragem se associou a um elevado clima de suspeição e com motivos que o justificavam. Mas os tempos mudaram. De uma classe composta por gente desonesta e corrupta, o paradigma da arbitragem no futebol português alterou-se com o folhetim Apito Dourado, que teve consequências muito positivas no que toca à transparência e honestidade intelectual dos juízes do jogo.

Depois de uma geração composta por homens como Pedro Proença, João Ferreira, Pedro Henriques ou Duarte Gomes, árbitros com maior ou menor competência, com qualidades e com defeitos, uns mais vaidosos, outros mais arrogantes e outros ainda bastante inseguros, mas todos eles minimamente idóneos e íntegros, abriu-se um gap geracional com a saída destes ex-árbitros. Deu-se lugar a uma classe que apesar dos estudos, dos seminários e das formações é francamente inexperiente e que tem mostrado não ter arcaboiço mental para lidar com as pressões de que tem sido vítima. Uma classe que hoje é facilmente influenciável.

Pelos erros próprios de Sporting e Porto, foram os árbitros a pagar a fava. É sempre mais fácil culpabilizar esta classe que assumir os próprios erros. Os principais rivais do Benfica colocaram o futebol português em estado de sítio, pondo em causa a honestidade dos árbitros e em perigo a  sua integridade física, com as ameaças de morte que são conhecidas. E como se viu pelo seminário organizado que juntou Conselho de Arbitragem, árbitros e dirigentes dos clube dos campeonatos profissionais, as tão propaladas decisões controversas foram, na sua larga maioria, correctas.

O problema vem depois. Os árbitros, fruto da sua inexperiência, vão acusar o toque. Se exceptuarmos Jorge de Sousa e Artur Soares Dias, não há em Portugal árbitros que conjuguem experiência e qualidade. Esta nova geração sentiu o toque e isso viu-se hoje na Luz. Não conheço Luís Ferreira, árbitro da partida de hoje. Não sei se é bom ou mau árbitro, se o seu coração bate pelo Benfica, Sporting, Porto ou Carcavelinhos. Acredito na sua boa fé, até na sua competência técnica, mas hoje mostrou que a sua classe é excessivamente vulnerável fruto da inexperiência e que está mais predisposta a cometer erros contra quem tem o alvo a si apontado, neste caso o Benfica. Errou como erram os jovens correctores de bola, os jovens médicos, os jovens bancários, os jovens empregados de mesa, os jovens advogados e os jovens jornalistas. Errou porque não tem experiência. E este grupo actual de árbitros é profundamente inexperiente. É, neste momento, o problema desta classe.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO DO BENFICA, É GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO DE EUSÉBIO



Não sei o que é, ao certo; se o crescendo

"Sou dooooo Beeenfiiiiica"

se é o orgulho que aquela voz transporta, como que carregando nas sílabas todos os momentos gloriosos que este clube viveu

"e iiiiiiiiiiisso m´envaideeeece"

ou talvez a voz radiofónica dos grandes tenores do século passado misturada com as acentuações perfeitas em português-veludo das personagens dos filmes a preto e branco de filmes de Leitão de Barros, Perdigão Queiroga ou Arthur Duarte

"tenho aaaaaaaaaaa geniiiiica que a qualquer engrandeeeeeeeeeeeece"

parece que vejo a casa da minha avó, a sala ampla, portadas para a luz branca-transparente das paredes solares do Alentejo, na mesa um bordado minucioso, fotografias gastas, um terço, um rosário e o barbudo-mártir ao lado dos pratinhos de pássaros, de mãos e braços abertos para a eternidade. As asas de anjinhos de loiça querendo voar sobre os livros e algo ou alguém, de dentro das histórias fechadas em lombadas a couro vermelho e letras a ouro, que sai e anuncia

"Sooooou de um cluuuuube lutadoooooooooooooooor"

e parece que vejo a sala, depois a casa toda, a rua, a vila e todas as salas, ruas e vilas encostadas de ouvidos à escuta junto à telefonia, enquanto Artur Agostinho canta "É goooooooooooooolo do Benfica, é gooooooooooooolo de Eusébio" e os pássaros dos pratos aterram nos ombros de famílias inteiras em silêncio, escutando golos e passes e defesas, imaginando os lances, criando novos movimentos, inventando as cores que não vêem nos botões do aparelho que lhes sopra que o Benfica está a voar sobre o Real Madrid, que é Cavém, Coluna, de novo para Cavém, abre para Águas, levanta de primeira para a área, Eusébio amortece, remate de Cavém, golo

"que na luuuuta com fervoooooooooooooooooooooooooor nuuuuuuuuuuuunca encontrou rrrrrrrivaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal"

e o país explode vindo de um soturno silêncio de damas-de-companhia, medos, fomes, gabardinas e chapéus nos balcões dos cafés, para um grito que faz levantar as saias da donzela tímida que esperava no banco de jardim o seu prometido, que faz ouvir a voz daquele velho sisudo que não dava palavras ao mundo, faz abrir de alegria a cara do pai-de-família que, todo metido no ar, prometeu bebidas, comidas e o que se quisesse a metade do povo que se abraçava, se beijava, se aleijava, se atirava contra as amarguras do tempo enquanto as portas se partiam, mesas eram mergulhadas na intempérie de pernas, braços, cabeças, gente aos pulos, gente aos gritos, gente aos beijos, o padeiro a agarrar na jarra de flores e a levantá-la no ar, em gesto de vitória: "é nossa", e as crianças, espantadas, aos gritos histéricos, a mãe "cuidado com o deus-menino" e o deus-menino estatelado no soalho, embebido em aguardente e ferido de morte pelas vidraças da garrafa, dos copos, das loiças, pés atrás de pés, espezinhado o filho de Nosso Senhor e, na parede, o barbudo parecendo rir de sangue

"neeeeeeste nooooooooooooooosso Poooooooooooooooooooortugaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal"

não posso dizer, não sei dizer, o que é, que me faz levantar no Estádio, emocionar-me, ter amor desta maneira por uma ideia que não tem corpo nem precisa de ter, por um ideal, um voo, um sentimento, uma dor e uma alegria tamanhas sempre que oiço

"Seeeeeeeer Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeenfiquista"

e transporto dentro de mim todas as memórias misturadas numa só, passado, futuro, presente tudo numa amálgama de tempo em que vejo slides difusos, pequenos momentos, grandes momentos, vêm-me à alma aqueles instantes e o Estádio, aquele ecoar do golo que parecia que começava por debaixo da relva e ia espraiando a voz, subindo lentamente pelas escadas e pelos corpos das pessoas, era um língua de som que, quando a bola tocava as redes, nos afundava como onda, goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo e nós morríamos uns nos outros, engalfinhávamo-nos uns nos outros, já sem saber se as pernas e os braços eram nossos ou dos outros, uma massa compacta de gente e cachecóis, bandeiras, chapéus, camisolas, sapatos, fumo, papelinhos e o ritmo que subia, pulsava, o chão tremia, o ar vibrava e começava a dança

"é ter na aaaaalma a chama imensa, que nos conquiiiiiiiiista e leva a palma à luz inteeeeeeensa"

e o Sol vinha mesmo, risonho, beijar-nos, em tardes que pareciam infinitas, tardes que amoleciam o betão e se prolongavam para lá do possível

"com orgulho muito seeeeeeeeu, as camisolas berrantes, que nos campos a vibraaaaaaaaaaaaaaaaaaar"

e os velhos lembravam-se de ter erguido com as mãos as vitórias e o Estádio, os novos ouviam e queriam fazer parte, os Pais levantavam os filhos, mostravam-lhes o que era aquilo, queriam-nos ali para toda a vida, e os filhos mostravam orgulho e gratidão por poderem vibrar, e pais, filhos, avôs, netos, estranhos, conhecidos, amigos, amantes, namorados olhavam-se dentro do golo e cantavam

"são papooooooilas saaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaltitanteeeeees"

e então calava-se tudo um instante, um pequeno instante em que 120.000 pessoas não faziam um único ruído, jogadores e adeptos numa espécie de comunhão do silêncio, os holofotes como templos antigos, os placards electrónicos gigantes anunciavam 00:00, cheirava a relva e a terra molhadas, a fumos inebriantes, sentia-se um pulsar que era a própria respiração do Estádio, tum tum tum tum tum tum, e era de dentro dele, por osmose do betão para os pés, depois pelo corpo, até ao céu, que se iniciava o estrondo da batucada

"Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica, Benfica!"

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Ederson e Rui Patrício



Sem qualquer facciosismo, considero o Ederson superior ao Rui Patrício. O guarda-redes do Sporting é seguro nas bolas altas, é rápido a sair e tem  bons reflexos mas como ele há muitos. Já as qualidades do guarda-redes do Benfica são raras, entre as quais a invulgar capacidade de jogar com os pés (é, no fundo, o guardião perfeito para o modelo de Guardiola). Não custa adivinhar que será o melhor do mundo nos próximos anos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Pizzi ao cubo

Há uma certa maneira de Pizzi jogar à bola que me deixa saudoso da infância. Lembro-me de mim na adolescência. Sou eu ali no canto do ciclo a fumar cigarros e a dar beijos às miúdas quando o Pizzi avança pelo campo, faz triangulação, recebe, finge que remata, deixa cair o guarda-redes, depois golo. É provável que eu goste do Pizzi porque gosto e tenho saudades daquilo que eu senti há muitos anos. Já tocou, a professora de Matemática está à espera mas eu ainda tenho a Vitorina ao meu colo a cheirar a perfume de flores e a língua dela parece um helicóptero.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Não vender

Vender titulares em Janeiro é sempre - reforço o SEMPRE - uma má ideia e um sinal contrário àquele que os discursos oficiais de estabilidade financeira e ambição interna e europeia querem fazer crer. Pelo Tetra e por uma campanha na Champions à Benfica, espero que as notícias de hoje sejam manifestamente exageradas.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O jogador da nossa vida



Jonas é o melhor jogador que vi jogar no Benfica. Não me esqueço de Chalana, de Rui Costa, de Paulo Sousa, de Pablo Aimar, de João Vieira Pinto, de Diamantino, de Valdo, mas Jonas não é só o que faz com e sem bola. É o que melhora nos outros. É raro encontrar na história do jogo craques que pela forma como jogam melhoram substancialmente o jogo dos colegas. Como diz de forma muito feliz o Felipe Rebelo, é o jogador da nossa vida.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Vídeo-árbitro



O futebol é o desporto mais universal do mundo. Não há ilha neste planeta, por mais selvagem que seja, que não tenha ainda sido palco de uma futebolada. Pode a bola ser o esférico de um côco acabado de cair, pode ser um jornal enrolado dentro de uma meia ou atado a uma corda, pode ser uma pedra, uma borracha de um pneu, uma concha ou crustáceo ancestral, uma super-pastilha gorila de Laranja ressequida. Onde houver um ser humano, haverá alguém a dar toques com o pé em objectos mais ou menos redondos. Haverá um remate;  alguém que, entre duas estacas na areia, o tentará defender.

Haverá erro e acerto, boas e más decisões. Na escola primária, rapidamente percebemos que o árbitro não tem sequer de ser uma figura humana mas a noção simples de bom-senso entre os jogadores. Alguém grita: "é falta!" e o lance, entre alguma discussão acalorada, acaba ali rapidamente decidido porque o jogo pede para continuar. O jogo quer continuar. O jogo tem de continuar.

Tal é a essência infantil porém absolutamente criativa do futebol que, ao contrário de outros desportos, não absorve bem medidas que o subjuguem ă normalidade de uma burocrática avaliação. O jogo, este jogo, não pode ser constantemente interrompido para que 3 ou 4 engravatados de chuteiras analisem meticulosamente as imagens num ecrã. Não faria sentido para os jogadores, seria entediante para os adeptos. É por isso que, quanto a mim, daria ao futebol apenas duas inovações tecnológicas:

1) A da linha de baliza. Saber se a bola entrou totalmente ou não. Com esta medida, que seria IMEDIATAMENTE assinalada (não se perdendo minutos a decidir o lance), garantíamos que a verdade desportiva no seu aspecto mais essencial - o golo - ficasse absolutamente garantida.

2) O direito dado a cada treinador de pedir uma segunda avaliação sobre um lance. Não são os árbitros que devem ter esse encargo, esses devem fazer o seu papel em campo como sempre fizeram - talvez se apostarmos numa melhor formação na arbitragem deixemos de ser todos tão paranóicos,  maldosos e desconfiados dos árbitros. Como no Ténis, pede-se o "olho de Falcao", embora defenda que no futebol só deve existir uma oportunidade. Se o treinador pedir uma avaliação num lance duvidoso (uma possível grande penalidade, um fora-de-jogo que deu golo, uma falta para expulsão),  o jogo pára. Se tiver tido razão,  o árbitro agirá sobre esse lance e esse treinador manterá o direito a um pedido. Se o pedido tiver sido incorrecto, essa equipa ficará até ao final do jogo sem qualquer direito a pedidos de reavaliação dos lances.

Por amor de Iniesta, não estraguem o futebol.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Bruno de Carvalho, um Presidente que faz bem ao Benfica



Bruno de Carvalho. Basta ficar 5 minutos a analisar-lhe as expressões para perceber que há ali qualquer coisa que não bate bem - quer dizer, o senhor não joga com o baralho todo. De olhos esbugalhados, discurso arrogante e sem nexo, o peculiar Presidente do Sporting vai alimentando a fogueira com a acendalha que o elevou e o mantém no poder: o anti-Benfica.

Nessa sua saga infernal de explorar o mais forte fraquinho dos sportinguistas, não vê limites nas palavras e nas acções: tanto pode mentir descaradamente aos sócios sobre um determinado assunto e logo depois defender o seu contrário; enviar cães de fila para denegrir o treinador da equipa de futebol, criando um ambiente pavoroso entre técnico e jogadores; colocar em causa a idade e honra de um miúdo de 18 anos que joga no rival; entrar no Sporting com a promessa de ter garantido uma parceria com um fundo, depois inventar uma perseguição  aos fundos que acabou na obrigatoriedade de tirar mais de 20 milhões de euros às já muito frágeis contas do clube, e logo a seguir anunciar mais uma parceria com um... fundo.

Bruno de Carvalho segue em frente, sempre em frente. Por mais ridicularizado que seja pela realidade, por mais derrotas nos tribunais, nos campos de futebol, na comunicação, de Carvalho vai em fuga permanente até ao abismo final. Leva nas mãos a bandeira do anti-Benfica mas ela já não convence todos os sportinguistas que começam a compreender a manobra de diversão.

Ao Benfica já nem interessa responder. Se eu fosse Director de Comunicação do Glorioso, mandaria calar todos os papagaios Guerras, Gomes da Silva,  Venturas e quejandos. A melhor coisa para queimar Bruno de Carvalho é Bruno de Carvalho. Com a sua arrogância, com a sua desesperada sede de protagonismo, com a falta de dignidade, a pobreza de espírito, a boçalidade, o tipo dá tiros nos pés a cada intervenção aos microfones, a cada post no facebook.

É deixá-lo arder sozinho. E agradecer-lhe a saga paranóica que teve para evitar que o Benfica dobrasse o Sporting em campeonatos nacionais. Não só ninguém foi atrás da burla dos 4 campeonatos como ainda recebemos mais 3 Taças de Portugal para o nosso palmarés sem mexermos uma palha. Já merece um espaço no Cosme Damião.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Andrés Iniesta, um jogador contra a estatística



Nada tenho contra Ronaldo. Pelo contrário, acompanho-o desde que chegou à equipa principal do Sporting, gostei de ver a evolução que teve em Manchester, a maturidade em Madrid, a liderança na Selecção Nacional.

Vejo-lhe todas as centenas de golos, os arranques diabólicos, os remates certeiros, potentes e confiantes de um miúdo que chegou ao topo do mundo por ter uma ambição desmesurada que o faz não ter impossíveis, uma humildade emocionante que o faz trabalhar sempre mais do que os outros.

É uma máquina de fazer golos. É um portento atlético, uma mistura explosiva de técnica, velocidade e potência. Já é um dos Eternos na História do jogo e ainda lhe faltam pelo menos mais 5 anos dentro dos relvados.

Mas dar 4 bolas de ouro a um jogador como Ronaldo é a demonstração clara de que ainda falta caminhar muito para que tenhamos este maravilhoso jogo verdadeiramente apreciado. O futebol para ser golo tem de ser remate. Para ser remate tem de ser passe. Para ser passe tem de ser espaço. Para ser espaço tem de ser cérebro. O jogo dos génios não é melhor só porque é mais bonito, é melhor porque é mais eficaz. Porque cria constantemente as condições para que a equipa brilhe sempre mais.

Não dar uma única Bola Dourada ao melhor jogador do Mundo, Andrés Iniesta, e dar 4 a um jogador que, sendo fantástico e empolgante, não trouxe nada de novo ao jogo, não criou, não o entendeu, não o reinventou por dentro, é um insulto ao próprio futebol. É ser adepto da estatística e a estatística em futebol vale perto de zero.

A estatística em futebol é um diálogo de surdos:

- Gostaste d"O Jogador", do Dostoievski?
- Eh pá,  adorei. Tem 170 páginas e a imagem da capa é extraordinária.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O ouro de Marvin



No texto que escrevi na Quinta dava o mote ao nosso mister:

"Atrair o adversário, puxar a pressão para terrenos que nos sejam favoráveis e depois procurar, através de variação do flanco e da verticalidade, criar situações de 4x3, 3x2 , 3x3. O desposicionamento de Adrien, atraído pela cegueira em pressionar mais à frente e nas faixas, deixará o corredor central para Pizzi brilhar. (...)

Claro que o ouro está nas costas de Marvin: vejo dois ou três golos a acontecerem na primeira parte com a exploração do espaço nas costas do lateral-esquerdo do Sporting. Bastará ao Benfica ser eficaz na transição e chegará ao intervalo a ganhar 3-0"

Mister Vitória leu as indicações e os golos acabaram por acontecer precisamente nas costas de Marvin vindo de transição rápida pelo meio em superioridade/igualdade numérica (o primeiro) ou no espaço de Marvin (o segundo).

E foi assim que, não jogando grande espingarda, o Benfica ganhou um jogo fundamental. O ouro estava mesmo em Marvin.

Uma equipa à imagem do seu treinador


Com tudo o que isso tem de bom e de mau.

O Benfica derrotou o Sporting por 2-1 na primeira vitória conseguida em clássicos na Luz em mais de dois anos e meio. Sob o espectro de derrotas recentes contra Marítimo e Napoli, pressionado pelos cinco pontos recuperados por parte do Sporting nas últimas jornadas e com o peso do passado recente a assolar a memória de todos os que vivem o futebol, Rui Vitória surpreendeu ao mexer no onze base, lançando Rafa e Jimenez, com sucesso, saindo dessa forma vencedor no duelo com Jorge Jesus.

O Benfica foi igual a si mesmo nos jogos grandes. Uma fiel imagem do seu treinador. Cauteloso, arriscando pouco ou nada, tentando sair a jogar sempre sem correr o menor dos riscos e não se incomodando em ceder a posse de bola ao adversário. E se a equipa soube interpretar na perfeição as ideias de Rui Vitória, verdade seja dita que o treinador também escolheu os intérpretes que melhor poderiam desempenhar essa tarefa: Rafa Silva, uma autêntica flecha sempre que se desenhava um contra-ataque; e Raul Jimenez, um jogador com um espírito de sacrifício muito diferente do de Mitroglou, capaz de participar mais e melhor ao nível da primeira linha defensiva e de dar mais velocidade ao ataque.

Não alinho pelo diapasão de que a equipa que vence é sempre a melhor. É um daqueles chavões mais que muitas vezes usado e que pouco ou nada dizem. Se tal fosse verdade, teria de admitir que o Porto foi melhor que o Benfica na Luz no ano passado, ou que o Benfica foi melhor que o Sporting em Alvalade no jogo do título. Não fomos nem inferiores no primeiro caso nem superiores no segundo. Da mesma forma que hoje não fomos inequivocamente superiores ao Sporting. Fomos o que somos. Uma equipa com um processo defensivo e ofensivo relativamente sólidos mas que abdica vezes demais da construção de jogo apoiado, por receio, por medo, por algo que nem sei bem de que se trata, mas aparentemente sem necessidade dada a valia individual dos jogadores e inclusivamente dos ditos processos de jogo.

Por tudo isso, esta é uma equipa à imagem do seu treinador. Há competência, bastante trabalho, algum medo e muita solidariedade. E enquanto assim for, o Benfica estará sempre mais perto de conquistar o tetracampeonato.