segunda-feira, 7 de maio de 2018

Um dia triste na vida do sportinguista Martim Telles Pereyra



O adepto sportinguista - chamemos-lhe Martim Telles Pereyra - estava feliz naquele Domingo: reunião familiar no Dia da Mãe, primalhada e irmãos, pais e tios, avôs, sobrinhos e netos todos juntos. Além disso, no dia anterior o seu Sporting havia vencido o Nacional por 2-0, garantindo o belíssimo terceiro lugar e ainda mantendo acesa a ligeira luzinha do segundo lugar. A acontecer, seria uma loucura, claro, e a confirmação de que com Bruno de Carvalho o Sporting estava mesmo de volta.

Entre idas furtivas à cozinha, assaltando doces, bolos, queijos, fumados, pães e demais iguarias que, em cima do bordado da avó Constança, apelavam ao mais animalesco dos sentidos - embora Martim comesse sempre, como lhe ensinaram em criança, de boca fechada e de mãozinha em concha em frente aos lábios -, na sala ia acompanhando com os primos as incidências do Vitória-Porto.

Um jogo bastante chato, tanto pelo futebol praticado como pelos nomes dos intervenientes. Martim gostava era de ver ou o Sporting - para vibrar com o Tanaka! - ou o Benfica - para insultar pela televisão o árbitro, demonstrando assim aos outros familiares que ele era mesmo anti-lampião. Dizia mesmo: «galinha» e usava, em vez do nome do clube, outro nome mais bem aceite entra as suas gentes: «Carnide». Adorava ver os olhos de aceitação do Tio Tó Vaz de Britto sempre que dizia «Carnide». As pessoas lá em casa até parecia que ficavam mais felizes, que se alegravam mais, que se tornavam mais simpáticas e acolhedoras sempre que Martim dizia «Carnide». Depois repetia muito, galhofeiro, que Martim, apesar da boa-educação que lhe deram, também sabe ser popular e dizer umas larachas mais ordinarecas.
O jogo é que de facto não valia grande coisa. Não dava para odiar o clube que estava a jogar; isso, parecendo que não, tirava bastante interesse à tarde desportiva. O Carnide, esse, tinha despachado o Gil Vicente em Barcelos por 5-0. Claro, com dois ou três penalties por assinalar contra as «galinhas do Carnide» e uma arbitragem que, ao nível do critério disciplinar, deixou muito a desejar.

Esta última frase Martim havia ouvido à prima Kikas Meirelles, uma vez em Alvalade. Martim gostou do tom daquilo: «ao nível do critério disciplinar deixou muito a desejar» e passou a usar ele próprio como se tivesse sido ele a inventar a frase. Depois adaptava, consoante os jogos. Nos do Carnide, deixava sempre, ao nível disciplinar, a desejar a favor do Carnide; nos do seu Sporting, ao nível disciplinar o Sporting ficava sempre a desejar que não o roubassem tanto. Era uma fórmula que tinha para explicar os empates e derrotas que via acontecerem ao seu clube e as consecutivas vitórias do outro clube rival, o das galinhas de Carnide.

A certa altura, há um jogador do Porto que com o braço ajeita a bola. Martim teve um instinto estranho: virou-se logo para outro lado e começou a falar com o primo Chico Menezes da Silveira, mas o primo Chico, que já estava bêbado, não tirava os olhos da televisão: «Isso não é nada, siga!». Martim teve curiosidade em rever o lance. Aproveitou a única repetição que a Sport TV mostrou do mesmo e, para dentro - para fora, não!, que ainda alguém lhe dava uma educada reprimenda! -, percebeu: foi penálti. Depois lembrou-se de que, apesar de não odiar o Porto, também não gostava lá muito que eles fossem beneficiados.

Passados uns minutos, já no intervalo do jogo, pensou ainda mais profundamente naquilo: aquele penálti beneficiava o Porto e prejudicava o Sporting. O que era estranho era o silêncio naquela casa sobre um lance que, se tivesse sido na área do Benfica, teria dado para ver rissóis de camarão contra os quadros da Maluda, as empadas e os croquetes atirados da janela para a Marginal, as garrafas de vinho teriam caído sobre os panos e as mantinhas da Vó Mimi e a gritaria teria sido insuportável sobre os ouvidos de Martim, que já por várias vezes teve de levar com os mais indecorosos insultos por não ser ele próprio insultuoso contra os de Carnide.
A mãe dizia-lhe sempre: «ó filho, quando for para insultar essa gente, não se acanhe, tire a barriguinha de misérias», mas Martim mantinha ainda a inocência daqueles que acham que as pessoas devem ser um bocadinho civilizadas, apesar de tudo e dos cortes de cabelo a que o obrigavam desde que havia nascido.

No final do jogo, na sala bateram-se algumas palmas pelo golo do Jackson. Martim não percebeu aquilo ou se calhar não quis perceber e foi para o computador escrever sobre o assunto no seu blogue - Martim é moderno e tem um blogue sobre o Sporting que abriu quando Bruno de Carvalho chegou ao poder. No mesmo, está sempre a fazer posts de apoio!, de incentivo!, a dar moral!, a dar força aos leões! Martim considera que a internet serve para apoiar os seus jogadores, técnicos e dirigentes e para dizer mal do Carnide.

Mas ontem Martim queria era dizer mal do penálti que ficou por marcar e desses dois pontos que podiam ter aproximado o seu Sporting do Porto. Já tinha até escrito uma piadola com «colinho» mas desta vez relacionado com os portistas e fazendo uma alusão a uma outra simbologia mais traseira que o Presidente do Sporting havia feito uns meses atrás. Nádegas, isto e aquilo, colinho para as nádegas. Uma coisa muito gira que infelizmente não pôde ser publicada porque o Pai do Martim apareceu e leu o que ali estava escrito. Levou uma bolachada certeira e ainda a promessa: «se voltas a defender os lampiões, nunca mais te levo a Alvalade!».

Martim compreendeu então que era de um clube cuja maioria de adeptos odiava mais outro clube do que amava o seu próprio. Ontem, Dia da Mãe, foi um dia triste para Martim Telles Pereyra.

2 comentários:

Lampião do Norte disse...

Vai ver os troféus ganhos este ano pelo teu clube que isso passa!!

chakra indigo disse...

É trocar o SCP pelo FCP e a coisa vai dar para o mesmo, embora os lá de cima são muito mais sabidos dos que estes aprendizes de feiticeiro.