No final da época passada fui dos que defendeu a não
renovação com Jorge Jesus. Podemos dizer que quem, como eu o fez, errou na sua
avaliação, atendendo apenas aos resultados finais desta época. Por outro lado,
encontraremos as razões para a não renovação na primeira metade desta época.
A época esteve longe de começar perfeita, bem pelo
contrário. A somar à derrota frente ao Marítimo, há os empates caseiros frente
aos recém-promovidos Belenenses e Arouca e a eliminação da Liga dos Campeões
com uma derrota humilhante em Paris e um empate caseiro comprometedor e sofrido
frente ao Olimpiakos.
Em boa verdade, a equipa chegou a Janeiro a jogar aos “repelões”
e ganhando sofrivelmente, quando não empatava ou perdia. E aqui está a razão
pela qual defendi a não continuidade do treinador. A equipa era a mesma, tendo
sido adicionados reforços, o treinador era o mesmo, os processos de trabalho
eram os mesmos, mas a qualidade de jogo estava longe, muito longe de se
aproximar da qualidade apresentada na época anterior. Animicamente a equipa
ainda vivia presa na época passada e foi sobrevivendo até Janeiro. Sim, teve
esse mérito de se aguentar sem cair de vez na sua fase mais difícil, mas também
é legítimo questionar se não teria caído caso a oposição fosse mais forte como
habitualmente.
Não obstante, em Janeiro foi dado um pontapé anímico na
equipa. Não sei se a morte do Rei teve alguma influência no processo, mas o
certo é que a partir do jogo com o FCP (primeiro jogo após o desaparecimento de
Eusébio) a equipa iniciou uma espiral positiva rumo ao sucesso, invertendo por
completo o momento vivido até aí.
A juntar a esta reviravolta anímica há ainda a mudança
táctica introduzida na equipa, por via da introdução de uma dupla atacante diferente.
E esta dupla atacante é a chave principal para uma ideia de jogo baseada mais
no ataque rápido e menos na avalanche ofensiva que nos desposicionava
defensivamente. Sendo assim também é legítimo perguntar se esta mudança que nos
conduz ao título ocorreria sempre ou se apenas ocorreu pelo imperativo da lesão
de Cardozo? Para mim é evidente que se o Paraguaio não tivesse recebido a
visita da infelicidade, dificilmente a dupla atacante seria a que foi durante a
segunda metade da época e que tantas alegrias nos ajudou a dar.
Para além da mudança no ataque há ainda uma mudança
chave: O guarda-redes. Mais uma vez, esta mudança acontece por via da lesão do
titular do lugar e não por opção directa do treinador. Ainda assim há a realçar
a continuidade dada a Oblak após a recuperação física de Artur. Mas há algo que
não nos poderemos esquecer: Esta mudança só foi possível pela lesão de Artur e
porque houve alguém que contrariou JJ e não deixou que o jovem esloveno fosse
dispensado no início de época, porque “o Oblak ainda não está preparado para a
baliza do Benfica”, como disse alguém.
Esta época revela ainda um Ruben Amorim a um nível nunca
antes visto actuando como… Médio. Se nos recordarmos bem, o internacional
Português passou época e meia fora do clube por não querer ser utilizado a
lateral direito como tanto JJ teimava. O facto é que se desentenderam por aí e
isso fez-nos perder um jogador que nos poderia ter sido muito útil e acabamos
por ver que talvez Ruben Amorim tivesse razões para querer ser médio no Benfica
e não lateral.
O que pretendo com isto? Simples, lançar alguns dados
de analise para que se forme a opinião sobre a continuidade ou não de Jorge
Jesus e/ou a sua renovação ou não.
Analisando a sua continuidade, e ao contrário do que
defendi na época passada, considero que faz sentido que continue, apesar de ter
sérias dúvidas sobre a sua capacidade para nos levar ao bi-campeonato. E quando
falo em capacidade não me refiro a competências técnicas e tácticas, refiro-me
a excesso de bazófia e de ego que nos podem levar a um novo 2º ano de JJ no
Benfica. Ainda assim, pelo que venceu este ano merece esse benefício da dúvida
continuando assim à frente dos destinos técnicos da equipa.
O que não concordo é com uma possível renovação. É compreensível
que JJ queira abraçar um outro projecto no exterior (Valencia ou AC Milan). Se
o quiser fazer, desde que garanta a compensação devida ao clube, não acho que o
Benfica lhe deva dificultar a vida, até por reconhecimento do seu trabalho ao
longo dos últimos 5 anos. Mas caso o treinador não queira sair, não vejo
nenhuma razão para a renovação. Há mais um ano de contrato e esta época não
mostrou nada que já não soubéssemos de JJ, ou seja, que o treinador é
competente e capaz de ganhar já todos o sabíamos, o que ainda não está
comprovada é a sua capacidade para ganhar consecutivamente e para isso
acontecer não precisa de prolongar o seu vínculo e muito menos ter as suas
principescas condições salariais revistas.
Quando se avança para a renovação do contrato de um
treinador não se pode faze-lo tendo em conta o último momento, mas sim todo o
processo. Ou seja, não concordo com uma renovação baseada nesta época, e
considero que os 5 anos como um todo não justificam uma renovação. Continuidade
sim, renovação não.