Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Então até 2016/2017

Apresento-me:

- Escola de Futebol Humberto Coelho (melhor jogador do meu escalão em todos os 4 anos que estagiei em Oeiras)
- Infantis no Sporting de Abrantes
- Iniciados e Juvenis no Sport Abrantes e Benfica
- Futeboladas no liceu
- Futeboladas em ginásios
- Futeboladas no Pio XII
- Futeboladas na Cidade Universitária
- Futeboladas em várias praias, incluindo as de Espanha, Brasil, Peru e Chile
- Diziam de mim coisas bonitas: nos infantis, o mister Bragança: "tem uns pés de ouro, mas é molengão".
- Não tenho vídeo no youtube e já não posso meter porque nos últimos anos engordei o suficiente e fumei o suficiente e bebi o suficiente para não aguentar 20 minutos seguidos de bola sem ter de inventar uma lesão cirúrgica
- Sou benfiquista e, quando o cansaço chegar, darei aqueles extra 30 segundos se jogar no meu clube

Tendo em conta a política de contratações do Benfica, penso possuir o CV necessário para ainda esta época poder aparecer no jogo de apresentação da equipa. Estou a custo zero - mantenham o whisky e o gin-tónico no cacifo, paletes de tabaco e enchidos para dar força para a segunda parte. Posso assinar com o cheque em branco, ponham vocês o meu ordenado no papel que eu aceito.

Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Desorientação

O maior problema do Benfica por alturas de Dezembro era bem visível. Não existia lateral esquerdo. Primeiro porque Capdevilla não contava e depois porque Emerson não prestava.

O que se fez em Dezembro ? Dispensaram-se Ruben Amorim e David Simão, acabando com a alternativa a Maxi Pereira na lateral direita, pois rapidamente se constatou que André Almeida estava demasiado verde, bem como se abriu um buraco no meio, pois para 3 posições (6, 8 e 10) Jesus apenas contava com 4 jogadores, Javi (6), Matic (6 e eventualmente 8), Witsel (8 e às vezes 2) e Aimar (10). Não que o Benfica não tenha nos seus quadros jogadores como Airton, Nuno Coelho ou Carlos Martins que podem fazer essa posição, apenas não foram considerados necessários. Consequência óbvia - equipa estoirada em Março.

Mas para além disso assinou-se com Djaló. Para quê ? Ainda hoje estou para saber, pois nas alas Jorge Jesus contava com Nolito, Gaitán e Bruno César. É certo que 3 jogadores para 2 lugares é curto, mas o Enzo que também foi dispensado nunca chegou a ser verdadeiramente uma opção.

Que estratégias para a nova época ? Nas laterais, Wass e Carole fizeram boas épocas em França crescendo o interesse nestes jogadores. Serão aproveitados ? Não se sabe ... Quem se contrata então ?

Ola John. Um sonho molhado do Jorge Jesus que custa 9 milhões para extremo onde temos Nolito, Gaitán, Bruno César, Enzo Pérez, Djaló e Urreta. Não está em causa o valor e o potencial de mais um jogador que só vê o Benfica como trampolim, é que efectivamente a grande lacuna do Benfica é a posição de extremo esquerdo.

Então e para defesa esquerdo ?Rojo ? Ansaldi ? Siqueira ? Não. Contrata-se Luisinho, um médio português de 27 anos que tem jogado adaptado a lateral e aproveitando a onda também Michel, um avançado brasileiro de 25 anos (ambos por 5 anos) que tem a particularidade de ter marcado menos golos que o avançado de 21 anos que o Benfica teve emprestado ao Paços de Ferreira, Melgarejo.

Mas não ficamos por aqui. Fala-se recorrentemente em Salvio, com uma insistência daquelas que já vimos que vai acabar em casamento, tipo Ola John. O holandês custou 9 milhões de euros, o argentino custará na ordem dos 8 milhões de euros. Supostamente a venda de Gaitán irá cobrir estes investimentos e a venda de outro jogador poderá libertar recursos para o abate do passivo.

Mas, quem é que deverá ser vendido a confirmar-se a entrada de Salvio ? Nolito ? Bruno César ? Nada disso, dizem os especuladores que sairá do trio Javi, Witsel ou Cardozo. Ou seja, entram 2 extremos e sai um extremo e um jogador da faixa central (trinco, médio de transição ou avançado).

Bem sei que estamos a falar de especulações, excepto o Ola John, o Luisinho e o Michel, mas será que não estaremos a assistir mais do mesmo ? Desorientação ? Ou comichões orientadas ? É assim que se projecta o Benfica campeão ? No reino da fruta fala-se da saída do Lolk e da entrada de um jogador cujas características são decalcadas - força, rapidez e facilidade de remate. Já nem vou falar de flores, mas continuemos neste ritmo e depois venham-me dizer que é só uma questão de fruta da época.

Quando ser muito melhor do que os outros não chega

Nunca gostei do Michael Johnson. Todos os verões olímpicos e invernos de atletismo, em frente à televisão eu sonhava que o ouro se lhe agarrasse ao pescoço como uma cobra e o matasse ali mesmo, em pista, a dois ou três metros do final. A única coisa boa que reconhecia a Michael Johnson era o de ter um nome híbrido entre dois homens que eu amava: Michael Jordan e Magic Johnson. Às vezes tentava gostar do velocista explorando a minha alma obsessiva e muito compulsiva, dada a joguinhos entre letras, números e distâncias milimétricas na sala. Se era Michael e era Johnson, não podia ser mau de todo.

Um olho fechado, um terço da sala às escuras; fechava o outro, e outro terço da sala às escuras. Depois piscava os dois, alternadamente, e a sala constantemente a abrir-se e a fechar-se, mas no centro, no ângulo que nem um nem outro fechados alcançam, a televisão com o Michael Johnson a correr todo direito, bigode ridículo e ouro, muito ouro, agarrado a um tronco de puma. Não valia a pena: Michael Johnson merecia morrer.




Aquela arrogância da vitória, o homem já tinha dado uma volta a pé com a camisola americana e ainda estavam a chegar gajos à linha final - e falo-vos dos 200 metros, não da maratona. Um vencedor nato, atleta sublime, exemplo mais puro do corpo humano potenciado ao extremo e a minha ingratidão perante aquilo que via, retinha-me nos detalhes, nos acessórios, na pilosidade absurda. Não, Michael Johnson não mereceu o meu desencanto nem a minha raiva. Mas, naquilo que é sobretudo humano, não lhe peço desculpa. Sempre preferi o ar de detective privado cruzado com Adolf Hitler negro do namíbio Frankie Fredericks. 




 

Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

O eduardobarrosismo no desporto português

Para Eduardo Barroso, Pinto da Costa não está a mais no desporto português.

Para Eduardo Barroso, Paulo Pereira Cristóvão não está a mais no desporto português. 

Para Eduardo Barroso, o "seu" amado Ricardo Sá Pinto e as suas cenas de pugilato a seleccionadores e jogadores do "seu Sporting" não estão a mais no desporto português.

Para Eduardo Barroso, os adeptos do Sporting que incendiaram um sector do estádio do rival não estão a mais no desporto português.

Para Eduardo Barroso, Eduardo Barroso, com as suas opiniões de merda, não está a mais nos jornais portugueses.

Para Eduardo Barroso, quem está a mais no desporto português é Carlos Lisboa, só o melhor basquetebolista português de todos os tempos e figura incontornável do desporto e do Benfica.

Para Eduardo Barroso, todo o Benfica está a mais no desporto português.

Para Eduardo Barroso, só o seu fanatismo, a sua boçal doença pelo "seu" Sporting e o pedantismo próprio de um adepto incapaz de escrever um texto minimamente razoável (ou, vá, bem escrito) não estão a mais no desporto português.

Eu acho que Eduardo Barroso está a mais no desporto português. Está a mais nas televisões portuguesas. Está a mais nos jornais portugueses. Está a mais na sociedade portuguesa. 

A hipocrisia está a mais no desporto português. O eduardobarrosismo - que é o que faz com que pulhas, corruptos, ladrões, mentecaptos, chulos, proxenetas, merdosos, caciques vivam alegremente por entre as vielas do desporto português, enquanto se persiste no ódio a um só clube, trauma profundo de infância dos eduardos barrosos deste país -, o eduardobarrosismo, dizia, está definitivamente a mais no desporto português.

Terça-feira, 29 de Maio de 2012

O Geração Benfica merecia muito mais amor

Notável o trabalho que tem sido desenvolvido pelos escribas do Geração Benfica ao longo dos tempos. Notável e profícuo, com diários temas de reflexão sobre o universo benfiquista. Há poucos espaços que problematizem tanto e tão bem o que é o clube, que rumo tem e pode ter, o que é o nosso passado, o que é, afinal, o benfiquismo. Parabéns a todos. E obrigado.

O último excelente trabalho - e revelador de que escrevem sem agenda, apenas e só por amor ao Benfica - foi a entrevista a Rui Gomes da Silva. Questões pertinentes, com inteligência e conhecimento. Pena é que o entrevistado tenha optado por ser o que é: um político. Às perguntas incómodas, respondeu com discurso demagógico, tergiversou, atirou ao poste. Fica a sensação de que a entrevista lhe serviu na perfeição para um tempo de antena em local que tanto aprecia - a blogosfera - para politizar ainda mais o que deve ser um cargo de competência, afeição, amor e dedicação sem barreiras.

Ainda que nos avise de que responde como sócio e não como vice-presidente, todo o discurso é naturalmente de dirigente político (e se calhar clubístico); não há ali nada que nos faça pensar que RGS responde como mero e simples adepto. Como sócio do clube e defensor de que quem dirige o Benfica deve pautar a sua conduta pela honestidade, verdade, frontalidade, nenhuma demagogia ou populismo fácil, fiquei desiludido. Mas também, verdade seja dita, dele não esperava muito mais do que o que lhe li. Como diz Leonor Pinhão, em entrevista que nos concedeu há uns dias atrás: «trata-se de uma simples questão de talento e de inteligência». É exactamente isso que falta a Rui Gomes da Silva. Como político, como dirigente e, acima de tudo, como benfiquista.

Recorro à primeira pergunta e consequente resposta de RGS na entrevista ao Geração Benfica para definir - e de que forma - o que é ter um dirigente que apenas sabe politizar e tergiversar o que devia ser uma resposta honesta, directa e esclarecedora. Em vez de enfrentar a pergunta, recorre aos mesmos e batidos truques de quem sobe na vida em atalhos à inteligência. Dele e dos que nele acreditam:

«Está por explicar o motivo de o SLBenfica ter apoiado, primeiro para a Liga e depois para a FPF, um ex-dirigente do FCPorto e intimamente ligado ao processo Apito Dourado, tendo sido ouvido a sua intervenção nas escutas. Quer comentar e justificar de uma vez por todas este apoio? Não nos contentamos com a frase do Presidente dizendo "confiem em mim"...

RGS: "Não se tratou de uma posição de alguém, de forma especifica.
Na Direcção e na SAD as questões são colocadas de forma franca, aberta, transparente, democrática.
E, independentemente da posição de onde cada um parte - Cosme Damião ensinou-nos a viver em liberdade, mesmo quando não eram livres os caminhos que Portugal, então, trilhava - o que vincula o Benfica são os consensos, o resultado a que se chega.
Por isso, que ninguém se exclua de qualquer responsabilidade.
Havia um projecto, onde mais do que ideias avulsas, existia uma ideia para o futebol português!
Mas esse apoio, de principio, não cerceia a liberdade de critica, a que, alias, eu próprio dei voz, num dos programas recentes da SIC, onde questionei o actual Presidente da FPF sobre a sua capacidade para ter mão no estado em que vão andando os diferentes órgãos da Federação.
O SLB não trocou apoio por lugares.
Batemo-nos por princípios, valores, causas, "bandeiras".
Não queremos lugares, como outros.
Mas não perdoamos a quem, tendo prometido independência, verdade, equidistância, imparcialidade, ... apoie ou assista, faça ou permita, actue ou colabore, mesmo que por omissão, em escândalos que prejudicam o Benfica, beneficiam o nosso adversário do costume, enfim ...., não dão passos no sentido de afastar o futebol português de uma das páginas mais negras - senão a mais negra - de toda a sua história: o caso "Apito Dourado".
Pela verdade desportiva, doa a quem doer!»



É que nem verdade nem desportiva. Apenas areia para os olhos dos adeptos e muita persistência em manter o tacho. São estes que governam o nosso amor.

Até quando?

Até quando teremos de assistir a este cacique no futebol português, corrompendo, insinuando, manobrando sob o silêncio sepulcral da comunicação social e a incompetência dos dirigentes do Benfica? Até quando?


E se o próximo treinador do Benfica fosse...

... Bruno Laje?


Vinha mal ao mundo?

Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Entrevista - Leonor Pinhão

As crónicas da Leonor Pinhão n´"A BOLA" são, para muita gente do universo benfiquista, a única razão pela qual compram o jornal nos dias que correm - só isto basta para saber o respeito, admiração e agradecimento que todos temos pela defesa intransigente que a Leonor faz do nosso clube. Não são precisas mais apresentações. Venham as suas respostas às nossas perguntas. E o agradecimento por ter aceitado de imediato o convite.


Costumas acompanhar a blogosfera benfiquista? 

A blogosfera não é, decididamente, a minha esfera. Embora, às vezes, haja quem me chame a atenção para um ou outro texto.


Rui Gomes da Silva tem-se especializado na função de vigilante dos blogues do Benfica, não raras vezes criticando a forma como estes abordam os assuntos do clube. Faz sentido um Vice-Presidente do Benfica participar num programa televisivo, abrindo o jogo sobre assuntos internos do Benfica e chamando abutres aos que discordam do caminho traçado pela actual Direcção?

Depende. Se, por exemplo, o Ricardo Araújo Pereira fosse vice-presidente do Benfica eu acharia muito bem que fosse ele a defender-nos em todos os programas de televisão. Portanto trata-se de uma simples questão de talento e de inteligência. 


Que balanço fazes do trabalho da actual direcção do SLB?

Notável do ponto de vista da imposição do Benfica como uma marca comercial e do tratamento dos mais de 200 mil sócios como clientes putativos de uma base de dados vocacionada para o marketing. Penso que naquilo que é essencial e que é o “objecto” número um do clube, o futebol, ainda estamos longe da competência e da criatividade exibidas na área comercial.


Que explicações encontras para a perda do último campeonato após termos uma vantagem de 5 pontos sobre o 2ª classificado?

Falhanços a mais na área da política e das relações com as instituições e nas áreas das equipas adversárias. 


Jorge Jesus tem qualidade suficiente para ser treinador do Benfica ou o que lhe sobra em talento falta-lhe em humildade?
Jorge Jesus é um bom treinador.


Por que razão o clube não aproveita melhor os jogadores saídos das camadas jovens?

Provavelmente porque não são de qualidade indiscutível.


A estratégia que passa por comprar jogadores ao desbarato na esperança de encontrar dois ou três que compensem o investimento faz sentido?

Ao “desbarato” é como quem diz… Penso que é essa, de alguma forma, a prática corrente do negócio do futebol a nível mundial. 


Por que razão no jornalismo desportivo em Portugal quase não existem investigação rigorosa e consequente divulgação de todos os interesses, manobras de bastidores e corrupção em que o futebol português é fértil?

Porque as represálias são muitas e interiorizando-se o conceito, justo, de que os jornais não são tribunais nem esquadras da polícia, fica resolvida, do ponto de vista da consciência, essa transcendente questão. 


O jornalista desportivo em Portugal tem total liberdade de processos?

Desejo que sim.
  

Assumes, sem problemas, o clube de que és adepta. Isto é uma raridade no jornalismo desportivo porquê?

Na verdade eu não sou jornalista desde 1998. No sentido em que não tenho vínculo a nenhum quadro de redacção de nenhum jornal. Escrevo textos de opinião, a minha opinião. Por isso sinto-me absolutamente à vontade para assumir publicamente o meu benfiquismo doa a quem doer e, por norma, é a mim que me dói mais… 


Estás satisfeita com a política de comunicação do Benfica? Se não, quais os problemas principais?

Em termos de marketing de produtos é muito boa. Em termos de marketing do futebol depende sempre da posição da equipa na tabela classificativa. E por ser assim uma relação tão directa, às vezes torna-se confrangedora. 


Gostarias de ter algum cargo no clube ou preferes a condição de adepta e nada mais do que isso?

De modo algum. Tenho a capacidade mais do que suficiente para me enxergar… 


O Benfica deve aliar-se a pessoas com um passado duvidoso - como actualmente - ou deve seguir o caminho do "se é para nos lixarem, ao menos não o fazem com o nosso aval"?

Como benfiquista incomoda-me mais a presença de ex-funcionários de rivais no interior do próprio clube. Provavelmente, tenho uma visão romântica e ultrapassada da realidade. Mas é a minha visão. 


Percebeste a estratégia(?) do apoio inequívoco de Luís Filipe Vieira a Fernando Gomes? Se sim, explica-nos porque nós não percebemos.

Boa-fé e misticismo, talvez. Crença na redenção, provavelmente. Péssimos conselheiros, certamente. 


3 palavras que caracterizem Luís Filipe Vieira (orelhas não vale).

Presidente do Benfica. 


3 palavras que caracterizem Jorge Jesus (Rod Stewart da Reboleira também não vale).
 
Treinador do Benfica. 


De que forma lês as mudanças drásticas de ideologia de alguns ilustres benfiquistas, com António-Pedro Vasconcelos à cabeça?

Francamente, nem sei do que estás a falar. Não sou uma consumidora ávida das opiniões e ideologias dos outros. Nunca vejo programas de debates televisivos e não tenho qualquer tipo de curiosidade pelo que se diz na praça. Sou um bocado autista, confesso. 


Os nossos leitores sabem que admiramos muito o Luís Fialho, do blogue "A VEDETA DA BOLA" e cronista no jornal do clube. Confirmas que ele tem um número em que faz a espargata, o pino e o mortal à rectaguarda, tudo isto em simultâneo e enquanto equilibra um copo de leite meio-gordo na ponta no nariz?

Não faço a mínima ideia quem seja o Luís Fialho, com o devido respeito. 


Confirmas-nos que João Gabriel é afinal Juan?

A única coisa que posso confirmar é que o João Gabriel já era há muito benfiquista antes de ser funcionário do Benfica. Parece-me um bom princípio. 


Com eleições à porta, acreditas que Vieira vai enfrentar uma forte concorrência ou a vitória é tão certa como nós ganharmos a próxima Taça da Liga?

Nesta altura do campeonato é impossível fazer prognósticos pela razão simples de que… não há campeonato. Pela minha experiência nestas coisas, que é igual à experiência de todos nestas coisas, penso que se o Benfica iniciar a próxima temporada com qualidade e vitórias, Luís Filipe Vieira ganhará facilmente as eleições por mais forte que seja a concorrência. Dando-se o caso contrário, ou seja, um arranque de época titubeante e fraquinho, por mais fraca que seja a concorrência, teremos uma campanha eleitoral mais agitada com uma concentração de forças opositoras ao regime em vigor e muito estardalhaço nos jornais, nas rádios, nas televisões e nas paredes do nosso Estádio. 


Estaremos condenados a umas eleições entre Vieira e Veiga (este através de uma figura que possa candidatar-se) ou crês na possibilidade de várias candidaturas em Outubro?

Desejo muito que isso não aconteça. Aborrece-me à partida a ideia de ter de ouvir os nossos adversários mais sagazes a atirarem-nos cruelmente à cara que as eleições no Benfica se disputam entre dois ex-sócios do FC Porto. E o que é que a gente responde a uma coisa destas? 


Se, para além de Vieira, pudesses escolher mais 2 candidatos para as próximas eleições, quem seriam? E desses 3, em quem votarias?
 
Joaquim Ferreira Bogalho, Duarte Borges Coutinho. Votaria em Luís Filipe Vieira por razões óbvias. Tenho estima e respeito pela figura de Luís Filipe Vieira. Penso que ele próprio é, frequentemente, o mais surpreendido por as coisas – e refiro-me ao futebol profissional – não tomarem o rumo com que sonhou. Não é uma falha de carácter acreditar, como aparentemente acredita, na bondade das pessoas e na bondade das instituições. É apenas falta de intuição política pura e dura. 


Qual o perfil ideal de presidente para o SLB?

A um presidente do Benfica exigem-se “desumanidades” que são estranhas à índole de Luís Filipe Vieira. Por exemplo esta: o melhor amigo do presidente do Benfica só pode ser o Benfica. Ou esta: saber não dar ouvidos a lisonjas. Tudo isto se aprende. 


O que diria Carlos Pinhão deste Benfica?


Penso muito nisso. A demolição do Estádio da Luz teria sido um desgosto, certamente. Mas ninguém tem o direito de falar pelos que já cá não estão, não é?

Há 60 anos atrás, Salazar e o Porto perderam por 8-2



A memória tem curiosidades que fazem da História não um conto ficcional mas a preservação da verdade. Por muito que os ignorantes continuem escamoteando uma maioria de títulos ganhos através de manobras ilegais e corruptas, reescrevendo o passado como melhor lhes convém, o tempo e os factos históricos encarregam-se de lhes ensinar o que é um facto e o que é uma mentira.

Ao contrário do Benfica, que foi sempre um clube visceralmente livre e democrático, Sporting e Porto não poderão puxar para si galões da mesma estirpe. Os exemplos são vários e escuso-me a enumerá-los - vão ler livros com palavras, muitas, e muitas letrinhas, se estiverem para isso. Se persistem na ignorância, já não será problema dos que conhecem a História para lá dos preconceitos e falsidades atirados à parede a ver se colam.

Há 60 anos, o Futebol Clube do Porto inaugurava o seu estádio. A data de 28 de Maio não é fruto de um acaso mas a consequência das ideologias dos dirigentes do clube, que acharam por bem colar de forma indelével à História do clube a data que comemorava a revolução que deu origem ao Estado Novo. E assim nasceu o Estádio das Antas. Com pompa, circunstância e a idiossincrasia que, anos mais tarde, teria o seu apogeu na era actual que todos conhecemos. No fundo, faz sentido: um clube que decide inaugurar o seu estádio num dia que comemora o início da instauração de um estado ditatorial tem tudo para chegar até aos nossos dias tal qual chegou: transversalmente corrompido e corrupto.

Para visitante, claro, o Benfica. Uma espécie de ditadores versus liberais, com a esperança portista a residir numa humilhação aos gajos "vermelhos" que tinham eleições democráticas e tudo. O resultado não podia ter sido mais esclarecedor: 8-2 para os comunas, sem apelo nem agravo. E assim se inicia, a 28 de Maio de 1952, um ódio visceral e profundo aos que clamam pela liberdade. 60 anos depois, o ódio atingiu laivos de demência e boçalidade. Talvez um dia, quando estes corruptos que dirigem o clube morram e apareça gente nova, o Porto possa voltar a ser um clube honrado como até à década de 50. Talvez. Só depende dos adeptos a inversão de paradigma. No entanto, pela amostra geral, percebemos que muito dificilmente o clube algum dia conseguirá ser verdadeiramente grande. É que viver na sombra de outro nunca fez crescer ninguém.

8-2. E a gigante Taça foi para o Comité da Luz.




Sábado, 26 de Maio de 2012

O meu Valdo Cândido de Oliveira Filho

Camisola vermelha comprada numa feira, um "1" e um "0" feitos à mão e cosidos pelo meu Pai nas costas, uns calções brancos, curtos, e umas chuteiras simples. Faltou-me a Afro para ser o Valdo. De resto, estava tudo lá: a indumentária e eu, em imaginação. Quando corria, fazia aquele compasso de espera, fintava uma pinha, deixava-a cair, voltava a rodopiar, levantava a cabeça. Um pinheiro pedia-me a bola, isolado. Fingia que passava, metia para dentro, corria, olhos no chão, olhos na bola, olhos em frente. Peito feito sobre o ar vespertino, a bola chegando-me aos joelhos. Pai, posso ser o Valdo?

O carro estava estacionado numa clareira, entre o pinhal. Portas abertas, todas, bagageira para cima, com bolos, pão, vinho, rissóis e panos feitos numa máquina Singer que a minha avó rodava nas mãos e nos pés feita malabarista no escuro em frente a uma parede com fotografias de gente muito velha a preto e branco. Jazem aqui flores e nomes e cães iguais aos que há agora mas a cinzento e há tanto tempo mortos. Quantos cães tem uma vida?

Há uma voz que ressoa por entre os ramos. Anunciam golos de tarde desportiva, emissões de Portimão a Coimbra, vão para Braga, voltam a Lisboa, dirigem-se a Leiria, ficam em Chaves. Rudez Thiomir marca golo. E os cestos de verga abanam no gooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo de Rudez, golo do Chaves, lance que se iniciou na intermediária, a bola rodou sobre um adversário, avançou pelo miolo, chegou à linha, foi cruzada, um impasse, o mundo todo parado observando o croata, a indecisão, quase remate, remate, bola nas redes. Alguém vem e pergunta: foi golo do Benfica?

A minha camisola tem um "1" milimetricamente na diagonal - não se vê a um metro de distância, mas está lá, não foi trabalho de fábrica, houve mão de amador, aquele que ama. Na frente, há pescoço porque há decote em v, o vermelho é um vermelho mais escuro e não se vende no Media Markt, porque o Media Markt não existe e porque há coisas que o Media Markt não pode vender. Mas há um Valdo a correr nos pinheiros. E vários golos porque o golo tanto pode entrar entre árvores como entre pedras - o jogador decide, no calor do momento. 

A distância entre o Valdo e o carro depende dos gritos que ecoam. Claro que os pés não sabem por que razão avançam para os pastéis de bacalhau quando há grito de golo mas o coração não tem dúvidas: vai à espera do Benfica. É agora? Foi golo do Benfica?

E aquele som contínuo, não no "g" que demora pouco, mas no "o" - quantos ós e desesperantes - e toda a gente parada, eu, o meu Pai, as rodas do carro, as folhas, o gesto das febras na grelha, o céu e as nuvens que deixam de construir imagens - tudo parado. É golo, mas de quem?

Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooolo. E antes do "l" e muito antes do "o" que o continua olhos não no rádio mas uns nos outros, eu olho o meu Pai que me olha a mim que o olho a ele. O "1" cosido nas costas a olhar o "0" cosido nas costas, pedaços de terra saltam e ficam no ar à espera. Diz Benfica, diz Benfica, diz Benfica, o coração aos pulos, diz Benfica, diz Benfica, diz Benfica, as pernas flectidas, joelhos em silêncio, quase dor muita dor, braços à espera, mãos curvas, ouves o som do público?

É indefinível, gritam todos e muitos, não sabemos quem nem por quem nem onde. Há som e ruído, imaginamos bandeiras sob o sol, cachecóis no vento, abraços, gente aos gritos, garrafões tombados. Mas é Benfica ou não? E o "oooooooooooooooooooooooooooooooooooo" continua, o homem tem fôlego, não se cala, mantém a surpresa na garganta, a bola junto a uma das rodas do carro, esquecida e adormecida, esperando o movimento. Não há movimento, só um grito que não acaba, e o golo, o golo é de quem? 

Há uns sons metálicos de assobio enquanto o rádio canta. Ondas de silvos no meio dos óculos da avó que retira pratos e garfos e facas de plástico do interior de um saco. O carvão todo junto, negro, colante, uma imagem de um sol sobre a estrada de terra e uma menina que corre, indiferente ao golo, pelos cogumelos e musgo. De quem é o golo? O vestido às rosinhas não sabe, prefere dançar oblíquo sem rota nem bandeira. O golo, que é de alguém, não chama aquela corrida atrás de uma borboleta que faz desenhos no ar e depois desaparece. 

... doooooooooooooooooooooooo Beeeeenfiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiica e os meus olhos abraçam os ombros do meu Pai e depois continuam para o espaço atrás dele com os olhos dele para o espaço atrás de mim e os olhos em chama, ombros em chama, a bola é pontapeada contra uma pedra grande que faz ricochete, sobe no ar que o Valdo recebe, com aquele pé de veludo, tenso o tempo suficiente para haver contacto e logo mole, macio, para ela ficar ali aninhada. Os Domingos sabiam tanto a Benfica.