segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O que se pretende e o que se promove

A cada decisão e/ou pensamento por nós revelado sobre qualquer situação/assunto em concrecto, não estamos apenas a revelar ao mundo o que achamos sobre aquele tema, naquelas circunstâncias, mas estamos também a demonstrar qual/quais o(s) principio(s) que nos norteiam sobre a globalidade das situações envolventes a esse mesmo assunto. Isto é, as consequências de cada tomada de posição são muito mais abrangentes e perenes do que o resultado imediato dela.

Quando, por exemplo, aceitamos por boa, a ideia de que os problemas migratórios se resolvem com a construção de muros entre pessoas, estamos não só a validar aquela decisão naquelas circunstâncias, como estamos também a dizer aos nossos pares que acreditamos numa sociedade profundamente discricionária e, pior, que tal separatismo se pode reger por critérios tão aleatórios e genéricos, quanto o local de nascimento de cada um. 

Como não poderia deixar de ser, no futebol, nomeadamente com as ideias preconizadas por cada treinador, passa-se exactamente o mesmo. Olhando para o treinador como, entre outras coisas, o líder ideológico de um colectivo, há que entender que as ondas de choque das suas escolhas, mesmo que circunstanciais, terão influencia em todas as vertentes do jogo da equipa. 

Como sabemos, o futebol é um jogo bastante atreito ao caos - bem vistas as coisas e em boa verdade, talvez seja mais correcto dizer que o futebol é naturalmente caótico e que a tentativa de lhe colocar alguma ordem é contrária à essência do jogo - nesse sentido, é absolutamente impossível prever ou estabelecer com rigor e à partida, todas as incidências de uma partida de futebol, pelo que cabe ao treinador, através da ideia de jogo que escolha, estabelecer princípios, regras para o jogo da sua equipa. E esses princípios serão sempre a base de todas as respostas dos seus jogadores quando expostos a todas as variáveis presentes em cada jogo.

Face a isto, faz-me sempre uma enorme confusão quando verifico alguns treinadores ficarem agastados com momentos em que os jogadores procuram, no fundo, fazer o que mais vezes lhes é solicitado pelos hábitos que lhes são impostos pelas ideias de quem os lidera. Quando se opta por um caminho ideológico, há que entender, ao mesmo tempo, quais as vantagens que isso trará, mas também as desvantagens que daí advirão. Só conhecendo profundamente ambos os lados da questão, um treinador estará pronto para ir evoluindo e, mais importante, ajudar os seus a evoluírem consigo e com as suas ideias. É absolutamente impossível ser-se profundamente competente em todas as ideias existentes, e quem disser que quer jogar tudo, quer atacar de todas as formas, quer defender todos os espaços, acreditem, o mais provável é que não consiga fazer coisa nenhuma com real qualidade. Há que fazer escolhas e concessões e entender que se vive e morre com e por causa delas. No fundo, a busca de uma ideia completa não se esgota no "como quero ganhar", mas também contempla o "como vou perder". 

Recorrendo a exemplos mais concrectos, para mim é absolutamente incompreensível a reacção que Sérgio Conceição teve ao primeiro golo sofrido em Vila do Conde, no final da época passada, e que acabaria por degenerar  num empate profundamente comprometedor para as aspirações do FC Porto naquela altura. E porquê? Recordando, na origem desse golo está uma tentativa falhada de Iker Casillas ligar o jogo directamente nos avançados, num contexto que pedia uma maior segurança na posse, como melhor defesa do resultado que então se cifrava num 2-0 favorável aos azuis e brancos. E no final do jogo, o treinador portista referiu exatamente isso: para ele, aquela decisão do seu guarda-redes, naquele momento, era inconcebível. O que há de errado nisto? Quanto a mim, tudo. Sérgio Conceição refere várias vezes duas ideias que tem para o seu jogo: Por um lado, não gosta da posse pela posse, isto é, não vê virtudes e vantagens na posse de bola como forma de gestão do jogo e assim, também, defender; e por outro, vê no passe directo uma forma virtuosa de ligação entre zona de construção e o ataque, seja na referência, seja na profundidade. Assim sendo, e bem vistas as coisas, o que fez Casillas naquele lance em concrecto? Nada mais que seguir as directrizes gerais do seu treinador. Era o que mais se aconselhava? Não. Era o que, segundo o próprio Sérgio, o seu treinador queria naquele momento? Não. Porém, mais do que perceber o momento, há que entender que aquela decisão, embora não pretendida, não foi nada mais do que promovida por Sérgio Conceição, pois o técnico portista tem que entender, ou pelo menos devia, que ao escolher um estilo, se for competente a operacionaliza-lo (e, claramente, é o caso), os seus jogadores vão segui-lo, mesmo que em determinadas circunstâncias fosse mais aconcelhavel fazer exactamente o oposto.

Algo de semelhante se passa com Bruno Lage. Nas análises públicas pós-jogo, é frequente ouvir o timoneiro benfiquista lamentar-se de alguma falta de paciência e ausência do melhor critério com bola, por parte dos seus jogadores. Estando eu cem por cento de acordo com esta analise, o que há então de errado nela? Para o percebermos o erro, devemos recorrer ao pensamento do próprio Bruno Lage: Na excelente entrevista de final de época que o técnico concedeu a vários jornalistas, um dos momentos mais importantes surge quando Bruno Lage afirma que não pretende condicionar as decisões, com bola, dos seus jogadores. Ora, não condicionando as decisões individuais, não mostrando claramente o tipo de decisões que pretende para o seu jogo, estará Bruno Lage a ajudar os seus jogadores a diferenciar essas mesmas decisões? Estará Bruno Lage a fazê-los evoluir nesse momento tão importante para o jogo, uma vez que não os expõe ao contexto? Quanto a mim, não. Ou seja, os que decidem mal, os que decidem com base em critérios errados, vão continuar a fazê-lo e os que decidem, por norma, bem, no limite, vão também continuar a fazê-lo ou, pior, deixar-se-ão contagiar pelos mais fracos nesse requesito (até por serem a maioria) e entrarão também no rol de más decisões. 

A juntar a isto há ainda a considerar o tipo de escolhas individuais feitas por Bruno Lage. Optando pela tal lógica de não condicionar decisões individuais, seria de supor que o treinador benfiquista tivesse na tomada de decisão um critério de distinção no momento das escolhas que faz a cada jogo. Porém, o que verificamos é exctamente o oposto: Rafa, Gedson, Gabriel, Ruben Dias ou Seferovic, podem ser conhecidos por muita coisa, mas nenhuma delas é a capacidade de decisão e, no entanto, são todos elementos proeminentes nas escolhas de Bruno Lage. Há ainda Zivkovic que é, claramente, dos que melhor decide no plantel e está relegado para as profundezas das escolhas de Lage, vendo-se, inclusivé, ultrapassado por... Cervi. 

Há ainda um terceiro factor: posicionamentos. Como anteriormente referi, Bruno Lage afirma não querer condicionar as decisões dos seus jogadores, mas será que é mesmo assim? Obviamente que não. Lage até pode não restringir directamente os seus comandados, mas condiciona-os de forma muito óbvia quando determina que hajam muito mais linhas de passe em largura e a provocarem a profundidade da linha defensiva adversária do que em apoio ao portador. 

Ou seja, facilmente encontramos três factores que concorrem directamente e em conjunto para a falta de paciência na circulação que o próprio Lage identifica: Eu sou mau decisor, o meu treinador não me obriga a um caminho e coloca-me mais possibilidades de passe em profundidade e largura do que em apoio, o que vou eu escolher maioritáriamente? Parece-me obvio. 

Mais uma vez, e tal como sucede com Sérgio Conceição, parece-me estranho e até desonesto do ponto de vista intlectual, que Bruno Lage se queixe tantas vezes de algo que é, claramente, decorrente das suas ideias e escolhas. 

Reforço, o que eu identifico de errado não são as ideias, embora não goste de nenhuma delas, mas sim a identificação de erros que não são mais que as consequências negativas que elas promovem. Seria estranho, no minimo, que Guardiola se queixasse da falta de capacidade dos seus jogadores para ganharem duelos físicos, não? 

O que se escolhe e o que se promove com isso, viver e morrer por isso, ganhar e perder por causa disso. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Lageball - Criatividade no relvado

Na época passada muito escrevi sobre o Lageball. Um futebol de ataque e pressão alta mas principalmente um futebol criativo, imaginativo e de apoios. Um futebol onde surgia um central com maior qualidade de construção. Um futebol com um lateral de ingressões à 10. Um futebol que dava asas a um meio-campo mais capaz de reter a bola e pressionar alto. Um futebol com um avançado móvel e colectivo. Um futebol com três jogadores de ataque puramente criativos. Criatividade de pensamento, criatividade de execução, criatividade técnica e criatividade de imaginação.
Foi o Lageball que durante um curto espaço de tempo nos apaixonou.

Por isso agora pergunto a Bruno Lage: Que é feito desse futebol que foi baptizado com o teu nome?
Olhemos para o jogo com o Portimonense - o último jogo e um jogo de goleada.
Claro que já esperava os comentários no pós-jogo. Ficou 4-0 então já foi uma grande exibição. Nada contra se ser resultadista, tudo contra se ter uma opinião resultadista.

Esperava tais comentários dos muitos adeptos e comentadores mas não do nosso treinador.

"Bruno Lage: «Notícia da noite é o nosso bom jogo»"

Como todos saí agradado da Luz com o resultado. Ao contrário de muitos continuei a sair agastado com a exibição.

Para mim é um problema muito grande caso o treinador do Sport Lisboa e Benfica considere que a sua equipa fez um bom jogo na Quarta-Feira passada. Demonstra que também o treinador tem uma opinião resultadista o que não lhe permitirá nunca evoluir o futebol da equipa.

Uma primeira parte horrível da equipa. Não foi de paciência. Foi de incapacidade. Um Portimonense com melhor posse de bola, melhor qualidade a sair a jogar, mais criatividade, mais jogo interior, mais aproximação à baliza e com movimentos mais técnicos. Um Benfica sem conseguir construir uma jogada e constantemente a recorrer a balões dos centrais e a cruzamentos totalmente disparatados tanto do Cervi como do Almeida.
Um golo de canto fez a diferença a nosso favor nos primeiros 45 minutos. Outro golo de canto no arranque da segunda-parte acabou com o jogo a nosso favor. A partir daí o adversário, que é obrigatoriamente mais frágil, quebrou animicamente, subiu as suas linhas irracionalmente e deu-nos os espaços necessários para tanto o Grimaldo como o Chiquinho abrirem a defesa com o apoio do Vinicius. A goleada foi contextual e não o resultado de uma boa exibição. E Lage tem obrigação de perceber isso.

Olhemos para o Lageball e para o que se viu na Luz com o Portimonense. Com Jardel no lugar do Ferro não houve lugar à existência de um central com melhor construção de jogo - logo balões. A dupla de médios mostrou qualidade na retenção da bola e no primeiro passe mas não tinha apoios centrais para dar continuidade. O lateral esquerdo continuou com as suas ingressões a 10 mas sem apoios ofensivos para conseguir rasgar. O avançado muito isolado no ataque e assim mais a trabalhar para o golo do que para o jogo colectivo. E em vez de 3 puros criativos de ataque tivemos 1 - o Chiquinho.

A pobreza do futebol do Sport Lisboa e Benfica explica-se pela falta de criativos. Quando antes tínhamos 4 criativos em campo a servir e a ser apoiados por um ponta de lança, agora temos dois - o lateral esquerdo que tem de progredir todo o campo para dar criatividade ao ataque e o ala direito acabado de chegar a este patamar e acabado de regressar de uma lesão. É pouco. Pouquíssimo. Aquele trio de criatividade ofensiva foi substituído por precaução defensiva. Um médio móvel mais subido no relvado para criar mais pressão mas incapaz com a bola no pé. Um extremo esquerdo inofensivo com a bola no pé e somente importante em tarefas defensivas.

Além do resultado, as boas noticias a retirar do jogo são as exibições de Chiquinho e Vinicius. Contudo são boas noticias que termos ainda de perceber que continuidade terão. Já se sabia que o Vinicius tem mais golo que o Seferovic mas será uma aposta de Lage ou só um jogador de segunda-linha? A qualidade de Chiquinho também já era sabida contudo neste jogo actuou no lugar de Pizzi numa evidente estratégia de descanso do transmontano. Lage verá Chiquinho como um "Clone de Pizzi" que será eternamente o seu suplente ou como uma solução para as costas do ataque encarnado, actuando simultaneamente com Pizzi, com Rafa e com Grimaldo?

Criatividade Lage. Criatividade.


https://www.record.pt/futebol/futebol-nacional/liga-nos/benfica/detalhe/bruno-lage-noticia-da-noite-e-o-nosso-bom-jogo?ref=Benfica_BucketDestaquesPrincipais


terça-feira, 10 de setembro de 2019

Com os jogadores do City...


A chegada de Pep Guardiola ao comando técnico da equipa principal do Barcelona, trouxe consigo um impacto que, quanto a mim, ainda está por calcular em toda a sua total extensão. Pela primeira vez em longos anos, uma equipa exclusivamente baseada no talento conseguiu disputar e vencer as maiores provas do mundo do futebol, contrariando de uma só vez, uma infinidade de leis não escritas que de tanto ditas e repetidas se haviam tornado verdades absolutas no futebol mundial.

Tais conceitos versavam sobre a impossibilidade de se vencer encantando adeptos e rivais; dizia-se ainda que o futebol “moderno” era intolerante e incompatível com equipas baseadas essencialmente no ataque; jogar no corredor central? Jamais compensaria o risco; jogar no corredor central e com baixotes? “Líricos” diziam eles; e tantos outros dogmas que foram destruídos por um só homem e uma só ideologia.

O sucesso desse Barcelona dos “baixotes” foi de tal ordem que ninguém ousou dizer que não gostava do estilo. Sim, porque só as vitórias convencem a larga maioria de adeptos e protagonistas do jogo, nunca a ideologia que subjaz a cada estilo. Ganha? É bom. Perde? É fraco, mesmo que no dia seguinte o que é fraco passe a bom, porque ganhou, ou o inverso porque perdeu. Mas para além das vitórias, há algo mais nesse jogo que faz com que ninguém ouse dizer que não gosta: a inteligência. De facto, se há predicado absolutamente necessário para se jogar e compreender e jogar o estilo de Pep Guardiola são mesmo as faculdades cognitivas aliadas às faculdades técnicas. E quem é capaz de admitir facilmente que não gosta ou não compreende a inteligência de outro? Antes, procuram desqualifica-lo, mas enquanto isso não sucede por via dos resultados (o que mais?), não há como desqualificar o que é altamente qualificado.

E é por medo e vergonha que as vozes dissonantes do técnico Catalão se vão mitigando e, no limite, se vão procurando colar à sua ideologia, embora não cheguem sequer perto. E é nessa sequência, nesse processo mental que surgem sempre os comentários que procuram desmerecer o extraordinário pensamento e metodologia e Pep Guardiola, traduzidos na frase: “Com os jogadores do Barcelona/Bayern/City também eu jogava assim”. A infinidade de gente que já disse isto, desde adeptos a treinadores, passando por comentadores, deixa-me na dúvida se o dizem por mera dor de cotovelo ou, por outro lado, se por acharem mesmo que a ideologia nasce dos jogadores, bastando para tal junta-los e esperar que tudo aconteça por geração espontânea.

Pois bem, nem o jogo de Pep nasce dos jogadores, nem quem acha e afirma a frase transcrita acima escolheria os jogadores que Guardiola escolhe. E este último facto é mesmo mais extraordinário de todos. É que se me parece relativamente normal que nem todos consigam replicar aquele estilo de jogo - caso fosse fácil, de facto, não faria de Guardiola um treinador tão extraordinário - já me parece completamente surreal que afirmem ser dos jogadores que nasce todo o mérito, mas na hora de escolher os seus, escolhem tudo menos os que mais próximo estariam daquele perfil.

“Esses jogadores são caros” – diriam uns quantos. Mas não são todos? Quantos autênticos cepos são transacionados a preço de craque? Mas ignoremos este argumento e aceitemo-lo como verdadeiro e analisemos aqueles que não têm no preço dos jogadores qualquer restrição na hora da escolha: os selecionadores, mais concretamente, Fernando Santos.

É um facto que Fernando Santos não tem no preço dos jogadores um inibidor na hora de escolher, sendo então de supor que nada se colocaria entre ele e as escolhas de jogadores de perfil “Barcelona/Bayern/City”, seja para as sucessivas convocatórias, seja nas escolhas para o 11. Pois bem, mesmo sem esta inibição, o engenheiro faz gala em achar que, por exemplo, hoje em dia existem 11 Portugueses melhores que João Félix. “Não é bem assim, apenas acha que Félix não pode jogar com Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva em simultâneo”, dirão. E o resultado não é o mesmo? O que Fernando Santos acha mesmo, é que a Seleção é tanto melhor quanto mais talento estiver fora dela, porque é simplesmente inadmissível que em 11 jogadores, ignore um dos 3 melhores da atualidade. Fernando Santos não sabe nem saberá nunca como conjugar os melhores, preferindo sempre uma ideia de jogo profundamente medíocre e miserabilista, tenha ele quem tiver ao dispor.

E o nome aqui nem é assim tão importante, porque o Fernando Santos desta triste história, poderia ser um José Mota, um Tiago Fernandes, um Lito Vidigal, um Jorge Simão ou qualquer um dos 99% de treinadores categorizados cá do sitio, porque todos eles iriam afirmar sem qualquer problema que “com os jogadores do Baça/Bayern/City também eu”, mas no momento de os ter ao dispor… só por obrigação estatutária é que os escolheriam.

E este é Portugal: Ter qualidade individual para um futebol de qualidade, mas que vive agarrado e amordaçado por um conjunto de treinadores que se caricaturam todos num individuo que venceu um Europeu com o mérito de um tipo que sobrevive a um tsunami agarrado a um pedaço de madeira.

Por isso, sempre que se ouvir a frase “com os jogadores do City também eu”, que não se tenha medo de dizer: é MENTIRA! É mentira, porque o nome dos jogadores não influi no pensamento de cada um; é mentira, porque quem o diz não faz ideia do que é qualidade; e é mentira, porque sempre que a tiverem ao dispor, vão varre-la rapidamente para baixo de um qualquer tapete!

Não tenho grandes dúvidas de que hoje em dia, Fernando Santos é um dos que mais torce para que João Félix não faça assim tanto ao serviço do Atlético, porque se o “puto” explodir em Espanha, o engenheiro não terá como varre-lo para o banco de suplentes, porque não saberá nunca como, realmente, tirar partido dos verdadeiramente melhores.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Contexto e Factores - João Félix


Independente de tudo o que podemos discutir à volta da venda do João Félix para o Atlético de Madrid, este é um dos principais negócios do Futebol Moderno e os valores envolvldos só confirmam o excelente futebol que o jogador apresentou (com Bruno Lage) e o potencial tremendo que lhe é reconhecido.

120M por um jogador do campeonato português.

Olhando para este negócio de forma critica tenho de considerar 5 factores:

- A decisão do jogador
- A decisão do clube
- O valor do negócio
- A estrutura do negócio
- A comunicação do presidente aos sócios.


Quanto à decisão do jogador é compreensível mas imatura. O João Félix não é um fogacho momentâneo, é um verdadeiro talento que com mais jogo só poderá evoluir e valorizar. Com mais um ano de Benfica, com mais um ano Bruno de Lage a orientá-lo, com mais futebol jogado, iria sem qualquer dúvida continuar na Selecção Nacional, iria jogar na Liga dos Campeões, iria ser ídolo das bancadas e iria atrair ainda mais o interesse de clubes de campeonatos superiores. No próximo Verão voltariam a surgir as propostas de salários milionários. Um jogador de 19 anos não tem de ter tanta pressa em sair, muito menos quando já actua como titular num clube como o Sport Lisboa e Benfica. Optando por sair o Atlético de Madrid nunca seria a melhor escolha para o seu futebol e desenvolvimento, contudo era a única opção que tinha. A sua decisão pecou no timing e na escolha do destino, tudo forçado por uma pressa muito motivada por outros interesses que o rodearam.

A decisão do clube em vender tão precocemente um dos seus maiores produtos é também bastante questionável. O Sport Lisboa Benfica vive neste momento o ponto alto da sua Formação mas parece continuar a recusar tirar total proveito desportivo dessa. Se há um projecto Europeu dentro do clube então é incompreensível que não haja uma politica de aproveitar ao máximo a consolidação do talento produzido. Esta pressa em vender só se explicaria por dificuldades financeiras que a Direcção não se cansa de negar – invocando até uma saúde nesta área de meter inveja a qualquer outro.

120M por João Félix é uma enormidade. Vamos ser sinceros. Sem toda a politiquice que há à volta das comunicações do clube e do seu presidente, qualquer proposta acima dos 40M seria uma proposta fantástica. Hoje, por aquilo que já demonstrou, o jogador não vale mais de 40M. Um negócio a rondar os 60M – diversificado em objectivos – já seria mais que justo por tudo aquilo que o jogador fez nos últimos 6 meses.

A estrutura do negócio é que traz algumas questões menos positivas. Repito, 60M dependentes de objectivos seria já uma excelente proposta. O que questiono nestes 120M é o que este valor realmente implica e a quem beneficia. Fica a impressão que tudo foi montado de forma a que muita gente pudesse beneficiar desta transferência. Quem vai receber o quê? Quando? Como? E com que contrapartidas futuras? Os benfiquistas não devem nunca aceitar comer gelados com a testa.

Porque só o Atlético de Madrid se chegou à frente? Porque logo o Atlético de Madrid? Porquê tanta intermediação do Mendes? Porquê tantos custos de intermediação? Que instituição financeira é essa que irá fazer o serviço de factoring? É novamente um fundo/instituição do Jorge Mendes como já aconteceu em outros negócios? Que compromissos para o futuro ficaram acordados entre Benfica e Atlético de Madrid? Voltaremos a adquirir fictícias cláusulas de preferência? A venda do jogador beneficia mais o clube, o jogador ou os vários agentes e dirigentes que tocaram neste negócio?


Agora o factor que mais me motivou a escrever sobre o assunto: A comunicação da Direcção com os sócios.

Podendo discordar do timing do negócio a verdade é que os valores envolvidos são fenomenais. Podendo desconfiar dos interesses este negócio alimenta, a verdade é que os valores envolvidos são estratosféricos.


Mas e tudo o que Domingos Soares de Oliveira e Luís Filipe Vieira têm dito aos sócios? Esta politiquice no nosso clube é que me mexe com os nervos. A necessidade que esta gente tem de mentir aos sócios, de os tratar como ovelhas não-pensantes, de tornar a voz do clube algo tão insignificante, lixa-me a cabeça. Qual a necessidade de tanta e tanta demagogia?

Sim, não é novidade. Pelo contrário. Esta direcção já nos habituou de tal forma à mentira e demagogia, que a maioria de nós já nem sequer se importa. É uma pena.


Qual a necessidade de tanta garantia aos sócios que o jogador só saía pela cláusula quando todos sabíamos tal não ser verdade? Depois claro, a mentira na comunicação aos sócios obriga a negócios mais complexos onde se recusam propostas mais “limpas”e mais interessantes para o jogador em prol de outra que nos traga, seja porque caminhos for, o tal valor da cláusula.

Os benfiquista não devem acreditar no seu presidente. Ponto. Mas devemos aceitar isso de animo leve? Deve ser algo assim tão banal os adeptos de um clube conviverem tão bem com o facto de não poderem acreditar nas palavras de quem o dirige?

“Pode chegar uma proposta de 100M que o João Félix não sai”
“O jogador só sai se for batida a cláusula de rescisão.”
“O Benfica não quer vender o João Félix e conta com ele para a próxima época”


Tão simples quanto isto. Se a direcção não quisesse vender o jogador este não seria vendido. Porque pura e simplesmente a cláusula de rescisão não foi batida nem nunca o seria.

Bater a cláusula de rescisão significaria o jogador depositar na conta do clube os 120M e fim de conversa. Não haveria planos de pagamento, não haveria negociações nem haveria qualquer taxa de intermediação. Unicamente haveria (talvez) o pagamento dos direitos de formação. Os 10% do Mendes, os custos de intermediação e o envolvimento de uma qualquer operação financeira da parte do Sport Lisboa e Benfica nunca existiriam.


A cláusula de rescisão não foi batida e o negócio só se dá por haver vontade por parte de ambos os clubes em que tal acontecesse. O Sport Lisboa e Benfica quis vender e fez por isso.

Hoje em dia o actual presidente do Sport Lisboa e Benfica já só engana aqueles que querem ser enganados, e infelizmente ainda são muitos. Luís Filipe Vieira só irá continuar a sobreviver às suas mentiras enquanto as emoções dos adeptos – paixão encarnada e ódios não encarnados – os forem cegando.



quarta-feira, 12 de junho de 2019

Pior 11, melhor jogo.

Sou partidário da ideia de que os melhores devem jogar sempre! É com os melhores que estaremos sempre mais próximos da vitória, porque embora qualidade não seja sempre sinónimo de resultados, é através dela que eles chegam mais vezes. E quando os melhores não formam a melhor solução, das duas uma: Ou estamos claramente equivocados na catalogação dos melhores ou, por outro lado, quem comanda o colectivo não sabe muito bem o que fazer com os verdadeiramente melhores.

E é partindo daqui que me proponho a perceber o porquê de a Seleção Nacional ter apresentado melhor qualidade de jogo na final da Liga das Nações do que no primeiro jogo da fase final da mesma prova.

Detendo-me nas duas alterações "não forçadas" promovidas por Fernando Santos no 11 inicial, decorridas entre o primeiro e segundo jogo e à luz dos dias de hoje, parece-me pacifico dizer que Rúben Neves e João Félix são claramente melhores jogadores que Danilo e Gonçalo Guedes, respectivamente. Excluindo aspectos físicos, seja qual for o prisma de analise, Rúben e Félix estão uns bons patamares acima dos seus substitutos, não havendo quase comparação entre eles. Seja a nível técnico, seja ao nível da decisão, compreensão e velocidade de percepção do que os envolve, os dois primeiros são isso mesmo: primeiríssimos em tudo, face aos outros. Todavia, a substituição de uns por outros, resultou numa clara melhoria de jogo da equipa na partida frente à Holanda, face ao que havia acontecido frente à Suiça. 

Aqui chegados, sobra a pergunta: Como jogamos melhor com "piores" interpretes? Em tese, existe aqui um contrassenso enorme, porém e se analisarmos em contexto, esta relação faz todo o sentido, já que, num contexto em que cada individualidade dá o que sabe, ter Danilo e Gonçalo entre escolhas como William e Bernardo, cria mais variabilidade de soluções por si só, do que lhes juntar Rúben e Félix. 

O que há de comum entre Bernardo, William, Rúben e Félix? Quase tudo. São todos jogadores que, por "instinto", procuram sempre dar soluções em apoio, soluções interiores e raramente o contrário disto, ou seja, soluções de roptura e largura. Isto é, todos juntos e sem funções claramente atribuídas, sem referências claras de "como", "quando" e "para onde", tendem a fazer várias vezes o mesmo, deixando assim o colectivo cair na previsibilidade, por via da monotonia na resolução dos problemas que surgem. E o primeiro jogo não foi nada menos que isto: Previsível e monótono. A seleção helvética, nunca teve grandes duvidas do que iria o colectivo Português fazer em cada momento, sendo-lhes assim muito fácil espremer os espaços entre sectores e, com isso, retirar área de manobra às nossas unidades mais criativas, como o são precisamente Rúben, William, Bernardo e Félix. E Portugal nunca soube sair disto, porque nunca teve quem desse assiduamente soluções de ruptura que obrigassem a última linha Suiça a reagir e, com isso, alargar distâncias entre sectores e entre jogadores.

No primeiro jogo, mais do que manietado pelo adversário, Portugal esteve inoperante por si só, por não ter definido quem faz o quê e quando. Foram incontáveis os momentos em que o colectivo se encontrava claramente perdido e sem  saber muito bem o que fazer. Não foi o adversário que defendeu superiormente, nós é que nunca soubemos atacar convenientemente, apesar da obscenidade de qualidade individual presente a nosso favor. 

Por oposição, a partida frente à Holanda, trouxe-nos um Portugal muito mais fluído e capaz de chegar a zonas de finalização com perigo, exactamente por existir um maior leque de possibilidades de ameaça, o que obrigou a Seleção laranja a reagir a diferentes estímulos, provocando assim maiores dúvidas e, por essa via, mais espaços. 

Se observarmos Gonçalo Guedes, percebemos que, apesar das notórias debilidades técnicas, se trata de um jogador que procura acelerar... Sempre (e daqui nascem os seus colossais erros de decisão). Não analisa o contexto, não tenta perceber o que tem e o que lhe dão e depois decidir em função disso, não. Acelera e ponto. Isto em tese é péssimo, porém, e repisando a ideia de que cada um dá o que instintivamente sabe, ter este tipo de jogador enquadrado num colectivo em que as melhores unidades jogam instintivamente em apoio, percebemos que mesmo mal escolhidos os momentos para acelerar (seja com ou sem bola), isto cria uma solução disruptiva com as demais e torna o leque de ameaça colectiva maior.

Como é óbvio, mesmo que gostemos de um jogo apoiado, há que entender que os movimentos de ruptura são essenciais até para que esse tipo de jogo tenha sucesso, porque é sempre mais difícil defender 2 tipos de ameaça que apenas um. E um potencia claramente o outro. Se reagem ao apoio, vamos na profundidade, se reagem a esta, vamos no apoio. Ter só um deles é sempre pobre e levará, inevitavelmente, ao insucesso. O mesmo se passa em zonas interiores do bloco adversário, isto é, ter soluções de passe verticais, em apoio e largura, para que o adversário tenha de optar qual delas defender. E nisto tudo é essencial ter os melhores, para que saibam o que escolher em cada momento e o que fazer com o que o adversário dá. 

Pode-se sempre argumentar que como Gonçalo (ou Rafa, dentro do mesmo estilo) é rápido, será sempre melhor a atacar a profundidade que outro qualquer, porém, "basta" que os momentos para sair em profundidade estejam identificados e trabalhados, qualquer jogador será capaz de o fazer e, pelo menos, criar essa dúvida no adversário. Uma das mentes mais brilhantes que fala sobre o jogo em Portugal, Blessing Lumueno, tem uma frase lapidar sobre isto: "Sozinhos vamos mais rápido, juntos vamos mais longe". 

Podemos também dizer que este tipo de trabalho é muito mais difícil de levar a cabo numa Selecção, onde o tempo de treino é muito diminuto, do que num clube, o que é verdade. Porém, achar compreensível que um seleccionador não tenha uma ideia clara e trabalhada ao fim de quase 5 anos de trabalho, também me parece demasiado benevolente. 


quarta-feira, 29 de maio de 2019

E Zivkovic?


Zivkovic foi um dos jogadores mais subaproveitados durante o reinado de Rui Vitória no Benfica ainda que, em abono da verdade, tenha sido com o técnico Ribatejano que o jovem Sérvio melhor revelou o que pode dar, quando teve alguma continuidade enquanto escolha para o onze.

O ex-técnico Benfiquista nunca demonstrou saber entender o que de melhor Zivkovic tem para aportar ao jogo da sua equipa, tendo sido recorrentes as saídas do jogo ou das escolhas nos momentos em que mais se pedia a sua presença. Alturas em que a anarquia e correria tonta tomavam conta do colectivo, Zivkovic aparecia a ensinar a todos o melhor caminho a seguir, porém, foi nesses mesmos momentos em que Rui Vitória abdicou dele vezes sem fim, ora substituindo-o, ora deixando-o de fora das escolhas para o jogo ou a conserva-lo ao seu lado no banco de suplentes.

Sobre o jovem talento dos Balcãs, Rui Vitória chegou mesmo a afirmar faltar-lhe “rasgo”, signifique isso o que significar. Em boa verdade, a única coisa que faltava/falta a Zivkovic é… jogo! Apenas e só jogo! Jogar mais, mais e mais, porque tudo o resto o jovem Sérvio tem de sobra e a mais que a esmagadora maioria.

Com a chegada de Bruno Lage ao comando da equipa principal, ainda sem saber o que ele queria para o jogo, alimentei a esperança de ver, finalmente, Zivkovic jogar integrado numa ideia de jogo colectivo e com continuidade.

Porém, os jogos foram passando e os minutos de Zivkovic não foram aparecendo e o próprio jogador foi desaparecendo gradualmente das opções, dando a ideia de ter sido ultrapassado por tudo e todos dentro do plantel.

Percebendo que o sistema de jogo escolhido não é o que melhor pode explorar Zivkovic (sendo óptimo para Félix, por exemplo) e entendendo que Bruno Lage vê em Pizzi um jogador para o corredor direito e que pretende um homem no corredor esquerdo que seja capaz de provocar a profundidade constantemente, não sobram lugares no onze para o Sérvio, é uma verdade.

Ainda assim, e tendo em conta que Bruno Lage optou sempre por alguma rotatividade nas provas paralelas ao campeonato nacional, é-me difícil compreender que o Sérvio nunca tenha entrado verdadeiramente nas contas do técnico. Porque se é verdade que Zivkovic não é o homem certo para uma ideia de alguém que explore a profundidade com ropturas em movimento de forma consistente, também não deixa de ser verdade que me parece a melhor opção para, pelo menos, o segundo plano do homem que procura mais o jogo interior em apoio, sendo muitas vezes o 3º médio, isto é, se entendo que a rotatividade na posição de Rafa não passe por Zivkovic, não entendo que a mesma rotatividade de Pizzi não passe por ele.

Se há coisa que o Sérvio faz como ninguém, é mesmo o jogo associativo, criativo e com elevado recorte técnico associando-o a uma enorme qualidade de decisão. Ou seja, todos os critérios para se ter sucesso em terrenos interiores, onde o espaço escasseia e cada bola assume uma importância fulcral, estão reunidos em Zivkovic para que ele tenha impacto positivo no jogo colectivo e com isso aproxime a equipa do sucesso.

A juntar a isto, sobra ainda a ideia veiculada por Bruno Lage na entrevista dada no final da época a vários jornalistas, referindo que opta por dar liberdade de decisão aos jogadores, ficando para ele a definição de posicionamentos. Ora, dando liberdade de decisão, quanto a mim, faz ainda mais sentido que se opte por quem é capaz de tomar as melhores decisões e nisso não há como não destacar Zivkovic nos melhores do nosso campeonato.

Esta, quanto a mim, foi a única grande questão que ficou por responder na mesma entrevista. Numa segunda metade da época carregada de jogos, porque não foi Zivkovic utilizado com alguma continuidade? O que lhe falta? Em que lugar Bruno Lage o enquadraria e porquê?

Não sei por onde passará o futuro do Sérvio, mas seja por onde for, que tenha jogo, porque o Jogo precisa de Zivkovic.

domingo, 26 de maio de 2019

2018-19 - O Milagre do 37

Não foi tudo péssimo até Janeiro - foi quase tudo - nem foi tudo perfeito em 2019 - mas foi miraculoso.

Não há dúvidas que a mudança de treinador é o momento da época. Não é o simples trocar por um treinador melhor pois só isso não faria diferença nem seria recomendável. Foi o retirar de alguém inapropriado para o cargo abrindo assim espaço para que um treinador de grande competência o agarrasse.

Portanto o momento da época foi sem dúvidas a chicotada psicológica, a saída de Rui Vitória e a afirmação de Bruno Lage.

E a figura da época?

Temos entre os jogadores vários potenciais "vencedores". Do divino Jonas ao puto João Maravilha Félix. Da revelação Ferro ao desequilibrador Rafa. Do capitão Samaris ao bota de prata Seferovic. Do cerebral Pizzi ao criativo Grimaldo.

Mas a figura da época terá de ser Bruno Lage. Mudou tudo. Mudou os sentimentos nas bancadas, mudou a mente dos jogadores, mudou a qualidade dos treinos, mudou o modo de estar em campo e de tratar a bola, mudou a táctica, mudou as opções. Mudou toda a gestão do plantel e a filosofia de jogo. Mudou o discurso. Com Lage o Benfica renasceu da apatia em que se encontrava. O Benfica jogadores, o Benfica adeptos, o Benfica sensações.

Foi tudo perfeito com Bruno Lage? Não. Houve jogos - Sporting e Frankfurt por exemplo - onde estivemos abaixo de medíocres. O final de época foi menos afirmativo, em vários jogos a equipa penou até a bola começar a entrar. Há muito trabalho pela frente mas agora também há toda uma pré-temporada para aproveitar.

Já o destaque negativo desta época só poderá ser de um homem: Luís Filipe Vieira.

O actual presidente do Sport Lisboa e Benfica depois de ter desistido do Penta optou por também abdicar da Reconquista. Manteve o treinador que já tinha provado não ser minimamente adequado ao cargo, reforçou o plantel com jogadores de menor qualidade e sem ter em conta as lacunas da equipa técnica, continuou a alimentar certos pardais tachistas que por aí vão voando e cagando o símbolo do Sport Lisboa e Benfica e nem sequer soube reconhecer os seus erros.

Foi forçado pelos resultados e pelos adeptos a despedir o Rui Vitória, contra tudo e contra todos resolveu voltar atrás nessa decisão afirmando que este ficaria até pelo menos o final da época e depois ao primeiro mau resultado lá o voltou a despedir.

E enquanto os benfiquistas desesperavam com o decorrer da época e com a escolha de um novo treinador, o presidente do clube foi jogar cartas para o programa da Cristina Ferreira. E aí, perante as câmaras e olhares de todos nós, deixou claro que Lage era só um interino, que o seu grande desejo era José Mourinho e que todos iriamos ter saudades de Rui Vitória.

Com negas vindas das arábias, da ucrânia, do principado e até de Setúbal, e perante os bons resultados que Lage estava a conseguir, mais uma vez teve de se contorcer todo e o interino passou a treinador principal.

E Bruno Lage resultou. E o Benfica é campeão. O que resta a este presidente? Arranjar todos os esquemas possíveis para limpar a cara e puxar a si os méritos de uma reconquista que ele próprio sabotou. Politiquices com as emoções dos adeptos.

Já tem peões a divulgar a mirabolante história que Lage era a sua primeira escolha e que o adiamento do despedimento de Rui Vitória se deveu ao facto de Bruno Lage estar naquele momento incapaz de treinar uma equipa da primeira liga. E incapaz porquê? Porque estava de muletas.

Mas ainda pior foi o que se viu na noite da festa do título. Mais uma vez foi contratado o Nuno Luz para promover a figura deste presidente no momento dos festejos, da consagração benfiquista. Desta vez a necessidade de enganar os benfiquistas foi bem mais urgente que em anos transactos.

E assim o presidente do Benfica "viveu" o festejo do milagre de Lage: Com uma câmara na cara a registar cada representação teatral que preparou e com dois jornalistas atrás de si a ajudarem na promoção da sua imagem.

Sim são precisos uns grandes tomates para realizar aquele triste episódio no balneário da equipa. Uns grandes tomates de plasticina. "Oh Nuno estás a filmar? Olha eu aqui a brilhar com o duplicar dos prêmios e os jogadores todos a cantar por mim".

Milagroso Treinador Bruno Lage. Maravilhosos Craques do Relvado. Vergonhoso presidente.


quarta-feira, 13 de março de 2019

Tremida Luz Vacilou na Torre

"@Daniel, ainda n ouvi o que achaste do jogo de ontem. Partilha com a malta"

Em resposta optei por vir aqui em vésperas de jogo decisivo da Liga Europa deixar a minha ideia sobre o jogo na Luz com o Belenenses - até como uma espécie de antevisão ao jogo na Luz com o Zagreb. 

A análise a este jogo pode-se dividir praticamente em 3 partes: Equivocos do Lage, Acertos do Silas e Vacilos Individuais.

Começando pelo Benfica. Foi uma exibição satisfatória e suficiente para vencer este jogo.
Contudo satisfatório é insuficiente na Luz. E por isso um Benfica tremido.

Positivamente destaco a exibição do Ferro - um central de corte limpo, concentrado e com pés - destaco o golo do Jonas e destaco a capacidade de marcação e recuperação de bolas do Florentino.
De resto vimos vários jogadores muitos furos abaixo, algo também potencializado por menores acertos colectivos.

Há que analisar a dupla de ataque e a dupla de meio-campo. Jonas e Félix não são incompatíveis contudo são menos compatíveis do que jogando qualquer um deles com o Seferovic. Os movimentos não são os mesmos mas as zonas de acção são muito parecidas. Ambos têm tendência a recuar para vir buscar jogo e ambos procuram a mesma zona de finalização. É uma dupla que precisa de muito mais trabalho - treino a treino.

A dupla de meio-campo foi um equivoco do Lage. Na Luz contra o Belenenses a dupla Gabriel com Samaris/Florentino funcionaria mas a dupla Samaris e Florentino não. Num jogo em que estamos 90% do tempo a atacar fica-nos a faltar criatividade e visão de jogo no centro do terreno, o que nos obriga a recorrer constantemente a lateralizações e cruzamentos - o André Almeida passou o jogo a bombear bolas para a área. Não havendo Gabriel foi um equivoco do Lage ter optado por colocar Florentino ao lado do Samaris. 

Também nas substituições o treinador do Benfica não foi feliz. Tanto no timing como nas escolhas. Por exemplo, depois do 2-0 seria importante descansar o Jonas e colocar um médio ofensivo que jogasse de frente para a defesa adversária colocando-a constantemente em sobressalto.

Contudo, apesar das más exibições e dos equívocos técnicos, as opções do treinador foram suficientes para no decorrer da segunda parte estarmos a vencer por 2-0. Não foi por aqui que empatámos o jogo.

O Belenenses foi uma verdadeira equipa no Estádio da Luz. Talvez desde o jogo do Moreirense não visse um adversário do Benfica jogar tão bem no nosso estádio.
O Silas percebeu que o Benfica do Lage não se intimida com pressão alta e optou por fechar todos os espaços defensivos, retirando possibilidades aos criativos de combinarem em tabelas. Linhas recuadas e defensivamente muito compactos - uma autêntica torre. Apesar dos cuidados defensivos foi uma equipa que não procurou só defender. Sem chutão para a frente tentaram várias vezes construir rapidamente jogadas de ataque. Uma equipa que gosta e sabe sair a jogar, que troca bem a bola e que tem criatividade suficiente para dinamizar um jogo. No meio campo o Eduardo encheu aquilo, com e sem bola. O Kikas fez um jogão. E o Licá parece finalmente renascido.

Mas lá está. Sinal tremido do Benfica e sinal positivo do Belenenses mas mesmo assim o suficiente para conseguirmos os 3 pontos. Estes só nos fogem devido a dois vacilos. Uma parvoíce do Odysseas e mais uma paragem do Rúben Dias. Dois erros que nos custaram dois pontos.

A Luz do Benfica tremeu contra a Torre do Belém mas só foi mesmo abafada pelos vacilos de dois já algo usuais nestas andanças.

Este jogo tem pelo menos de servir como aprendizagem para o jogo com o Zagreb e como lição para a abordagem à próxima época.



quarta-feira, 6 de março de 2019

O Real e os resultadistas

O mundo futebolístico foi ontem abalado por um terramoto de proporções épicas com a eliminação do todo-o-poderoso Real Madrid aos pés de um jovem, imberbe e profundamente talentoso Ajax. As ondas de choque de tal resultado têm-se multiplicado e prometem não parar nas próximas horas, sendo mesmo imprevisível o seu alcance final.

As reacções ao sucedido têm sido mais que muitas e abarcam uma infinidade de gostos, claro está. Porém, há um traço comum à esmagadora maioria delas: a surpresa, a maravilhosa descoberta de um mundo novo, como se este Real anárquico, aleatório e anémico fosse uma verdadeira novidade. Lamento, não é. Este Real é, aliás, bastante requentado, sendo que a única novidade reside exactamente nos tantos que só agora o descobriram, mesmo que nos últimos 4 anos tenhamos assistido às mesmas coisas que ontem vimos.

E quem desconfia desta bipolaridade de reacções perante factos idênticos, bastar-lhe-á recuar umas semanas no tempo e confrontar o que foi dito sobre o Ajax x Real Madrid, mesmo que nesse jogo a sova holandesa tenha sido, para mim, maior. Diferença? Nesse dia quase nada entrou e ontem quase tudo deu golo, só! Ou seja, entre a primeira mão e a segunda, apenas o resultado foi diferente, tudo o resto foi igual. Os “putos” holandeses deram um arraial de “pancada” nos múltiplos campeões europeus, mas como não ganharam… nada a dizer. Porém, já nessa altura Solari era um profundo incompetente, já este Real andava ao sabor do vento e do que cada jogador soubesse dar, tal qual o era no tempo de Zidane, ainda que o francês, ao menos, colocasse mesmo os melhores em campo, em vez de ostracizar jogadores como Isco, Asensio ou Marcelo.

Os anos passam e continuamos a esperar que os resultados nos indiquem o que dizer, em vez de o dizer independentemente dos mesmos. Agora, será pacifico dizer-se que o Real é um barco à deriva e sem que o seu treinador faça o que é suposto um treinador fazer: dar ideias e identidade que transcendam as individualidades. Dizer isto nos tempos de Zidane, nos tempos em que a mesma aleatoriedade e os mesmos impulsos individuais davam títulos europeus era crime.

Por isso, sim, esta queda no precipício era uma tragédia pronta a acontecer a qualquer instante, desde há 4 anos, e sim, esta eliminação chega com 4 anos de atraso. E porque gosto de falar para lá do resultado, também sim, este Ajax imberbe, talentoso e destemido, também não prima pela organização e, tal como o Real, viverá e morrerá pelo caos de uma desorganização que se sustenta no talento individual e no perfil aproximado dos seus melhores (e tão bons que são!) jogadores. 

Queda no Voou pelo Abismo em Lageball

Vamos ser realistas. Esta época foi preparada para na próxima entrarmos directamente na Liga Europa. Sem conquistas, sem as dezenas de milhões da Champions, sem valorização de jogadores e com decréscimo do prestígio do clube. O objectivo passava por fazer valer o lema “Si enim non facile”.

A época começou sem que se corrigissem os erros da anterior, evidenciando-se ainda mais as lacunas dos anos anteriores.

Não nos enganemos. No primeiro fim-de-semana de 2019 estávamos arrumados. Já eliminados da Liga dos Campeões era muito difícil acreditar que fossemos capazes de eliminar o Galatasaray nos 16-avos da Liga Europa, que fossemos a Guimarães conseguir a qualificação para a meia-final da Taça de Portugal e muito menos que conseguíssemos voltar à luta pelo título.

Passados dois meses fomos ao Dragão virar um resultado e garantir os 3 pontos que nos colocam na liderança do campeonato. Isso estando já em vantagem na meia-final da Taça e a disputar os 8-avos da Liga Europa.

Um Benfica em cacos, onde as vozes se dividiam entre a necessidade de mandar embora o treinador e o receio de uma chicotada psicológica em Janeiro. Uma equipa sem treinador, cheia de dúvidas e com um presidente na casa da Cristina a jogar às cartas enquanto saudoso do anterior treinador apontava os seus esforços a José Mourinho.

E neste caos há por lá um treinador interino a fazer um trabalho provisório enquanto não se arranjava alguém melhor.

Neste caos surge um homem simples, um homem do futebol que respira futebol e que adora futebol. Chega, abstrai-se de todo o circo mediático criado pelo seu próprio presidente, ignora o fraco papel que lhe foi dado, e somente se preocupa em colocar os jogadores a treinar e a jogar futebol. 

Fá-lo sem o patrão da defesa – Jardel, sem o patrão do meio-campo – Fejsa e sem o melhor avançado e jogador da equipa – Jonas. Sem reforços de Inverno. Com metade dos reforços de Verão afastados. 
E rapidamente chegou ao coração dos Benfiquistas. Tudo porque fala sobre aquilo que treina e joga – Futebol.

Bruno Lage consolidou uma nova dupla no eixo-defensivo com Rúben e Ferro; Bruno Lage criou um novo duo do meio-campo revitalizando o Gabriel e limpando o pó ao Samaris; Bruno Lage recuperou a melhor posição do médio mais criador da equipa – Pizzi – retirando-lhe obrigações defensivas e colocando-o mais próximo tanto dos criativos da equipa como das zonas de definição; Bruno Lage percebeu o Rafa; Bruno Lage deu-nos uma nova dinâmica ofensiva retirando todo o potencial que por aqui já era reconhecido ao Seferovic e dando-nos finalmente o verdadeiro João Félix; Bruno Lage apresentou-nos o substituto natural do Fejsa – Florentino; Bruno Lage até nos mostrou que afinal até há uma alternativa ao André Almeida – Corchia.

É um novo Benfica. Um novo 11, uma nova táctica mas acima de tudo um novo futebol. Um treinador que adora o treino e percebe os jogos como um reflexo do que é treinado. Mais que um Benfica com uma ideia muito positiva de jogo, temos um Benfica com processos, com dinâmica, com um guião de jogo. Uma equipa que faz sentido. Temos uma identidade cada vez mais vincada.

Em Janeiro tínhamos a sensação que podíamos perder (ou empatar) qualquer jogo, fosse na Luz ou não, fosse contra equipas de que escalão fossem.

Hoje vivemos um sentimento oposto. Hoje sentimos que podemos vencer qualquer jogo em qualquer terreno. É uma crença muito emocional mas sustentada naquilo que vemos a equipa produzir. Os jogadores transmitem uma confiança tremenda. Não daquelas confianças frágeis induzidas por life coachings mas sim daquelas inquebráveis construídas pela percepção da qualidade do trabalho e do talento que têm.

O que temos pela frente?

Jogo em Alvalade para controlar e garantir mais uma final no Jamor contra o Porto.

Dois jogos com o Dinamo Zagreb para a Europa. Com Lage até já estamos a sonhar com mais uma final nesta competição.

E 10 jogos para o campeonato. 10 jogos. 10 vitórias. E eu acredito.

Belenenses (C)
Moreirense (F)
Tondela (C)
Feirense (F)
Setúbal (C)
Marítimo (C)
Braga (F)
Portimonense (C)
Rio Ave (F)
Santa Clara (C)

Uma época no lixo que pode muito bem se transformar numa época de dobradinha com brinde europeu.

Este é um dos grande méritos de Bruno Lage. Nós benfiquistas podemos novamente sonhar, viver entusiasmados. E nem sequer precisamos de ter preocupações em termos os pés nos chão. O nosso Treinador permite-nos essa extravagância pois ele próprio se encarrega de manter a equipa bem acordada enquanto nós adeptos vamos sonhando. 

Estivemos juntos ao abismo e muitos consideraram que despedir o treinador seria dar o passo em frente. E foi. 

Um passe vertical em frente a rasgar o abismo em Lageball.



segunda-feira, 4 de março de 2019

LAGENIAL



Os grandes treinadores são moldados em forja de múltiplas competências, como é sabido, mas só alguns possuem o verdadeiro toque de Midas. 
No clássico deste fim de semana assistimos a uma demonstração cabal da importância do treino e da comunicação no trabalho e nas ideias do novo treinador do Sport Lisboa e Benfica. Embora tenha sido este o ponto de partida para tudo o que as equipas de Lage fazem em campo, há momentos sem bola que nos ficam na retina. É de um desses momentos que faço a crónica agora.


Já li vários comentários por essas páginas fora, em várias plataformas diferentes, onde se vangloria o facto de Rafa e Lazarus Samaris terem vindo apressar as comemorações do primeiro golo porque queriam dar rapidamente a volta ao jogo. Mas isso não foi o que eu vi, e creio que tão pouco terá sido aquilo que aconteceu, objetivamente.


Bruno Lage é um eterno estudioso e profundo conhecedor do Jogo, em todas as suas vertentes. É claro que a idiossincrasia portista é sua conhecida: a violência, as agressões, a intimidação ou os célebres pisões, apregoados por Jorge Andrade, foram vistos e analisados pela cognição do nosso treinador ao longo de toda a sua vida. Lage sabe bem o que é o ambiente no Dragão, e sabe melhor ainda que não se deve espicaçar um ninho de vespas. Durante a semana, seguramente, foi passada uma informação importante a todos os jogadores do plantel: não provocar ninguém e ter sempre cuidado com os possíveis festejos; sobretudo, desvalorizar todas as provocações vindas do lado de lá, quer venham de jogadores, do banco ou dos adeptos azuis mais broncos. Todas estas pessoas são coniventes com uma história de enganos, e Lage sabe-o bem; uma história de domínio pelo ilegal, pelo ilícito, pelo compadrio e pelas trocas de favores. Uma história nojenta onde até estiveram metidas a política, a polícia e o sistema judicial locais, reforçando a ideia de que o FCP é o clube regional do compadrio; é o clube das reuniões em casas de putas, famosa parte da moeda de troca para as nomeações e os resultados do fim de semana seguinte. E é este o panorama que todos encontramos quando nos deslocamos ao Dragão; não se trata apenas dos onze arruaceiros em campo ou da equipa dos descolhoárbitros. Em cada dois espectadores, pelo menos um será vértice de violência, estupidez e intolerância, pronto a explodir a qualquer momento, formando rápida e instantaneamente uma rede de estupidez com o calhau mais próximo por cada coisa que menos lhes agrade. 

Esta é a estupidez que Lage sabe que pode atrapalhar o bem jogar. Pode atrapalhar a concentração dos jogadores, e sobretudo dos mais novos, que são muitos! (obrigado Lage). Felix celebrou daquela forma porque aquela é a sua celebração, como vimos, por exemplo, no jogo anterior, depois daquele maravilhoso golo a dois tempos e a dois pés. Não é nenhuma mensagem de provocação; não é nenhuma resposta a nada que a morcandade tenha dito durante a semana. É a celebração de um miúdo de 19 anos, tão somente. Mas Rafa tinha a lição bem estudada, tal como Lazarus Samaris. Vamos, puto, levanta-te porque aqui não estás bem. Vê-se bem, pela reação do Menino Feliz, que este conhecia as instruções, mas que se “esqueceu” por um momento. É normal. Depois chegou Samaris e tratou ainda de afastar o resto da malta daquela zona azulada. É mesmo assim que tem que ser, os mais velhos e mais experientes a tomarem conta dos mais novos.


Não tenhamos dúvidas que tudo isto foi parte da estratégia de Lage para o jogo no Dragão: entender muito bem o adversário em toda a sua idiossincrasia. A forma como abraça aquele calhau baixinho e careca, na altura das agressões dos jogadores do FCP, é maravilhosa; imagino-o a dizer então, então, isto é assim, já sabes, é futebol, não há muito a dizer. Concentremo-nos no jogo. Toma lá um abraço de fair play e diz-me agora onde é que fica o teu ódio e a tua provocação. Ainda consegues? Não? Ok, somos todos amigos, já percebeste que aqui não mora um calhau mas alguém bem formado, que acredita no sucesso do trabalho, do esforço e da dedicação. Mas, sobretudo, da inteligência.
Mesmo o próprio Conceição esteve relativamente controlado, pelo menos até ao momento em que achou que não deveria cumprimentar um miúdo que tem idade para ser filho dele, do alto da sua falta de carácter e desportivismo.


Este não foi apenas o clássico do Bem contra o Mal; em 2019, Lage deu lições de civismo e de inteligência pura, ao calar tanto ódio com uma postura exemplar. É também assim que se educa, mister, pelo exemplo. Obrigado.


sexta-feira, 1 de março de 2019

O Benfica é o BIG BANG



É-me estranho ler sobre o mundo anterior a 1904. As pessoas que existiram, os livros que escreveram, as brigas que tiveram, os quadros que pintaram, as músicas que inventaram, os dias sob o Sol de costas arqueadas, as cartas profundas que - a pena, a giz, a sangue - choraram, os amores que sentiram, as fomes, as tristezas, as guerras, os desvarios. Que espécie de humanidade era aquela, sem Benfica?

Quando Fernando Pessoa nasceu, os 3 oitos que lhe dão origem não são contemporâneos do Estádio da Luz. Como pode um homem escrever tamanha obra celestial sem ter provado as bifanas das barracas de madeira, ter abraçado desconhecidos sob a chuva, chorado desalmadamente uma derrota, envergado cachecóis e mantos sagrados, ter acalmado desamores na ternura do voo da águia, ter desistido de amigos por questões de paixão, ter vibrado e sonhado com golos do Benfica? Enquanto escrevia, numa alucinação de sentires e pesares, Pessoa nunca teve aquele conforto de alma de saber-se benfiquista.

Isto não está correcto, não pode ser verdade, há milagres escondidos na dimensão do mundo. Como Deus e outras patranhas similares, a invenção de que o Benfica nasceu em 1904 advém de uma necessária ilusão para que as notas toquem todas ao mesmo tempo e façam sentido. O Benfica não nasceu em 1904, o Benfica já existia muito antes de haver escritas e livros e pinturas e noções básicas de civilização. O Benfica nasceu no primeiro ser humano que surgiu na Terra. Quando um peixe, estafado de água e algas, se decidiu a caminhar, aos soluços, pela imensidão das veredas e coqueiros de uma ilha, meio grogue, já o Benfica o esperava nos areais da humanidade. Ainda não havia propriamente mundo nem humanos e já havia Benfica. O peixe criou patas, depois coluna vertebral, olhos e cabelos, noções de pele, medos, certezas, derivações de coragem, tudo isto enquanto o Benfica o alimentava de amor e daquilo que ele precisava para criar, não sem hesitações e despautérios, aquilo a que mais tarde se chamaria: o mundo.

Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil em 1808 (dois oitos, menos um que o do Pessoa), já D. João cantava loas ao benfiquismo, envergando no peito uma declaração de liberdade e independência: “Crio este país como forma de potenciar jogadores para uma realidade que, apesar de distante no tempo, criará grande discussão no seio do reino de Portugal e do Benfica”. Embarcado em fuga, D. João já inovava pela clarividência de raciocínio e premeditação, fomentando prospectores de talentos e novas abordagens aos mercados mundiais. D. João era naturalmente benfiquista, pleno de criatividade, astúcia e ilusão, alheado dos factores universais das valorizações de activos. Criou o Brasil só para potenciar Jorge Gomes e os demais que se lhe seguiram, como Mozer, Aldair, Ricardo Gomes e, os dois expoentes máximos da epopeia, Valdo Cândido de Oliveira Filho e Jonas Gonçalves - o golpe transcendental em D. Miguel e seus anafados absolutistas.

O que fez história e ficou na posteridade – admiremos Cosme Damião por isso – foi ter o nosso “fundador” encontrado, na Praia da Adraga, um notável manuscrito de D. João no qual este versava sobre a fundamental importância de criar em Portugal um clube que desse corpo à ideia universal de benfiquismo. Escusamo-nos a revelar todo o conteúdo do maravilhoso documento, chega-nos a ideia de que Cosme absorveu, criou e recriou à sua imagem – homem de dignidade admirável -, fazendo do Sport Lisboa e Benfica aquilo que ele é, apesar dos apesares, hoje. O que nunca ficou escrito, e é pena, é o facto de D. João, também ele, ter encontrado na praia cartas dos antepassados benfiquistas. Em resumo: uma sequência peculiar de descobrimentos de garrafas nas quais a História do Benfica é contada desde os tempos primeiros em que nem sequer havia giz, sangue, penas ou vidros. Um mistério que ainda está por ser descoberto, provavelmente advindo de relações internacionais com extraterrestres.

Festejemos, no entanto, o último dos humanos: o bigodudo Cosme Damião, o autor da proeza genial, e rara, de dar vida a um sentimento que percorre milénios de humanidade e existência. Naquela reunião na Farmácia Franco, Cosme nunca falou do Cosmos, limitou-se, bem, a inventar o Benfica. Agradeçamos, em devida vénia, respeito e amor, ao nosso ilustre bigodudo por isso. Não esquecendo, agora que conhecemos a verdade dos factos, que o Benfica nasceu do mar. E antes dos astros. O Benfica é o Big Bang.