sexta-feira, 12 de maio de 2017

Memória de um Inferno que desapareceu



É difícil explicar aos gloriosos mais novinhos o que é, o que era, o INFERNO DA LUZ. Impossível pintar com palavras aquele ambiente que começava dentro do coração de cada um dos 120.000 benfiquistas e, de repente, inundava todos os centímetros de betão da Catedral. O zumbido, o batuque, o sismo que fazia disparar todas as escalas de som, fúria e movimento.

As cores do Estádio pareciam cair do céu, uma chuva de vermelho e branco. Ondas tectónicas cresciam debaixo dos pés, vagas de bandeiras e cachecóis mergulhavam-nos num mar glorioso. Sentia-se o estalar do cimento, a compressão do ar. Cheiros de tochas, de fumos incandescentes, do cheiro da relva a pegar fogo.

Alguém no topo do Terceiro Anel começava a dança tribal: batia em compassos rápidos os pés no chão. Ao lado, a fila seguia a percussão. Alastrava-se a batida por toda a bancada. Descia o batuque para o Segundo Anel, para o Primeiro, para dentro do relvado. A onda levantava o campo, juntava-se ao som do coração dos jogadores. TUM-TUM, TUM-TUM, TUM-TUM. A bola abanava as costuras, quase explodia, queria golo do Benfica.

O Estádio da Luz era uma nave, uma caravela, um balão mágico. Era um sonho louco. Uma festa surrealista com placards e torres de iluminação a derreter como queijos amanteigados. O tempo dobrava-se naquele batuque: 240.000 pés como adufes divinos, como bateria mística, a última música do último dia do Universo.

O som era vermelho, o cheiro era branco, a vibração tinha a cor da Mística - que é a cor de todas as cores. Se um avião passasse por Lisboa, via lá em baixo um cogumelo cósmico às pintinhas vermelhas e brancas. Uma explosão nuclear de amor. Uma alucinação colectiva. O Deus Benfica transformando a sua alma etérea em corpo palpável. O Estádio da Luz, a nossa eterna Catedral, era o lugar em que todas as aparições eram possíveis.

É difícil explicar aos gloriosos mais novinhos o que é, o que era, o INFERNO DA LUZ. Peço só que amanhã não assobiem os nossos jogadores. Que passem o jogo todo a empurrar o Benfica para a vitória. Que batam com os pés no betão, que cantem a Mística, que sejam gloriosos. Que façam da Nova Catedral a ancestral dança primitiva do INFERNO DA LUZ.

5 comentários:

Antonio Jose Reis disse...

Estive lá muitas vezes ,era de arrepiar,passados todos estes anos digo-lhe que ao escrever estas palavras sinto-me arrepiado ao ver passar na minha mente um filme tantas vezes vivido ,não vou dizer que os Benfiquistas de hoje são diferentes ,não porque são Benfiquistas ,mas naquele tempo era diferente ver 110 ou 120 mil a gritar , a cantar o hino com o Piçarra era de tremer ,parecia que tudo vinha abaixo e quando o Benfica marcava golo ?nem tenho palavras para descrever tal loucura .
mas amanhã ,que se levantem todos os que por lá passaram e gritem BENFICA ,BENFICA ,BENFICA até ficarem roucos porque amanhã é o dia mais importante da História recente do Glorioso SLB.
Eu sou um dos que vai sofrer mais ,porque estou em casa sózinho ,a olhar para a BTV à espera dos golos que tanto demoram em aparecer (nem que sejam 2 minutos).
Força rapazes que os Deuses estejam convosco.
A.Reis

Rusty Ryan disse...

Ricardo, esquece, só quem viveu é que consegue perceber.
E, na geração dos nossos pais, ainda pior. Aqueles cotas viram e vivenciaram Benfica do mais puro misticismo. Muito diferente do que é hoje em dia...
E, curiosidade das curiosidades, a vida prega-nos destas partidas: nunca o Benfica esteve tão perto de conquistar o treta como agora!!!
São tempos tão diferentes, por muitas razões, mas com místicas quase que diferentes, com magia e alma completamente diferentes. Nunca terão comparação possível os 120 mil da altura com agora... Eles, mais do que ninguém, mereceram um tetra!
Saibamos passar aos gloriosos mais novinhos o que os nossos progenitores nos passaram e talvez essa magia e alma volte.
Amanha, o Benfica será treta. E eu vou festejar pelos meus avós, que muito me ensinaram, contaram e deram de beber do Benfica, do Eusébio, do Coluna, do Águas, do Rogério Pipi, do Alves, do Humberto Coelho e do Nené... de muitos e muitos... Tantos!!!
E vou festejar até mais não. Por mim, por nós e por todos os Benfiquistas.

Viva o Benfica!!! Vamos ao 36. Vamos ao tetra!!!

Carlos disse...

Foi tudo isso, e sei lá o que mais. Não é possível explicá-lo a quem não o viveu. Mesmo que fosse, nada se aproximaria do assombro e deslumbre que só esfomeados olhos, ouvidos e pés de criança conseguem saborear.

Que sorte tê-lo sentido através dos meus olhos, ouvidos e pés de criança. Que fortuna preservar essa memória. E que extraordinária homenagem é este texto.

F.L. disse...

Estive lá, anos e anos seguidos, sem falhar nunca. Com chuva, bancadas molhadas, com sol.
Mística era a vibração. Parecia que o estádio ia abaixo, literalmente.
Eram 120 mil. Era estar sentado nas escadas das bancadas. Aquela massa humana era um corpo só. Era um inferno.
Era um Benfica, que não volta mais.

Unknown disse...

As saudades que eu tenho de ouvir o som dos pés a bater no cimento, e sentir o estádio a tremer. Neste também lá vai, o pessoal tem é de insistir. Rumo ao Penta.